terça-feira, 1 de dezembro de 2009

As estranhas experiências de Robert Monroe



O Velho Tráfego Local


Se há um fato primordial e óbvio a ser mencionado é o de que ainda estou vivo após 25 anos de experiências pessoais com atividades fora do corpo. É certo que estou um pouco velho, porém ainda me sinto mais ou menos em forma.

Houve vários momentos em que não me senti tão seguro disso.

Entretanto, algumas das maiores autoridades em medicina me garantiram que os problemas de saúde que venho sofrendo têm sido simples conseqüências de viver no meio da civilização e da cultura americana da metade do século XX. Outros têm uma opinião diferente. É a de que o fato de eu ainda estar vivo é o resultado dessa atividade de experiências fora do corpo (EFC). Que explicação você prefere?

Assim, isso significaria que uma pessoa pode "sair do corpo" com certa freqüência, e sobreviver. Além disso, após ter sido periodicamente testado por especialistas, ainda posso afirmar que sou uma pessoa razoavelmente sã vivendo em um mundo nem tão razoavelmente são. Muitas pessoas fazem coisas estranhas e não são recriminadas. Há um século, poderia ter sido algo como descer as Cataratas do Niágara em um barril.

O que é a experiência fora do corpo? Para aqueles que ainda não conhecem o assunto, tal experiência é uma condição na qual você se encontra fora do seu corpo, totalmente consciente e capaz de sentir e agir como se estivesse funcionando fisicamente - com algumas exceções. Você pode se locomover no espaço (e tempo?) lentamente ou aparentemente, além da velocidade da luz. Você pode observar, participar de acontecimentos, tomar decisões baseadas no que percebe e faz. Você pode atravessar a matéria, como paredes, chapas de aço, concreto, terra, oceanos, ar e até radiação atômica sem qualquer esforço ou conseqüência.

Você pode entrar em uma sala adjacente sem precisar abrir a porta. Pode visitar um amigo que mora a cinco mil quilômetros de distância. Pode explorar a lua, o sistema solar e a galáxia, se lhe interessar. Ou pode penetrar outras realidades apenas obscuramente percebidas e teorizadas pela nossa consciência temporal/espacial.

Não se trata de um fenômeno novo. Pesquisas recentes indicam que 25 por cento da nossa população se lembram de ter tido ao menos uma experiência do gênero. A história do homem está cheia de relatos de tais acontecimentos. Na literatura mais antiga, isso era comumente chamado "projeção astral". De início recusei-me a usar esse termo, pois ele continha uma conotação oculta e certamente não era científico segundo os nossos padrões. Charles Tart, um amigo psicólogo, popularizou a expressão "fora do corpo" quando trabalhávamos juntos, por volta de 1960. Nos últimos vinte anos, tornou-se o termo genérico ocidental adotado para esse estado específico.

Sem qualquer motivo evidente, comecei a "sair" do meu corpo no outono de 1958: Sob a luz dos últimos acontecimentos históricos, é importante esclarecer que não tive qualquer contato com drogas ou álcool. Não fazia uso das primeiras e raramente bebia.

Há vários anos, assisti a uma conferência em um lugar não muito distante de nossa antiga residência em Westchester County, Nova York - o lugar de minhas primeiras experiências fora do corpo. Enquanto nos dirigíamos para casa, comentei que ainda considerava obscuro o porquê dessas experiências.

Um amigo psicólogo que viajava comigo deu uma olhada na casa, virou-se e sorriu.

- A resposta é simples: é a casa. Olhe bem para ela.

Nesse momento parei o carro. A casa parecia a mesma, de pedra e telhado verde. O novo proprietário a tinha bem conservada. Virei-me para o meu amigo e disse:

- Não vejo nada de diferente.

- O telhado - replicou ele, apontando para cima. - É uma pirâmide perfeita. Além do mais, é igual ao topo das pirâmides do Egito antes da chegada dos saqueadores.

Olhei estupefato.

- É o poder das pirâmides, Robert - continuou. - Você já leu sobre isso. Tudo aconteceu porque você morava em uma pirâmide, foi isso!

Poder das pirâmides? É, pode ser. Existem relatórios e livros que falam de estranhas energias nas pirâmides.

Dizer que a experiência fora do corpo me amedrontava na época é uma espécie de eufemismo. Cada vez que se repetia, eu tinha visões alucinantes de tumores cerebrais e de loucura próxima. Isso me levou a submeter-me a exames médicos completos, todos com resultado negativo, seguidos de recomendações de psicoterapia para uma "leve disfunção alucinatória".

Imediatamente descartei esse diagnóstico. Alguns dos meus melhores amigos na época eram psiquiatras e psicólogos com seus próprios problemas, embora fossem certamente mais ortodoxos.

Em vez disso, comecei, por instinto de autopreservação, a procurar e pesquisar teimosamente o fenômeno e, à medida que o medo e o pânico se acalmavam, por curiosidade cada vez maior. O caminho me levou para longe dos círculos científicos convencionais (rejeição total), das religiões ("É obra do demônio"), da parapsicologia ("Interessante. Desculpe, mas não há informações disponíveis"), e de disciplinas orientais ("venha estudar em nosso ashram, no norte da índia, por dez anos"). Isso tudo foi relatado no meu livro anterior, Viagens Fora do Corpo.

Uma coisa é certa. O objetivo do livro anterior foi plenamente atingido. Graças a ele recebi milhares de cartas de todas as partes do mundo e, entre elas, centenas de pessoas agradeciam por haver-lhes garantido que elas não eram mentalmente perturbadas, que, depois de tudo, não se achavam tão sozinhas com suas experiências secretas e "escondidas" que não podiam explicar e, o que é mais importante, que não eram necessariamente candidatas ao divã do analista ou ao hospital psiquiátrico. Esse foi o claro propósito do livro original: ajudar ao menos uma pessoa a evitar tal encarceramento desnecessário.

Estou perplexo com as mudanças ocorridas nesses 25 anos. Na maioria dos meios acadêmicos e intelectuais, já é bastante aceitável falar em experiências fora do corpo (EFC). No entanto, estou certo de que a maioria das pessoas em nossa cultura ainda não está consciente desse aspecto de suas vidas. Em 1959 ou 1960, eu certamente teria ridicularizado a idéia de dar uma possível palestra sobre EFC na Smithsonian Institution. Ou de que estudos sobre o assunto seriam apresentados à Associação Psiquiátrica Americana. Mas isso aconteceu.

Uma das perguntas mais freqüentes que ouço me faz lembrar da velha rotina de show-business, quando um apresentador entrevista um artista que procura emprego. O que ele está ouvindo não é novidade: que o artista estreou em The Great One em 1922, brilhou em Who Goes There em 1938, ganhou o Prêmio da Crítica pelo seu desempenho em Nose to Nose, onde foi o protagonista principal, e em 1949 fez o papel de Willie em What Makes WiIlie Weep.

O apresentador o interrompe e faz a simples pergunta: - Isso é ótimo, mas o que você fez ontem?
É assim mesmo. O que tenho feito (fora do corpo) desde a publi¬cação de Viagens Fora do Corpo? Minha resposta é geralmente esta:

lá pelos anos 70, comecei a experimentar uma frustração, uma limitação nas minhas experiências extracorporais. Acho que é difícil acreditar, mas tais viagens começaram a se tornar aborrecidas. O entusiasmo inicial já se acabara há muito. Fazia um esforço para participar de testes controlados, e por causa disso comecei a perceber que a forma específica do teste não fazia parte do meu modo de operar. Além do mais, quando me libertei das limitações dos testes, não percebia haver nada de excitante para fazer.



Minha introdução deliberada ao segundo estado tornou-se monótona porque encontrei maneira mais fácil de alcançá-lo. Eu acordava depois de dois ou talvez três ciclos de sono, ou aproximadamente após três ou quatro horas, e já me encontrava fisicamente relaxado, descansado, e completamente acordado. Naquele estado, eu achava ridiculamente fácil me "soltar" e voar livremente para fora do corpo. Isso é claro, me colocou diante do problema de o que fazer naquele mo mento. Todas as outras pessoas estavam dormindo às três ou quatro e meia da manhã. Não valia a pena sair e encontrar com pessoas enquanto elas estavam dormindo, e nem sequer havia uma simples perspectiva de validaçao por causa da hora. Assim, sem qualquer objetivo especlfico, eu geralmente vagueava um pouco, depois voltava acendia a luz, lia até ficar com sono novamente, e pronto.

Isso aumentava a frustração, já que ainda havia a compulsão. Todo o esforço para atuar extracorporalmentc tinha que ter algum significado ou importância além do que a minha mente consciente (ou a dos outros) considerava importante.

Na primavera de 1972, uma decisão trouxe a resposta. O fator limiltante era a mmha mente. Então, se as decisões de EFC fossem deixadas para aquela parte de mim, como acontecera, eu continuaria exatamente como era. Eu tinha completo controle de tudo - o "eu" do hemisfério cerebral esquerdo. O que aconteceria se eu deixasse esse processo de tomar decisões para o meu "eu" inteiro (a alma?), que estava supostamente familiarizado com tais atividades?

Acreditando nisso, pus logo em prática. Na noite seguinte, ao dormir, passei por dois ciclos de sono (mais ou menos três horas), acordei, e me lembrei da decisão. Separei-me do corpo e flutuei livremente. Disse à minha mente consciente que as decisões deveriam ser tomadas pelo meu eu inteiro. Depois de esperar o que me pareceu apenas alguns segundos, houve como que uma oscilação tremenda, um movimento, uma energia naquela total escuridão espacial, e então começou para mim. uma nova era nas minhas atividades extracorporais. Desde aquela noite, as minhas experiências fora do corpo têm sido quase todas através desse procedimento.

Os resultados têm sido de uma natureza tão diferente de qualquer coisa que minha mente pudesse conceber que isso provocou um novo prolema. Embora a minha consciência do concreto "aqui e agora" esteja sempre participando, mais de noventa por cento de tais acontecimentos não poderiam ser traduzidos na perspectiva de espaço e tempo. É como se alguém tentasse descrever música como uma orquestra sinfônica com coro, fazendo-o através de palavras sem usar descrições tecmcas como notas, instrumentos, intervalos, tonalidades etc. Uma pessoa pode usar palavras como "lindo", "poderoso" "assustador" "atemorizante", "cálido", "adorável", "belo" - e ficar muito lon ge da verdadeira descrição.

Faz-se o melhor que se pode. O que, suponho, é o que vai acontecer à medida que se tenta. Tenho certeza de que seria mais fácil relatar a viagem de barril pelas Cataratas de Niágara.

Minhas atividades "aqui e agora" trouxeram outro problema. Nenhum dos exercícios e técnicas que eu planejara e preparara para os outros funcionava para mim. Alguns amigos psicólogos levantaram várias razões por que eles não eram eficazes no meu caso. A mais simples é a de que não consigo livrar-me do meu cérebro esquerdo. Tenho estado tão envolvido no processo de produção que a minha capacidade crítica e analítica simplesmente não abandonará o material que prende a atenção ao "aqui e agora". Além disso, para produzir esses exercícios em áudio, tive de ouvir com intensa concentração a gravação e mixagem dos vários sons que usamos. Evidentemente, precisei cortar o efeito. Mesmo um simples tom de uma freqüência me faz analisá-la e tentar determinar se é estável.

Talvez exista um efeito do qual não tenho consciência. Mas é estranho ficar olhando sobre a cerca de um jardim que você plantou e fertilizou, vendo as outras pessoas se divertirem.

As partes "aqui e agora" dos acontecimentos recentes são relativamente precisas. Por exemplo, eu me tornara dolorosamente consciente de que meu corpo começou a rejeitar substâncias químicas, inclusive álcool, remédios fortes, cafeína e, evidentemente, qualquer outra coisa que meu corpo rejeita como antinatural. A rejeição ou reação alérgica toma a forma de suor intenso, vômitos e/ou fortes cólicas abdominais. Por um lado isso pode ser bom, mas também tem as suas desvantagens. Nunca fui de beber muito, mas até mesmo um copo de vmho desencadeia o processo de rejeição.

Durante uma cirurgia é uma situação difícil. Começo a rejeitar a anestesia e acordo na mesa de operação, sentindo o cirurgião me costurar (para surpresa do anestesista). No pós-operatório, ao sentir dor intensa, uma injeção de Demerol me causa apenas muitos vômitos. Você pode imaginar minha frustração quando outros estão usando um sistema que desenvolvemos e que permite um excelente controle da dor sem o uso de drogas no período pós-operatório. Nas minhas visitas a hospitais, durante os últimos dez anos, o sistema só funcionou comigo uma vez. Fiquei extremamente desapontado quando não fez efeito algum na última vez. Foi um fato quase insuportável. Mas não sabia que, se saísse conscientemente do meu corpo, não teria coragem de voltar para aquele mar de dor escaldante.

Um amigo psicólogo mostrou-se a princípio cético com relação a essa alergia aos remédios. Além disso, estava interessado em saber que efeitos as chamadas drogas de divertimento teriam sobre o meu tipo de constituição pessoal e física. Tentamos mescalina de laboratório e LSD no meu organismo. Nada aconteceu.

Outro fato: perguntei a um amigo não-físico se eu existira não¬fisicamente em passado recente.

Foi uma das poucas respostas verbais claras que recebi:

- Você passou a sua última vida em um mosteiro em Coshocton, Pensilvânia.

Procurei no mapa da Pensilvânia e não achei esse Coshocton. Sabia que existia um lugar com esse nome em Ohio, porque eu já morara nesse estado. Então, perguntei novamente, para me certificar de que o estado estava certo. Era realmente Pensilvânia. Não dei muita atenção a isso porque não estou tão interessado em saber quem eu era, se é que era. Mencionei o fato a um monsenhor católico amigo meu, e ele se ofereceu para procurar nos seus registros. Algumas semanas mais tarde, ele me telefonou para dizer que havia realmente um mosteiro em um lugar chamado Coshocton, Pensilvânia. Ele achou que seria interessante ir até lá num final de semana e ver se eu reagia a quaisquer recordações. Talvez, um dia.

Fato 3: O bolso da calça de dinheiro. Durante anos, mantive isso em segredo porque ninguém acredita. Mostrei à minha esposa, Nancy, e ela ainda se mantém cética. Parece que quando deixo uma certa calça pendurada no guarda-roupa do quarto, ela cria dinheiro. Dinheiro verdadeiro, nem novo nem amassado, geralmente um pouco usado. Nunca é uma grande quantia; o máximo que já achei até hoje no bolso foram onze dólares. Geralmente só encontro dois, três ou quatro dólares. O tempo não parece influenciar. Posso esquecer isso por uma semana, e lá estarão talvez três dólares. Posso não chegar perto por três meses, e pode haver apenas seis dólares. Não parece haver qualquer padrão específico para o surgimento do dinheiro. Posso levar minha calça para a lavanderia e trazê-la de volta dentro do saco plástico. Não faz qualquer diferença. Pensamos na possibilidade de eu ter andado durante o sono e colocado dinheiro dentro do bolso da calça, mas o fato de o saco plástico ficar fechado descartou tal idéia. Uma razão lógica é que isso é um resultado decorrente de uma necessidade urgente de alguns dólares em minha adolescência (aconteceu uma coisa estranha naquela época que pode ter relação com isso).

Alguma parte de mim ainda recorda aquela extrema necessidade e tenta supri-la. É uma pena que quando você atinge outra etapa da sua vida, cinco, seis ou onze dólares não representam muita coisa. Muito poucas pessoas acreditam nisso, e elas têm razão. Eu também não acreditaria se não tivesse acontecido comigo.

Fato 4: Em nossa casa em Whistlefield Farm, havia uma varanda coberta dando para a sala de estar. Para chegar à varanda, uma pessoa tinha de passar por duas portas e descer uma série de degraus de pedra que levavam à varanda em um nível inferior. Esses degraus eram muito altos, sendo a diferença de altura aproximadamente de um metro e vinte.

Certa manhã, carregando nos braços livros e papéis, andei até a entrada para a varanda e tropecei. Meu pé esquerdo cruzou o direito e mergulhei de cabeça na direção do chão de pedra. Durante a queda, não consegui por os braços na frente para me apoiar. Lembro-me de haver pensado: "Bem, certamente vou terminar com a cabeça e o pescoço quebrados."

Mais ou menos a quinze centímetros do chão, minha queda foi repentinamente interrompida e caí suavemente sobre a cabeça e os ombros. O resto do meu corpo dobrou-se gradualmente, deslizando tão leve como uma pena. Fiquei quieto por um momento, tentando imaginar o que teria acontecido. Senti a cabeça e os ombros, e não havia dor, marca, contusão, nada. Levantei-me, apanhei os livros e os papéis, olhei para o lugar de onde eu caíra e tentei achar uma explicação para o fato. Alguma coisa amortecera minha queda, mas eu não tinha absoluta consciência de quê.

Alguns meses mais tarde, no meio do inverno, aconteceu uma coisa parecida. Eu estava descendo os degraus da frente, que haviam sido aparentemente limpos depois da neve, quando escorreguei e comecei a cair. Dessa vez não fiquei tão surpreso quando, de novo, caí muito levemente. Isso só aconteceu duas vezes, e não pretendo tentar cair deliberadamente para experimentar mais uma vez. Esse é apenas mais um dos momentos "até agora" inexplicados.

Fato 5: Um dos acontecimentos mais inexplicáveis ocorreu como resultado de uma comunicação direta. Em uma madrugada nos meados dos anos 70, para ser preciso por volta de três horas, na minha habitual maneira preguiçosa fui me desvencilhando do meu corpo. Quase instantaneamente, fui abordado por um indivíduo de forma indistinta, que me deu essa instrução bem específica:

- Sr. Monroe, esteja em Eaglehill às sete da manhã do dia 4 de julho. - Surpreso, pedi que repetisse a instrução, e ele o fez de maneira idêntica:

- Sr. Monroe, esteja em Eaglehill às sete da manhã do dia 4 de julho.

Antes de ter uma chance para perguntar por que e do que se tratava, a imagem foi diminuindo e desapareceu. Então, voltei para o meu corpo, me levantei e escrevi a mensagem cuidadosamente.

Na noite seguinte, quando repeti o ato, a imagem voltou quase imediatamente com a mesma mensagem. Ela era bem definida - quase uma ordem - e novamente a figura desapareceu antes de eu ter a chance de perguntar mais alguma coisa. Na terceira noite, tentei ver se ela se repetia mais uma vez, mas não houve qualquer manifestação. O mais impressionante é que a ordem era bem clara. E repetiu-se de maneira idêntica na segunda noite. E mais importante: "eles" realmente me chamavam pelo nome.

Aquela ordem despertou grande curiosidade em mim e nas pessoas da família e amigos a quem contei a experiência. Especulamos sobre isso de várias formas, mas a questão era: "Onde fica Eaglehill?" A ordem fora dada lá pelo mês de abril, e parecia haver tempo suficiente para descobrir o que significava a mensagem. Porém, por mais que tentássemos, não conseguimos encontrar nenhum lugar chamado Eaglehill. Passadas algumas semanas, eu quase nem me lembrava mais daquilo.

Um fato mudou tudo. Visitando uns amigos a centenas de quilômetros de casa, jantávamos no quintal da casa deles. Meu anfitrião tinha um radiorreceptor que captava automaticamente várias freqüências, como polícia, bombeiros etc. Estávamos sentados conversando, quando repentinamente alguém no rádio falou "Eaglehill".

Imediatamente, aquilo despertou a minha atenção. Excitado, perguntei ao meu amigo em que estação o rádio estava ligado, e ele me respondeu que era a freqüência da F AA * para instruções entre uma aeronave e outra. Esperei ansioso que o rádio transmitisse algo mais. Curioso, meu amigo perguntou o que era tão importante. É desnecessário dizer que achei que não podia contar-lhe. Após alguns minutos o rádio disse claramente e alto: "Aqui é a Unidade 351 sobre Eaglehill a doze mil pés."

No dia seguinte, após exaustiva viagem para casa, fui à seção da F AA em nosso aeroporto local e perguntei ao funcionário onde era EaglehilI. Ele respondeu logo que ficava em um estado vizinho, e que era um radiofarol. Mostrou-me o lugar no mapa regional de radiocomunicação e lá estava Eaglehill. Evidentemente, havia algum tipo de vilarejo com esse nome, embora não aparecesse em nenhum dos mapas rodoviários que possuímos.

Isso deu uma perspectiva totalmente nova à mensagem. Assim, na tarde do dia 3 de julho, sai de casa para a longa viagem até EaglehilI. Fui até a cidadezinha mais próxima do suposto local, procurei um hotel, jantei e fui para a cama cedo.

Exatamente às sete horas da manhã seguinte, encaminhei-me para um cruzamento que se chamava Eaglehill. Consistia de duas ou três casas, uma garagem e um armazém, todos situados perto de um cruzamento de estradas rurais. Não era um lugar muito impressionante, para não dizer o contrário. Parecia que não mudara nos últimos trinta ou quarenta anos. Parei o carro no acostamento. Vários habitantes sentados do lado de fora da garagem me olhavam curiosamente enquanto, sentado, eu esperava.

Esperei mais de uma hora e nada aconteceu. Ninguém se aproximou de mim. Não senti nada além da ansiedade inicial e do desapontamento que se seguiu a ela. Finalmente, pouco depois das oito horas, sob olhares curiosos, liguei o carro e atravessei Eaglehill. Continuei ainda uns três quilômetros pela região, nada encontrando além das fazendas. Voltei para o cruzamento e percorri vários quilômetros na direção oeste. Outra vez, nada havia de diferente, ninguém me fez sinal, nada vi além de campo e fazendas. Tentei o leste. Era tudo a mesma coisa. Voltei para o lugar onde havia parado o carro e esperei. Por volta do meio-dia, decidi que tudo fora ilusão, voltei para o hotel, paguei a conta e almocei. Ou eu estava no Eaglehill errado, ou entendi mal, ou foi tudo uma brincadeira ou um sonho.

Depois de muita reflexão, finalmente encontrei o meu erro. O convite, ou o pedido, não era de que eu fosse a Eaglehill fisicamente, e sim extracorporalmente. O que o convite não levou em consideração foi a minha dificuldade em ir diretamente para um lugar, em vez de ir ao encontro de uma pessoa.

Pondo lenha na fogueira: anos mais tarde, ao encontrar-me com um funcionário do governo, perguntei-lhe sobre aquele lugar específico, sem explicar o motivo do meu interesse. Ele me contou que ali era o local de um projeto especial de pesquisas do governo. Estava sendo construído na época em que estive lá. Evidentemente, isso ainda não é de conhecimento geral, ou pelo menos não quero me arriscar a falar a respeito. Assim, o lugar mencionado no meu relato não corresponde à verdade. Ainda gosto de especular sobre o que poderia ter acontecido se eu tivesse mantido o meu compromisso - no estado não-corporal.



Fato 5: A minha companhia recebera o direito de instalar um sistema de televisão por cabo em Charlottesville, Virgínia, e precisávamos de um lugar para uma antena receptora no alto de um morro bem na saída da cidade. O dono do morro era Roy, um homenzinho vigoroso, baixo, quase careca, de olhos azuis brilhantes, e com um senso de humor seco e sutil. O seu rosto era enrugado e bronzeado, devido a muitos anos supervisionando o trabalho no cultivo de vinte mil macieiras no topo do morro. Sendo ele um escocês típico, a negociação foi planejadamente casual, mas chegou a um fim bastante razoável e justo. E ficamos amigos.

Uma sexta-feira depois do almoço, ele olhou para mim, piscou e disse:

- Você gosta de jogar cartas?

Tive uma daquelas velhas motivações repentinas. - Que tipo de jogo?

- Bem - disse ele - algumas pessoas não gostam de chamar de pôquer porque jogamos muitos jogos malucos; mas você pode se divertir muito com ele. São partidas valendo apenas dez e vinte centavos, por isso você não pode esperar ganhar muito dinheiro. Nós jogamos cada sexta-feira à noite na casa de um amigo diferente, e a única coisa é que nós não bebemos nada. É o jogo de pôquer mais antigo em Charlottesville. Deve ter começado há uns setenta anos, e continua firme desde então ... e olha que é bastante tempo. Se quiser aparecer esta noite, vou apanhá-lo onde você estiver, por volta das sete e meia. Você vai gostar da prática grupal.

Olhei para ele, perplexo. - Prática grupal?

Ele sorriu:

- É assim que chamamos isso aqui na Virgínia. Alguns colegas dizem que não têm certeza se é legal ou não, e já ouvimos falar de outros jogos que foram proibidos por causa de apostas. Lógico que nós não estam os fazendo nada desse tipo.

Sorri.

- Não, é claro que não. Costumamos nos encontrar às sete e meia para a prática grupal.

Tornei-me um freqüentador regular da prática grupal. Eu não ia toda sexta-feira, mas aparecia pelo menos duas vezes por mês. Era uma mudança bem-vinda na minha rotina de trabalho com televisão por cabo, e os participantes eram comerciantes locais que, em sua maioria, passaram toda a vida em Charlottesville.

Eles também desconheciam completamente qualquer pesquisa estranha ou outras atividades em que eu pudesse estar envolvido. Mesmo quando o meu primeiro livro foi publicado, eles não tomaram conhecimento e eu também nem toquei no assunto. Hoje em dia, talvez um ou dois saibam mais ou menos o que eu faço.

A primeira indicação de que havia fatores estranhos envolvidos na prática grupal do jogo de cartas surgiu uns dois anos mais tarde, quando seis de nós disputávamos um jogo de pôquer a sete cartas com carta aberta. As cartas começaram a ser dadas normalmente. As minhas duas cartas fechadas eram um três e um quatro de paus. Entre as cartas viradas para cima que recebi estavam um cinco e um sete de paus. A banca era muito forte; havia pares espalhados pela mesa, incluindo um par de ases nas cartas abertas de Roy.

Depois de ter ficado na banca, o que eu não tinha direito algum de fazer, tentando comprar uma seqüência ou um flush , a sétima e última carta foi dada a cada um de nós virada para baixo. Não olhei para a minha. De repente, sem qualquer dúvida, eu soube que a minha carta era um seis de paus. Era estranho, eu simplesmente "sabia".

- Roy - disse eu, mostrando a carta em que nem havia tocado - é um seis de paus, e isso irá me fazer um straight flush. E ele vai bater o seu full de ases.

Roy olhou para a carta e depois me encarou com um sorriso malicioso. Ele já olhara para sua última carta e sabia que tinha um full de ases.

- Aposto cinco como você não tem. Não é o seis de paus. Alcancei a pilha de fichas e disse:

- É sim, Roy.

Ele sorriu e colocou sua pilha junto da minha. - Tá bem, então me mostre.

Virei a carta e era o seis de paus.

Roy sorriu.

- Isso aí não bate meu full house. - Ele virou o seu full de ases, que batia as outras mãos da mesa. - Eu tenho o outro cinco, que prova que você não tem o três e o quatro de paus fechados.

Sorri.

- Não quero o seu dinheiro, Roy.

- Um straight flush vai bater o meu full de ases. - Ele empurrou outra pilha de fichas. - Não acho que você o tenha. De alguma forma, você sabia que aí tinha um seis de paus, e você tem que soltá-lo enquanto está ganhando.

Sorri novamente e disse:

- Eu não quero o outro cinco, Roy. - Então, virei o três e o quatro fechados, fazendo o straight flush de paus.

Ele simplesmente olhou para a carta e disse: - E o que é isso?

Na jogada seguinte, com Roy dando as cartas, aquela sensação que tive ainda estava lá, era forte; mais uma vez, eu "sabia". Nem olhei para as minhas cartas fechadas. Nas quatro cartas que recebi, viradas para cima, havia um cinco e um sete de copas. Eu sabia. É só o que posso dizer; eu sabia.

Roy - falei - está vendo o cinco e o sete de copas? - Roy fez que sim com a cabeça. Dessa vez ele não tinha os ases. - Bem, essa última carta que você vai dar é um seis de copas, e ele vai me fazer um straight flush de copas. Tá vendo? Eu ainda não vi as minhas cartas de baixo. - Ele concordou, fazendo um gesto positivo com a cabeça e observando. Roy tinha dado as cartas. Os outros jogadores olhavam atentamente, esperando que eu perdesse. Roy era um jogador excepcional.

Recebi a última carta virada para baixo e, antes que pudesse levantá-la, Roy disse:

- Aposto mais cinco como não é o seis de copas. Não, pensando bem, passo para dez. - Ele empurrou um monte de fichas.

- Não quero o seu dinheiro, Roy - disse eu, sorrindo.

- Você não vai tirá-lo de mim, nem vou dá-lo a você - disse ele

- Ponha a carta na mesa. Fiz como Roy pediu.

- Agora vire a carta - disse ele. Obedeci e era o seis de copas.

Roy me encarou com total espanto. Ele estava dando as cartas. Não podia haver trapaça diante das circunstâncias.

- E além disso - falei - essas duas cartas fechadas que ainda não vi são o três e o quatro de copas.

Roy olhou para mim.

- Aposto vinte como não são. Com extrema naturalidade, eu disse:

- Não quero o seu dinheiro, Roy. - E virei as duas cartas fechadas. Eram o três e o quatro de copas.

Roy olhou para o straight flush, o mesmo de antes, só que dessa vez era de copas.

- Às vezes você é o cara mais sortudo que já conheci. Os outros concordaram.

Aquele período específico de "sorte" foi comentado durante vários meses. As probabilidades de acontecerem dois straight flush sucessivos do mesmo tipo e com a mesma pessoa em um jogo com seis participantes são por volta de 5.780.000 por uma. Como isso aconteceu? Não sei. Como eu sabia das cartas? Muito simples, era apenas uma certeza. Acho que inúmeros grandes apostadores têm feito muito dinheiro nesse negócio. E também têm perdido, porque a "certeza" estava errada.



(Trecho extraído do livro " Viagens Além do Universo, de Robert Monroe)

3 comentários:

Raphael de Souza Araujo Lima disse...

nunca tive experiências tão claras, mas sinto que por causa de concentração original... mas percebo diariamente meditando e buscando conversar com a Vida ou se preferir Deus, tenho conquistado uma paz estranha e materialmente as coisas não andam bem para mim, mas de uma maneira muito mais estranha me sinto rico e despreocupado... Agora dos sonhos, continuo a sonhar e não saber o que eles querem dizer exatamente... talvez não precise mesmo... enfim... vamos indo!

Gratidão!

Richard Hermeticum disse...

Olá Raphael,
"materialmente as coisas não andam bem para mim, mas de uma maneira muito mais estranha me sinto rico e despreocupado..."

Penso que esse sentimento é uma consequência directa da tua meditação, visto que a "segurança na insegurança", ou - se preferires - a "estabilidade na instabilidade, é um dos objectivos do desenvolvimento interior.

Continua a passar por cá, porque és sempre bem vindo!

Abraço,
Richard

jholland disse...

Obrigado a ambos por seus valiosos comentários.

Como bem salientou o Richard, é geralmente tido como sinal seguro de crescimento espiritual a diminuição da ansiedade, em especial por razões mundanas e/ou materiais.

Seu estado de serenidade parece-me refletir exatamente isso, é a maior riqueza que um homem pode buscar.

Aproveito para sugerir aqui a leitura de um ótimo livro - que tem tudo a ver com o que você está passando e sentindo - por sinal muito agradável também: "O Fio da Navalha" de S. Maugham.

(aliás, andei postando alguma coisa sobre o filme baseado no livro em:

http://metamorficus.blogspot.com/2008/01/filme-o-fio-da-navalha-razors-edge-de.html)

O "mestre" espiritual que aparece no filme e no livro é um personagem baseado em Sri Ramana Maharshi, sobre quem já postei algo aqui mesmo no Blog.

Abs !!