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sexta-feira, 30 de julho de 2010

Verdade e Hipnose





"O pior cego é aquele que não quer enxergar", ditado popular.

George Gurdjieff é um dos mestres mais importantes de nossa era.

Ele é único sob muitos aspectos: ninguém no mundo contemporâneo se expressa como ele. Ele é quase como um outro Bodhidharma ou Chuang Tzu, aparentemente absurdo, mas na realidade dando excelentes indicações para a libertação da consciência humana. Ele costumava dizer: "Você está numa prisão". Às vezes mergulhava ainda mais fundo na realidade e, em vez de dizer "Você está numa prisão", dizia "Você é a prisão". O que é mais verdadeiro.

Se você quiser sair da prisão - ou, melhor dizendo, se não quiser ser uma prisão -, a primeira coisa a fazer é dar-se conta de que está numa prisão... ou de que é uma prisão. É algo que deve ser sempre lembrado como um dos primeiros princípios de todo aquele que e stiver em busca da verdade.

A tendência da mente humana é negar as coisas feias, esconder o que não quer que os outros saibam - e esconder de tal maneira, em camadas tão profundas do inconsciente, que a própria pessoa deixa de ter consciência dessas coisas! Desse modo, mantém sua personalidade superficial.

Gurdjieff tem uma história a esse respeito...

Havia um mágico que vivia numa floresta densa e tinha muitas ovelhas, que eram seu único alimento. No meio da floresta, ele mantinha todas aquelas ovelhas somente para matá-las diariamente, uma a uma. Naturalmente, as ovelhas tinham muito medo dele e costumavam correr pela floresta, temendo que qualquer dia fosse o seu dia de morrer. As companheiras que eu tinha já se foram, não se pode confiar... Por puro medo, elas costumavam fugir para muito longe, entrando profundamente pela floresta. E todo dia era uma canseira tentar encontrá-las.

Finalmente, o mágico recorreu a u m truque. Ele hipnotizava as ovelhas, dizendo-lhes: "Você é uma exceção; todo mundo pode ser morto, mas não você. Você não é uma ovelha comum; você tem um privilégio divino". Para as outras dizia: "Vocês não são ovelhas; são leões, tigres, lobos. Só as ovelhas são mortas. Não precisam esconder-se na floresta; seria muito embaraçoso um leão se escondendo na floresta com medo de ser morto - só as ovelhas são mortas". Dessa forma, ele conseguia hipnotizar todas as ovelhas.

Chegava inclusive a dizer para algumas delas: "Vocês são homens, seres humanos, e os seres humanos não se matam uns aos outros. Vocês são exatamente como eu (ser humano). Nunca tenham medo nem tentem fugir por medo". Desde esse dia, nenhuma ovelha voltou a fugir para se esconder na floresta, embora todas elas vissem diariamente que uma delas era abatida e morta (como vemos todos os dias, não é mesmo?). Mas é claro que todas pensavam: ela deve ser uma ovelha; eu sou um tigre, um leão, um ser humano. Eu sou especial e excepcional, tenho um privilégio divino... Eram essas as histórias que o mágico botava em suas cabeças.



Gurdjieff


Gurdjieff afirma que, se não nos conscientizarmos da primeira coisa - de que estamos numa prisão, que somos a prisão -, não existe esperança de liberdade. Se você já acredita que é livre, é por ser uma ovelha hipnotizada que pensa ser um leão - excepcional, não é preciso ter medo -, que acredita inclusive que é um ser humano (divino). Você continua vendo outras ovelhas serem mortas, mas ainda está sob efeito da hipnose, sem tomar consciência de sua condição concreta. Ser livre, quando já sabemos que somos livres, não constitui problema.

Todas as religiões juntas, talvez involuntariamente, geraram um tremendo estado hipnótico. As pessoas acre ditam ter almas imortais. Não estou dizendo que você não tem, mas apenas que não sabem em que acreditam. E, como acreditam que têm uma alma imortal, nunca descobrem que já a têm. Disseram-lhes: "Vocês são o reino de Deus"... e é tão cômodo e consolador acreditar nisso. Mas não existe uma maneira de buscar e tentar descobrir se essa crença hipotética tem algum fundo de verdade, ou é apenas um truque hipnótico usado pela sociedade (pelos manipuladores da sociedade) para mantê-lo livre do medo da morte, da doença, da velhice, da solidão (e manter você disponível para ser sacrificado, quando for conveniente).

O seu Deus pode ser apenas uma hipnose psicológica. Não é uma descoberta sua. Isso é verdade: até aqui, é a absoluta verdade. Ele (Deus) foi implantado em sua mente e, como você continua acreditando nele, a sua crença impede qualquer aventura de busca da verdade.

Geralmente, estão sempre lhe dizendo que, se não acreditar, você não encontrará. Mas a verdade é exatamente o contrário. A crença é uma barreira para se encontrar a verdade, não é uma ponte. Os que acreditam nunca encontram, pois sequer se dão ao trabalho de buscar; não há necessidade, "já sabem"...

Você está numa prisão e se julga livre.

Você está preso a grilhões, mas acha que são apenas adornos. É um escravo (numa sociedade escravagista), mas lhe disseram que você é apenas humilde, simples, que é assim que deve ser uma pessoa religiosa como você. Você está cercado de muitas estratégias hipnóticas desenvolvidas pela sociedade ao longo das eras. E essas estratégias hipnóticas sã a causa essencial da sua ignorância, do seu sofrimento, da sua falta de esclarecimento (de suas doenças físicas e mentais).

De modo que a primeira coisa a ter em mente é que você está numa prisão. A partir do momento em que você reconhece que está numa prisão, você já não pode mais tolerá-la. Ninguém a tolera; ela vai contra a sua dignidade humana. Você começará a encontrar maneiras de sair dela. Começará a conhecer pessoas que já se libertaram. Pode começar a buscar ajuda além das muralhas, pois lá fora existem pessoas capazes de oferecer todo tipo de ajuda. Mas elas não serão de ajuda alguma se você acreditar que já está vivendo em absoluta liberdade.

Se você acredita que essa prisão é a sua casa, seria naturalmente absurdo pensar em se livrar dela. Você acredita que o muro que o mantém prisioneiro é uma proteção para você. Estaria portanto fora de questão fazer um buraco na parede para escapar, ou encontrar uma escada, ou ainda buscar ajuda lá fora. Pode até ser lançada uma corda lá de fora, ou providenciada uma escada, mas isso só teria valia se for reconhecido o principal: que você está numa prisão. George Gurdjieff estava constantemente insistindo: "É a principal coisa a entender. Sem isso, não pode haver avanço para o esclarecimento. Se você acha que é livre, você não pode escapar".




Fonte: Osho, Encontros com pessoas notáveis, Editora Academia, São Paulo, 2009.

quarta-feira, 28 de julho de 2010

Deleuze e o Tarô







Retirei o excelente texto que se segue do Blog: Cosmos e Consciência.
Clique no link para acessar o texto completo, que possui uma interpretação delueziana para as cartas do tarô, aqui não reproduzida.



Deleuze e o Tarô

Rascunho rumo a um pensar em êxtase

Por: Nelson Job

Em magia, como em religião e em linguística,
são as idéias inconscientes que agem.

Marcel Mauss

A filosofia “deleuziana” se presta a quê? Se presta a pensar em limiar, a pensar com, sem amarras, sem limites, em ressonância. Deleuze dialogou com vários filósofos clássicos, com a física, a biologia, a antropologia, a literatura, o cinema, a pintura, a psicanálise, a química etc. Em um artigo anterior, “Ontologia Onírica”, nos dedicamos a evidenciar as ressonâncias entre a filosofia da diferença (tendo Deleuze como atrator), a física “pós-newtoniana”, o hermetismo e a literatura de ficção científica pré-cyberpunk. Tais relações permitem uma ressonância mais específica: a relação entre os principais conceitos de Deleuze (e da filosofia da diferença) com os arcanos maiores do tarô.

Sobre o tarô, pouco desenvolveremos. As imagens devem falar por si. Existem inúmeros livros sobre tarô, mas nenhum deles vai fornecer o mais relevante: a relação intensiva e intuitiva com as imagens.

Uma filosofia como a de Deleuze ser relacionada com um saber pagão como o hermetismo, e, por conseqüência, com o tarô, não nos surpreende. Deleuze, em seu texto “Nietzsche e São Paulo, D. H. Lawrence e João de Patmos” faz um belo elogio ao paganismo (simbólico), que possui conexões vivas, em detrimento do judaísmo e cristianismo (alegóricos) com seu amor abstrato (dar sem nada tomar) e o Apocalipse já industrial (que, com o seu “Juízo” - pré kantiano - Final, nos desconecta com o cosmos).

O paganismo é uma relação de êxtase com o cosmos, onde a vida é celebrada. Não nos surpreende que um antropólogo como Eduardo Viveiros de Castro, dado a reviravoltas deleuzianas, relacione o seu trabalho etnográfico (que envolve o xamanismo Yawalapíti e Araweté) com o filósofo neo-platônico Plotino, em seu texto “A Floresta de cristal”. Nele, é formulada uma operação que nos é cara: “Seria preciso apenas trocar a metafísica molar e solar do Um neo-platônico pela metafísica da multiplicidade lunar, estelar e molecular indígena”.

Plotino é o primeiro grande filósofo do êxtase (lembrando que "êxtase" significa literalmente "sair de si mesmo"). Francis Yates, em seu brilhante “Giordano Bruno e a Tradição Hermética”, o considera o verdadeiro iniciador histórico do hermetismo. Porfírio, seguidor de Plotino, nos diz que seu mestre sofreu quatro êxtases em que ele sofria tremores e tinha visões, donde os textos das “Enéadas” derivavam-se a partir de tais êxtases. Deleuze celebra o conceito de “contemplação” em Plotino, que já era uma relação onde sujeito e objeto se misturavam.

O autor que Deleuze considera o seu “plano de imanência”, Spinoza, também tinha várias influências místicas (a cabala judaica, por exemplo), como afirma Marilena Chauí em sua máquina do tempo “A Nervura do Real”. Vale lembrar que Bergson, outro grande atrator na obra de Deleuze, possui um livro chamado “A Energia Espiritual”, onde afirmava a telepatia e a vida após a morte. As questões de Deleuze seriam místicas, mas não com essa alcunha: mistura de sujeito e objeto, problematização da atomização do eu, conexão intensiva com a Natureza apenas para sair dela rumo ao inominável: o devir contra-natureza e a criação de Corpo sem Órgãos.

Uma relação do tarô com Deleuze já foi feita, sobretudo enfatizando o seu caráter semiótico, por Inna Semetsky. A nossa abordagem é diferente, relacionando conceitos filosóficos. François Jullien - esse um grande autor cujo conjunto de obra é um extensivo trabalho relacionando a filosofia do Ocidente e o pensamento chinês - em seu livro “Figuras da Imanência”, realizou um ótimo estudo relacionando o “I Ching”, antigo livro oracular chinês, com vários conceitos da filosofia da diferença.

O tarô, como quase tudo relacionado ao conhecimento antigo, tem um passado incerto. Costuma-se afirmar que tenha se originado no Antigo Egito, com o hermetismo. Os jogos de carta começaram a se popularizar na Europa no séc XIV e o tarô mais popular – com o qual lidaremos neste texto – conhecido com o Tarô de Marselha, surgiu no final do séc XV, constituído por 22 arcanos maiores, de sentido mais geral e por 56 arcanos menores.

Jogar tarô é mais e menos que realizar um “oráculo”. Mais do que “dizer o futuro”, o tarô realiza o princípio hermético de correspondência, a saber: tudo o que está em cima é como o que está embaixo. Desse princípio se desenvolve, por exemplo, a astrologia, que é um embrião da astronomia. O princípio hermético da correspondência é o mais profícuo (e popular, daí um texto apenas para ele: “Fractais quânticos monádicos”) de todos, pois possui ressonância com a teoria do caos (fractais), mecânica quântica (“colapso” de onda) e filosofia, já que o conceito leibniziano de mônada, se origina no hermetismo. Então, jogar tarô é ver o presente, grávido de passado e futuro



Fonte:
http://cosmoseconsciencia.blogspot.com/2010/02/deleuze-e-o-taro.html

sábado, 17 de abril de 2010

Observações Sobre as Tendências Religiosas




Por: Gary Snyder



É bom lembrar que todas as religiões contêm noventa por cento de fraude e são responsáveis por numerosos males sociais. Mesmo assim, dentro da geração beat verifica-se a existência de três tendências:

1. Busca da visão e da iluminação. Esse resultado é obtido geralmente pelo uso sistemático de drogas. A marijuana é um recurso de consumo diário e o peiote é o verdadeiro estimulante da percepção. Tanto um como o outro são complementados às vezes por práticas iogues, álcool ou similares. Embora uma boa parte de auto-consciência possa ser obtida pelo uso inteligente das drogas, o hábito de "drogar-se" não conduz a nada porque falta exatamente inteligência, vontade e compreensão. Uma sensação puramente pessoal, obtida às custas de um tóxico, não beneficia ninguém.

2. Amor, respeito à vida, abandono, Whitman, pacifismo, anarquismo, etc. Todas essas tendências são provenientes de inúmeras tradições, entre as quais a religião Quakers, o Budismo Shinshu, o Sufismo, etc. Todas são frutos de um coração generoso e apaixonado. Em suas manifestações mais dignas, essas tendências levaram algumas pessoas a condenarem ativamente as guerras, fundar comunidades e amarem-se umas às outras. Em parte, elas também são responsáveis pela mística dos "anjos", a glorificação das viagens a pé e das caronas, bem como por uma forma de entusiasmo inconsciente. Se respeitam a vida, não respeitam a sabedoria da impassibilidade e a morte. E essa é uma de suas falhas.

3. Disciplina, estética e tradição. Essas tendências são bem anteriores ao surgimento oficial da geração beat. Diferenciam-se da doutrina "Tudo é um" na medida em que seus praticantes estabeleceram uma religião tradicional, tentaram incorporar o sentimento de sua arte e de sua história, e praticam qualquer ascese que for necessária. Uma pessoa pode tornar-se um dançarino aimu ou um xamã yurok, ou até mesmo um monge trapista, se ela realmente o deseja. O que falta nesse tópico, é o que os dois primeiros possuem, ou seja, uma existência perfeitamente adaptada à realidade do mundo e percepções realmente verdadeiras do inconsciente.

A conclusão prosaica é a seguinte: se uma pessoa não for capaz de compreender todos esses aspectos - contemplação (que não seja pelo uso de drogas), moralidade (que para mim significa protesto social) e sabedoria - ela não estará à altura de levar uma autêntica vida beat. Mesmo assim, poderá ir bastante longe nessa direção, o que é preferível que ficar rodando pelas salas de aula ou escrever tratados sobre o budismo e a felicidade das massas, como os caretas fazem com tanto sucesso.





extraído de: Protopia - Texto do Gary Snyder



Fonte: Blog Epifenomenologia


quarta-feira, 24 de março de 2010

O fim do site Rizoma.net


É uma pena, mas somente hoje percebi que o site Rizoma.net saiu do ar.

Anárquico, vanguardista, provocador, inteligente. O Rizoma foi um marco na cibercultura, divulgando, produzindo ou traduzindo textos, entrevistas, matérias e reflexões libertárias e extremamente inovadoras.

Transgressor e sofisticado, inimigo da vulgaridade e do neo-fascismo jeca que assola o momentum pos-moderno, o Rizoma trafegava/traficava tranquilamente nas fronteiras da arte, filosofia, antropologia, psicanálise ou qualquer outra manifestação da vida, sempre em busca de novos paradigmas, rompendo limites.

No Rizoma pude ler e conhecer mais um pouco do Situacionismo ou das vanguardas punks ou ciber-punks, ou do pensamento anarquista-místico de Hakim Bey, só para ficar nos exemplos mais conhecidos.

Desde o falecimento de seu criador, Ricardo Rosas, o Rizoma vinha passando por mudanças.

No entanto, seu acervo não se perdeu. Parece que o pessoal que continuou a obra do Ricardo está disponibilizando acesso livre, para download, de todo o precioso material publicado.

Altamente recomendado para todos aqueles que se interessam por arte, vanguardas, filosofia, antropologia, anarquismo....

Confira nos links abaixo:




Nota: mudei o endereçamento do link do Rizoma, na figura dos sites recomendados aqui do Blog, remetendo diretamente para o link acima.

quarta-feira, 3 de março de 2010

Consciência Verde



Entrevista com Gary Snyder extraída de: Consciência Verde. Gary Snyder, defensor de uma vida mais simples e próxima da natureza.


O que é consciência ecológica para você?


O termo “consciência social” surgiu da preocupação com a saúde e a justiça da humanidade. Precisamos, de fato, nos preocupar com as desigualdades da nossa ordem social e com o sofrimento de alguns de nossos irmãos. Já a consciência ecológica é a preocupação com todos os seres,todas as espécies,todos os habitats e ecossistemas complexos que constituem o mundo orgânico. A consciência ecológica é a extensão de uma preocupação moral que vai além das estreitas fronteiras humanas.


E de onde vem essa sua idéia de êxodo urbano? O campo está preparado para receber as pessoas de volta?


Chamei isso de re-habitação, um conceito que, às vezes, eu mesmo acho que parece ficção científica. Mas, quando olho para a realidade ao meu redor, sinto que meu raciocínio faz sentido: caminhando nesse ritmo, haverá um tempo futuro em que seremos obrigados, por causa do colapso ambiental, a deixar as cidades e os subúrbios, voltando para os campos.As pessoas vão voltar a viver com simplicidade e ecologicamente, desenvolvendo uma intenção sincera de estar ali por muitos milhares de anos, mantendo práticas verdes e sustentáveis.


Enquanto isso não acontece, como conseguir viver bem e aliviar a tensão típica de quem mora nos grandes centros?


Não assista a tantos programas de televisão, coma alimentos saudáveis, durma bem, acorde cedo, respire profundamente, faça exercícios, medite, cuide das necessidades da sua família, dê atenção aos seus amigos e a todas as pessoas. Olhe mais para o céu e para as águas correntes, escute os insetos e os pássaros e agradeça ao universo visível e invisível, sempre. Já é um bom começo. É importante lembrar também que cidades são apenas grandes vilarejos próximos de rios ou de mares. Precisamos amá-las mais.


Mas e quanto ao ambiente em si, não há nada que possamos fazer para tentar evitar esse colapso que você cita?


Claro que há. Uma boa arquitetura urbana, por exemplo, pode fazer uma grande diferença de preferência, se ela estiver aliada a um planejamento urbano verde. Eu ganhei um vídeo sobre a cidade brasileira de Curitiba, onde parece que as pessoas deram alguns passos na direção de tornar a cidade melhor para se morar.


E hoje em dia, mesmo uma pessoa acostumada ao conforto das grandes cidades conseguiria se adaptar ao campo? Não existe o risco de devastação das paisagens naturais caso esse retorno bucólico ocorra?


É tudo conciliável. Graças à tecnologia e ao conhecimento de que dispomos atualmente, é possível viver com conforto e sem agredir tanto a natureza. Veja o nosso caso: vivemos num lugar ermo, onde não há rede elétrica. Então dependemos de painéis solares, grandes baterias e um gerador para fornecer a eletricidade, recurso que aprendemos a não desperdiçar nunca deixamos uma luz acesa à toa, mesmo as crianças agem assim, espontaneamente. Não usamos ar-condicionado, esquentamos nossa casa com lenha, recolhida do chão da floresta. Usamos roupas quentes no inverno e quase nenhuma roupa exceto colares de contas e brincos no verão.


Mas há espaço para esse estilo de vida? As pessoas estão interessadas em viver de forma tão diferente?


Sinceramente, acredito que sim. Sou constantemente convidado a dar palestras sobre questões ambientais: falo de florestas, vida selvagem, e também sobre as grandes questões das economias globalizadas e o imperialismo do mundo desenvolvido. Defendo a sobrevivência das culturas indígenas em todos os lugares povos que mantêm o estilo de vida que considero adequado. Aproveito essas ocasiões para mostrar que nossa preocupação ética não pode ficar limitada aos seres humanos, mas deve ser estendida a todas as espécies. O princípio judaico-cristão “não matarás” apenas se refere aos seres humanos. Está na hora de englobar a natureza.


Você também teve contato com o xamanismo e com plantas de poder. O que essas experiências lhe ensinaram sobre a natureza?


Tive algumas experiências com xamanismo em Turtle Island, onde conheci um guia em experiências espirituais. Experimentei o cogumelo psilocybe e o cacto peyote. As plantas de poder foram sempre muito instrutivas. O que quer que sejam em seus caminhos complexos, mostraram verdades escondidas dentro de mim.



Extraído do Blog Epifenomenologia

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Implicações e superação da "tagarelice" contemporânea

Diante das incríveis e profundas transformações que estamos assistindo no mundo dito Ocidental (pós-política, pós-Capitalismo, pós-humano, pós-social, pós-pós-modernismo etc), vou pontuar algumas questões, pensando um pouco também nas discussões acerca da Antropologia Simétrica e do Perspectivismo. Estas duas correntes da Antropologia, parece-me, são tentativas de responder a esses desafios.

Em certa medida, poderia resumir meu argumento da seguinte forma:


"Em tempos de colonização do inconsciente, o xamanismo se apresenta não apenas como uma alternativa, mas talvez a única forma de conquistar a liberdade".


Um conceito preliminar


Vou tomar a liberdade de cunhar um conceito próprio - válido como ponto de partida do argumento para os fins desta exposição.

O ponto em questão diz respeito a tudo aquilo que nos condiciona e nos conforma a uma "visão de mundo" e nos fornece uma escala de valores.

Trata-se de um ponto de apoio que nos permita definir o que é desejável (ou não), o que é confortável (ou não), o que é o "bem" e o que é o "mal" e, sobretudo, o que é significativo ou não.

Há muitas variações para esse conceito geral, tanto na filosofia, como nas Ciências Sociais.

No caso, vou cunhar um conceito que chamarei "Tagarelice".

Definirei "Tagarelice" como a soma daquilo que usualmente chamamos:

["civilização"] + ["ideologia"] (mais fortemente no sentido dumontiano que marxista, mas incluindo este) + ["cultura"].

Para fins didáticos e provisoriamente, diria que "Tagarelice" nos fornece não apenas uma ferramenta cognitiva, mas também axiológica. Uma ontologia, uma escala de valores, uma noção de "eu". E, como espero ficar claro, também uma epistemologia.


A abrangência do conceito não é casual: confere a amplitude necessária para dar conta dos múltiplos, profundos e abrangentes fenômenos que se encontram por trás daquilo que Jameson chamou "colonização do inconsciente".

Preliminarmente, "Tagarelice" tem como peças fundamentais para operar - diria, está apoiada - em 3 noções básicas e intimamente relacionadas, entrelaçadas:

1) uma noção de tempo: uma determinada forma de vivenciarmos o tempo (tempo linear, cíclico, mítico etc);

2) uma noção de espaço : uma determinada forma de lermos e experienciarmos o espaço;

3) uma noção de corpo : uma determinada forma de lermos, sentirmos e vivenciarmos nosso corpo.

Essas 3 noções são uma só: uma dada conformidade de corpo-tempo-espaço para cada "Tagarelice".

Ou, melhor ainda, diria que "Tagarelice" não apenas se apóia nessas noções, como também forma e re-afirma as mesmas. É estruturante delas e é estruturada por elas.

Como diria Guy Debord: "O Espetáculo limita-se a enunciar a si próprio."

"Tagarelice" é, assim, a própria noção que temos de corpo-tempo-espaço. A partir delas - estou dizendo isso ainda num nível preliminar - erigimos nossa escala de valores, o que é "bom" e o que é "mal", o que é certo e o errado etc. E também nossa noção do que seja natureza e cultura, quando estas existirem.

Nossa "Tagarelice" Ocidental contemporânea tem como íntimas as noções de:

progresso,
tempo linear (passado-presente-futuro),
corpo fixo e objetivo,
materialismo,
individualidade,
separação de natureza-cultura,
sujeito/objeto,
consciente/inconsciente,
razão/loucura,
racional/irracional,
processo histórico,
linguagem

etc.

Sempre que nos depararmos com esse tipo de cisão, de dualidade e de separatividade, estaremos dentro da malha de condicionamentos dessa "Tagarelice" especifica, Ocidental (estou ciente de que estou generalizando).

Por exemplo: é próprio de nossa "Tagarelice" dizer que tudo está na linguagem, ou que tudo é histórico ou ainda a versões descartianas-kantianas. E também todas as variações materialistas. Tudo isso está na superfície de nossa "Tagarelice".

Para outras "Tagarelices" (dos índios, da Antiguidade, da Pré-História etc), outros problemas e outras cisões são construídas.


O condicionamento


A "Tagarelice" encontra seu apoio em nossa própria mente, que reproduz a cada instante essa configuração do que seja o nosso corpo, tempo e o espaço.

Ela depende de um modo específico de operarmos com nossa mente.

Ela nos convence de que somos de uma determinada maneira, que não podemos ser de outra maneira e que nossa mente está conformada a operar dessa forma.

A mente então - flexível e ávida por identificações - aceita esse argumento, esse enunciado e opera e se conforma desse modo, aceitando a si mesmo como seu próprio limite.


Descondicionamento íntimo



Em tempos de colonização do inconsciente (Jameson) resta-nos a rebeldia do xamanismo.




Para superar, atravessar e perpassar a "Tagarelice", há que se examinar detidamente, de uma forma não dualista e separada, as noções de corpo-tempo-espaço.

O que importa dizer aqui é: ao admitirmos isso, à simples admissão de possibilidade de que isso possa ser feito, já nos posicionamos parcialmente fora da "Tagarelice", posto que a forma não-dualista de exame significa a própria superação daquela dualidade "tagarelística".

Podemos dizer: para o exame pleno (vivencial + emocional + filosófico + racional + consciente + inconsciente + mental + corporal + subjetivo + objetivo), temos que nos apoiar e nos posicionar "fora" da "Tagarelice".

Ao proceder assim e avançar nesse "processo", o observador começa a duvidar e a relativizar suas próprias noções do que seja corpo-tempo-espaço: essa "dúvida" não é apenas racional-conceitual (pois então ainda estaria na "Tagarelice"), mas VIVIDA: ele começa a sentir seu corpo mais fluido e talvez não muito dotado de realidade "ontológica", começa a dissolver seu corpo e as dualidades mentais (Eu, EGO etc).

Poderá passar por algumas experiências bem estranhas...E considerar seriamente que se tornor um ser contra-cultural. Um sujeito que estivesse ferreamente posicionado dentro da "Tagarelice" poderia quase dizer que nosso observador está passando por um surto esquizofrênico.

Vejamos a seguinte passagem de Deleuze-Guattari em Mil Platôs (vol.3):



"Pare, reencontre o seu eu, seria preciso dizer: vamos mais longe, não encontramos ainda nosso Corpo sem Órgão, não desfizemos ainda suficientemente nosso eu. Substituir a anamnese pelo esquecimento, a interpretação pela experimentação. Encontre seu corpo sem órgãos, saiba fazê-lo, é uma questão de vida ou de morte, de juventude e de velhice, de tristeza e de alegria. É aí que tudo se decide.

(...)



O Corpo sem Órgão é o que resta quando tudo foi retirado. E o que se retira é justamente o fantasma, o conjunto de significâncias e subjetivações. A psicanálise faz o contrário: ela traduz tudo em fantasmas, comercializa tudo em fantasmas, preserva o fantasma e perde o real no mais alto grau, porque perde o Corpo sem Órgão." (Mil Platôs, Vol. 3)



Importante aqui é que "Tagarelice" não é insuperável, monolítica, estável. Ao contrário, é dinâmica devido inclusive aos próprios resíduos por ela fabricados (Marx, Freud etc). Há sempre novos resíduos a serem incorporados e que também fornecem instabilidade e vitalidade à "Tagarelice".

"Tagarelice" é sempre dinâmica, por definição. Ela depende desse dinamismo.

O texto de Peter Gow toca um pouco nesse ponto: o tédio e a paralisia podem fornecer um ponto de apoio interessante, caso o observador-experimentador-de-si-próprio esteja disposto a não rompê-lo (isto é, não romper o tédio, encontrar-se a si próprio). A não dinâmica sugere a própria superação da "Tagarelice". O Budismo tem muito a dizer sobre isso.




Antropologia simétrica / Perspectivismo Amazônico



Voltando à questão Antropologia Simétrica-Perspectivismo: pôr em questão o que seja corpo-tempo-espaço implica não apenas um método, mas uma superação do que seja método; posicionamo-nos aqui além da separação forma / conteúdo.

De uma certa forma é como se o Antropólogo Simétrico-perspectivista fosse, ele próprio, uma espécie de psicanalista (ou esquizoanalista), operando aquela experiência xamanística descrita acima.

Ele problematiza as noções de corpo-tempo-espaço, valendo dizer, as noções e separações de "Eu"/"Outro" e "Natureza"/"Cultura". Ao fazer isso, não apenas está operando um "método", mas aqui está se posicionando além do método, está subvertendo o núcleo que dá origem àquilo que "Tagarelice" chama de "essência" e "aparência"; substância e forma.

Executa uma transmutação íntima e dissolve "Tagarelice" e seus enunciados mais substantivos (na verdade a própria noção de substância).

Daí porque não é possível distinguir, nesse caso, o que é objeto e método, pois essa separação, essas "ontologia" e "epistemologia", derivam daquilo que está sendo superado e dissolvido.

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Frugalidade elegante


Entrevista com Paolo Soleri

Com o projeto da comunidade de Arcosanti, no Arizona, o arquiteto italiano, há muitos anos transplantado aos EUA, foi um dos primeiros a experimentar a realização de um centro habitado respeitador dos equilíbrios ambientais. Livros e convenções prestam homenagem a este mestre do pensamento ecológico.

Ética e ambiente são os dois termos em torno dos quais Paolo Soleri construiu sua militância arquitetônica, uma militância que superou agora o meio século e que fez do projetista italiano, transplantado estavelmente aos Estados Unidos dos anos 50, um artesão do pensamento ecológico. Se neste espaço de tempo de fato muitíssimas coisas mudaram no mundo, dentro e fora da América, as linhas mestras do pensamento de Soleri permaneceram substancialmente inalteradas e se revelam, hoje mais ainda do que ontem, atualíssimas pela extraordinária capacidade demonstrada pelo criador de Arcosanti de antecipar a deriva, à qual a sociedade de consumo nos conduziu.

A reportagem é de Emanuele Piccardo, publicada no jornal Il Manifesto, 10-10-2009. A tradução é de Benno Dischinger.

Nascido em Turim em 1919, Soleri se transferiu nos primeiros anos do pós-guerra, logo após a láurea no Politécnico de Turim, à corte de Frank Lloyd Wright em Taliesin West, no Arizona, um lugar mágico onde se aprendia arquitetura em estreito contato com o deserto. Mas, o jovem projetista entrou bem cedo em contraste com o mestre americano e após dezoito meses abandonou Taliesin para refugiar-se na natureza, dormir a descoberto, impregnar-se de terra e sol. Teve assim início um percurso autônomo de experimentações que primeiro o reconduziriam à Itália – onde entre outras coisas firmou, nos primeiros anos de cinquenta, o projeto da fábrica de cerâmicas Solimene em Vietri sul Mare, no qual se percebe o influxo de Wright – e depois novamente aos Estados Unidos, e de novo no Arizona (desta vez em Scottsdale), e novamente no deserto.

Em 1955 Soleri iniciou a realização de seu primeiro experimento. Cosanti, um pequeno “burgo” às margens de Phoenix, no qual o arquiteto começou a explorar o uso do cimento armado, edificando, com a técnica do silt cast (cimento jogado sobre uma montanha de terra, que é sucessivamente eliminada), absides e cúpulas cuja forma, reproduzindo a abóboda celeste, criam uma forte relação com o cosmo – caracterizando a linguagem arquitetônica de Soleri, que no final dos anos sessenta tomará em mãos o seu projeto mais ambicioso: a comunidade de Arcosanti. O conceito sobre o qual se baseia esta cidade-municipal é a concentração (miniaturização) num espaço limitado de todas as funções – econômicas, residenciais, lúdicas – de modo que os acres deixados livres possam ser dedicados ao cultivo da terra.

Cosanti


Embora tenha sido realizada somente em parte, Arcosanti é hoje considerada como o emblema da experimentação arquitetônica e do pensamento de Soleri, que tem seu fundamento na vida frugal, priva dos excessos do consumismo. Autor de um recente “manifesto”, no qual reafirmou os elementos essenciais de sua visão do mundo, o ancião projetista assumiu nos últimos anos, na América e fora, o papel de um mestre, capaz de opor-se ao modelo imposto pela cultura estadunidense.

Encontramo-lo em Roma, onde em fim de setembro foi iniciada, no Auditorium, a Festa da Arquitetura com uma aula magistral sobre a frugalidade elegante, antes de uma série de encontros dedicados à sua obra que culminarão aos três de dezembro com uma jornada organizada em Turim - a cidade onde Soleri nasceu, - pela Ordem dos Arquitetos, por ocasião da saída de um volume sobre a fase inicial de sua obra.

Paolo Soleri



Eis a entrevista.

Com o projeto da “cidade linear”, Lean Linear City, concebido em 2006 para um novo assentamento na China, não longe de Macau, pretendeu oferecer uma via de saída para as derivas das metrópoles contemporâneas?

Na realidade, o projeto nasceu logo após a tragédia do tsunami, a partir da observação de quanto permanecera da costa atingida. Precisamente as ruínas sugeriam quão importante teria sido realizar uma habitação capaz de resistir à catástrofe – um objetivo que as tecnologias e os instrumentos de que hoje dispomos tornam realizável. Desastres como o tsunami são previsíveis e a Lean Linear City se situa como um lugar onde as populações, segundo as necessidades, podem retirar-se por períodos breves ou longos, visto que os recursos presentes em cada módulo habitável o tornam autossuficiente em termos não só energéticos, mas também vitais, graças às Green Houses, as “casas estufa”. Aos meus olhos a Lean Linear City, ao mesmo tempo subtil e resistente, se inspira na muralha chinesa, porém uma muralha que une e não separa!




Há alguns dias, dirigindo-se à assembléia das Nações Unidas, o presidente dos Estados Unidos colocou o acento sobre a questão do ambiente. Considera que seja um sinal de real mudança para a política ambiental americana?

A sinceridade do presidente dos Estados Unidos referente ao problema do ambiente é evidente e também é muito forte. Mas, Obama deve antes fazer as contas com certa classe política americana que o contradiz ferozmente, apelando para elementos fanáticos e racistas, que inquinam o confronto e tornam difícil qualquer previsão.




Em que termos projetistas imagina uma sociedade diversa daquela proposta pelo materialismo americano?

Como também escrevi no meu manifesto, embora eu tenha nascido na Itália, vivo no continente norte-americano faz agora sessenta anos e quanto mais os meus trabalhos dão corpo à evolução do meu pensamento, mais me sinto crítico ante o “milagre” americano. Sintetizando, penso que o isolacionismo fundamental dos Estados Unidos – cuja causa-efeito é com muita frequência uma terrível xenofobia – tenha dado vida a um império que deve a própria existência a um oportunismo exasperado, fundado sobre a industriosidade e sobre a determinação. Em tal processo nós americanos ou, caso se prefira, nós ocidentais permanecemos interpolados na jaula do materialismo, uma invenção irresistível que nos oferece conforto, auto-legitimação e orgulho. O materialismo, assim como ele se declina nos Estados Unidos e em geral nos países do Ocidente, é a busca da riqueza em detrimento do conhecimento. Uma cultura na qual desde crianças se aprende que a base do sucesso se mede pelo automóvel, o qual se torna parte integrante da família, assim como a pistola – dois elementos bem presentes na mesa suntuosa do americano crente. No que me diz respeito, considero que a única alternativa possível, aquela que defini como Lean Alternative [Alternativa modesta], esteja delineada numa frugalidade elegante e difusa. Penso, de fato, que uma situação como aquela que andou se determinando nas últimas décadas não seja enfrentada com timidez, com pequenas reformas, mas requeria uma forte denúncia e uma radical reformulação das nossas prioridades e da nossa concepção do ambiente natural.

De que modo considera que a crise econômica tenha modificado a percepção e a própria essência do american dream [do sonho americano]?

Embora seja claro que esta crise representou um duro golpe nos Estados Unidos e em todo o Ocidente, não creio que tenha realmente desarticulado o american dream. Em termos esquemáticos poderíamos dizer que cada americano tem um “deus pessoal” seu e que por isso tenhamos nos Estados Unidos trezentos milhões de deuses pessoais! E tem sido este egocentrismo, esta convicção de estar no centro do mundo.que determinou o atual desmoronamento econômico. O ponto é, todavia, que em sua profundeza aquela mentalidade não se reduziu e está pronta a re-emergir, com todas as consequências nefastas que dela derivam.

Em seu “manifesto” você fala de império e de tecnocracia. Pode explicar-nos melhor o que entende com estes termos?

A potência da tecnologia é hoje tão forte que gera uma verdadeira e própria idolatria, a qual se traduz na tecnocracia dominante na qual estamos imersos. Desafortunadamente, o condicionamento começa muitíssimo cedo, a ponto de constituir nos jovens uma espécie de imprinting [sigilo], e por isso é muito difícil combatê-lo. Estou, todavia, convencido que na criatividade, ou, para dizê-lo melhor, na estética nós podemos encontrar os recursos necessários para subtrair-nos ao obtuso poder deste “império tecnocrata”. A imensa reserva de boa vontade e excelência imaginada nas pessoas não deve ser jogada fora numa amortecida trivialidade.



quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Zen e a Crise da Cultura Ocidental


“Temos que mudar para não perecer. É o momento de inspirar-nos em outras civilizações que ensaiaram um modo mais benevolente de habitar o planeta”, escreve Leonardo Boff, teólogo, em artigo que publicamos a seguir. Segundo Boff o uma dessas inspirações pode vir do zenbudismo que “destrona o ser humano de sua pretensa centralidade, especialmente do eu, cerne básico do individualismo ocidental”.

Eis o artigo.

Venho insistindo há tempos que por detrás da crise atual econômico-financeira vige uma crise de paradigma civilizatório. De qual civilização? Obviamente se trata da civilização ocidental que já a partir do século XVI foi mundializada pelo projeto de colonização dos novos mundos.

Este tipo de civilização se estrutura na vontade de poder-dominação do sujeito pessoal e coletivo sobre os outros, os povos e a natureza. Sua arma maior é uma forma de racionalidade, a instrumental-analítica, que compartimenta a realidade para melhor conhecê-la e assim mais facilmente submetê-la. Depois de quinhentos anos de exercício desta racionalidade, com os inegáveis benefícos trazidos e que encontrou na economia política capitalista sua realização mais cabal, estamos constatando o alto preço que nos cobrou: o aquecimento global induzido, em grande parte, pelo industrialismo ilimitado e a ameaça de uma catástrofe previsível ecológica e humanitária.

Estimo que todos os esforços que se fizerem dentro deste paradigma para melhorar a situação serão insuficientes. Serão sempre mais do mesmo. Temos que mudar para não perecer. É o momento de inspirar-nos em outras civilizações que ensaiaram um modo mais benevolente de habitar o planeta. O que foi bom ontem, pode valer ainda hoje.

Tomo como uma das referências possíveis o zenbudismo. Primerio, porque ele influenciou todo o Oriente. Nascido na India, passou à China e chegou ao Japão. Depois porque penetrou vastamente em estratos importantes do Ocidente e de todo o mundo. O Zen não é uma religião. É uma sabedoria, uma maneira de se relacionar com todas as coisas de tal forma que se busca sempre a justa medida, a superação dos dualismos e a sintonia com o Todo.

A primeira coisa que o zenbudismo faz, é destronar o ser humano de sua pretensa centralidade, especialmente do eu, cerne básico do individualismo ocidental. Ele nunca está separado da natureza, é parte do Todo. Em seguida, procura uma razão mais alta que está para além da razão convencional. Recusa-se a tratar a realidade com conceitos e fórmulas. Concentra-se com a maior atenção possível na experiência direta da realidade assim como a encontra.

“Que é o zen” perguntou um discípulo ao mestre. E este respondeu: “as coisas cotidianas; quando tem fome, coma, quando tem sono durma”. “Mas não fazem isso todos os seres humanos normais”?- atalhou o discípulo. “Sim”- respondeu o mestre - “os seres humanos normais quando comem pensam em outra coisa, quando dormem, não pregam o olho porque estão cheios de preocupações”.

Que significa esta resposta? Significa que devemos ser totalmente inteiros no ato de comer e totalmente entregues ao ato de dormir. Como já dizia a mística cristã Santa Tereza:”quando galinhas, galinhas, quando jejum, jejum”. Essa é a atitude zen. Ela começa por fazer com extrema atenção as coisas mais cotidianas, como respirar, andar e limpar um prato. Então não há mais dualidade: você é inteiro naquilo que faz. Por isso, obedece à lógica secreta da realidade sem a pretenção de interferir nela. Acolhê-la com o máximo de atenção nos torna integrados porque não nos distraimos com representações e palavras.

Essa atitude faltou ao Ocidente globalizado. Estamos sempre impondo nossa lógica à lógica das coisas. Queremos dominar. E chega um momento em que elas se rebelam, como estamos constatando atualmente. Se queremos que a natureza nos seja útil, então devemos obedecer a ela.

Não deixaremos de produzir e de fazer ciência, mas o faremos como a máxima consciência e em sintonia com o ritmo da natureza. Orientais, ocidentais, cristãos e budistas podem usar o zen da mesma forma que peixes grandes e pequenos podem morar no mesmo oceano. Eis uma outra forma de viver que pode enriquecer nossa cultura em crise.





quarta-feira, 1 de julho de 2009

Festa, revolução e contracultura



O Maio de 68 é uma manifestação da crise de civilização', diz Edgar Morin

“Ali onde reinava um bem-estar, também havia uma insatisfação profunda”, afirma Edgar Morin, filósofo francês, que analisa as mudanças nas últimas quatro décadas.

Morin também analisa a visão da esquerda em relação aos acontecimentos de Maio de 68 na França. “Do ponto de vista político, produziu-se um fenômeno muito interessante; apesar de que os grupinhos presentes eram marxistas, houve uma diminuição da influência do partido comunista sobre a população e especialmente sobre os jovens. Os comunistas nunca estiveram presentes no movimento de 68 e inclusive o condenaram”.

Por isso, diz Morin, “em nenhum momento pensei que os trotskistas nem os maoístas pudessem tomar as rédeas desse processo; pelo contrário, considerava-os retrógrados”. Ele acredita que a esquerda tradicional da época não entendeu o que se passava.

Segue a íntegra da entrevista que Morin concedeu ao jornalista espanhol J. M. Martí Font e que está publicada no El País, 19-04-2008. A tradução é do Cepat.

Em maio de 1968, Edgar Morin (Paris, 1921) se havia comprometido a substituir um professor e dar algumas aulas na Universidade de Nanterre, então um lugar inóspito da periferia parisiense, em meio a uma paisagem industrial e vizinha a um povoado de barracos. Não podia imaginar que, quando chegou, já havia saltado a faísca. “Quando cheguei havia um caos absoluto; os carros da polícia soavam suas sirenes e um jovem ruivo gesticulava sobre as tarimbas: era Daniel Cohn-Bendit”, explica.

Morin se dispôs a dar sua aula. “Era um anfiteatro que não tinha janelas”, lembra, “e alguns estudantes se aproximaram de mim gritando: ‘Greve, greve!’. Disse-lhe que se queriam fazer greve teriam que submeter o assunto a uma votação. Houve votação e a maioria optou pela aula, assim que comecei. Então, alguns alunos se puseram a gritar: ‘Morin, flic (polícia)!’, cortaram a energia, o microfone e a luz. E não pude dar aula”.

Você não esperava por isso? O que estava acontecendo?

Creio que foi em fevereiro ou em março daquele ano quando dei uma conferência na Itália, em Milão, sobre a internacionalidade das revoltas estudantis, porque o Maio de 468 francês não foi a primeira, pelo contrário, foi a culminação. A questão era a seguinte: como é que em toda uma série de países com sistemas sociais e regimes políticos completamente diferentes estavam se produzindo revoltas de estudantes ao mesmo tempo? Elas aconteciam no mundo ocidental, mas também no Egito, na Polônia, na Checoeslováquia... Evidentemente, o denominador comum era uma revolta contra a autoridade que tinha características diferentes. No leste europeu era contra a ditadura do partido; nos países ocidentais era, ao mesmo tempo contra a ditadura da família, isto é, a autoridade paternal, dos professores da Universidade e do Estado.

E a repressão sexual?

Pode-se dizer que foi um elemento desencadeante de Maio de 68, já que em Nanterre a faísca partiu da proibição de que os rapazes entrassem nos dormitórios das moças. Mas deve-se dizer que não houve reivindicações sexuais. As grandes reivindicações relacionadas ao sexo, o movimento de libertação da mulher ou o movimento de autonomia dos homossexuais, apareceram depois de Maio de 68, como conseqüência. O Maio de 68 francês tem sua origem no movimento de 20 de março em Nanterre, que era um movimento de raízes libertárias. É preciso colocá-lo em relação com o que acontecia na Califórnia desde alguns anos antes, onde a juventude do país mais rico do mundo, os filhos de famílias extremamente prósperas abandonavam a casa paterna para levar uma vida comunitária, mas com uma aspiração ao mesmo tempo para o comunitário e a liberdade. Enfim, duas aspirações que parecem antagônicas, mas que eram vividas conjuntamente.

Naqueles anos eu já havia estudado os fenômenos relacionados com a adolescência, e descoberto que os jovens, através do rock, através de uma série de coisas, manifestavam uma vontade de autonomia na sociedade através de uma cultura própria. Com esta revolta, a adolescência, que se encontra entre a borbulha da infância e a integração, via-se a domesticação no mundo adulto, expressavam uma aspiração profunda em evidente contradição com o processo de integração na sociedade que lhes era proposta, que consistia na especialização, no ofício, no cronômetro, etc.

Como se viveu esta dialética entre o libertário e o comunitarista?

Há uma aspiração que de fato perpassa toda a história humana, que se expressou na idéia tanto libertária como comunista ou socialista. As primeiras semanas de Maio de 68 são de caráter verdadeiramente espontâneo, porque a ocupação de Censier, de Nanterre e finalmente a Sorbonne, foi uma explosão ao mesmo tempo estudiosa e exaltada, que tinha um componente muito, muito poético. Mas é preciso dizer que progressivamente os pequenos grupos políticos trotskistas, maoístas e outros, não somente quiseram se apropriar do movimento, mas que o parasitaram.

Numa entrevista de 1976, na Magazine Littéraire, você utiliza a expressão: “Os insetos necrófagos devoraram o cadáver”.

Sim, de fato, diziam aos estudantes: seremos nós que realizaremos as aspirações de vocês por meio da revolução proletária. Parasitavam e pensavam responder a estas aspirações por meio do comunismo. Na minha opinião, o Maio de 68 na França teve duas fases: um primeiro momento de espontaneidade, um impulso, que toda a população parisiense viu com simpatia. É preciso dizer também que a total inibição do poder do Estado liberou muita gente de suas doenças psicossomáticas, de suas neuroses. Os consultórios dos psicanalistas e dos psiquiatras se esvaziaram. Mas logo, quando começou a faltar gasolina e se apresentaram os problemas de abastecimento, apareceu a angústia entre a população e rapidamente as pessoas deram as costas ao movimento estudantil.







Que efeitos imediatos teve o Maio de 68?

Depois de Maio, os grupinhos, especialmente os maoístas, acreditaram que se tratava do ensaio geral da revolução. O movimento teve vários efeitos imediatos; por um lado, um relançamento do marxismo como a explicação geral de tudo; por outro, um certo movimento de pessoas jovens que partia para o campo para mudar radicalmente de vida. Mas este segundo movimento se dissolveu rapidamente porque em 1973 estalou uma crise econômica. Até aquele momento os jovens podiam trocar a cidade pelo campo e sabiam que, se voltassem, encontrariam novamente um trabalho. A partir de 1973, já não foi assim.

O outro aspecto, ao meu parecer, é que a civilização ocidental ou burguesa estava muito segura de si mesma até 1968. A tese sociológico-histórica era que a sociedade industrial desenvolvida diminuiria ao máximo as desigualdades, resolveria o problema da pobreza e conseqüentemente generalizaria a boa vida. Era a menos má ou a melhor sociedade possível. Evidentemente, no Leste Europeu se dizia que era o sistema comunista que iria criar um futuro mais radiante.

Havia duas visões radiantes do mundo, ainda que no que concerne ao Leste muito pouca gente acreditava nisso. Mas no Ocidente também começou a ser evidente que ali onde reinava o bem-estar, também havia uma insatisfação profunda. Eu tinha comprovado isso na Califórnia. Me marcou muito o filme No down payment (A mulher do próximo, 1957), de Martin Ritt, que mostrava a profunda infelicidade produzida pela prosperidade econômica.

Maio de 68 marca o fim do sonho da felicidade?

Sim. O mundo maravilhoso das estrelas de Hollywood, que deviam ser felizes, também não era real, como pudemos ver depois do suicídio de Marilyn Monroe e outros. A mitologia da felicidade desta sociedade se dissipava. Fiz uma pesquisa sobre a evolução da imprensa feminina depois do 68 e descobri que as mesmas revistas que até então diziam às mulheres que sendo belas e cozinhando bem podiam ser felizes e conservar os seus maridinhos, mudaram a mensagem para lembrar-lhes que envelheciam, que seus filhos saíam de casa e seus maridos as traíam. Minha tese é que os adolescentes, enquanto elo mais fraca da sociedade ainda não integrada, sentem de forma mais intensa as tragédias e as carências da sociedade. O Maio de 68 foi uma revolta que ia além do simples protesto. Malraux a chamou, acertadamente, crise de civilização.

Há um antes e um depois do 68?

Creio que depois de 68 o prestígio do modelo da sociedade industrial desenvolvida diminui, e mais ainda quando, pela primeira vez, aparece uma crise que põe em dúvida sua viabilidade, a crise do petróleo de 1973, que supõe que o desemprego se instale de forma permanente em nossas sociedades. Para não falar das poluições de todo tipo, do estresse das grandes cidades, da pressão da produtividade, da cronometrização e da deteriorização das condições de trabalho.



E as mudanças nos costumes e na moral social?

O que mudou nos costumes? As relações no interior das famílias. Houve uma evolução, através do movimento feminista, que estava na vanguarda. Não é por acaso que, pouco depois, inclusive sob um Governo de direita, Simone Veil conseguisse levar adiante a lei sobre a interrupção da gravidez, uma lei clássica da reivindicação feminista. Houve também a aceitação da diversidade, das diferentes minorias, sexuais, por exemplo. É certo que houve uma certa liberalização dos costumes e este é um dos aspectos mais interessantes de Maio de 68. Por esta razão o chamamos de brecha, como uma via de água na linha de flutuação do grande navio. Eu diria, além disso, que era o que assinalava a via das revoluções futuras, porque em nenhum momento pensei que os trotskistas nem os maoístas pudessem tomar as rédeas desse processo; pelo contrário, considerava-os retrógrados.

Que leitura política faz agora?

Do ponto de vista político, produziu-se um fenômeno muito interessante; apesar de que os grupinhos presentes eram marxistas, houve uma diminuição da influência do partido comunista sobre a população e especialmente sobre os jovens. Os comunistas nunca estiveram presentes no movimento de 68 e inclusive o condenaram. O próprio George Marchais [secretário-geral do PCF] condenou explicitamente Cohn-Bendit, de quem disse que era “um judeu alemão”. Condenaram o aspecto libertário e também, evidentemente, o fato de que se declararam trotskistas e maoístas. Foi o começo da queda da influência comunista.

Olhando de hoje, qual foi o impacto de Maio de 68?

O Maio de 68 deve ser relativizado até certo ponto, mas continua sendo um eletrochoque. Primeiramente, porque foi uma enorme surpresa, e, além disso, porque converteu a França no único país em que o movimento estudantil foi capaz de desencadear uma gigantesca greve operária. Certamente, houve um grande mal-entendido. Na realidade, o movimento estudantil estava se apropriando do papel revolucionário que se atribuía à classe operária, mas foi a classe operária que se aproveitou da situação para conseguir uma série de importantes aumentos de salário e direitos sindicais.

E depois a direita ganhou as eleições.

Voila. A saturação do Maio de 68, o medo...

O que resta do Maio de 68?

Para começar, o acontecimento foi totalmente esquecido, escondido, por várias gerações. É agora, com esta enorme comemoração midiática, que a história ressurge. Não sei o que a juventude pensa sobre o que aconteceu, mas há um fenômeno francês muito particular que os políticos não conseguem entender. A juventude passa de fases estudiosas, aparentemente despolitizadas, nas quais se diria que se ocupam exclusivamente de si mesmos, de seus estudos, ao despertar bruscamente com uma explosão, muitas vezes provocada por um projeto de reformas, de fato, de mini-reformas secundárias e estúpidas, que serve de detonador a uma revolta estudantil.

O que é interessante é que uma vez que a revolta está iniciada, ela proporciona um prazer maravilhoso aos seus protagonistas, porque lhes permite desafiar a autoridade e a polícia. Então, as autoridades lhes fazem caso, recebem-nos nos palácios, e quando o ministro cede e lhes diz: de acordo, vamos atender às reivindicações de vocês, então contestam: não, não. Queremos mais. E tomam a rua e desafiam o mundo adulto e ficam bêbados de felicidade.

Em seguida, a revolta se decompõe porque, por um lado, um certo número de elementos ativistas tenta controlar o movimento e brigam entre si, e o tempo passa e o movimento se desfaz. Mas o importante é que cada um destes episódios consegue que os jovens se politizem, entrem na polis, na sociedade política, no jogo da coisa pública. Um processo muito saudável para a sociedade francesa.

O presidente Nicolas Sarkozy quer acabar com a herança de Maio de 68, mas se apropria de teses como a que você enunciou sobre a política de civilização.

Não, na realidade só se apropriou do termo. Só disse que é preciso mudar da hegemonia do quantitativo para o qualitativo. Mas não abandonou a idéia de que é preciso manter o crescimento econômico acima de tudo, com o que se afasta muito da minha tese. Por outro lado, há uma crise desta idéia universalista em favor dos particularismos. Eu sou um dos últimos dinossauros, neste sentido.



***





Você viu Woodstock?

Para o jornalista, escritor e político italiano Furio Colombo, terminada a política com o assassinato de Martin Luther King e de Robert Kennedy, a música de Woodstock "era o território amplo, vivo, bem presidido, o mais jovem do mundo, daquilo que restava de esperança".

O artigo foi publicado no jornal La Repubblica, 28-06-2009. A tradução é de Benno Dischinger.

Eis o texto.





À pergunta que me é frequentemente dirigida: estiveste em Woodstock?, respondo não. Mas, se a pergunta é reformulada de outro modo (“viste Woodstock?”), respondo sim. E esclareço: naquele dia e lugar. Mas então – insistem os interlocutores que sabem de minha longa travessia da América de um lado ao outro e com muitos personagens e intérpretes da época por três décadas – estiveste ou não estiveste? Estive, e vi; mas de outro modo. E, do ponto em que me encontrava pareceu-me ser testemunha de um momento no qual algo muda para sempre. Vi as últimas horas da música dos jovens filhos rebeldes dos EUA. Vi acabar a música dos jovens e nascer o grande business. Vi o povo jovem que impelira aquela música no nascimento a transformar-se – num mágico instante – de povo a público, de protagonista a consumidor, de proprietário a usuário da nova música. Naquele momento, terminada a política com o assassinato de Martin Luther King e de Robert Kennedy, a música era o território amplo, vivo, bem presidido, o mais jovem do mundo, daquilo que restava de esperança.



Woodstock é o dia – e a noite e o dia, e o sol e o lodo e a chuva, e os jovens corpos envencilhados e sem defesa – nos quais tudo termina. Acabou a tal ponto que naquelas horas começou a perecer a música. E por décadas (podemos dizer até Obama?) se apagou a política, transferida, entrementes, nas enquetes jornalísticas e nos tribunais de Watergate. Eis o meu testemunho: vi Woodstock de um helicóptero, quando me levaram à festa recém estourada com um repique de guitarras na vasta pradaria povoada por uma multidão que ninguém esperava, um imenso permanecer no nada de garotos e garotas jovens e nus, precipitados em dezenas de milhares, depois em centenas de milhares dentro de seu sonho obstinado no qual música, vida e política (e portanto paz no Vietnã, paz por toda parte) eram a mesma coisa. Quando Joan Baez decidiu estar ali, não era mais possível chegar de auto ao fundo do palco. Não era possível atravessar a pé a multidão dos jovens zumbi, imersa no doce frenesi – mas também impossível interromper – do sonho-alucinação. Ver do helicóptero que saudavam como náufragos aquele vôo (aqueles vôos) que carregavam as suas vozes, os seus amigos, quase sempre coetâneos, com quem – até aquele instante – haviam convivido, era o sinal da grande transformação.



Estava de fato mudando para sempre aquela vida jovem, das margens do Alabama ao enfileirar-se diante dos soldados com baioneta calada, no ano anterior, agosto de 1968, nos meses dias de agosto, nas ruas de Chicago, enquanto a Convenção Democrática, protegida pelo fio calado e pelas tropas, escolhia a guerra e perdia os seus jovens. Eram tantos em Chicago a guiar o grande canto de protesto que nenhuma baioneta tivera a força de extinguir. Aquela multidão de corpos era a própria Woodstock? Jamais o saberemos. Mas, o ir e vir dos helicópteros no céu, que talvez a alguém terá recordado as imagens do Vietnã, assinalaram a separação. Aqui os star, ali o público. Aqui as grandes casas que produzirão os discos com esplêndidas capas; ali os jovens que acreditavam estarem todos juntos, serem todos artistas, todos star, porque igualmente belos e jovens. Mas foram separados e declarados para sempre “consumidores”.



Do palco – que era inacessível e, por força, muito alto acima da multidão, e depois, após o furacão, quando a partida se tornou possível – eu os vi no lodo. Permaneciam exaustos e abraçados, após uma longa marcha cheia de sonhos (ilusões?), de esperas insensatas, de canções que durarão trinta anos, tão belas eram (são) e plenas de um estranho fervor e uma sonoridade que permanece para sempre. Mas, estavam lá, como uma ilustração de Gustave Doré para uma Divina Comédia, porém em cores. A cor dos seus corpos, dos seus jeans, dos seus cabelos, das camisas perdidas longe nas poças, era tudo o que restava daquela década inesquecível de vida, de morte, de espera do grande Messias coletivo que é a vida dos jovens. Por um instante haviam possuído a História. Haviam freado o mundo de negócios e de armas. Todos, por um instante – também em guerra – tiveram que escuta sua música. Depois, basta. O helicóptero, a casa discográfica, a grande distribuição, os registros, os criativos, os “packaging people”, vão se embora nas nuvens.





Fonte: http://unisinos.br/ihu/index.php?option=com_noticias&Itemid=18&task=detalhe&id=13828

quarta-feira, 27 de maio de 2009

Comunicado 4 - O Fim do Mundo





Hakim Bey


Mais precisamete porque se fez necessário numa época sensacional de gripe econômica, gripe ambiental, gripe política, suina, enfim. Na espera pelo gradissíssimo espirro final do progresso.

"A AAO declara-se oficialmente entediada com o Fim do Mundo. A versão canônica tem sido usada desde 1945 para nos manter acovardados diante do medo da Inevitável Destruição Mútua e em chorosa servidão aos nossos políticos super-heróis ( os únicos capazes de lidar com a fatal Criptonita Verde)...

Qual a importância de termos descoberto uma forma de destruir a vida na Terra? Quase nenhuma. Nós imaginamos isso como uma forma de fuga da contemplação de nossas próprias mortes individuais. Criamos um emblema para servir como imagem-espelho de uma imortalidade descartada. Como ditadores dementes, desfalecemos ao pensar em levar tudo conosco para o fundo do Abismo.

A versão não oficial do Apocalipse envolve uma nostalgia lasciva pelo Fim e por um Éden pós-Holocausto onde os sobreviventes (ou os 144 mil eleitos das Revelações) podem se entregar indolentemente às orgias de histeria dualista, aos intermináveis confrontos finais com um demônio sedutor...

(...)

Hakim Bey


Qualquer um que pode ler a história com os dois hemisférios do cérebro sabe que um mundo termina a todo instante - as ondas do tempo lavam tudo e deixam apenas as memórias de um passado fechado e petrificado - memória imperfeita, ela mesma moribunda e outonal. E a todo instante também é gerado um mundo novo - apesar dos protestos dos filósofos e dos cientistas cujos corpos se paralisaram - uma atualidade na qual todas as impossibilidades se renovam, em que arrependimentos e premonições dissipam-se em nada num único gesto presencial, psicomântrico e hologramático.

O passado "normativo'' ou a futura morte do universo significam tão pouco para nós quanto o PIB do ano passado ou a degeneração do Estado. Todos os passados Ideais, todos os futuros que ainda não passaram, simplesmente obstruem a nossa consciência da vívida presença total.

Certas seitas acreditam, que o mundo (ou "um'' mundo) já chegou ao fim. Para as Testemunhas de Jeová, aconteceu em 1914 (isso mesmo, senhores, estamos vivendo o Livro das Revelações agora). Para certos ocultistas orientais, aconteceu durante a grande Conjunção dos Planetas em 1962. Joaquim de Fiore proclamou a Terceira Era, a do Espírito Santo, que substituiu a do Pai e do Filho. Hassan II de Alamut proclamou a Grande Ressurreição, a imanência do eschaton, o paraíso na Terra. O tempo profano terminou em algum ponto da Idade Média. Desde então, vivemos em tempos angelicais - só que a maioria de nós não sabe disso.

Ou, partimos de um ponto de vista monista ainda mais radical: o Tempo nunca começou. O Caos nunca morreu. O Império nunca foi fundado. Não somos e nunca fomos escravos do passado ou reféns do futuro.

Sugerimos que o Fim do Mundo seja declarado um fait acompli; a data exata não importa. Os ranters, em 1650, sabiam que o Milênio se inicia agora em cada alma que desperta para si mesma, para o seu próprio centro e divindade. "Regozije-se, companheiro'', era o cumprimento que usavam. "Tudo é nosso!''

Eu não quero participar de qualquer outro Fim do Mundo. Um garoto sorri para mim na rua. Um corvo negro pousa numa árvore de magnólias rosadas, grasnando enquanto o orgônio se acumula e é liberado numa fração de segundo sobre a cidade... o verão começa. Eu posso ser seu amante... mas cuspo em cima do seu Milênio."




Hakim Bey - CAOS - Terrorismo Poetico e Outros Crimes Exemplares


Fontes:

http://amescachees.blogspot.com/2009/05/comunicado-4-o-fim-do-mundo.html

e

quinta-feira, 23 de abril de 2009

O Deus exilado



(Matérias extraídas do Blog Holosgaia)

Os cristãos gnósticos são o tema do livro ‘Deus Exilado’, escrito por professora da USP.

A história do Cristianismo no mundo se divide entre perseguidos e perseguidores. A intolerância com a fé alheia promoveu - e ainda promove - muitos levantes e massacres ao longo dos séculos. Guerras civis em nome da religião sufocaram muitos credos em nome um totalitarismo cristão, baseado em dogmas impostos pela maioria. Mas houve um tempo em que as crenças cristãs eram bem mais pluralistas do que hoje; nessa época, aceitavam-se todas as opiniões sobre o quê e quem era Deus. A Palavra era interpretada ao modo de quem nela acreditava, gente simples ou de posses.



Esse período e seus principais personagens - os cristãos gnósticos que viveram nos três primeiros séculos de nossa era - são o tema do livro Deus Exilado (Civilização Brasileira; 272 páginas; R$ 39,00), escrito pela professora de história da filosofia e doutrinas políticas da Escola de Comunicação e Arte da USP, Marília Fiorillo.


Chamados pela autora de “anarquistas espirituais”, os cristãos gnósticos, segundo ela, eram “livres-pensadores discípulos de Jesus e se consideravam Seus genuínos seguidores, cristãos de verdade e opositores dos ‘falsos crentes’ (futuros católicos)”.


De acordo com Marília Fiorillo, os gnósticos eram "extremamente influentes no Egito, na Síria e na Ásia Menor, populares e incômodos o suficiente a ponto de desencadearem a primeira campanha anti-herética da Igreja que apenas engatinhava".


A existência dessa seita do Cristianismo foi confirmada pela descoberta nos anos 1970 dos manuscritos da biblioteca de Nag Hammadi, pequena localidade no Egito, e que continha os evangelhos gnósticos. “Foi uma reviravolta na história oficial, que os ignorava e os tratava como hereges tardios”, afirma a professora.


Doutora em História Social, Marília Fiorillo foi buscar na Ciência o rastro da seita cujos seguidores pensavam muito diferente dos cristãos que os sucederam. Documentos paleográficos “provaram que o cristianismo primitivo, o dos três primeiros séculos, quase nada tinha em comum com aquela doutrina exclusivista e excludente transformada em religião oficial pelo imperador Constantino no século IV, e logo tornada religião única e obrigatória do Império Romano”, afirma a autora.


Segundo o livro da professora da USP, os cristãos gnósticos foram sendo dizimados ao longo dos séculos e desapareceram por completo na Idade Média, pelas mãos do papa Inocêncio III. Foi ele quem promoveu a Cruzada Albigense, que queimou vivos tantos “bons homens” como os gnósticos eram conhecidos na época.


A barbárie em nome de um credo único foi tanta que cidadelas inteiras foram queimadas, mesmo depois que seus moradores já haviam se rendido ao Catolicismo. A Igreja não poderia deixar rastro do pensamento irreverente dos gnósticos.


Na apresentação da publicação, a autora diz que o livro é "para gente desconfiada. Para quem desconfia que há muita história que nos foi subtraída, não por odiosa conspiração dos vencedores, mas porque a versão do vencido se perde no rastro da história".


A autora afirma também que Deus Exilado pode ser um livro "para quem está preocupado com o avanço do fundamentalismo religioso, que intoxica o mundo de modo tão ecumênico, infiltrando-se em todos os cantos do planeta".



Entrevista com Marília Fiorillo

Quando e em que circunstâncias surgem os primeiros movimentos gnósticos?

Falar em gnosticismo é o mesmo que falar em cristianismo primitivo, pois os cristãos gnósticos surgem com os primeiros grupos de seguidores de Jesus, já em finais do século I , e são praticamente os primeiros e únicos no Egito e na Síria oriental (que, com Antioquia e Roma, eram as metrópoles da nova religião), até o século IV. Isto ficou comprovado pela descoberta recente dos manuscritos de Nag Hammadi, e dos Evangelhos de Maria e de Judas, que, apesar de encontrados em locais diferentes, fazem parte de uma mesma "biblioteca" gnóstica, isto é, trazem uma versão própria e diferente do que as comunidades então acreditavam ter sido a mensagem do fundador Jesus. Pode-se dizer que este livro trata de uma revisão histórica, ao dar voz aos perdedores da primeira batalha dentro do cristianismo, revelando fatos e ideários que não foram registrados na história oficial da Igreja. Esta, aliás, os combateu desde o princípio, e os derrotou de vez assim que a facção de Roma -a dos futuros católicos- ganhou a simpatia do imperador Constantino e se tornou a religião oficial do império romano.A descoberta de um rico e vasto material sobre as comunidades gnósticas permitiu a divulgação, e reinterpretação, de uma outra versão sobre os primórdios do cristianismo. È interessante como esta questão das versões é atualíssima, e está em pauta, por exemplo, no principal episódio de política internacional que ocupou as manchetes nos últimos dias: os acontecimentos dramáticos que têm ocorrido na Faixa de Gaza. A versão oficial de Israel é a da legítima defesa; a versão de vários governos tem sido a de que se trata de um ataque desproporcional; já a versão do comissariado de direitos humanos da ONU, da Cruz Vermelha, da Anistia Internacional, da Human Rights Watch e de outras organizações humanitárias , após a divulgação dos últimos acontecimentos, é a de que se trata de um crime de guerra. A perseguição aos gnósticos foi brandíssima, mesmo tímida, se comparada ao atual massacre da população civil palestina. Mas em ambos os casos a história acaba se tornando a versão daquele que vence, daquele que ficou, ou ficará, para contá-la com autoridade ou legitimidade.

Quais são as principais questões que mobilizam seus integrantes, e quais os principais ramos que se desenvolvem?

Uma das principais características do gnosticismo é sua pluralidade. Eles divergem dos ortodoxos - aqui entendidos como os futuros católicos, "futuros" pois, até o século IV, ninguém poderia dizer ao certo quem era "orto", isto é, "reto", e quem era "hetero", isto é "diferente", pois as doxas (isto é, opiniões, no caso sobre o cristianismo) se equilibravam em número de adesões, importância e popularidade. Isto fica claro quando lembramos que dois dos expoentes gnósticos do século II, Valentino e Marcion, concorreram ao mais alto cargo de bispo inclusive em terreno alheio, isto é, Roma.Assim, os gnósticos divergem mesmo entre si, e muito: há os que acham que a ressurreição foi só simbólica (os docéticos) e os que crêem que foi real, material; há aqueles simpáticos a certas passagens da Torá hebraica e os que a repudiam veementemente; os que acham que Jesus era um sábio, ou um anjo, ou um mestre ou a própria divindade.Neste oceano de divergências compartilhadas eles têm, porém, três princípios em comum:
1) o de que o caminho para a salvação se faz pela gnose, ou conhecimento direto e individual de Deus, e não pela fé em algo transmitido por terceiros;
2) a idéia de que conhecer Deus é se conhecer, isto é, que cada pessoa possui uma faísca do divino em si; e
3) uma certa insolência ou arrogância que se revela tanto no estilo de seus evangelhos como no menosprezo que devotam aos opositores ortodoxos, para eles uns "tolos" e "falsos cristãos".

Como se dá o diálogo entre esses pensadores e o cristianismo?

Na verdade esses pensadores –pregadores, lideranças ou escritores- são tão cristãos quanto os que ficaram com o título. O diálogo e debate é intenso e feroz, eles se acusam mutuamente (de ímpios ou tolos) e há mesmo autores que dizem ser impossível imaginar a Igreja sem eles, pois eram a sombra uns dos outros, tamanha a competição, e em pé de igualdade. Dois padres da Igreja escreveram profusamente sobre eles no segundo século, Irineu de Lyon e Tertuliano de Cartago –este último foi tão zeloso em sua campanha que seu purismo acabou levando-o a ser excomungado pela própria Igreja.
Quando Irineu e Tertuliano acusam os gnósticos de "serpentes, escorpiões, devassos", o que lhes incomoda são principalmente dois traços de seus adversários: a imaginação (muitas vezes desenfreada ), e a audácia.
A principal acusação de Irineu era a de que os gnósticos não possuíam "o medo de Deus em seus corações". Para este primeiro teólogo da Igreja, o medo da punição divina era o que forjava um bom cristão, e como os gnósticos não pareciam movidos a medo, sugeriu que o melhor método para tratar estes adversários internos era "ferir fundo a besta".
A principal crítica de Tertuliano -além de seu horror ao "despudor" das mulheres que participavam como iguais dos cultos gnósticos- era que estes "dissidentes" misturavam platonismo, isto é, filosofia, com cristianismo, e se permitiam a veleidade de pensar como bem entendiam. A "humanidade" (sic) com que os gnósticos se tratavam, assim como o "atrevimento" de suas mulheres , além da mania petulante deles de "perguntar sobre tudo" eram, segundo Tertuliano, vícios imperdoáveis.
Mas o mais interessante, agora que se pode ler na íntegra as idéias contidas nos manuscritos gnósticos, é notar o quanto a teologia dita ortodoxa nasceu, na verdade, de um empréstimo das idéias gnósticas, viradas do avesso. Por mais que Irineu e Tertuliano abominassem a imaginação gnóstica, foi nela que beberam. A teologia ortodoxa nasce como uma teologia da refutação, em que os éons dos gnósticos foram transformados em anjos, a ignorância (para os gnósticos, fonte de todo mal) virou pecado e a questão do sofrimento humano foi equacionada no livre-arbítrio.




Em que o gnosticismo pode ser importante para as reflexões contemporâneas?

Em uma palavra: no amor à liberdade. Os gnósticos eram ridicularizados e atacados por seus oponentes tanto por seu "excesso de imaginação" , isto é, pela livre interpretação que faziam da mensagem cristã (um de seus críticos dizia que eles empilhavam doutrinas como quartos de aluguel, e que havia tantos gnosticismos quanto membros de uma congregação), quanto por sua excessiva tolerância –eles admitiam que mulheres virassem bispos, adotavam o sistema de funções em rodízio, e achavam que o contato com Deus era direto e não precisava da intermediação de uma casta sacerdotal. A principal lição destes anarquistas espirituais é o elogio da convivência, o gosto pela diferença, e uma profunda antipatia por dogmas e autoridades auto-proclamadas. Numa época como a nossa, em que os fundamentalismos religiosos de todos os matizes ganham terreno, o gnosticismo é uma rara e feliz mostra de que, certa vez, foi possível conciliar o ímpeto pelo sagrado com a autonomia e liberdade de cada indivíduo, deixando os assuntos de Deus a cargo e competência de cada um, em vez de excluir, perseguir e matar coletivamente em Seu nome.

Fontes:

http://oglobo.globo.com/blogs/prosa/...st=154712&a=96

e

http://www.cristianismohoje.com.br/artigo.php?artigoid=37075


(Matérias extraídas do Blog HolosGaia)