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terça-feira, 6 de janeiro de 2009

8 1/2, a experiência meditativa de Fellini



Após ter dirigido seu oitavo filme - um episódio de Boccaccio'70 (A tentação do Dr. Antonio) - Fellini comentou com seu amigo, o roteirista Ennio Flaiano, a intenção de filmar uma história radicalmente subjetiva, conduzida em meio aos sonhos e à imaginação do protagonista. O roteirista, entretanto, cético, duvidava ser possível filmar algo assim. O projeto permaneceu vago, até que, pressionado pelo produtor Angelo Rizzoli, Fellini resolveu que sua própria situação, naquele momento, seria o fio condutor da história.


Nas primeira cenas de 8 1/2, somos jogados para dentro ...

...do universo onírico do diretor-protagonista Guido

O filme é a experiência meditativa do diretor. Não sabemos se o que acontece é real ou imaginário. Pouco importa. Seus personagens são os vários "eus" do diretor-protagonista Guido. O crítico de arte é seu super-ego, a amante, a esposa etc., todos são parte de sua subjetividade.

Guido está atormentado. Mas não apenas com o filme, que é uma metáfora de sua vida. Percebe que se encontra disperso, fragmentado. Com a amante, não se encontra "presente". Não há gozo. "É incapaz de amar", diria, mais tarde, a personagem Cláudia. Vê a si mesmo incapaz de se entregar a uma situação única. Quer tudo e ao mesmo tempo e não vive cada situação em sua inteireza.

A uma certa altura, Guido finalmente consegue aproximar-se do Cardeal. Na busca de socorro espiritual, ouve do religioso:

O Cardeal: -Ouça os pássaros !


Guido e a amante Carla (Sandra Milo)...


...só quando há "fantasia"...

Mas o filme é leve, saboroso. O que há de "meditação" é mesmo esse aspecto: Guido vivencia as situações mais "surreais" com um tom levemente distante, um sorriso irônico sobre si e sobre todos os "dramas".

Seu "sonho" é não abrir mão de nada, reunir tudo e a todos em um únco cenário, onde haveria uma conciliação plena e sem julgamentos de todas as situações, emoções, pessoas e significados.
Ora, vejamos, por exemplo, o que diz Sri Nisargadatta Maharaj:


Pergunta
: Suas palavras são sábias, seu comportamento é nobre e sua graça é poderosa.


Maharaj
: Eu não sei nada sobre tudo isso e não vejo diferença nenhuma entre você e eu. A minha vida é uma sucessão de eventos exatamente como a sua. A única coisa é que estou desapegado e vejo o show que passa somente como um show que passa enquanto você se apega às coisas e vai com elas de um lado para o outro.




É o que ele percebe ao final.
Por que ser tão sério se a vida é apenas um sonho ?






Fellini e Mastroianni



Fellini

Marcello Mastroianni e Federico Fellini

Guido e Luisa (Marcello Mastroianni e Anouk Aimée)

Saraghina (Edra Gale)

Rossella (Rossella Falk)

Elenco:

Marcello Mastroianni: Guido, il regista
Claudia Cardinale: Claudia
Anouk Aimée: Luisa
Sandra Milo: Carla
Rossella Falk: Rossella
Barbara Steele: Gloria
Nadine Sanders: Nadine, la hostess
Guido Alberti: Pace il produttore
Madeleine Lebeau: l'attrice francese
Jean Rougeul: l'intellettuale
Caterina Boratto: la signora delle terme
Annibale Ninchi: il padre di Guido
Giuditta Rissone: la madre di Guido
Edra Gale: la Saraghina
Mario Conocchia: direttore di produzione
Cesare Miceli Picardi: ispettore di produzione
Maria Antonietta Beluzzi: una cliente delle terme
Tito Masini: il cardinale
Mario Pisu: Mezzabotta
Jacqueline Bonbon: Yvonne la soubrette
Jan Dallas: Maurice il telepate
Georgia Simmons: la nonna di Guido
Edy Vessel: Edy indossatrice
Annie Gorassini: l'amica di Pace
Rossella Como: amica di Luisa
Gilda Dahlberg: la moglie del giornalista americano
Olimpia Cavalli: Olimpia
Hazel Rogers: la negretta
Bruno Agostini: segretario di produzione
Elisabetta Catalano: sorella di Luisa
Sebastiano De Leandro: un prete
Frazie Rippy: il segretario laico del cardinale
Roberta Valli: bambina
Eva Gioia: la ragazza dell'ispettore di produzione
Dina De Santis: la ragazza dell'ispettore di produzione
Roby Nicolosi: un medico delle terme
Maria Tedeschi: la direttrice della scuola
Polidor: un clown
Ian Dallas: mago inglese
Marisa Colomber:

segunda-feira, 4 de agosto de 2008

David Lynch e a meditação





David Lynch fala sobre meditação em São Paulo

Palestra e Lançamento de Livro
Quinta-feira, 7 de agosto às 15h
Tema: EM ÁGUAS PROFUNDAS - Criatividade e meditação
Palestrantes: David Lynch
Local: Livraria Cultura Conjunto Nacional - Av. Paulista, 2073 - São Paulo/SP


"Meditar é como mergulhar num cofre cheio. Cada vez que vai lá, consegue pegar algumas moedas. Se for todos os dias, pega mais e mais moedas." "Apenas faça, depois siga com sua vida e veja tudo melhorar."





"O lançamento do livro não é sua preocupação maior. O foco é o programa de educação baseada na consciência", diz Kleber Tani.


http://www.livrariacultura.com.br/scripts/cultura/eventos/resenha.asp?nevento=3357&tipoEvento=palestra&sid=8918901971083606869785225&k5=28858B99&uid=



Neste livro, uma mistura de autobiografia, história do cinema, ensaio espiritual e manual de meditação, o célebre diretor David Lynch conta como a prática da Meditação Transcendental mudou a sua vida, além de revelar como ela o ajuda a concentrar energias, estimulando sua criatividade e consciência. Um relato de experiências entremeado de histórias jamais reveladas sobre a produção de suas obras-primas cinematográficas. Em Águas Profundas é uma leitura imperdível, não só para fãs do cinema de David Lynch, mas também para todos que desejam melhorar a sua própria condição mental, através do desenvolvimento da criatividade e da capacidade de concentração.



http://www.travessa.com.br/EM_AGUAS_PROFUNDAS_CRIATIVIDADE_E_MEDITACAO/artigo/dce11297-2f66-4d8e-abcf-a35b5c368776

Mais sobre David Lynch e a meditação

(matéria publicada no IOL Portugal Diário em 17-11-2007)

O realizador norte-americano David Lynch esteve este sábado no European Film Festival, o último dia da mostra portuguesa, para dar uma Masterclass aberta ao público.
Mas Lynch não se deslocou ao nosso país apenas para falar de cinema, o tema principal da «aula» que deu no Centro de Congressos do Estoril e da breve conversa que teve antes com os jornalistas foi a meditação transcendental.
David Lynch, contou o próprio, anda na estrada há dois meses a falar de meditação transcendental, disciplina que abraçou há mais de 30 anos. Neste espaço de tempo, Portugal foi o 15º país e o Estoril a 26ª localidade que visitou e onde defendeu publicamente que a meditação transcendental pode trazer a paz ao mundo.
«A meditação ajuda a libertar, a ser feliz por dentro», disse o cineasta. «Procura o reino dos céus que tens dentro de ti e o resto virá por acréscimo», continuou. «Com a meditação as coisas negativas - a raiva, a depressão, a tristeza - desaparecem», garantiu o realizador durante a Masterclass.
Questionado sobre o impacto que esta disciplina teve na sua vida pessoal, em particular como artista, David Lynch comentou que antes de começar era uma pessoa afectada pela depressão e pela raiva.
«Com a meditação consegui ultrapassar emoções negativas como o medo e a ira, libertei a minha consciência e a criatividade começou a fluir», descreveu.
«O cinema não é só uma coisa intelectual, é muito emocional e tem também a ver com a intuição. É com a intuição que conseguimos saber se algo está certo ou errado. E se temos a mente limpa de negatividade, temos melhor acesso à intuição», disse.
Em 2005, o cineasta criou a David Lynch Foundation For Consciousness-Based Education and Peace (Fundação David Lynch para a Educação e Paz Baseadas na Consciencialização), que visa financiar pesquisas sobre os efeitos positivos da meditação transcendental.
«Tenho observado uma grande transformação nas escolas onde a meditação está a ser introduzida. Os níveis de violência baixaram e as crianças começam a aprender melhor e a desenvolver o seu potencial», referiu o realizador.
Recentemente Lynch encontrou-se com o presidente de Israel Shimon Peres a quem disse que colocar cerca de duas centenas de mestres em meditação em Israel seria o suficiente para acabar com o conflito no Médio Oriente.
«Podem dizer que sou louco, mas ao menos tentem e vejam o que pode acontecer. Em Portugal bastariam 350 professores para toda a população», disse na Masterclass.




O cinema de Lynch

Na «aula» e na conversa com os jornalistas era impossível fugir ao tema pelo qual ficou mais conhecido em todo o mundo, o cinema.
Mas como cria afinal David Lynch filmes que muitos (público e crítica) consideram «incompreensíveis»?
O realizador contou a história do seu último filme, «Inland Empire».
«Ia escrevendo e filmando. Certo dia tive uma ideia e escrevi-a. Era uma cena que nada tinha a ver com nada, peguei na câmara e fui para a rua filmá-la. Passados uns dias tive outra ideia, que nada tinha que ver com a primeira. Voltei a ir para a rua filmá-la. Mais tarde tive outra ideia, em nada relacionada com as duas primeiras. Voltei a fazer o mesmo», revelou.
«Depois comecei a criar cenas que estivessem relacionadas com as três primeiras. E aí já comecei a rodar o filme de maneira mais tradicional», acrescentou.
«As ideias surgem-me sempre fragmentadas, só mais tarde é que as reúno num só argumento», concluiu.
Quanto à maneira como lida com a incompreensão dos seus trabalhos, a resposta é simples: «cada um tira a sua própria conclusão dos meus filmes, e todas as conclusões são válidas».
Aos jovens cineastas deixou um conselho: «Sejam verdadeiros convosco próprios, mantenham-se fiéis às vossas ideias, não aceitem uma má ideia, mas nunca recusem uma boa», afirmou o realizador perante uma audiência de mais de 600 pessoas.

quinta-feira, 3 de julho de 2008

Filme: Investigação sobre um cidadão acima de qualquer suspeita



Abolicionismo penal, anarquismo e cinema

(Indagine Su Un Cittadino Al Di Sopra Di Ogni Sospetto)




País: Itália, 1970, 112 min


Direção: Elio PetriRoteiro: Elio Petri, Ugo Pirro


Fotografia: Luigi Kuveiller


Elenco: Gian Maria Volontè, Florinda Bolkan, Gianni Santuccio, Orazio Orlando




Um homem degola sua amante (Florinda Bolkan) com uma lâmina de barbear. Em seguida, espalha pelo cenário do crime diversas evidências apontando sua autoria: coloca um fio de sua gravata na unha da vítima, suja a sola de seu sapato no sangue dela e deixa impressões digitais num copo e no telefone. Este homem é o respeitado e eficiente chefe do Setor de Homicídios, que acabou de ser promovido ao Departamento de Informações Políticas. Qual o significado dessa autoridade querer se incriminar? Ele quer provar para si mesmo (devido ao poder conferido por seu cargo) que é intocável, ou melhor, "acima de qualquer suspeita". Ao mesmo tempo, ele tenta incriminar o outro amante da vítima, um universitário anarquista.
Para ele, crime e subversão são indistinguíveis; o preso comum e o preso político se assemelham e se apartam, segundo as conveniências do Estado e da polícia. Com sua conduta de assassino esperando pela denúncia, este fascista pretende fortalecer as hierarquias repressivas. Entretanto, não contava com o anarquista individualista, o único que sabia do crime e que podia livremente denunciá-lo. O jovem estudante, preso nos porões da democracia italiana, mesmo sob a ameaça da tortura e delatado por um companheiro supliciado, dá-lhe as costas informando que não o denunciará. Ao chefe de polícia resta confessar aos pares, as demais autoridades do Estado. Sem a denúncia do exterior que aciona o tribunal penal ele precisa apelar à confissão aos superiores. Mas esta é a zona restrita das medidas administrativas e que não abalam a eficácia da instituição.

O cidadão, a investigação, a tortura, o tribunal,... permanecem acima de qualquer suspeita!



Drama político ganhador do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro e do Prêmio Especial do Júri do Festival de Cannes, também indicado ao Oscar de Melhor Roteiro Original, escrito e dirigido por Elio Petri (um dos mais importantes realizadores do cinema italiano nos anos 70 e responsável por filmes como "A Décima Vítima", "Condenado pela Máfia", "Um Lugar Tranqüilo no Campo", "Sacco e Vanzetti", "A Classe Operária Vai ao Paraíso" e "O Caso Mattei") e estrelado por Gian Maria Volonté (de "Condenado pela Máfia" e "A Classe Operária..."), Florinda Bolkan (de "Os Deuses Malditos", "Amargo Despertar" e "Bela Donna"), Gianni Santuccio, Orazio Orlando (de "As Bonecas") e Arturo Dominci.

Fontes: http://64.233.169.104/search?q=cache:01jaTnWE4fEJ:www.nu-sol.org/hypomnemata/boletim.php%3Fidhypom%3D92+%22investiga%C3%A7%C3%A3o+sobre+um+cidad%C3%A3o+acima+de+qualquer+suspeita%22&hl=pt-BR&ct=clnk&cd=19&gl=br

e

http://64.233.169.104/search?q=cache:dxSK5PxKXPAJ:www1.folha.uol.com.br/folha/especial/2006/30mostradecinema/sinopses-i.shtml+%22investiga%C3%A7%C3%A3o+sobre+um+homem+acima+de+qualquer+suspeita%22&hl=pt-BR&ct=clnk&cd=3&gl=br


quarta-feira, 23 de abril de 2008

Entrevista com Eduardo Coutinho



Transcrevo abaixo uma interessante entrevista realizada com o diretor Eduardo Coutinho.


Curiosamente, a entrevista aborda alguns dos aspectos que discuti recentemente com Shaka, integrante do Blog Diacrianos, em postagem daquele Blog (http://diacrianos.blogspot.com/2008/04/marxismo-idealista.html)





23/4/2008

‘A linguagem é mais que o autor’.


O longa-metragem Jogo de Cena (2007), de Eduardo Coutinho, mistura de documentário e ficção, que já recebeu prêmios em festivais internacionais, abriu o X Bafici (Festival Internacional de Cinema Independente de Buenos Aires), na Argentina, que aconteceu de 8 a 20 de abril. “Como produtor, já não me interessam os ‘temas’”, disse. Eduardo Coutinho vem filmando ininterruptamente desde 1968.

Segue a entrevista que Eduardo Coutinho concedeu a Mariano Blejman e que está publicada no jornal argentino Página/12, 09-04-2008.




A tradução é do Cepat.

O jogo de espelhos e de caixas chinesas proposto por Jogo de cena, de Eduardo Coutinho, é um exercício próprio de quem parece ter feito tudo no cinema, mais ainda no mundo documental. É que Coutinho, além de fazer um filme, filma uma espécie de epistemologia do cinema. A extensa obra de Coutinho (16 filmes) serviu como ponto de inflexão cada vez que tomou a câmera. Desde O homem que comprou o mundo (1968), passando por Babilônia 2000 (1999) até Peões (2004), sobre aqueles primeiros companheiros de militância de Lula, chegando até o flamante Jogo de cena, deixa sempre uma marca na maneira de construir relatos.

Nos últimos anos, a figura de Coutinho foi se fazendo cada vez mais cifrado. De qualquer modo, poderia parecer que Jogo de cena (que ganhou vários prêmios em festivais internacionais) seja uma maneira de contrapor-se ao olhar político que assumiu em Peões. “Não me interessam mais os temas”, sentencia o homem-documentário do cinema brasileiro.

Jogo de Cena é, então, uma resposta a Peões?

Não consigo comparar Jogo... com Peões. É uma espécie de processo, que acaba de completar dez anos. Ambos trabalham a palavra de pessoas que, quando falam para o público, têm um personagem. A palavra é essencial, por isso não se vê nunca o exterior, depende muito do conhecimento da língua. É uma combinação: são células ficcionais, as pessoas que falam de sua memória ou de sua vida são moléculas de ficção. Me perguntei por que não tentar fazer um jogo entre as pessoas que falam de sua vida, quer falem do instrumento da ficção ou do esquecimento, e combiná-las com pessoas profissionais que são próprias para sentir as paixões dos outros. De todos os documentários que fiz, Peões foi o que me provocou mais dificuldades. Em Peões não podia fugir de um fato político, porque havia a campanha presidencial de Lula. Mas procurei o que era o mais distante possível da cúpula política. Mas não voltarei a ouvir ninguém: não farei a história da China nem a luta de classes. Tenho um profundo ódio pelas idéias gerais.

Em que momento fechou a idéia de Jogo...?

Creio que estava no inconsciente há muitos anos. Foi expressa em 2005, quando meu produtor, João Moreira Salles, me perguntou como prosseguiria, e lhe disse: “Quero fazer algo com pessoas reais e atores”. O tempo passou, ele aceitou e começamos pelo documentário. Colocamos um aviso no jornal, vieram algumas pessoas, fizemos uma pré-edição, vimos as histórias reais, concordamos em que era interessante que isso fosse interpretado por atrizes e se fizesse um filme com os dois: seria muito mais suportável o drama das mulheres. Havia uma discussão sobre que atriz chamar e convocamos atrizes muito conhecidas, e outras menos.

Por que chamaram atrizes conhecidas?

A hipótese inicial era chamar apenas atrizes desconhecidas. Mas alguém me disse: “Se o fizerem apenas com atrizes desconhecidas isso quer dizer que o documentário é melhor que a ficção”. Então pensei que teria que ter atrizes que pudessem fazer uma reflexão sobre isso. Não era fazer Hamlet, mas uma pessoa real.

Por que são todas mulheres?

Porque eu não sou mulher. E me interessa o que é do outro. Me interessam porque não sei o que é parir. Além disso, na minha experiência de fazer filmes com pessoas comuns que falam de sua vida, as mulheres são melhores que os homens. A mulher pode contar coisas que os homens não contam. Ainda que as coisas tenham mudado, o homem não confessa que foi enganado por sua mulher. A mulher é melhor como personagem e melhor como público.

Como consegue escutar?

Poderia fazer um tratado de filosofia sobre isso, vem da experiência. O ideal é que alguém consiga ser homem, mulher e criança ao mesmo tempo do ponto de vista psicológico. A capacidade de ter uma certa agressividade do homem... mas o grande ouvinte é o menino de 8 anos que diz por quê? Por quê? É o grande perguntador porque não tem nada garantido, e o por quê? não termina, porque nada está garantido no mundo. Esse tipo de cena onde o menino faz todas as perguntas, não sei... é biológico. Não conheço ninguém que tenha conservado isso até os 20 anos. E em caso positivo, fica internado num asilo de loucos.

De algumas histórias, não se sabe qual é a original...

Talvez haja mais, talvez são três e a verdadeira talvez na está no filme. Não poderia dizer qual é a verdadeira. Eu não pensava tanto: os críticos dizem que alguém não é o dono de sua história, uma história se torna de única em coletiva, e por isso uma atriz pode contar melhor a história de uma mãe que perdeu seu filho do que a mãe que realmente o perdeu. A linguagem é mais que o autor, mas o autor existe. Pode contar melhor o falso ou o verdadeiro, isso é uma coisa que apareceu enquanto fazíamos o filme.

Continua refletindo sobre a relação entre verdade e ficção.

Não parece ter muita importância. Fiz um filme de crise absoluta. Filmei um texto de uma obra de teatro, com um grupo de teatro, durante o processo de criação de uma obra que não será estreada, que não sei que fragmentos serão representados. Não sei o que fazer agora... Quero filmar uma história num elevador, num lugar muito pequeno. O problema é que são filmes muito baratos para se fazer, mas a edição é muito cara, posso ficar seis meses editando.

Além de filmar, parece propor uma epistemologia do cinema, um modo de fazer.

Faz tempo que penso na teoria do cinema para mim e não para os outros. Há uma teoria – quando a penso é igual a sentir –, uma teoria do cinema, do meu cinema, nos filmes que faço.

Há um pensamento por trás.

O problema é que se faz filmes sem pensamento.

A teoria vem depois dos fatos.

A teoria vem durante os fatos. Não quero que os críticos digam que é bom ou ruim. Faz-se coisas que estão aquém e além de seu pensamento. Há um antes e um depois, e uma crítica é capaz de dizer uma coisa que eu não pensei quando a fazia.

De que tipo de cinema não gosta?

O que não me interessa mais como produtor são os “temas”. O que me interessa é como algo é realizado. Não me interessa Michael Moore: há outros que me interessam, os que fazem um filme durante trinta anos, ou todos de costas para as câmeras. Gosto de outra coisa, um filme de John Ford ou de Bergmann não tem nada a ver com isso. Me pode interessar um cinema difícil ou o cinema clássico. Como espectador, estou aberto.

A projeção de Jogo... na abertura do Bafici será uma portinha para estrear seu filme em cinemas comerciais?

Fiz 16 filmes e nunca foram vendidos a nenhum país. Cabra marcado para morrer (1985) foi vendido à TV e ao cinema, e depois em vídeo e faz 15 anos que ninguém o vê, não é vendido. Mas estou contente por fazer a abertura do Festival, não esperava.

Não tem saído muito nos últimos anos, a que se deve isso?

É uma mistura de “o avião que cai”, “o cigarro que não se pode fumar nele” e um pouco por meu estado de saúde. Além disso, normalmente penso “vou a um festival para fazer o quê?”. Mas faço um trabalho e tenho que falar sobre o que faço, o que não é teoria, e para isso estou disposto.










quinta-feira, 17 de janeiro de 2008

Filme: Zeitgeist, O Filme


(*) Agradeço a Luís Barreiros por ter-me apresentado/recomendado o filme


Trata-se de um documentário produzidos nos EUA em 2007, sem fins lucrativos, podendo inclusive ser ("oficialmente") assistido pela Internet, por meio do YouTube, por exemplo.

O link do filme com legendas em português segue abaixo:




(Fazendo um pequeno parênteses, trata-se aqui de mais um exemplo da face "Janus" do atual sistema, (majoritariamente) fascista e, ao mesmo tempo, (minoritariamente) anárquico. No caso, aproveita-se a inserção criada pelo próprio "sistema" hegemônico - a Internet e suas funcionalidades - para uma finalidade "contestatória-anárquica").

Introduzo a apresentação do filme com esse pequeno texto extraído da Wikipedia, para, ao final, tecer alguns comentários pessoais:

"Zeitgeist, the Movie é um filme estadunidense de 2007 sem fins lucrativos produzido por Peter Joseph que pretende, segundo o autor, inspirar as pessoas a investigarem o mundo de uma perspectiva diferente.

O filme é dividido em três seções:

Primeira parte: "The Greatest Story Ever Told" ("A maior história já contada")
Segunda parte: "All The World's A Stage" ("O mundo inteiro é um palco")
Terceira parte: "Don't Mind The Men Behind The Curtain" ("Não se preocupe com os homens atrás da cortina")
Uma versão deste filme foi apresentada no 4th Annual Artivist Film Festival & Artivist Awards.[1]

Desde que a versão online deste filme foi lançada ao público em Junho de 2007, este filme já foi visto mais de seis milhões de vezes, contando somente a versão integral em inglês disponível em Google Vídeo. Na realidade esse número de telespectadores é referente ao final do mês de novembro, quando a contagem de visualizações fora misteriosamente suprimida do site. Especula-se que esse número já tenha superado largamente os dez milhões, visto que "Zeitgeist, the movie" tem sido, dia após dia, desde o mês de outubro, o vídeo on-line mais assistido em todo o mundo.[2]

Estrutura do filme

Primeira Parte: The Greatest Story Ever Told
A primeira parte do filme é uma avaliação crítica do cristianismo. O filme opina que Jesus é um híbrido literário e astrológico e que a bíblia se trata de uma miscelânea de histórias baseadas em princípios astrológicos pertencentes a civilizações antigas. A atenção do filme foca-se inicialmente no movimento do Sol e das estrelas, fato este que é uma das características das religiões pré-cristãs.

Segunda Parte: All The World's a Stage
A segunda parte do filme foca-se nos ataques de 11 de setembro de 2001. O filme opina que governo dos Estados Unidos tinha conhecimento destes ataques e que a queda do World Trade Center foi uma demolição controlada. O filme assegura que a NORAD, entidade responsável da defesa aérea dos Estados Unidos, tinha sido propositadamente baralhada no dia dos ataques com exercício simulado em que os Estados Unidos estavam a ser atacados por aviões seqüestrados.

Terceira Parte: Don't Mind The Men Behind The Curtain
A terceira parte do filme defende que o sistema bancário mundial tem estado a conspirar para obter uma dominação mundial total. O filme opina que a Reserva Federal dos Estados Unidos da América foi criada para roubar a riqueza dos Estados Unidos. O filme demonstra, como exemplo, o lucro que foi obtido pelos bancos durante a Primeira Guerra Mundial, Segunda Guerra Mundial, Guerra do Vietname, Iraque, Afeganistão, e a futura invasão à Venezuela para obtenção de petróleo. O filme descreve a conspiração destes banqueiros, argumentando que o objetivo deles é o controle sobre toda a raça humana. Criando um só governo, uma só moeda.

O filme também aborda, a sociedade humana sendo microchipada. Para transações bancárias, passe de identidade, localização, sem alusão a ficção.

Referências
↑ News Blaze (November 10, 2007) 4th Annual Artivist Film Festival & Artivist Awards "Merging Art & Activism: Saturday Night Film "Zeitgeist"
↑ Google Video ZEITGEIST, The Movie - Official Release - Full Film

Ligações externas
Zeitgeistmovie.com website oficial
Zeitgeist - Legendado em Português
Obtido em http://pt.wikipedia.org/wiki/Zeitgeist,_o_Filme "


Meus comentários


Inicialmente, devo dizer que não obtive maiores informações sobre o filme além daquelas expostas acima e daquelas disponíveis no excelente site oficial. De fato, nada mais detalhado pude encontrar acerca do suposto produtor do filme, Peter Joseph, o que é no mínimo curioso, pois estamos aqui tratando de um filme extremamente bem realizado e que deve ter contado com uma equipe técnica e de pesquisa razoavelmente bem estruturada. Em alguns sites sobre teorias conspiratórias traçam-se ligações com os Iluminati etc. De qualquer forma, este Blog está devendo a seus leitores informações detalhadas e confiáveis. Espero poder complementá-las em breve.
Além disso, o filme é, por si só, um dos maiores fenômenos de "mídia independente" que se tem notícia, suspeitando-se que se trate do vídeo mais assistido na Internet, não obstante ter menos de 1 ano. (Digo "suspeitando-se" porque, mesmo em relação a esse aspecto, encontramos informações difusas, pois parece que o YouTube suprimiu inexplicavelmente o contador de acessos quando o filme já se encontrava na marca de 6 milhões).

Em relação ao conteúdo propriamente dito, achei as duas partes finais mais interessantes que a primeira, que trata da "desmistificação" do cristianismo, mais especificamente do texto bíblico.

De fato, a impressão das cenas iniciais é de que iria se tratar de mais um panfleto "cientificista" e anti-religião, como uma espécie de libelo positivista. Se era essa a intenção, não creio que tenha funcionado, pois, para aqueles que já entendiam a Bíblia cristã dentro de uma linguagem metafórica, as "revelações" do filme não apenas não abalam suas crenças, como as instigam ainda mais...

Penso então que essa primeira parte tem um "alvo certo": o público protestante norte-americano acostumado às interpretações literais do texto bíblico e, ainda, o fundamentalismo neo-con norte-americano que pretende, inclusive, ressuscitar o criacionismo. Mesmo assim, a primeira parte traz inúmeras informações sobre as origens egípcias e astrológicas de passagens fundamentais da Bíblia.

Na minha opinião, o filme melhora a partir de segunda parte, atingindo seu climax ao final da terceira parte, quando trata do neo-fascismo, assunto inteiramente pertinente a este Blog.
Por fim, peço que quem tiver informações mais aprofundadas acerca dos produtores do filme, poste seus comentários.

quarta-feira, 2 de janeiro de 2008

Filme: "O Fio da Navalha" (The Razor's Edge), de 1946

Cena de "O Fio da Navalha" (1946): qualquer semelhança com Caspar Friedrich...


É um belo filme dos anos 40 (1946), que também traz interessantes conexões com a nossa temática: transmutações pessoais e xamanismo.




The Razor's Edge é uma adaptação do romance homônimo do escritor inglês Sumerset Maugham (1874-1965) e se passa no entre-guerras, período que deu nascimento a uma impressionante geração de escritores, como Fiztgerald, Williams, Hamingway e Henri Miller: a chama "Geração Perdida".



S. Maugham



O título provém do provérbio oriental:

"The sharp edge of a razor is difficult to pass over; thus the wise say that the path to salvation is hard."


Tendo como pretexto da narrativa a vida de três jovens amigos nos anos 20/30 - e como pano de fundo a dissolução do mundo tradicional ocorrida no pós-I Guerra - essa história de sabor existencialista irá tratar na verdade do inconformismo radical e da busca interior por parte de um "Outsider" para alcançar uma genuina liberdade, um ato de coragem que irá culminar com o rompimento de todos os referenciais tradicionais.



Embora siga uma narrativa linear, clássica, The Razor's Edge, além de belo, segue fielmente o romance de Sumerset Maugham, conhecido pelo seu fascínio pelo Oriente e por sua delicada pena, capaz de unir a leveza e a reflexão.




Filmes como esse mostram quão "careta" se tornou, posteriormente, o "establishment" cinematográfico, sobretudo no final do século XX e início do XXI.

.
E, de fato, a refilmagem realizada em 1984 - tendo Bill Murray no papel principal - é bem inferior ao original, pois não soube explorar as potencialidades do romance e, sobretudo, as sutilezas psicológicas do personagem principal (na verdade, de todos os seus personagens...).

terça-feira, 25 de dezembro de 2007

Filme: "A Concepção", de José Eduardo Belmonte


Acabo de assistir ao filme "A Concepção" de Eduardo Belmonte. Recomendo. Não me deterei nos detalhes técnicos, nem nas questões relacionadas aos aspectos puramente "fílmicos".
O filme trata de um grupo de jovens de Brasília que, entendiados com suas vidas pequeno-burguesas, decidem se aventurar em experiências existenciais e produzir suas próprias histórias, ou seja, tornarem-se livres.
Logo surge um novo personagem, "X", assim conhecido porque ninguém sabe ou virá a conhecer seu nome (não por acaso, lembrei-me de "Velvet Goldmine" - sobre o também camaleão David Bowie - nas cenas de apresentação de "X").
Em meio a intermináveis orgias, muita droga e rock´n roll, "X" introduz tais jovens na filosofia-existencial "concepcionista" (a referência ao Situacionismo é explícita e algo caricatural).



Nesse universo, as referências identitárias se esvaecem, tudo é possível e tenta-se a todo instante dissolver o Ego. Dar nascimento a uma nova identidade a "cada dia". As experiências concepcionistas buscam a dissolução de toda e qualquer referência, seja sexual, econômica, jurídica etc.

" O concepcionista é uma fraude que dura 24 horas".

Como é de se esperar, a "experiência" foge do controle, ou melhor, envereda por caminhos inesperados. Não contarei, claro, o final do filme.
Como disse, o ponto de partida é Maio/68 e o Situacionismo, com claras referências a Deleuze (para não deixar dúvidas, um personagem grita - enquanto perseguido pela polícia - "Somos todos máquinas !") e ao xamanismo, havendo inclusive uma alusão a Carlos Castañeda e ao "despertar" nos sonhos lúcidos, bem no final do filme, quando um dos personagens diz que "olhará para as mãos"...
O "sentido" final não é unânime: para mim sua mensagem é otimista, embora não da forma em que os concepcionistas-situacionistas desejavam.

domingo, 9 de dezembro de 2007

O encontro de Fellini e Castañeda - Viagem a Tulum


F. Fellini
Transcrevo abaixo três artigos acerca do encontro entre Fellini e C.Castañeda e que deu nascimento a um projeto cinematográfico do diretor. (As fontes se encontram abaixo). Trata-se, portanto, de mais um encontro Cinema/Xamanismo, já mencionado neste Blog quando tratamos da trajetória de Trigueirinho.


1 - Bem antes de Gibson, Fellini planejou filme sobre América pré-colombiana

Por: RICARDO FELTRIN
Editor-chefe da Folha Online

Mais de vinte anos antes de Mel Gibson colocar na tela sua versão sobre o declínio dos maias, o cineasta Federico Fellini (1920-1993) planejou o roteiro de um filme sobre uma misteriosa linhagem de feiticeiros pré-colombianos que viveram no México antigo. Uma história bem mais interessante que a de "Apocalypto".

Fellini idealizou um filme baseado nos relatos do escritor e antropólogo Carlos Castaneda (1935?-1998), autor entre outros do best-seller "The Teachings of Don Juan", que no Brasil ganhou o sensacionalista título "A Erva do Diabo".


O cineasta italiano era um leitor voraz da obra de Castaneda, que foi um ícone da geração paz, amor & drogas dos anos 70. Esse escritor manteve a segunda metade de sua vida muito reservada. No final dela, praticamente desapareceu da sociedade. Isso gerou e ainda gera um sem-número de boatos e invenções a respeito de tudo --de sua saúde mental à acusação de fomento ao uso de drogas.

Desde 1970, por 15 anos, Fellini tentou encontrar Castaneda.

Essa reunião só ocorreu em 1985, em Roma, e, tão rápido como veio, Castaneda voltou a desaparecer, deixando para trás um cineasta assustado e atônito
--como o próprio relatou em entrevista à revista italiana "L'Europeu" em dezembro de 1988.

A misteriosa história de Castaneda

Carlos Castaneda não tem local de nascimento certo. Uns dizem Brasil, outros Argentina, outros ainda Peru. Formado em antropologia, durante quase 30 anos ele integrou um grupo auto-denominado de "guerreiros toltecas". O grupo se espalhava por todo o México. Mais tarde, durante a entrada de Castaneda (e de outros "eleitos"), espalhou-se pelo mundo.

Carlos Cesar Araña Castaneda conheceu esse grupo quando defendia uma tese de graduação na Universidade da Califórnia a respeito do uso de plantas alucinógenas por tribos indígenas do México setentrional.

Foi assim que ele acabou conhecendo Don Juan Matus (nome provavelmente fantasioso), um índio yaqui cuja cidade natal é desconhecida e que, como mestre nagual, acabou obrigando Castaneda a entrar para o grupo. Foi Juan Matus quem o iniciou no uso de cogumelos e plantas alucinógenas como a Datura inoxia e possivelmente a Ayahuasca.

Matus afirmou a Castaneda e o fez acreditar que aquilo que ele considerava alucinações durante o uso das drogas sob sua supervisão não passava de um outro estado de consciência, no qual as visões (e coisas) são de fato reais. Um mundo real, habitado por seres inorgânicos (chamem de fantasmas), ao qual qualquer ser humano pode ter acesso sob um especial estado de consciência. Esse estado pode ser obtido por meio de drogas ou por meio de "acúmulo de energia pessoal", com algumas técnicas descritas neste texto, abaixo.

No entanto, o próprio nagual avisou que, nesse "treinamento religioso", o uso de drogas era necessário apenas para pessoas extremamente egocêntricas e auto-centradas. A pessoas mais, digamos, modestas, bastava acumular energia naturalmente, sem uso de substâncias.

Os feiticeiros toltecas

Juan Matus garantia que, num passado longínquo, onde hoje é boa parte do México, populações inteiras faziam uso de plantas alucinógenas. Homens, mulheres, crianças. Ele dizia que o auge dessa civilização teria ocorrido entre 7.000 e 4.500 anos atrás. Quando os espanhóis chegaram, afirma, as linhagens de feiticeiros espalhadas por todas as regiões foram dizimadas pela espada. Cabe lembrar que a sanha espanhola/cristã na Conquista era especialmente violenta contra tudo que remetesse à prática de magia.

Outro fator relevante é que o clima mexicano ora úmido, ora calorento é um devorador de fósseis, de forma que até hoje não há registro algum que corrobore uma civilização poderosa e avançada vivendo entre 7.000 e 4.500 anos atrás nessa região.

Embora o grupo de Castaneda se denominasse guerreiros ou feiticeiros toltecas, parece evidente que eles simplesmente assumiram a cidadania dos últimos astecas que clamavam descender dos toltecas (900- 1.200 d.C), um povo extremamente nobre, invejado e talvez o mais vinculado à prática de feitiçaria.

O próprio Don Juan revela durante os encontros com Castaneda, entre 1966 e o final dos anos 70, que aquela linhagem, a que ambos pertenciam, só havia sobrevivido porque seus feiticeiros antepassados fingiram se converter ao Cristianismo durante a Conquista para não serem mortos. No entanto, ocultamente, seguiram com suas práticas misteriosas.

A prática dos toltecas

O mundo que Fellini iria se deparar, caso tivesse tido sucesso em seu filme sobre a vida de Castaneda, era pragmático e cheio de regras e leis. A saber:

1) Os feiticeiros toltecas acreditam que é possível sobreviver à morte se o indivíduo acumular energia durante toda sua vida. Sobreviver à morte, no caso, significa manter a consciência após o último suspiro --que, aliás, tem de ser dado de forma voluntária pelos feiticeiros (e feiticeiras). Eles decidem o dia e a hora em que deixarão este mundo, para o qual não podem jamais voltar;

2) Após séculos e séculos de uso de plantas alucinógenas, uma casta de feiticeiros teria percebido que determinadas alucinações ou visões que ocorrem sob efeito dessas substâncias são exatamente as mesmas para todas as pessoas. Com o tempo, esses sacerdotes descobriram que alguns tipos de drogas (substâncias) levam a dimensões diferentes das que vivemos... Eles identificaram 48 diferentes dimensões neste planeta Terra ("O mundo é como uma cebola. Em camadas", diz o mestre Juan);

3) Para acumular energia, os feiticeiros obedecem a algumas premissas:

a) o ser humano deve interromper a auto-reflexão voluntariamente. O primeiro passo para a evolução, dizem, é interromper o fluxo aleatório de pensamentos que acomete a todos nós. Esse fluxo é um ralo de energia para os feiticeiros, e deve ser estancado. Isso era feito por meio de exercícios e práticas bizarras, bem como o uso controlado de determinadas drogas sob o comando de um mestre;

b) é preciso de toda forma economizar energia mais preciosa que temos, segundo eles a sexual; isso significa abrir mão de fazer sexo e, mais ainda, de ter filhos;

c) também com o auxílio de exercícios e movimentos corporais específicos, o feiticeiro inicia uma espécie de recapitulação de toda sua vida, desde o primeiro momento da primeira memória que teve até os dias atuais; é uma espécie de terapia da memória (ver "Passes Mágicos", ed. Nova Era);

d) para ser um feiticeiro tolteca é preciso ser escolhido pelo destino; não são aceitos candidatos.

Esse último item é o imponderável que atingiu Don Juan Matus, Genaro Flores, Carlos Castaneda, Florinda Donner, Taisha Abelar e tantos outras pessoas pelo mundo. No caso de Castaneda houve uma série de augúrios que o apontaram a Don Juan. De fato, Castaneda foi o primeiro não-índio --mas não o último-- a fazer parte daquele estranho grupo.

Fellini conta que, após a despedida estabanada de Castaneda, passou a receber telefonemas ameaçadores de pessoas não identificadas. Ele entendeu que se tratava do grupo do qual o escritor fazia parte. Segundo o cineasta, esse grupo até tolerava os livros, mas não aceitaria de forma alguma um filme em que ele, Castaneda, que também se tornara um mestre sui generis, fosse o protagonista em carne e osso.

Era esse o plano de Federico Fellini.

O que deveria ser mais um filme grandioso e intrigante, que talvez desencorajasse hoje Mel Gibson a voltar tocar no assunto, acabou virando um roteirinho em formato de história em quadrinhos. Foi publicado por Fellini em 1988 e chamado de "Viagem a Tulum" ("Viaggio a Tulun").

2 - Viagem a Tulum, o último roteiro deixado pelo diretor Federico Fellini (Amarcord), ganhará vida ainda no início de 2008.

Nas mãos do diretor Marco Bartoccioni, o roteiro será enfim rodado, após 15 anos de paralisação no projeto. O trabalho foi retomado pela produtora italiana Tiahoga Ruge, após adquirir os direitos do roteiro no ano passado.
Viagem a Tulum é baseado na viagem que o próprio Fellini fez ao México há mais de 20 anos, para se encontrar com o escritor Carlos Castaneda. A obra já conta com o ator Lazar Ristovsky no elenco, que interpretará Federico Fellini.

3 - Sinopse de Viagem a Tulum

(Viagem a Tulum, de Federico Fellini & Milo Manara. Rio de Janeiro: Globo, 1992, 84p.)

Uma das mais belas e delirantes histórias-em-quadrinhos da segunda metade do século passado, a partir de um argumento para filme (nunca realizado) e que seria adaptado com brilhantismo invulgar por Manara, o desenhista de algumas obras-primas das HQs, como a genial Sonhar, talvez. Na verdade, Fellini, que dirigiu Os boas vidas, Noites de Cabíria, A doce vida, Oito e meio, Amarcord e outros filmes de sucesso, sempre foi um entusiasta dos quadrinhos. Como Alain Resnais. Como Jean-Luc Godard.



Neste caso, para início de conversa publicou através de folhetim (em 1986) uma história que pretendia transformar em cinema; como não o fez, já que cinematograficamente irrealizável, ou quase, permitiu que Manara a adaptasse com bastante liberdade para a linguagem dos quadrinhos, participando, inclusive, da elaboração do roteiro em alguns momentos da feitura dessa autêntica novela gráfica.



O resultado final é admirável: em clima felliniano, entre a magia e o deslumbramento gráfico-seqüencial, os dois personagens principais (um senhor e uma jovem) visitam uma lendária Cinecittà, à procura do próprio Fellini, e nela encontram algumas figuras de suas obras, vivenciadas por Giulitetta Masina, Anita Ekberg, além, claro, Marcello Mastroianni. A rigor, a jovem não sabe se está vivendo uma aventura real ou se está dentro de um filme aparentemente sem o menor sentido. O fato é que, levada pelo chapéu do cineasta, se deixa afogar num lago artificial que contém mais elementos oníricos, numa viagem dionisíaca que seria sem lógica, para muitos e muitos. Aliás, é dentro do lago, marcado pelo simbolismo, que, num imenso avião, a jovem encontra Mastroianni, e mais uma vez Fellini. Quando o jumbo decola, com Mastroianni em seu interior, a história "decola".




E um filme vai ser feito (por Mastroianni/Snaporaz como o diretor), com seus mistérios, suas fantasias, seus devaneios, suas impossibilidades, seus mitos quadrinhográficos, seus múltiplos caminhos que levam ao México e à sua cultura milenar.
São muitas as referências e homenagens metalingüísticas em Viagem a Tulum, como, por exemplo, a Moebius (autor de outra instigante obra-prima dos quadrinhos: Arzach, visualmente excitante).


Moebius: Arzach

Moebius: Arzach - uma das referências de Manara em Viagem a Tulum

Moebius: Arzach


Sem dúvida, navegamos em plena história por um beco sem saída temático, explicitado por aqueles que pensam o filme/quadrinho, como se o próprio cinema de Fellini, depois de anos, apontasse para algo indefinível, para algo indecifrável. No final, tudo parece ter sido um sonho, mas não se trata de um fim, e sim de um começo, ou recomeço, quando um novo e enorme avião aparece, do fundo do lago, voando para um inalcançável sistema de raízes criadoras além da imaginação visionária: uma imaginação que se desenha na película, mas também no papel. Algumas páginas são puro Manara redimensionando Fellini; outras, são puro Fellini sob a ótica gráfico-delirante de Manara, igualmente conhecido por seus quadrinhos eróticos de grande beleza visual.

Milo Manara




Quadrinho de Milo Manara


De certo modo, Viagem a Tulum é o último grande filme de Fellini, sendo, ao mesmo tempo, uma das grandes HQs de Milo Manara.

quinta-feira, 6 de dezembro de 2007

Cavalcanti e Trigueirinho



Pesquisando a vida e a obra de Alberto Cavalcanti - artista de vanguarda, admirado, dentre outros, por Glauber Rocha e diretor de Death of Night - deparei-me com a associação deste com Trigueirinho Neto, cuja trajetória, de promissor cineasta a líder espiritual, encontra-se resumida abaixo.
(As fontes se encontram ao final dos textos.)


I- Primeira fase: O cineasta Trigueirinho

artigo de José Inacio de Melo Souza -
extraído de http://www.mnemocine.com.br/pesquisa/pesquisatextos/banespa.htm, com partes suprimidas)

Trigueirinho Neto (José Hipólito de Trigueirinho Neto, São Paulo, 1929) começou a sua carreira na Cia. Vera Cruz como assistente do produtor geral Alberto Cavalcanti. Nessa condição, B.J. Duarte o destacou como um dos freqüentadores da casa de Cavalcanti em São Bernardo do Campo, onde aos domingos o grupo composto dele, Caio Scheiby, Múcio Porfírio Ferreira, José Cañizares e o próprio B.J. promoviam animadas discussões sobre os rumos do cinema brasileiro.
Seu aprendizado teórico foi no Centro de Estudos Cinematográficos do Museu de Arte de São Paulo. Trabalhou com Adolfo Celi em Caiçara. Para o crítico de Anhembi, Trigueirinho Neto colaborou na roteirização de documentários, tendo escrito um de propaganda para o Jockey Clube de São Paulo, provavelmente nunca realizado.
Em 1953, foi um dos ganhadores da bolsa de estudos oferecida pelo Instituto Cultural Ítalo-Brasileiro para o Centro Sperimentale de Cinematografia, em Roma, juntamente com César Mêmolo Júnior (na comissão de seleção, além dos "padrinhos" Cavalcanti e B.J. Duarte, estavam Vinicius de Moraes e Edoardo Bizarri, diretor do Instituto).
A permanência na Itália foi longa, de 1953 a 1958, dos quais apenas três eram necessários para a obtenção do diploma de diretor de cinema. Em 1956, ainda por intermédio de Alberto Cavalcanti, participou como argumentista, da parte brasileira da produção internacional coordenada por Joris Ivens, Die Windrose (A rosa dos ventos; o episódio brasileiro "Ana" foi dirigido por Alex Viany). Escreveu ainda um argumento para Mario Soldatti, Roma de notte, outro para Giorgio Bassani, Estate romana, e roteirizou Epoca bella, de Luigi Magni (nenhum desses projetos foi concretizado).
O roteiro de Bahia de Todos os Santos foi pensado e escrito neste momento, tendo concorrido ao Prêmio Fábio Prado, enquanto o diretor realizava na Itália o documentário Nasce um mercatto.
Os trabalhos italianos e a vitória no Prêmio Fábio Prado de 1958 de melhor roteiro, dividido com Walter Hugo Khouri (A Ilha), animaram Trigueirinho Neto a retornar ao país para a realização do filme.
No segundo semestre estava trabalhando para Desidério Gross na Rex Filme.
Bahia seria filmado com Jurandir Pimentel (anunciado como assistente de Nasce um mercatto) e Lola Brah.
O filme estava centrado na vida de um grupo de marginais da cidade de Salvador num passado recente (a maioria dos críticos tendeu a identificar o período com o Estado Novo, no início da década de 40). A figura central é Tonio (Jurandir Pimentel), um mulato em constante atrito com a família praticante do candomblé (sua avó é mãe de santo; numa das primeiras cenas o terreiro é invadido pela polícia) e a amante inglesa, Miss Collins (Lola Brah). Tonio e seus companheiros vivem de pequenos furtos e contrabando. Mas também está ligado aos portuários e, durante uma greve sufocada pela polícia, é o dinheiro subtraído da amante que mandará para fora de Salvador um sindicalista perseguido. O dilema do grupo está no devir, o que cada um fará de sua vida. Segundo a leitura de João Carlos Rodrigues, a cor da pele de cada um define os destinos: o branco (Geraldo del Rey) tentará a vida no Rio de Janeiro como desenhista; um negro será morto na repressão policial à greve; um cabra se casará com uma moça grávida de outro e o mulato Tonio ficará paralisado, sem forças para abandonar a amante ou sair de Salvador.
No elenco, poucos artistas profissionais: Lola Brah, Araçari de Oliveira e Sadi Cabral (logo depois acrescido de Eduardo Waddington, Antonio Vitor e Geraldo del Rey). A explicação foi dada pelo próprio diretor: a "atração de 'Bahia de Todos os Santos' não está na popularidade do elenco: o poder que a fita exercerá sobre o público estará nos elementos nativos da Bahia, nos verdadeiros tipos colhidos nas ruas, na própria cidade de Salvador e arredores. Esses tipos trarão ao cinema nacional uma nova contribuição. Meninos, negros, soldados, as gentes do porto, todos comporão o afresco descrito no 'roteiro técnico' anexo, que tem seu principal ponto de apoio no elemento 'autenticidade'. Seria um enorme prejuízo para a fita, a inserção de atores habituados com certo tipo de representação, distante do realismo, entre os típicos personagens daquele estado do norte."
Embora já tivéssemos tido as experiências de Rio 40 graus (1955), Rio zona norte (1957) e O grande momento estivesse em finalização, em nenhum momento Trigueirinho Neto vai se alinhar ao neo-realismo, pelo contrário, ou a qualquer um dos diretores dessa escola ("o filme neo-realista reconstitui acontecimentos sociais ou vivências individuais, com um caráter de cotidiano mesmo, como que sob o impulso natural da vida. 'Bahia' foi inteiramente planificado a priori como filme de ficção. Não há um plano que não tenha sido previsto", declarou a Ely Azeredo).
A comissão do Prêmio Fábio Prado, para Hélio Furtado, tinha visto menos que o necessário. O roteiro anunciava três aspectos: era um "documento social de inestimável valor sociológico, pois capta o homem baiano em suas raízes ontológicas, indicando o problema da miscigenação"; inseria-se na questão do homem e do humanismo, não na sua vertente marxista, mas católica; trabalhava uma corrente do cinema moderno, o documentário social. Desenvolvendo suas idéias sobre o roteiro, ele declarou que a proposta se passava no período ditatorial com preocupações pelo universo dos personagens: o candomblé, o sindicalismo, a greve e a questão racial.
Em termos de religião, o diretor não se declarava católico (tinha interesse pelo budismo), nem era partidário dos cultos afro-brasileiros; na concepção estética da película, buscou um mergulho no barroco baiano. O próprio diretor "barroquizou-se", segundo Hélio, aliás, seguindo as mesmas preocupações de Roberto Rossellini e Federico Fellini pelo barroco, assim entendidas por Geneviève Agel.A aproximação com os diretores italianos demarcavam-no, como autor, dentro do mundo "rosselliniano".
Ao lado de Walter Hugo Khouri, Trigueirinho Neto compunha a "dupla de jovens mais talentosos do cinema nacional [...]. Mas ambos refletem tendências opostas: I) Walter Hugo Khouri, fortemente influenciado por Rubem Biáfora, segue uma linha formalista; profundo conhecedor do sueco Ingmar Bergman, um dos maiores cineastas da atualidade; II) Trigueirinho Neto tende a um realismo social; à captação do homem: vincula-se naturalmente, ao neo-realismo, principalmente ao 'rosselliniano' [...] principalmente por suas obras 'Francisco, arauto de Deus' e 'Romance na Itália' [...]".
Por essa via, o roteiro centrava-se no homem, "não o homem 'abiliano' [Abílio Pereira de Almeida de Moral e concordata] (pobre, deformado e sem adequação realística e brasílica) mas o homem em 'ses coordenades spatiales et temporalles...'", vinculada ao personagem Tonio.
Fazendo o diretor falar por meio de um diálogo imaginário, atitude dentro de um parecer técnico estranhíssima, Hélio Furtado do Amaral conclui que é "o sexo que vai servir de orientação para captação temática: revela a presença terrena dos personagens (como 'Zampanó' em 'Na estrada da vida' em oposição a Gelsomina; 'Tonio' menos preso à terra e mais espiritual [...] 'Tonio' é um ser plenamente humano; seus amigos também são concretos, vinculados a uma humanidade existencializada (o diretor não pretende dessencializar a realidade humana... tende a um existencialismo)".
A procura do homem "rosselliniano", de fundas raízes católicas, se resolveria no filme por meio de uma dramaturgia em que Tonio, sustentado pela amante inglesa, libertava-se da sujeição para encontrar a plenitude do ser em sua conversão. O conceito de conversão, tirado de Ignace Lepp em Itinerário de Marx a Cristo, definia não uma "ruptura com o passado, mas a realização plena desse passado, sua integração a uma síntese existencial nova e superior à precedente. A ruptura de 'Tonio' com 'Miss Collins' não se integra a uma tergiversação da questão: é mais um ato preparatório à conversão. E o que houve com 'Tonio' foi a plena realização de seu ser, embora tenha utilizado, como instrumento, a libertação." A purificação é o resultado final do processo de busca do homem como elemento temático.
A modernidade de Trigueirinho Neto, portanto, era maior que a de Khouri, reduzido à adaptação dos processo formais do protestante sueco Bergman. A forma com que expressava esta modernidade se encontrava também em outros aspectos como a improvisação, "pode favorecer a criação artística", com o uso de atores não-profissionais: "Tal concepção (fundada na escola neo-realista italiana) é fortemente criticada por teóricos, principalmente por aqueles que se prendem à escola expressionista alemã [...]. A escolha de atores não-profissionais é sábia, porque: a) há um sentido documentário no filme; b) há a necessidade de extrair o ator do contexto social; c) há conveniência de um afastamento do artificial."
O "realismo sincero" da proposta poderia chocar os católicos, entretanto estava distante da pornografia (o realismo "abiliano"). Ela era superior a Rio 40 graus - filme lamentado por certos "católicos" - pela sua visão de mundo, e pelo sentido antropológico da pesquisa (simpatia pelo mulato).
Postas estas observações vinha a discussão da moralidade ou imoralidade do filme, fato que interessava diretamente ao Banco. O realismo, como já tinha sido ressaltado, não conduzia à pornografia. No roteiro apareciam cenas de homossexualismo, "relações ilícitas", diálogos chulos (expressões como "Que merda!"), cenas realistas (Miss Collins em camisola), todas atenuadas, ou porque não desenvolvidas, ou porque integradas à realidade da narrativa (funcionais à trama). É claro que a película era inconveniente aos menores de 18 anos; para os adultos poderia trazer uma contribuição cultural; para os cultos, uma visão exata da Bahia e para os incultos, discutiria a problemática do mulato, da miscigenação.

(...)
A urgência na obtenção do financiamento suplementar encontrava-se no convite para exibição de Bahia na XXI Mostra Internacional de Veneza, que começaria em agosto. A Divisão Cultural do Itamarati considerou ótima a película, tendo o diretor acelerado o processo de sonorização. Perdida a oportunidade em Veneza, Trigueirinho Neto tinha esperanças de enviar o filme para os festivais de São Francisco, Berlim e Karlovy-Vary (A Divisão Cultural, numa reviravolta, vetou a participação do filme no exterior).
(...)
Por ele, vemos como Trigueirinho Neto surgiu no cenário cinematográfico como uma revelação promissora para críticos cinematográficos, professores, produtores, que apostaram na sua carreira. Por uma década se criou esperanças num cineasta dentro de um grupo, que grosso modo podemos identificar com a "herança de Cavalcanti" (até onde vão as afinidades entre O Canto do mar e Bahia é uma questão em aberto).
Os estudos no Centro Sperimentale deram-lhe um cabedal cultural (não era um "aventureiro"), afinado com as mais modernas tendências cinematográficas (o mundo "rosselliniano"), sem que precisasse para isso desfraldar bandeiras de lutas (o nacional-popular em política ou o neo-realismo em cinema ou as duas juntas).
Segundo suas palavras, "esses homens [Cavalcanti e Rossellini] contribuíram para que eu me dedicasse de corpo e alma ao cinema. Mas, se sua linguagem fosse reconhecida em minha fita, isso significaria falta de perfeita assimilação de minha parte. Cultura é exatamente aprender o máximo, manifestando-se em seguida através de recursos próprios. Seria absurdo imitar Rossellini e Cavalcanti, já que, no que se propuseram exprimir, eles foram completos."
Esperava-se uma modernização conceitual de um cinema ainda ancorado no modelo hollywoodiano, expresso claramente pela oposição de Flávio Tambellini, sem que fosse necessário apego às fórmulas políticas (desencadeando uma "rebelião independente", denunciada por Glauber Rocha).
Durante a produção do filme, abriu-se uma nova perspectiva para alguns críticos, futuros cineastas, em Salvador, para quem Bahia seria uma fonte de inspiração e de esforço de correção de percurso (Barravento, de Glauber Rocha, caminha neste sentido).
Na avaliação que fez do papel do diretor na Revisão crítica do cinema brasileiro, Glauber considerou-o um autor, seguindo a opinião de Paulo Emilio no Suplemento Literário de O Estado de S.Paulo, e mais do que isso, um sinal de ruptura com o cinema "tradicional".
Tratava-se agora de se expressar por meio de uma "mise-en-scène", dentro de uma política cinematográfica que Trigueirinho Neto tinha mostrado como factível.
Por fim, aparece um depois, com a decepção advinda de uma profissionalização abortada. Trigueirinho Neto promete a filmagem do romance de Mário de Andrade, Amar verbo intransitivo, mas parou num único longa.
Com o abandono da carreira, várias interrogações ficaram sem resposta. Qual teria sido o seu papel dentro do Cinema Novo? Qual o papel que o homossexualismo (o suicídio de Jurandir Pimentel pode ser parte de um contexto maior) jogou na construção de um personagem como Tonio, por exemplo? Esse sentimento de uma sexualidade dilacerada pode ser ampliada para um sentimento de fissura na identidade nacional do cineasta, dividido entre dois países, o Brasil e a Itália (novamente podemos pensar qual o peso que o modelo de carreira internacional de Alberto Cavalcanti teve na decisão de permanecer no exterior).
Haviam ainda dúvidas de fundo religioso que o levaram a um misticismo cada vez mais atuante até o internamento numa comunidade da qual é o líder.


II - Segunda Fase: Trigueirinho, líder espiritual

artigo extraído do site oficial de Trigueirinho
(http://www.trigueirinho.org.br/autor.html)

A história de Trigueirinho inclui a experiência que é chamada de "transmutação" ou troca de alma, experiência acenada também nas obras de H. P. Blavatsky, Rudolf Steiner e Alice A. Bailey. Por meio da transmutação, o Ser Interno de uma pessoa pode deixar seu corpo para que outro Ser Interno venha assumi-lo. Mas a história de Trigueirinho difere das da maioria das trocas de alma conhecidas, uma vez que ele, depois de já ser um instrutor espiritual, contatou um membro encarnado da Hierarquia que o convidou a servir do modo como agora faz. Acompanhou Trigueirinho até o Vale de ERKS, na Argentina, onde permaneceram enquanto ocorriam as mudanças necessárias. Nível após nível a natureza de Trigueirinho foi purificada e realinhada energeticamente para que a nova consciência que estava transmutando em seus corpos pudesse levar adiante não só trabalhos públicos, através de palestras e encontros, mas também a manifestação de novos livros, bem diferentes dos que Trigueirinho havia escrito até então.

Desde 1987, ano da fundação do centro espiritual no qual trabalha em regime de tempo integral, Trigueirinho caminha sobre uma linha tênue entre as realidades internas e as externas, e sua mente registra interações com o invisível, com seres que vivem na harmonia dos planos internos, e ele procura transmitir essa vivência em palestras que hoje se concentram em Figueira, centro espiritual no interior do estado de Minas Gerais, Brasil.