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quinta-feira, 2 de outubro de 2014

MEDITANDO COM ALAN WALLACE




“QUANDO SUA MENTE ESTÁ MAIS DESEQUILIBRADA É QUE VOCÊ MAIS PRECISA MEDITAR”: MEDITANDO COM ALAN WALLACE

 

 

Durante um retiro realizado em Viamão (RS) na segunda metade de janeiro deste ano, o professor budista americano Alan Wallace deu instruções preciosas sobre a prática da meditação shamatha, um dos tipos de meditação budista para o apaziguamento da mente (geralmente através da atenção na respiração), e parte dele foi traduzido e transcrito porJeanne Pilli, que esteve no retiro e mantém o site Equilibrando.Me – ela gentilmente permitiu a reprodução do trecho aqui. PhD em Estudos Religiosos na Stanford University (EUA), fundador da Santa Barbara Institute for Consciousness Studies (EUA) e autor de livros como “A Revolução da Atenção” e “Hidden Dimensions: The Unification of Physics and Consciousness”, Alan Wallace traz uma abordagem sempre muito clara e detalhada sobre o contato e o trabalho sobre a mente, e esse trecho transmite isso. Na essência da mensagem, a importância de meditar quando mais a mente precisa, ou seja, no desequilíbrio.
Segue abaixo o trecho das instruções, com agradecimentos ao professor Alan Wallace e à Jeanne Pilli.
//////////
“Para avaliarmos se estamos fazendo a prática de shamatha corretamente, há sempre duas coisas a serem consideradas: o que a sua mente está trazendo para você e o que você está trazendo para a sua mente. São duas coisas bem diferentes.
Algumas vezes durante a prática surgirão muitos pensamentos, não há como controlar, não há como escolher que isso seja diferente. Então você simplesmente repousa: muitos pensamentos vêm, muitos pensamentos vão. Você não está fazendo nada de errado; é assim que as coisas são. Mas se quando surgirem muitos pensamentos você for carregado por eles, aí sim: isso é distração, agitação.
Outras vezes, sua mente estará bem quieta, com poucos pensamentos. E isso também não quer dizer que você esteja fazendo a prática corretamente. Sua mente está simplesmente quieta. Neste caso, a mente está trazendo pouco pra você.
O que nós devemos trazer para a prática, seja lá como estiver a nossa mente, é a habilidade de não sermos carregados pelos pensamentos, de permitir que a nossa consciência permaneça em repouso, iluminando o nosso objeto de meditação, seja a respiração, seja o espaço da mente e eventos mentais, seja a própria consciência.
Portanto, é importante avaliar a sua prática em termos do que você está trazendo para a prática e não com base no que a mente está trazendo pra você.
Essa distinção é muito importante. Na nossa vida, alguns dias serão piores que outros. Haverá dias muito conturbados, com muito trabalho, muitas preocupações, dias ruins. A mente estará bastante irritada, toda a nossa energia estará perturbada. Pode ser que você se sente para praticar e dois minutos depois desista: “Esqueça! Hoje não vai dar pra meditar!” E então se levante, vá ver TV, ou vá para a internet. Isso é como estar muito doente e pensar: “Ah… estou tão doente! Estou muito doente pra tomar remédio! Vou deixar pra quando estiver me sentindo melhor!”
Nesses dias em que a sua mente estiver verdadeiramente uma confusão, você pode simplesmente se deitar na sua cama, com um travesseiro macio sob a sua cabeça e soltar completamente a tensão do corpo, a cada expiração, relaxar completamente, deixar o corpo respirar sem esforço, em seu ritmo natural. Relaxe até o finalzinho da expiração e nesse momento deixe a mente bem quieta, sem nenhum blá, blá, blá. E então permita que o ar entre novamente, sem puxá-lo, em total quietude.
Faça isso por 24 minutos. A mente que você trouxe para a prática pode estar completamente perturbada, atirando pensamentos, pedras, lama, tudo o que é tipo de coisa em você. Não há como controlar isso! É o que a mente está trazendo para você. Mas o que você está trazendo para a sua mente é tão doce, tão suave, tão tranquilizador, que após 24 minutos sua mente estará mais calma, quieta, equilibrada. E aí sim, no final da sessão avalie: esta foi uma boa sessão ou não? Talvez uma sessão difícil em termos do que a mente trouxe para você mas uma boa sessão em termos do que você trouxe para a mente.
É nos momentos em que a sua mente está mais desequilibrada que você mais precisa meditar.”
~ Alan Wallace, Retiro sobre os “Seis Bardos em A Essência Vajra”, Viamão, 23 de janeiro de 2014

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Entendimento Correto - O Lugar da Equanimidade

The Teachings of Ajahn Chah
Entendimento Correto - O Lugar da Equanimidade


"...O nosso descontentamento se deve ao entendimento incorreto. Porque não exercemos o autocontrole dos sentidos, colocamos a culpa pelo nosso sofrimento nas coisas externas…O lugar correto para os monges, o lugar da equanimidade, é justamente o próprio Entendimento Correto. Não deveríamos buscar nada além disso..."

A prática do Dhamma vai em sentido contrário aos nossos hábitos, a verdade vai contra os nossos desejos, por isso existe a dificuldade na prática. Algumas coisas que entendemos como erradas podem estar certas, enquanto que as coisas que tomamos como corretas podem estar erradas. Porque isso? Porque as nossas mentes estão no escuro, não vemos a Verdade com clareza. Nós, na realidade, não sabemos nada e dessa forma somos enganados pelas mentiras das pessoas. Elas apontam o que é certo como sendo errado e nós acreditamos e aquilo que é errado, elas dizem que é certo e nós acreditamos nisso. Essa é a razão porque ainda não somos senhores de nós mesmos. Os nossos humores nos enganam o tempo todo. Não deveríamos tomar essa mente e as suas opiniões como nosso guia, porque ela não conhece a verdade.

Algumas pessoas se recusam a ouvir o que outras têm para dizer, mas esse não é o caminho de uma pessoa provida de sabedoria. Uma pessoa sábia ouve tudo. Alguém que ouça o Dhamma deve ouvi-lo sim, quer goste ou não, e não acreditar cegamente ou desacreditar. Ela deve ficar em um ponto intermediário, no meio, e não ser descuidada. Ela ouve e depois reflete, proporcionando, assim, o surgimento de resultados corretos.

Uma pessoa sábia deve refletir e ver a causa e efeito por si mesma antes de acreditar naquilo que ela ouve. Mesmo que o mestre fale a verdade, não acredite, porque você ainda não conhece a verdade, por si mesmo.

É o mesmo para todos nós, incluindo a mim mesmo. Eu pratiquei antes de vocês, eu já vi muitas mentiras. Por exemplo, "Esta prática é realmente muito difícil, muito severa". Porque essa prática é difícil? É só porque pensamos da forma errada que nós temos o entendimento incorreto.

Antigamente eu vivia com outros monges, mas não me sentia bem. Eu escapei para as florestas e montanhas, fugindo da multidão, dos monges e noviços. Eu pensava que eles não eram como eu, eles não praticavam com a dedicação que eu praticava. Eles eram negligentes. Aquela pessoa era assim, esta pessoa era assim. Isso foi algo que realmente me causou uma grande comoção, foi a razão para a minha contínua fuga. Mas quer eu vivesse sozinho ou com outras pessoas eu ainda assim não tinha paz. Sozinho eu não estava satisfeito, em um grupo grande eu não estava satisfeito. Eu achava que esse descontentamento era devido aos meus companheiros, devido aos meus humores, devido ao lugar onde estava morando, a comida, o clima, devido a isso e aquilo. Eu estava constantemente buscando algo que satisfizesse a minha mente.

Como um monge dhutanga [25], eu viajava, mas as coisas ainda não estavam bem. Assim, eu refletia, "O que posso fazer para que tudo esteja bem? O que posso fazer?" Vivendo com muitas pessoas eu estava insatisfeito, com poucas pessoas eu estava insatisfeito. Por que razão? Eu simplesmente não conseguia ver. Porque eu estava insatisfeito? Porque eu tinha entendimento incorreto, só por isso; porque eu ainda estava apegado ao Dhamma errado. A qualquer lugar que eu fosse, eu estava descontente, pensando, "Aqui não está bem, ali não está bem…” t odo o tempo dessa forma. Eu punha a culpa nos outros. Eu punha a culpa no clima, calor e frio, eu punha a culpa em tudo! Tal como um cachorro louco. Ele morde tudo o que encontra, porque ele está louco. Quando a mente está assim, a nossa prática nunca se estabiliza. Hoje nos sentimos bem, amanhã mal. É assim o tempo todo. Nós não alcançamos contentamento ou paz.

O Buda certa vez viu um chacal, um cachorro selvagem, correndo pela floresta na qual ele estava. O chacal parou por alguns instantes e depois saiu correndo para dentro de um arbusto e em seguida saiu outra vez. Daí, ele correu para dentro de um tronco oco de uma árvore e depois saiu outra vez. Aí, ele foi para uma caverna, só para sair correndo outra vez. Num instante ele estava em pé, no seguinte ele correu, depois se deitou, depois ficou em pé…Aquele chacal tinha sarna. Quando estava em pé a sarna se entranhava na pele, por isso ele corria. Correndo ele ainda se sentia incomodado, por isso ele deitava. Então ele ficava em pé de novo, corria para os arbustos, o tronco oco, nunca ficando quieto.

O Buda disse, "Monges, vocês viram aquele chacal esta tarde? Em pé ele estava sofrendo, correndo ele estava sofrendo, sentado ele estava sofrendo, deitado ele estava sofrendo. No arbusto, no tronco oco ou na caverna ele estava sofrendo. Ele culpou o estar em pé pelo seu desconforto, ele culpou o estar sentado, ele culpou o correr e o deitar; ele culpou a árvore, o arbusto e a caverna. Na verdade o problema não estava em nenhuma dessas coisas. Aquele chacal tinha sarna. O problema era a sarna."

Nós monges somos iguais ao chacal. O nosso descontentamento se deve ao entendimento incorreto. Porque não praticamos a contenção dos sentidos colocamos a culpa pelo nosso sofrimento nas coisas exteriores. Quer vivamos em Wat Pah Pong, na América, ou em Londres, ainda assim nós não estamos satisfeitos. Ir viver em Bung Wai ou qualquer outro dos monastérios afiliados, assim mesmo não estamos satisfeitos. Porque não? Porque ainda temos o entendimento incorreto, apenas isso! Onde quer que estejamos não estaremos satisfeitos.

Mas igual ao chacal, se a sarna for curada, ele estará satisfeito onde quer que ele vá. Eu reflito sobre isto com freqüência e eu lhes ensino isto com freqüência, porque é muito importante. Se conhecermos a verdade dos nossos vários humores alcançaremos o contentamento. Quer esteja quente ou frio nós estaremos satisfeitos, com muitas pessoas ou poucas pessoas estaremos satisfeitos. O contentamento não depende de com quantas pessoas estejamos, ele surge somente do entendimento correto. Se tivermos o entendimento correto, então onde quer que estejamos estaremos satisfeitos.

Mas a maioria de nós possui entendimento incorreto. É como um verme! O lugar em que o verme vive é asqueroso, o seu alimento é asqueroso…mas eles satisfazem o verme. Se você tomar uma vara e empurrá-lo para longe do seu naco de estrume, ele irá se esforçar para rastejar de volta. É o mesmo quando o Ajaan nos ensina a ver corretamente. Nós resistimos, nos sentimos desconfortáveis. Corremos de volta para o nosso 'naco de estrume' porque é ali que nos sentimos em casa. Todos somos assim. Se não enxergarmos as conseqüências negativas de nosso entendimento incorreto, então não o abandonaremos, a prática é difícil. Assim deveríamos ouvir. Não existe nada além disso na prática.

Se tivermos o entendimento correto, para qualquer lugar que formos estaremos satisfeitos. Eu pratiquei e vi isso. Hoje em dia existem muitos monges, noviços e pessoas leigas que me procuram. Se eu ainda não soubesse, se ainda tivesse o entendimento incorreto, já estaria morto! O lugar correto para os monges, o lugar da equanimidade é justamente o entendimento correto. Não deveríamos procurar nada além disso.

Portanto, mesmo que você possa estar infeliz, isso não tem importância, essa infelicidade é incerta. Essa infelicidade é o seu "eu"? Existe nela qualquer substância? Ela é real? Eu não a vejo como real, de maneira nenhuma. A infelicidade é apenas uma sensação que aparece num instante e depois desaparece. A felicidade é igual. Existe consistência na felicidade? Ela é verdadeiramente uma entidade? É simplesmente uma sensação que relampeja de repente e desaparece. Pronto! Ela nasce e em seguida morre. O desejo relampeja por um momento e depois desaparece. Onde está a consistência no desejo, raiva ou ressentimento? Na verdade não existe uma entidade com substância, elas são apenas impressões que se espalham na mente e depois morrem. Elas nos enganam constantemente, não encontramos segurança em nenhum lugar. T al como disse o Buda, quando a infelicidade surge ela permanece por algum tempo, depois desaparece. Quando a infelicidade desaparece, a felicidade surge e permanece por algum tempo e depois morre. Quando a felicidade desaparece, a infelicidade surge outra vez…continuamente dessa forma.

No final, só podemos dizer isto - exceto pelo nascimento, vida e morte do sofrimento, não existe nada mais. Existe só isso. Mas nós que somos ignorantes, corremos e agarramos constantemente. Nunca vemos a verdade das coisas e que existe somente essa contínua mudança. Se entendermos isto, então não precisaremos pensar muito, e teremos muita sabedoria. Se não soubermos isso, então teremos mais pensamento que sabedoria - e talvez nenhuma sabedoria! Até que realmente enxerguemos as conseqüências danosas das nossas ações para que possamos abrir mão delas. Da mesma forma, somente quando virmos os benefícios reais da prática é que nós a seguiremos e começaremos a trabalhar para tornar a mente "boa".

Se cortarmos um tronco de árvore e o jogarmos num rio e ele não afundar ou apodrecer, nem ficar preso nas margens do rio, esse tronco irá com certeza chegar ao mar. A nossa prática é igual. Se você praticar de acordo com o caminho estabelecido pelo Buda, seguindo-o com rigor, você irá transcender duas coisas. Quais duas? Exatamente os dois extremos que o Buda disse não ser o caminho do verdadeiro meditador - entregar-se ao prazer e entregar-se à dor. Essas são as duas margens no rio. Uma das margens do rio é a raiva, a outra a cobiça. Ou você pode dizer que uma margem é a felicidade e a outra a infelicidade. O "tronco" é a mente. À medida que "fluir rio abaixo" ela irá experimentar a felicidade e a infelicidade. Se a mente não se apegar a essa felicidade ou infelicidade, chegará ao "oceano" de Nibbana. Você d eve ver que não existe nada além de felicidade e infelicidade surgindo e desaparecendo. Se você não "ficar preso" nessas coisas, então você estará no caminho de um verdadeiro meditador.

Esse é o ensinamento do Buda. Felicidade, infelicidade, cobiça e raiva simplesmente existem na Natureza de acordo com a invariável lei da natureza. A pessoa sábia não os segue ou estimula, ela não se apega a eles. Essa é a mente que não se entrega ao prazer e não se entrega à dor. É a prática correta. E como aquele tronco de madeira irá finalmente chegar ao oceano, assim também a mente que não se apega a esses dois extremos irá inevitavelmente alcançar a paz.



Notas:

25. Dhutanga propriamente quer dizer "asceta". Um monge Dhutanga é aquele que segue algumas das treze práticas ascéticas permitidas pelo Buda. Os monges Dhutanga tradicionalmente passam o seu tempo viajando (freqüentemente a pé) em busca de lugares calmos para meditação, outros mestres ou simplesmente como uma prática em si. [Retorna]

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Quem sou eu ?

Baghavan Sri Ramana Maharshi

Opensamento-eu é a fonte de todos os pensamentos.


A mente só vai se dissolver através da autoinvestigação "Quem sou eu?". O pensamento "Quem sou eu?" destruirá todos os outros pensamentos e depois destruirá a si mesmo também. Se outros pensamentos surgirem, devemos perguntar a quem esses pensamentos ocorrem, sem tentar completá-los. Que importa quantos pensamentos surgem? Na medida em que cada pensamento surgir, devemos estar vigilantes e perguntar para quem ele ocorre. A resposta será "para mim".
Se você perguntar "quem sou eu?", a mente então voltará à sua Fonte (de onde surgiu). O pensamento que surgiu também desaparecerá. À medida que você praticar dessa forma mais e mais, o poder da mente de permanecer em sua Fonte aumentará.
Alimentando-se com uma quantidade moderada de comida sãttvika (pura) - o que é superior a qualquer outra regra e regulação de autodisciplina - a qualidade sãttvika ou pura da mente crescerá e isso ajudará a autoinquirição.
Embora os apegos sensoriais, antigos e imemoriais, possam surgir sob forma de incontáveis vãsanãs (tendências mentais), assim como as ondas surgem no mar, todos eles serão destruídos na medida em que a meditação (dhyãna) avançar. Devemos nos agarrar sem cessar à meditação do Ser, sem duvidar da possibilidade de erradicar todas essas vãsanãs e de só o Ser permanecer. Por mais pecadora que uma pessoa possa ser, se ela parar de se lamentar "Ai de mim que sou um pecador! Como posso eu alcançar a libertação?" e, abandonando até mesmo o pensamento de que é pecadora, se dedicar zelosamente à autoinquirição, ela com certeza realizará o Ser (Atman).
Se o ego estiver presente, tudo o mais também existirá. Se estiver ausente, tudo o mais desaparecerá. Como o ego é tudo isso, investigar a sua natureza é a única forma de abandonar todo apego.
Controlando a fala e a respiração, e mergulhando fundo em nós mesmos, como alguém que mergulha na água para recuperar algo que nela caiu, devemos, por meio de um insighi aguçado, descobrir a fonte de onde surge o ego.
A investigação, que é o caminho da Sabedoria (Jñãna), não consiste em repetir verbalmente "eu, eu", mas em buscar, por meio de uma mente profundamente interiorizada, de onde o "eu" surge. Pensar "Eu não sou isso", "Eu sou aquilo" pode ajudar, mas não constitui a inquirição em si.
Quando questionamos dentro da nossa mente "Quem sou eu?" e chegamos ao Coração, o "eu" sucumbe e imediatamente outra entidade se revela proclamando "Eu-Eu". Muito embora ela também surja dizendo "eu", não se trata mais do ego, mas sim da Existência Única, perfeita.
Se investigarmos incessantemente a forma da mente, descobriremos que não existe algo chamado "mente". Este é o caminho direto aberto a todos.
A mente é constituída apenas de pensamentos, e para todos eles a base ou fonte é o pensamento-"eu". O "eu" é a mente. Se nos voltarmos para dentro perguntando pela Fonte do "eu", o "eu" sucumbe. Esta é a investigação da Sabedoria.
Onde o "eu" se dissolve, outra entidade emerge como "Eu-Eu" por conta própria: é o Ser Perfeito.
É inútil remover as dúvidas [uma a uma]. Se esclarecermos uma, outra surgirá e não haverá fim para elas. Todas as dúvidas cessarão apenas quando quem duvida e sua Fonte forem encontrados. Procure a Fonte do responsável pela dúvida e você descobrirá que ele na realidade não existe. Se o questionador cessar, as dúvidas também cessarão.
Como a Realidade é você mesmo, não há nada a realizar. Todos tomam o irreal por real. É preciso que você desista de tomar o irreal por real. A finalidade de toda meditação ou repetição de mantras (japa) é apenas isso - abrir mão de todos os pensamentos referentes ao não Eu; é desistir de todos os pensamentos e concentrar-se num só. O objetivo de toda prática (sãdhana) é fazer com que a mente fique unifocada, concentrando-a num só pensamento e assim excluindo os demais. Fazendo isso, no, final até mesmo esse pensamento único irá embora e a mente se extinguirá em sua fonte.

Quando inquirimos "Quem sou eu?", o "eu" investigado é o ego. Também é esse "eu" quem faz a autoinvestigação (vichãra). O Ser não tem inquirição. É o ego que faz a investigação. O "eu" sobre o qual a investigação é feita também é ego. Como resultado da investigação, o ego deixa de existir e descobrimos que somente o Eu Real existe.

Qual a melhor maneira de matar o ego? Para cada um o melhor caminho é aquele que parece mais fácil ou que tem maior apelo. Todos os caminhos são igualmente bons, na medida e que conduzem ao mesmo objetivo: dissolver o ego no Eu Real. O que o devoto (bhakta) chama de entrega, aquele que faz investigação (vichara) chama de Sabedoria (Jñãna). Ambos estão tentando levar o ego de volta à Fonte da qual ele surgiu e fazê-lo ser absorvido por ela.
Pedir que a mente mate a si mesma é como fazer do ladrão um policial. Ele irá com você e fingirá prender o ladrão, mas nada será ganho. Portanto, volte-se para dentro, veja de onde surge a mente e ela deixará de existir.
A respiração e a mente surgem da mesma fonte e quando uma delas é controlada, a outra também fica controlada. De fato, no método investigativo - no qual, aliás, a pergunta "De onde eu vim?" seria mais correta do que "Quem sou eu?" - não estamos simplesmente tentando eliminar, dizendo "não sou o corpo, nem os sentidos" e assim por diante, visando alcançar a realidade última, mas sim estamos procurando descobrir onde surge o pensamento-"eu" ou ego dentro de nós. O método contém em si - de forma implícita - a observação da respiração.
Quando observamos de onde o pensamento-eu surge, estamos observando também a fonte da respiração, já que tanto o pensamento-"eu" quanto a respiração provêm da mesma Fonte.
O controle da respiração pode servir como uma ajuda, mas por si mesmo nunca pode levar ao objetivo. Enquanto você o pratica mecanicamente, procure manter a mente alerta, lembrando do pensamento-eu e da busca pela sua Fonte. Então você descobrirá que o pensamento-eu surge do lugar no qual a respiração desaparece. Eles desaparecem e emergem juntos. O pensamento-"eu" também submergirá junto com a respiração. Simultaneamente, um outro "Eu-Eu" -luminoso e infinito - emergirá, e será constante e inquebrantável. Este é o objetivo, o qual recebe diferentes nomes: Deus, Eu Real, Kundalini , Shakti, Consciência, etc.
"Quem sou eu?" não é um mantra. Significa que você deve descobrir onde em você surge o pensamento-"eu", que é a fonte de todos os outros pensamentos. Mas se você achar que o caminho da investigação é difícil demais, continue a repetir "eu-eu", e isso o levará ao mesmo objetivo. Não há nenhum mal em usar o "eu" como um mantra. Trata-se do primeiro nome de Deus [Eu Sou].
Peço que veja onde o "eu" surge em seu corpo; mas realmente não é muito correto dizer que o "eu" surge e dissolve-se no Coração no lado direito do peito. O Coração é outro nome para a Realidade e não está nem dentro nem fora do corpo. Não pode haver nenhum dentro e fora para Ela, já que a Realidade apenas é. Por "Coração" não me refiro a nenhum órgão fisiológico, nenhum plexo de nervos ou qualquer coisa do gênero.
Mas enquanto a pessoa se identificar com o corpo e pensar ser o corpo, ela é aconselhada a ver no corpo onde o pensamento-"eu" surge e volta a se dissolver. Deve ser no Coração, no lado direito do peito. Todo homem de qualquer raça, língua ou religião, quando diz "eu", aponta para o lado direito do peito para referir-se a si mesmo. Isso é verdadeiro em todo o mundo.
Portanto, esse deve ser o lugar. E observando-se de forma perspicaz o constante surgimento do pensamento-"eu" no estado de vigília e de seu desaparecimento no sono, podemos ver que surge no Coração no lado direito.

Saiba primeiro quem você é. Isso não requer escrituras ou erudição. É simplesmente experiência. O estado de Ser está aqui e agora o tempo todo. Você perdeu contato consigo mesmo e está pedindo orientação aos outros. O propósito da espiritualidade é voltar a mente para dentro. Se você conhecer a si mesmo, nenhum mal poderá lhe acontecer. Como você me perguntou, eu estou lhe dizendo (verso do Kaivalya Navaneeta). O ego só surge agarrando-se a você (o Eu Real). Permaneça no Eu Real e o ego desaparecerá. Até este momento o sábio estará feliz dizendo: "Eis aí", e o ignorante perguntando: "Onde?". A regulação da vida, tal como levantar-se em uma hora determinada, tomar banho, praticar repetição de mantras, etc., tudo isso é para quem não se sente atraído pela auto investigação ou não é capaz de fazê-la. Mas para aqueles que podem praticar esse método, todas as regras e disciplinas são desnecessárias. Sem dúvida é dito em alguns livros que devemos cultivar uma virtude após outra e assim nos prepararmos para a Libertação (moksha); mas para os que seguem o caminho da Sabedoria ou da investigação (Jñãna ou vichãra), sua sãdhana é por si só suficiente para adquirir todas as qualidades divinas. Eles não precisam fazer mais nada.
O que é [o mantra] Gayatri? Na verdade, quer dizer "Deixe-me concentrar Naquele que tudo ilumina".







Fonte: Capítulo 4, intitulado "Quem Sou Eu" , do livro Pérolas de Bhagavan - do discípulo de Sri Ramana Maharshi, A. Devaraja Mudaliar. Esse texto encontra-se reunido no volume editado pela Editora Teosófica, "Pérolas de Sabedoria - Vida e Ensinamentos de Sri Ramana Maharshi".



quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Reconhecendo o Ser


Mooji, você poderia explicar a auto-inquirição? Como de fato eu começo?

Comece assim: "Eu sou" - Este é o reconhecimento e o conhecimento mais natural. O sentimento de existir é espontaneamente sentido em você como "eu sou". Ninguém lhe ensinou isto. Esteja consciente desta simples intuição sem associá-la a outros pensamentos. Sinta como é estar simplesmente presente, neste instante, sem se agarrar a qualquer intenção. Não toque em nenhum pensamento de estar fazendo algo especial. Mantenha-se interiormente quieto. Se, de repente, uma onda de pensamentos vier, não entre em pânico.

Não é preciso controlá-los ou suprimi-los - simplesmente deixe-os brincar sem o seu envolvimento.


Observe com desapego. Permaneça vazio de intenção.


Mantenha-se em silêncio.


Imagine que você está parado em uma plataforma na estação do trem. Um a um os trens vêm, param, as portas se abrem, as portas se fecham, eles continuam. Você não precisa entrar. Desta forma, apenas observe a atividade do pensamento aparecendo na tela da consciência sem se conectar a ela. Não se envolva. Você perceberá que os pensamentos e as sensações se movem por si sós, sem serem forçados. Permaneça neutro. Esteja com a Pura Consciência sendo a própria Pura Consciência. Sinta a respiração movendo-se sem esforço, sem nenhuma vontade ou dificuldade.


Observe os sentidos funcionando, o sentido de fora ou dentro, qualquer movimento simplesmente "acontecendo" por si só, sem planos ou esforço.


O que quer que surja como pensamento, sentimento, movimento ou sensação é silenciosamente observado, só que agora existe menos interesse, menos atração. Tudo está surgindo; o seu ser não é estimulado. Tudo isso é gentilmente observado. Agora, até mesmo o sentimento de ser - o sentimento "eu sou" - está dentro desta Pura Consciência. Não faça esforço maior do que é exigido. Você está aqui. Aquilo, que não está fazendo ou desfazendo, nem dirigindo a atividade, nem sendo afetado por ela, que está naturalmente consciente, embora sem interesse: isto é o seu verdadeiro Ser.


Não está atrás ou na frente, nem em cima nem embaixo - porque não é um fenômeno. É o Ser sem localidade, sem nascimento, sem limites.


Agora, observe o observador: "Quem sou eu?" Investigue internamente, mas se mantenha quieto com uma atenção alerta. Não deduza nenhuma resposta ou indício; uma resposta seria - e apenas poderia ser - uma opinião, uma ideia de outro conceito. Não se amarre a nenhum conceito. Retire a atenção dos objetos e direcione-a para o sujeito que vê. O que é e onde está o observador? Permaneça silencioso e neutro. A observação deve estar agora mais focada.


Agora, observe novamente o sentimento "eu sou". O que é "eu"? De onde ele surge? Observe. O que você encontra?



Não pode ser encontrado. Não existe.



Não pode ser encontrado objetivamente. No entanto, a intuição ou sentimento "eu" continua presente. É o fato de o "eu" não ser encontrado que prova sua existência não-objetiva. O "eu", ou "eu sou", é descoberto como sendo sem forma; uma intuição surgindo do vazio, no vazio, e como o vazio. Sem uma investigação focada, o "eu" parece ser uma entidade contida em um corpo e em uma mente condicionada. Quando se busca o "eu" como uma forma, descobre-se que ele é meramente um pensamento; a forma do "eu" é pensamento. Sem forma, o "eu" surge do vazio como a sensação intuitiva da "presença" subjetiva.


Agora, esse "eu" é percebido como sendo presença sem forma. O que reconhece isto? Isto possui uma forma?


Investigue assim.


Obrigado, Mooji.



Você é muito bem-vindo.






(extraído do livro: Antes do Eu Sou - Diálogos com Mooji - O Reconhecimento do Nosso Ser Original" - Ed. Qualitymark)







quarta-feira, 21 de julho de 2010

Consciência e consciência



(Nota do Editor: usa-se aqui o termo "Consciência" - com letra inicial maiúscula - quando se refere à presença onde não há sentido de " eu". Refere-se à consciência pura e impessoal. O estado original e eterno, além da percepção, do tempo e de qualquer identificação mundana. Usa-se a palavra "consciência" - em minúsculo - quando se refere à sensação de existir, ao sentimento "eu sou" identificado com um objeto, uma entidade, à consciência no nível da percepção manifestada do tempo e do espaço)



Pergunta: Que você faz quando está adormecido?

Maharaj: Tenho consciência de estar adormecido.

P: Não é o sono um estado de inconsciência?

M: Sim, tenho consciência de estar inconsciente.

P: E quando está desperto, ou sonhando?

M: Tenho consciência de estar desperto ou sonhando.

P: Não o entendo. O que quer dizer exatamente? Deixe-me esclarecer meus termos; por adormecido quero dizer inconsciente, por desperto quero dizer consciente, por sonhar quero dizer consciente da mente mas não das cercanias.

M: Bom, é quase o mesmo para mim. Ainda assim, parece que há alguma diferença. Em cada estado, você esquece os outros dois, enquanto que, para mim, apenas há um estado de ser, incluindo e transcendendo os três estados mentais de vigília, do dormir e do sonhar.

P: Você vê um rumo e um propósito no mundo?

M: O mundo não é senão um reflexo de minha imaginação. Posso ver o que quiser. Mas porque eu deveria inventar modelos de criação, evolução e destruição? Não os necessito. O mundo está em mim, o mundo sou eu mesmo. Não o temo e não desejo encerrá-lo em uma imagem mental.

P: Voltando ao dormir. Você sonha?

M: Certamente.

P: Que são os sonhos?

M: Ecos do estado de vigília.

P: E seu sono profundo?

M: A consciência do cérebro está suspensa.

P: Está, então, inconsciente?

M: Inconsciente de minhas cercanias, sim.

P: Não totalmente inconsciente?

M: Permaneço ciente de que estou inconsciente.

P: Você utiliza os termos "cônscio" e "consciente". Não são a mesma coisa?

M: A Consciência é primordial; é o estado original, sem princípio nem fim, sem causa, sem apoio, sem partes, sem mudança. A consciência está em contato, um reflexo contra uma superfície, um estado de dualidade. Não pode haver consciência sem a Consciência, mas pode haver Consciência sem a consciência, como no sono profundo. A Consciência é absoluta, a consciência é relativa a seu conteúdo; a consciência é sempre de alguma coisa. A consciência é parcial, a Consciência é total, imutável, tranqüila e silenciosa. E é a matriz comum de toda experiência.

P: Como se vai além da consciência, até a Consciência?

M: Já que a Consciência é a que faz possível o ser consciente, há Consciência em todo estado de consciência. Portanto, a própria consciência de ser consciente já é um movimento na Consciência. O interesse em sua corrente de consciência o levará à Consciência.
Não é um novo estado. Ele é imediatamente reconhecido como a existência básica, original, que é a própria vida, e também o amor e a alegria.

P: Já que a realidade está sempre conosco, em que consiste a auto-realização?

M: A realização é o oposto da ignorância. Tomar o mundo por real e ao próprio ser por irreal é ignorância, a causa da aflição. Conhecer o ser como a única realidade e todo o restante como temporal e transitório, é liberdade, paz e alegria. Tudo é muito simples. No lugar de ver as coisas como as imaginamos, aprenderá a vê-Ias como são. Quando puder ver as coisas como são, também você se verá como é. É como limpar um espelho. O mesmo espelho que lhe mostra como é o mundo também lhe mostrará sua própria face.
O pensamento "eu sou" é um pano de limpeza. Use-o.




(extraido do livro "EU SOU AQUILO - Conversações com Sri Nisargadatta Maharaj" - Editora Advaita)

domingo, 20 de junho de 2010

Não há "você"


P - Existem algumas áreas onde minha atenção fica presa, por exemplo no relacionamento com minha família.

Mooji - O que quer que envolva a sua atenção se torna a sua experiência. Existe certa comodidade em se envolver, e o resultado é que você se sente sendo "alguém".

P - Por que isso acontece?

Mooji - A atenção vai por causa do hábito. Eu acredito que todas as questões acerca da espiritualidade se resumem neste ponto. Algo do passado atrai sua atenção e isso leva a um estado de agitação; então, você faz algum esforço para manipular a agitação ou suprimi-la, a fim de mudá-la.

P - Quando se vê que é o passado se manifestando, pode-se simplesmente deixa-lo ir?

Mooji - Isto parece uma pergunta muito boa. Se eu seguir pela linha desta pergunta em particular, estarei cooperando com uma ideia que não é verdadeira, a ideia de que há um "você" que vive a sua vida. Se você pensa que é um “alguém" agindo a partir do seu passado, você está reforçando esta identidade errônea.

Descubra quem é este que vê as coisas dessa maneira. Quem é que está agindo e reagindo? Existe realmente um "eu" que tem esse condicionamento?

Não questione meramente para se livrar do condicionamento ou do desconforto, mas para ver realmente se é isso que você é. Veja aquilo que não tem familia, não é uma mulher ou um homem, e não tem passado. Vá além de todas as associações até que você permaneça sozinho, sem você.
O problema não é o papel em si, mas a crença nele.

P - Sim. Mas ... Por exemplo, em minha família, eles me veem como uma
pessoa.

Mooji - Você não tem controle sobre o que os outros pensam e fazem. Você apenas criará um fardo tentando consertar isso. Apenas seja honesto e verdadeiro no momento.
Veja: o “eu” tem algumas associações do passado, projeções para o futuro, um papel ou comportamento, e por causa da crença no papel a consciência é mantida prisioneira em uma certa identidade.

Quem é "eu"e precisamente onde está o "eu" agora mesmo? Posso eu ser alguma coisa? O que seria isso? Tais questionamentos guiam a consciência de volta para a vacuidade, sua fonte.

O Satsang apresenta a oportunidade de reconhecer o seu Ser diretamente, de descobrir aquilo que é atemporal e imutavelmente presente.

P - Por que esquecemos nossa natureza?

Mooji - Aquilo que nós realmente somos não se esquece. Aquilo não é capaz de lembrar ou esquecer.

***

P - Eu fiz um movimento errado.

Mooji - Eu não conheço nada como "um movimento errado". Tudo é simplesmente perfeito! Essa ideia o está mantenda prisioneiro, e ela é uma completa construção da sua mente!

Pare de pensar que você produz a você mesmo. Na verdade não existe nenhum você de fato, nada ali em absoluto, a não ser enquanto conceito. O observador disso é a realidade única que nós somos.
A mente percebe o vazio como ausência de atividade, impotência, não-existência pessoal; e não percebe que o vazio é pureza, paz e completa satisfação de ser. Isso já é assim mesmo agora. Mesmo agora, que você apresenta estas questões. Aquele que fala é aquele que ouve.
Existe uma fase nesta investigação que pode parecer um pouco paranóica, quando mesmo a mais sutil das sensações é investigada.
Gradualmente, esse tipo de entusiasmo se dissolve e apenas a investigação permanece, sem um inquiridor. Quem está investigando? Ninguém está investigando.
Isso não pode ser compreendido racionalmente. Na verdade, isso não pode ser explicado e você não pode encontrar a você mesmo, porque você nunca esteve separado.
Paradoxo e charadas existem apenas para a mente. Você é aquilo que contém todos os paradoxos.

***

P - Você me disse: "não olhe com a mente, olhe com o coração". Eu não sei como olhar com o coração.


Mooji - Quem é este "eu" que diz: "eu não sei como olhar com o coração?"
Esqueça de tudo o que você ouviu ou leu. Esqueça de tudo isso. Eu não presumo que exista algum "você" que compreenderá e se lembrará disso.
É como um novelo de lã que se emaranhou e cada vez que vem aqui ao Satsang se sente: "ah,como foi que eu me tornei emaranhado desta forma?"
Uma explicação parece ser dada a isso, mas a explicação é apenas outra forma de lançá-lo contra a parede, e ele se desemaranha sozinho. O novelo não pode receber o conselho de como desenredar-se. O que deve acontecer é que aquele eu, enquanto Silêncio em si, receba o conselho (5), e ele então corre até que é desemaranhado - mas ele próprio não é capaz de por em pratica esse conselho!
Isso deve ser bastante libertador para você. Você não tem que fazer nada em absoluto. Estes diálogos são um tipo de brincadeira; não é realmente o que está acontecendo. O cozimento de certa forma está acontecendo por baixo. O que quer que precise acontecer está acontecendo por si só. Apenas olhe.

P - A única coisa que eu posso descrever é aquilo que eu posso ver. Portanto, o que eu posso ver está acontecendo comigo.


Mooji - O que está consciente deste acontecimento?
Cada vez que você segue essa pergunta é como um espelho, refletindo você olhando para esta atividade e o próprio espelho. Quão próximo está esse reflexo? Por mais perto que seja, o reflexo nunca se tornará você, porque você está vendo o reflexo.
Tudo é somente agora. A sua existência é somente agora. Apenas o Agora atemporal. Todo o resto é um sonho devido ao condicionamento e à memória.


Memória de quem? De ninguem. É um misterio! Um mistério não pode ser decifrado.

"Para quem é o misterio?" É a pergunta mais importante. Descubra.



(5) NT: "Receba o conselho" ou, em outras palavras, "aceite o conselho" ou "dê espaço a este conselho".



Extraído do livro "Antes do Eu Sou - Diálogos com Mooji - O Reconhecimento direto do nosso Ser original" - Ed. Qualitymark.

***

Assista a um trecho do Satsang de Mooji no Brasil (com tradução para o português):








quarta-feira, 16 de junho de 2010

Com um mestre Zen




MONDO COM O MESTRE ZEN MORIYAMA ROSHI

No budismo Zen, o mondo é um diálogo entre mestre e discípulo, destinado a transformar os processos habituais de pensamento e conceituação em intuição direta da natureza da mente.

Esta sessão de mondo aconteceu sábado, 12 de fevereiro de 2005, no encerramento da semana de retiro (seshin) de carnaval do Via Zen, no centro de retiros do CEBB do Caminho do Meio, Viamão, RS.

Na sala de meditação, depois de recitar os versos dos Tres Refugios, o Mestre Zen Daigyo Moriyama respondeu dezessete perguntas de seus discípulos.



Pergunta - O "Sutra do Coração" diz que o Bodisatva Avalokitesvara, praticando profundamente O Prajna Paramita, viu o vazio de todas as coisas. O que é praticar profundamente Prajna Paramita?

Moriyama Roshi - (longo silencio) Prajna Paramita é a prática da iluminação e Prajna Paramita é a iluminação. Logo, a prática de Prajna Paramita é o objetivo do budismo e o caminho para alcançá-la é a pratica do zazen (meditação).

P - Como e quando foi sua primeira experiência profunda do Darma através do zazen?

MR - Minha primeira experiência com o zazen foi na época da faculdade. Como para qualquer principiante, zazen era só dor. Dor na perna, no joelho, no cotovelo,nos ombros, nas costas, em tudo. Quando encontrei meu mestre, minha pratica mudou completamente e com ele encontrei o espirito do Darma.

P - O senhor começou a apreciar o zazen antes ou depois de atingir estabilidade mental durante a pratica?

MR - Para mim o zazen começou a ser prazeroso depois de três anos de pratica. Antes disso não conseguia me concentrar direito.

P - Por que o mestre que conheceu muitos lugares do mundo escolheu ficar no Brasil e como veio parar no Rio Grande do Sul?

MR-Por causa do convite de um discípulo de mente buscadora do caminho, com grande energia de pratica. Quando vim para o Brasil, fui ser abade do templo Bushinji, em Sao Paulo. Minhas duas tarefas eram reconstruir o templo e ensinar meditação aos brasileiros. Naquela época uma integrante da diretoria do Via Zen visitou Bushinji e me convidou para conhecer um grupo de meditação em Porto Alegre, no Rio Grande do SuI. Eu estava muito ocupado na reconstrução do templo, não estava trabalhando como um mestre Zen. Então eu disse: "O que? Rio Grande do SuI? Porto Alegre? Nunca ouvi falar. Não tenho tempo para visitar Porto Alegre. " Naqueles três anos, trabalhando na reconstrução, viajei ao Japão vinte vezes a fim de pedir doações para o templo. Estava completamente exausto e só pensava no trabalho de reconstrução do templo. Porem, ela insistiu, insistiu, insistiu e finalmente eu lhe disse: "Estou ocupado. Por que você não volta para Porto Alegre?' - Mas ela insistiu outra vez: "Por favor, venha nos visitar em Porto Alegre". Respondi: ''Não.'' De repente me veio um sentimento muito forte. Muitas pessoas que estão realmente buscando o caminho vivem em Porto Alegre, pensei.
Naquele momento minha mente mudou. Refleti novamente: essa é minha missão, preciso ir. E disse, "Ok, eu vou. Mas, como não sei falar português, mandarei primeiro minha assistente, a monja francesa Joshin Sensei, que fala e entende português, no meu lugar. O primeiro passo será a visita dela em vez da minha. E na segunda vez, como havia combinado, fui junto com minha assistente. Assim aconteceu minha primeira visita a Porto Alegre.

P - Sua pratica meditativa ficou mais intensa depois de encontrar seu mestre? Gostaria que falasse a esse respeito, porque ouvi certa vez que o discípulo não escolhe o mestre, mas o mestre encontra o discípulo. Como isso funciona?

MR- Não se pode dizer que um encontra o outro , a energia, de onde brota o espirito do Darma, vem tanto do mestre quanto do discípulo.

P – Quer dizer que sem um mestre não podemos ir longe no caminho do Darma?

MR- Não, não acredito que seja assim, mas na nossa tradição Zen japonesa a transmissão do Darma se dá de mestre para discípulo. Outras correntes budistas procedem de maneira diferente. Porém, para o Zen, esse vínculo entre mestre e discípulo é muito importante.

P - Poderia falar sobre seu processo de iluminação e sobre as pessoas iluminadas que conheceu?

MR- Quanto ao primeiro tópico, aconteceu no final de um dia de seshin intenso com meu mestre. Expliquei minha. experiência e ela foi aceita como genuína. O mesmo aconteceu com o mestre Dogen, quando ele esteve na China e encontrou mestre Tendo Nyojô Zenji. Certo dia de pratica, Dogen teve uma experiência e descreveu-a ao seu mestre como Shin Jin Datsu Raku, que em japonês significa "abandonar corpo e mente" e Tendo Nyojô aceitou-a como genuína. O que eu quero dizer com esses dois relatos é que, em nossa tradição Zen japonesa, não cabe ao discípulo se julgar iluminado. Apenas o seu mestre pode certificar isto. Por exemplo, um ano antes daquela minha experiência, meditando profundamente, vi aparecerem flores bonitas e misteriosas na parede para a qual eu estava virado. Pensei que aquilo era a iluminação e fui ao quarto de meu mestre.
"Mestre, mestre, alcancei a iluminação !"
Ele disse: "Fale-me sobre ela." Expliquei minha visão e que sentira uma energia muito poderosa e misteriosa. Meu mestre disse: "Isso não é atingir a iluminação". Curioso, perguntei: "Então, o que é?" E ele gritou: "Ilusão ! Engano ! Devaneio ! Você precisa de mais meditação!" Fiquei com muita vergonha. Quanto às pessoas iluminadas que conheci, são alguns mestres Zen que viveram no Japão - meus dois mestres do Darma e mais uns dois ou três que já faleceram. É uma pena, pois todos os, grandes mestres japoneses já morreram.

P - Quais foram as mudanças em sua vida após esta experiência? Depois dela, sua meditação ainda sofre interferência de pensamentos?

MR - As mudanças ocorreram no âmbito espiritual e não no físico. Falando de uma maneira genérica, encontrei o sentido da vida e descobri minha missão; que é ensinar O Darma aos meus discípulos e dar a transmissão aqueles que seguirem O caminho monástico. Com relação à segunda questão, os pensamentos não mais perturbam a minha meditação.

P - Costuma-se dizer que Deus esta onde você O deixa entrar. Evocar Deus só e valido para a religião católica ou e também para outras religiões, como o próprio budismo?

MR - Antes de responder esta pergunta é preciso, definir claramente a que nos referimos, pois os conceitos de Deus variam conforme a religião - cristianismo, judaísmo, religiões primitivas, o próprio budismo, etc. Por exemplo, em alguns textos budistas encontram-se as palavras "Deus" e deidade", mas elas não correspondem à noção católica de divindade e sim à hinduísta. Podemos ver outro exemplo nas estátuas que enfeitam este altar. Elas representam deidades que são frutos da fusão da cultura xamânica que existia no Tibete com a budista. Porém mesmo que as noções católica e budista de Deus sejam completamente diferentes, um dos ideais de Buda é aceitar outras formas de ver essa questão. Digo isso porque alguns religiosos consideram sua religião superior às outras e porque espero que vocês, como budistas, desenvolvam uma mente aberta e não tenham um pensamento estreito. O fato de confiar somente nos ensinamentos do Buda não nos impede de aceitar outras expressões religiosas. Discutir sobre a melhor religião equivale a dizer a quem goste mais de maçãs do que de bananas: "Como você é estúpido, banana e muito melhor do que maçã!.”

P - No Budismo Tibetano, assim como em outras religiões, trabalha-se com a idéia de reencarnação que é muito confortadora. Porém, quando leio o comentário do Sutra do Coração feito por Thich Nhat Hanh, entendo que o autor nos fala da vida após a morte de uma forma diferente, como um desdobramento de nossa energia vital em outras formas de vida - as plantas, por exemplo , a menos que atinjamos o nirvana. Gostaria de saber se estou compreendendo bem o texto do Thich Nhat Hanh e, também, qual a posição da Soto Zen quanto a essa questão, pois sei que o autor pertence a outra linhagem. Tenho esta duvida porque o senhor, numa cerimonia que fez após o falecimento do meu pai, disse que havia vida após a morte, mas sem mencionar 'reencarnação' em outro corpo humano.

MR- O ponto mais importante do budismo é a realidade da vida aqui e agora, o que você era antes do nascimento e o que será após a morte não tem importância neste momento (longa pausa). O momento mais importante para você esta aqui, agora. Depois da morte e antes do nascimento são apenas idéias abstratas, você não precisa delas. Este é o ensinamento do Buda.

P - Pode-se dizer que o budismo Zen conservou os ensinamentos do Buda em sua forma mais pura?

MR- Essa questão de uma linhagem de ensinamentos ser mais pura e genuína é muito genérica e difícil de se verificar no âmbito espiritual. Portanto, eu só posso falar de minha experiência pessoal. Quando conheci meu mestre, tive uma forte intuição espiritual: 'Ah, esses ensinamentos, tanto os de Dogen quanta os de Shakiamuni, são puros, fortes, diretos": E é nisso que acredito. Nesse sentido, não posso dizer que outros caminhos não são puros, fortes e diretos. Para mim, o caminho é o Zen. Para outras pessoas, pode ser outro caminho.

P-Os apegos, incluindo o apego à vida, desaparecem depois da experiência da iluminação? O senhor ainda conserva algum apego (risos)?

MR - A resposta da primeira questão é sim, eles desaparecem. E isso não vale só para mim. Se alguém encontra o sentido da vida - que é o ensinamento espiritual mais valioso - todo o resto perde o sentido. "Perder o sentido" significa perder importância, desapegar-se. Sobre a segunda pergunta, é importante saber que o apego presente em nossa mente possui dois lados, um positivo e outro negativo. Mas o apego em si não é negativo. Podemos, portanto, transformá-lo em energia de esforço, que é o que acontece, por exemplo, com o desejo. Assim como vocês, eu tenho desejos. No entanto, eu consigo canalizar para o Darma a energia que surge dos desejos. É o que acontece com a minha energia vital, eu a coloco integralmente na prática Zen.

P - Tive uma experiência extra-corpórea extremamente marcante que, justamente, me fez procurar o Zen e na qual não posso deixar de acreditar. Creio que ela foi importante e válida. Seria necessário, ou mesmo possível, desapegar-me dela?

MR - Como já expliquei, o ensinamento Zen sabre o desapego - o "cortar fora", o "abandonar" - diz respeito às energias negativas da experiência, porque as energias negativas sempre perturbam a busca pelo caminho. Isso significa que, se abandonar as energias negativas das experiências ou das idéias, você gerará mais energias positivas.

P - Como para outros seres vivos, alimentação, sono e sexo são necessidades primordiais para nós, humanos. Como uma pessoa que escolheu o caminho espiritual pode lidar com a energia sexual? Como os monges que optam pelo celibato lidam com essa energia?

MR-Este é um ponto que eu sempre enfatizo: se você encontra o verdadeiro sentido de sua vida, a energia sexual - bem como a da fome e a do sono - pode ser facilmente dirigida. Se não o encontra, essa energia pode perturbá-lo. No budismo não se diz que dormir, comer ou manter atividade sexual é ruim, a não ser quando se perde o controle sobre essas coisas. Você poderá utiliza-las de maneira positiva se encontrar o sentido de sua vida, canalizando a energia dessas atividades para seu bem-estar como ser humano.

P - Mestre Dogen, em um de seus textos, diz que o universo inteiro nas dez direções é o verdadeiro corpo do homem. Como se explica isso?

MR- Creio que Dogen quis nos dizer que cada coisa existente no universo inteiro é a verdade em si mesma e que todos os fenômenos a expressam.

P - O que significa deixar cair corpo e mente?

MR - Boa pergunta. Mestre Dogen sempre usava expressões poéticas e não racionais para expressar suas experiências espirituais de meditação profunda. Shirijin significa literalmente "corpo-e-mente" ou também "desejo" - representa a nossa dimensão não iluminada; datsu raku significa "libertação". Quando encontro a verdade; esse desejo é modificado completamente: meu corpo-e-mente se transforma no Darma. Isso e o que Dogen quis dizer com "deixar cair" corpo e mente.

P - No Shinjinmei está escrito: buscar a mente com a mente dual é o maior de todos os erros. Assim, com qual mente devemos buscar a mente búdica?

MR-Oh! Que perguntas difíceis! Com qual mente? Não use a mente (risos).
É a mente humana que cria os conceitos de mente búdica e mente dual. Na natureza essas distinções não existem. Isso está relacionado a algo sobre o que sempre falo: a relação tempo-espaço. Um dia, para nós, humanos, é percebido como 24 horas. No entanto, na natureza não há 24 horas, existe apenas o sol nascendo e o sol se pondo. Os seres humanos é que criaram essa numeração. Se vocês se aprofundarem na meditação, o tempo pode até voltar (risos). Num nível mais profundo, não mais verão números gravados em seus relógios - há apenas ponteiros que se movem. Mais profundamente ainda, nem os ponteiros são necessários, pois o tempo desaparece. Como é relaxante saber que não existe o tempo.

P - Ontem eu virei a noite em meditação. A estranha sensação que tenho agora é de que não preciso mais dormir, só descansar. O senhor ainda dorme (risos)?

MR – O Buda disse que isso é o despertar, parabéns (muitos risos) ! Você não precisa mais dormir ! Você é realmente "O desperto”(mais risos). Vamos fazer uma festa para comemorar. Vou fazer um Curry que o manterá desperto, pois ele é bem picante.



A sessão terminou com uma nova recitação dos versos dos Tres Refúgios.


*Moriyama Roshi é diretor espiritual da Associação Zen Budista de Porto Alegre.




(Extraído da Revista Bodisatva - Revista de Pensamento Budista - Outono/2005 )


segunda-feira, 3 de maio de 2010

O conhecimento “eu sou” deve retornar à sua própria fonte



(08/11/1980)


Pergunta: Por que é que nós naturalmente parecemos pensar em nós mesmos como indivíduos separados?

Maharaj: Seus pensamentos sobre individualidade não são realmente seus próprios pensamentos; são todos pensamentos coletivos. Você pensa que você é a pessoa que tem os pensamentos; mas de fato os pensamentos surgem dentro da consciência. Conforme nosso conhecimento espiritual cresce, nossa identificação com um corpo-mente individual diminui, e nossa consciência expande-se na consciência universal. A força da vida continua a atuar, mas seus pensamentos e ações já não são limitados à um indivíduo. Transformam-se na manifestação total. É como a ação do vento - o vento não sopra para nenhum indivíduo em particular, mas para a manifestação total.

Q: Como um indivíduo é possível retornar à fonte?

M: Não como um indivíduo; o conhecimento “eu sou” deve retornar à sua própria fonte. Agora, a consciência identificou-se com uma forma. Mais tarde, ela compreende que não é essa forma e segue adiante. Em alguns casos pode alcançar o espaço, e muito frequentemente, pára ali. Em muito poucos casos alcança sua fonte real, além de todo condicionamento.
É difícil abandonar essa inclinação de identificar o corpo como sendo o 'Ser' (Self). Eu não estou falando com um indivíduo, estou falando para a consciência. É a consciência que deve procurar sua fonte. Desse estado de não-ser surge o sentido de existência. Vem tão quietamente quanto o crepúsculo, com apenas uma sensação de “eu sou” e então de repente o espaço está lá. No espaço, o movimento começa com o ar, o fogo, a água, e a terra. Todos estes cinco elementos são justamente você. De sua consciência tudo isto aconteceu. Não há nenhum indivíduo. Há somente você, o funcionamento total é você, a consciência é você. Você é a consciência, todos os títulos dos deuses são os seus nomes, mas identificando ao corpo você se entrega ao tempo e a morte -você está impondo isso a você mesmo. Eu sou o universo total. Quando eu sou o universo total não tenho necessidade de nada porque eu sou todas as coisas. Mas abarrotei eu mesmo em uma coisa pequena, um corpo; fiz de mim um fragmento e tornei-me carente de coisas. Eu preciso de tantas coisas sendo um corpo. Na ausência de um corpo, você existe, quando não tinha um corpo você existia? Você estava lá ou não? Alcance esse estado que é e era anterior ao corpo. Sua natureza verdadeira está aberta e livre, mas você a encobre, você dá-lhe vários desenhos.



Fonte:


Extraído de:

sábado, 24 de abril de 2010

Reconheça o falso como falso

Sri Nisargadatta Maharaj


"Um grupo de três pessoas estava visitado Maharaj pela primeira vez. Embora padecendo na cama e extremamente fraco, Maharaj lhes perguntou se havia alguma pergunta a fazer. Eles conversaram entre si e decidiram fazer apenas uma pergunta: “Maharaj, todos nós fizemos certa Sadhana por algum tempo, mas o progresso não parece o adequado. O que devemos fazer?” Maharaj disse que o propósito de qualquer esforço é obter algo, algum benefício que não se possui. O que é isto que tentam atingir? A resposta foi rápida e positiva: Nós queremos ser como você – iluminados.

Maharaj riu e se empertigou na cama. Quando estava mais confortável com dois travesseiros para apoiar suas costas, ele continuou: É nisto que a idéia errada está enraizada; em pensar que vocês são entidades que devem alcançar algo para que possam se tornar como a entidade que vocês pensam que eu sou! Este é o pensamento que constitui a ‘escravidão’, a identificação com uma entidade – e nada, absolutamente nada, exceto a desidentificação causará a ‘liberação’.
Como eu disse, vocês vêem a si mesmos e a mim como entidades, entidades separadas; eu vejo vocês exatamente como me vejo. Vocês são o que Eu sou, mas vocês se identificaram com o que pensam ser – um objeto – e buscam a liberação para este objeto. Não é uma enorme piada? Poderia algum objeto ter existência independente e vontade de agir? Poderia um objeto estar escravizado? E liberado?

O interlocutor juntou suas mãos em Namaskar e, muito respeitosamente, sugeriu que o que Maharaj tinha dito não poderia talvez ser questionado como um ideal teórico, mas que, certamente, disse ele, ainda que as pessoas possam ser entidades fictícias, nada mais que meras aparições na consciência, como viveríamos no mundo a menos que aceitássemos as diferentes entidades como suficientemente ‘reais’ na vida?

Esta discussão pareceu animar extraordinariamente o Maharaj, e a debilidade em sua voz desapareceu gradualmente. Ele disse: Você vê quão sutil é este assunto? Você respondeu sua própria pergunta, mas a resposta lhe escapou. O que você disse é que você sabe que a entidade como tal é totalmente fictícia e não tem autonomia própria; é apenas um conceito. Mas a entidade fictícia deve viver sua vida normal. Onde está o problema? É muito difícil viver uma vida normal, sabendo que a vida em si é um conceito? Você compreendeu? Uma vez que tenha visto o falso como falso, uma vez que tenha visto a natureza dual do que chama ‘vida’ – que na realidade é o viver – o restante será simples; tão simples como um ator desempenhando seu papel com entusiasmo, sabendo que é apenas um papel que ele está desempenhando em uma peça ou num filme, e nada mais.

Reconhecer este fato com convicção, apercebendo-se desta posição, é toda a verdade. O restante é mera atuação."



(do livro, "Sinais do Absoluto")

Fonte: Blog da Editora Advaita

quarta-feira, 14 de abril de 2010

Mooji: reconheça sua natureza


“Este ‘eu’ pessoal, o “me”, é como um dedo quebrado: em qualquer lugar que for, ele causará problemas; tudo que ele toca, dói. Este quem está identificado com este ‘eu’ pensa que qualquer coisa que aconteça em sua vida é causado pelo meio que o cerca, incluindo as pessoas ao redor. Ele dirá: ‘Os outros me causaram dor’, ‘minha circunstância de vida são responsáveis’. É interminável. Outros poucos vêem isso como uma oportunidade, ou se interessam por encontrar a fonte de todos os problemas, de todo o seu sofrimento.

‘Eu’ é a causa dos seus problemas. Justamente por você ter feito um ninho dentro do sentimento pessoal do ‘eu’ que você está apegado é por que você está sofrendo. Não conserte sua vida. Encontre este ‘eu’ e veja o que acontece.

(...)

Por que você diz ‘eu quero ser livre?’ Eu compreendo esta contenda e este sentimento que profundamente o tocou. Então, vamos averiguar e ver se nós podemos determinar qual é realmente o problema. O que nós iremos remover é a convicção de que tudo não está bem. E quando nós vamos verificar para descobrir o por quê, nós iremos compreender que você está identificado com a morte. Você está se identificando com algo que não dura, que não tem longevidade. Você se apaixonou pelo tempo. Você se apaixonou pelos objetos, pelas ideias que estão em transição. É assim que todo o problema começa. E como a confusão entra no Ser.”

(...)

“Quem está por detrás de toda manifestação? Olhe, e você descobrirá que tudo acontece por si mesmo! Quando você vê isso, então sua consciência se torna desocupada. Até então, o seu Ser está ocupado com um sentimento de ‘Fazedor’ (realizador), ‘eu preciso fazer alguma coisa, eu preciso entender’.

Esforço é requisitado para tornar-se, mas que esforço é requisitado a ser? Então, deixe tudo como deve ser deixado; testemunhe a Existência espontânea. Isto não é caótico. Seja o que acontecer, aconteça, e isso faz muito bem. O suposto patrão – a mente – está causando um monte de problemas. E não, nós não somente demitimos o patrão, como também desistimos da firma!

Veja se o Universo não pára.

Muitos de vocês não estão aproveitando o creme da vida, porque vocês têm comprado a versão da mente de como as coisas deveriam ser. A idéia cortou seu vínculo com a Fonte do seu Eu Real, e não mais flui. O resultado é desarmonia e sofrimento. Você é o Eu Real, o Absoluto, expressando-se espontaneamente, mas você não sabe disso. Você não precisa nem acreditar nisso! Você pensa: ‘O que irá acontecer se eu desistir do controle? Meu mundo desabará a meus pés!’

(...)

Quem você realmente é não é previsível. A mente é previsível na tentativa de controlar o que é espontâneo. Ao ter medo do novo, a mente simultaneamente surge do Desconhecido, provendo espaço para mente agir como o desconhecido e o conhecido aparente. Este jogo não é da sua conta.

Não se preocupe com nada. Seja como uma criança no colo de Deus. Nem policie seus pensamentos, nem faça parte do departamento de imigração dos sentimentos-vistos que são requeridos. Você pode relaxar. Sim. Relaxe.”

(...)

“Permaneça como o Eu Real! (...) Está sendo cansativo porque você está tentando firmemente com sua mente. (...) Primeiro, a maior das pessoas pensam que observar a mente significa sempre prestar atenção a diversas atividades aparecendo na mente. Isto é um modo que pode ser interpretado. Mas o conselho é permanecer desapegado em estado de testemunha sem se tornar envolvido com os movimentos da mente.

Não simplesmente olhe estas atividades; ao invés disso, observe a reação interna a estas atividades. Isto é mais íntimo que simplesmente olhar o jogo da mente. Estas reações mostram o envolvimento pessoal que tem sido cultivado; aonde houver identificação e ‘ruído’. Quando eu digo ‘ruído’, quero dizer a turbulência interna – resistência e excitação – que perturba a paz. Tão logo estas tendências sejam reconhecidas, o próximo passo é perguntar, quem, o que, onde está este quem está identificado? Pode uma face ser colocada nisso? Existe uma entidade real e tangível residindo como ‘eu’? Descubra! Para responder a estas questões, a atenção precisa ser introvertida – fixa na fonte de toda a atividade incessante.”

(...)

“O estado natural da mente é ficar em silêncio, vazio, aberto. Não existe nenhuma intenção! Se você pensa que precisa praticar silêncio, encontrar silêncio, manter silêncio, então você tem mal entendido. Tudo isto, o Universo inteiro, está acontecendo em Silêncio!

Não é nada sobre sair correndo para achar algum silêncio. É reconhecer o Silêncio que não pode ser perturbado aonde você se encontrar, independente da circunstância, da altura do ruído.

(...)

Toda esta conversa é somente para revelar o seu próprio Silêncio. E não leva tempo! Quando você estiver na frente de um espelho, ele não diz: ‘Olhe, estou ocupado neste exato instante, por favor, retorne em meia hora’. Tão poderoso é o espelho da inquirição que imediatamente você é visto! E então você saberá o Indescritível, o Sem Forma diretamente. Talvez você não consiga se expressar sobre, mas seu sofrimento termina. Seus medos acabam. Você conquistou a morte deles mesmos!

Muitos de vocês estão tão próximos da descoberta, mas criam desculpas e fogem, com medo de queimarem o último apego do ‘eu’. A oportunidade é encará-la, senti-la e ver que você é o Intocável.”

(...)

“Condicionamentos ocorre na área onde o condicionamento pode ocorrer. Mas há um lugar onde o condicionamento não pode ocorrer: de cuja presença do condicionamento, o efeito do condicionamento, e o jogo do condicionamento é observado. Você é Aquele que Vê. Você é aquele que Testemunha passivamente. Você não é a parte ativa. O que você realmente é não está interessado em condicionamentos. De fato, finalmente, você sequer sabe qualquer coisa sobre condicionamento!”

(...)

“Sentir travado, parado, estagnado é simplesmente um pensamento em que se acredita nele.

Remova a crença e a estagnação desaparece.

Se um espaço for mantido na escuridão por milhares de anos,

Quando a janela se abrir –

Levará milhares de anos para a escuridão desaparecer?

Da mesma forma, em um instante, a Luz da Verdade expele a escuridão da ignorância.”

(...)

“Talvez você experimente um vislumbre, um tremor, mas isso não irá estabilizar, porque você mantém conceitos de quem você pensa que é e acredita ser na sua mente.

Meu sentimento é, retorne ao seu país livre. Seja o que você trouxer aqui com você, deixe. O fogo sagrado de Arunachala é um bom lugar para queimar tudo. Volte para casa vazio. Este será o melhor presente para sua nação, sua família, seus amigos. Leve seu passaporte, mas você, se mantém vazio.”

(...)

“Você está imaginando que tem estudado e

o que está dentro de sua cabeça é o que você sabe.

Mas é somente o que você pensa.

Apenas o que é confirmado dentro do seu Coração

É o real Conhecimento,

E o mais alto conhecimento e experiência é:

‘Eu Sou nada’.”

(...)

“Caminhe pela luz do seu Coração.

O fluxo de cada rio é único.

Eu estou além do rio e do fluxo.

Eu sou a Consciência Livre (Sem Fronteiras).”





(Agradeço ao meu amigo Márcio Alexandre por ter me enviado este precioso texto já traduzido)

Nota do Márcio: Traduzido do livro Breath of The Absolute, The Manifest And Unmanifest Are One. (perdão pelas incorreções)

domingo, 7 de março de 2010

O Caminho para a Aceitação


Duas chaves muito simples, porém difíceis de serem colocadas em prática, constituem os fundamentos da não-dualidade:

1. esforçar-se para estar aqui e agora, do jeito que é; e
2. ser uno com o que está sendo, do jeito que é.

Lembrem-se que as impressões negativas e dolorosas do passado ganham força justamente porque não conseguimos dizer sim a elas, aceitá-las e, portanto, os acontecimentos são reprimidos e rejeitados. Por esses mesmos motivos, é o passado que nos impede de estar aqui e agora, de nos desapegar.

Encontramo-nos então na presença da palavra-mestra de nossas vidas, verdadeiro pilar de nossas vidas: a aceitação. Dizer sim ao que está sendo, aceitando até o inaceitável ou o inevitável, é algo que se encontra em todas as tradições. Os mestres zen dizem ‘parem de se opor’. O que corresponde a ver e reconhecer. Para poder dizer sim ao que é, é necessário dizer sim ao que foi. Aceitando retrospectivamente os acontecimentos negativos do passado, os conflitos e as dualidades se dissipam, os vestígios do carma se apagam.

Para muitos de nós e conforme a gravidade dos acontecimentos, a aceitação é insuportável, chocante, e pode ter uma conotação moralista, sendo assimilada à fatalidade ou à resignação. Não se preocupem, esse principio da aceitação é uma ciência, a ciência da não-dualidade. A aceitação, a adesão, a não-dualidade em relação ao inevitável (do dois nasce o sofrimento) acontecem aqui e agora, sem nenhuma consideração em relação ao futuro: ISSO É. O que está sendo, é; o que não está sendo, não é. Isso sendo, isso é; isso acabando, isso acaba.

Mas a aceitação não implica em nenhum compromisso para o futuro, nem bloqueia a ação. O futuro fica aberto, a ação permanece. Vocês poderão notar que a adesão ao que é faz desaparecer a emoção, porque quando nos situamos no aqui e agora, nos situamos na realidade. Essa atitude de não-conflito que tende para a supressão das emoções leva a uma ação lúcida, não viciada por uma revolta ou recusa. A emoção não é criada pelo fato em si, por mais penoso que seja, mas pela recusa do fato, a coexistência do sim e do não. Essa emoção que não existia antes é fadada inevitavelmente a desaparecer. Visto que houve um começo, deve ter um fim. Nenhuma alegria, nenhum sofrimento, podem durar eternamente. A emoção nasce, se desenvolve e morre, salvo se impedirmos seu curso natural. É isso que fazemos quando não aceitamos as coisas tais como elas são.”

Venerável Tawalama Dhammika