domingo, 8 de fevereiro de 2009

O Saussure místico


"O binarismo redescobre-se nos centros de interesse e na própria personalidade do lingüista genebrino, que trocava frequentemente Genebra por Marselha; nessas viagens regulares, ele levava pequenos cadernos que cobria de meditações sobre os textos védicos e saturninos da poesia sagrada da Índia e de Roma. Assim foi que ele encheu 200 cadernos a respeito dos anagramas e efetuou toda uma pesquisa cabalística para ver se não haveria um nome próprio disseminado no interior desses textos que fosse, ao mesmo tempo, o destinatário e o sentido fundamental da mensagem.

"Perturbado por suas descobertas, Sausssure até se interessa por sessões de espiritismo durante os anos de 1895-1898. Essa dualidade não é, aliás, exclusiva de Saussure, vamos encontrá-la também em outros cientistas. Foi o que ocorreu com Newton, por exemplo, que enchia milhares de páginas sobre alquimia ao mesmo tempo em que redigia os seus Principia. O fundador da mecânica clássica e da racionalidade ocidental estava também empenhado na descoberta da pedra filosofal.


Saussure



"Haveria, portanto, naquele que Luis-Jean Calvet denominou o segundo Saussure (22), a idéia da existência de uma linguagem sob a linguagem, de uma codificação consciente ou inconsciente das palavras sob as palavras, uma busca de estruturas latentes, das quais não existe o menor traço no Curso de Ligüística Geral, no Saussure oficial, ajardinado. Saussure chegou mesmo a ser convocado em 1898 por um professor de psicologia de Genebra, Fleury, para examinar o caso de glossolalia de Mlle.Smith que, sob hipnose, declarava falar sânscrito. Saussure, professor de sânscrito, deduziu que "não era sânscrito, mas que nada havia que fosse contra o sânscrito".(23)
Todos esses cadernos foram cuidadosamente mantidos em segredo pela família e somente em 1964 Jean Starobinski pôde publicar parcialmente esses anagramas.(24)


Julia Kristeva



"Poder-se-á então inaugurar uma nova direção nas investigações, apoiando-se nessa descoberta, em meados dos anos 60, com destaque para Julia Kristeva. Pode-se falar, com Jakobson, da "segunda revolução saussuriana", por muito tempo reprimida.

(...)

Essa segunda filiação permitirá o retorno do sujeito. "



Notas

(22) CALVET, L.-J., Pour et contre Saussure. Paris:Payot, 1975.

(23) Louis-Jean Cavet, entrevista com o autor.

(24) J. Starobinski, Mercure de France, fevr. 1964; depois, Les mots sous les mots. [Paris:Gallimard], 1971.




(Texto extraído da obra de François Dosse,"História do Estruturalismo", Vol.1, cap.7: "O Corte Saussuriano". )

2 comentários:

lumenamena disse...

A lucidez e o controlo dos sonhos não é a mesma coisa. É possível estar lúcido e ter pouco controle sobre o conteúdo do sonho ou, pelo contrário, ter grande controle sem estar ciente de que está a sonhar. Nem sempre é possível fazer "magia" nos sonhos, como transformar um objecto em outro, ou transformar cenas. A capacidade do sonhador ter sucesso nisso depende muito da sua confiança. Se acreditar que não pode fazer algo num sonho, provavelmente não será capaz de fazê-lo.

jholland disse...

Olá lumenamena, obrigado por sua participação e interesse !
Tudo depende do que vc entende por "lucidez". Para mim, em última instância, lucidez se confunde com liberdade (plena). O controle dos sonhos pode ser considerado uma forma de exercício de liberdade frente a situações que foram plenamente compreendidas como ilusórias (e não apenas e necessariamente nos sonhos, como também na vigília - sendo essa também uma espécie de sonho). De fato, como vc disse, em muitos sonhos lúcidos, não temos o pleno "controle" do cenário onírico. Porém, entendo que isso significa que a lucidez não é plena. Em última instância. um sonho plenamente lúcido tende a se desfazer, ou seja, caminhamos para um estado de "não-sonho".
Obrigado !