quarta-feira, 18 de novembro de 2009

A Consciência é livre




Pergunta: Acabo de chegar do Sri Ramanashram. Passei ali sete meses.




Maharaj: Que práticas você esteve seguindo no Ashram?



P: Concentrei-me tudo o que pude no ‘Quem sou eu?’.



M: De que modo o fazia? Verbalmente?



P: Em meus momentos livres ao longo do dia. Algumas vezes murmurava para mim mesmo ‘Quem sou eu?’ ‘Eu sou, mas quem sou eu?’ Ou eu o fazia mentalmente. Em algumas ocasiões, tinha alguns sentimentos agradáveis ou entrava em estados de tranquila felicidade. Em geral, eu tentava estar quieto e receptivo em vez de esforçar-me em ter experiências.



M: O que experimentava realmente quando estava no humor adequado?



P: Um sentimento de quietude interior, paz e silêncio.



M: Observou-se ao se tornar inconsciente?



P: Sim, ocasionalmente, e por pouco tempo. De outro modo, estava simplesmente tranquilo, interna e externamente.



M: Que tipo de tranquilidade era? Algo parecido ao sono profundo, mas consciente ao mesmo tempo? Uma espécie de sono acordado?



P: Sim. Alertamente adormecido (jagrit-sushupti).



M: O principal é libertar-se das emoções negativas – desejo, medo, etc., os ‘seis inimigos’ da mente (ignorância, medo, desejo (apego ao), aversão, inveja e orgulho). Uma vez que a mente esteja livre deles, o resto virá facilmente. Assim como o tecido, mantido em água com sabão, ficará limpo, a mente se purificará na corrente do sentimento puro.



Quando você senta tranquilamente e observa a si mesmo, todos os tipos de coisas podem vir à superfície. Não faça nada a respeito, não reaja a elas; do mesmo modo que vieram, irão embora por si mesmas. Tudo o que importa é a atenção, a total Consciência de si mesmo, ou melhor, da própria mente.



P: Por ‘si mesmo’ você quer dizer o ser de todos os dias?



M: Sim, a pessoa, a única que é objetivamente observável. O observador está além da observação. O que pode ser observado não é o ser real.



P: Sempre posso observar o observador, em infindável recessão.



M: Você pode observar a observação, não o observador. Você sabe que é o observador final por percepção direta, não por um processo lógico baseado na observação. Você é o que é, mas conhece o que você não é. O ser é conhecido como existência, o não-ser é conhecido como transitório. Mas, na realidade, tudo está na mente. Observado, observação e observador são construções mentais. Só o ser é.



P: Por que a mente cria todas estas divisões?



M: A própria natureza da mente é dividir e particularizar. Não há dano em dividir. Mas a separação vai contra a realidade. As coisas e as pessoas são diferentes, mas não estão separadas. A natureza é uma, a realidade é uma. Existem opostos, mas não oposição.



P: Percebo que sou muito ativo por natureza. Aqui, sou aconselhado a evitar a atividade. Quanto mais tento permanecer inativo, maior é o impulso para fazer algo. Isto não só me torna ativo exteriormente, mas me faz lutar interiormente para ser o que não sou por natureza. Há algum remédio contra a ânsia de agir?



M: Há uma diferença entre o trabalho e a mera atividade. Toda a natureza trabalha. O trabalho é natureza, a natureza é trabalho. Por outro lado, a atividade está baseada no desejo e no medo, na ânsia de possuir e apreciar, no medo da dor e da aniquilação. O trabalho é do todo para o todo; a atividade, de si mesmo para si mesmo.



P: Há algum remédio contra a atividade?



M: Observe-a, e ela deverá cessar. Utilize toda a oportunidade para recordar-se que está aprisionado, que tudo o que acontece a você se deve ao fato de sua existência corporal. O desejo, o medo, os problemas, o gozo, não poderão aparecer a menos que você exista para que lhe apareçam. Mesmo assim, tudo o que acontece aponta para sua existência como centro de percepção. Seja indiferente aos indicadores e consciente do que apontam. É muito simples, mas deve ser feito. O que importa é a persistência com que você continua voltando para si mesmo.



P: Entro em um peculiar estado de profunda absorção em mim mesmo, mas de modo imprevisível e momentâneo. Não me sinto no controle de tais estados.



M: O corpo é algo material e necessita tempo para mudar. A mente é apenas um conjunto de hábitos mentais, de modos de pensar e sentir e, para mudar, devem ser trazidos para a superfície e examinados. Isto também leva tempo. Simplesmente, decida-se e persevere, o resto cuidará de si mesmo.



P: Parece-me que tenho uma ideia clara do que fazer, mas me percebo ficando cansado e deprimido, e buscando companhia humana, perdendo assim o tempo que deveria ser dado para a solidão e a meditação.



M: Faça o que quiser fazer. Não se intimide. A violência o tornará duro e rígido. Não lute contra os obstáculos que vê no seu caminho. Interesse-se por eles, veja-os, observe, investigue. Deixe que as coisas aconteçam – boas ou más. Mas não se deixe afundar pelo que acontece.



P: Qual o propósito de lembrar-se todo o tempo que se é o observador?



M: A mente deve aprender que, além da mente móvel, existe a base da Consciência, a qual não muda. A mente deve conhecer o verdadeiro ser e respeitá-lo, e deixar de encobri-lo, como a lua que obscurece o sol em um eclipse. Compreenda que nada observável, ou que possa ser experimentado, é você, ou o limita. Não tome conhecimento do que não é você mesmo.



P: Devo ser incessantemente consciente para fazer o que você me diz.



M: Ser consciente é estar desperto. Inconsciente significa adormecido. De qualquer modo você é consciente, não necessita tentar sê-lo. O que necessita é ser consciente de ser consciente. Seja consciente deliberada e conscientemente; amplie e aprofunde o campo da Consciência. Você sempre é consciente da mente, mas não é consciente de si mesmo como ser consciente.



P: Como posso entender, você dá distintos significados para as palavras ‘mente’, ‘consciência’ (consciousness) e ‘Consciência’ (awareness).



M: Veja deste modo. A mente produz pensamentos incessantemente, mesmo quando você não os observa. Quando sabe o que está acontecendo em sua mente, você a chama consciência (consciousness). Este é o seu estado de vigília – sua consciência se move de sensação em sensação, de percepção em percepção, de ideia em ideia, em uma sucessão sem fim. Logo vem a ‘Consciência’ (awareness), a percepção direta dentro do todo da consciência, a totalidade da mente. A mente é como um rio, fluindo sem cessar no leito do corpo; por um momento você se identifica com alguma onda em particular e a chama ‘meu pensamento". Tudo de que você está consciente é sua própria mente; a Consciência é o conhecimento da consciência como um todo.



P: Todos estão conscientes, mas nem todos são Consciência.



M: Não diga: ‘Todos estão conscientes’. Diga: ‘Há consciência’ na qual tudo aparece e desaparece. Nossas mentes são apenas ondas no oceano da consciência. Como ondas, vêm e vão. Como oceano, são infinitas e eternas. Conheça a si mesmo como o oceano do ser, o útero de toda existência. Certamente, tudo isto são metáforas; a realidade está além da descrição. Só sendo a realidade você pode conhecê-la.



P: Vale a pena buscá-la?



M: Sem ela tudo é problema. Se quiser viver uma vida sadia, criativa e feliz, tendo infinitas riquezas a compartilhar, busque o que você é. Enquanto a mente estiver centrada no corpo e a consciência na mente, a Consciência é livre. O corpo tem seus impulsos e a mente, suas dores e prazeres. A Consciência é desapegada e inabalável. É lúcida, silenciosa, pacífica, alerta e despreocupada, sem desejo nem temor. Medite nela como seu verdadeiro ser e tente sê-la em sua vida diária, e você deverá compreendê-la em sua plenitude. A mente está interessada no que acontece, enquanto a Consciência se interessa na própria mente. A criança vai atrás do brinquedo, mas a mãe observa a criança, não o brinquedo.



Observando incessantemente, esvaziei-me por completo e com esse vazio tudo regressou a mim, exceto a mente. Descobri que havia perdido a mente irreparavelmente.




P: Você está inconsciente enquanto nos está falando?




M: Não estou nem consciente nem inconsciente, estou além da mente e de seus vários estados e condições. As distinções são criadas pela mente e se aplicam apenas a ela. Sou a própria pura consciência, a Consciência íntegra de tudo que é. Estou em um estado mais real que o de vocês. As distinções e separações que constituem uma pessoa não me distraem. Enquanto o corpo durar, ele terá suas necessidades como qualquer outro, mas o processo mental terminou.



P: Você se comporta como uma pessoa que pensa.



M: Por que não? Mas meu pensamento, como minha digestão, é inconsciente e propositado.



P: Se seu pensamento é inconsciente, como você sabe que ele está correto?



M: Não há nenhum desejo nem temor que o impeça. O que pode fazê-lo incorreto? Uma vez que me conheça e ao que represento, não necessito verificar-me todo o tempo. Quando você sabe que seu relógio marca a hora certa, você não duvida cada vez que o consulta.



P: Quem fala neste próprio momento senão a mente?



M: Este que ouve a pergunta a responde.



P: Mas quem é?



M: Não quem, mas o quê. Eu não sou uma pessoa no seu sentido da palavra, embora eu possa parecer uma pessoa para você. Sou o infinito oceano de consciência no qual tudo acontece. Estou também além de toda existência e conhecimento, pura bem-aventurança de ser. Nada existe que eu sinta como separado de mim, portanto sou tudo. Nada sou eu, assim eu sou nada.



O mesmo poder que faz arder o fogo e fluir a água, que faz a semente brotar e a árvore crescer, faz com que responda suas perguntas. Não há nada pessoal sobre mim, embora a linguagem e o estilo possam parecer pessoais. Uma pessoa é um conjunto de padrões de desejos e pensamentos, e ações resultantes; no meu caso não existem tais padrões. Não há nada que eu deseje ou tema – como pode existir um padrão?



P: Seguramente, você morrerá.



M: A vida escapará, o corpo morrerá, mas isto não me afetará o mínimo. Além do espaço e do tempo eu sou, sem causa, causa de nada, e ainda assim a própria matriz da existência.



P: Permita-me perguntar como você chegou à sua presente condição?



M: Meu mestre falou-me para agarrar-me tenazmente ao sentido de ‘Eu sou’ e que não me desviasse dele nem por um momento. Segui seu conselho e, em um tempo comparativamente curto, compreendi, dentro de mim mesmo, a verdade de seu ensinamento. Tudo o que fiz foi lembrar constantemente seu ensinamento, seu rosto, suas palavras. Isto acabou com a mente; na quietude da mente, vi a mim mesmo como sou – ilimitado.



P: Sua realização foi repentina ou gradual?



M: Nem uma nem outra. É-se o que se é atemporalmente. É a mente que compreende como e quando ela fica livre de desejos e temores.



P: Mesmo o desejo de realização?



M: O desejo de colocar um fim a todos os desejos é o mais peculiar, da mesma forma que ter medo de estar amedrontado é um temor muito peculiar. Um o impede de agarrar e o outro o impede de escapar. Você pode usar as mesmas palavras, mas os estados não são o mesmo. O homem que busca a realização não está viciado em desejos; ele é um buscador que vai contra o desejo, não com ele. O anseio geral por libertação é apenas o começo; encontrar os meios adequados e usá-los é o próximo passo. O buscador tem apenas uma meta: encontrar seu próprio ser verdadeiro. De todos os desejos, este é o mais ambicioso, pois nada nem ninguém poderá satisfazê-lo; o buscador e o buscado são um, e só a busca interessa.



P: A busca acabará. O buscador permanecerá.



M: Não, o buscador se dissolverá, a busca continuará. A busca é a última e atemporal realidade.



P: Busca significa carência, desejo, incompletude e imperfeição.



M: Não, ela significa recusa e rejeição do incompleto e do imperfeito. A busca da realidade é o próprio movimento da realidade. De um certo modo, toda busca é pela bem-aventurança real, ou a bem-aventurança do real. Mas aqui, por busca queremos dizer a busca de si mesmo como a raiz do ser consciente, como a luz além da mente. Esta busca nunca terminará, enquanto a ânsia incessante por tudo mais deve terminar para que o progresso real aconteça.



Deve-se entender que a busca da realidade, de Deus, ou do Guru, e a busca do ser são a mesma; quando um é encontrado, todos são encontrados. Quando ‘Eu sou’ e ‘Deus é’ tornam-se indistinguíveis em sua mente, então algo acontecerá e você conhecerá, sem sombra de dúvida, que Deus é porque você é e você é porque Deus é. Os dois são um.



P: Desde que tudo é predestinado, está predestinada nossa autorrealização? Ou somos livres ao menos nisto?



M: O destino se refere apenas ao nome e à forma. Desde que você não é nem o corpo nem a mente, o destino não tem nenhum controle sobre você. Você é completamente livre. A taça é condicionada por sua forma, material, uso e assim por diante. Mas o espaço no interior da taça é livre. Ele está na taça apenas quando visto em conexão com ela. De outra forma é apenas espaço. Enquanto há corpo, você aparenta estar encarnado. Sem o corpo, você não está desencarnado – você simplesmente é.



Mesmo o destino é apenas uma ideia. As palavras podem estar juntas de muitas maneiras! As frases podem diferir, mas mudam algo no real? Há muitas teorias inventadas para explicar as coisas – todas são plausíveis, nenhuma é verdadeira. Quando você dirigir um carro, você estará sujeito às leis da mecânica e da química: saia do carro e você estará sob as leis da fisiologia e da bioquímica.



P: O que é meditação e para que serve?



M: Enquanto você for um principiante, certas meditações formais, ou orações, poderão ser boas para você. Mas, para o buscador da realidade, existe apenas uma meditação – a recusa rigorosa a acolher pensamentos. Estar livre de pensamentos é a própria meditação.



P: Como isto é feito?



M: Você começa por permitir que os pensamentos fluam, e os observa. A própria observação aquieta a mente até que ela para totalmente. Uma vez quieta a mente, mantenha-a quieta. Não fique entediado com a paz, esteja nela, vá profundamente para dentro dela.



P: Ouvi acerca de agarrar-se a um pensamento para manter todos os outros afastados. Mas como afastar todos os pensamentos? A própria ideia é também um pensamento.



M: Experimente novamente, não se guie por experiências passadas. Observe seus pensamentos e observe a si mesmo observando os pensamentos. O estado de liberdade de todos os pensamentos acontecerá repentinamente, e você o reconhecerá pela sua bem-aventurança.



P: Você não está de forma alguma interessado sobre o estado do mundo? Olhe para todos os horrores do leste paquistanês. Eles não o afetam em nada?



M: Leio jornais, sei o que está acontecendo! Mas minha reação não é como a sua. Você está buscando uma medida saneadora, enquanto eu estou interessado na prevenção. Enquanto houver causas, deverá haver resultados. Enquanto as pessoas estiverem propensas a dividir e separar, enquanto elas forem egoístas e agressivas, tais coisas acontecerão. Se você quer paz e harmonia no mundo, você deve ter paz e harmonia em seu coração e em sua mente. Tais mudanças não podem ser impostas; devem vir de dentro. Aqueles que abominam a guerra devem expulsá-la de seu sistema. Sem pessoas pacíficas, como você pode ter paz no mundo? Enquanto as pessoas forem como são, o mundo deverá ser como é. Eu estou fazendo a minha parte ao tentar ajudar as pessoas a conhecer a si mesmas como a única causa de suas próprias misérias. Neste sentido, sou um homem útil. Mas o que sou em mim mesmo, o que é meu estado normal, não pode ser expresso em termos de consciência social e utilidade.



Posso falar sobre isso utilizando metáforas ou parábolas, mas sou agudamente consciente que isto não é exatamente assim. Não que não possa ser experimentado.



É a própria experimentação! Mas não pode ser descrito em termos de uma mente que deva separar e opor para conhecer. O mundo é como uma folha de papel sobre a qual alguma coisa é datilografada. A leitura e o significado variarão com o leitor, mas o papel é o fator comum, sempre presente, raramente percebido. Quando a fita é removida, a impressão não deixa nenhum traço sobre o papel. Assim é minha mente – as impressões continuam chegando, mas nenhum traço é deixado.



P: Por que você se senta aqui e fala para as pessoas? Qual seu motivo real?



M: Nenhum. Você diz que devo ter um motivo. Eu não estou sentado aqui, nem estou falando; não é necessário procurar motivos. Não me confunda com o corpo. Não tenho nenhum trabalho para fazer, nem deveres a realizar. Esta minha parte, a qual você pode chamar Deus, cuidará do mundo. Este seu mundo, que tantos cuidados necessita, vive e se move em sua mente. Investigue profundamente nele, você encontrará suas respostas ali e somente ali. De que outra parte você espera que elas venham? Existe algo fora de sua consciência?



P: Pode existir sem que eu nunca saiba.



M: Que tipo de existência seria? Pode o ser estar divorciado do conhecer? Todo ser, como todo conhecer, relaciona-se a você. Uma coisa é porque você sabe que é, ou em sua experiência ou em seu ser. Seu corpo e sua mente existem enquanto você assim acreditar. Cesse de pensar que eles são seus e eles se dissolverão. Sem dúvida, deixe seu corpo e sua mente funcionar, mas não os deixe limitá-lo. Se você observar imperfeições, siga observando; a própria atenção que você lhes dá colocará seu coração, sua mente e seu corpo em ordem.



P: Posso curar-me de uma grave enfermidade pelo mero fato de conhecê-la?



M: Conheça a enfermidade como um todo, não apenas através dos sintomas externos. Toda doença começa na mente. Cuide da mente em primeiro lugar, achando e eliminando todas as ideias e emoções incorretas. Então viva e trabalhe sem dar atenção à enfermidade e sem pensar mais nela. Com a remoção das causas, o efeito é obrigado a partir. O homem se transforma no que ele acredita ser. Abandone todas as ideias sobre você mesmo e você descobrirá ser a pura testemunha, além de tudo que possa acontecer para o corpo ou para a mente.



P: Se eu me transformar em qualquer coisa que pensar, e começo a pensar que sou a Realidade Suprema, não será minha Realidade Suprema uma mera ideia?



M: Primeiro alcance este estado e então faça a pergunta.





Trecho extraído do livro "Eu Sou Aquilo - Conversações com Sri Nisargadatta Maharaj" - Editora Advaita.

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Ideias de Heidegger sob novo ataque



Por décadas, o filósofo alemão Martin Heidegger foi tema de debates acalorados. Sua crítica do pensamento e da tecnologia ocidentais penetrou profundamente na arquitetura, na psicologia e na teoria literária e inspirou alguns dos mais importantes movimentos intelectuais do século XX. Mas Heidegger foi também um nazista fanático.


A reportagem é de Patricia Cohen, do jornal New York Times, e publicada pelo jornal O Estado de S. Paulo, 15-11-2009.


Agora, um livro a ser lançado brevemente em inglês, retoma o debate quanto a se o homem pode ser separado da sua filosofia. Baseado em novas evidências, o autor, Emmanuel Faye, afirma que as ideias racistas e fascistas estão tão entremeadas nas teorias de Heidegger que não merecem mais ser chamadas de filosofia. Assim, as obras e as muitas áreas criadas a partir dessas teorias têm que ser reexaminadas, diz o autor, de modo a não disseminarem ideias sinistras e perigosas para o pensamento moderno quanto foi sinistro e perigoso o "movimento nazista para os povos exterminados".


Publicado pela primeira vez na França em 2005, o livro, Heidegger: Introdução do Nazismo na Filosofia, exorta professores de filosofia a tratarem a obra de Heidegger como discurso odioso. E também as livrarias deveriam abandonar a classificação dos trabalhos do filósofo (que foram saneados e condensados pela família) como filosofia para incluí-los dentro da história do nazismo. Essas medidas funcionariam como sinal de advertência, do mesmo modo que a caveira na etiqueta de uma garrafa de veneno, para impedir a difusão descuidada das suas mais odiosas ideias, que Faye cataloga como a exaltação do Estado em relação ao indivíduo, a impossibilidade da moralidade, o anti-humanismo e a pureza racial.


O livro é o mais violento ataque feito até hoje a Heidegger (1889-1976) e invalidaria o tratamento pela área filosófica da sua obra nos EUA, e ainda mais na França, onde sua leitura é exigida em graus de estudo mais avançados. Faye, professor da Universidade de Paris, em Nanterre, não só deseja tirar Heidegger da classe dos filósofos, como desafia seus colegas a repensar o real objetivo da filosofia e sua relação com a ética. Ao mesmo tempo, estudiosos de disciplinas tão distintas da filosofia, como a poesia e a psicanálise, se obrigariam a reconsiderar o uso das ideias de Heidegger. Embora Faye se refira à estreita correlação entre Heidegger e a atual política de extrema direita, os intelectuais da esquerda quase sempre foram inspirados pelas ideias dele. O existencialis mo e o pós-modernismo, como também os ataques concomitantes ao colonialismo, bombas atômicas, ruína ecológica e noções universais de moralidade, tudo isso está baseado na sua crítica da razão e da tradição culturais ocidentais.


Richard Wolin, autor de diversos livros sobre Heidegger e leitor atento do livro de Faye, diz não estar convencido de que o pensamento do filósofo alemão esteja inteiramente contaminado pelo nazismo, como afirma Faye. Mas reconhece quão longe as ideias de Heidegger se espalharam para a cultura mais geral. "Não estou, absolutamente, subestimando qualquer dessas áreas por causa da influência de Heidegger", ele escreveu num e-mail, referindo-se à influência do pós-modernismo sobre o mundo acadêmico. "Estou simplesmente afirmando que devemos saber mais a respeito dos resíduos e conotações ideológicas de um pensador como Heidegger antes de aceitarmos seu discurso pronto ingenuamente."


Apesar de o texto em inglês editado pela editora da Universidade Yale só estar à venda nos EUA dentro de algumas semanas, ele já está chamando atenção, como foi assinalado por um ensaio na The Chronicle Review, revista de ideias e opinião do The Chronicle of Higher Education. No texto, intitulado Heil Heidegger! , o crítico Carlin Romano qualifica Heidegger como um "falastrão da Floresta Negra" e uma fraude que foi "supervalorizado no seu apogeu" e "bizarramente venerado pelos acólitos ainda hoje". Poucas pessoas leram o livro, mas o artigo gerou mais de 150 comentários online de defensores e detratores ferozes, mais do que qualquer outro trabalho publicado pela The Review este ano, segundo a editora Liz McMille.


Outros entraram na briga. Ron Rosenbaum, autor de Explaining Hitler (Explicando Hitler), chega até a estender o argumento à filósofa judia alemã Hannah Arendt, ex-aluna e amante de Heidegger. Citando ensaio recente do historiador Bernard Wasserstein, Rosenbaum escreveu no website Slate.com. que a ideia de Hannah sobre o Holocausto e a sua famosa formulação da "banalidade do mal" foi corrompida por Heidegger e por outros escritores antissemitas. Comentaristas rejeitam veementemente a noção de que ideias importantes não podem ser extraídas de ideias infames. Escrevendo para o website do The New Republic, o tnr.com, Damon Linker declarou ser "absurdo implicar toda a bibliografia filosófica de Heidegger". Ele e outros repercutiram a opinião do importante filósofo americano Richard Rorty, que, num artigo no The New York Times, escreveu: "Você não pode ler a maioria dos grandes filósofos mais recentes sem levar o pensamento de Heidegger em conta." Rorty acrescentou, contudo, que "o cheiro da fumaça dos crematórios sobreviverá nas suas páginas".


Aos olhos de Faye, a filosofia de Heidegger não pode ser separada da sua política da maneira, digamos, que a verve poética de T.S. Elliot ou a técnica cinematográfica de D.W. Griffith podem ser apreciadas independentemente das suas próprias crenças. Embora não discuta o lugar de Heidegger no panteão intelectual, Faye revisa suas conferências não publicadas e conclui que a filosofia de Heidegger baseava-se nas mesmas ideias do Nacional Socialismo. Sem compreenderem o solo em que a filosofia heideggeriana tem raízes, afirmou, as pessoas não podem entender que suas ideias possam avançar em direções preocupantes. O ditame de Heidegger para ser autêntico e livre das limitações convencionais, por exemplo, pode levar a uma rejeição da moralidade. A denúncia da razão e do modernismo sem alma pode levar a um anti-intelectuali smo grosseiro.


Heidegger juntou-se ao partido nazista em 1933, ao se tornar reitor da Universidade de Freiburg e supervisionou a demissão de professores judeus. Após a guerra, foi proibido de lecionar por um tribunal. Nos anos 50, Hannah Arendt reatou o relacionamento com ele e se empenhou para refazer sua reputação. Heidegger foi um grande crítico da sociedade tecnológica moderna e da tradição filosófica ocidental que propiciou a ascensão dessa sociedade. Segundo ele, nós temos que vencer essa tradição e repensar a real natureza da existência ou do ser humano. Sua prosa é tão densa que, para alguns estudiosos, ela pode ser interpretada para significar qualquer coisa, enquanto outros a rechaçam completamente como sandices. No entanto, ele é considerado um dos maiores e mais influentes pensadores do século.


Teólogos usaram sua crítica da razão para explicar o ato de fé; arquitetos foram inspirados pela sua rejeição das regras convencionais para introduzir uma série de novos estilos, materiais e formas nos projetos de construção. Sua crítica da tecnologia mecanicista atraiu ambientalistas e urbanistas. Mas uma disputa verbal sobre as teorias de Heidegger não deve causar surpresa. Afinal, a posição americana clássica sobre como as sociedades liberais devem tratar ideias perigosas vale a pena ser discutida também. E é isso que Faye diz pretender. Na sua opinião, ensinar as ideias de Heidegger sem revelar suas profundas simpatias pelo nazismo é como levar uma criança a um espetáculo de fogos de artifício sem alertá-la de que um rojão também pode explodir no rosto de alguém.

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Yoga Nidra: sono profundo consciente do yoga




Swami Jñaneshvara Bharati



O Yoga Nidra é uma ferramenta universalmente conhecida como Sono Profundo, onde não há imagens na mente. Se houver imagens, então é o estado Desperto ou Sonho, não o estado de Sono Profundo. O Yoga Nidra está relacionado ao Sono Profundo consciente. Nidra significa Sono Profundo e não Sonho. Sonhar e NÃO sonhar não são a mesma coisa.

Yoga Nidra Avançado: O tipo de Yoga Nidra descrito neste artigo pode ser chamado de Yoga Nidra Avançado. Em anos recentes, o Yoga Nidra tem sido distorcido de modo semelhante ao Yoga. Desafortunadamente, quase qualquer prática guiada que traga um mínimo de relaxamento é chamado Yoga Nidra. Agora é essencial que usemos outro termo, tal como Yoga Nidra Autêntico, Yoga Nidra Tradicional ou Yoga Nidra Avançado. Neste artigo optei pelo termo Yoga Nidra Avançado.


O Yoga Nidra traz calma, tranqüilidade e clareza incríveis. O Yoga Nidra é uma das meditações mais profundas, levando a consciência dos vários níveis do processo mental para um estado supremo de imobilidade e discernimento. As descrições no texto abaixo podem ser difíceis de entender. Com paciência e leitura completa, o entendimento recompensará o esforço, permitindo que se veja a imensa profundidade do Yoga Nidra, que está muito além do simples relaxamento. Diz-se que uma imagem é melhor do que mil palavras. Algumas vezes são necessárias mil palavras para que aconteça o 'aha' interno do entendimento. O mais importante é que é a prática persistente que traz o resultado real do Yoga Nidra, assim como em todas as práticas úteis na vida e no Yoga.


Yoga Nidra significa Sono do Yoga. É um estado de Sono Profundo consciente. Na Meditação, permanecemos no estado Desperto de consciência e gentilmente focamos a mente, enquanto permitimos que padrões de pensamentos, emoções, sensações e imagens surjam e desapareçam. Entretanto, no Yoga Nidra, deixamos o estado Desperto, passamos pelo estado do Sonho e vamos para o Sono Profundo, permanecendo sempre acordados. Embora o Yoga Nidra seja um estado muito relaxante, é usado pelos yogis para purificar os Samskaras, as impressões profundas, que são a força motriz por traz do Karma (leia o artigo Karma).



O Yoga Nidra é conhecido a milhares de anos pelos sábios e yogis. Dos três estados de consciência, o Desperto, o Sonho e o Sono Profundo, como exposto nas Upanishads, em especial na Mandukya Upanishad, o Yoga Nidra se refere a atenção consciente no estado de Sono Profundo, referido como Prajna no Mandukya Upanishad. Este é o terceiro dos quatro níveis de consciência do mantra AUM, relacionado ao estado representado pelo M do AUM. Os quatro estados são: Desperto, Sonho, Sono, e Turiya. O estado do Yoga Nidra, Sono Profundo consciente, está além ou é mais sutil do que as imagens e processos mentais dos estados Desperto e Sonho. Sendo o estado de consciência Sono Profundo, o Yoga Nidra é um princípio universal, e não é um domínio exclusivo de qualquer professor ou tradição mais recente.




No Yoga Nidra, deixamos o estado Desperto,

passamos pelo estado do Sonho,

e no estado de Sono Profundo,

permanecemos totalmente acordados.




Meditação: Imagine que estamos no estado DESPERTO, com todas as distrações tão comuns neste estado de mente. Sistematicamente, fazemos algo com o direcionamento da nossa atenção. Estamos praticando concentração e desapego, que nos conduz para a meditação. Os pensamentos e imagens do estado SONHO começam a vir para a superfície, embora ainda estejamos no estado DESPERTO. Gradualmente, as distrações desaparecem, nossa mente se torna focada e estamos tendo uma bela meditação. Estamos profundamente relaxados e ainda estamos no estado DESPERTO de consciência, que é a natureza da meditação.


Yoga Nidra: Agora, imagine que em algum momento nos DESCEMOS, CAIMOS ou ESVAZIAMOS, ou outra palavra qualquer, para o ESTADO de SONO PROFUNDO, muito parecido com o que faríamos normalmente na cama quando não estamos sonhando. Entretanto, desta vez, descemos todo o caminho ATRAVÉS do estado Sonho e paramos no estado Sono Profundo, apesar de, paradoxalmente, permanecermos despertos e alertas. Este é o nível ABAIXO dos estados DESPERTO e SONHO, e abaixo também de todos os pensamentos e impressões que estão associados com estes dois estados. Agora, estamos no ESTADO de SONO PROFUNDO CONSCIENTE. Este é o estado do YOGA NIDRA.. Yoga Nidra se refere a um estado de consciência e não somente aos métodos que conduzem até lá. Nidra significa sono e não sonhar, e Yoga significa união, onde todos os pensamentos e impressões retrocedem para o campo unificado do qual emergiram.





Swami Rama descreve 'sono insone'

e é mais profundo do que as ondas cerebrais alfa

da reportagem de 1973.


'Um termo comum que está surgindo da pesquisa da mente é o de ondas alfa. Novamente, Swami observa um erro comum e diz enfaticamente: 'Ondas alfa e meditação não são a mesma coisa. Ondas alfa são criadas pelo relaxamento. Não é um estado elevado. Certa vez, quando coloquei meu cachorro pastor alemão na máquina de biofeedback ele gerou 75% de ondas alfa.''







Veja também o artigo: Bindu: Pinnacle of Yoga, Vedanta and Tantra.





Companheiros no Objetivo Mais Elevado: Este ainda não é o elevado objetivo do sadhana (práticas espirituais), que é experimentar a consciência em si, independente de qualquer falsa identificação menos sutil, etc... Podemos chamar isto de purusha, atman, ou a experiência do estado de turiya, o quarto estado, mas é algo diferente e está além do nível do Sono Profundo consciente que é o objetivo do Yoga Nidra. Entretanto, Meditação e Yoga Nidra trabalham em conjunto, como companheiros de prática, na preparação para tal experiência elevada.


(Leia também os artigos sobre os Níveis de Consciência: OM and the Seven Levels of Consciousness, 4 Levels and 3 Domains of Consciousness e Mandukya Upanishad,)



Yoga Nidra e Meditação do Yoga São Companheiros



Na Meditação, permanecemos no estado de consciência Desperto e gradualmente permitimos que os níveis inconsciente e subconsciente se manifestem, expandido o estado Desperto com a concentração direcionada e sem apego aos fluxos de impressões que transbordam no campo da mente.


Estado Desperto

A do AUM






No Yoga Nidra, deixamos o estado de consciência Desperto e vamos para o estado de consciência Sono Profundo, ainda que paradoxalmente permaneçamos totalmente despertos. Este é um estado extremamente relaxante nos quais os samskaras do apego e da aversão, a força motriz por traz do karma, têm sua força atenuada.



Estado Sono Profundo

M do AUM






O sonhar acordado, que é experimentado entre os estados Desperto e Sonho, como quando acordamos algumas vezes de manhã com uma agradável sensação de estar meio desperto e meio sonhando, não é Yoga Nidra. Este sonhar acordado é com freqüência o objetivo do relaxamento e dos exercícios de visualização, mas o Yoga Nidra é muito mais profundo.


Transição/Sonhar Acordado


O Yoga Nidra permite o acesso ao nível latente ou subconsciente da mente, que está abaixo até mesmo do nível da mente que processa, fantasia e imagina. Este nível latente é a entrada para o nível causal da realidade, do qual brota o plano sutil, psíquico, astral da realidade, que por sua vez causa, ou faz nascer, o nível denso.



Meditação e Yoga Nidra trabalham juntos, como companheiros de prática, através do qual purificamos os níveis mais profundos da mente e expandimos o estado de consciência para incluir o que era previamente inconsciente. Finalmente, a expansão inclui a realização da consciência pura que permeia todos os níveis.

Turya


***

Yoga Nidra é um estado de consciência
e não os métodos que conduzem para este estado.



A Consciência Recua no Yoga Nidra



Estado Desperto: No estado Desperto de consciência, os três níveis estão ativos e sendo usados. A mente Consciente está evidentemente sendo usada. A mente Inconsciente também está processando, apesar de comummente não ser percebida, semelhante a um microprocessador ativo de um computador (durante a Meditação ela é percebida). O Subconsciente também está ativo e assim seus dados estão disponíveis quando necessários, semelhante aos dados de um harddisk de um computador. (Muitas vezes os nomes Inconsciente e Subconsciente são invertidos. A escolha das palavras não é importante; o significado por traz delas é o que conta).


Estado Sonho: No estado de consciência Sonho, o nível que chamamos de funcionamento Consciente recuou para o campo da mente de onde emergiu. Somente o processo Inconsciente permanece, junto com a fonte de armazenamento do Subconsciente. As impressões do Subconsciente se movimentam e se tornam parte do processo de sonho que está acontecendo no nível Inconsciente da mente.


Estado Sono Profundo: No estado de consciência Sono Profundo, os níveis Consciente e Inconsciente recuaram para o campo da mente de onde originalmente emergiram, onde as memórias estão armazenadas. Somente o nível Subconsciente ainda está ativo. No nível Subconsciente as memórias estão em uma forma sem forma, e não há imagens como no estado de sonho. O nível subconsciente é aquele que dá nascimento as imagens. Neste nível também não há a manifestação de pensamentos e ações do estado Consciente. Esta profunda imobilidade está no domínio do Yoga Nidra, quando experimentado conscientemente e não de modo inerte, como no sono comum.


Processo de Recuo: A importância deste processo de recuo não deve ser supervalorizada. Tornou-se muito comum em modernos círculos do Yoga pensar que o Yoga Nidra é somente outra terminologia para exercícios de relaxamento, o que não é. Quase todos os exercícios de relaxamento funcionam quando estamos no estado Desperto ou quando estamos sonhando acordados entre os estados Despertos e de Sonho. Alguns praticantes modernos sonham conscientemente, um processo que ficou conhecido como Sonho Lúcido. Embora isto possa ser útil como um exercício de Meditação, particularmente se usado para desenvolver o desapego (vairagya), isto também não é Yoga Nidra. (Desapego ou vairagya é um de dois princípios básicos do Yoga. Leia Yoga Sutras 1.12 -1.16).


Sono Profundo Consciente: Repetindo, Yoga Nidra é o estado de Sono Profundo consciente. Está além, ou mais profundo, do que outras práticas, não importa quão útil estas outras práticas possam ser.


Yoga Nidra - Sono Profundo Consciente




Compatível e Não Contraditório: É fácil cair na armadilha de pensar que, devido ao estado de consciência do Yoga Nidra estar além ou ser mais profundo (ver acima) do que outras práticas, significar necessariamente que é uma prática melhor. Devemos procurar e fazer o que é percebido como sendo a melhor prática, evitando o que é percebido como sendo uma prática de menor valor. Não levando em consideração quais nomes ou termos são usados, tal como Yoga Nidra, Dhyana (meditação), ou Smriti (lembrança), as práticas com os estados Desperto, Sonho e Sono Profundo são compatíveis e não contraditórias. Para o Yogi, as práticas são feitas com os três níveis, não importando quais nomes sejam dados para estes níveis e para os métodos praticados. Isto ainda seria verdade se o nome Yoga Nidra nunca tivesse sido usado para qualquer prática ou estado de consciência.


O Yogi explora conscientemente o estado Desperto.
O Yogi explora conscientemente o estado Sonho.
O Yogi explora conscientemente o estado Sono.
O Yogi procura experimentar os três ao mesmo tempo.
O Yoga procura experimentar o Absoluto além destes três estados.


Pensamentos sem Forma: Para entender o Yoga Nidra, é imperativo entender que os pensamentos estão em uma forma sem forma. Literalmente não há imagens e palavras como existem nos estados Desperto e Sonho. Não há experiência visual de qualquer tipo, incluindo os aspectos físicos do próprio corpo, ou de qualquer seqüência de sonhos. Mesmo assim, há um conhecimento verdadeiro, mais profundo do que qualquer conhecimento que esteja nas palavras ou imagens. Este nível tem sido chamado de depósito infinito de conhecimento, ou de biblioteca infinita (Sono Profundo, Prajna).






Berço dos Sonhos: Enquanto não houver imagens neste nível, a atenção pode se voltar levemente para o exterior, assim iniciando a saída do Yoga Nidra através do estágio de transição entre os estados de Sono Profundo e Sonho. Aqui, o nascimento de imagens conduzindo a sequências de sonhos e processos mentais é experimentado. Na ciência da Meditação do Yoga, este estágio de transição é chamado de Aladani, um pouco parecido com a estória da lâmpada de Aladin, onde o gênio que estava em forma latente (como em Sono Profundo) vai para o estágio de transição ao se tornar uma pequena nuvem antes de adquirir uma forma parecida com a humana (primeiro no nível Sonho ou sutil e então no nível denso ou Desperto).


Além dos Arquétipos: Algumas escolas de psicologia se referem às impressões profundas como arquétipos. Entretanto, estes arquétipos são mencionados como tendo forma. No contexto destes arquétipos, o Yoga Nidra está tocando o nível causal, que antecede, ou está abaixo, dos arquétipos. É o nível da semente, ou bija, a partir do qual os arquétipos e subsequentes dramas emergem.


Atenuando o Karma: É por causa deste acesso ao nível da semente, ou bija, que é possível atenuar diretamente os samskaras, ou impressões profundas que dirigem o karma, ou ações.





A Consciência Está Presente 24 horas por Dia: Outra maneira de ver este processo é que a consciência no nível mais sutil existe 24 horas por dia. Algumas vezes esta consciência vem para fora, se expressando no nível sutil, psíquico ou astral, o qual comummente conhecemos como o estado de Sonho. Em outras vezes a consciência vem ainda mais para fora, se expressando no plano denso, no mundo externo, através do corpo físico. Visto desta maneira, é fácil entender como os sábios disseram que a morte, Sono Profundo e samadhi são muito parecidos ou estão relacionados como irmãos.






É uma ferramenta universalmente conhecida como Sono Profundo onde não há imagens na mente.

Se há imagens, então é o estado Desperto ou Sonho, não o estado Sono Profundo.

Yoga Nidra se refere a Sono Profundo consciente.

'Nidra' significa 'Sono Profundo' não 'Sonho'.

Sonhar e não Sonhar NÃO são a mesma coisa.




Não é Yoga Nidra

A profundidade do Yoga Nidra foi quase perdida em anos recentes, tal como aconteceu com o Yoga em geral. Aqui estão alguns pontos que podem ajudar a clarear a natureza do Yoga Nidra.


Não é Mero Relaxamento: Tornou-se popular usar o termo Yoga Nidra para qualquer método que ajude a induzir relaxamento. Yoga Nidra não é mero relaxamento, não importa o quão útil exercícios de relaxamento possam ser. Yoga Nidra é um estado específico de consciência, relacionado a experiência consciente sem sonho, o Sono Profundo. Pode parecer sem importância, mas se não há o discernimento da diferença entre o relaxamento e o Yoga Nidra, a imensa profundidade do Yoga Nidra pode ser completamente perdida. É melhor ver esta diferença, usufruir do relaxamento pelo seu próprio valor e então prosseguir para a profundidade do Yoga Nidra quando se estiver preparado para esta experiência profunda.

Não é Imaginação Ativa: O processo de imaginação ativa não é Yoga Nidra. Imaginação ativa pode ser uma prática muito útil e pode ser usada como preparação para o Yoga Nidra, mas não é Yoga Nidra. Na profundidade do Yoga Nidra, os aspectos da mente usados para a visualização recuaram, como descrito na seção anterior.




Imaginação ativa não é Yoga Nidra.

Afirmações não são Yoga Nidra.

Música não é Yoga Nidra.

Yoga Nidra não é recente.



Não é Afirmação ou Auto-sugestão: Yoga Nidra também não é uma prática de auto-sugestão, como afirmar pedidos de característica pessoal ou desejar objetos mundanos. Também não é um processo de afirmação verbal. Se estamos em um nível de consciência onde fazemos afirmações orais de qualquer tipo, então definitivamente não estamos no estado sutil de Yoga Nidra. Neste caso, a consciencia, o estado de mente Desperto, ainda não recuou para a causa da qual emergiu.


Não é a Lei da Atração: Há um movimento popular, algumas vezes denominado como 'a lei da atração', segundo o qual várias visualizações ou intenções são programadas na mente de tal forma a manifestar ganhos materiais como dinheiro, carro novo ou relacionamentos. Este tipo de 'sankalpa' ou 'intenção' atualmente é usado em alinhamento com o Yoga Nidra. Alguns dos assim chamados professores destas novas técnicas de 'Yoga Nidra' estão ganhando grandes quantias de dinheiro ao ajudar pessoas a aprenderem como, em troca, a manifestarem o mesmo. Os sábios usaram este estado profundo de consciência como um meio de queimar os desejos para transcendê-los, não para afirmá-los e traze-los a existência. O processo foi efetivamente revertido em 180 graus.


Não é Música: Yoga Nidra também não é música, não importa o quão relaxante música possa ser para a mente consciente. Música não é uma experiência ruim. Pode ser uma experiência muito prazerosa, mas simplesmente não é Yoga Nidra. Não importa o quanto se queira, não fará com que seja verdade. Yoga Nidra é a experiência do Sono Profundo consciente (Prajna) e isto não ocorre enquanto estamos ouvindo música.




Não é Yoga Nidra




Não é 'Alfa' ou Sonhar Acordado: Entre os estados Desperto e Sonho há um estágio de transição que com freqüência é chamado 'sonhar acordado'. De fato, de vez em quando, todos experimentamos este estado de transição relaxante, intrigante, compreensível e útil quando acordamos do sono. Este estado de consciência é com freqüência desenvolvido em treinos de relaxamento e está relacionado as ondas cerebrais alfa. Não importando quão útil e prazeroso possa ser, NÃO é o estado de Sono Profundo, que é a característica do verdadeiro Yoga Nidra. Infelizmente, tornou-se comum usar o termo 'Yoga Nidra' para qualquer tipo de relaxamento.



Não é Yoga Nidra






Não é Visualização ou Sonho: O estado de Sono Profundo consciente é um estado sem formas, onde não há imagens ou palavras. Explorar as imagens da mente é muito útil, senão essencial, parte da meditação. Entretanto, uma dentre as características exclusivas do Yoga Nidra é que ele é experimentado além dos processos densos e sutis da mente. As vezes é exasperador continuar explicando, mas esta é uma ferramenta universalmente conhecida como Yoga Nidra onde não há imagens. Entender isto é muito difícil para estudantes modernos devido ao crescente número de artigos, livros, seminários e palestras que incorretamente declaram que o Yoga Nidra é explorar imagens. Novamente, estes são processos úteis, mas ao falhar em entender a profundidade do Yoga Nidra, esta profundidade nunca será experimentada. É imperativo entender que Sonhar e Não-Sonhar (Sono Profundo) são dois processos ou níveis de consciência diferentes. Algumas fases da meditação lidam com imagens no nível do Sonho, mas o Yoga Nidra está relacionado ao Sono Profundo consciente.


Não é Novo: Yoga Nidra é um processo universal mais antigo do que qualquer outro que tenha sido inventado ou descoberto em anos recentes, ao contrário do que é reivindicado por alguns. Esta prática era conhecida pelos sábios do Himalaia há muito tempo. Com alguma reflexão sobre a natureza do Yoga Nidra como sendo Sono Profundo (Prajna) consciente, fica evidente que é um processo universal. Estes níveis de consciência são comentados em toda a Upanishads, em particular a Mandukya Upanishad.


Não é uma Prática 'Marca Registrada': Muitos dos assim chamados 'estilos' modernos de Yoga possuem o nome de alguém na frente, com se aquela pessoa tivesse inventado o Yoga. Infelizmente, o mesmo tem acontecido com o Yoga Nidra, com o nome de alguém sendo colocado na frente das palavras 'Yoga Nidra'. O egotismo e arrogância dos assim chamados professores modernos não conhece limites.


Não é Marca Comercial: Quando se percebe que Yoga Nidra se refere a sono profundo consciente, a noção da marca comercial 'Yoga Nidra' soa como um absurdo. Como o yogi dorme? Conscientemente, que é o Yoga Nidra. Como alguém pode estar tão confuso ao ponto de pensar que é possível registrar a marca comercial do 'sono'? Parece pouco razoável, mas é o que está acontecendo. Somente os praticantes mais dedicados abandonarão esta luta de egos para ter a experiência universal do sono profundo consciente, ou Yoga Nidra.


Este é o domínio do Yoga Nidra :




Yoga Nidra Significa Sono Yogico: É um estado de Sono Profundo consciente. Na meditação permanecemos no estado Desperto de consciência e gentilmente focamos a mente, enquanto permitimos que padrões de pensamentos, emoções, sensações e imagens aflorem e desapareçam. Entretanto, no Yoga Nidra, deixamos o estado Desperto, passamos o estado de Sonho e vamos para o Sono Profundo, ainda permanecendo acordados.


A Profundidade Vem com o Tempo: O que fazer se estamos praticando Yoga Nidra mas ainda não alcançamos o estado de Yoga Nidra? As práticas que levam até o Yoga Nidra são muito úteis. É bom usufruir do relaxamento e treino da mente. Em certo ponto, as práticas se aprofundam, talvez apenas por um momento, como um flash, quando experimentamos o profundo do Yoga Nidra. Pode acontecer logo, ou demorar, mas com certeza vai acontecer, com paciência e prática.



As Ondas Cerebrais estão em Delta


Correlação com as Ondas Cerebrais: Embora os objetivos do Yoga Nidra sejam a experiência e o discernimento espirituais, e não apenas mudar as atividades físicas do cérebro, existe alguma correlação com os padrões de ondas do cérebro, resumido abaixo:



Beta 14 a 30 Nível comum das atividades mentais diárias, alertas, ativas. Também é o nível de atividade associada com a tensão ou estresse.


Alfa 8 a 13 Relaxado, passivo, perder-se em pensamentos, com freqüência considerado o objetivo dos exercícios de relaxamento. Embora seja um estado muito relaxante e útil de ser praticado, algumas vezes é considerado incorretamente como sendo o objetivo do Yoga Nidra.


Teta 4 a 7 Normalmente considerado como sendo inconsciente, talvez sonolento, ou meio adormecido. Algumas vezes este nível também é incorretamente considerado como o nível do Yoga Nidra, onde ainda existem experiências com imagens e fluxos de pensamentos.


Delta 0,5 a 3,5 Considerado como sendo o inconsciente, sem sonho, Sono Profundo (Prajna). No Yoga Nidra, as ondas cerebrais estão neste nível, enquanto o praticante permanece em Sono Profundo consciente, além das atividades experimentadas nos outros níveis.


O Relaxamento Deve Vir Primeiro: Quando se pratica Yoga Nidra pela primeira vez, há uma boa chance de não experimentar o estado de Yoga Nidra. Os praticantes podem estar muito relaxados, com ondas cerebrais diminuindo de Beta para Alfa ou Teta, mas não diminuindo para o nível Delta. Outra possibilidade, que com freqüência acontece no início, é cair no sono no nível Delta, perdendo a atenção consciente e assim não experimentando o verdadeiro Yoga Nidra.


Seja Paciente: É importante ser muito paciente ao se praticar Yoga Nidra. O relaxamento que acontece nos níveis Alfa e Teta pode ser muito útil para a saúde física, emocional e mental. Não é ruim que não experimentemos inicialmente a profundidade do Yoga Nidra e não entremos conscientemente no Sono Profundo e em Delta. Estas experiências relaxantes são uma parte muito legal da vida e nos preparam para as experiências profundas do Yoga Nidra.


Ondas Cerebrais Delta, Não Alfa: Existe alguma confusão sendo divulgada sobre o Yoga Nidra e ondas cerebrais. Possivelmente devido ao fato de que muitas experiências tem início no nível Alfa, muitos ensinam que Alfa é o objetivo do Yoga Nidra. Embora os níveis Alfa e Teta possam ser passos muito úteis no caminho, o objetivo final do Yoga Nidra é experimentar o Sono Profundo consciente (Prajna), que está relacionado com as ondas cerebrais Delta. A prática verdadeira do Yoga Nidra, no fim das contas, conduz a atenção consciente além de qualquer nível de funcionamento físico do cérebro.





Yoga Nidra significa Sono Yogico, não Sonho Yogico.

Yoga Nidra significa Sono Yogico, não Sonho Yogico.

Yoga Nidra significa Sono Yogico, não Sonho Yogico.




Sono Yogico, Não Sonho Yogico: Lembremos, o aspirante quer alcançar o Yoga Nidra, Sono Profundo consciente, onde os samskaras, que são a força motriz por trás do karma, podem ser purificados em sua forma sem forma, latente. Este processo acontece além, ou abaixo, de toda a atividade dos estados mentais Desperto e Sonho. Yoga Nidra significa Sono Yogico, não Sonho Yogico.


Yoga Nidra e Pára-Quedismo


O Estado de Consciência Versus os Métodos: Os métodos usados pelo Yoga Nidra treinam a mente a focar no interior cada vez mais sutil, até, finalmente, a atenção mergulhar na imobilidade e na ausência total de objetos. Os métodos não são o Yoga Nidra, apenas levam até ele. O Yoga Nidra é um estado de consciência, não os métodos que nos conduzem até este estado. Esta é uma questão que causa confusão e necessita um pouco de reflexão para compreender.


Os Métodos São a Preparação: Pense em pára-quedismo. Entramos em um avião, que alça vôo e ganha altitude. O piloto posiciona o avião no lugar certo e diminui a velocidade. Então, finalmente, pulamos para fora do avião e iniciamos o pára-quedismo. Nenhum dos passos que levou até o pára-quedismo é o pára-quedismo, nem o avião por si está relacionado diretamente com o pára-quedismo. O avião e as ações de decolar, ascender e voar eram somente a preparação para o momento onde podemos executar a parte denominada de pára-quedismo.


Variedade dos Métodos: Existem muitos tipos e tamanhos diferentes de aviões dos quais podemos saltar de pára-quedas. Podemos também saltar de pára-quedas de um penhasco, prédio ou ponte altos. Estes são os métodos que nos levam ao ponto de salto para o pára-quedismo. O mesmo é verdade para os vários métodos que nos levam para o 'ponto de salto' para o estado de Yoga Nidra.


Pulando para Fora: Entrar em Yoga Nidra é como pular para fora do avião. Há muitos métodos que podemos usar para treinar a mente a mover a atenção de tal forma que possamos pular para fora dos estados de consciência Desperto e Sonho, para a experiência de consciência plena do Sono Profundo (Prajna). Esta é a experiência do Yoga Nidra.




O Yoga Nidra está além de qualquer visualização ativa

que possa nos levar na direção do Yoga Nidra.



Busque o Profundo Além da Imaginação: Existe uma razão pela qual é tão importante reconhecer que o Yoga Nidra é um estado e não um método. É muito fácil praticar as técnicas, mas também é fácil pensar, de modo incorreto, que o objetivo é somente o relaxamento através da visualização ativa. Visualização ativa por si pode ser um prática muito útil, mas ao permanecer em suas águas rasas perdemos o profundo valor do Yoga Nidra. Podemos praticar visualização ativa por muitos anos e não estarmos cientes da profundidade do Yoga Nidra. Lembremos da metáfora do pára-quedas, e que embora visualizações ativas possam ser úteis nas práticas que nos conduzem ao Yoga Nidra, o Yoga Nidra real surge ao irmos além da imaginação.


Esvaziando: Estando ciente das diferenças dos níveis dentro da prática, podemos trabalhar conscientemente para alcançar a finalidade da prática, o momento de 'pular para fora do avião', para a prática esvaziante que é o Yoga Nidra. Este processo de esvaziamento será descrito mais adiante neste artigo.


Purificando os Samskaras, os Padrões Profundos de Hábitos


Examinando: O Yoga Nidra é um estado muito relaxante e também é extremamente útil para práticas espirituais. Os yogis usam o Yoga Nidra para examinar padrões de pensamentos em sua forma latente, não ativa.



O yogis usam o Yoga Nidra

para atenuar os samskaras,

a força motriz por trás do karma.




Samskaras: Este nível de consciência é o lugar para onde vão os pensamentos, emoções, imagens e sensações quando terminam sua atuação nos estados Desperto e Sonho. Estas formas sem forma, ou profundos padrões de pensamentos, são chamados samskaras e são a força motriz das ações, ou karma.


Reduzindo Hábitos Profundos: Assim, o Yoga Nidra é uma ferramenta para examinar, atenuar e eliminar padrões de hábitos, ou samskaras, os quais não são úteis. Ações negativas habituais, que normalmente emergem destas impressões profundas, podem assim ser reduzidas e eliminadas através da prática do Yoga Nidra.


Não Ser Distraído pelo sem Forma: No estado Desperto, padrões de pensamentos podem ser um problema. No estado Sonho, podem formar seqüências de pensamentos que parecem nos arrastar. Entretanto, imagine que podemos observar nossos padrões de pensamentos quando não estão ativos, quando estão em uma forma dormente, latente, enquanto nós estamos despertos. Assim eles não podem nos perturbar ou distrair. É isto o que acontece no Yoga Nidra. O paradoxo é que embora eles não estejam na forma ativa, ainda assim permanecem lá. Pode ser frustrante tentar conceituar, mas isto é o mais próximo que podemos chegar, ao tentar dizer que eles estão em uma forma sem forma.


Pensamentos Sutis com Pouca Carga: Imagine uma foto na tela do computador. Pode ser uma imagem que achemos agradável ou ofensiva. Entretanto, imagine que vemos uma tela com os números binários, com zeros e uns que matematicamente formam aquelas imagens no disco do computador. Não haveria reação alguma. Haveria apenas um agrupamento de números, sem qualquer carga emocional. É isto o que acontece quando testemunhamos samskaras, as impressões profundas que dirigem o karma, ou ações, enquanto estamos no Yoga Nidra. Podem haver traços sutis de emoções, mas são muito, muito sutis e não parecem ter a capacidade de ativar desejos, quereres, gostos, ou aversões.


Transformação dos Samskaras: Pela observação dos samskaras no estado de Yoga Nidra, uma certa transformação acontece. Eles começam a perder as cores da aversão e atração. Começam a enfraquecer e são cada vez menos capazes de, posteriormente, controlar nossos pensamentos e ações. Desta forma, usamos o Yoga Nidra para reduzir ou suavizar a influência de nossos samskaras que se manifestam como karma.


Quem Eu Sou: Através do Yoga Nidra, há uma progressiva constatação de que 'aquele que eu sou é diferente de meus pensamentos'. No Yoga Nidra, experimentamos a consciência abaixo ou anterior a toda a atividade do processo mental consciente e daquela atividade que é normalmente inconsciente. Inicialmente, estar desperto neste lugar, abaixo ou atrás do processo de pensamento, pode ser muito estranho e confuso. Gradualmente, traz crescente paz na mente e inspiração sobre a natureza de quem nos verdadeiramente somos.


Além da Entrada: No Yoga Nidra encontramos a entrada para a consciência que opera além de todos os níveis da mente, que nos conduz para a percepção do centro da consciência, ou Eu.


Leva Tempo: Mais uma vez, podemos alcançar ou não o estado de Yoga Nidra no início. Isto não tem importância. A experiência profunda do Yoga Nidra pode acontecer cedo, ou mais tarde, mas com certeza virá com a prática. De qualquer modo, certamente vamos achar o Yoga Nidra como sendo uma parte muito relaxante de nossas vidas.



Yoga Nidra é como o Pano de Fundo de um Cenário


Perdido em Pensamentos: Imagine que estamos sentados no auditório de um teatro. As cortinas estão fechadas, assim não podemos ver o palco. É semelhante ao estado Desperto. A cortina do palco forma o estado de sonhar acordado ou de estar perdido em pensamentos, que fica entre os estados Desperto e Sonho. Embora não ouçamos mais o barulho da rua movimentada, ainda estamos no estado desperto quando sentamos no teatro com as cortinas ainda fechadas. É como entrar em um local silencioso onde vamos praticar Yoga, um local como nossa sala privada de Meditação ou uma aula de Yoga. Estar sentado em um teatro, longe da rua, descansando em um estado agradável, é parecido com muitas das práticas de relaxamento, mas isto não é a verdadeira Meditação, que penetra nos estados sutis. Nem é Yoga Nidra.


Um Passo a Meio Caminho: Gradualmente as cortinas de abrem, e vemos os objetos no palco e os atores. É como estar vendo o estado de consciência Sonho, a mente inconsciente. É um local de Meditação, onde permanecemos no estado Desperto, permitindo que o véu se abra e que o subconsciente se apresente, enquanto permanecemos focados. Entretanto, Meditação e Yoga Nidra são duas coisas diferentes. Algumas vezes, pode parecer que o Yoga Nidra é o estado a meio caminho entre os estados Desperto e Sonho, mas não é assim. Este local a meio caminho entre os dois estados é apenas um passo ao longo do caminho.


Além dos Sonhos: Imagine que as cortinas do teatro estão completamente abertas, mas ao invés de olharmos para os atores e para o cenário, olhamos para além, para o pano de fundo atrás deles. Levantamos da cadeira, passamos pelo palco e pelo atores e vamos para os fundos do palco, ignorando completamente o cenário e os atores. Olhamos, mas não conseguimos ver algo. É como se o teatro tivesse se transformado em um deserto em uma noite sem lua. Ali, atrás dos atores, como um oceano de vácuo, sentimos, estranhamente, que não está vazio. É como se estivesse totalmente cheio de potencial ou existência, mas sem uma forma específica. Esta é a natureza do Yoga Nidra. É como estar no estado Sono Profundo (Prajna), e mesmo assim estar totalmente consciente. Não há sonho sendo encenando, nem fantasias, nem mundo sutil.


Sono Profundo sem Forma: O Yoga Nidra não está entre os estados Desperto e Sonho, está além deles. Equivale ao estado Sono Profundo, onde não há imagens, nem dramas sendo encenados. Há somente uma profunda imobilidade permanente que é rica em consciência. É como estar consciente do pano de fundo infinito e imóvel que existe atrás dos atores no palco vazio. É um estado onde se começa a ver o potencial puro da existência sem forma. Ainda não é o samadhi, ou turiya, que fica além destes quatro estados de consciência, mas está muito próximo.


Yoga Nidra é um Processo de Esvaziamento


Saltando para a Imobilidade e o Silêncio: No Yoga Nidra a mente não está vagando. Não há imaginação guiada, nem exploração e nem esforço de qualquer tipo para ficar atento a um objeto ou a uma parte do próprio corpo ou ser. Ao invés, vamos para um profundo estado de esvaziamento. Os outros processos e práticas são usados para gentilmente guiar a atenção para dentro, cada vez mais, até que a atenção finalmente escorregue, deslize ou pule para a consciência imóvel, profunda e silenciosa do Sono Profundo (Prajna), ou Yoga Nidra.


Na hora de 'saltar' para o Yoga Nidra, aqui está o que acontece:


Na prática do Yoga Nidra, convidamos nossa atenção para ir fundo na imobilidade e silêncio, no espaço no meio do peito.


Enquanto avançamos no estado do Yoga Nidra, queremos 'esvaziar, esvaziar, esvaziar' o campo da mente.


Podem haver pensamentos na mente no estado Sonho, mas continuamos indo para o Yoga Nidra. Assim como nossa atenção deixa as atividades do mundo exterior, também deixa o estado de mente Sonho, e vamos mais profundo.


Deste excelente ponto de observação, toda a atividade mental é externa e não é percebida.


Neste local, abandonamos totalmente qualquer palavra, pensamento, imagem e impressões na mente, que está completamente vazia.


É este esvaziamento que nos leva ao Yoga Nidra, ao Sono Profundo consciente.


Focamos nossa atenção no espaço no meio do peito e vamos aprofundando e aprofundando no Yoga Nidra.


Investigue o que é, Não Fique Fantasiando: Lembremos, usamos muitos métodos para nos mover para o estado de Yoga Nidra. Mesmo podendo usar visualizações para relaxar o corpo e focar a mente, o que é recomendado é a exploração dos aspectos de si mesmo que já estão ali, ao invés de criar uma nova fantasia. Por exemplo, se visualizamos uma praia ou uma floresta, ou imaginamos sons de animais na natureza, estamos criando uma alucinação na mente. Se exploramos sistematicamente pontos interiores, ou o fluxo de energia da respiração, estamos examinando aspectos de algo que realmente encontramos e assim podemos ir além.


Relaxamento Versus Sono Profundo: Falando de forma diferente, podemos dizer que há dois usos comuns do nome Yoga Nidra. Primeiro, o Yoga Nidra é um exercício de relaxamento, no qual há imaginação ativa. Segundo, o Yoga Nidra é o estado Sono Profundo consciente (Prajna), sem qualquer imagem, que é o significado verdadeiro do Yoga Nidra.


Vazio no Espaço ao Invés de Vazio no Chakra: As descrições acima sugerem que esvaziamos o espaço no meio do peito. Embora possamos descrever como o esvaziamento do chakra que existe neste local, isto poderia sugerir alguma forma de visualização, como se estivéssemos tentando ver ou experimentar um objeto chamado chakra. O uso da palavra espaço sugere que não estamos procurando por um objeto. Em outras práticas com certeza devemos procurar por algum objeto, mas no Yoga Nidra queremos esvaziar o espaço. É por conveniência e clareza que o ponto de partida deste esvaziamento interior último é descrito como o esvaziando do espaço no meio do peito.

Corpo e Respiração São Deixamos para Trás: É importante ressaltar que ao entrar no Yoga Nidra, o estado de Sono Profundo consciente, a consciência do corpo e da respiração foram deixados para trás. A atenção se moveu muito para dentro, muito além da consciência de qualquer aspecto do corpo físico, da respiração ou imaginação da mente. Este é um processo sucessivo de se mover para dentro: primeiro o corpo, depois a respiração, depois a mente e então o vazio do Yoga Nidra, o Sono Profundo consciente.


O Yoga Nidra é o Destino, Não a Jornada



As Três Cidades: Imagine que estamos em um país chamado Alfabetolândia, deixamos a cidade A em nosso carro, passamos a cidade B e chegamos na cidade C, nosso destino final. A cidade A está na planície, a cidade B está perto das montanhas e a cidade C esta perto do oceano. Após a viagem, contamos tudo sobre nossa viagem pelo telefone para nossos amigos.


Podemos dizer para eles que a cidade C tinha lindas planícies e pastos, mesmo que estas sejam qualidades da cidade A?


Podemos dizer para nossos amigos que a cidade C tinha lindas florestas, montanhas e rios, mesmo que estas sejam descrições da cidade B?



Não. Quando contamos a eles sobre a cidade C, contaríamos para nossos amigos sobre as belas praias e o oceano, que são uma parte da natureza da cidade C. Certamente, diríamos sobre as outras cidades no caminho, mas não confundíamos o destino com as cidades e paisagens que encontramos ao longa da viagem. Não atribuiríamos qualidades e experiências das cidades A e B para a cidade C.


Distinção Entre a Jornada e o Destino: Igual a confundir as cidades ao longo do caminho com o destino, é muito comum comentar ou perguntar sobre o Yoga Nidra, mas na verdade se estar falando sobre experiências dos estados Desperto e Sonho. O estado Desperto é como a cidade A, o estado Sonho é como a cidade B e o estado Sono Profundo é como a cidade C. Embora o conteúdo, experiências e atividades dos estados Desperto e Sonho (ou sutil) sejam investigados através da Meditação, a exploração destes dois estados ou níveis não é o objeto do estado de consciência Sono Profundo (Prajna) ou Yoga Nidra.


É muito útil para o praticante de Meditação e Yoga Nidra estar ciente destas diferenças. Como comentado no início deste artigo, a Meditação e o Yoga Nidra são companheiros de prática. Práticas de Yoga nos estados Desperto, Sonho e Sono Profundo certamente são complementares, mas com certeza também são diferentes.


Práticas com Impressões Ativas e Latentes: Saber que existem várias camadas ou níveis ajudará muito a lidar com práticas de Yoga. Um dos motivos principais é que desta forma temos duas linhas gerais para trabalhar com as práticas. Uma é trabalhar com processos, imagens ativas e impressões (se nos estados Desperto e Sonho). A outra é trabalhar com as impressões no estado latente, sem forma, e isto, gostemos ou não, é outro nível de realidade, que está abaixo dos estados Desperto e Sonho. É neste nível que os samskaras, a força motriz por trás do karma, estão armazenados.

Meditação em ação e Meditação sentada, que exploram os estados Desperto e Sonho (sutil), lidam com os níveis de impressões e imagens ativas, até que se expandam para a Meditação profunda ou samadhi. O Yoga Nidra trabalha diretamente com o nível de consciência latente, que está relacionado com o nível Sono Profundo. Mais uma vez, os nomes destes níveis e práticas não importam tanto quanto entender que os aspectos ativo e latente existem. Trabalhar com ambos, cada qual a sua maneira, é muito útil no caminho da Auto-realização.


Quarto Local e Ótimo Ponto de Observação: Na metáfora do pais chamado Alfabetolândia, devemos ressaltar que há outro ótimo local de observação, que é dentro de um avião voando alto. Deste local elevado, podemos olhar para baixo e ver as três cidades (sendo um pais metafórico pequeno). É, de certa forma, como o quarto estado de consciência, chamado Turiya, que se refere a consciência pura que permeia os outros três estados. Veja as seções sobre Turiya nos artigos sobre o Mantra OM e os Níveis de Consciência. (Nota do tradutor: textos ainda não traduzidos, sendo seus nomes em inglês 'OM Mantra' e 'Levels of Consciousness').


Nomes Realmente Importam?: De certa maneira, nenhum destes nomes realmente importam. Faz diferença se chamamos de Meditação ou Yoga Nidra? Importa se dizemos que o Sonhos e o mundo sutil estão em Taijasa ou que o Sono Profundo está relacionado com o nível Prajna?


O que importa, e muito, é que lembremos que não estamos apenas falando de dois níveis de consciência: o visível e o invisível, o material e o espiritual, aqui e lá, etc. Não estamos falando apenas de um único nível de consciência que está além do nosso estado típico de consciência, o estado Desperto do dia-a-dia. Existem dois níveis principais de consciência, ou realidade, ou qualquer outro nome que queiramos usar, que estão além de nosso nível de consciência comum do dia-a-dia.


Isto totaliza três níveis de consciência. O 'quarto' nível, é claro, está além destes três. Um destes três níveis principais está relacionado com as impressões latentes, que não estão se expressando de alguma forma. Os outros níveis estão relacionados com a expressão ativa das ações ou pensamentos (se no estado Desperto ou Sonho). Este processo multi-nível é discutido no artigo 'Realization Beyond the Gross and Subtle.






Yoga Nidra e os Chakras



Chakras: Os estados de consciência Desperto, o Sonho e o Sono Profundo (Prajna) funcionam, de modo predominante, a partir de três chakras distintos. É relativamente simples perceber que nosso estado Desperto funciona a partir da área do chakra Ajna. Perceba que esta é a área da face com a qual pensamos, vemos, ouvimos, cheiramos, etc., quando estamos no estado Desperto. Também podemos dizer que caímos no sono nos chackas inferiores, quando entramos nos estados Sonho e Sono Profundo.


Estado de Consciência / Chakra Dominante

--------------------------- -----------------------------------------------

Desperto Ajna / Sobrancelha

Sonho Vishuddha / Garganta

Sono Profundo Anahata / Coração


Chakra do Coração e o Esvaziamento: O Yoga Nidra é praticado com o esvaziamento do espaço no meio do peito, o chakra do coração.


No estado desperto, a consciência opera a partir do centro da sobrancelha, como o centro de comando para os processos mentais e sensoriais.


No estado Sonho, o centro da garganta é o local a partir do qual a consciência opera. O chakra da garganta é descrito com freqüência como o centro da criatividade, e esta criatividade é manifestada, em parte, como seqüências de sonhos.


No estado Sono Profundo, a consciência opera a partir do espaço no meio do peito, o centro do coração.


Movendo a Atenção Através dos Três Centros: Assim, na prática do Yoga Nidra, uma das partes mais efetivas do processo é sistematicamente trazer a atenção dos níveis Desperto e Sonho para o nível de consciência Sono Profundo (Prajna) ao mover a atenção pelos três centros, método descrito mais adiante neste texto:

Processo Interior Sistemático do Yoga Nidra :


Desperto > Sonho > Sono Profundo Consciente

Centro do Intercílio > Garganta > Espaço no Meio do Peito




Vazio no Centro do Coração: É importante ressaltar que a questão dos chakras no Yoga Nidra é totalmente diferente de escolher qual centro focamos na Meditação. Nossa predisposição ao nível da personalidade pode ser, por exemplo, de sentimentos no coração ou pensamentos no centro da sobrancelha. Na Meditação, podemos seguir uma destas predileções como o local para se concentrar. Entretanto, nas profundezas dos três níveis de consciência, todas as pessoas são construídas da mesma forma, e assim o espaço no meio do peito é o espaço para ser esvaziado no Yoga Nidra. É o local natural onde a consciência repousa durante o Sono Profundo. Também é importante notar que, em qualquer chakra que possamos estar praticando Meditação, pode haver um momento, um instante, em que a atenção entre no canal sutil chamado brahma nadi, que liga o centro da sobrancelha ao chakra da coroa, acima. Algumas vezes isto é descrito como ver uma luz no fim do túnel. Este processo não deve ser confundido com questões de predisposições para Meditação, nem com o esvaziamento no coração do Yoga Nidra.



O Tantra e os Três Níveis






Tripura: Tri significa três e pura significa cidade. Tripura é a consciência que opera nas cidades Desperto, Sonho e Sono Profundo, assim como nos aspectos Consciente, Inconsciente e Subconsciente da mente. Algumas vezes conceitualizado como o feminino divino (Shakti), comparado ao masculino divino (Shiva), ela permeia as três cidades do mundo Denso, do plano Sutil e da realidade Causal. Tripura também permeia muitas outras trindades, como a existência inerente no passado, presente e futuro. Isto é uma tradução Tantrica dos três níveis de consciência mapeados pelo símbolo do Mantra OM e seus níveis Vaishvanara, Taijasa e Prajna. Dedicação, devoção, amor e entrega para esta fonte criadora ou Mãe divina é uma dos aspectos mais refinados do Tantra como um traçado direta para a Realização. Alguns conceitualizam Tripura como uma deidade antropomórfica, enquanto as práticas mais sutis são dirigidas para o Tripura sem forma, o quarto estado além das três cidades. O Bindu de Sri Yantra é o símbolo desta elevada Realidade transcendente. A qualidade das três cidades é um aspecto do Mantra OM, Gayatri Mantra e Mahamrityaunjaya Mantra.






Veja os artigos : Kundalini Awakening ,Three Schools of Tantra e Bindu.


Os Métodos São Muitos e Simples


Do Denso ao Sutil: Existem muitos métodos que levam ao ponto de onde podemos 'pular' para o estado de Yoga Nidra. A idéia destes métodos preparatórios é que comecemos com nossa atenção nos aspectos mais densos de nosso ser, como por exemplo o corpo físico, e sistematicamente movemos a consciência para dentro, para os níveis mais sutis.


Atenção Interior Progressiva: Por exemplo, mover a consciência da respiração para cima e para baixo como um fluxo de luz na espinha é mais sutil, profundo e interior do que mover a atenção interior através de partes do corpo físico. Progressivamente, a atenção vai se interiorizando naquele local interno último, de onde se 'pula' para o silêncio e imobilidade do Yoga Nidra.


Muitos Caminhos: Assim, por exemplo, por quantos caminhos podemos mover a consciência através do corpo físico? Muitos! Por quantos caminhos podemos trabalhar com a consciência da respiração? Muitos! Por quantos caminhos podemos explorar os fluxos sutis de energia? Muitos!



Yoga Nidra é um estado de consciência,

embora haja uma variedade de métodos

usados para alcançar este estado.




Estados Versus Métodos: O ponto, mais uma vez, é que embora os vários métodos sejam extremamente úteis para sutilizar cada vez mais a atenção, o Yoga Nidra é um estado de consciência e não os métodos que nos levam para este estado. O Yoga Nidra é o estado de consciência Sono Profundo (Prajna).


Métodos Simples Levam ao Esvaziamento: Os vários métodos são muito simples, já que todos envolvem o desvio da atenção não direcionada para caminhos sempre mais sutis. A dificuldade, se pode ser assim chamada, está na ação determinada e deliberada de se deixar levar pelo esvaziamento, que conduz ao Yoga Nidra. Mas isto também acontece com a prática.


Universal: Mais uma vez é importante ressaltar que o estado de Yoga Nidra é universal, independente de termos ouvido alguma vez o nome Yoga Nidra. Yoga Nidra, como tal, é conhecido pelo yogis a milhares de anos, embora algumas pessoas divulguem incorretamente que o Yoga Nidra foi inventado a poucas décadas atras por um único professor moderno.


Métodos de Prática do Yoga Nidra


Métodos: A seguir estão esboços de alguns métodos que conduzem ao Yoga Nidra. O detalhamento das práticas estão em páginas web individuais e podem ser impressas para facilitar a revisão e a prática. A duração das práticas podem variar de 10 a 20 minutos, de 50 a 60 minutos ou mais. * (Nota do tradutor: os métodos ainda não foram traduzidos).




Yoga Nidra é um estado de consciência,

não os métodos que nos levam para este estado.





O Estados Vêm Após os Métodos: Enquanto revemos e praticamos estes métodos, lembremos que o Yoga Nidra é o estado de consciência Sono Profundo (Prajna) que vem após ou como o resultado destes métodos, através do esvaziamento do conteúdo de imagens e impressões. Há um CD de Yoga Nidra guiado disponível em inglês, que é similar ao Método 1, que também pode ser gravado com a própria voz para fazer uma prática guiada.


Método 1 envolve as práticas de:

Relaxamento completo
61 pontos
Respiração na espinha dorsal
Consciência nos Chakras
Yoga Nidra


Método 2 envolve as práticas de:

Relaxamento completo
61 pontos
Prolongada respiração na espinha dorsal
Consciência nos Chakras
Yoga Nidra


Método 3 envolve as práticas de:

61 pontos
Respiração na espinha dorsal
Chakras
Yoga Nidra


Método 4 envolve as práticas de:

61 pontos
Yoga Nidra


Método 5 envolve as práticas de:

Respiração na espinha dorsal e no centro do umbigo
Yoga Nidra


O Yoga Nidra Começa a Acontecer Naturalmente


Começa a Acontecer Naturalmente: Quando a vida inteira de alguém se torna uma com a Meditação, o Yoga Nidra começa a acontecer naturalmente. A natureza do sono diário começa a mudar. Se torna mais consciente quando se quer que seja assim. Os sonhos são vistos com mais vivacidade e há com freqüência uma sensação de estar dormindo na cama, embora ainda desperto. A consciência facilmente vai para a estabilidade e silêncio que ficam além dos sonhos, no Sono Profundo consciente.


Testemunha e Determinação: Como isto acontece, do Yoga Nidra acontecer naturalmente? Como gradualmente adquirimos a posição de uma testemunha sobre tudo o que é externo e interno, vai ficando mais fácil pôr de lado conteúdos mentais com um simples ato de determinação, o sankalpa shakti. De certa forma, simplesmente vamos para lá, esvaziando e entrando no Yoga Nidra.


Leia também o artigo: Bindu: Pinnacle of Yoga, Vedanta and Tantra



Yoga Nidra e Mandukya Upanishad


O pináculo da sabedoria dos antigos sábios está contido nos sintetizados doze versos do Mandukya Upanishad, com a essência da filosofia e práticas do mantra OM. É dito que a essência dos Vedas estão nas Upanishads e que a essência das Upanishads estão no Mandukya Upanishad.


O Terceiro Nível se Refere ao Yoga Nidra: O terceiro dos quatros níveis de consciência mapeados no Mandukya Upanishad, é chamado Prajna, que é o nível do Sono Profundo. Este é o domínio do Yoga Nidra, que é o Sono Profundo consciente.


Leia também estes artigos sobre os níveis de consciência: OM and the Seven Levels of Consciousness , 4 Levels and 3 Domains of Consciousness, Mandukya Upanishad.



Os versos 1 e 2 descrevem o Ser e o Absoluto.

Os versos 3 a 7 explicam os quatro níveis de consciência.

Os versos 8 a 12 delineiam os quatro aspectos do AUM.



O Ser e o Absoluto (1-2)


Tudo é OM: Hari Om. O Universo inteiro é a sílaba Om. A seguir está a explicação do Om. Tudo que foi, é ou será, é, em verdade, Om. Tudo o mais que transcenda o tempo, espaço e causa também é Om.

O Atman possui Quatro Aspectos: Tudo, por toda a parte, é em verdade Brahman, a Realidade Absoluta. Este Eu absoluto, Atman, é também Brahman, a Realidade Absoluta. O Atman, ou Eu, possui quatros aspectos através dos quais atua.

Os Quatros Níveis de Consciência (3-7)


O primeiro é Desperto / Denso: O primeiro aspecto de Atman é o Eu no estado Desperto, Vaishvanara. Neste primeiro estado, a consciência está voltada para fora, para o mundo exterior. Através de seus sete instrumentos e dezenove canais, ela experimenta os objetos densos do mundo dos fenômenos.

O segundo é o Sonho / Sutil: O segundo aspecto de Atman é o Eu no estado Sonho, Taijasa. Neste segundo estado, a consciência está voltada para o mundo interior. Também opera através de sete instrumentos e dezenove canais, que empregam os objetos sutis do mundo mental.

O terceiro é o Sono Profundo / Causal: O terceiro aspecto de Atman é o Eu agindo no estado Sono Profundo, Prajna. Neste estado, não há desejo de nenhuma espécie, seja por objetos densos ou sutis, nem qualquer seqüência de sonhos. No Sono Profundo, estas experiências recuaram ou submergiram para a área da consciência indiferenciada. Neste local, somos preenchidos com a experiência de felicidade e também podemos conhecer com mais clareza os dois estágios anteriores. Este é o domínio do Yoga Nidra, Sono Profundo consciente.




Yoga Nidra - Sono Profundo Consciente




Encontre aquele que vive a experiência: Aquele que experimenta estes estados de consciência é a fonte original e onisciente que reside no interior e é o diretor de todos. É o ventre do qual os outros emergem. Todas as coisas se originam desta fonte e se dissolvem nela.

O quarto aspecto é Turiya: O quarto aspecto de Atman ou Eu é Turiya, que significa literalmente quarto. Neste estado, a consciência não está voltada para fora ou para dentro e nem está fora e dentro ao mesmo tempo. A consciência está além tanto da cognição quanto da ausência de cognição. Turiya não pode ser experimentada através dos sentidos ou conhecida por comparação, raciocínio dedutivo ou suposição. Não pode ser descrita, não pode ser compreendida e não pode ser pensada com a mente. É Consciência Pura em si. Este é o Eu real, está na cessação de todos os fenômenos, é sereno, tranqüilo, pleno de felicidade e é único. Este é o Eu real e verdadeiro para ser percebido.

Quatro Aspectos do Ohm (8-12)


Estes quatro estados estão relacionados com o 'A-U-M' seguido de silêncio: O Om, mesmo sendo descrito como tendo quatro estados, é indivisível, é Consciência pura. Consciência é Om. Os três sons A-U-M e as três letras A, U, M são identificados com os três estados, o Desperto, Sonho e Sono, e estes três estados são identificados com os três sons e as três letras. O quarto estado, Turiya, somente pode ser percebido no silêncio que está atrás, ou além, dos outros três.

O Som 'A' é Desperto / Denso: Vaishvanara é a consciência vivida no estado Desperto e é a letra A, a primeira letra do Om. O som do A é o primeiro e permeia os outros dois sons. Aquele que é ciente deste primeiro nível de realidade consegue a concretização de todos os desejos intensos e é bem sucedido.

O Som 'U' é Sonho / Sutil: Taijasa é a consciência vivida no estado Sonho e é a letra U, a segunda letra do Om. Este estado intermediário funciona entre os estados Desperto e Sono, refletindo algumas qualidades dos dois. Aquele que conhece este estado sutil é superior aos outros. Para aqueles que conhecem-no, conhecedores de Brahman, a Realidade Absoluta, nascerão nesta família.

O Som 'M' é Sono Profundo / Causal: Prajna é a consciência vivida no estado sem sonho, o Sono Profundo, e é a letra M, a terceira letra do Om. Prajna contém os outros dois estados e é dele que eles emergem, e é para ele que eles recuam ou submergem. Aquele que conhece este estado mais sutil pode entender tudo de si mesmo. Este é o domínio do Yoga Nidra, Sono Profundo consciente.




Yoga Nidra - Sono Profundo Consciente




O Silêncio após 'A-U-M' é o Eu Verdadeiro: O quarto aspecto é o aspecto sem som do Om. Não é possível de ser expressado e de ser compreendido através dos sentidos ou pela mente. Com a cessação de todos os fenômenos, até mesmo a felicidade, este aspecto sem som é conhecido. É o estado não dual (advaita) da realidade, único. Este quarto estado, Turiya, é o Eu real ou Ser real. Aquele que tem esta experiência direta se expande para a Consciência Universal.





Sabedoria para viver e compartilhar com outros:


Há somente uma mais alta realidade e muitos professores.

Todos os humanos e demais formas de vida se originam da mesma fonte.

Todas os países, religiões e instituições surgem desta fonte.

Existem muitos livros de sabedoria de muitas eras.

Pensar que há somente um caminho provém da ignorância.

Conversão coercitiva é violência contra outras pessoas.

O objetivo da vida é encontrado dentro de si e não em instituições.

Sabedoria, alegria e liberdade advém do silêncio interior.

Ame a todos, já que somos ondas do mesmo oceano.







Título original deste texto:

"Yoga Nidra: Yogic Conscious Deep Sleep", disponível em http://www.swamij.com/.


Traduzido pelo yogi

Rogério Maniezi, de Florianópolis.

Texto original em:

http://www.swamij.com/yoga-nidra.htm


Extraído de:

http://www.yoga.pro.br/artigos/830/2/yoga-nidra-sono-profundo-consciente-do-yoga

domingo, 25 de outubro de 2009

Para além do ego onírico (e vígil)




Pela compreensão de que o ambiente onírico todo, a situação onírica toda, é nossa Mente, pode-se compreender, sentir e amar a realidade da vigília toda, a situação vígil toda, sem discriminações e apegos.



***



"A realidade é um sonho" é uma afirmação que deve ser conpreendida e percebida não a partir do ponto de vista do Ego onírico ou do Ego da vigília, mas a partir da mente que produz o cenário todo, o sonho todo.

Essa compreensão pode ser vivenciada a partir da liberdade que o sono propicia àquele que relaxa profundamente; mantendo-se a consciência clara durante o sonho, o praticante poderá desenvolver a percepção de que não há, no sonho/sono, qualquer discriminação ou apego.

A realidade e as situações são vividas e experienciadas (nos sonhos) sem apego, pela mente que cria o sonho (diversamente do que ocorre com o Ego onírico - com o qual usualmente nos identificamos e que é apenas uma parte do sonho e que participa dele).


Trata-se assim de uma lucidez onírica desdobrada: não apenas entendendo-se e percebendo-se que estamos em um sonho (sonho lúcido), como também percebendo-se e sentindo-se o próprio relaxamento e gozo de estarmos produzindo o sonho todo.

Transpondo-se para a vigília esse modo de apreciação das situações vividas, isso se traduz na expansão da mente, que não mais se identifica com o Eu (um mero personagem), mas com a situação experienciada como um todo.

Trata-se da mesma mente, experienciando o sono/sonho da vigília.

Completamente relaxada, a mente percebe-se a si mesma e desfruta da felicidade do relaxamento, ou seja, de ser si mesma e tudo que percebe: enquanto se sonha tem-se, assim, uma chave para a compreensão experienciada e amada da/na vigília.

O entendimento se faz pelo relaxamento profundo, por um outro modo de inteligência (amor = felicidade = harmonia).

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Implicações e superação da "tagarelice" contemporânea

Diante das incríveis e profundas transformações que estamos assistindo no mundo dito Ocidental (pós-política, pós-Capitalismo, pós-humano, pós-social, pós-pós-modernismo etc), vou pontuar algumas questões, pensando um pouco também nas discussões acerca da Antropologia Simétrica e do Perspectivismo. Estas duas correntes da Antropologia, parece-me, são tentativas de responder a esses desafios.

Em certa medida, poderia resumir meu argumento da seguinte forma:


"Em tempos de colonização do inconsciente, o xamanismo se apresenta não apenas como uma alternativa, mas talvez a única forma de conquistar a liberdade".


Um conceito preliminar


Vou tomar a liberdade de cunhar um conceito próprio - válido como ponto de partida do argumento para os fins desta exposição.

O ponto em questão diz respeito a tudo aquilo que nos condiciona e nos conforma a uma "visão de mundo" e nos fornece uma escala de valores.

Trata-se de um ponto de apoio que nos permita definir o que é desejável (ou não), o que é confortável (ou não), o que é o "bem" e o que é o "mal" e, sobretudo, o que é significativo ou não.

Há muitas variações para esse conceito geral, tanto na filosofia, como nas Ciências Sociais.

No caso, vou cunhar um conceito que chamarei "Tagarelice".

Definirei "Tagarelice" como a soma daquilo que usualmente chamamos:

["civilização"] + ["ideologia"] (mais fortemente no sentido dumontiano que marxista, mas incluindo este) + ["cultura"].

Para fins didáticos e provisoriamente, diria que "Tagarelice" nos fornece não apenas uma ferramenta cognitiva, mas também axiológica. Uma ontologia, uma escala de valores, uma noção de "eu". E, como espero ficar claro, também uma epistemologia.


A abrangência do conceito não é casual: confere a amplitude necessária para dar conta dos múltiplos, profundos e abrangentes fenômenos que se encontram por trás daquilo que Jameson chamou "colonização do inconsciente".

Preliminarmente, "Tagarelice" tem como peças fundamentais para operar - diria, está apoiada - em 3 noções básicas e intimamente relacionadas, entrelaçadas:

1) uma noção de tempo: uma determinada forma de vivenciarmos o tempo (tempo linear, cíclico, mítico etc);

2) uma noção de espaço : uma determinada forma de lermos e experienciarmos o espaço;

3) uma noção de corpo : uma determinada forma de lermos, sentirmos e vivenciarmos nosso corpo.

Essas 3 noções são uma só: uma dada conformidade de corpo-tempo-espaço para cada "Tagarelice".

Ou, melhor ainda, diria que "Tagarelice" não apenas se apóia nessas noções, como também forma e re-afirma as mesmas. É estruturante delas e é estruturada por elas.

Como diria Guy Debord: "O Espetáculo limita-se a enunciar a si próprio."

"Tagarelice" é, assim, a própria noção que temos de corpo-tempo-espaço. A partir delas - estou dizendo isso ainda num nível preliminar - erigimos nossa escala de valores, o que é "bom" e o que é "mal", o que é certo e o errado etc. E também nossa noção do que seja natureza e cultura, quando estas existirem.

Nossa "Tagarelice" Ocidental contemporânea tem como íntimas as noções de:

progresso,
tempo linear (passado-presente-futuro),
corpo fixo e objetivo,
materialismo,
individualidade,
separação de natureza-cultura,
sujeito/objeto,
consciente/inconsciente,
razão/loucura,
racional/irracional,
processo histórico,
linguagem

etc.

Sempre que nos depararmos com esse tipo de cisão, de dualidade e de separatividade, estaremos dentro da malha de condicionamentos dessa "Tagarelice" especifica, Ocidental (estou ciente de que estou generalizando).

Por exemplo: é próprio de nossa "Tagarelice" dizer que tudo está na linguagem, ou que tudo é histórico ou ainda a versões descartianas-kantianas. E também todas as variações materialistas. Tudo isso está na superfície de nossa "Tagarelice".

Para outras "Tagarelices" (dos índios, da Antiguidade, da Pré-História etc), outros problemas e outras cisões são construídas.


O condicionamento


A "Tagarelice" encontra seu apoio em nossa própria mente, que reproduz a cada instante essa configuração do que seja o nosso corpo, tempo e o espaço.

Ela depende de um modo específico de operarmos com nossa mente.

Ela nos convence de que somos de uma determinada maneira, que não podemos ser de outra maneira e que nossa mente está conformada a operar dessa forma.

A mente então - flexível e ávida por identificações - aceita esse argumento, esse enunciado e opera e se conforma desse modo, aceitando a si mesmo como seu próprio limite.


Descondicionamento íntimo



Em tempos de colonização do inconsciente (Jameson) resta-nos a rebeldia do xamanismo.




Para superar, atravessar e perpassar a "Tagarelice", há que se examinar detidamente, de uma forma não dualista e separada, as noções de corpo-tempo-espaço.

O que importa dizer aqui é: ao admitirmos isso, à simples admissão de possibilidade de que isso possa ser feito, já nos posicionamos parcialmente fora da "Tagarelice", posto que a forma não-dualista de exame significa a própria superação daquela dualidade "tagarelística".

Podemos dizer: para o exame pleno (vivencial + emocional + filosófico + racional + consciente + inconsciente + mental + corporal + subjetivo + objetivo), temos que nos apoiar e nos posicionar "fora" da "Tagarelice".

Ao proceder assim e avançar nesse "processo", o observador começa a duvidar e a relativizar suas próprias noções do que seja corpo-tempo-espaço: essa "dúvida" não é apenas racional-conceitual (pois então ainda estaria na "Tagarelice"), mas VIVIDA: ele começa a sentir seu corpo mais fluido e talvez não muito dotado de realidade "ontológica", começa a dissolver seu corpo e as dualidades mentais (Eu, EGO etc).

Poderá passar por algumas experiências bem estranhas...E considerar seriamente que se tornor um ser contra-cultural. Um sujeito que estivesse ferreamente posicionado dentro da "Tagarelice" poderia quase dizer que nosso observador está passando por um surto esquizofrênico.

Vejamos a seguinte passagem de Deleuze-Guattari em Mil Platôs (vol.3):



"Pare, reencontre o seu eu, seria preciso dizer: vamos mais longe, não encontramos ainda nosso Corpo sem Órgão, não desfizemos ainda suficientemente nosso eu. Substituir a anamnese pelo esquecimento, a interpretação pela experimentação. Encontre seu corpo sem órgãos, saiba fazê-lo, é uma questão de vida ou de morte, de juventude e de velhice, de tristeza e de alegria. É aí que tudo se decide.

(...)



O Corpo sem Órgão é o que resta quando tudo foi retirado. E o que se retira é justamente o fantasma, o conjunto de significâncias e subjetivações. A psicanálise faz o contrário: ela traduz tudo em fantasmas, comercializa tudo em fantasmas, preserva o fantasma e perde o real no mais alto grau, porque perde o Corpo sem Órgão." (Mil Platôs, Vol. 3)



Importante aqui é que "Tagarelice" não é insuperável, monolítica, estável. Ao contrário, é dinâmica devido inclusive aos próprios resíduos por ela fabricados (Marx, Freud etc). Há sempre novos resíduos a serem incorporados e que também fornecem instabilidade e vitalidade à "Tagarelice".

"Tagarelice" é sempre dinâmica, por definição. Ela depende desse dinamismo.

O texto de Peter Gow toca um pouco nesse ponto: o tédio e a paralisia podem fornecer um ponto de apoio interessante, caso o observador-experimentador-de-si-próprio esteja disposto a não rompê-lo (isto é, não romper o tédio, encontrar-se a si próprio). A não dinâmica sugere a própria superação da "Tagarelice". O Budismo tem muito a dizer sobre isso.




Antropologia simétrica / Perspectivismo Amazônico



Voltando à questão Antropologia Simétrica-Perspectivismo: pôr em questão o que seja corpo-tempo-espaço implica não apenas um método, mas uma superação do que seja método; posicionamo-nos aqui além da separação forma / conteúdo.

De uma certa forma é como se o Antropólogo Simétrico-perspectivista fosse, ele próprio, uma espécie de psicanalista (ou esquizoanalista), operando aquela experiência xamanística descrita acima.

Ele problematiza as noções de corpo-tempo-espaço, valendo dizer, as noções e separações de "Eu"/"Outro" e "Natureza"/"Cultura". Ao fazer isso, não apenas está operando um "método", mas aqui está se posicionando além do método, está subvertendo o núcleo que dá origem àquilo que "Tagarelice" chama de "essência" e "aparência"; substância e forma.

Executa uma transmutação íntima e dissolve "Tagarelice" e seus enunciados mais substantivos (na verdade a própria noção de substância).

Daí porque não é possível distinguir, nesse caso, o que é objeto e método, pois essa separação, essas "ontologia" e "epistemologia", derivam daquilo que está sendo superado e dissolvido.

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

A Filosofia Perene de Frithjof Schuon



Frithjof Schuon (Basiléia, 18 de junho de 1907 — Bloomington, 5 de maio de 1998) foi um metafísico, filósofo das religiões, poeta e pintor, principal porta-voz da Filosofia Perene, juntamente com René Guénon.

Nascido na Suíça alemã, Frithjof Schuon se estabeleceu em Paris na juventude, onde exerceu seu ofício de desenhista têxtil. De perfil filosófico e espiritual, absorveu jovem ainda as obras de Platão e do Vedanta indiano, interessando-se ao mesmo tempo pela sabedoria mística e esotérica das grandes religiões mundiais, especialmente Cristianismo, Islã e Budismo.

Leitor do metafísico francês René Guénon, ele viajou ao Cairo em 1938 e em 1939 para conhecê-lo pessoalmente. No Magrebe, buscou o conhecimento espiritual dos mestres sufis, tendo contatado especialmente a tarica (confraria mística) do celebrado mestre sufi Ahmad al-Alawi.

Após a Segunda Grande Guerra, Schuon, então residente em Lausanne, empreendeu diversas viagens internacionais, com o objetivo de contatar autoridades espirituais das diversas tradições e recolher material para seus livros. Visitou a Índia, o Egito, o Marrocos, Grécia, Espanha e as planícies da América do Norte, para travar contato direto com o patrimônio espiritual dos índios. Sua via espiritual, centrada na "religio perennis", difundiu-se ao longo das últimas décadas pela Europa, América do Norte, América do Sul e Ásia.

Frithjof Schuon faleceu em 5 de maio de 1998 em Bloomington, Indiana, EUA, para onde havia emigrado em 1980.

A Filosofia Perene

A idéia central da Filosofia Perene exposta por Schuon e Guénon é que a verdade metafísica fundamental é simultaneamente universal e perene, não pertencendo a nenhuma religião em particular. As diversas religiões mundiais expõem esta Verdade una segundo suas linguagens próprias.

Esta Verdade com "V" maiúsculo é como a luz incolor, e as religiões históricas (Cristianismo, Islã, Budismo, Hinduísmo, Judaísmo, Taoísmo, Confucionismo) são como as várias cores do espectro. O Cristianismo, por exemplo, transmite a "luz incolor" da Verdade fundamental através de um vidro "vermelho". O Islã, mediante a lente "verde". O Hinduísmo pelo vidro "amarelo", e assim por diante.

A Filosofia Perene certamente não se pretende uma "nova religião", destinada a substituir as religiões tradicionais, nem é uma “super religião”, que as fundiria num único organismo. Para ela, a Verdade é veiculada de “formas” diferentes pelas distintas religiões mundiais e milenares (a antigüidade e a universalidade funcionam como legitimadoras das tradições). Ou seja, a doutrina metafísica de Cristianismo, Islã, Hinduísmo etc sobre o Absoluto, Deus, o homem e o pós-vida, por exemplo, é convergente. Mas seus dogmas, rituais e moralidade são distintos.

A Filosofia Perene não sustenta que todas as religiões são iguais, como parece dizer um ecumenismo tão fácil como superficial. Ela diz justamente o contrário, ou seja, que a razão de ser destas distintas tradições é veicular a Verdade una para povos e épocas específicas. Isto é, a Verdade perene e universal está além das formas, é supra-formal, enquanto as religiões exteriorizam esta Verdade una segundo seus modos específicos.

A idéia histórica da Filosofia Perene existe desde a época do Renascimento (séculos XV e XVI), mas ela passou a se tornar mais conhecida no Ocidente no início do século XX, graças às obras do francês René Guénon (1886-1951), do indiano Ananda Coomaraswamy (1877-1947); do suíço-alemão Titus Burckhardt (1908-1984) e, sobretudo, de Schuon. É preciso mencionar também o livro de Aldous Huxley, The Perennial Philosophy, de (1945), apesar da perspectiva de Huxley ser mais literária do que propriamente espiritual.

Vida

Frithjof Schuon nasceu numa família católica alemã. Seu pai era violinista da Orquestra Sinfônica de Basiléia (Suíça) e professor no conservatório local. Seu único irmão foi ordenado sacerdote católico e se tornou monge da Trapa, a ordem mais rigorosa do Catolicismo.

Ao longo de sua vida, Schuon fez diversas viagens internacionais, com o fim de contatar autoridades espirituais das diferentes religiões e recolher material para seus livros.

Esteve várias vezes no Magrebe (nas décadas de 1920 e 1930, onde conviveu com o célebre cheikh sufi Ahmad al-Alawi, um dos grandes místicos do Islã no século XX); no Egito (em 1938 e 1939, onde se encontrou com René Guénon e Martin Lings); na Índia (em 1939); na Turquia; na Grécia; no Marrocos e em boa parte da Europa ocidental.

Na década de 1960, visitou seus amigos índios, das tribos Sioux e Crow, nos Estados Unidos. Como resultado, escreveu o estimulante volume sobre a civilização Pele-Vermelha, "The Plain Indians in Art and Philosophy" ("Os índios das planícies na arte na filosofia"), que contém, além de penetrantes ensaios sobre a religião e a sabedoria índia, suas impressionantes pinturas de mesma temática.

Nos Estados Unidos, onde passou a viver a partir de 1981, em uma chácara no Meio-Oeste, Frithjof Schuon escreveu seus últimos livros de ensaios, como Sur les traces de la Religion pérenne (1982); Approches du phénomène religieux (1984); Résumé de métaphysique intégrale (1985); Avoir un centre (1988); Racines de la condition humaine(1990); Les Perles du pèlerin (1991); Le Jeu des Masques (1992); e La Transfiguration de l’Homme (1995).

Nos três últimos anos de vida, escreveu mais de três mil poemas breves em alemão; esta impactante obra traduz em linguagem literária e direta sua mensagem global.

Frithjof Schuon morreu em sua casa, em 5 de maio de 1998.

Obra

Frithjof Schuon é autor de uma obra singular e original, única no mundo contemporâneo ao reunir exposição da verdade metafísica compartilhada por todas as grandes religiões mundiais, guiamento espiritual profundo e crítica da mentalidade relativista e materialista da modernidade. Além disso, foi um poeta inspirado, autor de diversos livros de poesia, e artista plástico original. Segundo o autor brasileiro Mateus Soares de Azevedo, ele é o Platão de nossa época, e até um pouco mais.

Schuon escreveu mais de vinte livros de metafísica, filosofia das religiões, espiritualidade, arte e cultura tradicional (ver lista abaixo). O primeiro deles expõe uma de suas idéias fundamentais, a da unidade transcendente das religiões. "Tesouros do Budismo" expõe a essência da religião do Buda, vista sob a luz universalista da filosofia perene. O mesmo se dá, mutatis mutandis, com o Hinduísmo ("Langage of the Self"); com o Islã ("Para Compreender o Islã") e com o Cristianismo ("Christianisme/Islam").

De acordo com o autor australiano Harry Oldmeadow, "a obra de Schuon forma um corpo imponente e abrange uma espantosa variedade de religiões e assuntos metafísicos, sem quaisquer superficialidades e simplificações que se esperaria de um autor cobrindo terreno tão vasto" (Em: Sophia-The Journal of Tradicional Studies. Volume 4, Nº2, 1998. Reproduzido em português em Sabedoria Perene: http://sabedoriaperene.blogspot.com/2009/02/um-sabio-para-os-tempos-o-papel-e-obra.html)

A maioria dos livros já foi traduzida para as principais línguas do mundo, como inglês, espanhol, alemão, italiano, russo e árabe. Suas obras em Português são os seguintes:

"A Transfiguração do Homem"(São José dos Campos, 2009. Tradução de Alberto V. Queiroz.)

"Para Compreender o Islã" (Rio de Janeiro, 2006. Tradução e introdução de M. Soares de Azevedo)

"O Homem no Universo" (São Paulo, 2001. Tradução e introdução de M. Soares de Azevedo e Alberto Queiroz)

"O Sentido das Raças" (São Paulo, 2002. Tradução de Alberto Queiroz e Sérgio Sampaio e introdução de M.Soares de Azevedo)

"O Esoterismo como princípio e como Caminho" (São Paulo, 1995)

"A Unidade Transcendente das Religiões" (Lisboa, 1989)

Há ainda uma antologia intitulada "Islã: O credo é a conduta" (Rio de Janeiro, 1990, organizada por Roberto Bartholo e Arminda Campos) em que Schuon é o principal colaborador.

Poesia

Nos derradeiros anos de vida, Schuon escreveu mais de três mil poemas relativamente breves, em alemão. Uma seleção desses poemas foi logo publicada pela editora alemã Herder, em quatro pequenos volumes intitulados Glück, Leben, Sinn e Liebe (Felicidade, Vida, Sentido e Amor). Posteriormente, a editora suíça Les Sept Flèches iniciou a publicação da obra integral numa edição bilíngue em alemão e francês, terminada recentemente com o lançamento do décimo volume. Os poemas sintetizam numa linguagem direta suas visões filosóficas; são como uma suma metafísica e espiritual de toda a rica mensagem schuoniana para o homem contemporâneo.

Em termos de conteúdo, como escreveu William Stoddart na revista perenialista brasileira Religio Perennis, "os poemas alemães de Frithjof Schuon são similares aos de sua coleção inglesa Road to the Heart (1995), mas eles são muito mais numerosos, e o conjunto de imagens, muito mais rico e poderoso. Os poemas abrangem todo aspecto possível da doutrina metafísica, do método espiritual, das virtudes espirituais e do papel e função da beleza. Eles exprimem toda subtileza concebível de conselhos espirituais e morais — e isso não apenas em termos gerais, mas com excepcionais intimidade, detalhe e precisão. Eles exibem incrível agudeza, profundidade, abrangência e compaixão."

"Alguns poemas, prossegue Stoddart, são autobiográficos, com reminiscências de lugares em que Schuon viveu ou que ele visitou: Basiléia e Paris, as ruas de contos de fadas de velhas cidades alemãs, o Marrocos e a Andaluzia, a Turquia e a Grécia, o Oeste norte-americano. Outros evocam o gênio de certos povos, como os hindus, os japoneses, os árabes, os peles-vermelhas, e também os cossacos e os ciganos. Outros ainda elucidam o papel da música, da dança e da própria poesia. Em um ou dois poemas, o mundo moderno ateu é o tema de um comentário mordaz e por vezes duramente jocoso.

O prêmio Nobel de Literatura T. S. Eliot disse o seguinte acerca da primeira obra de Schuon ("A Unidade Transcendente das Religiões"):

É o livro mais impressionante sobre as religiões do Oriente e do Ocidente que eu já li.



Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/Frithjof_Schuon

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Frugalidade elegante


Entrevista com Paolo Soleri

Com o projeto da comunidade de Arcosanti, no Arizona, o arquiteto italiano, há muitos anos transplantado aos EUA, foi um dos primeiros a experimentar a realização de um centro habitado respeitador dos equilíbrios ambientais. Livros e convenções prestam homenagem a este mestre do pensamento ecológico.

Ética e ambiente são os dois termos em torno dos quais Paolo Soleri construiu sua militância arquitetônica, uma militância que superou agora o meio século e que fez do projetista italiano, transplantado estavelmente aos Estados Unidos dos anos 50, um artesão do pensamento ecológico. Se neste espaço de tempo de fato muitíssimas coisas mudaram no mundo, dentro e fora da América, as linhas mestras do pensamento de Soleri permaneceram substancialmente inalteradas e se revelam, hoje mais ainda do que ontem, atualíssimas pela extraordinária capacidade demonstrada pelo criador de Arcosanti de antecipar a deriva, à qual a sociedade de consumo nos conduziu.

A reportagem é de Emanuele Piccardo, publicada no jornal Il Manifesto, 10-10-2009. A tradução é de Benno Dischinger.

Nascido em Turim em 1919, Soleri se transferiu nos primeiros anos do pós-guerra, logo após a láurea no Politécnico de Turim, à corte de Frank Lloyd Wright em Taliesin West, no Arizona, um lugar mágico onde se aprendia arquitetura em estreito contato com o deserto. Mas, o jovem projetista entrou bem cedo em contraste com o mestre americano e após dezoito meses abandonou Taliesin para refugiar-se na natureza, dormir a descoberto, impregnar-se de terra e sol. Teve assim início um percurso autônomo de experimentações que primeiro o reconduziriam à Itália – onde entre outras coisas firmou, nos primeiros anos de cinquenta, o projeto da fábrica de cerâmicas Solimene em Vietri sul Mare, no qual se percebe o influxo de Wright – e depois novamente aos Estados Unidos, e de novo no Arizona (desta vez em Scottsdale), e novamente no deserto.

Em 1955 Soleri iniciou a realização de seu primeiro experimento. Cosanti, um pequeno “burgo” às margens de Phoenix, no qual o arquiteto começou a explorar o uso do cimento armado, edificando, com a técnica do silt cast (cimento jogado sobre uma montanha de terra, que é sucessivamente eliminada), absides e cúpulas cuja forma, reproduzindo a abóboda celeste, criam uma forte relação com o cosmo – caracterizando a linguagem arquitetônica de Soleri, que no final dos anos sessenta tomará em mãos o seu projeto mais ambicioso: a comunidade de Arcosanti. O conceito sobre o qual se baseia esta cidade-municipal é a concentração (miniaturização) num espaço limitado de todas as funções – econômicas, residenciais, lúdicas – de modo que os acres deixados livres possam ser dedicados ao cultivo da terra.

Cosanti


Embora tenha sido realizada somente em parte, Arcosanti é hoje considerada como o emblema da experimentação arquitetônica e do pensamento de Soleri, que tem seu fundamento na vida frugal, priva dos excessos do consumismo. Autor de um recente “manifesto”, no qual reafirmou os elementos essenciais de sua visão do mundo, o ancião projetista assumiu nos últimos anos, na América e fora, o papel de um mestre, capaz de opor-se ao modelo imposto pela cultura estadunidense.

Encontramo-lo em Roma, onde em fim de setembro foi iniciada, no Auditorium, a Festa da Arquitetura com uma aula magistral sobre a frugalidade elegante, antes de uma série de encontros dedicados à sua obra que culminarão aos três de dezembro com uma jornada organizada em Turim - a cidade onde Soleri nasceu, - pela Ordem dos Arquitetos, por ocasião da saída de um volume sobre a fase inicial de sua obra.

Paolo Soleri



Eis a entrevista.

Com o projeto da “cidade linear”, Lean Linear City, concebido em 2006 para um novo assentamento na China, não longe de Macau, pretendeu oferecer uma via de saída para as derivas das metrópoles contemporâneas?

Na realidade, o projeto nasceu logo após a tragédia do tsunami, a partir da observação de quanto permanecera da costa atingida. Precisamente as ruínas sugeriam quão importante teria sido realizar uma habitação capaz de resistir à catástrofe – um objetivo que as tecnologias e os instrumentos de que hoje dispomos tornam realizável. Desastres como o tsunami são previsíveis e a Lean Linear City se situa como um lugar onde as populações, segundo as necessidades, podem retirar-se por períodos breves ou longos, visto que os recursos presentes em cada módulo habitável o tornam autossuficiente em termos não só energéticos, mas também vitais, graças às Green Houses, as “casas estufa”. Aos meus olhos a Lean Linear City, ao mesmo tempo subtil e resistente, se inspira na muralha chinesa, porém uma muralha que une e não separa!




Há alguns dias, dirigindo-se à assembléia das Nações Unidas, o presidente dos Estados Unidos colocou o acento sobre a questão do ambiente. Considera que seja um sinal de real mudança para a política ambiental americana?

A sinceridade do presidente dos Estados Unidos referente ao problema do ambiente é evidente e também é muito forte. Mas, Obama deve antes fazer as contas com certa classe política americana que o contradiz ferozmente, apelando para elementos fanáticos e racistas, que inquinam o confronto e tornam difícil qualquer previsão.




Em que termos projetistas imagina uma sociedade diversa daquela proposta pelo materialismo americano?

Como também escrevi no meu manifesto, embora eu tenha nascido na Itália, vivo no continente norte-americano faz agora sessenta anos e quanto mais os meus trabalhos dão corpo à evolução do meu pensamento, mais me sinto crítico ante o “milagre” americano. Sintetizando, penso que o isolacionismo fundamental dos Estados Unidos – cuja causa-efeito é com muita frequência uma terrível xenofobia – tenha dado vida a um império que deve a própria existência a um oportunismo exasperado, fundado sobre a industriosidade e sobre a determinação. Em tal processo nós americanos ou, caso se prefira, nós ocidentais permanecemos interpolados na jaula do materialismo, uma invenção irresistível que nos oferece conforto, auto-legitimação e orgulho. O materialismo, assim como ele se declina nos Estados Unidos e em geral nos países do Ocidente, é a busca da riqueza em detrimento do conhecimento. Uma cultura na qual desde crianças se aprende que a base do sucesso se mede pelo automóvel, o qual se torna parte integrante da família, assim como a pistola – dois elementos bem presentes na mesa suntuosa do americano crente. No que me diz respeito, considero que a única alternativa possível, aquela que defini como Lean Alternative [Alternativa modesta], esteja delineada numa frugalidade elegante e difusa. Penso, de fato, que uma situação como aquela que andou se determinando nas últimas décadas não seja enfrentada com timidez, com pequenas reformas, mas requeria uma forte denúncia e uma radical reformulação das nossas prioridades e da nossa concepção do ambiente natural.

De que modo considera que a crise econômica tenha modificado a percepção e a própria essência do american dream [do sonho americano]?

Embora seja claro que esta crise representou um duro golpe nos Estados Unidos e em todo o Ocidente, não creio que tenha realmente desarticulado o american dream. Em termos esquemáticos poderíamos dizer que cada americano tem um “deus pessoal” seu e que por isso tenhamos nos Estados Unidos trezentos milhões de deuses pessoais! E tem sido este egocentrismo, esta convicção de estar no centro do mundo.que determinou o atual desmoronamento econômico. O ponto é, todavia, que em sua profundeza aquela mentalidade não se reduziu e está pronta a re-emergir, com todas as consequências nefastas que dela derivam.

Em seu “manifesto” você fala de império e de tecnocracia. Pode explicar-nos melhor o que entende com estes termos?

A potência da tecnologia é hoje tão forte que gera uma verdadeira e própria idolatria, a qual se traduz na tecnocracia dominante na qual estamos imersos. Desafortunadamente, o condicionamento começa muitíssimo cedo, a ponto de constituir nos jovens uma espécie de imprinting [sigilo], e por isso é muito difícil combatê-lo. Estou, todavia, convencido que na criatividade, ou, para dizê-lo melhor, na estética nós podemos encontrar os recursos necessários para subtrair-nos ao obtuso poder deste “império tecnocrata”. A imensa reserva de boa vontade e excelência imaginada nas pessoas não deve ser jogada fora numa amortecida trivialidade.



sexta-feira, 16 de outubro de 2009

A semente da consciência




A semente da consciência

"Ele parecia inquieto e agitado. Seus movimentos eram espasmódicos e ele estava, obviamente, cheio de impaciência. Era um europeu de meia-idade, esguio e em boas condições físicas. Era sua primeira visita a Maharaj. Sua agitação atraiu a atenção de todos para ele.

Quando Maharaj olhou para ele, as lágrimas repentinamente correram de seus olhos. Um olhar compassivo de Maharaj pareceu acalmá-lo um pouco e ele, então, deu as usuais informações sobre si mesmo em poucas palavras. Disse que tinha sido um estudante do Vedanta por pelo menos vinte anos, mas que sua busca pela verdade havia fracassado. Estava profundamente desanimado e desiludido e não podia mais continuar sua frustrante busca. Um lampejo de esperança surgiu para ele quando ele leu o livro de Maharaj Eu Sou Aquilo e sabia que havia encontrado a resposta. Imediatamente ele juntou a quantidade mínima de dinheiro necessária para uma viagem à Índia, e acabava de chegar a Bombaim. Com a voz agitada, ele disse “Cheguei agora. Minha busca terminou.” Lágrimas estavam correndo livremente de seus olhos e ele não podia controlar-se.

Maharaj escutou-o com gravidade e permaneceu sentando por poucos minutos com os olhos fechados, talvez para dar a ele o tempo para se recuperar. Então, perguntou se ele estava firmemente convencido de que não era o corpo. O visitante confirmou que estava bastante claro para ele que não era meramente o corpo, mas alguma outra coisa que não o corpo e, como estava claramente explicado no livro, que este algo devia ser o conhecimento ‘eu sou’, o sentido de ser. Mas, ele acrescentou, não podia entender o que se queria dizer com a sugestão de que ele deveria permanecer continuamente com o conhecimento ‘eu sou’. O que, exatamente, supunha-se que ele deveria fazer? “Por favor, Mestre” – disse a Maharaj –, “estou agora insuportavelmente cansado de palavras. Tenho-as lido e ouvido aos milhões e nada ganhei com elas. Conceda-me a substância agora, não meras palavras. Serei eternamente grato a você.

“Muito bem” – disse Maharaj – “Você terá a substância agora. Certamente, terei que usar palavras para comunicá-la a você.” Maharaj, então, prosseguiu: Se eu dissesse para inverter a marcha e voltar para a origem de seu ser, teria algum sentido para você?

Em resposta, o visitante disse que seu coração aceitou intuitivamente a verdade da afirmação de Maharaj, mas ele teria que se aprofundar no assunto.

Maharaj, então, disse-lhe que ele devia entender toda situação clara e instantaneamente; isto ele poderia fazer apenas se fosse à raiz do assunto. Ele deveria descobrir como o conhecimento ‘eu sou’ apareceu pela primeira vez. A semente é a coisa, disse Maharaj. Descubra a semente de seu ser e você conhecerá a semente do universo inteiro.

Maharaj continuou: Como sabe, você tem um corpo e, no corpo, está o Prana, ou a força vital, e a consciência (o ser, ou o conhecimento ‘eu sou’). Agora, este fenômeno total do ser humano é de qualquer forma diferente do das outras criaturas ou mesmo da grama que brota da terra? Pense profundamente sobre isto. Suponha que um pouco de água se acumule em seu quintal; depois de um tempo, o corpo de um inseto se forma ali; ele começa a mover-se e sabe que existe. E, novamente, suponha que um pedaço de pão velho é deixado em um canto por alguns dias; um verme aparece nele e começa a mover-se, e sabe que existe. O ovo de uma ave, depois de chocado por certo tempo, quebra, repentinamente, e aparece um pequeno pinto; ele começa a mover-se e sabe que existe. O esperma do homem germinou no útero da mulher e, depois do período de nove meses, nasce como um bebê. O esperma desenvolveu-se na forma de uma criança plenamente formada que passa pelos estados de vigília e sono e realiza suas funções físicas comuns, e sabe que existe.

Em todos estes casos – o inseto, o verme, o pinto e o ser humano – o que realmente nasceu? O que ‘supervisionou’ o processo da concepção ao nascimento? Não seria o conhecimento ‘eu sou’ que permaneceu latente da concepção ao parto e, no tempo devido, ‘nasceu’? Este ser, ou consciência, idêntico em todos os quatro casos, achando-se sem qualquer tipo de ‘apoio’, identifica-se erroneamente com a forma particular que assumiu. Em outras palavras, o que é realmente sem qualquer aspecto ou forma, o conhecimento ‘eu sou’, precisamente este sentido de ser (não ser isto ou ser aquilo, mas tão só consciência), limita-se apenas a uma forma particular e, com isto, aceita seu próprio ‘nascimento’, e daí para frente vive sob a constante sombra do terror da ‘morte’. Assim nasce a noção de uma personalidade individual, ou identidade, ou ego.

Vê agora a origem desse estado de ‘eu sou’? Ele não é dependente do corpo para sua existência individual? E o corpo não é meramente o esperma germinado que desenvolveu a si mesmo? E, o que é mais importante, é o esperma outra coisa senão a essência do alimento consumido pelos pais da criança? E, finalmente, não seria o alimento algo constituído pelos quatro elementos (éter, ar, fogo e água) por meio do quinto, a terra?

Assim, segue-se o rastro da semente da consciência até chegar ao alimento, e o corpo é o ‘alimento’ da consciência; assim que o corpo morre, a consciência também desaparece. E, ainda, a consciência é a ‘semente’ do universo inteiro! Todo indivíduo tem, sempre que sonha, a experiência idêntica de um mundo sendo criado na consciência. Quando uma pessoa não está totalmente acordada e a consciência é apenas estimulada, ela sonha; e, em seu sonho, naquele ponto mínimo de consciência, cria um mundo de sonhos inteiro, similar ao mundo ‘real’ externo – tudo em um instante – e, naquele mundo, são vistos o sol, a terra com montanhas e rios, construções e pessoas (incluindo o próprio sonhador) comportando-se exatamente como as pessoas no mundo ‘real’. Enquanto durar o sonho, o mundo do sonho é, de fato, bem real, e as experiências das pessoas no sonho, incluindo o próprio sonhador, parecem ser verdadeiras, tangíveis e autênticas, talvez mesmo mais do que aquelas do mundo ‘real’. Mas, uma vez que o sonhador acorde, todo o mundo de sonhos com todas as suas ‘realidades’ que existiam se desvanecem na consciência na qual foram criados. No estado de vigília, o mundo surge por causa da semente da ignorância (Maya, consciência, ser, Prakriti, Ishwara, etc.) e o coloca em um estado de vigília-sonho. Você sonha que está acordado; você sonha que está dormindo – e você não compreende que está sonhando porque ainda está no sonho. De fato, quando você compreende que tudo é um sonho, você já terá ‘despertado’! Apenas o Jnani conhece a vigília e o sonho verdadeiros.




Neste estágio, quando Maharaj perguntou ao visitante se tinha alguma pergunta sobre o que tinha ouvido até o momento, ele perguntou prontamente: “Qual é o princípio, ou o mecanismo conceitual, por trás da criação do mundo?”

Maharaj ficou satisfeito, porque o visitante tinha usado corretamente as palavras ‘mecanismo conceitual’, pois ele freqüentemente nos lembra que toda criação do mundo é conceitual, e que é muito importante lembrar este fato e não o esquecer no meio de toda a profusão de palavras e conceitos. Maharaj, então, continuou: O estado original – o Parabrahman – é incondicionado, sem atributos, sem forma, sem identidade. Sem dúvida, este estado não é nada senão plenitude (não um ‘vácuo’ vazio, mas pleno), de modo que é impossível dar-lhe um nome adequado. Visando a comunicação, contudo, um certo número de palavras tem que ser usado para ‘indicar’ aquele estado. Naquele estado original, anterior a qualquer conceito, a consciência – o pensamento ‘eu sou’ – espontaneamente desperta para a existência. Como? Por quê? Por nenhuma razão aparente – como uma mansa onda sobre a superfície do mar!

O pensamento ‘eu sou’ é a semente do som Aum, o som primordial, ou Nada, no momento da criação do universo. Ele consiste em três sons: a, u e m. Estes três sons representam os três atributos – Sattva, Rajas, Tamas, os quais produzem os três estados de vigília, sonho e sono profundo (também chamados consciência ou harmonia, atividade e inércia). Foi na consciência que o mundo surgiu. De fato, o primeiro pensamento ‘eu sou’ criou o sentido de dualidade no estado original de unicidade. Nenhuma criação pode aparecer sem a dualidade do princípio da maternidade e paternidade – masculino e feminino, Purusha e Prakriti.

A criação do mundo como uma aparência na consciência tem dez aspectos – o princípio gerador da dualidade; a matéria física e química, sendo a essência dos cinco elementos (éter, ar, fogo, água e terra) em fricção mútua; e os três atributos de Sattva, Rajas e Tamas. Um indivíduo pode pensar que é ele que atua, mas, verdadeiramente, é a essência dos cinco elementos, o Prana, a força vital, que atua através da combinação particular dos três atributos em uma forma física particular.

Quando a criação do mundo é vista nesta perspectiva, é fácil perceber porque os pensamentos e ações de um indivíduo (o qual é apenas um aparato psicossomático) diferem tanto em qualidade e grau daqueles de milhões de outros; porque, por um lado, existem Mahatmas Ghandis e, por outro, Hitlers. É um fato evidente que as impressões digitais de uma pessoa não são nunca similares àquelas de qualquer outra pessoa; folhas da mesma árvore são diferentes umas das outras em ínfimos detalhes. A razão é que as permutações e combinações dos cinco elementos, mais os três atributos em seus milhões de matizes, chegariam a bilhões e trilhões. Certamente, podemos admirar o que é admirável e amar o que é adorável, mas devemos compreender o que é que realmente amamos e admiramos – não o indivíduo conceitual, mas a maravilhosa habilidade de atuação da consciência que é capaz de desempenhar simultaneamente milhões de papéis nesta representação de sonho que o mundo é!

Para evitar perder-se na desconcertante diversidade do espetáculo de Maya (Lila), Maharaj disse que é necessário, neste estágio, não esquecer a unidade essencial entre o Absoluto e o relativo, entre o não-manifesto e o manifesto. A manifestação aparece na existência apenas com o conceito básico ‘eu sou’. O substrato é o númeno, que é a potencialidade total. Com o surgimento do estado de ‘eu sou’, o númeno se reflete no universo fenomênico, o qual só em aparência será exterior a ele. Para ver a si mesmo, o númeno se objetiva no fenômeno e, para que esta objetivação aconteça, o espaço e o tempo são os conceitos necessários (nos quais os fenômenos são estendidos em volume e duração). O fenômeno, portanto, não é algo diferente do númeno, mas o próprio númeno objetivado. É necessário entender – e nunca esquecer – esta identidade essencial. Uma vez que o conceito ‘eu sou’ surja, a unidade fundamental fica teoricamente separada, como sujeito e objeto, na dualidade.

Quando a consciência impessoal se manifesta e identifica a si mesma em cada forma física, a noção do eu surge, e esta noção, esquecendo que não tem nenhuma entidade independente, converte sua subjetividade original em um objeto com intenções, necessidades e desejos e é, portanto, vulnerável ao sofrimento. Esta identidade errada é precisamente a ‘escravidão’ da qual se busca liberação.

E o que é ‘liberação’? Liberação, iluminação, ou despertar, não é outra coisa senão entender profundamente, aperceber-se – (a) que a semente de toda a manifestação é a consciência impessoal, (b) que o que se busca é o aspecto não-manifestado da manifestação e (c) que, portanto, o próprio buscador é o buscado!

Resumindo o discurso, Maharaj disse: Revisemos tudo isto novamente.

1.No estado original prevalece o Eu sou, sem qualquer conhecimento ou condicionamento, sem atributos, sem forma ou identidade.

2.Então, por nenhuma razão aparente (exceto aquela de que é sua natureza ser assim), surge o pensamento, ou conceito eu sou, a Consciência Impessoal, sobre a qual o mundo aparece como um sonho vívido.

3.A consciência, para se manifestar, necessita de uma forma, um corpo físico, com o qual se identifica e, assim, começa o conceito de ‘escravidão’, com uma objetivação imaginária do ‘eu’. Quando se pensa e se atua do ponto de vista desta auto-identificação, pode-se dizer que se cometeu o ‘pecado original’ de transformar a pura subjetividade (o potencial ilimitado) em um objeto, uma realidade limitada.

4.Nenhum objeto tem uma existência independente por si mesmo e, portanto, não pode despertar do sonho vivente; ainda assim – e esta é a piada – o fantasma individual (um objeto) busca algum outro objeto como o ‘Absoluto’, ou ‘Realidade’, ou o que for.

5.Se isto estiver claro, deve-se inverter o rumo e voltar para descobrir o que se era originalmente (e sempre se tem sido) antes do surgimento da consciência.

6.Neste ponto surge o ‘despertar’ de que não se é nem o corpo nem mesmo a consciência, mas o estado inefável da total potencialidade, anterior à chegada da consciência (na consciência, este estado, seja qual for o nome, pode ser apenas um conceito).

7.E, assim, o círculo está completo; o buscador é o buscado.

Em conclusão, disse Maharaj, deve-se entender profundamente que, como ‘Eu’, se é númeno. A condição atual da fenomenalidade (cuja semente é a consciência) é temporária, como uma doença ou um eclipse sobre a condição imutável original da numenalidade, e tudo o que se pode fazer é viver o tempo destinado da vida, no fim do qual o eclipse da fenomenalidade termina e a numenalidade prevalece novamente em sua pura unicidade, totalmente inconsciente de sua Consciência.

Durante toda esta exposição, o visitante permaneceu imóvel como se estivesse sob um encantamento. Fez uma ou duas tentativas infrutíferas de falar, mas Maharaj parou-o rapidamente com um gesto firme, e ele permaneceu sentado ali em perfeita paz até depois de outros visitantes terem apresentado seus respeitos a Maharaj e saírem, um por um."



(De "Sinais do Absoluto" Pointers from Nisargadatta Maharaj - próxima edição da Editora Advaita)

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Amor e Deus

Sri Nisargadatta Maharaj

"O diálogo, ocorrido ao anoitecer, foi iniciado por um jovem canadense que vestia um Lungi e um fino Kurta (vestuário típico hindu). Disse que tinha vinte e três anos, mas parecia apenas ter saído de sua adolescência. Exibia, em torno do pescoço, uma elegante e pequena cruz de prata em uma delicada corrente. Ele disse que havia encontrado o livro Eu Sou Aquilo em uma livraria de Bombaim, dois dias atrás. Uma olhada rápida em poucas páginas motivou o desejo de encontrar pessoalmente Maharaj. Ele tinha lido o livro quase continuamente, do meio-dia até à noite, e terminou ambos os volumes apenas há poucas horas.




Maharaj: Você é tão jovem. Desejo saber desde que idade tem estado interessado na busca espiritual.




Visitante: Senhor, desde que me recordo tenho estado profundamente interessado no Amor e em Deus; e senti, com intensidade, que eles não são diferentes. Quando eu sento em meditação, freqüentemente...




M: Espere um momento. O que você entende exatamente por meditação?




V: Realmente, não sei. Tudo o que faço é sentar com as pernas cruzadas, fechar meus olhos, e permanecer absolutamente quieto. Sinto meu corpo relaxando, quase se desvanecendo, e minha mente ou ser, ou o que quer que seja, funde-se no espaço, e o processo de pensamento fica gradualmente suspenso.




M: Isto está bem. Por favor, prossiga.




V: Freqüentemente, durante a meditação, um devastador sentimento de amor extático surge em meu coração junto com uma efusão de bem-estar. Eu não sei o que é. Foi durante um de tais momentos de encanto que me senti inspirado a visitar a Índia – e aqui estou.




M: Quanto tempo ficará em Bombaim?




V: Realmente, não sei. Raramente, faço planos. Tenho dinheiro suficiente para viver frugalmente por quinze dias e tenho minha passagem de retorno.




M: Agora, diga-me, o que exatamente quer saber? Tem alguma pergunta específica?




V: Eu era um homem muito confuso quando desembarquei em Bombaim. Senti que iria perder o juízo. Realmente, não sei o que me levou à livraria, pois não leio muito. No momento em que apanhei o primeiro volume de Eu Sou Aquilo, experimentei o mesmo sentimento esmagador que obtinha durante minhas meditações. Conforme fui lendo o livro, um peso parecia estar sendo removido de dentro de mim e, agora que estou sentado aqui diante de você, sinto como se estivesse falando para mim mesmo. E o que estou dizendo para mim mesmo parece blasfêmia. Eu estava convencido que o amor é Deus. Mas agora penso que o amor é, seguramente, um conceito e, se o amor for um conceito, Deus também deve ser um.




M: E o que está errado nisto?






V: (Rindo) Bom, se você coloca isto desta maneira, não tenho nenhum sentimento de culpa em transformar Deus em um conceito.




M: De fato, você disse que Deus é amor. O que você quer dizer com a palavra ‘amor’? Quer dizer ‘amor’ como o oposto de ‘ódio’? Ou alguma outra coisa, embora, certamente, nenhuma palavra possa ser adequada para descrever ‘Deus’.




V: Não. Não. Pela palavra ‘amor’, certamente, não me refiro ao oposto de ‘ódio’. Refiro-me àquele amor que é a abstenção da discriminação entre ‘mim’ e o ‘outro’.




M: Em outras palavras, a unidade do ser?




V: Sim, sem dúvida. O que é então o ‘Deus’ a quem eu supunha orar?




M: Falaremos mais tarde sobre a oração. Agora, então, o que exatamente é este ‘Deus’ sobre o qual você está falando? Não é a própria consciência – o sentido de ‘ser’ que se tem – pela qual você é capaz de fazer perguntas? O próprio ‘eu sou’ é Deus. Que é o que você mais ama? Não é este ‘eu sou’ a presença consciente a qual você quer preservar a qualquer custo? A própria busca é Deus. Na busca você descobre que ‘você’ está separado deste complexo corpo-mente. Se você não fosse consciente, o mundo existiria para você? Existiria qualquer idéia de Deus? A consciência em você e a consciência em mim – são diferentes? Não são separadas apenas como conceitos que buscam a unidade não concebida que, por sua vez, não é outra coisa senão amor?




V: Agora entendo o que quer dizer “Deus está mais próximo de mim que eu mesmo.”




M: Lembre, também, não há nenhuma prova da Realidade exceto sê-la. De fato, você é ela, e sempre foi. A consciência cessa com o fim do corpo (e é, portanto, limitada pelo tempo) e, com ela, cessa a dualidade que é a base da consciência e da manifestação.




V: O que, então, é a oração, e qual o seu propósito?




M: A oração, como é geralmente entendida, é somente suplicar por alguma coisa. Mas, na realidade, a oração significa comunhão, união, Ioga.




V: Tudo está tão claro agora, como se um monte de escombros fosse repentinamente lançado fora de meu sistema, apagado da existência.




M: Quer dizer que você agora parece ver tudo claramente?




V: Não. Não! Não ‘parece’. É claro, tão claro que estou assombrado de não ter visto antes. Várias afirmações que li na Bíblia, que pareciam importantes, mas vagas, são agora claras como cristal – declarações como: Antes de Abrahão ser, eu era; Eu e meu pai somos um; Eu sou o que Eu sou.




M: Bem. Agora que você compreendeu, que Sadhana o fará obter a liberação de sua ‘escravidão’?




V: Ah! Maharaj. Agora você está certamente ridicularizando-me. Ou está me testando? Seguramente, agora eu sei que Eu Sou Aquilo – Eu sou, o qual sempre fui e sempre serei. O que resta fazer? Ou desfazer? E quem vai fazer isto? Para que finalidade?




M: Excelente! Apenas seja.




V: Sem dúvida, deverei ser.



Então, o jovem canadense prostrou-se diante de Maharaj – seus olhos cheios de lágrimas de gratidão e alegria. Maharaj perguntou-lhe se iria voltar novamente, e o jovem disse: “Honestamente, eu não sei”. Quando ele saiu, Maharaj sentou por um tempo com os olhos fechados e com o mais doce dos sorrisos em seus lábios. Então disse muito suavemente: “Alguém excepcional”; pude apenas entender as palavras.
Nunca mais vi o jovem canadense novamente e, às vezes, pergunto-me sobre ele."




De: "Sinais do Absoluto" - Pointers from Nisargadatta Maharaj - o 1° livro de Ramesh Balsekar sobre ops ensinamentos do grande jnani. Futura publicação da Editora Advaita


Fonte: http://editoraadvaita.blogspot.com/

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Morte e ilusão: o ensinamento de Sri Ramana Maharshi



O pequeno texto abaixo descreve a morte da mãe de Sri Ramana Maharshi (chamado aqui de Sri Bhagavan) e as sensações por ela experimentadas. Foi extraído da obra "Ramana Maharshi e o Caminho do Autoconhecimento", de Arthur Osborne (Ed.Pensamento) :




Em 1920 a saúde da mãe começou a falhar. Ela viu-se obrigada a trabalhar menos no serviço do Ashram e a descan­sar mais. Durante a doença Sri Bhagavan cuidou dela com constância, freqüentemente passando a noite em claro ao seu lado. Em silêncio e meditação a compreensão da mulher ama­dureceu.

O fim sobreveio em 1922, no festival de Bahula Navami, que aquele ano caiu em 19 de maio. Sri Bhagavan e outros cuidaram dela todo aquele dia, sem comer. Nas proximidades do por do sol serviu-se uma refeição e Sri Bhagavan pediu aos demais que fossem comer, mas ele próprio não o fez. À noite um grupo de devotos cantou os Vedas à cabeceira dela, ao passo que outros invocavam o nome de Ram. Durante mais de duas horas esteve ela arquejante, a respiração saindo-lhe com dificul­dade, e durante todo o tempo Sri Bhagavan manteve-se ao seu lado, sua mão direita sobre o coração da mãe e sua esquerda sobre a cabeça. Desta vez não havia como prolongar a vida, ape­nas como apaziguar a mente de modo que a morte fosse como Mahasamadhi, absorção no Si.

Às oito horas da noite ela foi afinal liberada do corpo. Sri Bhagavan ergueu-se de pronto, bastante alegre. - Agora pode­mos comer - disse ele. - Venham, não há poluição.

Isto tinha um significado profundo. Uma morte hindu envolve poluição ritualística e exige ritos purificadores, mas ali não se tratava de morte e sim reabsorção. Não havia alma desencarnada mas uma perfeita União com o Si e por isso não se faziam necessários quaisquer ritos purificadores. Alguns dias mais tarde Sri Bhagavan confirmou-o: quando alguém fez uma breve alusão ao passamento de sua mãe, ele corrigiu-o incisi­vamente, - ela não morreu, foi absorvida.

Descrevendo posteriormente o processo ele disse: - Ten­dências inatas e a sutil recordação de experiências passadas le­vando a possibilidades futuras tornaram-se muito ativas. As cenas se desdobravam diante dela em seqüência, havendo já desaparecido os sentidos exteriores. A alma passava por uma série de experiências, evitando destarte a necessidade de um renascimento e tornando possível a União com o Espírito. A alma foi por fim despojada de sua sutil vestimenta antes de atin­gir o seu Destino final, a Paz Suprema da Liberação da qual não se volta à ignorância.

Embora fosse potente a ajuda dada por Sri Bhagavan, foi a santidade de Alagammal, sua prévia renúncia ao orgulho, que lhe permitiram beneficiar-se dela. Ele disse mais tarde: - Sim, no caso dela foi um sucesso; numa ocasião anterior fiz o mesmo a Palaniswami quando o fim se aproximava, mas foi um fracasso. Ele abriu os olhos e morreu. - Bhagavan acrescentou, porém, que o insucesso não foi total no caso de Palaniswami, pois embora o ego não tenha sido reabsorvido no Si, a maneira pela qual se deu a partida deu indicações de um bom renascimento.

Frequentemente quando os devotos padeciam de aflições, Sri Bhagavan recordava-lhes que apenas o corpo morre e apenas a ilusão do "eu sou o corpo" faz a morte parecer uma tragédia.

(in Arthur Osborne, Ramana Maharshi e o Caminho do Autoconhecimento - Ed. Pensamento - pags.87-88)

domingo, 11 de outubro de 2009

Ausência do Ego



Do livro "One Taste" de Ken Wilber



Tradução de Ari Raynsford



Justamente porque o ego, a alma e o Eu (Self) podem estar presentes ao mesmo tempo, não será difícil entender o sentido verdadeiro de "ausência do ego" [1] - expressão que tem causado imensa confusão. Ausência do ego não significa a ausência de um eu (self) funcional (o que seria próprio de um psicótico e não de um sábio); significa que não estamos mais exclusivamente identificados com aquele eu.





Um dos muitos motivos de não sabermos lidar com a noção de "ausência do ego" é que desejamos que nossos "sábios sem ego" satisfaçam às nossas fantasias relativas a "santidade" ou "espiritualidade", o que, habitualmente, significa que essas pessoas estejam mortas do pescoço para baixo, livres das vontades ou desejos da carne, eternamente sorridentes. Desejamos que esses santos não passem por todas as coisas que nos incomodam - dinheiro, comida, sexo, relacionamentos, desejos. "Sábios sem ego" estão "acima de tudo isso" - assim desejamos. Queremos cabeças que falem. Acreditamos que a religião bastará para livrá-los de todos os instintos básicos, de todas as formas de relacionamento, considerando a religião, não como orientação para viver a vida com entusiasmo, mas, sim, como guia para evitá-la, reprimi-la, negá-la, fugir dela.





Em outras palavras, o homem típico espera que o sábio espiritual seja "menos que uma pessoa", de alguma forma liberto dos impulsos confusos, difusos, complexos, pulsantes, compulsivos, que guiam a maior parte dos seres humanos. Esperamos que nossos sábios sejam a ausência de tudo o que nos impulsiona. Queremos que não sejam sequer tocados por todas as coisas que nos atemorizam, que nos confundem, que nos atormentam, que nos atordoam. É a essa ausência, a essa falta, a esse "menos que uma pessoa" que, frequentemente, chamamos "sem ego".





Entretanto, "sem ego" não significa " menos que uma pessoa"; significa "mais que uma pessoa". Não pessoa menos, mas pessoa mais - isto é, todas as qualidades normais da pessoa mais algumas transpessoais. Pensemos nos grandes iogues, santos e sábios - de Moisés a Cristo, a Padmasambhava. Não foram desfibrados maneirosos, mas dinâmicos e instigantes - desde o episódio dos vendilhões do Templo até a imposição de novos rumos a nações inteiras. Lidaram com o mundo em seus próprios termos, não em termos de uma piedade melosa; muitos deles provocaram revoluções sociais significativas, que se estenderam por milhares de anos. E assim fizeram, não porque tivessem evitado as dimensões físicas, emocionais e mentais da humanidade, e o ego, que é o veículo de todas elas, mas porque as assumiram com tal garra e intensidade que sacudiram as próprias fundações do mundo. Indiscutivelmente, estavam também intimamente ligados com a alma (o psiquismo mais profundo) e o espírito (o Eu informe) - fonte última de sua força - mas expressaram essa força e tiraram dela resultados concretos, exatamente porque assumiram, decididamente, as dimensões menores através das quais ela poderia expressar-se de modo a ser sentida por todas as pessoas.





Esses grandes mobilizadores e agentes de mudança não foram egos pequenos; foram, na mais completa acepção do termo, grandes egos, justamente porque o ego (veículo funcional do domínio da mente) pode existir e de fato existe com a alma (veículo do sutil) e o Eu (veículo do causal). Na mesma medida em que esses grandes mestres mobilizaram o domínio da mente, eles mobilizaram o próprio ego, porque o ego é o veículo desse reino. Entretanto, não se identificavam meramente com seu ego (isso seria narcisismo); simplesmente perceberam seu ego conectado a uma fonte Kósmica [2] radiante. Os grandes iogues, santos e sábios conseguiram t anto, exatamente porque não foram tímidos bajuladores, mas grandes egos ligados ao seu Eu superior, animados pelo puro Atman (o puro Eu - eu [3]) que é um com Brahman; abriram a boca e o mundo estremeceu, caiu de joelhos e pôde ver face a face o Deus radioso.





Santa Teresa não foi uma grande contemplativa? Sim, e Santa Teresa foi a única mulher que reformou uma tradição monástica inteira (pensemos nisso). Gautama Buda sacudiu a Índia nos seus fundamentos. Rumi, Plotino, Bodhidharma, Lady Tsogyal, Lao Tsé, Platão, o Baal Shem Tov - estes homens e mulheres deram início a revoluções no mundo que duraram centenas, às vezes milhares de anos - coisa que nem Marx, nem Lenin, nem Locke, nem Jefferson, poderiam afirmar ter conseguido. E não agiram assim porque estivessem mortos do pescoço para baixo. Não, eles eram fantasticamente, divinamente grandes egos, ligados profundamente ao psíquico, que estava diretamente ligado a Deus.





Existe certa verdade na noção do transcender o ego: não significa destruir o ego, mas, sim, conectá-lo a alguma coisa maior. Como afirma Nagarjuna[4], no mundo relativo, atman[5] é real; no absoluto nem atman nem anatman[6] são reais. Assim, em nenhum caso annatta[7] corresponde a uma descrição correta da realidade. O pequeno ego não se evapora; permanece como o centro funcional da atividade no domínio convencional. Como eu disse, perder esse ego significa tornar-se um psicótico, não um sábio.





"Transcender o ego", significa, pois, em verdade, transcender mas incluir o ego num envolvimento mais profundo e mais elevado, primeiro na alma ou psiquismo mais profundo, depois na Testemunha ou Eu superior e, então, após a absorção nos níveis precedentes, envolver-se, incluir-se e abraçar-se na radiância do Um Sabor.[8] E isto não significa, portanto, "livrar-se" do pequeno ego, mas, ao contrário, habitar nele plenamente, vivê-lo com entusiasmo, usá-lo como veículo necessário, através do qual as grandes verdades podem ser transmitidas. Alma e espírito incluem o corpo, as emoções e a mente; não os eliminam.


Ken Wilber



Grosseiramente, podemos dizer que o ego não é uma obstrução ao Espírito, mas uma radiosa manifestação do Espírito. Todas as Formas não são senão o Vazio, inclusive a forma do próprio ego. Não é necessário livrar-se do ego, mas, simplesmente, vivê-lo com certa intensidade. Quando a identificação transborda do ego no Kosmos em geral, o ego descobre que o Atman individual é, de fato, da mesma espécie de Brahman. O Eu superior não é, em verdade, um pequeno ego, e, assim, no caso de estarmos presos ao nosso pequeno ego, a morte e a transcendência são necessárias. Os narcisistas são, simplesmente, pessoas cujos egos não são ainda suficientemente grandes para abraçar o Kosmos inteiro e, para compensar, tentam tornar-se o próprio centro do Kosmos.





Não queremos que nossos sábios tenham grandes egos; sequer desejamos que exibam qualquer característica evidente. Sempre que um sábio se mostra humano - a respeito de dinheiro, comida, sexo, relacionamentos - sentimo-nos chocados, porque estamos planejando fugir inteiramente da vida, e o sábio que vive a vida nos ofende. Queremos estar fora, queremos ascender, queremos escapar, e o sábio que assume a vida com prazer, vive-a totalmente, pega cada onda da vida e surfa nela até o fim - nos perturba e nos assusta intensamente, profundamente, porque significa que nós, também, deveríamos assumir a vida com prazer, em todos os níveis, e não simplesmente fugir dela numa nuvem etérea, luminosa. Não queremos que nossos sábios tenham corpo, ego, impulsos, vitalidade, sexo, dinheiro, relacionamentos ou vida, porque essas são coisas que habitualmente nos torturam e queremos vê-las longe de nós. Não queremos surfar as ondas da vida, queremos que as ondas desapareçam. Queremos uma espiritualidade feita de fumaça.





O sábio completo, o sábio não-dual está aqui para mostrar-nos o contrário. Geralmente conhecidos como "tântricos", estes sábios insistem em transcender a vida, vivendo-a. Insistem em procurar libertação no envolvimento, encontrando o nirvana no meio do samsara[9], encontrando a liberação total pela completa imersão. Passam com consciência pelos nove círculos do inferno, certos de que em nenhum outro lugar encontrarão os nove círculos do céu. Nada lhes é estranho porque nada existe que não seja Um Sabor.





Na verdade, o segredo consiste em estar inteiramente à vontade no corpo e com seus desejos, com a mente e suas idéias, com o espírito e sua luz. Assumi-los inteiramente, plenamente, simultaneamente, uma vez que todos são igualmente manifestações do Um e Único Sabor. Vivenciar a paixão e vê-la funcionar; penetrar nas idéias e acompanhar seu brilho; ser absorvido pelo Espírito e despertar para a glória que o tempo esqueceu de nomear. Corpo, mente e espírito, totalmente contidos, igualmente contidos, na consciência eterna que é a essência de todo o espetáculo.





Na quietude da noite, a Deusa sussurra. Na luminosidade do dia, Deus amado brada. A vida pulsa, a mente imagina, as emoções ondulam, os pensamentos vagam. O que são todas estas coisas senão movimentos sem fim do Um Sabor, eternamente jogando com suas próprias manifestações, sussurrando mansamente a quem quiser ouvir: isto não é você mesmo? Quando o trovão ruge, você não ouve o seu Eu? Quando irrompe o raio, você não vê o seu Eu? Quando as nuvens deslizam mansamente no céu, não é o seu próprio Ser ilimitado que está acenando para você?





[1] No original egolessness. (N. T.)





[2] Kósmica - de Kosmos. Wilber reapresenta esta palavra em seu livro Sex, Ecology, Spirituality com a seguinte observação: "Os Pitagóricos introduziram a palavra Kosmos que, normalmente, traduzimos como 'cosmos'. Mas o significado original de Kosmos era a natureza de padrões ou de processos de todos os domínios da existência, da matéria para a matemática para o divino, e não simplesmente o universo físico, que é o significado usual das palavras 'cosmos' e 'universo' hoje... O Kosmos contém o cosmos (ou fisiosfera), bio (ou biosfera), noo (ou noosfera) e teo (teosfera ou domínio divino)..." (N. T.)





[3] Sri Ramana Maharshi frequentemente refere-se ao Self pelo nome "Eu - eu", uma vez que o Self é a autêntica Testemunha do eu. (N. T.)





[4] Filósofo budista do Sec. II D.C., criador do Escola Madhyamika. (N. T.)





[5] No Advaita Vedanta, atman é o princípio interior de todos os seres, idêntico a Brahman, o Ser Universal que se desdobra em infinitas individualidades, as quais aparecem e desaparecem no plano dos fenômenos (ou maya), sob o ciclo do samsara (reencarnações), que, por sua vez, é efeito do karma (ação e reação). A identidade Atman/Brahman é expressa nos Upanishads na famosa expressão Tat Tvam Asi - Vós sois Isso. (N. T.)





[ 6] No Budismo, anatman é a negação de qualquer substrato último ou permanente no Universo. (N. T.)





[7] A polaridade atman/anatman. (N. T.)





[8] No original, One Taste - o estado de visão não-dual ou consciência da unidade. (N. T.)





[9] O ciclo contínuo de nascimento e morte. (N. T.)



Fonte: http://www.notiun.com/2007/09/ausncia-do-ego.html

Mercado genético


Cryos: o supermercado do filho perfeito


São altos, loiros e cultos. Chamam-se Peter, Hans, Lars, ou ainda 221, 343, 997. Alguns já participaram da concepção de mais de mil crianças, nascidas em Brasília, Dubai ou Singapura, que, porém, nunca chegarão a conhecer. Esses genitores da tecnociência sem fronteiras são os benfeitores dos casais estéreis. São os "semen donor" da Cryos, os doadores do primeiro banco de esperma do planeta, que tem sua em sede Aahrus, segunda cidade da Dinamarca, famosa pela sua universidade. "É por isso que são quase todos estudantes, aos quais, em troca do seu precioso líquido, oferecemos uma fonte de renda", diz Ole Schou, 55 anos, fundador e diretor-geral da sociedade dinamarquesa.

A reportagem é de Pietro Del Re, publicada no jornal La Repubblica, 19-09-2009. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Na entrada da Cryos, você se encontra em um oceano tempestuoso, no qual nadam espermatozoides ciclopes laranjas: é o tema de uma grande pintura que destoaria em qualquer lugar, mas não aqui. À direita, eis as salas em que tudo se consuma, com fundo musical de aeroporto e uma tela que transmite filme pornô. Ao lado, estão os laboratórios onde o esperma é rapidamente analisado, limpo e congelado. "Veja, aqui dentro há o suficiente para fazer nascer cerca de quatro mil crianças", diz Schou, levantando a tampa de um grande recipiente de alumínio do qual sai uma nuvem branca mais pesada do que o ar. Ali, quatro mil potenciais bebês ainda afogados no nitrogênio líquido. Antes de ser vendido, o esperma permanece congelado por seis meses, em quarentena, para se certificarem de que não veiculam doenças infecciosas.

A cada ano, a Cryos participa do nascimento de cerca de dois mil nenês e envia o seu "produto" a 64 países, procurando driblar, em cada um deles, os obstáculos que as leis sobre a fecundação artificial mais ou menos restritivas colocam. Há nações como a Itália, onde a Cryos não tem cidadania, já que a lei 40 sobre a procriação assistida veta expressamente a fecundação heteróloga.

Desde o início de sua história, ou seja, desde 1991, o banco de esperma dinamarquês já realizou 14 mil concepções, em todos os continentes. Um número recorde. Mas também um dado que causa temores. "How danish sperm is conquering the world", preocupava-se um jornal britânico há algum tempo. Os vikings estão verdadeiramente reconquistando o mundo?, perguntamos a Schou. "Claro que não. É só o achado jornalístico de um grande titulador", se exalta o fundador da Cryos. "Para diversificar os nossos doadores e, assim, a nossa oferta, há pouco tempo abrimos uma sucursal em Nova Iorque e uma em Nova Deli, porque justamente não acredito que um casal africano ou asiático deseje ter um filho com os cabelos claros e os olhos azuis".

Com cerca de 20 empregados e um faturamento de três milhões de euros por ano, a Cryos é uma sociedade em plena expansão. O negócio do esperma funciona a todo vapor. Há outras coisas, porém. Pelo menos é isso que Schou defende, ao interpretar o seu papel em uma chave humanitária. "Fornecemos ajuda a quem não quer recorrer nem ao turismo procriativo nem ao chamado 'mercado negro', ou seja, a um parceiro qualquer, ao primeiro que aparecer, para remediar a esterilidade do homem". Até há alguns anos, os clientes do banco de esperma eram 80% de casais heterossexuais, 10% de casais de lésbicas e 10% de mulheres solteiras. Hoje, porém, esses percentuais se reverteram a um novo modelo de sociedade, onde as solteiras alcançam 40% dos pedidos.

Na Europa, há pouca oferta de esperma, porque nos países que eliminaram o anonimato dos doadores, entre os quais a Suécia e a Grã-Bretanha, os homens que aceitam dar seu próprio sêmen se tornam mais raros. O mesmo vale para a Alemanha, onde conhecer as próprias origens é um direito constitucional. Como ocorre com os filhos adotados, muitos nascidos pela modalidade heteróloga querem sem mais frequentemente conhecer seu próprio pai genético. Imaginem as consequências para um desses exemplos da doação, um dos quais já procriou centenas de bebês.

Bombardeada por pedidos, a Cryos não pode mais se permitir selecionar os doadores. No momento, são cerca de 300. Trabalham por uma década, durante a qual se fecham na salinha em média 500 vezes. "São eles que nos permitem oferecer um amplo catálogo de produtos", explica Ole Schou, que sorri quando é acusado de eugenismo. "A concepção de uma criança é uma questão tão delicada e tão pessoal que não vejo nenhum problema ao poder fazê-la como melhor se acredita, mesmo decidindo a cor da pele ou o cabelo do nascituro".

Na realidade, os critérios de escolha são muitos mais numerosos, já que existem dezenas de tipos de esperma. Pode-se até escolher entre os perfis "de base" e os "estendidos". Os primeiros são aqueles que tem só um número: anônimos, portanto. Os outros têm um nome e provêm de doadores que possuem muitas vezes um título universitário, dos quais pode-se ver a foto quando criança e conhecer, se se quiser, a árvore genealógica. Tudo se baseia na promessa – na ilusão, defendem os cientistas – de que a qualidade, também intelectual, sejam transmissíveis pelo DNA.

A Cryos oferece ainda algo mais: a possibilidade de encontrar um doador que se assemelhe ao pai estéril. Para isso, basta enviar a Aarhus uma foto e pagar 25 euros. Nada comparável a um grande banco de sêmen californiano, que apresenta em seu site uma lista de chamados "doadores semelhantes". Semelhantes a personagens como Clark Gable ou John Kennedy, Antonio Banderas ou Barack Obama.


Fonte:http://www.ihu.unisinos.br/index.php?option=com_noticias&Itemid=18&task=detalhe&id=25880

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Psicanálise: entrevista com Elisabeth Roudinesco


'Psicanálise é a medicina da alma do nosso século'.




Poucos intelectuais traduziram tão bem sua época como Sigmund Freud fez com o século XX. Em sua obra, estão expressas as bases de conceitos tão poderosos e, ao mesmo tempo, tão legíveis, que se tornaram parte do cotidiano com a velocidade característica de sua época. É o caso do inconsciente - um conceito já elaborado nos séculos XVIII e XIX por autores como Leibniz e Edward von Hartmann. Reinterpretada por Freud, a ideia de que o que falamos pode ter significados ocultos que fogem à esfera da consciência e, portanto, ao nosso domínio, é hoje reconhecível por todos.

A reportagem e a entrevista é de Andrei Netto e publicada pelo jornal O Estado de S. Paulo, 20-09-2009.

Resumir seu pensamento a esse conceito, porém, é limitar uma obra enérgica e influente, alerta Elisabeth Roudinesco. Psicanalista, historiadora, docente, escritora, discípula de Jacques Lacan, amiga de Jacques Derrida, Elisabeth é, aos 64 anos recém-feitos, um dos pensadores vivos mais importantes de sua área, a psicanálise - um dos legados de Freud à humanidade. Segundo a intelectual marxista, o médico neurologista convertido em gênio está por trás, de uma forma ou de outra, de todas as formas de emancipações vividas pela sociedade do século 20, das quais o feminismo e a liberação sexual são só dois exemplos evidentes.

Além de suas atividades acadêmicas, que a levam a viajar o mundo todo, Elisabeth, uma das intelectuais mais respeitadas da França, se mantém hiperativa como escritora. E no centro de seus interesses está Freud. Ele explicaria a efervescência da autora, que lançará dois novos livros - Histoire de la Psychanalyse en France (La Pochotèque) e Retour à la Question Juive (Albin Michel) - nos próximos dias.

Previsto para outubro, Em Defesa da Psicanálise (Jorge Zahar, 248 págs.) é o seu próximo lançamento no Brasil. Nessa obra, estão reunidos entrevistas e ensaios da autora inéditos no País. Organizados pelo psicanalista Marco Antonio Coutinho Jorge, os textos são de épocas diversas e abordam temas polêmicos: a falta de participação dos psicanalistas na vida pública, a homossexualidade, o antissemitismo e a ciência, além das conexões da psicanálise com a medicina e a filosofia. No livro, a resposta da autora para os que falam da morte da psicanálise é direta: "Que ilusão!"

Em 23 de setembro de 1939, Freud morria em Londres. Às vésperas do aniversário de 70 anos de seu desaparecimento, o Estado pediu ajuda a Elisabeth para esmiuçar a herança de um mestre. Em seu apartamento, em um quartier pequeno-burguês de Paris, na quarta-feira, foram registradas mais de duas horas de entrevista exclusiva.

Eis a entrevista.

Estamos a 70 anos da morte de Freud. O que ainda é tão representativo em sua obra? Por que ele é uma referência para a própria humanidade?

Ele é o único a ter teorizado, assim como seus herdeiros, o que chamamos de inconsciente. Não falo do subconsciente nem do inconsciente dos psicólogos. Eu me refiro ao inconsciente, que pode ser traduzido pela noção de que, quando alguém fala, não sabe o que diz. Há milhões de exemplos concretos, como o ministro do Interior da França (Brice Hortefeux), que fez declarações racistas na semana passada. Conscientemente, ele não é racista. Inconscientemente, sim. Mas julgamos alguém por seu inconsciente? Sim, se ele é ministro. Mas, via de regra, não podemos enviar alguém aos tribunais por seu inconsciente. Podemos dizer: "Comporte-se!" Muitas pessoas são inconscientemente racistas e antissemitas. Quando não há lei, esses sentimentos se exprimem.

Está no inconsciente? É inexorável?

É inexorável. Freud dizia, com razão, que a única maneira de impedir o crime é a lei, a civilização. No fim do século XIX, havia pessoas e governos pública e oficialmente racistas. Não era proibido.

Permita-me retomar a questão: por que Freud ficou marcado como o homem que sintetiza o século XX?

Porque ele aportou algo de novo. Ele estava no prolongamento da filosofia do sujeito. Ele trouxe explicações que a filosofia havia pensado, mas ele lhes deu um assento teórico. E isso não me surpreende. Além disso, Freud permite compreender os dois totalitarismos do século XX: o nazismo, sobre o qual pensou e anteviu melhor do que qualquer outro, e o comunismo, que não teve nada a ver com sua ideia original, com o marxismo. Os dois, aliás, são diferentes: o nazismo se inscreveu desde seu início, sabia-se o que esperar; o comunismo caminhou para o lado errado. Mesmo assim, Freud viu que ele não funcionaria. É verdade que ele era conservador, assim como muitos de seus herdeiros. Mas há muitos freud-marxistas, muitos freudianos de esquerda - que são os meus preferidos, aliás. Nessa época, psicanálise era uma teoria da regeneração do homem, da emancipação. Quatro coisas nasceram ao mesmo tempo: o sionismo, o último movimento de emancipação dos judeus; a psicanálise, que é a emancipação do inconsciente; o socialismo, a emancipação social; e o feminismo, a emancipação da mulher. Era um grande movimento. O século XX, como anteviu Freud, foi o triunfo do contrário - o que pode ser resumido no nazismo. Freud afirmou que o triunfo do contrário já estava lá, entre nós, naquela época. E disse ainda: "Atenção, eu sou a favor da emancipação, mas o homem é habitado pelo contrário disso." Eu creio que ele foi o único a dizê-lo. É um dos motivos pelos quais é o Homem do Século XX. Por outro lado, ele jamais abandonou a ideia do progresso. Freud foi um homem progressista. Contra Schopenhauer, contra os grandes conservadores de seu tempo, contra os que eram inteiramente pessimistas em relação ao progresso, acusando-o de não servir para nada, Freud disse: "Sim, ele serve." Foi por isso que eu o chamei, depois de Adorno e outros, como a "luz sombria", marcada pelo iluminismo, mas sem muitas ilusões. Esse vínculo, o fato de ter pensado a relação entre as duas coisas, o levou a pensar ao mesmo tempo que o pior e o melhor podem acontecer com o homem. Ele nunca foi antiprogressista, ao contrário do que se diz. Por tudo o que mencionei, ele está no centro dos dias de hoje. Você não pode pensar o sionismo, o feminismo, a liberação das mulheres, a transformação da família, sem passar por Freud em determinado momento.

Se Freud é o homem do século XX, qual é o seu lugar no século XXI?

É o mesmo. A maioria dos psicanalistas tornou-se conservadora. Não 100%, mas a maioria é conservadora. Por quê? É uma de minhas grandes interrogações. Eu não o sou, e no Brasil eles são menos. Diria até que são menos na América Latina. Mas eles são conservadores por diversas razões. Os lacanianos não deveriam sê-lo, já que Lacan relançou o pensamento da rebelião, da contestação. A Internacional Freudiana tornou-se conservadora porque caiu na repetição do dogma. Eles não se renovaram, tornaram-se um movimento dogmático, centrado sobre a clínica e não sobre a reflexão a respeito da sociedade e do indivíduo. Além disso, cometeram o erro de dialogar demais com as ciências duras, ao crer que o debate sobre o cérebro e os neurônios era essencial. Sempre afirmei que esse debate não era essencial, porque o cérebro e os neurônios não precisam de psicanálise. Não há muito o que fazer com isso, senão dar medicamentos. Mas se a psicanálise se ocupa apenas disso, afastando-se das moeurs (expressão francesa para costumes), ela se torna conservadora, familiarista. Os psicanalistas se desinteressaram dos assuntos sociais. Foi assim que se tornaram conservadores.




Por que a psicanálise brasileira é menos conservadora?

A América Latina, e sobretudo o Brasil, é uma sociedade que espelha a Europa. Os psicanalistas brasileiros são ecléticos. Em alguns momentos são culturalistas, e nos chateiam com a sua brasilidade - não esqueça que houve na França a francilidade e na Alemanha a germanidade. Mas, fora isso, eles, como espelho da Europa, importaram conhecimento. Ao importar, misturaram-no. E o ecletismo dos brasileiros - mais do que dos argentinos, que são menos ecléticos - se formou pegando um pouquinho de Freud, um pouquinho de Lacan e por aí foi. Isso funciona porque questiona o dogmatismo. Eles desconstruíram, para empregar a expressão de Derrida, o dogma europeu.

Voltemos a Freud. Ele não avançou em dois domínios: as crianças e os psicóticos. Por quê?

Sim, ele avançou sobre o tema da infância. Ele nos deu a base da análise da infância. O que se pode dizer é que sua corrente não triunfou no mundo psicanalítico quando se fala em infância, e sim a de Melanie Klein. Nisso, estou completamente de acordo com você. Foi ela quem fundou a psicanálise da infância. No entanto, tudo isso é psicanálise. Ela engloba todas as correntes. Sobre os psicóticos, você tem razão. Freud não acreditava que seria possível analisar os psicóticos. Muito cedo, quando ele compreendeu que essa era a "Terra Prometida" - bem antes da aparição dos medicamentos -, quando ele percebeu que quase todos os seus discípulos eram psiquiatras e trabalhavam com a psicose, ele se desinteressou, embora não tenha desestimulado ninguém. É verdade que é um domínio muito problemático. A análise se faz para os neuróticos. A "cura" analítica funciona muito para os neuróticos, porque, como eles não se curam, se acomodam. E, como transformamos a neurose de fracasso em neurose de sucesso, a cura funciona. A psicanálise torna mais inteligente, mais corajoso, mais apto na sociedade. A psicanálise funciona muito bem. Entretanto, é verdade que não curamos bem a psicose, embora tenhamos nos desenvolvido muito nesse tema também. Os loucos hoje buscam na psicanálise um complemento, já que os psiquiatras só querem saber de medicamentos. Se não há a psicanálise, o paciente vira um legume, um morto em vida.

No início, com Freud, a psicanálise era um processo breve, rápido. Hoje, é o contrário, estende-se por anos, décadas às vezes. O que mudou?

Era rápido porque Freud fazia seis sessões por semana de uma hora. Era intensivo. Há também o fato de que estendemos a análise para domínios não previstos de início, o que a tornou mais difícil. Mudou-se a modalidade da cura, também. Há pessoas que precisam falar sempre, ao longo de sua vida. Mas é verdade que Freud ficaria chocado hoje. Duas vezes por semana, durante 10 anos? Não! Para Freud, era de seis meses a um ano, todos os dias, por uma hora. Quando não era possível, como Marie Bonaparte, tudo bem. Ela ficou 14 anos em análise.

Freud esforçou-se muito para dar à psicanálise o status de ciência, mas ela sempre esteve na alça de mira de cientificistas ortodoxos. Como a psicanálise responde a essas críticas? E por que ela deve ser considerada uma ciência?

Freud oscilou, hesitou muito entre o status de ciência, no sentido de ciência dura - ele queria no fundo que a psicanálise fosse uma "neurologia da alma" - e um outro status, que ele não chamava filosofia, mas ainda assim estava do lado da especulação, da literatura e da filosofia. Ele renunciou completamente e muito cedo ao status de ciência dura, porque se deu conta de que não se tratava de uma ciência no sentido que se conhece. Logo, é preciso inscrever a psicanálise no registro das ciências humanas. É uma ciência, no sentido da racionalidade, mas não no mesmo sentido da biologia e da neurologia. Freud se dividia entre as duas concepções. Não estamos mais no tempo do darwinismo, e a biologia é reconhecida como uma ciência, uma ciência da natureza. A psicanálise não o é de modo algum. Não tem metodologia, resultados ou a positividade das ciências duras. É uma ciência mais próxima das Humanas, como a Antropologia, a Sociologia, a História. Mas mesmo essa concepção, a de parte das ciências humanas, já foi contestada.

O pensamento de Freud é íntegro e poderoso ainda hoje? Sua força criativa ainda é existe?

Sem dúvida. Creio que vamos assistir a um grande retorno a dois pensadores, inclusive: Marx e Freud. Não ao comunismo e à psicanálise, mas a Marx e Freud. Autores como Marx, Freud, Nietzsche e toda a filosofia da rebelião se tornaram malditos nos últimos 20, 30 anos, quando caímos em um estado de neoconservadorismo. A crise econômica, em especial como a que se passou nos Estados Unidos, vai desempenhar um papel considerável. Vamos voltar ao pensamento da rebelião.

Como as ideias de Freud retornarão? Com que aplicação?

Retornarão com as de Marx. Mas não sei como serão aplicadas. O que está voltando com muita força é a ideia de que temos um inconsciente, de que o desejo é capital. A psicanálise, bem pensada, permite compreender a moeurs, o inconsciente, o desejo e a sexualidade de uma forma inteligente. É uma teoria do desejo, afinal.

A senhora vê conceitos de Freud confirmados pelos progressos da ciência ou por novas tecnologias?

Não. Os progressos da ciência são os progressos da ciência. Nenhum dos conceitos de Freud é confirmado pela biologia. São dois domínios diferentes. A psicanálise é a medicina da alma. É especial.

Assim como a psiquiatria, em sua origem?

Hoje não há mais psiquiatria. E, logo, nos damos conta de que existem cada vez mais loucos. Porque são usados apenas medicamentos, ela não funciona mais. É útil, mas não resolve. É muito interessante o que se passou na psiquiatria. Biologizaram-na. Até então, era um equivalente da psicanálise. Era uma medicina da alma. Mas a deslocaram para a biologia. Curamos a loucura? Não. Acalmamos os loucos? Sim. Vivemos um recuo de 50 anos com a psiquiatria "biologizada".

A obra de Freud é marcada por sua didática, sua clareza. E esse não me parece ser o caso dos pensadores da psicanálise contemporânea. De onde vem esse problema de comunicação?

Esse problema é enorme. Os psicanalistas escrevem em clichês. Mesmo que Lacan seja um autor difícil de ler, não se trata de um clichê. Além disso, mesmo que os seguidores de Lacan escrevam em secto, os freudianos também o fazem. Freud era um autor claro, o que influenciou todo o movimento psicanalítico. Hoje, quando leio psicanalistas freudianos norte-americanos ou ingleses fico impressionada com os clichês que estão presentes. É um símbolo muito grave de encerramento sectário. Quando os intelectuais se fecham em torno de si mesmos, eles falam a linguagem de uma tribo. No interior, a tribo se compreende. Eu sempre compreendi a tribo, mas não posso escrever como ela. Não sei fazer. Sou muito clara. Às vezes os antropólogos e sociólogos que queriam se divertir me perguntavam se eu, como psicanalista, não me sentia como o antropólogo que chega à Melanésia e que deve decifrar a linguagem da tribo. É uma alegoria exata. Eu decifro facilmente essa linguagem. Mas para você, que a lê, não deve ser fácil. A psicanálise é mais afetada pelos clichês que a filosofia, por exemplo.

O meu ponto é: se o problema da clareza da comunicação existe, o que torna a psicanálise tão popular em todo o mundo?

Ela é popular em todo o mundo, mas o é de uma forma inconveniente. Por exemplo, ela é popular em muitos países, infelizmente, pela forma da psicologia interpretativa dos chefes de Estado. Eu recuso todos os pedidos de entrevista sobre as fantasias dos chefes de Estado. Mas isso a TV adora, sob a forma da psicologia. Todos os antifreudianos, todos os que não gostam da psicanálise, dirão que ela está em todo lugar. Sim, os psicanalistas estão em todo lugar, mas sob que formas! É ridículo!

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

A crise é uma só


Como seriam vistos os programas de incentivo ao desenvolvimento se enfocasse desde a falta de alimentos, água e energia? Os políticos têm as ferramentas necessárias para fortalecer a posição dos países que sofrem tal escassez? Setenta e cinco especialistas de agências oficiais, laboratórios, fundações, empresas e organizações não-governamentais dos Estados Unidos se reuniram em busca de resposta a estas perguntas, a convite do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS).

A reportagem é de Zarrín Caldwell, da IPS, e publicada pela Agência Envolverde, 07-10-2009.

O fórum procurou traçar um panorama completo da escassez de recursos e de suas consequências, tanto para o Norte industrial quanto para o Sul em desenvolvimento. Howard Passell, da equipe da Sandia National Laboratories – instituição operada pelo grupo aeronáutico Lockheed Martin e vinculado ao Departamento de Energia – considerou errôneo concentrar-se em alguma escassez em particular, porque, segundo disse, é preciso atender a “crise ecológica planetária” no sentido amplo, “da qual alguns sinais são fala de água, de energia e de alimentos, os problemas climáticos e as epidemias”.

Passell alertou que “lidar com estas crises como se fossem independentes umas das outras é um erro que deriva em desperdício de dinheiro e esforços, ineficácia e consequências não previstas”. Portanto, recomendou enfoques “integrados, multidisciplinares e multissetoriais” de caráter mundial. Segundo o Fórum Econômico Mundial (FEM), quase quatro bilhões de pessoas viverão em 2030 em países que sofrem tensão por causa da água se os governos e indivíduos não usarem este recurso com mais responsabilidade. A agricultura representa 70% do uso de água doce, que leva a um vínculo claro entre sua escassez e a de alimentos. O estudo do FEM estima que a demanda por comida crescerá entre 70% e 90% até 2050.

Por sua vez, a Agência Internacional de Energia prevê que a demanda energética mundial aumentará 45% até 2030, e que metade desse aumento corresponderá a China e Índia. Os conflitos pelos recursos persistem entre países em desenvolvimento e dentro de suas fronteiras. O uso que dão aos cursos de água internacionais (como o rio Ganges, que corta Índia, Nepal, Bangladesh e China) é apenas um exemplo. “Na medida em que estes países continuarem crescendo e mudando suas aspirações de desenvolvimento e suas dietas, aumentará a demanda por água do Ganges e de outros sistemas fluviais internacionais e nacionais”, alertou em agosto o Instituto Nicholas de Soluções em Política Ambiental da Universidade de Duke (EUA). Existem numerosos antecedentes de acordos bilaterais sobre os 260 rios internacionais do mundo, mas poucos fóruns regionais que atendem sua situação.

No fórum do CSIS também foram analisados os vínculos entre recursos e segurança no Sul em desenvolvimento. “Possibilidades de mudanças abruptas e catastróficas ameaçam a segurança de todas as nações”, afirmou Carol Dumaine, subdiretora de Energia e Segurança Ambiental do Departamento de Energia dos Estados Unidos. A crise financeira mundial deixou ainda mais tensa a questão da escassez dos recursos, alertou.

Sharon Burke, vice-presidente encarregada de Segurança Natural do Centro para uma Nova Segurança Norte-americana, defendeu a análise desses vínculos dentro dos Estados Unidos. “Este país envia muitos minerais para o exterior para refinação, mas pouquíssimos veem as implicações estratégias deste fluxo ou o que significa para as dependências da economia nacional ou da indústria da defesa”, afirmou. O fórum revelou uma valorização maior do trabalho internacional.

As forças armadas norte-americanas, por exemplo, ampliaram sua própria definição de segurança para além de sua tradicional avaliação de capacidade bélica. Um sinal disso é que dão mais atenção à situação de comunidades que sofrem as consequências da mudança climática. O Departamento da Defesa agora inclui em suas análises questões como o impacto das migrações e da delinquência na segurança nacional, por exemplo.

O Fórum realizado no último dia 1º deixou evidente a sensação de urgência predominante entre funcionários, cientistas e especialistas. Mas, todos eles constataram dificuldades na divulgação das conclusões de especialistas entre os políticos. O problema está, em parte, na complexidade inerente aos modelos computadorizados relativos à escassez de recursos. A compilação e a análise de dados em múltiplos setores são especialmente difíceis. “Agora temos a capacidade de enfrentar essa dificuldade, com sistemas que não tínhamos há 10 ou 15 anos”, disse Passell.

Para as instituições, o desafio é “manejar a complexidade, assumi um enfoque de longo prazo, construir confiança” e, em última instância, escolher entre “cooperação e conflito”, afirmou Alexander Evans, do Centro de Cooperação Internacional da Universidade de Nova York. O fórum sugeriu a criação de um “índice de vulnerabilidade de recursos” de caráter mundial, ou de um órgão como o Grupo Intergovernamental sobre Mudança Climática (IPCC), encarregado de elaborar um informe periódico a respeito.

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Plano B para salvar a civilização



"Acabo de viver a rica experiência de editar o Plano B 4.0-- Mobilização para Salvar a Civilização, o importante livro de Lester Brown, um dos mais notáveis pensadores mundiais da sustentabilidade", escreve Ricardo Voltolini, publisher da revista Ideia Socioambiental e diretor da consultoria Ideia Sustentável: Estratégia e Inteligência em Sustentabilidade, em artigo publicado na Revista Idéia Socioambiental e reproduzida por Envolverde, 02-10-2009.

Eis o artigo.

Acabo de viver a rica experiência de editar o Plano B 4.0-- Mobilização para Salvar a Civilização, o importante livro de Lester Brown, um dos mais notáveis pensadores mundiais da sustentabilidade.

Fundador do Worldwatch Institute, em 1974, e presidente do Earth Policy Institute desde 2001, Brown ficou conhecido pela série de relatórios “O Estado do Mundo” e também por ser um militante de ideias claras para os grandes desafios ambientais da humanidade. Nesses tempos de aquecimento global, ele tem sido um porta-voz qualificado da transição para uma economia de baixo carbono e interlocutor frequente de líderes políticos em todo o mundo.

Seu Plano B para “salvar a civilização” baseia-se em quatro metas interdependentes: estabilizar o clima e a população, eliminar a pobreza e restaurar os suportes da natureza, como água, solo e ar. Convicto de que é possível mudar, Brown se apoia em um repertório de experiências mundiais bem-sucedidas que podem ser replicadas no esforço necessário e urgente, por exemplo, de reduzir o uso de água para irrigação, melhorar a produtividade do solo para segurança alimentar, planejar cidades mais centradas nos indivíduos, reflorestar áreas degradadas, controlar a natalidade ou incorporar o custo do carbono no preço de produtos.

Brown é um homem de ideias coerentes. Há pelo menos uma década, ele defende que persistir no “business as usual” levará a um aumento no número de estados em falência e a um esgotamento dos recursos naturais, colocando sob ameaça a existência humana na terra.

O modelo econômico baseado no consumo de combustíveis fósseis, no carro como senhor da mobilidade e em produtos descartáveis tem, portanto, os seus dias contados. A nova economia precisará ser erigida em torno de energias renováveis, de sistemas de transporte diversificados e da ideia de reuso e reciclagem de todos os materiais. Alterar a rota é, urgente e, principalmente, viável na medida em que a humanidade dispõe de tecnologia e capacidade política suficientes. Resta saber, no entanto, como sugere o autor no epílogo do livro, se está preparada para fazê-lo “em velocidade de tempos de guerra.”

Lester Brown


Na provocativa análise de Brown, as grandes transformações sociais podem ser classificadas em três modelos. Um é o da catástrofe, segundo o qual apenas acontecimentos dolorosos mudam a forma de pensar e agir de uma sociedade. O outro sugere que uma sociedade só se transforma de fato após um longo período de mudanças graduais de pensamento e atitude. E o terceiro prega que a toda mudança importante advém de uma conjugação de grupos de pressão com o respaldo de lideranças políticas.

Muito apregoado pelos cientistas, o primeiro modelo –na visão do autor-- apresenta uma clara fragilidade. Esperar por um evento ambiental catastrófico, desses que mobiliza o mundo todo, pode ser tarde demais para solucionar a questão climática. Em entrevista que fiz, há dois anos, Mohan Munasinghe, vice-presidente do IPCC das Nações Unidas, afirmou temer que as pessoas só aprendam a partir de tragédias.

O segundo parece ser, na visão de Brown, um pouco mais interessante. Sua vantagem é a consistência. Para ilustrá-lo, ele lembra o caso do declínio do tabagismo nos Estados Unidos.Três décadas de intenso movimento de oposição ao cigarro, baseado em contra-informação, restrições à publicidade, tributação adicional do produto e uma montanha de multas, amadureceram a sociedade para o tema.

Para o presidente do Earth Policy Institute, o terceiro modelo é o mais eficaz na medida em que permite promover mudanças de forma mais rápida. Em sua defesa, Brown destaca o casamento mais recente do ideário dos movimentos por uma economia de baixo carbono com a agenda do presidente Barack Obama, que culminou, por exemplo, na suspensão da construção de novas usinas movidas a carvão nos EUA.

Botar em ação o Plano B exige, sobretudo, vontade política e um novo modelo mental, não mais preso aos ditames da economia clássica, da visão antiquada de desenvolvimento que aparta a esfera econômica da ambiental e social. Recursos financeiros não são exatamente um obstáculo. Somados os valores das metas sociais e ambientais, consegue-se viabilizar o Plano proposto por Brown a um custo de US$ 187 bilhões por ano. Entre as medidas sociais, estimadas em US$ 77 bilhões, estão educação primária universal, erradicação do analfabetismo, merenda escolar para os 44 países mais pobres, saúde reprodutiva e planejamento familiar, saúde básica universal e disseminação do uso de preservativos. Entre as ambientais, avaliadas em US$ 110 bilhões, incluem-se o plantio de árvores para sequestro de carbono, contenção de enchentes e conservação do solo, proteção da biodiversidade e estabilização dos recursos hídricos. Para se ter uma idéia do que significa esse dinheiro, ele equivale a 13% dos gastos militares feitos por todos os países do mundo para “defender” a humanidade.

Pode haver melhor investimento para defesa da humanidade do que a saúde do planeta?


quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Arquivo vital: o fim da privacidade ?



Arquivo vital: o futuro sem amnésia


Pessoas que saberão exatamente quantos telefonemas fizeram em um certo mês, a quem e quanto duraram, se foram à academia e com qual frequência, se saíram com os amigos, que estradas percorreram e se estavam de carro, de bicicleta ou a pé. Diferentemente de um velho álbum de família, as crianças de hoje darão vida a uma revolução que mudará a face das relações interpessoais e da própria sociedade.

A reportagem é de Jaime D'Alessandro, publicada no jornal La Repubblica, 29-09-2009. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Quem defende esse futuro é Gordon Bell (foto ), pesquisador de ponta da Microsoft e ex-vice-presidente da Digital Equipment Corporation, uma empresa que contribuiu muito para o nascimento da World Wide Web, em um livro recém publicado nos EUA e intitulado justamente "Total Recall, how the e-memory revolution will change everything". "Todo dia que passa, me esqueço sempre mais e lembro sempre menos", escreve Bell aos 75 anos. "Mas acontece com todos, também com vocês", continua.

E é por isso que, desde 1998, ele decidiu começar a salvar em suporte digital o que era possível salvar da sua vida no âmbito de um projeto experimental chamado MyLifeBits. Para sua sorte, ao longo do tempo, foi possível arquivar sempre mais coisas de maneira cada vez mais fácil e automática. Bell, de fato, começou a passar no scanner os documentos e livros que lia, depois passou ao correio eletrônico, anotando o s sites que visitava na rede, registrando os telefonemas feitos. Por fim, começou a levar a tira-colo a SenseCam, uma máquina digital que tira uma fotografia automaticamente a cada 30 segundos. E um aparelho de bolso que tem um GPS integrado para traçar os movimentos de quem o vesto, um sensor infravermelho para medir a temperatura do corpo e capturar uma imagem quando alguém entre em seu campo de visão.

O resultado? Gordon Bell tem agora um arquivo de 261 gigabytes e, considerando o fluxo sempre maior de vídeos e de fotos de alta resolução, cada mês deve aumentar um gigabyte. Mas ele se diverte, porque não precisa dedicar tempo para recordar, mas só para pensar. E depois admite achar agradável poder ver sequências de imagens da sua vida em sucessão rápida. Ele pode reviver a sua viagem à Austrália e acompanhá-la em um mapa digital, ou aquela vez em 2007 em que ele baixou hospital por causa do marcapasso.



Porém, nem todos estão convencidos de que a Total Recall será verdadeiramente uma revolução. Pelo contrário. "No fim das contas, não muda muita coisa", comenta o filósofo Maurizio Ferraris, professor da Universidade de Turim. "Porque, desde sempre, toda sociedade tem formas de registro. A única contrapartida é um aumento dos conflitos, inevitáveis quando tudo fica gravado. Porque essa segunda memória digital não faz outra coisa que colocar luz, deixar evidente aquilo que somos de todos os pontos de vista. No bem e no mal. E isso vale também para a sociedade e a política. Basta pensar nos escândalos dos últimos tempos que nunca viriam à luz sem os celulares e as máquinas fotográficas compactas. Enfim, não acredito que seja necessário ter medo, porque é um processo já em curso. E depois não se sabe se as fotos tiradas hoje ou os vídeos serão compatíveis com os computadores de amanhã. Certamente, a vida sempre mais documentada está no presente, na contemporaneidade. Tenho mais recordações do que se tivesse mil anos, escrevia cansado Charles Baudelaire. Bem, tenho essas impressões toda vez que abro o meu e-mail. O problema é que não sei se, em dez anos, eu ainda conseguirei ler esses e-mails".


Além da compatibilidade entre os formatos, causará efeito a muitos o fato de saber que uma parte sempre mais consistente das suas recordações existe há muito tempo sob a forma de dados digitais. Faltam apenas os instrumentos para unir as várias peças do quebra-cabeças. Qualquer smartphone de última geração tem GPS e, por meio dele, é possível reconstruir os nossos movimentos. Todos usamos e-mails, tiramos sempre mais fotografias e gravamos vídeos, o nosso leitor de mp3 guarda traços do que escutamos, assim como o nosso celular mantém as marcas de tudo o que lemos, ouvimos, vimos.

Não há escapatória, escreve Bell, e por três fatores principais. Em primeiro lugar, por causa do aumento exponencial das capacidades de armazenamento dos hard disks. Em 1970, um disco de 20 gigabytes era grande como uma lavarroupa e custava 30 mil dólares. Atualmente, um disco com 50 vezes mais capacidade, de um terabyte, tem as dimensões de um livro de bolso e pode ser levado para casa por 150 euros. Em 2020, será grande como uma moeda e contido nos celulares, e o preço será inferior ao de um cafezinho. Pelo contrário, 100 euros serão suficientes para 250 terabytes: muito para conter centenas de milhões de documentos, milhões de imagens, milhares de horas de vídeo. Uma vida inteira.




O uso e a difusão dos dispositivos hi-tech farão o resto. Enfim, os instrumentos para arquivar e organizar toda essa massa de dados que serão sempre mais específicos e simples. Assim como automáticos e invisíveis. Uma foto será tirada e transferida diretamente o nline. As máquinas digitais com GPS e wi-fi integrado já começaram a aparecer. Sem esquecer que as gerações sucessivas a 1984, sempre segundo Bell, distinguem sempre menos entre público e privado, colocando na Web as suas vidas, graças às redes sociais. Estão colocando em curso um processo de progressiva espetaculatização de si mesmos.

"É um sonho que se torna realidade", comenta Gustavo Pietropolli Charmet, psiquiatra e professor de psicologia dinâmica na Universidade de Milão, que trabalhou durante anos com adolescentes, um pouco divertido e um pouco cético. "Ser os próprios pensamentos e a própria história é uma hipótese fascinante. Paciência se isso ocorre por meio das próteses tecnológicas. Fazendo as contas, é melhor assim que perder todo rastro do que ocorreu. E depois pensemos nos muitos benefícios: ter o controle sobre a memória de maneira tão fácil e imediata salvaria muitas pessoas da obsessão de ter diário s ou guardar notas escrupulosamente, dando-lhes uma importância capital. No fundo, todo o tratamento psicanalítico mira isso, porque lembrar tudo significa recalque zero. Depois, certamente, as multidões virão até nós, psiquiatras. A desocupação, sabe-se, é um problema muito ruim", conclui rindo.

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Hinduísmo e a busca pelo moksa


Entrevista especial com Klaus Klostermaier


“A noção hindu de dharma é muito mais abrangente que o termo ocidental ‘religião’. Seu significado implica ‘modo de viver’ (...) e deve expressar a ordem natural das coisas”, esclarece Klaus Klostermaier, pesquisador de Hinduísmo e história indiana, à IHU On-Line, por e-mail. Na entrevista a seguir, ele explica que o hinduísmo é politeísta, mas os hindus são monoteístas. De acordo com o professor, as escrituras falam de 330 milhões de deuses, mas cada hindu escolhe seu próprio istadevata, ou seja, seu deus. “As principais religiões hindus como vaisnavismo, saivismo e saktismo adoram o mesmo deus sob diferentes nomes. Mas todos concordam em que somente existe um único principio último: o Criador Mantenedor e Destruidor do Universo”, enfatiza.

Os aproximadamente 900 milhões de hindus, menciona o pesquisador, mantêm diferentes atitudes em relação ao hinduísmo: “desde a identificação total até a rejeição completa”. Mas em comparação com a Europa Cristã, informa, “a Índia hindu continua sendo muito religiosa”.

Ao comentar o sentido de tradições antigas como o hinduísmo, que existe há mais de 6000 anos, e sua relevância no mundo pós-moderno, Klaus Klostermaier é enfático: “acredito que já estamos entrando num pós-pós-modernismo”. E explica: “Muitos estão buscando a religião da pessoa pensante, não crença cega ou devoção tradicional. Mestres espirituais de todas as origens encontram grandes audiências hoje em dia, quase que por toda a parte”.

Klaus Klostermaier é doutor em Filosofia pela Gregoriana de Roma e atualmente professor de Estudo das Religiões na University of Manitoba . Entre sua produção bibliográfica, destacamos Hinduism: A Beginner's Guide (2008); Hindu Writings: A Short Introduction to the Major Sources (2001); A Survey of Hinduism (3rd ed. 2007) e Hindu and Christian in Vridaban.

Confira a entrevista.

IHU On-Line — Quais aspectos históricos caracterizam o aparecimento do hinduísmo e sua permanência no Oriente ao longo dos séculos?

Klaus Klostermaier -
Hinduísmo é o nome de uma grande variedade de diferentes religiões que surgiram na Índia no decorrer de um tempo muito longo, possivelmente mais de 6000 anos. O elemento comum, teoricamente, é a aceitação do Veda como texto revelado. O termo “hinduísmo” como designação para religiões indianas foi uma invenção de estrangeiros. Os próprios hindus tinham chamado sua religião de vaidika dharma (dispensa [ou ministração] védica) ou sanatana dharma (dispensa eterna). A noção hindu de dharma é muito mais abrangente que o termo ocidental “religião”. Seu significado implica “modo de viver” e não depende de um fundador histórico, mas deve expressar a ordem natural das coisas. Vir Sarvarkar, nacionalista hindu do séc. XX, definiu a pessoa hindu como alguém cuja Terra Santa é a Índia. Os hindus consideram os rios, as montanhas e os mares da Índia como sagrados, e, por toda a Índia, há um grande número de cidades santas que são a meta de milhões de peregrinos. O estreito vínculo do hinduísmo com a geografia e natureza da Índia é uma das razões para sua resistência face aos numerosos desafios vindos de fora. O hinduísmo é parte integrante da história e cultura da Índia.

IHU On-Line — Os indianos continuam observando o sistema de castas? Como é a percepção dessa divisão social? Ela gerou grandes desigualdades entre os cidadãos?

Klaus Klostermaier -
Casta é um assunto muito complexo. Nas escrituras hindus, ela é descrita como uma divisão da humanidade, implantada bem no início do mundo, pelo Criador. Ao longo de toda a história conhecida da Índia, ela foi um fator importante: os brâmanes, a casta mais elevada, controlavam as escrituras e rituais religiosos, xátrias eram os governantes e comandantes militares, vaixás, os comerciantes e negociantes, e sudras, os trabalhadores. Havia grande número de "excluídos" ["outcastes", párias] e tecnicamente estavam fora da lei que regulava a sociedade de castas. A pessoa se tornava um pária ao violar regulamentos de casta, por exemplo, ao negligenciar rituais ou deixar de seguir as regras da própria casta. As quatro “castas” (varnas) mencionadas acima se dividiam em cerca de três mil jatis (linhagens de nas cença), que são de grande importância prática principalmente em conexão com o casamento. Na Índia de hoje, a divisão entre as castas não é tão evidente como costumava ser. Os brâmanes podem ser homens de negócio ou produtores rurais, e sudras podem ocupar posições elevadas no governo. Mas, socialmente, os jatis continuam muito importantes, principalmente no contexto do casamento. Isto vale também para cristãos indianos! Basta uma olhada nos anúncios matrimoniais nos jornais locais. A desigualdade baseada na casta veio à tona principalmente entre as pessoas pertencentes a uma casta e as sem casta. Os chamados Dalits (“gente oprimida”), que se organizaram politicamente faz pouco tempo, eram originalmente excluídos, e agora estão se revoltando contra uma sociedade dominada pela casta. A constituição indiana proibiu desqualificações baseadas no fato de a pessoa não ter casta, mas nã o aboliu as castas em si. Mahatma Gandhi lutou pelos direitos dos excluídos, mas insistiu em preservar a sociedade de castas. Ele ficou muito indignado com o Dr. Ambedkar (que era um excluído que veio a ser conhecido advogado), quando este, em protesto contra o sistema de castas hindu, se converteu para o budismo e levou junto consigo milhões de outros excluídos, que, atualmente, formam a comunidade neobudista na Índia.

IHU On-Line — Para os Cristãos, no ocidente, naturalmente, há um Deus. Enquanto isso, persiste, entre os indianos, a crença em diversos deuses. Como o senhor caracterizaria a espiritualidade e a divindade no hinduísmo?

Klaus Klostermaier -
O hinduísmo é politeísta, ao passo que os hindus são monoteístas. Enquanto as escrituras do hinduísmo falam de 330 milhões de deuses, cada hindu escolhe seu próprio istadevata, isto é, a forma na qual adoram a Deus. Todos os teólogos hindus insistem na unicidade de Deus. O termo deva, geralmente traduzido como “deus”, na verdade significa um tipo de poder maior. As principais religiões hindus como vaisnavismo, saivismo e saktismo adoram o mesmo deus sob diferentes nomes. Mas todos concordam em que somente existe um único principio último: o Criador Mantenedor e Destruidor do Universo. Como já dizia o Veda: “O principio supremo é um único, as pessoas o chamam por nomes diferentes”.

IHU On-Line — Quais as características do vaisnavismo, e por que é considerado o maior segmento do hinduísmo moderno?

Klaus Klostermaier –
Numericamente, o vaisnavismo é o maior segmento do hinduísmo. Cerca de 70% dos hindus são vaisnavas. O vaisnavismo em si é subdividido num grande número de sampradayas (tradições de culto). Sua característica é o culto de Vixnu como Criador, Preservador e Redentor. Algumas escrituras do vaisnavismo, como o Bhagavad Gita e o Bhagavata Purana, são amplamente aceitas por todos os hindus (e até mesmo não-hindus) como inspiradas (inspirational). Alguns dos lugares mais populares de romaria na Índia (Tirupati, Srirangam, Puri, Mathura-Vrindaban, Dwarka, Vixnu-Kanci e outros) são centros vaisnava visitados por milhões todos os anos.

IHU On-Line — Quais paralelos o senhor reconhece entre cristianismo e vaisnavismo?

Klaus Klostermaier -
Os paralelos são bem numerosos. Ambas são religiões da graça e ambas enfatizam o amor de Deus (bhakti) como objetivo supremo. Na Bengala Krishna, é chamado Kristo. Há imagens de Yasoda (mãe de criação de Krishna) e Krishna, as quais poderiam com facilidade ser consideradas imagens de Maria com o menino Jesus. Ambas as religiões enfatizam a vida de moralidade e são contra os extremos do ascetismo. Muitos santos vaisnava poderiam facilmente ser considerados santos cristãos, e vice e versa.

IHU On-Line — O que caracteriza as mitologias e filosofias de salvação nas tradições religiosas da Índia?

Klaus Klostermaier -
Este é um tópico vastíssimo que não pode ser respondido em um parágrafo. Escrevi todo um livro sobre Mitologias e Filosofias de Salvação nas Tradições Teístas da Índia (Wilfried Laurier Press, 1984), no qual tentei resumir a extensa literatura hindu sobre este tópico. Numa casca de noz: todas descrevem a condição humana natural como insatisfatória e carente de salvação. Elas também concordam em que Deus deseja o melhor para todas as pessoas e interfere de muitas maneiras em suas vidas com o objetivo de salvá-las. Elas também descrevem a condição última das pessoas libertas como sendo de extrema felicidade [bliss] na presença de Deus. Os sistemas filosóficos indianos esboçam modos de salvação e especificam os meios necessários para atingir moksa (libertação última).

IHU On-Line — A Ásia se caracteriza pela diversidade das religiões. Como o hinduísmo se relaciona com outras tradições religiosas orientais como, é claro, a chinesa?

Klaus Klostermaier -
O hinduísmo é tipicamente indiano e praticamente não há paralelos entre o hinduísmo, o taoísmo e o confucionismo. O budismo começou na Índia e se tornou uma das principais religiões da China, mas os elementos típicos do hinduísmo não foram transmitidos para a China. O hinduísmo foi “exportado” para a Indonésia e para a Indochina no início da Idade Média por meio de colonizadores e invasores que fundaram reinos nesses países. A maioria dos outrora famosos templos hindus nessas regiões, atualmente, está em ruínas, e o hinduísmo foi suplantado por outras religiões (budismo, islamismo).

IHU On-Line — Que influência exercem os deuses e a religião hindus na vida dos indianos? Como é que as suas crenças conformam a ética e os princípios indianos?

Klaus Klostermaier -
Entre os 900 milhões de hindus, pode-se encontrar as mais diferentes atitudes em relação ao hinduísmo: desde a identificação total até a rejeição completa. De um modo geral, grande percentual dos hindus observa práticas religiosas visitando templos, orando, prestando culto etc. Em muitos lares hindus, um cômodo (ou parte de um cômodo) fica reservado para a imagem de uma divindade, sendo a adoração diária diante da mesma muito comum ainda hoje. Em comparação com a Europa cristã, a Índia hindu continua sendo muito religiosa. Símbolos hindus podem ser encontrados por toda a parte, e milhões de hindus, em qualquer época do ano, estão peregrinando para alguma das numerosas cidades santas. Há milhões de sadhus hindus (“gente santa” que deixou suas famílias por razões religiosas) e, por toda a parte, gozam de grande respeito. Festas hindus são celebradas com grande participação popular, com a declamação e encenação de livros sagrados como o Ramayana são muito comuns. (Uma produção de TV sobre o Ramayana foi assistida por centenas de milhões na Índia, que consideraram o ato de assistir uma espécie de culto.) A ética hindu tradicional continua sendo a espinha dorsal da moralidade indiana. Grande número de pregadores hindus populares promove reuniões públicas onde explicam e inculcam a ética do Bhagavadgita.

IHU On-Line — Qual é a preocupação do hinduísmo em relação ao ser humano moderno? Neste sentido, que contribuições a religião pode oferecer neste momento de crise global (crise de valores, econômica, ambiental, ética)?

Klaus Klostermaier -
O hinduísmo contemporâneo cobre imenso espectro de atitudes para com a modernidade (ocidental). Há hindus extremamente conservadores bem como progressistas, e toda a escala entre um e outro. De um modo geral, os hindus se adaptaram de modo relativamente rápido à boa parte daquilo que é considerado “moderno”. Não é por acaso que hoje em dia os indianos lideram muitas áreas da tecnologia da informação. Alguns hindus tentam, de modo bastante explícito, aplicar os princípios do hinduísmo às práticas de negócio modernas. Também há numerosos ambientalistas e economistas hindus. De um modo geral, os indianos tentam resolver as diversas crises mencionadas, apelando para princípios indianos (hindus).

IHU On-Line — Para o teólogo alemão Hans Küng, existe um principio que pode ser encontrado em muitas tradições religiosas e éticas da humanidade: não faça aos outros o que você não quer que eles façam a você (ou, em termos positivos, faça aos outros o que você quer que lhe façam). O senhor também considera que este pode ser um princípio, uma norma incondicional entre as nações e as religiões?

Klaus Klostermaier -
A máxima mencionada, que é a “regra de ouro”, é menos um princípio religioso que uma expressão de sabedoria profana. Naturalmente, também pode ser encontrada no hinduísmo. Trata-se de um requisito mínimo para a paz social (e também para a paz internacional): sua violação seria tola e contraproducente.

IHU On-Line — O senhor concorda com a ideia de que estamos entrando numa sociedade pós-metafísica? Neste sentido, qual é o papel das religiões e especialmente do hinduísmo?

Klaus Klostermaier -
Você provavelmente está se referindo ao que se chama de “pós-modernismo”, que é uma mistura de cientificismo, freudismo e marxismo. Não o tenho em grande consideração e acredito que já estamos entrando num pós-pós-modernismo. Há muitos sinais de que está despertando novamente o pensamento metafísico entre os cientistas mais avançados, especialmente os físicos. Eu poderia citar com facilidade uma dúzia de livros recentes para embasar esta afirmação. A popularidade das numerosas facetas do hinduísmo no Ocidente, por exemplo, yoga, crença na transmigração etc. também é digna de nota. Muitos estão buscando a religião da pessoa pensante, não crença cega ou devoção tradicional. Mestres espirituais de todas as origens encontram grandes audiências hoje em dia, quase que por toda a parte. Observe, por exemplo, a popularidade do Dalai Lama. O pensamento metafísico indiano, por exemplo, Vedanta, tem grande potencial também para os dias de hoje.

IHU On-Line — O senhor gostaria de acrescentar alguma opinião sobre algo não perguntado?

Klaus Klostermaier -
Gostaria de acrescentar, a título de conclusão, um parágrafo do meu livro “Survey of Hinduism” [Visão Geral do Hinduísmo] (State University of New York Press, 2007, p. 454): “O hinduísmo, no passado e no presente, teve e tem suas deficiências. Ninguém pode ignorá-las. Mas ele sempre teve vitalidade e substância espiritual genuína o suficiente para compensá-las. Sua abertura para a realidade, seu caráter experimental e experiencial, suas intuições genuínas e seus sábios autênticos são uma garantia de que continuará crescendo e tendo relevância.”

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Krishnamurti: sobre o medo


“Existe o medo. O medo nunca é uma realidade: vem sempre antes ou depois do presente ativo. Quando há medo no presente ativo, será isso medo? Está ali e não há como fugir dele, não há como escapar. Ali, no momento presente, há a atenção total ao momento de perigo, físico ou psicológico. Quando há atenção total, não há medo. Mas o próprio fato da desatenção gera o medo; o medo surge quando há uma evitação do fato, uma fuga; então a fuga é, ela própria, o medo.”

"Porventura uma das causas do medo é a comparação? O comparar-se com outra pessoa? Obviamente sim. A pergunta, portanto, é: será você capaz de viver uma vida sem se comparar com ninguém? Compreende o que digo? Ao se comparar com alguém, seja em termos ideológicos, psicológicos ou mesmo físicos, há o anseio de tornar-se aquilo; e há o medo de não conseguir. é o desejo de preencher e você teme não ser capaz de preencher. Onde há comparação haverá o medo."

Krishnamurti


quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Zen e a Crise da Cultura Ocidental


“Temos que mudar para não perecer. É o momento de inspirar-nos em outras civilizações que ensaiaram um modo mais benevolente de habitar o planeta”, escreve Leonardo Boff, teólogo, em artigo que publicamos a seguir. Segundo Boff o uma dessas inspirações pode vir do zenbudismo que “destrona o ser humano de sua pretensa centralidade, especialmente do eu, cerne básico do individualismo ocidental”.

Eis o artigo.

Venho insistindo há tempos que por detrás da crise atual econômico-financeira vige uma crise de paradigma civilizatório. De qual civilização? Obviamente se trata da civilização ocidental que já a partir do século XVI foi mundializada pelo projeto de colonização dos novos mundos.

Este tipo de civilização se estrutura na vontade de poder-dominação do sujeito pessoal e coletivo sobre os outros, os povos e a natureza. Sua arma maior é uma forma de racionalidade, a instrumental-analítica, que compartimenta a realidade para melhor conhecê-la e assim mais facilmente submetê-la. Depois de quinhentos anos de exercício desta racionalidade, com os inegáveis benefícos trazidos e que encontrou na economia política capitalista sua realização mais cabal, estamos constatando o alto preço que nos cobrou: o aquecimento global induzido, em grande parte, pelo industrialismo ilimitado e a ameaça de uma catástrofe previsível ecológica e humanitária.

Estimo que todos os esforços que se fizerem dentro deste paradigma para melhorar a situação serão insuficientes. Serão sempre mais do mesmo. Temos que mudar para não perecer. É o momento de inspirar-nos em outras civilizações que ensaiaram um modo mais benevolente de habitar o planeta. O que foi bom ontem, pode valer ainda hoje.

Tomo como uma das referências possíveis o zenbudismo. Primerio, porque ele influenciou todo o Oriente. Nascido na India, passou à China e chegou ao Japão. Depois porque penetrou vastamente em estratos importantes do Ocidente e de todo o mundo. O Zen não é uma religião. É uma sabedoria, uma maneira de se relacionar com todas as coisas de tal forma que se busca sempre a justa medida, a superação dos dualismos e a sintonia com o Todo.

A primeira coisa que o zenbudismo faz, é destronar o ser humano de sua pretensa centralidade, especialmente do eu, cerne básico do individualismo ocidental. Ele nunca está separado da natureza, é parte do Todo. Em seguida, procura uma razão mais alta que está para além da razão convencional. Recusa-se a tratar a realidade com conceitos e fórmulas. Concentra-se com a maior atenção possível na experiência direta da realidade assim como a encontra.

“Que é o zen” perguntou um discípulo ao mestre. E este respondeu: “as coisas cotidianas; quando tem fome, coma, quando tem sono durma”. “Mas não fazem isso todos os seres humanos normais”?- atalhou o discípulo. “Sim”- respondeu o mestre - “os seres humanos normais quando comem pensam em outra coisa, quando dormem, não pregam o olho porque estão cheios de preocupações”.

Que significa esta resposta? Significa que devemos ser totalmente inteiros no ato de comer e totalmente entregues ao ato de dormir. Como já dizia a mística cristã Santa Tereza:”quando galinhas, galinhas, quando jejum, jejum”. Essa é a atitude zen. Ela começa por fazer com extrema atenção as coisas mais cotidianas, como respirar, andar e limpar um prato. Então não há mais dualidade: você é inteiro naquilo que faz. Por isso, obedece à lógica secreta da realidade sem a pretenção de interferir nela. Acolhê-la com o máximo de atenção nos torna integrados porque não nos distraimos com representações e palavras.

Essa atitude faltou ao Ocidente globalizado. Estamos sempre impondo nossa lógica à lógica das coisas. Queremos dominar. E chega um momento em que elas se rebelam, como estamos constatando atualmente. Se queremos que a natureza nos seja útil, então devemos obedecer a ela.

Não deixaremos de produzir e de fazer ciência, mas o faremos como a máxima consciência e em sintonia com o ritmo da natureza. Orientais, ocidentais, cristãos e budistas podem usar o zen da mesma forma que peixes grandes e pequenos podem morar no mesmo oceano. Eis uma outra forma de viver que pode enriquecer nossa cultura em crise.





As últimas palavras de Paul Feyerabend



Também comecei minha autobiografia, principalmente para lembrar meu período no exército alemão e como vivenciei o nacional socialismo. Esta, porém, demonstrou ser uma boa maneira de explicar como minhas "idéias" estavam entrelaçadas ao resto de minha vida.


Prometi para Grazia um livro sobre a "realidade", que está tomando forma muito lentamente e cujo título provisório é A conquista da abundância. O livro deverá mostrar como especialistas e pessoas comuns reduzem a abundância que os cerca o os confunde, e as conseqüências de suas ações.

Ele é principalmente um estudo do papel das abstrações, noções matemáticas e físicas especialmente, e da estabilidade e "objetividade" que parecem trazer consigo. Discute como emergem tais abstrações, como são apoiadas pelos modos comuns de falar e viver, e a mudança como resultado de argumentação e/ou pressão prática.

Procuro também enfatizar a ambigüidade essencial de todos os conceitos, imagens e noções que pressupõem mudança.

Sem ambigüidade não há mudança, nunca. A teoria quântica - como interpretada por Niels Bohr - é um perfeito exemplo disto.


"A conquista da abundância" deveria ser um livro simples, de leitura agradável e fácil compreensão. Entre meus motivos para escrever Contra o Método estava o de libertar as pessoas da tirania dos ofuscadores filosóficos e de conceitos abstratos como "verdade", "realidade" ou "objetividade", que estreitam a visão e as maneiras de ser das pessoas no mundo.

Ao formular o que eu acreditava ser minha própria postura e convicções, infelizmente acabei introduzindo conceitos igualmente rígidos, tais como "democracia", "tradição" ou "verdade relativa". Agora que estou consciente disto, me pergunto como pode ter acontecido.

O anseio de explicar as próprias idéias, não de modo simples, não numa história, mas por meio de uma "explicação sistemática" é de fato muito forte.

De que outra maneira poder-se-ia explicar que um destacado produtor teatral como Herbert Blau - um artista capaz de tornar claras para atores e audiências peças opacas - tenha escrito um tratado sobre teatro com afirmações incompreensíveis e desprovidas de sentido? Não se trata de uma dificuldade inerente ao assunto em questão. Platão, Aristóteles, Brecht e Dürrenmatt escreveram sobre teatro de modo agradável e compreensível. É o desejo de ser grande, profundo e filosófico.

Mas o que é mais importante? Ser compreendido pelo público em geral ou ser considerado um "pensador profundo"?.

Escrever de maneira simples, de modo que pessoas sem preparo específico possam entender não significa ser superficial.

Eu exorto todos os autores que querem se comunicar com as pessoas a manter distância da filosofia, ou ao menos que evitem ser intimidados e influenciados por ofuscadores como Derrida, lendo, ao invés disto, os ensaios populares de Schopenhauer ou Kant.



No final de 1993, o título deste capítulo assumiu um novo significado. Estou parcialmente paralisado, num hospital, com um tumor cerebral inoperável.


Eu não gostaria de morrer logo agora que finalmente consegui me "sistematizar" - também em minha vida privada.

Gostaria de ficar com Grazia e apoiá-la e fortalecê-la quando houver problemas. Depois de passar a vida lutando pela solidão, eu queria viver em família, contribuindo com a minha parte, esperando-a, por exemplo, com o jantar e algumas piadas prontas em sua volta do trabalho. Poderíamos mesmo tentar os métodos mais avançados para ter filhos; mas temos que esperar para ver como se desenvolve minha doença, e esta não é uma posição agradável de se estar, justamente agora que Grazia esperava tanto de uma nova vida que teríamos juntos.

Escrever colunas para uma revista pode mesmo ter melhorado meu estilo de escrita, e o livro que prometi a ela poderia vir a ser simpes e luminoso, mostrando como a razão e emoção podem coexistir em uma produção “acadêmica”.

Grazia está comigo no hospital, o que é uma grande alegria, e ela enche o quarto de luz. De certo modo, estou pronto para partir, malgrado todas as coisas que ainda gostaria de fazer; mas por outro lado, estou triste por ter de deixar este mundo esplêndido, e especialmente Grazia, a quem eu gostaria de acompanhar por mais alguns anos.

Estes devem ser os últimos dias. Nós os sorvemos um por um.

Minha última paralisia veio de algum sangramento dentro do cérebro. Eu queria que depois de minha partida ficassem algumas coisas minhas, não escritos, não declarações filosóficas finais, mas amor.

Espero que isto fique e não seja muito afetado pela maneira de minha partida final, que eu gostaria que fosse tranqüila, na forma de um coma, sem luta contra a morte e más lembranças deixadas atrás. O que quer que aconteça agora, nossa pequena família pode viver para sempre - Grazia, eu e nosso amor.

Isto é o que eu gostaria que acontecesse, a sobrevivência não intelectual, mas do amor.


***

Um par de semanas depois de Paul escrever estas palavras, o tumor comprometeu o centro de dor de seu cérebro e ele precisou de doses extremamente elevadas de morfina. Ele estava habituado a analgésicos, tendo sofrido dores lancinantes toda sua vida em conseqüência de seu ferimento de guerra (isto, bem como a prodigiosa quantidade e variedade de suas leituras são aspectos importantes da vida de Paul que ele mal menciona em sua autobiografia), mas os médicos ainda assim se surpreenderam que ele pudesse suportar tanto e por tantos dias. Era 11 de fevereiro de 1994 e Paul estava num tipo de coma induzido há mais de uma semana. O correio trouxe uma carta da editora italiana Laterza, dizendo que estavam entusiasmados com a autobiografia e dispostos a publicá-la em breve. Eu estava angustiada e exausta, mas fiquei feliz com as boas novas e contei-as a Paul com alegria em minha voz. Ele respirava lentamente e de certo modo tranqüilamente. Poucos segundos depois já não estava. Estávamos sozinhos, de mãos dadas, e era meio-dia.




(Paul Feyerabend, Matando o Tempo - Uma autobiografia - Ed Unesp)