segunda-feira, 27 de abril de 2009

O mistério do pequeno Buda desaparecido






Neste sábado, completaram-se os 20 anos de Panchen Lama, a segunda autoridade espiritual do budismo tibetana, o "vice" do Dalai Lama. Mas Gedhun Choeky Nyima – esse é o seu verdadeiro nome – é invisível desde os seus seis anos, quando foi raptado com toda a sua família pela polícia chinesa, tornando-se o prisioneiro político mais jovem do mundo. A sua culpa: encarnar a autonomia espiritual do Tibete.

A reportagem é de Raimondo Bultrini, publicada no jornal La Repubblica, 25-04-2009. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Às vésperas do aniversário proibido, os chineses espalharam o rumor da sua morte – que os exilados tibetanos afirmam ser falso – e lançaram o seu substituto de regime, o Panchen de Pequim.

É Gyaincain Norbu, quase coetâneo do outro (tem 19 anos), tibetano mas filho de dois membros do partido comunista. Em 1995, depois da captura do verdadeiro Panchen, foi investido solenemente pelo regime e levado a um lugar seguro em Pequim por medo de que fosse influenciado pelos tibetanos, que nunca o aceitaram. Indoutrinado pelo partido, ultimamente intensificaram-se as suas saídas públicas.



Ninguém é capaz de dizer se Gedhun Choekyi Nyima soube das manifestações que, no mundo inteiro, ocorrem todo o dia 25 de abril, o dia do seu aniversário, para pedir a sua libertação de uma prisão que já dura 14 anos. O 10º Panchen do Tibete, escolhido pelo Dalai Lama, teria hoje 20 anos, e tinha só seis quando desapareceu do seu vilarejo de Lhari, na província de Nanghu in Amdo, junto com sua mãe, seu pai e seu irmão mais velho.

Era maio de 1995, poucos dias depois da nomeação que o tornara célebre em todo o mundo. A adivinhação para escolha do número dois do budismo foi realizada pelo atual líder tibetano na sua residência de exílio em Dharamsala, na Índia, no início daquele ano. Depois de alguns rituais elaborados, fez girar três bolinhas de tsampa – farinha de cevada tostada – dentro de uma grande caixa aberta, até que o mesmo nome, inscrito em um minúsculo pedaço de papel misturado na farinha, saltou para fora por três vezes: Ghedun. Rapidamente, as primeiras lendas dele começaram a circular, começando pelo milagre ocorrido no ventre, quando recitou um mantra sagrado à sua mãe.

Mas Pequim certamente não se deixou comover pela onda de emoção que atravessou todo o Tibete. Reagiu à notícia mobilizando todo o seu aparato institucional. Cinquenta emissários chegaram a Tashilungpo, histórica sede dos Panchen desde o século XVII, e fizeram prender o Lama que tinha efetuado os reconhecimentos de acordo com as indicações de Dharamsala, Chadrel Rinpoche. No seu lugar, colocaram um leigo que tinha participado das históricas e cruéis reuniões de "autocrítica" contra o décimo Panchen durante a Revolução Cultural, quando a emanação do "Buda de Luz Infinita Amithaba" (esse é o título do Panchen) foi obrigado a apodrecer nas prisões chinesas.

Depois, prepararam uma nova lista de meninos entre os quais estava o filho de dois militantes do Partido de nome Gyiancain e fizeram com que fosse aprovada pelos fiéis Lama. Muitos se recusaram, mas, no oitavo dia do ano Porco de Madeira (29 de novembro de 1995), entre prostrações aos Budas e cerimônias, uma urna dourada, que tem um valor histórico importantíssimo para a China, foi posta de frente aos altares. Ela foi doada pelos Regentes do Tibete por um imperador manchu no século XVIII, justamente para que fossem colocadas no seu interior não as comuns bolinhas de tsampa, mas bastonetes de marfim com a mesma função adivinhatória: a escolha do Dalai e do Panchen Lama.

Segundo fontes de dissenso, naquele dia de 14 anos atrás, um dos três bastonetes era mais longo, para facilitar a tarefa do sacerdote que teria que retirá-lo da urna de ouro. Gyiancain – afirma-se – já estava pronto atrás de uma tenda para fazer o seu aparecimento na sala do templo e receber a investidura formal, diante do Lama, dos dirigentes do partido e dos membros do governo.

Nos mesmos dias, o pobre Ghedun sofria um destino muito diferente e ainda hoje misterioso, tornando-se o prisioneiro político mais jovem do mundo. Sabemos apenas que, se ainda estivesse vivo, hoje teria realizado uma tarefa de todo o respeito, talvez a mais alta, na disputa de dez anos que contrapõe tibetanos e chineses. Contrariamente ao que muitos são levados a acreditar, é o Panchen Lama que detém o primado espiritual do Tibete, pois foi a sua divindade emanadora Amithaba que irradiou de Conhecimento, e de poder temporal, o progenitor do Povo das Neves, chamado pelos tibetanos de Cenrezi (encarnado no atual Dalai Lama). Não por acaso os seus símbolos são os do Sol e da Lua, ou do Pai e do Filho, imprescindíveis um ao outro. O Dalai nomeia o novo Panchen e vice-versa. Por isso, obscurecendo o Sol (o Panchen), a China pretende, sem metáforas, privar a Lua-Dalai do seu poder.

Mas, para os tibetanos, o Panchen de Pequim nunca será o verdadeiro, e um dia – estão certos disso – o Pai e o Filho se reunirão para derrotar, com a sua união, as forças do Mal que se inserem como uma gigantesca sombra entre os dois astros.




Fonte: http://www.unisinos.br/_ihu/index.php?option=com_noticias&Itemid=18&task=detalhe&id=21761

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Nota do Blog:

Após publicar a postagem acima, recebi o seguinte comentário de nosso leitor, Hermeticum (a quem agradeço), que reconheceu algumas incorreções no texto acima:

"Quero simplesmente fazer um reparo ao que parece-me ser um lapso teu.

"Neste sábado, completaram-se os 20 anos de Panchen Lama, a segunda autoridade espiritual do budismo tibetana, o "vice" do Dalai Lama."

Na verdade, o Panchen Lama não é a "segunda" ou "vice" autoridade de nada. O Panchen Lama é o Mestre espiritual do próprio Dalai Lama. É como se o coração do Budismo Tibetano tivesse duas faces: uma externa ou politica, personificada na figura do Dalai Lama (sim, Dalai Lama), e outra face mais espiritual ou mistica, personificada no Panchen Lama.A história de ser o Dalai Lama a "escolher" o Panchen Lama também não é correcta. O Dalai Lama reconhece (a encarnação d)o Panchen Lama. Fica o reparo.

2 comentários:

Hermeticum disse...

Viva, antes de mais quero dar-te um bem haja pelo bom artigo. Quero simplesmente fazer um reparo ao que parece-me ser um lapso teu.
"Neste sábado, completaram-se os 20 anos de Panchen Lama, a segunda autoridade espiritual do budismo tibetana, o "vice" do Dalai Lama."
Na verdade, o Panchen Lama não é a "segunda" ou "vice" autoridade de nada. O Panchen Lama é o Mestre espiritual do próprio Dalai Lama. É como se o coração do Budismo Tibetano tivesse duas faces: uma externa ou politica, personificada na figura do Dalai Lama (sim, Dalai Lama), e outra face mais espiritual ou mistica, personificada no Panchen Lama.
A história de ser o Dalai Lama a "escolher" o Panchen Lama também não é correcta. O Dalai Lama reconhece (a encarnação d)o Panchen Lama.
Fica o reparo.

jholland disse...

Obrigado !!
De fato, cometi o lapso, não pelo que está escrito, que não é de minha autoria, mas, é claro, pelo erro, maior ainda, de não ter feito a análise crítica do artigo !De qualquer forma, não sabia que o Panchen Lama era o considerado o mestre espiritual do Dalai Lama, muito importante essa informação.
Tão importante que tomei a liberdade de colocar seu comentário como um adendo, no corpo da própria postagem.

Abraços !