quinta-feira, 23 de abril de 2009

O Deus exilado



(Matérias extraídas do Blog Holosgaia)

Os cristãos gnósticos são o tema do livro ‘Deus Exilado’, escrito por professora da USP.

A história do Cristianismo no mundo se divide entre perseguidos e perseguidores. A intolerância com a fé alheia promoveu - e ainda promove - muitos levantes e massacres ao longo dos séculos. Guerras civis em nome da religião sufocaram muitos credos em nome um totalitarismo cristão, baseado em dogmas impostos pela maioria. Mas houve um tempo em que as crenças cristãs eram bem mais pluralistas do que hoje; nessa época, aceitavam-se todas as opiniões sobre o quê e quem era Deus. A Palavra era interpretada ao modo de quem nela acreditava, gente simples ou de posses.



Esse período e seus principais personagens - os cristãos gnósticos que viveram nos três primeiros séculos de nossa era - são o tema do livro Deus Exilado (Civilização Brasileira; 272 páginas; R$ 39,00), escrito pela professora de história da filosofia e doutrinas políticas da Escola de Comunicação e Arte da USP, Marília Fiorillo.


Chamados pela autora de “anarquistas espirituais”, os cristãos gnósticos, segundo ela, eram “livres-pensadores discípulos de Jesus e se consideravam Seus genuínos seguidores, cristãos de verdade e opositores dos ‘falsos crentes’ (futuros católicos)”.


De acordo com Marília Fiorillo, os gnósticos eram "extremamente influentes no Egito, na Síria e na Ásia Menor, populares e incômodos o suficiente a ponto de desencadearem a primeira campanha anti-herética da Igreja que apenas engatinhava".


A existência dessa seita do Cristianismo foi confirmada pela descoberta nos anos 1970 dos manuscritos da biblioteca de Nag Hammadi, pequena localidade no Egito, e que continha os evangelhos gnósticos. “Foi uma reviravolta na história oficial, que os ignorava e os tratava como hereges tardios”, afirma a professora.


Doutora em História Social, Marília Fiorillo foi buscar na Ciência o rastro da seita cujos seguidores pensavam muito diferente dos cristãos que os sucederam. Documentos paleográficos “provaram que o cristianismo primitivo, o dos três primeiros séculos, quase nada tinha em comum com aquela doutrina exclusivista e excludente transformada em religião oficial pelo imperador Constantino no século IV, e logo tornada religião única e obrigatória do Império Romano”, afirma a autora.


Segundo o livro da professora da USP, os cristãos gnósticos foram sendo dizimados ao longo dos séculos e desapareceram por completo na Idade Média, pelas mãos do papa Inocêncio III. Foi ele quem promoveu a Cruzada Albigense, que queimou vivos tantos “bons homens” como os gnósticos eram conhecidos na época.


A barbárie em nome de um credo único foi tanta que cidadelas inteiras foram queimadas, mesmo depois que seus moradores já haviam se rendido ao Catolicismo. A Igreja não poderia deixar rastro do pensamento irreverente dos gnósticos.


Na apresentação da publicação, a autora diz que o livro é "para gente desconfiada. Para quem desconfia que há muita história que nos foi subtraída, não por odiosa conspiração dos vencedores, mas porque a versão do vencido se perde no rastro da história".


A autora afirma também que Deus Exilado pode ser um livro "para quem está preocupado com o avanço do fundamentalismo religioso, que intoxica o mundo de modo tão ecumênico, infiltrando-se em todos os cantos do planeta".



Entrevista com Marília Fiorillo

Quando e em que circunstâncias surgem os primeiros movimentos gnósticos?

Falar em gnosticismo é o mesmo que falar em cristianismo primitivo, pois os cristãos gnósticos surgem com os primeiros grupos de seguidores de Jesus, já em finais do século I , e são praticamente os primeiros e únicos no Egito e na Síria oriental (que, com Antioquia e Roma, eram as metrópoles da nova religião), até o século IV. Isto ficou comprovado pela descoberta recente dos manuscritos de Nag Hammadi, e dos Evangelhos de Maria e de Judas, que, apesar de encontrados em locais diferentes, fazem parte de uma mesma "biblioteca" gnóstica, isto é, trazem uma versão própria e diferente do que as comunidades então acreditavam ter sido a mensagem do fundador Jesus. Pode-se dizer que este livro trata de uma revisão histórica, ao dar voz aos perdedores da primeira batalha dentro do cristianismo, revelando fatos e ideários que não foram registrados na história oficial da Igreja. Esta, aliás, os combateu desde o princípio, e os derrotou de vez assim que a facção de Roma -a dos futuros católicos- ganhou a simpatia do imperador Constantino e se tornou a religião oficial do império romano.A descoberta de um rico e vasto material sobre as comunidades gnósticas permitiu a divulgação, e reinterpretação, de uma outra versão sobre os primórdios do cristianismo. È interessante como esta questão das versões é atualíssima, e está em pauta, por exemplo, no principal episódio de política internacional que ocupou as manchetes nos últimos dias: os acontecimentos dramáticos que têm ocorrido na Faixa de Gaza. A versão oficial de Israel é a da legítima defesa; a versão de vários governos tem sido a de que se trata de um ataque desproporcional; já a versão do comissariado de direitos humanos da ONU, da Cruz Vermelha, da Anistia Internacional, da Human Rights Watch e de outras organizações humanitárias , após a divulgação dos últimos acontecimentos, é a de que se trata de um crime de guerra. A perseguição aos gnósticos foi brandíssima, mesmo tímida, se comparada ao atual massacre da população civil palestina. Mas em ambos os casos a história acaba se tornando a versão daquele que vence, daquele que ficou, ou ficará, para contá-la com autoridade ou legitimidade.

Quais são as principais questões que mobilizam seus integrantes, e quais os principais ramos que se desenvolvem?

Uma das principais características do gnosticismo é sua pluralidade. Eles divergem dos ortodoxos - aqui entendidos como os futuros católicos, "futuros" pois, até o século IV, ninguém poderia dizer ao certo quem era "orto", isto é, "reto", e quem era "hetero", isto é "diferente", pois as doxas (isto é, opiniões, no caso sobre o cristianismo) se equilibravam em número de adesões, importância e popularidade. Isto fica claro quando lembramos que dois dos expoentes gnósticos do século II, Valentino e Marcion, concorreram ao mais alto cargo de bispo inclusive em terreno alheio, isto é, Roma.Assim, os gnósticos divergem mesmo entre si, e muito: há os que acham que a ressurreição foi só simbólica (os docéticos) e os que crêem que foi real, material; há aqueles simpáticos a certas passagens da Torá hebraica e os que a repudiam veementemente; os que acham que Jesus era um sábio, ou um anjo, ou um mestre ou a própria divindade.Neste oceano de divergências compartilhadas eles têm, porém, três princípios em comum:
1) o de que o caminho para a salvação se faz pela gnose, ou conhecimento direto e individual de Deus, e não pela fé em algo transmitido por terceiros;
2) a idéia de que conhecer Deus é se conhecer, isto é, que cada pessoa possui uma faísca do divino em si; e
3) uma certa insolência ou arrogância que se revela tanto no estilo de seus evangelhos como no menosprezo que devotam aos opositores ortodoxos, para eles uns "tolos" e "falsos cristãos".

Como se dá o diálogo entre esses pensadores e o cristianismo?

Na verdade esses pensadores –pregadores, lideranças ou escritores- são tão cristãos quanto os que ficaram com o título. O diálogo e debate é intenso e feroz, eles se acusam mutuamente (de ímpios ou tolos) e há mesmo autores que dizem ser impossível imaginar a Igreja sem eles, pois eram a sombra uns dos outros, tamanha a competição, e em pé de igualdade. Dois padres da Igreja escreveram profusamente sobre eles no segundo século, Irineu de Lyon e Tertuliano de Cartago –este último foi tão zeloso em sua campanha que seu purismo acabou levando-o a ser excomungado pela própria Igreja.
Quando Irineu e Tertuliano acusam os gnósticos de "serpentes, escorpiões, devassos", o que lhes incomoda são principalmente dois traços de seus adversários: a imaginação (muitas vezes desenfreada ), e a audácia.
A principal acusação de Irineu era a de que os gnósticos não possuíam "o medo de Deus em seus corações". Para este primeiro teólogo da Igreja, o medo da punição divina era o que forjava um bom cristão, e como os gnósticos não pareciam movidos a medo, sugeriu que o melhor método para tratar estes adversários internos era "ferir fundo a besta".
A principal crítica de Tertuliano -além de seu horror ao "despudor" das mulheres que participavam como iguais dos cultos gnósticos- era que estes "dissidentes" misturavam platonismo, isto é, filosofia, com cristianismo, e se permitiam a veleidade de pensar como bem entendiam. A "humanidade" (sic) com que os gnósticos se tratavam, assim como o "atrevimento" de suas mulheres , além da mania petulante deles de "perguntar sobre tudo" eram, segundo Tertuliano, vícios imperdoáveis.
Mas o mais interessante, agora que se pode ler na íntegra as idéias contidas nos manuscritos gnósticos, é notar o quanto a teologia dita ortodoxa nasceu, na verdade, de um empréstimo das idéias gnósticas, viradas do avesso. Por mais que Irineu e Tertuliano abominassem a imaginação gnóstica, foi nela que beberam. A teologia ortodoxa nasce como uma teologia da refutação, em que os éons dos gnósticos foram transformados em anjos, a ignorância (para os gnósticos, fonte de todo mal) virou pecado e a questão do sofrimento humano foi equacionada no livre-arbítrio.




Em que o gnosticismo pode ser importante para as reflexões contemporâneas?

Em uma palavra: no amor à liberdade. Os gnósticos eram ridicularizados e atacados por seus oponentes tanto por seu "excesso de imaginação" , isto é, pela livre interpretação que faziam da mensagem cristã (um de seus críticos dizia que eles empilhavam doutrinas como quartos de aluguel, e que havia tantos gnosticismos quanto membros de uma congregação), quanto por sua excessiva tolerância –eles admitiam que mulheres virassem bispos, adotavam o sistema de funções em rodízio, e achavam que o contato com Deus era direto e não precisava da intermediação de uma casta sacerdotal. A principal lição destes anarquistas espirituais é o elogio da convivência, o gosto pela diferença, e uma profunda antipatia por dogmas e autoridades auto-proclamadas. Numa época como a nossa, em que os fundamentalismos religiosos de todos os matizes ganham terreno, o gnosticismo é uma rara e feliz mostra de que, certa vez, foi possível conciliar o ímpeto pelo sagrado com a autonomia e liberdade de cada indivíduo, deixando os assuntos de Deus a cargo e competência de cada um, em vez de excluir, perseguir e matar coletivamente em Seu nome.

Fontes:

http://oglobo.globo.com/blogs/prosa/...st=154712&a=96

e

http://www.cristianismohoje.com.br/artigo.php?artigoid=37075


(Matérias extraídas do Blog HolosGaia)

Um comentário:

Alfinetaria disse...

Olá,no final do Livro O deus exilado,a autora recomenda vários livros acerca do tema.Dentre eles há uma biografia de Jesus.Vc poderia me dizer qual o título e autor???