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quinta-feira, 23 de outubro de 2014

Mudando sua Identidade de Dor

 

Trecho  de  uma  Transcrição  Editada  de  um  Webcast  ao  vivo  gravado  por  Geshe  Tenzin  Wangyal  Rinpoche  em  08  de  junho  de  2014

 
Será que o papel que você desempenha na vida lhe traz mais dor do que paz e felicidade? Neste ensinamento de 08 de junho de 2014, um webcast ao vivo, Tenzin Wangyal Rinpoche explica como você pode ir além de uma identificação com a dor e chegar mais perto de seu verdadeiro eu. Rinpoche começa com uma curta meditação e recitação de mantras para se conectar com Sherap Chamma, uma divindade tântrica feminina da tradição Bon, que é a personificação do amor e da sabedoria.

Podemos observar que a dor que experimentamos em nossa vida – seja a que nós experimentamos no passado ou que vamos experimentar no futuro - está relacionada a uma única causa. Esta causa é a mesma para todos, e é chamado dak dzin [Tib: bdag 'dzin], que é a mente auto-apegada, ego. Você também pode se referir a ela como "identidade de dor," porque você se identifica com a dor. Então, enquanto falo, eu quero que todos vocês não apenas ouçam intelectualmente ou tentem analisar o que digo, ou, pior ainda, julguem o que eu estou dizendo. Em vez disso, concentre-se dentro de si mesmo para ver o que isto significa para você. Qual é a sua identidade de dor? Qual foi a sua identidade de dor? Qualquer que tenha sido sua identidade de dor, quanto sofrimento causou dentro de você? Seja qual for sua identidade dor, neste momento, reconheça que ela está causando a dor dentro de você.

A identidade dor é basicamente um simples senso de si, a forma como você sente ser neste momento. Como é que ela está surgindo em você neste momento? Simplesmente por olhar para a sua dor, você chega a experimentar esse senso de si. Olhe atentamente para a dor que você experimenta agora, ou que você experimentou no passado. Lá no fundo dessa dor, há uma sensação de "eu" esperando para ser visto, à espera de ser despertado, esperando para ser iluminado, esperando para ser guiado, um senso de "eu" que sente a necessidade de ser totalmente livre de sua própria prisão de dor.

Você pode estar ciente disto neste momento? Você pode sentir a sua identidade de dor neste momento? Seja individual ou coletivo - eu sinto dor, nós dois sentimos dor, todos nós sentimos dor- olhe para essa dor. Lá no fundo há um senso de "eu". Existe um "eu" que é fortemente identificado com uma função específica. É muito especificamente identificado com o que você faz ou deseja fazer, ou com um sentido do que você quer ser, um ideal, um senso de si. Quem é este?

Por exemplo, quando uma mãe ou um pai sofre, é um tipo muito específico de sofrimento que só os pais sabem. Monges não conhecem este tipo de sofrimento. Monjas não sabem disso. Solteiros que não têm filhos não vão saber. Se você está sofrendo como um pai ou mãe, então eu estou falando com você. Se você estiver sentindo dor, você olha para o seu senso de si; profundamente por dentro você senteEu sou uma mãe; Eu sou um pai; Eu amo os meus filhos; Eu queria que meus filhos fizessem isso, e não fizessem aquilo; Eu gostaria que eles vivessem este tipo de vida, e não aquele tipo de vida. É a mãe em você, a mãe ou o pai em você, que sofre. Por que você está sofrendo dessa maneira? É porque você se identifica excessivamente com o papel da mãe ou do pai. É por isso que você está sofrendo. É por isso que você se sente em conflito com seus filhos. É por isso que você não é capaz de dar o calor, o amor e a paz que você quer dar a eles. É por isso que você não é capaz de dar uma orientação clara para eles. É por isso que você nem sequer se sente perto deles. É por isso que você sente que eles estão evitando você. É por isso que você sente que há uma desconexão entre você e seus filhos.

Tudo remonta a uma única coisa: identificar-se demais com o papel de pai ou mãe. Minha definição de "demais" é o nível onde se cria a dor, conflito, desconexão. Então, se você é essa pessoa, eu estou falando com você. Eu só quero que você reconheça que você está se identificando excessivamente com o seu papel. Você não é apenas um pai ou mãe; você é mais do que isso. Eu quero que você apenas tenha um sentido disso, uma sensação disso. Sim, eu sou mais do que isso.

Talvez alguns de vocês estejam tentando proteger algo. Você está tentando cuidar de alguém, amar alguém, ou você está tentando dar alguma coisa a alguém. Mas você também está se identificando excessivamente com o papel de protetor, ou com o papel de estar no controle. Esteja ciente de que você não pode controlá-lo para sempre, ou que você não é o único que deve controlá-lo ou quem é responsável por isso. Talvez onde você está assumindo o comando ou o controle, você está super controlando. Não há espaço para o movimento, a liberdade, o fluxo, a flexibilidade, a criatividade, porque esse controle está ocupando um espaço em que você está sufocando e você está sufocando as outras pessoas também.
Simplesmente reconheça essa identidade de dor que precisa controlar. Não tem nada a ver com fazer algo melhor, ou perfeitamente, ou eticamente, ou com generosidade. É mais que há uma necessidade de controlar, e essa necessidade tem algo a ver com a dor interior com a qual você está se identificando. Simplesmente reconheça isso.Sim, é verdade - não é sobre o que eu estou tentando fazer lá fora. Eu posso sentir isso - é a minha própria necessidade; é a minha identidade de dor, e eu preciso mudar isso.

Como você muda isso? Pode-se tentar controlar esse sentimento, tentar comandar isso, e cometer o mesmo erro novamente. Não faça isso. Não tente controlar seus sentimentos ou pensamentos. Basta estar ciente delas. Esteja ciente de sua necessidade de controle, uma necessidade que está produzindo a dor, conflitos e bloqueios no fluxo da ação criativa. E se você não é um pai, mas você é alguém que está tentando controlar, desta forma, eu quero que você simplesmente esteja ciente de sua necessidade de controle. Essa necessidade é a sua identidade de dor.

Vou usar três categorias em relação a este senso de identidade: a primeira categoria é identificar-se muito com um papel; a segunda é um nível médio de identificação com um papel; a terceira é uma menor identificação com um determinado papel. No primeiro extremo, uma pessoa se identifica tanto com a dor que muitas vezes ela destrói a si mesma e aos outros. É ao mesmo tempo destrutivo no sentido individual e coletivo. Isso acontece porque eles nunca podem descobrir como sair da sua super identificação, e as coisas vão longe demais. Evidentemente, é sempre possível sair disso, mas, em alguns casos, a pessoa perde a oportunidade, e o resultado é a destruição coletiva.

O nível mediano é o onde a pessoa se identifica fortemente com um papel. Se este for o seu caso, você pode sentir um monte de conflito dentro de si mesmo, na sua situação de vida ou com as pessoas com quem convive, em qualquer papel que você esteja convivendo com eles. Você sente um monte de conflito dentro e ao seu redor, porque mais uma vez você está se identificando bastante com o seu papel. Toda vez que nos identificamos com nosso papel nós sentimos a dor de qualquer parte que não esteja e a dor de pensamentos desejosos.

A terceira categoria é ter menos identidade com um determinado papel. É claro que estar no samsara, estar neste mundo, não há nenhuma maneira de não se identificar com a dor. A definição de samsara é aquele que possui desconforto ou dor, como resultado de uma mente que se agarra. Como possuidores desta mente que se agarra, somos seres samsáricos. Todo sofrimento é o resultado ou fruição da mente que se agarra.

Como eu disse anteriormente, não há como não ter uma mente que se agarra. Mas quando você tem um mínimo disso, você sente menos dor e conflito e mais espaço, mais fluxo, mais consciência dentro de si mesmo. Você sente menos dor com o seu trabalho, com quem você está trabalhando e com quem você está em um relacionamento. Você sente menos dor com seus familiares. Isso é porque você não está se identificando muito com a dor ou com esse papel.

Então a grande questão é: por que nos identificamos com o nosso papel, com a nossa dor e com alguém que não somos? A resposta é muito simples. Não percebemos outra opção. Porque se não somos capazes de ter consciência de quem somos, então a única opção é se identificar com quem não somos. Não percebemos uma outra escolha. Nós não somos mesmo conscientes de que estamos fazendo isso. A cada segundo, a cada momento, a cada situação, a cada relacionamento - até mesmo o nosso relacionamento com Deus, com as divindades, com professores, com guias-espirituais – nós nos identificamos com a nossa própria dor e necessidades, e estragamos algumas dessas relações muito especiais. Mesmo nossos relacionamentos sagrados são misturados com a nossa própria dor.

Então, como podemos superar isso? Quando somos capazes de ter consciência de quem somos - mesmo estando mais perto dessa experiência por apenas um momento- algo dentro de nós começa a mudar. Como você faz isso? Como isso pode acontecer? É claro que não é assim tão fácil; então, novamente, não é muito difícil também. É sempre uma questão de estar pronto, maduro e amadurecido. Quando estiver pronto, maduro e amadurecido, nada pode pará-lo. Mas quando você não está, é muito difícil. O sol está brilhando imparcial em todas as direções, mas a caverna que está voltada para o sul não recebe a luz solar. Isto não é porque o sol é tendencioso ou opta por não brilhar, mas porque a caverna está voltada para a direção errada.

O que vai tornar mais fácil de mudar a identidade de dor? Novamente, é muito simples. Quando quer que você sinta que seu corpo de dor está ativo, quando quer que você esteja sentindo uma sensação dessa identidade de dor - uma dor profunda, profunda, profunda, que está claramente relacionada com um sentimento de identidade específica, como, eu sou um pai, então eu estou sentindo a dor do meu papel de pai - simplesmente reconheça isso. Reconheça quando a fala de dor está ativa. Reconheça quando você está reclamando sobre seus entes queridos. Perceba que não tem nada a ver com eles ou com a situação; é apenas a expressão descontrolada de sua própria dor desperta que está sendo expressa inconscientemente naquele momento através de seu discurso. Ela está vindo à tona.

Quando minha identidade de dor está ativa, eu não planejei isso. Eu não escolhi esse vocabulário ou aquele tom de voz. Eu não escolhi falar tão alto ou trêmulo, ou falar dessa maneira infundada. Eu fiz isso porque meu discurso de dor foi despertado. Quando minha mente de dor é despertada, não estou escolhendo ter esses loucos, loucos pensamentos. Estou contente que ninguém está vendo meus pensamentos. Estou feliz que a maioria das pessoas não sabe o que eu estou pensando. Estou feliz por minhas “pessoas famosas” não saberem o que eu estou pensando. Fico feliz porque esta pessoa que me odeia, não sabe o que estou pensando nesse momento. Mas, mesmo eu não sei por que eu estou pensando o que eu estou pensando; eu só estou pensando.

A Imaginação da Mente de dor é ativa e descontrolada. O Que você faz neste momento? Basta estar consciente. Esteja Consciente de que seus pensamentos são loucos. Esses pensamentos não são realmente meus pensamentos; eles estão vindo da minha mente de dor interior. Essas vozes estão vindo de meu discurso de dor; essas dores estão vindo do meu corpo de dor. Apenas esteja consciente disso. E tente descansar. Neste momento, se algum de vocês estiver sentindo um ativo corpo de dor, fala ou mente, perceba que não tem nada a ver com uma dada situação; está apenas ativo.

Fique quieto. Fique em silêncio. Fique aberto. E permita o que você está experimentando. Permita como Sherab Chamma permitiria, como uma mãe que é aberta, sábia, bondosa e compassiva. Quando uma criança está expressando dor ao pular ou gritar, e sua imaginação está ficando louca, o que a mãe faz? A mãe não fica louca como a criança, mas, em vez disso, abriga o filho, dá o espaço à criança. Dá proteção à criança e dá reconhecimento, uma sensação de presença sagrada. Essas manifestações malucas sentem o espaço, a presença sagrada, a bondade, a consciência, e, gradualmente, essas manifestações loucas se esgotam nesse espaço puro, nesse silêncio absoluto, nesse puro espaço do coração. Eles dissolvem. No final, há um sentido muito genuíno e natural de quietude e silêncio que é experimentado. Naquele momento você mudou sua identidade de dor ou corpo de dor em quietude, o seu discurso de dor em silêncio, sua mente de dor ou imaginação em amplitude. Está livre, calmo, conectado e sentindo paz, sentindo tranquilidade. Está sentindo uma profunda cura interior.

Então, esteja consciente. A cada momento em que você encontrar o seu próprio sofrimento interior, sua identidade de dor, apenas esteja consciente. Esteja diretamente consciente. Reconheça que isso não tem nada a ver com a outra pessoa ou a situação. Isso é simplesmente ativado por sua própria dor.

Nas tradições tibetanas frequentemente falamos sobre praticantes de capacidade superior, média e inferior. Esta tradução não parece ser muito popular no Ocidente, mas isso é o que é. Então, se você não gosta de ser chamado de um praticante inferior, vou sugerir algo que você pode fazer. Sempre que você estiver em conflito com alguém, sempre que você sentir dor profunda dentro de si mesmo, imediatamente pergunte a si mesmo: "De onde isso está vindo?" Muitas vezes você pensa imediatamente: "Claro que não sou eu, é a outra pessoa. É a minha pessoa famosa, meu pai, minha mãe, meu marido, meu ex, minha esposa, meu filho, meu chefe, a situação - não sou eu." Automaticamente pensamos isso. Assim, sempre que você acha que seu problema tem 100 por cento a ver com outra pessoa, reconheça que você é um praticante inferior. Vou repetir isso de novo, por diversão. Alguns de vocês podem não gostar disso. Mas ainda é por diversão. Sempre que você pensa que sua própria dor ou conflito tem 100 por cento a ver com alguém fora de você ou com outra pessoa, você pode pensar: "Ah, como eu estou fazendo o que estou fazendo neste momento, eu devo ser um praticante inferior. "

Ou, você pode pensar: "Eu estou experimentando essa dor, esse conflito com essa pessoa, mas somos nós. É tanto ele como eu; é ela e eu; são eles e eu; é a situação e eu; é uma coisa coletiva. Juntos, temos que descobrir uma solução. "Se você se aproxima de seu problema ou dor dessa forma, você pode se considerar um praticante medíocre. Você pode pensar: "Eu estou fazendo isso, eu estou tentando fazer a situação 50-50, então eu devo ser um praticante mediano. Não é o melhor, não o pior, mas o mediano."

Mas se você acha que sua dor não tem nada a ver com qualquer outra pessoa - porque tudo o que você vê ou sente foi você que criou e você percebe que é apenas uma projeção da sua mente, você pode dizer: "Bem, maravilhoso, eu sou um praticante superior." Tente não ficar muito tempo com esse pensamento; caso contrário, você vai se tornar imediatamente um praticante mediano ou inferior! Mas, pelo menos, você pode reconhecer que você está projetando algo de dentro para fora, em vez de culpar alguém pela sua dor.

Criamos toda e cada dor. Cada momento que você reconhece que você é o criador de sua dor, você tem a oportunidade de não criar mais dor para si mesmo ou para os outros.

Ouça a gravação completa do webcast aqui.

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

As Raizes do Romantismo Budista

                                                                               
 As Raízes do Romantismo Buddhista
 
  Thanissaro Bhikkhu ~
 
Muitos ocidentais, quando novos no Buddhismo, são tocados pela estranha familiaridade do que parecem ser seus conceitos centrais: a interconectividade, a integralidade, a ego-transcendência. Mas o que eles podem não perceber é que os conceitos soam familiares porque são familiares. Em grande medida, eles não vêm de ensinamentos do Buddha, mas sim do portal para o Dhamma que é a psicologia ocidental, através do qual as palavras do Buddha foram filtradas. Esses conceitos recebem menos das fontes raízes do Dhamma que de suas próprias raízes ocultas na cultura ocidental: o pensamento dos românticos alemães.
Os românticos alemães podem estar mortos e quase esquecidos, mas suas ideias ainda estão muito vivas. Seu pensamento tem sobrevivido porque eles foram os primeiros a enfrentar o problema do como nos sentimos ao desenvolver-nos em uma sociedade moderna. A análise do problema, juntamente com a sua proposta de solução, ainda soam verdadeiras.
A sociedade moderna, eles viram, é desumana na medida em que nega aos seres humanos a sua integralidade. A especialização do trabalho leva a sentimentos de fragmentação e isolamento; o Estado burocrático a sentimentos de regimentação e constrição. A única cura para esses sentimentos, os românticos propunham, é o ato criativo artístico. Esse ato integra o ser dividido e dissolve os seus limites em um sentido ampliado de identidade e de interligação com outros seres humanos e a natureza em geral. Os seres humanos são mais completamente humanos quando são livres para criar espontaneamente a partir do coração. Criações do coração são o que permitem às pessoas se conectarem. Embora muitos românticos considerassem as instituições e doutrinas religiosas como desumanizantes, alguns deles voltaram-se para a experiência religiosa – um sen timento direto de unidade com toda a natureza – como fonte primordial para a rehumanização.
Quando a psicologia e a psicoterapia se desenvolveram como disciplinas no Ocidente, elas absorveram muitas das ideias dos românticos e as transmitiram para a cultura em geral. Como resultado, conceitos como integração da personalidade, autorrealização e interconexão, juntamente com os poderes curativos de plenitude, espontaneidade, ludicidade e fluidez têm sido parte do ar que respiramos. Então, há a ideia de que a religião seja, basicamente, uma busca por uma experiência sensorial, e as doutrinas religiosas são uma resposta criativa para tal experiência.
Além de influenciar a psicologia, essas concepções inspiraram o cristianismo liberal e o judaísmo reformista, que propuseram que as doutrinas tradicionais tinham que ser reformuladas de maneira criativa para falar com cada nova geração a fim de manter a experiência religiosa viva e vitalizada. Então foi natural que, quando o Dhamma veio para o Ocidente, as pessoas o interpretassem, também, de acordo com tais concepções. Professores asiáticos – muitos dos quais haviam absorvido as ideias românticas através da educação ocidentalizada antes de aqui chegar – descobriram que podiam se conectar com o público ocidental enfatizando os temas de espontaneidade e fluidez em oposição à “burocracia do ego”. Estudantes ocidentais descobriram que podiam relacionar-se com a doutrina da origem dependente quando interpretada como uma variação da in terconexão e podiam abraçar a doutrina do não-eu como uma negação do eu apartado em favor de uma maior e mais abrangente identidade com todo o cosmo.
Na verdade, a visão romântica da vida religiosa moldou mais do que apenas ensinamentos isolados. Ela tingiu a visão ocidental com respeito ao propósito da prática do Dhamma como um todo. Professores ocidentais de todas as tradições afirmam que o objetivo da prática buddhista é obter a fluidez criativa que supera as dualidades. Como um autor apontou, o Buddha ensinou que “dissolver as barreiras que erguemos entre nós e o mundo é o melhor uso de nossas vidas humanas … [O não-egoísmo] manifesta-se como curiosidade, como adaptabilidade, como humor, como ludicidade… nossa capacidade de relaxar com o não saber”. Ou como outro disse: “Quando a nossa identidade se expande para incluir tudo, encontramos a paz com a dança do mundo”. Acrescenta um terceiro: “Nosso trabalho, para o resto da nossa vida, é o de nos abrirmos para essa imensidão e expressá-la”.
Assim como os chineses tinham o Taoismo como o seu portal para o Dhamma – a tradição local que fornecia conceitos que ajudavam a compreender o Dhamma – nós, no Ocidente, temos no Romantismo o nosso. A experiência chinesa com o seu portal do Dhamma, no entanto, contém uma importante lição que é muitas vezes esquecida. Depois de três séculos de interesse nos ensinamentos buddhistas os chineses começaram a compreender que o Buddhismo e o Taoismo propunham perguntas diferentes. Conforme eles foram erradicando essas diferenças, eles começaram a usar as ideias buddhistas para questionar seus pressupostos taoistas. Foi assim que o Buddhismo, em vez de se transformar em uma gota no mar taoista, foi capaz de injetar algo verdadeiramente novo na cultura chinesa. A questão aqui no Ocidente é se iremos aprender com o exemplo chinês e começar a usar as ideias buddhistas para questionar o nosso portal para o Dhamma, para ver exatamente o quão longe as semelhanças entre o portal e o Dhamma vão realmente. Se não o fizermos, corremos o perigo de confundir o portal com o Dhamma em si e nunca passar por ele para o outro lado.
Tomado em seu todo, o romantismo e o Dhamma veem a vida espiritual de uma forma similar. Ambos consideram a religião como um produto da atividade humana ao invés de uma intervenção divina. Ambos consideram a essência da religião como experiencial e pragmática e o seu papel como sendo terapêutico, visando a cura das doenças da mente humana. Mas se você examinar as raízes históricas de ambas as tradições, você vê que elas discordam fortemente não só com respeito à natureza da experiência religiosa, mas também sobre a natureza das doenças mentais que podem tratar e sobre a natureza do que significa ser curado.
Estas diferenças não são apenas curiosidades históricas. Elas moldam os pressupostos que os meditantes trazem para a prática. Mesmo quando totalmente presente, a mente traz consigo seus pressupostos anteriores, utilizando-os para julgar quais experiências devem ser – ou não – valorizadas. Esta é uma das implicações da doutrina buddhista do kamma. Enquanto esses pressupostos permanecem sem exame, eles detêm um poder desconhecido. Então, para sobrepujar esse poder, precisamos examinar as raízes do Romantismo Buddhista – o Dhamma como visto através do portal romântico. E para o exame estar em acordo com as ideias buddhistas de causalidade, temos que buscar pelas raízes em duas direções: para o passado, para a origem das ideias românticas, e para o presente, para as condições que mantêm as ideias românticas atraentes no aqui e agora.
Os românticos tiveram sua inspiração original de uma fonte inesperada: Kant, o enrugado professor, cujas caminhadas diárias eram tão pontuais que os vizinhos podiam ajustar seus relógios por ele. Em sua Crítica do Juízo, ele ensinou que a criação estética e o sentimento foram as maiores realizações da mente humana, daí que só eles poderiam curar as dicotomias da experiência humana. Friedrich Schiller (1759-1805), talvez o mais influente dos filósofos românticos, incrementou essa tese com a sua noção estética do “impulso lúdico”, o qual seria a expressão definitiva da liberdade humana, para além de ambas as compulsões da existência animal e das leis da razão, trazendo ambas à integração. O homem, ele disse, “é plenamente um ser humano apenas quando brinca”.
Aos olhos de Schiller, este brincar não apenas integra o self, mas também ajuda a dissolver a separação em relação a outros seres humanos e ao ambiente natural como um todo. Uma pessoa com a liberdade interior necessária para a autointegração instintivamente quer que os outros também experimentem a mesma liberdade. Tal conexão explica o programa político romântico de oferecer ajuda e solidariedade aos oprimidos de todas as nações para que possam derrubar os seus opressores. O valor da unidade interna, a seus olhos, foi comprovado pela sua capacidade de criar vínculos de unidade no mundo da ação social e política.
Schiller viu o processo de integração como interminável: a união perfeita nunca poderia ser alcançada. Uma vida significativa seria um envolvimento contínuo com o processo de integração. O caminho era o objetivo.
Era também totalmente não padronizável e não coercitivo. Dada a natureza livre do impulso lúdico, o caminho de cada pessoa para a integração seria individual e único.
O colega de Schiller, Friedrich Schleiermacher (1768-1834), aplicou essas ideias à religião concluindo que, como qualquer outra forma de arte, era uma criação humana e que sua função primordial consistia em curar as divisões dentro da personalidade humana e na sociedade humana em geral. Ele definiu a essência da religião como “a sensibilidade e o gosto pelo infinito”, que começa no estado de mente receptiva onde a consciência se abre para o infinito. Esse sentimento em relação ao infinito é seguido por um ato da imaginação criativa, que articula esse sentimento em relação a si e aos outros. Porque esses atos criativos – e, portanto, todas as doutrinas religiosas – são um passo para fora da realidade da experiência, eles estão constantemente abertos a melhorias e modificações.
Algumas citações de seus ensaios, On Religion, darão uma percepção do pensamento de Schleiermacher.
“O indivíduo não é apenas parte de um todo, mas uma exposição dele. A mente, como o universo, é criativa, não apenas receptiva. Quem quer que tenha aprendido a ser mais do que si mesmo sabe que perde pouco quando perde a si próprio. Ao invés de alinhar-se com a crença na imortalidade pessoal depois da morte, o verdadeiro religioso prefere esforçar-se para aniquilar a sua personalidade e viver na unidade e no todo”.
“Onde a religião deve ser primordialmente procurada? Onde o vívido contato de um ser humano com o mundo se forma como sentimento. As pessoas verdadeiramente religiosas são tolerantes a diferentes traduções desse sentimento, até mesmo à hesitação do ateísmo. Não ter o divino imediatamente presente em seus sentimentos sempre pareceu-lhes mais irreligioso do que hesitação. Insistir em uma concepção particular do divino como sendo a verdade está longe de ser religião”.
Schiller e Schleiermacher tiveram uma forte influência sobre Ralph Waldo Emerson, que pode facilmente ser vista em seus últimos escritos. Algumas vezes somos informados de que Emerson foi influenciado pelas religiões orientais, mas, na verdade, suas leituras do Buddhismo e Hinduísmo simplesmente proveram o formato para as lições que ele já tinha aprendido a partir dos românticos europeus.
“Trazer o passado dentro do presente de 1000 olhos, e viver sempre em um novo dia. Com consistência uma grande alma, de fato, nada tem a fazer. A essência do gênio, da virtude e da vida é o que é chamada de espontaneidade ou instinto. Todo homem sabe que para as suas involuntárias percepções uma fé perfeita é devida”.
“A razão pela qual o mundo carece de unidade é porque o homem é desunido com ele mesmo… Vivemos em sucessão, na divisão, em partes, em partículas. Enquanto isso, dentro do homem está a alma do todo, o sábio silêncio, a beleza universal, com o que cada parte e partícula está igualmente relacionada, o Eterno. E este poder profundo em que nós existimos, e cuja bem-aventurança é toda acessível para nós, não é apenas autossuficiente e perfeito em todas as horas, mas o ato de ver e a coisa vista, o espectador e o espetáculo, o sujeito e o objeto, são um”.
Atualmente, os românticos e transcendentalistas raramente são lidos fora de aulas de literatura ou teologia. Suas ideias têm sobrevivido na cultura geral em grande parte porque foram adotadas pela psicologia e traduzidas em um vocabulário que foi um tanto mais científico e mais acessível ao público em geral. Um dos tradutores mais cruciais foi William James, que deu ao estudo psicológico da religião sua forma moderna a um século atrás, em 1902, com a publicação de As Variedades da Experiência Religiosa. As preferências gerais de James estenderam-se para além da cultura ocidental para incluir o Buddhismo e o Hinduísmo, e além das religiões “aceitáveis” de seu tempo para incluir o Movimento de Cultura Mental, a versão século 19 da Nova Era. Seu interesse na diversidade fez com que ele parecesse incrivelmente pós-moderno.
Ainda assim, James foi influenciado pelas correntes intelectuais existentes em seu tempo, que moldaram a forma como ele converteu sua grande massa de dados em uma psicologia da religião. Embora falasse como cientista, a corrente que mais profundamente influenciou o seu pensamento foi o Romantismo.
Ele seguiu os românticos ao dizer que a função da experiência religiosa era curar o sentimento de “eu dividido”, criando uma forma mais integrada de autoidentidade mais capaz de funcionar em sociedade. No entanto, para ser científica, a psicologia da religião não devem se colocar a favor ou contra qualquer reivindicação de veracidade sobre o conteúdo das experiências religiosas. Por exemplo, muitas experiências religiosas produzem uma forte convicção na unicidade do cosmo como um todo. Embora os observadores científicos devam aceitar o sentimento de unidade como um fato, não devem tomá-lo como prova de que o cosmos seja uno de fato. Em vez disso, eles devem julgar cada experiência por seus efeitos sobre a personalidade. James não foi perturbado pelas muito mutuamente contraditórias alegações a respeito da verdade que as experiências religiosas têm produzido ao longo dos séculos. A seus olhos, temperamentos diferentes precisam de verdades diferentes como remédios para curar suas feridas psicológicas.
Baseando-se no Metodismo para prover duas categorias para a classificação de todas as experiências religiosas – conversão e santificação – James deu uma interpretação romântica para ambas. Para os metodistas essas categorias aplicam-se especificamente à relação da alma com Deus. Conversão seria a inclinação da alma à vontade de Deus; santificação, a sintonia da alma com a vontade de Deus em todas as suas ações. Ao aplicar essas categorias para as outras religiões, James removeu as referências a Deus, deixando uma definição mais romântica: a conversão unifica a personalidade; a santificação representa o curso de integração dessa unificação na vida diária.
Além disso, James seguiu os românticos ao julgar os efeitos desses dois tipos de experiências nesses termos mundanos. Experiências de conversão são saudáveis quando nutrem a santificação saudável: a capacidade de manter a integridade nos altos e baixos da vida diária, atuando como um membro responsável e ético da sociedade humana. Em termos psicológicos, James viu a conversão simplesmente como um exemplo extremo das descobertas normalmente surgidas na adolescência. E ele concordou com os românticos com respeito a que a integração pessoal fosse um processo a ser perseguido ao longo da vida, ao invés de uma meta a ser alcançada.
Outros escritores que adotaram a psicologia da religião após James criaram um vocabulário mais científico para analisar seus dados. Ainda assim, eles mantiveram muitas das noções românticas que James tinha introduzido no campo.
Por exemplo, no Modern Man in Search of a Soul (1933), Carl Jung concorda que o papel adequado da religião reside na cura das divisões no interior da personalidade, embora ele visse a mesma divisão básica em todos: o limitado e temeroso ego X o sábio inconsciente mais amplo. Assim, ele considerava a religião como uma forma primitiva de psicoterapia. Na verdade, ele realmente estava mais próximo dos românticos do que James em sua definição de saúde psíquica. Citando a afirmação de Schiller de que os seres humanos são mais humanos quando estão brincando, Jung viu o cultivo da espontaneidade e fluidez tanto como um meio de integração da personalidade dividida como expressão da personalidade saudável envolvida no processo interminável de inte gração, interna e externa, durante toda a vida.
Ao contrário de James, Jung viu a personalidade integrada como estando acima dos limites rígidos da moralidade. E, embora ele não use o termo, ele exaltou o que Keats chamou “capacidade negativa”: a habilidade de lidar confortavelmente com as incertezas e mistérios, sem tentar impor certezas sobre eles. Assim, Jung recomendou tomar emprestado das religiões qualquer ensinamento que auxiliasse no processo de integração, rejeitando qualquer ensinamento que inibisse a espontaneidade do self integrado.
Em Religions, Values, and Peak-Experiences (1970), Abraham Maslow, o americano “pai da psicologia transpessoal”, dividiu as experiências religiosas nas mesmas duas categorias utilizadas por James. Mas na tentativa de divorciar essas categorias de qualquer tradição particular, ele lhes deu os nomes que delineariam as suas formas posteriormente: experiências culminantes e experiências superiores. Esses termos atualmente já entraram no vernáculo comum. As experiências culminantes são sentimentos de unidade e integração de curta duração que podem vir não só no escopo da religião, mas também no esporte, sexo e arte. Experiências superiores exibem um sentido mais estável de integração e duram muito mais tempo.
Maslow viu pouca utilidade nas interpretações tradicionais de experiências culminantes considerando-as sobreposições culturais que obscureceram a verdadeira natureza da experiência. Assumindo que todas as experiências culminantes, independentemente da causa ou do contexto, são basicamente o mesmo fenômeno, ele as reduziu às suas características psicológicas comuns, tais como sentimento de plenitude, dicotomia-transcendência, ludicidade e ausência de esforço. Assim reduzidas, ele descobriu, não tinham valor duradouro a menos que pudessem ser transformadas em experiências superiores. Para esse fim, ele viu a psicoterapia como necessária para o seu aperfeiçoamento: integrá-las em um regime de orientação e educação que realizasse o pleno potencial do ser humano – intelectual, físico, social, sexual – numa sociedade onde todas as áreas da vida são sagradas e as experiências superiores seriam de senso comum para todos.
Esses três autores da psicologia da religião, apesar de suas diferenças, mantiveram ideias românticas sobre a religião existente no Ocidente, dando-lhes o selo da aprovação científica. Através de sua influência, essas ideias têm formatado a psicologia humanista e – através da psicologia humanista – as expectativas que muitos americanos (ou ocidentais) trazem para a Dhamma.
No entanto, quando comparamos essas expectativas com os princípios originais do Dhamma, encontramos diferenças radicais. O contraste é especialmente forte em torno de três questões centrais da vida espiritual: Qual é a essência da experiência religiosa? Qual é a doença fundamental que a experiência religiosa pode curar? E o que significa ser curado?
A natureza da experiência religiosa. Para a psicologia humanista, como para os românticos, a experiência religiosa é um sentimento direto ao invés da descoberta de verdades objetivas. A sensação essencial é uma unicidade que supera todas as cisões interiores e exteriores. Tais experiências vêm em dois tipos: as experiências culminantes, em que o sentido de unicidade rompe as divisões e dualidades; e as experiências superiores onde – por meio de treinamento – a sensação de unicidade cria um sentido saudável de self, formatando todas as nossas atividades na vida diária.
No entanto, o Dhamma conforme exposto em seus registros antigos, coloca o treino da unicidade e o saudável sentido de selfcomo anteriores às experiências religiosas mais dramáticas. Um sentido saudável de self se dá com o cultivo da generosidade e da virtude. Um senso de unicidade – culminante ou superior – é alcançado nos níveis mundanos de concentração (jhāna) que constituem o caminho, ao invés do objetivo da prática. A derradeira experiência religiosa, o Despertar, é algo completamente diferente. O Despertar é descrito não em termos de sentimento, mas de conhecimento: domínio hábil dos princípios da causalidade subjacentes às ações e respectivos resultados, seguido pelo conhecimento direto da dimensão além da causalidade, onde todo o sofrimento cessa.
A doença espiritual básica. A psicologia romântica/humanista estabelece que a raiz do sofrimento é um sentimento de selfdividido, o que cria não apenas as barreiras internas – entre razão e emoção, ego e sombra – mas também os externos, que nos separam das outras pessoas, da natureza e do cosmo como um todo. O Dhamma, no entanto, ensina que a essência do sofrimento é o apego, e que a forma mais básica de apego é a autoidentificação, independentemente do senso de self ser finito ou infinito, fluido ou estático, unitário ou não.
A cura espiritual bem-sucedida. A psicologia romântica/humanista sustenta que uma cura total e final é inatingível. Em vez disso, a cura é um processo contínuo de integração pessoal. A pessoa iluminada é marcada por um ampliado, fluido senso de si mesmo, livre da rigidez moral. Guiada principalmente pelo que sente ser correto no contexto da interconexão, ajusta-se com facilidade – como um dançarino – aos papéis e aos ritmos da vida. Tendo aprendido a resposta criativa para a pergunta: “Qual é a minha verdadeira identidade?”, foi liberada da necessidade de certezas sobre qualquer um dos outros mistérios da vida.
O Dhamma, no entanto, ensina que o Despertar pleno atinge a cura total, abrindo a porta para o incondicionado além de tempo e espaço, e neste ponto a tarefa está realizada. A pessoa desperta, então, segue um caminho “que não pode ser rastreado”, mas é incapaz de transgredir os princípios básicos da moralidade. Tal pessoa percebe que a questão “Qual é a minha verdadeira identidade?” foi mal formulada, e conhece – por experiência direta – a liberação total do tempo e do espaço que acontecerá no momento da morte.
Quando essas duas tradições são comparados ponto por ponto, fica óbvio que – a partir da perspectiva do Buddhismo antigo – a psicologia romântica/humanista dá apenas uma visão parcial e limitada das potencialidades da prática espiritual. Isso significa que o Romantismo Buddhista, na tradução do Dhamma em princípios românticos, dá apenas uma visão parcial e limitada do que o Buddhismo tem a oferecer.
Agora, para muitas pessoas, essas limitações não importam, porque elas vêm para o Romantismo Buddhista por razões enraizados mais no presente do que no passado. A sociedade moderna está hoje ainda mais esquizofrênica do que qualquer coisa que os românticos tenham conhecido. Fez-nos mais e mais dependentes em círculos cada vez mais amplos de outras pessoas, e ainda mantém a maior parte dessas dependências ocultas. Nossa comida e roupas vêm dos mercados, mas como chegaram lá, ou quem é responsável por garantir um suprimento contínuo, não sabemos. Quando os repórteres investigativos rastreiam a rede de conexões do campo até o produto final em nossas mãos, os fatos se tornam expostos. Nossas camisetas, por exemplo, o algodão vem do Uzbequistão, tecido no Irã, costurado na Coréia do Sul e armazenado em Kentucky – uma teia de interdependê ncias instável que envolvem não um pequeno sofrimento tanto para os produtores quanto para aqueles empurrados para fora da teia produtiva por conta de mãos de obra mais baratas.
Quer saibamos ou não desses detalhes, nós intuitivamente percebemos a fragmentação e a incerteza criada por todo o sistema. Assim, muitos de nós sentimos a necessidade de um sentimento de completude. Para aqueles que se beneficiam das dependências ocultas da vida moderna, um corolário necessário é um sentimento de certeza de que a interconexão é confiável e benigna – ou, ainda que não benigna, que ao menos reformas factíveis possam torná-la nisso. Eles querem saber que podem, com segurança, depositar sua confiança no princípio da interconectividade sem medo de que ele vá consumi-los ou deixá-los para trás. Quando o Romantismo Buddhista fala a essas necessidades, ele abre o portão para as áreas do Dhamma que podem ajudar muitas pessoas a achar o consolo que estão procurando. Ao fazer isso, ele reforça o trabalho da psicoterapia, que p ode explicar porque tantos psicoterapeutas adotaram a prática do Dhamma para suas próprias necessidades e para seus pacientes e por que alguns se tornaram eles mesmos professores de Dhamma.
No entanto, o Romantismo Buddhista também ajuda a fechar o portão para as áreas do Dhamma que desafiam as pessoas em sua esperança de uma felicidade suprema baseada na interconectividade. O Dharma Tradicional chama para a renúncia e o sacrifício, para as bases em que toda a interconectividade é essencialmente instável e que qualquer felicidade baseada nessa instabilidade é um convite ao sofrimento. A verdadeira felicidade tem que ir além da interdependência e interconectividade, tem que ir para o incondicionado. Em resposta, os argumentos românticos chamam esses ensinamentos de dualistas: não essenciais para a experiência religiosa ou expressões inadequadas da mesma. Assim, concluem, eles podem ser ignorados. Dessa maneira, o portão fecha para áreas radicais do Dhamma concebidas para resolver os níveis de sofrimento que ainda restam mesmo ap� �s um sentido de completude ser dominado.
Ele também se fecha para dois grupos de pessoas que de outro modo se beneficiariam grandemente de prática do Dhamma:
1. Aqueles que veem que a interconectividade não vai eliminar o problema do sofrimento e estão procurando uma cura mais radical.
2. Aqueles de setores desiludidos e desfavorecidos da sociedade, que têm investido menos na continuação da interconectividade moderna e abandonaram a esperança de uma reforma significativa ou de felicidade dentro do sistema.
Para ambos os grupos, os conceitos do Romantismo Buddhista parecem coisa de Poliana; a cura que ele oferece, muito fácil. Enquanto portal de Dhamma, é mais como uma porta fechada em seus rostos.
Como tantos outros produtos da vida moderna, as fontes raízes do Romantismo Buddhista têm por muito tempo permanecido escondidas. É por isso que nós não as reconhecemos por aquilo que são ou não percebemos o preço que pagamos por confundir e tomar a parte pelo todo. Obstruindo a possibilidade de grandes mudanças na sociedade americana (ou ocidental), o Romantismo Buddhista certamente sobreviverá. O que se necessita é de mais janelas e portas para lançar luz sobre os aspectos radicais do Dhamma que o Romantismo Buddhista, até agora, manteve no escuro.
 
© Thanissaro Bhikkhu
© Centro Buddhista Nalanda, 2013 – Traduzido por Jorge Luiz Furtado para o Centro de Estudos Buddhistas Nalanda



Thanissaro Bhikkhu
Thanissaro Bhikkhu, também conhecido como Ajahn Geoff, nasceu em1949 e é um monge buddhista americano da Ordem Dhammayut (Dhammayutika Nikaya), da tradição das florestas da Thailândia. Atualmente é o abade do Metta Forest Monastery em San Diego. Thanissaro Bh ikkhu é um prolífico autor e tradutor de muitos livros.

 
 
 
     



      

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Entendimento Correto - O Lugar da Equanimidade

The Teachings of Ajahn Chah
Entendimento Correto - O Lugar da Equanimidade


"...O nosso descontentamento se deve ao entendimento incorreto. Porque não exercemos o autocontrole dos sentidos, colocamos a culpa pelo nosso sofrimento nas coisas externas…O lugar correto para os monges, o lugar da equanimidade, é justamente o próprio Entendimento Correto. Não deveríamos buscar nada além disso..."

A prática do Dhamma vai em sentido contrário aos nossos hábitos, a verdade vai contra os nossos desejos, por isso existe a dificuldade na prática. Algumas coisas que entendemos como erradas podem estar certas, enquanto que as coisas que tomamos como corretas podem estar erradas. Porque isso? Porque as nossas mentes estão no escuro, não vemos a Verdade com clareza. Nós, na realidade, não sabemos nada e dessa forma somos enganados pelas mentiras das pessoas. Elas apontam o que é certo como sendo errado e nós acreditamos e aquilo que é errado, elas dizem que é certo e nós acreditamos nisso. Essa é a razão porque ainda não somos senhores de nós mesmos. Os nossos humores nos enganam o tempo todo. Não deveríamos tomar essa mente e as suas opiniões como nosso guia, porque ela não conhece a verdade.

Algumas pessoas se recusam a ouvir o que outras têm para dizer, mas esse não é o caminho de uma pessoa provida de sabedoria. Uma pessoa sábia ouve tudo. Alguém que ouça o Dhamma deve ouvi-lo sim, quer goste ou não, e não acreditar cegamente ou desacreditar. Ela deve ficar em um ponto intermediário, no meio, e não ser descuidada. Ela ouve e depois reflete, proporcionando, assim, o surgimento de resultados corretos.

Uma pessoa sábia deve refletir e ver a causa e efeito por si mesma antes de acreditar naquilo que ela ouve. Mesmo que o mestre fale a verdade, não acredite, porque você ainda não conhece a verdade, por si mesmo.

É o mesmo para todos nós, incluindo a mim mesmo. Eu pratiquei antes de vocês, eu já vi muitas mentiras. Por exemplo, "Esta prática é realmente muito difícil, muito severa". Porque essa prática é difícil? É só porque pensamos da forma errada que nós temos o entendimento incorreto.

Antigamente eu vivia com outros monges, mas não me sentia bem. Eu escapei para as florestas e montanhas, fugindo da multidão, dos monges e noviços. Eu pensava que eles não eram como eu, eles não praticavam com a dedicação que eu praticava. Eles eram negligentes. Aquela pessoa era assim, esta pessoa era assim. Isso foi algo que realmente me causou uma grande comoção, foi a razão para a minha contínua fuga. Mas quer eu vivesse sozinho ou com outras pessoas eu ainda assim não tinha paz. Sozinho eu não estava satisfeito, em um grupo grande eu não estava satisfeito. Eu achava que esse descontentamento era devido aos meus companheiros, devido aos meus humores, devido ao lugar onde estava morando, a comida, o clima, devido a isso e aquilo. Eu estava constantemente buscando algo que satisfizesse a minha mente.

Como um monge dhutanga [25], eu viajava, mas as coisas ainda não estavam bem. Assim, eu refletia, "O que posso fazer para que tudo esteja bem? O que posso fazer?" Vivendo com muitas pessoas eu estava insatisfeito, com poucas pessoas eu estava insatisfeito. Por que razão? Eu simplesmente não conseguia ver. Porque eu estava insatisfeito? Porque eu tinha entendimento incorreto, só por isso; porque eu ainda estava apegado ao Dhamma errado. A qualquer lugar que eu fosse, eu estava descontente, pensando, "Aqui não está bem, ali não está bem…” t odo o tempo dessa forma. Eu punha a culpa nos outros. Eu punha a culpa no clima, calor e frio, eu punha a culpa em tudo! Tal como um cachorro louco. Ele morde tudo o que encontra, porque ele está louco. Quando a mente está assim, a nossa prática nunca se estabiliza. Hoje nos sentimos bem, amanhã mal. É assim o tempo todo. Nós não alcançamos contentamento ou paz.

O Buda certa vez viu um chacal, um cachorro selvagem, correndo pela floresta na qual ele estava. O chacal parou por alguns instantes e depois saiu correndo para dentro de um arbusto e em seguida saiu outra vez. Daí, ele correu para dentro de um tronco oco de uma árvore e depois saiu outra vez. Aí, ele foi para uma caverna, só para sair correndo outra vez. Num instante ele estava em pé, no seguinte ele correu, depois se deitou, depois ficou em pé…Aquele chacal tinha sarna. Quando estava em pé a sarna se entranhava na pele, por isso ele corria. Correndo ele ainda se sentia incomodado, por isso ele deitava. Então ele ficava em pé de novo, corria para os arbustos, o tronco oco, nunca ficando quieto.

O Buda disse, "Monges, vocês viram aquele chacal esta tarde? Em pé ele estava sofrendo, correndo ele estava sofrendo, sentado ele estava sofrendo, deitado ele estava sofrendo. No arbusto, no tronco oco ou na caverna ele estava sofrendo. Ele culpou o estar em pé pelo seu desconforto, ele culpou o estar sentado, ele culpou o correr e o deitar; ele culpou a árvore, o arbusto e a caverna. Na verdade o problema não estava em nenhuma dessas coisas. Aquele chacal tinha sarna. O problema era a sarna."

Nós monges somos iguais ao chacal. O nosso descontentamento se deve ao entendimento incorreto. Porque não praticamos a contenção dos sentidos colocamos a culpa pelo nosso sofrimento nas coisas exteriores. Quer vivamos em Wat Pah Pong, na América, ou em Londres, ainda assim nós não estamos satisfeitos. Ir viver em Bung Wai ou qualquer outro dos monastérios afiliados, assim mesmo não estamos satisfeitos. Porque não? Porque ainda temos o entendimento incorreto, apenas isso! Onde quer que estejamos não estaremos satisfeitos.

Mas igual ao chacal, se a sarna for curada, ele estará satisfeito onde quer que ele vá. Eu reflito sobre isto com freqüência e eu lhes ensino isto com freqüência, porque é muito importante. Se conhecermos a verdade dos nossos vários humores alcançaremos o contentamento. Quer esteja quente ou frio nós estaremos satisfeitos, com muitas pessoas ou poucas pessoas estaremos satisfeitos. O contentamento não depende de com quantas pessoas estejamos, ele surge somente do entendimento correto. Se tivermos o entendimento correto, então onde quer que estejamos estaremos satisfeitos.

Mas a maioria de nós possui entendimento incorreto. É como um verme! O lugar em que o verme vive é asqueroso, o seu alimento é asqueroso…mas eles satisfazem o verme. Se você tomar uma vara e empurrá-lo para longe do seu naco de estrume, ele irá se esforçar para rastejar de volta. É o mesmo quando o Ajaan nos ensina a ver corretamente. Nós resistimos, nos sentimos desconfortáveis. Corremos de volta para o nosso 'naco de estrume' porque é ali que nos sentimos em casa. Todos somos assim. Se não enxergarmos as conseqüências negativas de nosso entendimento incorreto, então não o abandonaremos, a prática é difícil. Assim deveríamos ouvir. Não existe nada além disso na prática.

Se tivermos o entendimento correto, para qualquer lugar que formos estaremos satisfeitos. Eu pratiquei e vi isso. Hoje em dia existem muitos monges, noviços e pessoas leigas que me procuram. Se eu ainda não soubesse, se ainda tivesse o entendimento incorreto, já estaria morto! O lugar correto para os monges, o lugar da equanimidade é justamente o entendimento correto. Não deveríamos procurar nada além disso.

Portanto, mesmo que você possa estar infeliz, isso não tem importância, essa infelicidade é incerta. Essa infelicidade é o seu "eu"? Existe nela qualquer substância? Ela é real? Eu não a vejo como real, de maneira nenhuma. A infelicidade é apenas uma sensação que aparece num instante e depois desaparece. A felicidade é igual. Existe consistência na felicidade? Ela é verdadeiramente uma entidade? É simplesmente uma sensação que relampeja de repente e desaparece. Pronto! Ela nasce e em seguida morre. O desejo relampeja por um momento e depois desaparece. Onde está a consistência no desejo, raiva ou ressentimento? Na verdade não existe uma entidade com substância, elas são apenas impressões que se espalham na mente e depois morrem. Elas nos enganam constantemente, não encontramos segurança em nenhum lugar. T al como disse o Buda, quando a infelicidade surge ela permanece por algum tempo, depois desaparece. Quando a infelicidade desaparece, a felicidade surge e permanece por algum tempo e depois morre. Quando a felicidade desaparece, a infelicidade surge outra vez…continuamente dessa forma.

No final, só podemos dizer isto - exceto pelo nascimento, vida e morte do sofrimento, não existe nada mais. Existe só isso. Mas nós que somos ignorantes, corremos e agarramos constantemente. Nunca vemos a verdade das coisas e que existe somente essa contínua mudança. Se entendermos isto, então não precisaremos pensar muito, e teremos muita sabedoria. Se não soubermos isso, então teremos mais pensamento que sabedoria - e talvez nenhuma sabedoria! Até que realmente enxerguemos as conseqüências danosas das nossas ações para que possamos abrir mão delas. Da mesma forma, somente quando virmos os benefícios reais da prática é que nós a seguiremos e começaremos a trabalhar para tornar a mente "boa".

Se cortarmos um tronco de árvore e o jogarmos num rio e ele não afundar ou apodrecer, nem ficar preso nas margens do rio, esse tronco irá com certeza chegar ao mar. A nossa prática é igual. Se você praticar de acordo com o caminho estabelecido pelo Buda, seguindo-o com rigor, você irá transcender duas coisas. Quais duas? Exatamente os dois extremos que o Buda disse não ser o caminho do verdadeiro meditador - entregar-se ao prazer e entregar-se à dor. Essas são as duas margens no rio. Uma das margens do rio é a raiva, a outra a cobiça. Ou você pode dizer que uma margem é a felicidade e a outra a infelicidade. O "tronco" é a mente. À medida que "fluir rio abaixo" ela irá experimentar a felicidade e a infelicidade. Se a mente não se apegar a essa felicidade ou infelicidade, chegará ao "oceano" de Nibbana. Você d eve ver que não existe nada além de felicidade e infelicidade surgindo e desaparecendo. Se você não "ficar preso" nessas coisas, então você estará no caminho de um verdadeiro meditador.

Esse é o ensinamento do Buda. Felicidade, infelicidade, cobiça e raiva simplesmente existem na Natureza de acordo com a invariável lei da natureza. A pessoa sábia não os segue ou estimula, ela não se apega a eles. Essa é a mente que não se entrega ao prazer e não se entrega à dor. É a prática correta. E como aquele tronco de madeira irá finalmente chegar ao oceano, assim também a mente que não se apega a esses dois extremos irá inevitavelmente alcançar a paz.



Notas:

25. Dhutanga propriamente quer dizer "asceta". Um monge Dhutanga é aquele que segue algumas das treze práticas ascéticas permitidas pelo Buda. Os monges Dhutanga tradicionalmente passam o seu tempo viajando (freqüentemente a pé) em busca de lugares calmos para meditação, outros mestres ou simplesmente como uma prática em si. [Retorna]

sábado, 15 de outubro de 2011

Sobre Shambhala




Por: Alexander Berzin


(Novembro de 1996, revisado em Maio e Dezembro de 2003)


Introdução


Muitos mitos estrangeiros cresceram em volta da legenda de Shambhala encontrada na literatura de Kalachakra. Alguns foram espalhados para ganhar apoio militar ou político, tal como a identificação da Rússia, da Mongólia ou do Japão como Shambhala. Outros apareceram dentro de movimentos ocultistas e misturaram idéias budistas com conceitos de outros sistemas de crenças. Vários até organizaram expedições para encontrar a terra legendária.

Dois círculos surgiram entre as versões ocultistas. Um deles considerava Shambhala como um paraíso utópico cujo povo virá salvar o mundo. O escritor britânico, James Hilton, encaixa-se neste círculo. O seu trabalho de 1933 Lost Horizon [Horizonte Perdido], descreve Shangrila como um paraíso espiritual situado num vale inacessível e secreto no Tibete. Shangrila é indubitavelmente uma corrupção romântica de Shambhala. O outro círculo descreveu Shambhala como uma terra de poderes malévolos. Vários relatos do pós-guerra sobre a ligação entre o nazismo e o ocultismo apresentam esta interpretação.

É importante não se confundir qualquer uma destas distorções com o próprio budismo.
Deixem-nos traçar o fenômeno.


Teosofia


A Madame Helena Blavatsky (1831-1891) nasceu na Ucrânia filha de aristocracia Russa. Dotada com poderes extrasensoriais, viajou pelo mundo em busca de ensinamentos ocultos e secretos, e passou muitos anos no subcontinente indiano. De 1867 a 1870, ela estudou budismo tibetano com mestres indianos, muito provavelmente das regiões culturais tibetanas dos Himalaias indianos, durante a sua suposta estadia no Mosteiro de Tashilhunpo no Tibete.


Blavatsky

Blavatsky encontrou o budismo tibetano numa altura em que a erudição europeia oriental estava ainda na sua infância e em que poucas traduções ou narrativas estavam disponíveis. E mais, ela teve a oportunidade de aprender somente fragmentos desconjuntados dos seus vastos ensinamentos.

Nas suas cartas privadas, escreveu que como o público ocidental tinha naquela altura pouca familiaridade com o budismo tibetano, ela decidiu traduzir e explicar os termos básicos com conceitos mais popularmente conhecidos do hinduísmo e do ocultismo. Por exemplo, ela traduziu três dos quatro mundos-ilhas (quatro continentes) em volta de Monte Meru como as ilhas perdidas desaparecidas de Hiperbórea, da Lemúria e da Atlântida. Do mesmo modo, apresentou as quatro raças humanóides mencionadas no Abhidharma e nos ensinamentos de Kalachakra (nascidos por meio de transformação, umidade e calor, ovos, e úteros) como as raças destes mundos-ilhas. A sua convicção de que os ensinamentos esotéricos de todas as religiões do mundo formam um corpo de conhecimento oculto reforçou a sua decisão de traduzir desse modo e ela tomou a iniciativa de demonstrar isso nas suas escritas.

Juntamente com o coronel americano espiritualista Henry Steel Olcott, Madame Blavatsky fundou a Sociedade Teosófica em 1875 em Nova Iorque. As suas sedes internacionais mudaram para Madras, na Índia, pouco depois. Quando o seu colega Alfred Percy Sinnett identificou a teosofia com o budismo esotérico em Esoteric Buddhism (1883), Blavatsky refutou a sua alegação. De acordo com as suas Letters of H. P. Blavatsky to A. P. Sinnett [Cartas de H. P. Blavatsky a A. P. Sinnett], que foram publicadas postumamente, a posição de Blavatsky era que a teosofia transmitia "os ensinamentos ocultos secretos de trans-Himalaia", e não os ensinamentos do budismo tibetano. Não obstante, através de suas escritas, o oeste veio primeiro a associar Shambhala com o ocultismo e muitos subsequentemente confundiram esta ligação com os verdadeiros ensinamentos do budismo.

Em 1888, Blavatsky mencionou Shambhala na sua obra principal, The Secret Doctrine [A Doutrina Secreta], os ensinamentos que ela disse ter recebido telepaticamente dos seus professores no Tibete. Ela escreveu numa carta que, embora os seus professores fossem " byang-tzyoobs" ou "tchang-chubs" (Tib: byang-chub, Sânsc: bodhisattva) reencarnados, ela tinha-os chamado "mahatmas" dado que esse termo era mais conhecido pelos ingleses na Índia.

A origem tibetana dos ensinamentos em The Secret Doctrine, Blavatsky afirmou, é The Stanzas of Dzyan, o primeiro volume dos comentários aos sete fólios secretos de Kiu-te. "Kiu-te" transcreve "rgyud-sde" tibetano, que significa "divisão tantra" que é o título da primeira seção do Kangyur, as traduções tibetanas das palavras de Buda. "Dzyan" transcreve o sânscrito "dhyana" (Jap. zen), significando estabilidade mental. Blavatsky estava ciente que The Kalachakra Tantra [O Tantra Kalachakra] era o primeiro artigo na divisão tantra do Kangyur, uma vez que ela mencionou esse fato num dos seus apontamentos. No entanto, ela explicou que os sete fólios secretos não faziam realmente parte do Kiu-te publicado, e assim nós não encontramos qualquer coisa similar às Stanzas de Dzyan nessa coleção.

Não está claro até que ponto Blavatsky realmente estudou os textos de Kalachakra diretamente. O primeiro material ocidental sobre o tópico foi um artigo de 1833 entitulado "Note on the Origins of the Kalachakra and Adi-Buddha Systems" [Observações sobre as Origens dos Sistemas de Kalachakra e de Adi-Buddha] pelo pioneiro erudito húngaro Alexander Csomo de Körös (Körösi Csoma Sandor). De Körös compilou o primeiro dicionário e gramática tibetana numa língua ocidental, o inglês, em 1834. O Tibetan-Russian Dictionary and Grammar [Dicionário e Gramática Tibetano-Russa], de Jakov Schmidt depressa seguiu em 1839. A maioria do conhecimento de Blavatsky sobre o Kalachakra, contudo, veio do capítulo intitulado "The Kalachakra System" [O Sistema de Kalachakra] em Buddhism in Tibet [Budismo no Tibete] (1863), por Emil Schlagintweit, como evidenciado pelo empréstimo de muitas passagens desse livro nas suas obras. Seguindo o seu princípio de tradução, no entanto, ela rendeu Shambhala em termos de conceitos semelhantes ao hinduísmo e ocultismo.

A primeira tradução inglesa de The Vishnu Purana, por Horace Hayman Wallace, tinha aparecido em 1864, três anos antes da suposta visita de Blavatsky ao Tibete. De acordo com essa obra, ela explicou Shambhala em termos da apresentação hindu neste texto: é a vila onde o futuro messias, Avatar de Kalki, irá aparecer. Blavatsky escreveu que o Kalki é "Vishnu, o Messias no Cavalo Branco dos bramanes; o Buda Maitreya dos budistas; Sosiosh dos parsis; e Jesus dos cristãos". Ela também afirmou que Shankaracharya, o fundador de Advaitya Vedanta do início do século IX, "ainda vive entre a Irmandade de Shamballa, do outro lado dos Himalaias".



Noutro lugar, ela escreveu que quando Lemúria se afundou, parte do seu povo sobreviveu em Atlântida, enquanto que parte dos seus eleitos migrou para a ilha sagrada de "Shamballah" no deserto de Gobi. No entanto, nem a literatura de Kalachakra nem The Vishnu Purana, mencionam Atlântida, Lemúria, Maitreya ou Sosiosh. Contudo, a associação de Shambhala com eles continuou entre os seguidores de Blavatsky.

A localização de Blavatsky de Shambhala no deserto de Gobi não é surpreendente visto que os mongóis, incluindo a população buryat da Sibéria e os kalmyks da região mais baixa do Volga, eram fortes seguidores do budismo tibetano, particularmente dos seus ensinamentos de Kalachakra. Durante séculos, os mongóis em toda parte acreditaram que a Mongólia é o Reino Nórdico de Shambhala e Blavatsky tinha sem dúvida conhecimento das crenças dos buryat e dos kalmyk na Rússia

Blavatsky também poderia ter recebido confirmação da sua localização de Shambhala no deserto de Gobi [a partir] das escritas de Csoma de Körös. Numa carta de 1825, ele escreveu que Shambhala é como uma Jerusalém budista estendida entre 45 e 50 graus de longitude. Embora ele achasse que Shambhala seria provavelmente encontrada no deserto de Kizilkum no Cazaquistão, o deserto Gobi também caía dentro das duas longitudes. Mais tarde, outros também o situariam dentro destes parâmetros, porém ou no Turquistão Oriental (Xinjiang, Sinkiang) ou nas montanhas de Altai.

Embora a própria Blavatsky nunca afirmasse que Shambhala era a fonte de The Secret Doctrine [A Doutrina Secreta], mais tarde vários teosofistas fizeram esta ligação. Proeminentemente entre eles estava a Alice Bailey em Letters on Occult Meditation [Cartas sobre Meditação Oculta] (1922). Helena Roerich, nas suas Collected Letters (1935-1936), também escreveu que Blavatsky era uma mensageira da Irmandade Branca de Shambhala. Além disso, ela relatou que em 1934 o Regente de Shambhala tinha chamado de volta ao Tibete os mahatmas que tinham transmitido os ensinamentos secretos a Blavatsky.


Asserção de Dorjiev da Rússia como Shambhala


A primeira principal exploração da legenda de Shambhala para finalidades políticas também envolveu a Rússia. Agvan Dorjiev (1854-1938) era um monge mongol de Buryat que estudou em Lhasa e tornou-se Parceiro Mor de Debates (Tutor Assistente) do XIII Dalai Lama. Face às maquinações britânicas e chinesas para controle do Tibete, ele convenceu o Dalai Lama a virar-se para a Rússia para apoio militar. Fê-lo dizendo-lhe que a Rússia era Shambhala e que o Czar Nicholas II era a reencarnação de Tsongkhapa, o fundador da tradição Gelug. Dorjiev foi em diversas missões à Corte Imperial Russa, mas nunca conseguiu obter qualquer ajuda. No entanto, conseguiu convencer o Czar a construir um Templo de Kalachakra em São Petersburgo.

A primeira cerimônia pública no templo teve lugar em 1913. Foi um ritual para a longa vida da Dinastia dos Romanov no aniversário do seu tricentenário. De acordo com Albert Grünwedel, o explorador alemão da Ásia central, em Der Weg nach Shambhala (The Way to Shambhala) [O Caminho para Shambala] (1915), Dorjiev falou da Dinastia dos Romanov como os descendentes dos regentes de Shambhala.

[Para mais detalhes, veja: Envolvimento Russo e Japonês com o Tibete Pré-comunista: O Papel da Legenda de Shambhala.]


Mongólia, Japão e Shambhala


A exploração política seguinte da legenda de Shambhala ocorreu na Mongólia. O Barão von Ungern-Sternberg, um alemão que viveu na Rússia, era um fervoroso anti-Bolchevique. Durante a Guerra Civil que se seguiu à Revolução Russa de 1917, ele lutou na Sibéria com as forças brancas (czaristas) Russas. Com o apoio dos japoneses, ele invadiu a Mongólia Exterior em 1920 com sucesso para libertá-la dos chineses. Famoso pela sua crueldade, Ungern massacrou milhares de chineses, mongóis colaboradores, bolcheviques russos e judeus, ganhando o nome de "Barão Louco". Ungern acreditava que todos os judeus eram bolcheviques.
Sukhe Batur estabeleceu o Governo Comunista Mongol Provisório em Buryatia e conduziu um exército mongol contra Ungern. Ele mobilizou as suas tropas dizendo-lhes que, lutando para libertar a Mongólia de opressão, eles iriam renascer no exército de Shambhala. Com a ajuda do Exército Vermelho Soviético, Sukhe Batur invadiu Urga (Ulaan Baatar), a capital Mongol, no fim de 1921. A República Popular da Mongólia foi fundada em 1924.

Depois da invasão japonesa da Mongólia Interior em 1937, o Japão também explorou a legenda de Shambhala para proveito político. Para tentar obter a lealdade dos mongóis, espalhou a propaganda que o Japão era Shambhala.

[Para mais detalhes, veja: Exploração da Legenda de Shambhala para o Controle da Mongólia.]


Ossendowski e Agharti


No livro de 1922 Beasts, Men and Gods [Bestas, Homens e Deuses], Ferdinand Ossendowski (1876-1945), um cientista polonês que passou a maior parte da sua vida na Rússia, escreveu sobre as suas viagens recentes à Mongólia Exterior durante as campanhas do Barão von Ungern-Sternberg. Ossendowski relatou que vários lamas mongóis lhe tinham falado de Agharti, um reino subterrâneo debaixo da Mongólia, governado pelo Rei do Mundo. No futuro, quando o materialismo arruinar o mundo, irá haver uma guerra terrível. Nessa altura, o povo de Agharti virá à superfície ajudar a terminar a violência. Ossendowski relatou que ele convenceu Ungern da sua história e que, subsequentemente, Ungern mandou missões em busca Agharti duas vezes, conduzidas pelo Príncipe Poulzig. As missões falharam e o Príncipe nunca retornou da segunda expedição.

Kamil Gizycky era um engenheiro do exército polonês que também lutou contra os Bolcheviques na Sibéria e depois se juntou às forças de Ungern na Mongólia. Não fez menção nenhuma de Agharti na sua narrativa dos eventos da altura, Poprzez Urjanchej i Mongolie (Across Urankhai and Mongolia) [Através de Urankhai e da Mongólia] (1929). Interessantemente, relatou que Ossendowski ajudou o Barão Louco oferecendo-lhe a fórmula para fazer gás venenoso.

Embora os textos de Kalachakra nunca descrevam Shambhala como um reino subterrâneo, o relatório de Ossendowski paralela claramente a narrativa de Kalachakra do regente Kalki de Shambhala vindo ajudar o mundo terminar uma guerra apocalíptica. No entanto, o aparecimento de Agharti aqui é digno de atenção. O nome não aparece na literatura de Kalachakra nem nas obras da Madame Blavatsky.



O autor francês Joseph-Alexandre Saint-Yves d' Alveidre primeiro popularizou a legenda de Agharti (Agharta, Asgartha, Agarthi, Agardhi) no seu romance Mission de l'Inde en Europe (Mission of India in Europe) [Missão da Índia na Europa], escrita em 1886. Ele descreveu-a como um reino subterrâneo com uma universidade que é um repositório de conhecimento secreto. Localizado originalmente em Ayodhya Índia, foi mudada para um lugar secreto debaixo dos Himalaias 1800 anos antes de Cristo. O seu rei, um "mahatma", guarda os seus segredos e não os revelou, dado que eles iriam permitir as forças do Anticristo de construir armas poderosas. Quando as forças malignas tiverem sido destruídas, os mahatmas irão revelar seus segredos para o benefício da humanidade.

Saint-Yves d' Alveidre pode ter, de fato, retirado vários elementos da sua história da discussão de Kalachakra sobre Shambhala. O número 1800 aparece repetidamente como um motivo na literatura de Kalachakra e os textos clássicos relatam que os líderes de Shambhala possuíam o conhecimento para construir armas para derrotar as forças do invasor. Não obstante, o autor francês claramente escreveu um trabalho de ficção.




Em Ossendowski und die Wahrheit (Ossendowski and the Truth) [Ossendowski e a Verdade] (1925), Sven Hedin, o explorador sueco do Tibete, rejeitou as asserções de Ossendowski ter ouvido de Agharti através dos lamas mongóis. Ele escreveu que o cientista polonês tinha tirado o mito de Agharti de Saint-Yves d' Alveidre e o tinha moldado à sua história a fim de atrair a leitura de um público alemão já familiarizado, a um certo nível, com o oculto. Hedin admitiu, contudo, que o Tibete e o Dalai Lama eram os protetores do conhecimento secreto.

Uma explanação adicional, no entanto, poderia ser que Ossendowski usou o mito de Agharti para obter o favorecimento de Ungern. Ungern teria sem dúvida identificado as forças materialísticas do Anticristo, que Agharti iria ajudar a derrotar, como os bolcheviques, contra quem ele estava lutando. Visto que Sukhe Batur estava a mobilizar as suas tropas com a promessa de Shambhala, Ungern poderia igualmente usar a estória de Agharti para seu próprio proveito. Se este fosse o caso, poderíamos de aqui traçar a versão da legenda de Shambhala que descreveu Shambhala desfavoravelmente.


Roerich, Shambhala e Agni Yoga


Nikolai Roerich (1874 - 1947), pintor russo e estudante fervoroso de teosofia, tinha estado no comitê para a construção do Templo de Kalachakra em São Petersburgo e tinha feito o plano para as suas janelas de vidro colorido. A sua esposa, Helena, foi quem traduziu The Secret Doctrine [A Doutrina Secreta] de Blavatsky para o russo. Entre 1925 e 1928, ele dirigiu uma expedição da Índia, através do Tibete, à Mongólia Exterior e à região da montanha de Altai na Sibéria, a norte do Turquistão Oriental. O suposto objetivo era estudar plantas, etnologia e línguas, e pintar. Contudo, o seu objetivo principal era descobrir Shambhala.


Roerich

De acordo com diversos relatos, a missão de Roerich era devolver a Shambhala uma chintamani (jóia que concede desejos), confiada nele pela Liga das Nações. O seu grupo afirmou ter localizado Shambhala na região de Altai. Mesmo hoje em dia, os seguidores de Roerich continuam sua convicção que as montanhas de Altai são um grande centro espiritual, associado de algum modo a Shambhala.

A busca de Roerich de Shambhala foi talvez parcialmente inspirada por Der Weg nach Shambhala de Grünwedel, que continha uma tradução de The Guidebook to Shambhala (Tib. Sham-bha-la'i lam-yig), escrito em meados do século XVIII pelo Terceiro Panchen Lama (1738-1780). No entanto, o Panchen Lama explicou que a viagem física a Shambhala poderia levar-nos apenas até um certo ponto. Para alcançar o reino legendário, teríamos de fazer uma quantidade enorme de práticas espirituais. Ou seja, a viagem a Shambhala era na verdade uma viagem ao interior. Esta explanação, entretanto, não pareceu deter aventureiros intrépidos tal como os Roerichs de tentar alcançar Shambhala meramente caminhando até lá.

Em 1929, os Roerichs criaram o Agni Yoga, incorporando os ensinamentos teosóficos como sua base. Eles talvez tivessem também seguido o modelo de Blavatsky de traduzir terminologia budista com as imagens e expressões que eram mais familiares, vindas do hinduísmo e do ocultismo. Os Roerichs, afinal, afirmavam que Shambhala era a fonte de todos os ensinamentos indianos. Também chamaram os seus regentes "os Senhores do Fogo que irão lutar contra os Senhores da Escuridão".

Agni é a palavra sânscrita para fogo - especificamente, o fogo purificador sagrado dos Vedas. De acordo com isto, Roerich explicou que os mestres de Shambhala utilizam os seus poderes para a purificação. Os praticantes de Agni Yoga escolhem Buda, Jesus, ou Maomé como guia para a prática espiritual. Concentrando-se nos seus guias escolhidos, rezam para a paz fazendo simultaneamente simples visualizações de purificação de obstáculos.

Na prática tântrica budista, os meditadores concluem retiros intensivos com os chamados "pujas de fogo". Nestes rituais, eles oferecem vários grãos e manteiga a um fogo para purificar e acalmar quaisquer obstáculos que possam surgir dos erros feitos durante a sua meditação. Nas chamas, eles visualizam a deidade-fogo Agni, uma figura claramente emprestada do hinduísmo. Roerich pode ter testemunhado tais pujas no Templo de Kalachakra em São Petersburgo ou durante as suas viagens pelas regiões mongóis e ter daí derivado a sua idéia de Agni Yoga.

Assim, a principal associação que Roerich fez com Shambhala era como um lugar de paz. Em Shambhala: In Search of a New Era [Shambhala: Em Busca de Uma Nova Era] (1930), Roerich descreveu Shambhala como uma cidade sagrada a norte da Índia. O seu regente revela os ensinamentos do Buda Maitreya para a paz universal. Cada tradição descreve Shambhala de acordo com a sua própria compreensão e, assim, a lenda do Santo Gral, por exemplo, é uma versão da estória de Shambhala. Constantino o Grande, o Chinggis Khan (Genghis Khan) [Gêngis Khan], e Prester John encontram-se entre aqueles que receberam mensagens dos ensinamentos do "Misterioso Local Espiritual e Irmandade no coração da Ásia".




Roerich até mesmo inventou a expressão "Guerreiros de Shambhala", adotada mais tarde na década de 1980 por Chogyam Trungpa Rinpoche, um Lama Tibetano encarnado das linhagens Karma Kagyu e Nyingma que adaptou e expressou idéias budistas num americano vernacular moderno. Trungpa escreveu, no entanto, que a sua idéia do guerreiro de Shambhala não estava relacionada com os ensinamentos de Kalachakra ou com a própria Shambhala. Era uma metáfora para alguém se esforçando para o automelhoramento para o benefício dos outros. Roerich, por outro lado, usou a expressão para "os Irmãos da Humanidade" que, de Shambala, virão trazer a paz ao mundo. O conceito de "Kalachakra para a Paz Mundial", associado com as iniciações de Kalachakra dadas por Sua Santidade o XIV Dalai Lama no ocidente desde 1981, também é provavelmente uma herança das idéias de Roerich.

Depois de voltar da Ásia, Roerich viajou a Nova Iorque onde, em 1929, foi instrumental na promulgação do Pacto de Roerich, um tratado internacional para a proteção de monumentos culturais do mundo. A bandeira da paz que Roerich propôs tinha três círculos, que, ele explicou, são encontrados em todas as tradições espirituais, incluindo a dos "Rigden Jyelpos", os Reis de Shambhala. Nada como isto, entretanto, é encontrado nos textos de Kalachakra. Numerosos países do mundo assinaram o pacto, incluindo os Estados Unidos em 1935. O símbolo dos três círculos foi mais tarde adotado como uma insígnia usada em numa banda nos braços de algumas pessoas fisicamente inválidas indicando a sua necessidade de tratamento delicado.

Em Shambhala: In Search of a New Era [Shambhala: Em Busca de uma Nova Era], Roerich também deu a entender uma similaridade entre Shambhala e Thule, o reino escondido no pólo norte, que, como veremos mais adiante, inspirou os alemães na sua busca por um reino secreto. Ele também mencionou a associação de Shambhala com a cidade subterrânea de Agharti (Agarthi), alcançada através de túneis sob os Himalaias. Os seus habitantes emergirão na "época da purificação". Nas suas Collected Letters (1935 - 1936), Helena Roerich observou que Saint-Yves d' Alveidre tinha identificado incorretamente Shambhala com Agharti, mas que não são o mesmo lugar.

Jocelyn Godwin, em Arktos, The Polar Myth in Science, Symbolism and Nazi Survival [Arktos, o Mito Polar na Ciência, no Simbolismo e na Sobrevivência Nazista] (1993), identificou o poder de Agni com vril. Vril é o poder psicocinético protegido pelos habitantes de Thule, que os nazistas tentaram obter para ajudar a fortalecer a sua super-raça ariana. Roerich, contudo, nunca fez esta associação.

[Ver: A ligação Nazista com Shambhala e o Tibete.]



Steiner, Antroposofia e Shambhala


Como um contrapeso às apresentações de Blavatsky e Roerich de Shambhala como um reino benevolente que irá ajudar a estabelecer a paz mundial, versões alternativas enfatizaram o aspecto apocalíptico da lenda. Elas associaram Shambhala principalmente com as forças destrutivas da regeneração que irão eliminar modos de pensar obsoletos e antiquados e estabelecer uma nova ordem mundial pacífica. Assim, a força destrutiva de Shambhala é, por fim, benevolente. Estas versões tiveram também as suas raízes na teosofia.

Em 1884, o Dr. Wilhelm Hübbe-Schleiden fundou a Sociedade Teosófica Alemã. Após um fiasco inicial, Annie Besant convidou Rudolf Steiner (1861-1925), um espiritualista austríaco, para a restabelecer em 1902. Steiner deixou a sociedade em 1909 principalmente porque não concordava com a declaração de Besant e de C.W. Leadbetter de que Krishnamurti, então com dezesseis anos de idade, era o messias. Numa série de palestras dadas em Berlim e em Munique em 1910 e em 1911, Steiner ensinou o que alguns chamaram "uma versão cristianizada da teosofia". Steiner, entretanto, afirmou que os seus ensinamentos vinham da sua leitura clarividente "dos registros akáshicos", não da teosofia.


Steiner

Akasha é a palavra sânscrita para espaço, e estes registros ocultos contêm supostamente toda a sabedoria da humanidade. Os textos de Kalachakra referem-se ao nível mais sutil e completamente purificado de atividade mental que é a base para a consciência onisciente de um Buda como "o vajra espaço todo-abrangido com espaço" ["the space vajra pervasive with space."]. Não a apresentam, contudo, como um registro de todo o conhecimento que possa ser explorado por meios psíquicos.

De acordo com Steiner, Cristo, o verdadeiro profeta, irá revelar o Reino de Shamballa (Shambhala) com a sua Segunda Vinda. Shambhala, que desapareceu há muito tempo, é o reino de Maitreya. Numa palestra intitulada "Maitreya – Christ oder Antichrist (Maitreya – Christ or Antichrist)" [Maitreya – Cristo ou Anticristo], Steiner explicou que "tudo que virá dos lábios de Maitreya virá através do poder de Cristo".

Steiner enfatizou o conflito entre o bem e o mal, como personificado por Lúcifer e Ahriman. Blavatsky já tinha diferenciado Lúcifer de Satanás. De acordo com The Secret Doctrine [A Doutrina Secreta], Lúcifer é o "Portador da Luz", a "Luz Astral" dentro de cada uma das nossas mentes que tanto é o nosso sedutor como o liberador do nosso animalismo puro. Serve tanto para criar como para destruir, e manifesta-se na paixão sexual. Embora Lúcifer possa elevar a humanidade a um plano mais elevado, os eruditos latinos transformaram-no no completamente malévolo Satanás.

Blavatsky também escreveu sobre o dualismo zoroastriano e a luta entre Ahura Mazda e Ahriman, como as forças da luz e da escuridão. Steiner, contudo, foi mais além que Blavatsky e transformou o dualismo num antagonismo entre Lúcifer e Ahriman. Em Occult Science, An Outline [A Ciência Oculta, Um Esboço], Steiner caracterizou Lúcifer como um ser de luz, a ponte entre Homem e Deus, trazendo-nos para mais perto de Cristo. As "crianças de Lúcifer", então, são todos aqueles que buscam o conhecimento e a sabedoria. Ahriman, por contraste, conduz a humanidade para baixo, para a sua natureza inferior, material, carnal, animalística.

Steiner chamou-se a si próprio um luciferiano e, pela sua lógica, Maitreya é o Anticristo. Dado que as pessoas perverteram os verdadeiros ensinamentos de Cristo, Maitreya, como o Anticristo, virá de Shambhala e irá purificar o mundo de sua mácula e ensinar a verdadeira mensagem de Cristo. Em 1913, os seguidores de Steiner fundaram a Sociedade Antroposófica, embora o próprio Steiner não se tivesse juntado a ela antes de tê-la restabelecido em 1923.

De acordo com o Tantra de Kalachakra, Raudrachakrin, o vigésimo quinto regente Kalki de Shambhala, irá derrotar os invasores não-indicos que irão tentar conquistar o mundo. Estes invasores irão seguir os ensinamentos de uma linha de oito profetas: Adão, Abraão, Noé, Moisés, Jesus, Mani, Maomé e Mahdi. A análise histórica sugere que o modelo para estes invasores eram as forças ismaili shiite de Multan (o atual Paquistão) dos finais do século X, um aliado do Império Fatímida no Egito. Os Fatímidas, com o seu messias Mahdi, tentaram conquistar o mundo islâmico antes do apocalipse predito e do fim do mundo quinhentos anos depois de Maomé. As pessoas por toda a região viviam com enorme medo de uma invasão, incluindo a região budista-hindu-muçulmana do Afeganistão, onde os ensinamentos históricos de Kalachakra provavelmente se desenvolveram. O predito conflito e derrota dos invasores, entretanto, era uma metáfora espiritual para a batalha interior contra o medo e a ignorância. Ofereceu um método eficaz para as pessoas aterrorizadas naquele tempo para superar suas ansiedades fortemente sentidas.

Steiner provavelmente não estava consciente do contexto histórico e do significado metafórico da lenda de Shambhala. Assim, ele e vários outros nas décadas seguintes consideraram Shambhala como sendo o reino do poder espiritual do qual irá surgir a reforma da cristianidade. A ênfase de Steiner em Maitreya e Shambhala como as verdadeiras fontes da reforma cristã no futuro provavelmente também refletem o seu desânimo com a promoção teosofista de Krishnamurti como o novo salvador.

[Ver: Guerras Santas no Budismo e no Islão: O Mito de Shambhala.]

Os textos de Kalachakra nem sequer mencionam os ensinamentos do cristianismo. Contudo, indicam métodos para que os hindus e os muçulmanos possam descobrir significados alternativos das doutrinas das suas próprias religiões, que os permitiriam formar uma fronte espiritual unida com budistas para enfrentarem os terrores de uma invasão. Eles até salientam ensinamentos dados pelo Buda que paralelizam algumas das asserções muçulmanas e hindus. Se os seguidores daquelas religiões estivessem interessados, eles poderiam usar as suas próprias crenças como passos para alcançar o caminho budista. Todavia, os textos de Kalachakra não afirmam que os ensinamentos budistas contêm o verdadeiro significado do hinduísmo ou do islão. Nem afirmam de modo nenhum que Shambhala será a fonte da reforma que irá trazer as pessoas de volta às verdadeiras doutrinas dos fundadores dessas duas religiões, muito menos do retorno aos ensinamentos puros de Cristo.

[Ver: Conversão Religiosa em Shambhala.]



Alice Bailey e a "Força de Shambhala"



A teosofista britânica Alice Bailey (1880-1949) era uma médium que afirmou que canalizava e recebia cartas ocultistas de um mestre tibetano. Em 1920, depois de ter perdido a sua batalha contra Annie Besant para a liderança do movimento teosófico, fundou a Lucifer Trust nos Estados Unidos. Chamando originalmente a sua Trust de Tibetan Lodge, mudou o seu nome uma vez mais em 1922 para Lucis Trust. A suas palestras e escritas geraram o movimento Nova Era. Ela chamou a Nova Era tanto a Era de Aquário como a Era de Maitreya.

Em Initiations, Human and Solar [Iniciação Humana e Solar] (1922), Letters on Occult Meditation [Cartas sobre Meditação Oculta] (1922), A Treatise on Cosmic Fire [Um Tratado sobre o Fogo Cósmico] (1925), e A Treatise on White Magic [Um Tratado sobre Magia Branca] (1934), Bailey escreveu extensivamente sobre a "Força de Shambhalla". Como Roerich, ela partiu do princípio que Shambhala era o "assento do Fogo Cósmico", que é uma força purificadora. Contudo, em vez de conceber esta força como um agni benevolente, seguiu a direção de Steiner e associou-a com Lúcifer. Assim, falou dele como uma fonte de poder destrutivo para expulsar formas degeneradas dos ensinamentos e estabelecer a pureza de uma Nova Era.




A força de Shambhala, Bailey explicou, é a energia extremamente volátil da vontade do eu. Em si, é extremamente destrutiva e pode ser a origem do "Mal". No entanto, quando vista como a Vontade Divina, os iniciados podem utilizá-la para o "Bem" último. Uma "Hierarquia" em Shambhala, dirigida por Maitreya, protege a Força e, na altura certa, irá iniciar os que estiverem prontos nos " Mistérios das Eras", no "Plano". Ficamos curiosos de saber se as suas idéias inspiraram a visão da " Força" na Guerra nas Estrelas, como um poder que pode ser utilizado para o bem ou para o mal, e que é protegido por uma irmandade de Cavaleiros de Jedi.

Como Steiner, Bailey adaptou o conceito não só de Lúcifer, mas também do Anticristo, e desta vez associou-o com a Força de Shambhala. Apropriando conceitos teosóficos, disse que a Força de Shambhala tinha tornado a sua presença conhecida duas vezes antes na história. A primeira vez foi durante a Era lemuriana, anunciando a individualização da humanidade. A Segunda foi "durante a época atlântica de conflito entre os Senhores da Luz e os Senhores da Forma Material, as Forças da Escuridão". Hoje em dia, ela continuou, - referindo-se ao período entre as duas guerras mundiais –, está-se a manifestar como a força para destruir o que é indesejável e obstrutivo nas formas de governo, religião e sociedade no mundo.


Doreal e a Irmandade do Templo Branco


Os ensinamentos de Bailey produziram vários movimentos ocultistas adicionais que associaram Shambhala com idéias ainda mais esotéricas. Um exemplo é o da Irmandade do Templo Branco, fundada em 1930 pelo espiritualista americano Morris Doreal (1902-1963). Em Maitreya, Lord of the World [Maitreya, Senhor do Mundo], Doreal escreveu que Shamballa (Shambhala) é o Grande Templo Branco do Tibete, situado 75 milhas debaixo dos Himalaias. A sua entrada é subterrânea, com espaço em redor dela curvado em uma deformação que conduz a outro universo. Descreveu Shambhala como tendo duas metades. A metade do sul é a seção onde os aptos e os grandes gurus vivem. A metade do norte é o reino onde Maitreya, o avatar ou o professor do mundo, vive. No futuro, Maitreya virá com os guerreiros de Shambhala, que são os "portadores de luz da Era de Aquário", conquistar as forças escuras do mal no mundo.

O trabalho principal de Doreal foi The Emerald Tablets of Thoth the Atlantean [Tábuas das Esmeraldas de Thoth, o Atlante], que afirmou ter descoberto em baixo da Grande Pirâmide no Egito e ter traduzido da língua Atlante. Afirmou também ter recebido iniciações secretas dos monges tibetanos.



Haushofer, a Sociedade de Thule e a Alemanha Nazista



Após a Segunda Guerra Mundial, Bailey explicou a política nazista afirmando que Hitler tinha apropriado a Força de Shambhala e, como um "instrumento das forças da escuridão", tinha abusado dela para combater a "Energia da Luz".

Semelhante às asserções de Bailey da ligação entre Hitler e a Força de Shambhala, diversos estudos do pós-guerra sobre o nazismo e o ocultismo asseveraram que os nazistas enviaram expedições ao Tibete para procurar a ajuda das forças de Shambhala e de Agharti para executar o seu Plano Mestre. Bailey, todavia, apenas mencionou Shambhala neste contexto e não disse nada sobre Agharti. Estes relatos, por outro lado, alegam que os mestres de Shambhala recusaram-se a ajudar as expedições nazistas, mas que os seguidores de Agharti concordaram e voltaram para a Alemanha com eles.

Além disso, atribuem a busca nazista de apoio ocultista no Tibete às convicções de Karl Haushofer e da Sociedade de Thule. Haushofer foi o fundador da Sociedade de Vril em associação com a Sociedade de Thule e teve uma enorme influência nos pensamentos ocultistas de Hitler. As sociedades de Thule e de Vril combinaram crenças de várias fontes. Vamos traçar concisamente algumas destas crenças, em ordem cronológica, antes de examinarmos estes estudos do pós-guerra.

Os gregos da antiguidade escreveram não só sobre as desaparecidas ilhas Atlântidas, mas também de Hiperbórea, uma terra nórdica cujo povo migrou para o sul antes do gelo a ter destruído. Olaf Rudbeck, o autor sueco dos finais do século XVII situou-a no Pólo Norte e vários outros relatos explicaram que antes da sua destruição, quebrou-se nas ilhas de Thule e de Ultima Thule.

O astrôónomo britânico Sir Edmund Halley, também nos finais do século XVII, promoveu a teoria de que a terra é oca. O escritor francês Júlio Verne popularizou a idéia em Voyage to the Center of the Earth [Viagem ao Centro da Terra] (1864). Em 1871, o escritor britânico Edward Bulwer-Lytton, em The Coming Race [A Raça Futura], descreveu uma raça superior, os Vril-ya, que viveu debaixo da terra e planeou conquistar o mundo com vril, uma energia psicocinética. Em Les Fils de Dieu [Os Filhos de Deus] (1873), o autor francês Louis Jacolliot ligou o vril com o povo subterrâneo de Thule. O defensor da liberdade indiano, Bal Gangadhar Tilak, em The Arctic Home of the Vedas (1903), identificou a migração ao sul do povo de Thule com a origem da raça ariana. Em 1908, o autor americano Willis George Emerson publicou o seu livro The Smokey God, or A Voyage to the Inner World [O Deus Esfumaçado, Viagem ao Mundo Interior], que descreve a viagem de um marinheiro norueguês através de uma abertura no Pólo Norte a um mundo escondido dentro da Terra.




A Sociedade de Thule foi fundada em 1910 por Felix Niedner, o tradutor alemão dos nórdicos Eddas. Identificou o povo germânico com a raça ariana, os descendentes de Thule, e procurou a sua transformação em uma super-raça através da utilização do poder do vril. Como parte do seu emblema, tinha a suástica, um símbolo tradicional para Thor, o nórdico Deus dos Relâmpagos. Ao fazê-lo, a sociedade de Thule seguiu o precedente de Guido von List que, nos finais do século XIX, fez da suástica um emblema para o movimento neo-pagão na Alemanha.

Juntamente com Jorg Lanz von Liebenfels e Phillip Stauff, von List tinha sido proeminente na fundação do movimento ariosofista, popular antes e durante a Primeira Guerra Mundial. A ariosofia combinou o conceito de raças da teosofia com o nacionalismo alemão para asseverar a superioridade da raça ariana como justificação para a Alemanha conquistar os impérios coloniais globais dos ingleses e franceses como o justo regente das raças inferiores. A Sociedade de Thule abraçou as convicções da ariosofia.

No entanto, deve-se notar que o movimento teosófico nunca pretendeu que os seus ensinamentos sobre raças fossem usados como uma justificação para afirmar a superioridade de uma raça sobre outra, ou o direito destinado de uma raça para governar as outras.

Quando Rudolf Freiherr von Sebottendorf estabeleceu a filial da Sociedade de Thule em Munique em 1918, adicionou o anti-semitismo e o uso sancionado do assassinato aos credos da sociedade. Tinha aprendido estes elementos durante os seus anos na Turquia através do seu contato lá com a Ordem dos Assassinos. Esta ordem secreta pode ser traçada à seita Nazari de Ismaili Islam [dos muçulmanos ismaili] contra quem as Cruzadas tinham lutado.

Mais tarde em 1918, depois da Revolução Comunista bavariana, o anti-comunismo juntou-se também ao conjunto de objetivos da Sociedade de Thule. Em 1919, a Sociedade de Thule de Munique fundou o Partido Alemão dos Trabalhadores. Hitler juntou-se a ele nesse mesmo ano e, tornando-se seu líder em 1920, deu-lhe o novo nome de Partido Nazista e adotou a suástica para a sua bandeira.

Karl Haushofer era um conselheiro militar alemão ao Japão após a Guerra Russo-Japonesa de 1904-1905. Ficou extremamente impressionado pela cultura japonesa, estudou a língua, e tornou-se mais tarde instrumental no estabelecimento da aliança entre a Alemanha Nazista e o Japão Imperial. Ele também aprendeu sânscrito e supostamente estudou no Tibete durante um ano. Fundou a Sociedade de Vril em Berlim em 1918, que além aos credos da Sociedade de Thule, também promovia a procura do vril entre seres sobrenaturais debaixo da terra. O local mais provável seria o Tibete, que ele via como a terra natal dos emigrantes arianos de Thule.

Haushofer também desenvolveu a geopolítica, de acordo com a qual uma raça obtém o poder expandindo seu espaço vital (Alemão: Lebensraum) através da conquista das suas terras vizinhas. Nos finais da década de 1920, Haushofer dirigiu o Instituto de Geopolítica em Munique e a partir de 1923 começou a ensinar as suas perspectivas a Hitler. Haushofer foi instrumental em convencer Hitler a estabelecer o Ahnenerbe (Departamento para o Estudo da Herança Ancestral) em 1935. A sua tarefa principal era situar as origens da raça ariana, especialmente na Ásia central. Em 1937, Himmler incorporou este departamento nos SS (Alemão: Schutzstaffel, Equipe de Proteção).

Em 1938-1939, o Ahnenerbe patrocinou a terceira expedição de Ernst Schäffer ao Tibete. Durante a sua breve estadia, o antropólogo Bruno Beger mediu os crânios de numerosos tibetanos e concluiu que eram uma raça intermediária entre os arianos e os mongóis e podiam servir como um elo para a aliança Alemã-Japonêsa.

[Para maior detalhe, veja: A Ligação Nazista com Shambhala e o Tibete.]



A Busca Nazista de Shambhala e Agharti de acordo com Pauwels, Bergier e Frére



Um número de eruditos questionou a exatidão dos estudos pós-guerra sobre o nazismo e o ocultismo. Seja que representem exatamente ou não o pensamento nazista durante o Terceiro Reich, ainda assim representam mais uma distorção popularizada da lenda de Shambhala.

Deixem-nos examinar duas versões ligeiramente diferentes.

De acordo com a versão encontrada em Le Matin des Magiciens (A Manhã dos Mágicos) (1962) pelos investigadores franceses Louis Pauwels e Jacques Bergier e em Nazisme et Sociétiés Secretès (Nazismo e Sociedades Secretas) (1974) por Jean-Claude Frére, Haushofer acreditava que dois grupos de arianos migraram de Hiperbórea-Thule para o sul. Um foi para Atlântida, onde se mesclaram com os lemurianos que tinham também para lá migrado. Recordem que Blavatsky tinha associado os lemurianos com Atlântida e Shambhala, e Bailey tinha associado os lemurianos e os atlantes com a Força de Shambhala. Os descendentes destes arianos impuros voltaram-se para a magia negra e conquista. O outro ramo dos arianos migrou para o sul, passando através da America do Norte e Eurásia setentrional, alcançando finalmente o Deserto de Gobi. Lá, fundaram Agharti, cujo mito tinha-se tornado popular através das escritas de Saint-Yves d' Alveidre.

De acordo com Frére, a Sociedade de Thule igualou/comparou Agharti com seu cognado Asgaard, o domicílio dos deuses na mitologia nórdica. Outros afirmam, menos convincentemente, que Agharti está relacionado com Ariana, um antigo nome persa conhecido pelos gregos da antiguidade para a região que se estende do Irão Oriental através do Afeganistão a Uzbequistão – a terra natal dos arianos.

Depois de um cataclismo mundial, Agharti afundou-se debaixo da terra. Isto concorda com o relato de Ossendowski. Os arianos dividiram-se então em dois grupos. Um foi para o sul e fundou um centro secreto de aprendizagem sob os Himalaias, também chamado Agharti. Lá, eles preservaram os ensinamentos da virtude e do vril. O outro grupo ariano tentou retornar a Hiperbórea-Thule, mas em vez disso fundou Shambhala, uma cidade de violência, de maldade e de materialismo. Agharti era possessor do Caminho da Direita e do vril positivo, enquanto que Shambhala era custódio do pervertido Caminho da Esquerda e da energia negativa.

A divisão entre os caminhos da direita e da esquerda já tinha aparecido em A Doutrina Secreta de Blavatsky. Lá, ela escreveu que na época dos atlantes, a humanidade ramificou em caminhos de conhecimento da direita e da esquerda, que se tornaram as origens da magia branca e negra. Contudo, não associou os dois caminhos a Agharti e Shambhala. De fato, nunca mencionou Agharti nas suas escritas. As expressões caminhos da direita e da esquerda derivam de uma divisão dentro do tantra hindu. Os primeiros escritores ocidentais caracterizaram frequentemente o tantra da esquerda como uma forma degenerada e identificaram-no incorretamente com o budismo tibetano e seus ensinamentos do anuttarayoga tantra.

De acordo com Pauwels e Bergier, a Sociedade de Thule procurou contatar e fazer um pacto com Shambhala, mas somente Agharti concordou oferecer ajuda. Por 1926, estes autores franceses explicaram, já haviam colonias de hindus e de tibetanos em Munique e em Berlim, chamadas a Sociedade de Homens Verdes, ligados astralmente com a Sociedade do Dragão Verde no Japão. Pertencer a esta última requeria o ritual de suicidio japonês (Jap: hara-kiri, seppuku) se a pessoa perdesse a honra. Supostamente Haushofer tinha-se juntado à sociedade durante os seus primeiros anos no Japão. O líder da Sociedade de Homens Verdes era um monge tibetano, conhecido como "o homem com luvas verdes", que supostamente visitava Hitler frequentemente e possuía as chaves de Agharti.

Expedições ao Tibete seguiram-se anualmente, de 1926 a 1943. Quando os russos entraram em Berlim no fim da guerra, encontraram quase mil cadáveres de soldados da raça himalaia, vestidos em uniformes nazistas mas sem papéis de identificação, que tinham cometido suicídio.
O próprio Haushofer cometeu hara-kiri antes que pudesse ser julgado em Nürenberg em 1946.



A Busca Nazista de Shambhala e Agharti de acordo com Ravenscroft



Um relato ligeiramente diferente da busca nazista de Shambhala e Agharti apareceu em The Spear of Destiny [A Lança do Destino] (1973) pelo investigador britânico Trevor Ravenscroft. De acordo com esta versão, a Sociedade de Thule acreditava que duas seções dos arianos voltaram-se para a adoração de duas forças malévolas. A sua volta para o mal causou o declínio de Atlântida e, subsequentemente, os dois grupos estabeleceram comunidades em cavernas nas montanhas submersas debaixo do Oceano Atlântico perto da Islândia. A lenda de Thule surgiu deles. Um grupo de arianos seguiu o Oráculo Luciférico, chamado Agarthi (Agharti), e praticou o caminho da esquerda. O outro grupo seguiu o Oráculo Arimânico, chamado Schamballah (Shambhla), e praticou o caminho da direita.

Notem que Ravenscroft relatou o oposto das asserções de Pauwels, Bergier e Frére que Agharti seguiu o caminho da direita e Shambhala o da esquerda.

Ravenscroft também explicou que de acordo com a "doutrina secreta" - fazendo alusão ao livro de Blavatsky pelo mesmo nome - que apareceu no Tibete há dez mil anos, Lúcifer e Ahriman são as duas forças do Mal, os dois grandes adversários da evolução humana. Lucifer leva as pessoas a verem-se como deuses e está associado à fome pelo poder. Seguir Lúcifer pode conduzir ao egoísmo, ao falso orgulho e ao abuso dos poderes mágicos. Ahriman empenha-se em estabelecer um reino puramente material na terra e usa o desejo sexual perverso das pessoas em ritos de magia negra.

Recordem que embora Blavatsky tivesse escrito sobre Lúcifer e Ahriman, ela não fez dos dois um par e não associou nenhum dos dois com Shambhala ou Agharti. Além disso, Blavatsky explicou que embora a erudição latina tenha transformado Lúcifer num Satanás puramente maléfico, Lúcifer tinha o poder de destruir e de criar. Ele representava a presença portadora de luz na mente de todos que podia elevar as pessoas do animalismo e causar uma transformação positiva para um plano mais elevado de existência.

Foi Steiner que tinha enfatizado Lúcifer e Ahriman como representando os dois pólos do poder destrutivo. Todavia, Steiner descreveu Lúcifer como a força destrutiva fundamentalmente benevolente para a regeneração, e Ahriman como totalmente malévolo. Além disso, Steiner associou Lúcifer com Shambhala e não com Agharti e, de fato, como Blavatsky e Bailey, nunca mencionou Agharti. E mais, nenhum dos três autores ocultistas descreveu Shambhala como situado no subterrâneo. Somente os Roerichs tinham associado Shambhala com a cidade subterrânea de Agharti, mas tinham esclarecido que os dois eram diferentes e nunca afirmaram que Shambhala era subterrânea.

Ravenscroft, como Pauwels, Bergier e Frére, também afirmou que através da iniciativa de Haushofer e de outros membros da Sociedade de Thule, equipes exploratórias foram enviadas ao Tibete anualmente de 1926 a 1942 para estabelecer contato com comunidades das cavernas subterrâneas. Deveriam convencer os mestres de lá a alistar a ajuda dos poderes luciféricos e arimânicos a promover a causa nazista, especialmente para a criação de uma super-raça ariana.

Os aptos de Shambhala recusaram-se a ajudar. Como seguidores do Oráculo Arimânico, estavam apenas interessados em promover o materialismo. Além disso, Shambhala já se tinha afiliado a certos grupos na Grã Bretanha e nos Estados Unidos. Isto era talvez uma referência a Doreal, cuja Irmandade do Templo Branco na América tinha sido o primeiro movimento ocultista de importância a afirmar que Shambhala era uma cidade subterrânea. Além disso, este relato também se encaixa bem com o desdém de Haushofer pela ciência materialística ocidental, à qual chamava "Ciência Judaica-Marxista-Liberal" a favor da "Ciência Nórdica-Nacionalística".

Ravenscroft prosseguiu dizendo que os mestres de Agharti concordaram ajudar a causa nazista e, a partir de 1929, grupos de tibetanos vieram à Alemanha, onde se tornaram conhecidos como a Sociedade de Homens Verdes. Juntamente com membros da Sociedade do Dragão Verde do Japão, estabeleceram escolas ocultistas em Berlim e em outros lugares. Notem que Pauwels e Bergier afirmaram que colonias não só de tibetanos, mas também de hindus estavam presentes em Berlim e em Munique desde 1926, e não só desde 1929.

Himmler foi atraído a estes grupos de mestres tibetanos-agharti e, de sua influência, estabeleceu o Ahnenerbe em 1935. Recordem que Himmler não estabeleceu o Ahnenerbe, mas que o incorporou nos SS em 1937.



Uma Teoria Para Explicar o Sentimento Anti-Shambhala e a Inclinação Pró-Agharti dos Movimentos Ocultistas Alemães


É difícil verificar se Haushofer e a Sociedade de Thule afirmaram realmente quaisquer dos pontos acima , que misturam descrições ocultistas de Shambhala com a descrição de Ossendowski a respeito de Agharti e com as lendas de Thule e vril. É também difícil verificar se Haushofer tentou e teve sucesso em influenciar Hitler e instituições nazistas oficiais, tais como o Ahnenerbe, para enviar expedições ao Tibete para obter ajuda das duas supostas terras subterrâneas - ou mesmo se a própria Sociedade de Thule enviou tais expedições. A única missão ao Tibete sancionada oficialmente pelo Ahnenerbe – a Terceira Expedição Tibetana (1938-1939) de Ernst Schäffer - teve sem dúvida um propósito diferente, embora igualmente ocultista. Seu objetivo principal era medir os crânios dos tibetanos para determinar se eram a origem dos arianos, e se eram uma raça intermediária entre os arianos e os japonêses.

Com exceção de certos erros e contradições factuais entre os dois relatos de Haushofer acima e o credo da Sociedade de Thule, dois pontos de consenso parecem significativos.

Primeiro, Steiner e Bailey associaram com Shambhala o poder regenerativo de destruir ordens obsoletas e de estabelecer novas ordens reformadas. Eles representaram este poder fundamentalmente benevolente com Lúcifer. Haushofer e a Sociedade de Thule, por outro lado, supostamente associaram Lúcifer e este poder benevolente com Agharti. Para eles, Shambhala tornou-se uma terra de poder destrutivo completamente malévolo, representada por Ahriman e pelo materialismo descontrolado.

Segundo, embora a Sociedade de Thule e os nazistas tivessem primeiro procurado a ajuda de Shambhala, representando o caminho malévolo do materialismo, foram recusados. Em vez disso, receberam o apoio de Agharti, representando o caminho fundamentalmente positivo de destruição dos fracos e da criação da Raça Mestra como o próximo passo em frente na evolução humana.

Vamos deixar de lado, por um momento, a pergunta se a Sociedade de Thule e o Ahnenerbe realmente enviaram missões ao Tibete procurando a ajuda de Shambhala e de Agharti. No entanto, deixem-nos supor, também por um momento, que Haushofer tenha realmente misturado as lendas de Shambhala e Agharti com as convicções da Sociedade de Thule e que a mistura resultante representava a posição ocultista nazista. Se esse fosse o caso, então a seguinte teoria para explicar a asserção que Shambhala rejeitou a abordagem nazista, enquanto que Agharti a aceitou faria sentido .

Com Dorjiev, Shambhala foi associada com a Rússia e mais tarde também com o comunismo, enquanto que com Ossendowski, Agharti foi associada com as forças anti-semíticas e anticomunistas do Barão alemão von Ungern-Sternberg. Desde a Revolução Comunista bavariana de 1918, a Sociedade de Thule e o Hitler eram fervorosamente anticomunistas. Antes disto, ambos já eram antisemíticos. Assim, em seus olhos, Shambhala era uma força escura e negativa que suportava a "ciência Judaica-Marxista-Liberal" totalmente materialística. Com esta forte atitude anticomunista, Hitler assinou o Pacto Anti-Commintern com o Japão em Novembro de 1936, em que ambos os países declararam a sua hostilidade mútua em relação à propagação internacional do comunismo. Ambos concordaram que não iriam assinar quaisquer tratados políticos com a União Soviética. Não obstante, para evitar uma guerra européia em duas frontes, Hitler assinou o Pacto Nazi-Soviético com Stalin em Agosto de 1939. Contudo, ele quebrou este pacto em Junho de 1941, quando as forças nazistas invadiram a União Soviética.

Uma explanação e justificação ocultista da reviravolta de Hitler pode ser feita através de uma alegoria. Shambhala (a União Soviética, o comunismo e os judeus) era fundamentalmente malévola (reconhecido pelo Pacto Anti-Commintern). Apesar disso, Hitler procurou primeiro uma aliança com ele (o Pacto Soviético-Nazista). Shambhala recusou (Hitler culpou a União Soviética por ter quebrado o pacto). Hitler virou-se então para Agharti, de onde recebeu apoio. (Ungern, um alemão antisemítico e antibolchevique, tinha também previamente procurado ajuda de Agharti, mas não tinha conseguido situar o legendário reino. Assim, Ungern tinha falhado na sua missão. Dado que as expedições de Hitler tinham encontrado Agharti-Asgaard e tinham recebido sua ajuda, os nazistas iriam certamente suceder).


Evidência que Suporta a Teoria


Os fatos seguintes suportariam a teoria acima , que explica a descrição ocultista alemã de Shambala como sendo uma terra de forças malévolas. Em Der Weg nach Shambhala (The Way to Shambhala) [O Caminho a Shambhala] (1915), o explorador alemão da Ásia central, Albert Grünwedel, relatou que Dorjiev tinha identificado a Dinastia dos Romanov como os descendentes dos regentes de Shambhala.

Em Sturm über Asien (Storm over Asia) [Tempestade sobre Ásia] (1924), o espião alemão Wilhelm Filchner ligou a causa soviética da conquista da Ásia central com o interesse dos Romanov pelo Tibete desde o começo do século. Em 1926, os Roerichs entregaram terra, supostamente dos mahatmas do Tibete, a Chicherin, o Ministro do Estrangeiro soviético, para colocar na sepultura de Lenin. Helena Roerich referiu tanto a Marx como a Lenin como sendo mahatmas e afirmou que os emissários dos mahatmas dos Himalaias se tinham até encontrado com Marx na Inglaterra e Lenin na Suíça. Os mahatmas suportavam os ideais comunistas de irmandade universal.

Em "Aus den letzten Jahrzehnten des Lamaismus in Russland (Concerning the Last Decades of Lamaism in Russia)" [A Respeito das Últimas Décadas de Lamaísmo na Rússia] (1926), o erudito alemão W.A.Unkrig citou o livro de Filchner e repetiu o relatório de Grünwedel a respeito de Dorjiev, dos Romanovs e de Shambhala. Relatou também a cerimónia no templo budista em São Petersburgo para comemorar o aniversário do tricentenário do Império Romanov. Advertindo contra a influência deste templo e contra uma aliança da União Soviética, Mongólia e Tibete, Unkrig terminou o seu artigo com a citação em latim, "Domine, libera nos a Tartaris (Deus, salva-nos dos Tártaros)". Isto encaixa bem com a geopolítica de Haushofer e a sua recomendação de quea Alemanha conquiste espaço vital na Ásia central, a terra natal da raça ariana.

Já em 1910, Steiner estava ensinando em Berlim e em Munique acerca de Shambhala como sendo o reinado de Maitreya, o Anticristo que virá livrar o mundo de ensinamentos espirituais pervertidos. Tiere, Menschen und Götter (Bestas, Homens e Deuses), a popular tradução alemã do livro de Ossendowski, apareceu em 1923. Introduziu Agharti como uma fonte de poder que o Barão von Ungern-Sternberg procurou para apoio na sua batalha contra o líder comunista mongol Sukhe Batur, que estava mobilizando as suas tropas com estórias de Shambhala. Recordem que a Sociedade de Thule identificou Agharti com Asgaard, a casa dos deuses nórdicos arianos.



Durante a primeira metade da década de 1920, uma suposta "guerra ocultista" ocorreu entre as Sociedades Ocultistas e os Grupos Secretos na Alemanha. Em 1925, Steiner foi assassinado e muitos suspeitaram que a Sociedade de Thule tivesse ordenado o seu assassinato. Anos depois, Hitler continuou a perseguição dos antroposofistas, teosofistas, maçons livres e rosa cruzes. Vários eruditos atribuem esta política ao desejo que Hitler tinha de eliminar quaisquer rivais ocultistas ao seu governo. Steiner, por exemplo, tinha patrocinado a tradução alemã do livro de Bulwer-Lytton sobre vril, The Coming Race [A Raça Futura], sob o título alemão mais explícito Vril, oder einer Menschheit der Zukunft (Vril, or the Race of the Future) [Vril, ou A Raça do Futuro]. Além disso, dado que Steiner e a antroposofia falavam de Shambhala como a terra do futuro messias e de benevolência, faz sentido que a Sociedade de Thule e Hitler o descreveriam da maneira oposta, como uma terra de malevolência.

Entre 1929 e 1935, cinco livros pela aventureira francesa Alexandra David-Neel apareceram em tradução alemã, tal como Heilige und Hexe (Mystiques et Magiciens du Thibet, With Mystics and Magicians in Tibet) [Com Místicos e Magos no Tibete]. David-Neel tinha passado muitos anos estudando e viajando no Tibete, e relatou que os mestres de lá tinham poderes extrafísicos que lhes permitiam desafiar a gravidade e correr numa velocidade sobre-humana. Consequentemente, a fantasia sobre o Tibete como a terra dos misteriosos poderes mágicos cresceu descontroladamente.

Em 1936, Theodor Illion, um explorador alemão que viajou ao Tibete nos inícios da década de 1930, publicou Rätselhaftes Tibet (In Secret Tibet) [No Tibete Secreto] sob o pseudônimo Theodor Burang. Nele, descreveu também os poderes sobrenaturais que os mestres tibetanos possuíam. No seu segundo livro, Finsternis über Tibet (Darkness over Tibet) [Escuridão sobre o Tibete] (1937), descreveu ter sido conduzido a uma cidade subterrânea no "Vale do Mistério", onde "uma Fraternidade Oculta" canalizou energia espiritual para obter poder. O seu regente era o Príncipe Mani Rimpotsche. Embora este "Príncipe da Luz" fingisse ser um regente benevolente, era na verdade o líder de um culto malévolo, um "Príncipe da Escuridão". Illion nunca mencionou Shambhala, mas as suas obras populares também teriam adicionado peso à asserção ocultista nazista de Shambhala como uma terra de mágica malévola.



Evidência Contra a Asserção do Apoio Nazista Oficial dos Credos Ocultistas Alemães acerca de Shambhala


Suponhamos que o movimento ocultista Nazi, como representado pela Sociedade de Thule, usou a alegoria de Shambhala-Agharti para justificar a mudança de política de Hitler em relação à União Soviética. Porém, parece muitíssimo improvável que as instituições nazistas oficiais, tais como o Ahnenerbe, tivessem Shambhala e Agharti nas suas agendas, mesmo nas suas agendas secretas. Vamos examinar a evidência que suportaria essa conclusão.

Hitler tornou-se Chanceler da Alemanha em 1933. No mesmo ano, Sebottendorff, o fundador da filial de Munique da Sociedade de Thule, publicou Bevor Hitler Kam (Before Hitler Came) [Antes da Vinda de Hitler], onde esboçou a dívida de Hitler ao "Thulismo". Hitler depressa proibiu o livro e forçou Sebottendorff a aposentar-se. Embora Hitler promovesse claramente os credos da Sociedade de Thule, ele negava qualquer conexão com movimentos ocultistas. Não queria deixar em aberto a possibilidade do surgimento de rivalidades de quaisquer partes.

Contudo, Haushofer e a Sociedade de Thule não eram as únicas influências atrás-das-cenas no Ahnenerbe. Sven Hedin, o explorador do Tibete sueco e favorito dos nazistas, também desempenhou um papel significativo. Entre 1922 e 1944, escreveu vários livros populares em alemão sobre as suas viagens ao Tibete, tal como Tsangpo Lamas Wallfahrt (The Pilgrimage of the Tsangpo Lamas) [A Peregrinação dos Lamas Tsangpo] (1922). Diversos outros foram traduzidos do inglês para o alemão, tal como My Life as an Explorer (1926) (Alemão: Mein Leben als Entdecker, 1928) [Minha Vida como um Explorador] e A Conquest of Tibet (1934) (Alemão: Eroberungszüge in Tibet, 1941) [Uma Conquista do Tibete]. Além disso, em Ossendowski und die Wahrheit (Ossendowski and the Truth) [Ossendowski e a Verdade] (1925), Hedin desacreditou a asserção de Ossendowski que os lamas mongóis lhe tinham falado de Agharti. Nele, expôs Agharti como uma fantasia extraída da novela de Saint-Yves d' Alveidre de 1886.

Frederick Hielscher, a quem Hitler deu autorização para estabelecer o Ahnenerbe em 1935, era um amigo de Sven Hedin. Além disso, Hitler convidou Hedin a fazer o discurso de abertura dos Jogos Olímpicos em 1936 em Berlim e, em 1937, Hedin publicou Germany and World Peace [Alemanha e Paz Mundial]. De 1939 a 1943, Hedin fez várias missões diplomáticas à Alemanha e continuou as suas atividades publicitárias pró-nazistas. A evidência mais clara da sua influência no Ahnenerbe é o fato que, em 1943, o seu Tibet Institut (Instituto do Tibete) foi rebatizado com o nome de Sven Hedin Institut für Innerasien und Expeditione (Sven Hedin Institute for Inner Asia and Expeditions) [Instituto de Sven Hedin para Ásia Interior e Expedições].

Haushofer foi de fato instrumental no estabelecimento do Ahnenerbe, e em sua agenda ser baseada em muitas das crenças da Sociedade de Thule. Porém, por causa de Hedin, é improvável que o Ahnenerbe tivesse procurado e recebido apoio de Agharti no Tibete. Hedin admitiu que o Tibete fosse um repositório de conhecimento secreto antigo, mas não lhe atribuiu significado ocultista. Nem associou esse conhecimento com Shambhala ou Agharti.

Além disso, parece altamente improvável que grupos de tibetanos estivessem presentes em Berlim e em Munique a partir de 1926 ou de 1929, sob o auspício da Sociedade de Thule. Se esse fosse o caso, então, visto que o Ahnenerbe estava não-oficialmente associado com a Sociedade de Thule, não teria havido necessidade para enviar uma expedição ao Tibete para medir os crânios dos tibetanos. Poderiam ter feito estas medições na Alemanha. Assim, a asserção que a Sociedade de Thule patrocinava viagens anuais ao Tibete entre 1926 e 1942 também parece altamente questionável.


A Conexão Calmuque


O relatório por Pauwels e Berger que no fim da guerra, os russos encontraram em Berlim um grande número de cadáveres de soldados de raça Himalaia, vestidos em uniformes nazistas, que tinham cometido suicídio, também precisa ser posto à prova. A implicação não-falada é que os russos encontraram os cadáveres dos adeptos Tibetanos-Agharti que estavam ajudando a causa nazista e que, como Haushofer, cometeram o suicídio ritual.

Primeiro, o hara-kiri era um costume japonês dos samurais, que muitos soldados japoneses na Segunda Guerra Mundial seguiram para evitar a captura. Os seguidores do budismo tibetano, contudo, consideram o suicídio um ato extremamente negativo com consequências terríveis em vidas futuras. Nunca é justificável.

O relatório atribui incorretamente costumes japoneses aos tibetanos. Segundo, quaisquer soldados de origem Himalaia encontrados em uniforme nazista seriam muito provavelmente mongóis da Cálmúquia, e não tibetanos. E mais, os calmuques lutarem no exército alemão não prova que apoiavam a ideologia nazista; e ademais também não prova que apoiava suas crenças no budismo tibetano.

Deixem-nos examinar os fatos históricos, suplementando-os com informação obtida de entrevistas com calmuques vivendo em Munique, Alemanha, que tinham participado em muitos dos eventos descritos abaixo.

Os mongóis da Calmúquia são praticantes da forma tibetana de budismo e têm uma longa história de associação com alemães. Um grande grupo deles migrou para o oeste da região Dzungaria do Turquistão Oriental entre 1609 e 1632. Estabeleceram-se na Rússia ao longo do Baixo Volga, onde (este rio) desemboca no mar Cáspio. Lá, continuaram o seu modo de vida nomade seguindo a gado.

Em 1763, a Czarina Catarina II a Grande convidou quase trinta mil alemães a estabelecerem-se na região do Volga ao norte dos calmuques. Queria que eles cultivassem a terra fértil e a protegessem dos "tártaros". Tentou forçar o cristianismo e a agricultura aos calmuques, fazendo com que muitos fugissem de volta a Dzungaria em 1771. Por fim, porém, aqueles que permaneceram na Rússia foram aceitos, especialmente porque que eram soldados excelentes. Durante as Guerras napoleonicas (1812-1815), por exemplo, o exército russo teve um regimento calmuque. Durante o século seguinte, os soldados calmuques estiveram em destaque em divisões por todo o Exército Czarista.

Embora os estilos de vida e os costumes dos alemães agrários do Volga e dos calmuques nomades seguidores de gado fossem bastante diferentes, estes vizinhos chegaram gradualmente a respeitar uns aos outros. Os alemães, de fato, mostrarram interesse nos calmuques. Já em 1804, Benjamin Bergmann publicou um trabalho de quatro volumes sobre a sua língua e religião, intitulado Nomadische Streifereien unter der Kalmüken in den Jahre 1802 und 1804 (Nomadic Migrations among the Kalmyks in the Year 1802 and 1804) [Migrações Nómades entre os Calmuques no ano 1802 e 1804]. Sven Hedin passou pela Calmúquia numa das suas primeiras expedições a Dzungaria e expressou grande admiração pelo seu povo.

Depois da Revolução Comunista em 1917, muitos calmuques permaneceram leais às forças Czaristas e continuaram a lutar no lado Russo Branco, especialmente sob os generais Vrangel e Deniken. Antes de o Exército Vermelho ter chegado à península da Criméia no final de 1920, cerca de vinte famílias calmuques fugiram através do Mar Negro com Vrangel e estabelecendo-se em Varsóvia na Polônia e em Praga, na Tchecoslováquia. Um número muito maior saiu com o Deniken, com a maioria estabelecendo-se em Belgrado, na Sérvia, e números menores em Sofia na Bulgária e em Paris e Lyon na França. Os refugiados calmuques em Belgrado construíram lá um templo budista em 1929. Os comunistas puniram severamente os calmuques que ficaramatrás, decapitando dez mil.

Em 1931, Stalin coletivizou os calmuques, fechou os mosteiros budistas e queimou os textos religiosos. Deportou para a Sibéria todos os monges e todos os seguidores de gado que possuíam mais de quinhentos carneiros. Em parte devido à política de coletivização de Stalin, rompeu-se uma grande fome de 1932 a 1933. Aproximadamente sessenta mil calmuques morreram.

Depois de Hitler ter invadido a União Soviética em Setembro de 1941, Goebbels convidou vários calmuques proeminentes de Belgrado, Paris e Praga a Berlim para ajudarem com uma campanha de propaganda. Os nazistas desejavam obter o apoio dos calmuques para o lado alemão contra os Russos e nunca mandaram nenhuns dos que estavam sob o seu domínio para os campos de concentração. Assim, Goebbels organizou este núcleo em um comitê para livrar os calmuques do regime comunista. Nesta conexão, ajudou-lhes a imprimir um jornal na língua calmuque e usou-os para transmitir notícias no rádio em calmuque dirigidas a Calmúquia.

Quando a 16a Divisão Panzer nazista sob Field Marshal Mannstein conquistou a Calmúquia nos inícios de 1942, foram acompanhados por três membros deste comitê. Varios calmuques de Belgrado também participaram na invasão, tendo-se juntado ao exército alemão após a ocupação nazista da Sérvia em Abril de 1941. O povo da Calmúquia saudou o exército alemão com manteiga e leite, a oferta tradicional para dar as boas-vindas a convidados, como libertadores do regime opressivo de Stalin. Os alemães disseram que iriam desmontar as coletivas e que iriam dividir e privatizar a terra. Permitiram que os calmuques praticassem o budismo uma vez mais. Em resposta, os calmuques exumaram os textos religiosos que tinham enterrado para sua preservação e construíram um templo provisório. Em Novembro e em Dezembro de 1942, contudo, o exército vermelho retomou a Calmúquia e destruiu tudo que as pessoas tinham reconstruído.

As tropas alemãs convidaram os calmuques a recuarem e a continuarem a luta com eles. Cerca de cinco mil juntaram-se às forças armadas nazistas, formando o Corpo de Cavalaria Voluntário Cálmuco. Somente algumas mulheres e crianças os acompanharam. As tropas calmuques lutaram com o exército nazista atrás das linhas, especialmente em torno do mar de Azov. A maioria da população calmuque, no entanto, permaneceu em Calmúquia. Em Dezembro de 1943, Stalin declarou-os todos colaboradores dos alemães e deportou a todos para a Sibéria. Só regressaram durante a era de Khruschev, entre 1957 e 1960.

No início do outono de 1944, face à iminente invasão russa da Sérvia, muitos calmuques de Belgrado fugiram para Munique, na Alemanha, para evitar a perseguição comunista. Foram acompanhados por vários monges e um professor budista erudito. No final de 1944, as tropas da cavalaria calmuque que sobreviveram na Rússia, juntamente com as suas famílias, retraíram com o exército alemão. Cerca de dois mil foram para Silésia, na Polónia e quinhentos para Zagrebe, na Croácia, onde foram re-organizados para lutar contra os adversários.

Assim, embora vários calmuques estivessem na Alemanha e nos territórios conquistados pelos nazistas nos meses finais da guerra, apenas alguns estavam na área de Berlim, ainda engajados em trabalho propagandista. Os soldados calmuques em uniformes nazistas estavam na Polônia e na Croácia, e não na Alemanha. Embora vários monges calmuques fizessem rituais budistas nas barracas e casas calmuques no território dominado pelos nazistas, eles rezavam pela paz e pelo bem-estar de todos os seres. Não havia nenhun tibetano entre eles, e eles não conduziram ceremonias "ocultas" para uma vitória nazista, como alguns relatos ocultistas pós-guerra relatam.

Após a guerra, os calmuques que estavam em países da Europa Ocidental foram enterrados em acampamentos para pessoas desalojadas na Áustria e na Alemanha, especialmente na área de Munique. Liberados em 1951, estabeleceram-se primeiro em Munique. Mais tarde nesse ano, a Fundação de Anna Tolstoy realojou a maioria deles em New-Jersey, EUA. Tito entregou os que estavam na Sérvia aos soviéticos, que prontamente os deportaram para a Sibéria.


Asserções Pós-guerra sobre Shambhala e Discos Voadores


Interpretações ocultistas de outras atividades nazistas, associando-as com Shambhala, também apareceram após a guerra. Por exemplo, uma expedição alemã de 1939 a Antártica, conduzida pelo capitão Alfred Ritscher, mapeou um quinto do continente, reivindicou-o para a Alemanha e nomeou-o Neu-Schwabenland. Outras expedições nazistas a Antártica e a atividade naval no Atlântico Sul continuaram até ao fim da guerra.

Nos finais da década de 1950, separadamente, Henrique Jose de Souza, o presidente da Sociedade Teosófica Brasileira naquela época, propôs uma nova teoria da terra oca. Dentro da terra encontra-se Agharti, com a sua capital Shambhala, que seria a origem dos discos voadores que emergeriam à superfície através de túneis no pólo norte e no pólo sul. Assim, a Sociedade Teosófica Brasileira construiu como sua sede, em São Lourenço, Minas Gerais, um templo de estilo grego dedicado a Agharti. O.C. Hugenin, um estudante de de Souza, popularizou a teoria do seu mentor em From the Subterranean World to the Sky: Flying Saucers [Do Mundo Subterrâneo ao Céu: Discos Voadores] (1957). R.W. Bernard, no seu livro de 1964 The Hollow Earth [A Terra Oca], disse que os discos voadores de Shambhala em Agharti estavam sob a terra, saindo através de túneis secretos sob os Himalaias no Tibete.

Com base nas expedições nazistas à Antártica Nazi e nos relatos acima, o ocultista alemão Ernst Zündel escreveu vários livros na década de 1970, incluindo UFO's: Nazi Secret Weapons? [OVNIs: Armas Secretas Nazistas?], afirmando que os nazistas mantinham uma base secreta numa área de lagos de água morna que haviam encontrado na Antártica. Lá, eles teriam escondido a sua arma secreta, OVNIs. Zündel é também conhecido como o proponente mais ardoroso sobre a teoria de que o holocausto na realidade nunca teria acontecido.




A associação de discos voadores com Shambhala deriva do relato da futura guerra apocalíptica alegórica encontrada no comentário The Stainless Light [Luz Imaculada] ao The Abbreviated Kalachakra Tantra [Tantra de Kalachakra Abreviado]. Neste relato, Raudrachakrin, o 25o regente Kalki de Shambhala, virá da sua terra montado num cavalo de pedra com o poder do vento e irá derrotar Mahdi, líder das tropas não-indicas.

Embora Raudrachakrin represente a profunda percepção da vacuidade com o nível mais sutil de atividade mental, e o cavalo de pedra represente o nível mais sutil do vento-energia em que esta percepção cavalga, algumas pessoas interpretaram a imagem como um disco voador vindo de Shambhala.


Conclusão


A história de Kalachakra sobre Shambhala tem ativado as imaginações de muitas figuras políticas estrangeiras e autores ocultistas. Distorcendo a lenda original e interpolando idéias permeadas de fantasia, incorporaram o mito nos artigos que escreveram para servir aos seus próprios propósitos. Atribuir estas distorções à intenção original dos ensinamentos de Kalachakra seria fazer uma injustiça ao budismo. Futuras pesquisas poderão revelar mais sobre estes assuntos.


Fonte-
http://www.berzinarchives.com/web/pt/archives/advanced/kalachakra/shambhala/mistaken_foreign_myths_shambhala.html