quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Explorando Universos paralelos


Nota do Blog: o texto que se segue é uma tradução livre de um fragmento do Capítulo 3 do livro de William Buhlman, "Aventuras Fora do Corpo". A tradução foi realizada a partir da edição em espanhol da obra. (Também publicado no Blog Sonhos Lúcidos)




Classificação do Universo invisível


Por William Buhlman

Enquanto a ciencia tradicional segue concentrando-se na capa epidérmica e densa do universo, a exploração e a classificação das dimensões invisíveis começaram sem alarde. Através do intenso processo de tentativa e erro, algumas pessoas deram um passo mais além da matéria e dos limites de nossa tecnologia física atual. As observações efetuadas durante estas explorações não físicas laçaram luz sobre um universo multidimensional de enorme profundidade e beleza.
Se quisermos compreender a estrutura das dimensões invisíveis, devemos ter em conta a capacidade natural de resposta que os sutis entornos energéticos não físicos têm frente aos pensamentos. Mais além da dimensão não física paralela (a primeira), estamos explorando um universo de energia interativo que responde ao pensamento. Assim, uma vez que reconheçamos esta interação entre o pensamento e a energia não física, podemos concentrarmos nas semelhanças energéticas específicas de um nível ou área vibratória concreta. Isto se consegue classificando o modo que um entorno não físico específico responde à energia do pensamento. Este tipo de classificação com base na resposta da energia é muito mais prática que concentrar-se no aspecto das diferenças visuais das distintas dimensões. Duas dimensões vibratórias diferentes e separadas podem parecer surpreendentemente iguais, embora suas frequências vibratórias sejam completamente distintas. Por isso, para julgas os entornos não físicos, não adequados os conceitos físicos tradicionais. Para classificar com eficácia o universo invisível, devemos partir de uma referência ou de um método de comparação novo. O método mais prático é classificar a capacidade de resposta de uma área não física determinada ante o pensamento.
A grande maioria das realidades não físicas têm uma grande capacidade de resposta ao pensamento. Em outras palavras, quando nos separamos de nossos corpos e entramos em uma dimensão não física, nossos pensamentos, tanto conscientes como inconscientes, imediatamente começam a interagir com a energia sutil que nos rodeia e começam a reestruturá-la. A capacidade de resposta das dimensões internas frente ao pensamento explica porque os exploradores extracorporais descrevem com tanta diversidade os entornos que presenciam. Esta situação se complica com a presença dos incontáveis entornos e realidades que existem dentro de cada dimensão individual do universo.
Ainda que o universo tenha uma variedade ilimitada de entornos ou ambientes possíveis, todos os entornos e as dimensões não físicas parecem ter certas semelhanças e diferenças. Cada dimensão ou entorno está formado por frequências ou longitudes de onda específicas de energia. Além disso, cada dimensão e cada entorno parece ser o resultado direto do pensamento. A capacidade natural de resposta ao pensamento das dimensões interiores criou grande parte da confusão e mistério que rodeia os entornos internos. Temos uma tendência natural a relacionar diretamente as experiências não físicas com pontos de referência físicos; comparamos tudo com objetos físicos que conhecemos. Entretanto, as formas moleculares que nos rodeiam não são uma referência válida. Os objetos e os acontecimentos físicos não são o centro do universo, como muitos supõem, mas o resultado final de uma cadeia de reações energéticas que ocorrem no interior invisível do universo multidimensional.
Para compreender a natureza do universo, devemos reavaliar nossos conceitos atuais de solidez, energia e tempo. Devemos manter nossa mente aberta para um novo ponto de vista da realidade. A fim de compreender verdadeiramente a estrutura de nosso universo, devemos investigar a causa invisível da forma e da solidez. Parece-me que a exploração extracorporal nos permite fazer exatamente isso.
A informação relacionada com as dimensões não físicas é mais valiosa do que a maioria de nós reconhece. Não apenas nos ajuda a adaptarmos e a ajustarmos a nosso entorno não físico, como também afeta notavelmente nossa existência física atual.
Até agora, a grande maioria da humanidade morreu sem ter conhecido com entecipação seu destino. A morte manteve-se como um vazio escuro; esperamos coisas boas e oramos por elas, mas quase todos nós nos aproximamos da transição da morte desconhecendo absolutamente qual o nosso destino. Até agora, a humanidade não teve informação comprovável e direta do mistério da vida depois da morte nem das realidades não físicas que então se experimenta.
As experiências extracorporais controladas mudam tudo isso. Na exploração não física, experimentamos os possíveis entornos que serão nosso lugar futuro. Em um sentido muito real, podemos examinar com antecipação e familiarizarmos com nossa morada futura.





OS TIPOS DE DE ENTORNOS ENERGÉTICOS

Uma só dimensão não física pode conter (e às vezes ocorre assim) três tipos de entornos energéticos: de consenso, não consensuais e natural.

Um ambiente de consenso é criado e conservado pelo pensamento de um grupo de pessoas. Por exemplo, os céus de cada grupo religioso são criados pelos pensamentos e as crenças de seus respectivos integrantes. Igual a todas as realidades, a consciência do grupo molda os entornos de consenso. Muitos dos entornos de consenso são extremamente velhos e resistentes à mudança. Embora pareça estranho, as cidades e as comunidades físicas são exemplos de entornos energéticos de consenso. Todas as cidades e povoados se desenvolvem de acordo com os pensamentos de seus habitantes. Em essência, a energia do pensamento humano usa veículos biológicos para manipular e moldar as moléculas físicas que nos rodeiam. O resultado são as estruturas físicas temporais que observamos.

Durante uma experiência extracorporal ou próxima da morte, transferimos nossa noção de consciência a partir do nosso corpo físico para nosso corpo não físico de frequência superior. A isto denomino "mover-se para dentro". Uso o termo movimento porque esta transição de energia com frequência se experimenta como uma sensação de movimento interior. Qualquer referência a um movimento ou exploração interior se relaciona com o reconhecimento consciente de uma área de energia superior.
À medida que exploramos para dentro e nos afastamos da matéria, descobrimos que a primeira dimensão não física é paralela ao universo físico e também é uma realidade de consenso. Este ambiente de energia tem um aspecto tão físico que muitas pessoas pensam que estão contemplando o mundo físico. Na realidade, observam a primeira dimensão energética interna do universo. Devido ao fato desta dimensão ter uma frequência mais próxima da matéria, ela é observada e experienciada com frequência durante as explorações extracorporais. Esta dimensão é um exemplo clássico de uma realidade de consenso: sua estrutura é sólida e estável dentro de sua própria frequência vibratória. Neste ambiente, nossos pensamentos, independentemente de quanto nos concentremos, afetam muito levemente as estruturas de energia. Entretanto, eles exercem um imenso efeito em nosso corpo de energia. Quando pensamos em voar ou em caminhar, podemos fazê-lo. Esta diferenciação entre as mudanças de energia externas e internas (pessoais) é fundamental para compreender a estrutura inerente a uma dimensão ou entorno não físico. Em um entorno de consenso, nossos pensamentos influem em nossa energia pessoal mas não na que nos rodeia. Os diversos céus de que fala São João na Revelação e Maomé no Corão são exemplos clássicos de entornos de consenso. Essas cidades e estruturas não físicas existem dentro da segunda e terceira dimensões de energia e a consciência grupal de milhões de habitantes não físicos as moldam e as conservam. Quando entramos nesses entornos, nossos pensamentos não mudam as estruturas que ali se encontram.

Um ambiente não consensual é aquele não modelado firmemente por um grupo. Tenho considerado que esse tipo de ambiente é o que mais prevalece. O aspecto pode ser qualquer coisa que imaginemos: um bosque, um parque, o mar, inclusive um planeta inteiro. Os ambientes não consensuais são detectados facilmente porque, embora com frequência tenham um aspecto similar ao físico, são muito sensíveis aos pensamentos concentrados e mudam e se reestruturam com rapidez de acordo com os pensamentos conscientes e subconscientes que estão presentes na área imediata.
Si nos encontramos em um ambiente que mudam com frequência ou parece instável, é provável que seja uma realidade não consensual. Nesse caso, é importante que saiba que seus pensamentos, tanto conscientes como inconscientes, provavelmente influíram na realidade que experimenta. Com frequência a mente subconsciente modela as áreas não conscientes para nosso benefício. Por exemplo, se você experimenta um problema ou bloqueio recorrente em seu desenvolvimento pessoal, sua mente subconsciente ou seu eu superior moldará um ambiente que lhe permitirá enfrentar esse bloqueio de uma forma muito pessoal.
Esta confrontação pessoal pode adotar qualquer forma que nos ajude com eficácia a experimentar e superar nossos limites, nossas barreiras ou temores. Muitas pessoas informam que se vêem projetadas em uma situação que as testam de um modo muito pessoal - frequentemente confrontando seus grandes temores ou limitações. Por exemplo, se você sente um imenso temor de alturas, pode ver-se escalando uma montanha ou atravessando uma ponte estreita. Um bom exemplo disto detalha Robert Monroe em Viagens Fora do Corpo, descrevendo sucessivas tentativas de aterrizar um pequeno avião na ponta de um edifício enquanto estava fora do corpo.
Com frequência os ambientes não consensuais parecem semelhantes ao nosso mundo físico normal ou mesmo apresentar um aspecto físico idílico; parques, jardins e plácidos campos verdes. Parece-me provável que tais espaços tenham sido criados pelos pensamentos de outras formas de vida não física que no passado habitaram ou explorara essas zonas. Diferentemente do mundo físico, uma vez formado o ambiente energético, pode durar séculos. Ali a decomposição celular ou molecular não é problema. Um só pensamento criativo, firmemente sustentado, pode modelar um ambiente capaz de durar quase indefinidamente; entretanto, um pensamento mais forte (mais concentrado) pode alterar todo esse entorno em segundos. Lembre-se que todos os ambientes são uma forma de energia e que toda energia em certo grau responde ao pensamento.
Os entornos energéticos naturais (em bruto) são áreas do universo que aparecem sem uma forma específica de nenhum tipo. Estas áreas se observam como vazios brumosos, espaço vazio ou sem elementos, áreas abertas formadas por nuvens de energia brancas, prateadas ou douradas.
Os entornos energéticos naturais são muito sensíveis aos pensamentos. Qualquer idéia focada molda instantaneamente o ambiente. Por isso é importante conseguir certo grau de controle sobre nossos pensamentos. Nossa evolução pessoal depende em grande medida do modo como nos concentramos, controlamos e dirigimos nossa energia-pensamento. Não importa a dimensão que habitemos, nossa responsabilidade pessoal sobre nossos pensamentos e nossas ações é absoluta. Todos os pensamentos são criativos, tanto os positivos como os negativos e reestruturam o ambiente não físico imediato. Por isso os líderes espirituais insistiram sempre em temas como "dar aos demais" e "amar ao próximo". Uma vez que você reconheça a força dos pensamentos, nunca mais gerará ou manterá uma imagem negativa ou destrutiva em sua mente. Os pensamentos negativos ou limitantes são o verdadeiro inimigo que devemos enfrentar. Nas dimensões internas do universo, nossos pensamentos, bons ou maus, influem poderosamente sobre nosso entorno imediato. Isto se observa e se experimenta durante a experiência extracorporal.
Além dos três tipos de entornos que mais prevalecem fora do corpo, existem outros dois.
O primeiro, embora raras vezes se observe, parece estar formado por dimensões e entornos que existem mais além da energia-pensamento. Na verdade, poucos exploradores se aventuraram conscientemente bastante longe para dar-nos uma descrição com modelo preciso destas dimensões. Porque não possuem forma ou estrutura, postula-se que estas áreas do universo existem além do espaço, do tempo e da energia, tal como os concebemos. É possível que estas dimensões e seus habitantes no possam ser descritas mediante nossos conceitos lineares. Não obstante, estou seguro de que nas profundidades do universo interno existem entornos sem pensamentos e sem formas.
O outro ambiente observado é uma área que parece uma duplicata de um espaço vazio. É um ambiente de energia extremamente baixa. Alguns crêem que este espaço não físico seja um ambiente consensual. Eu duvido seriamente desta teoria porque não se emitem radiações ou vibrações energéticas perceptíveis a partir do próprio espaço vazio. Todas as emanações energéticas perceptíveis parecem situar-se próximo de lugares habitados. Parece-me mais provável que esse espaço "vazio" careça de energia suficiente local para que os pensamentos o afetem; como resultado, conserva um estado relativamente constante.
Também deve se assinalado que o espaço não físico vazio parece prevalecer cada vez mais, à medida que nos aprofundamos e nos afastamos da dimensão física em direção à origem de toda a energia. Se desconhece a razão disso. Serão necessárias a observações de numerosos exploradores não físicos antes que cheguemos a uma conclusão.

O universo multidimensional não é só outra teoria; é um fato observável. Quando puser em prática as técnicas extracorporais que explico neste livro, você mesmo poderá verificar este descobrimento. As experiências auto-iniciadas e controladas nos dão uma notável oportunidade de explorarmos as profundezas do universo invisível. A atenção científica atual sobre a atividade molecular densa mudará lentamente para uma forma de investigação baseada na frequência. No século XXI, a ciência começará a reconhecer que as formas densas que nos rodeiam são os veículos externos da energia e que todo o universo físico é só uma parte diminuta do esplendoroso universo multidimensional.


(Fonte: Aventuras Fuera del Cuerpo - Cómo realizar viajes extracorporales - William Buhlman)


sexta-feira, 30 de julho de 2010

Verdade e Hipnose





"O pior cego é aquele que não quer enxergar", ditado popular.

George Gurdjieff é um dos mestres mais importantes de nossa era.

Ele é único sob muitos aspectos: ninguém no mundo contemporâneo se expressa como ele. Ele é quase como um outro Bodhidharma ou Chuang Tzu, aparentemente absurdo, mas na realidade dando excelentes indicações para a libertação da consciência humana. Ele costumava dizer: "Você está numa prisão". Às vezes mergulhava ainda mais fundo na realidade e, em vez de dizer "Você está numa prisão", dizia "Você é a prisão". O que é mais verdadeiro.

Se você quiser sair da prisão - ou, melhor dizendo, se não quiser ser uma prisão -, a primeira coisa a fazer é dar-se conta de que está numa prisão... ou de que é uma prisão. É algo que deve ser sempre lembrado como um dos primeiros princípios de todo aquele que e stiver em busca da verdade.

A tendência da mente humana é negar as coisas feias, esconder o que não quer que os outros saibam - e esconder de tal maneira, em camadas tão profundas do inconsciente, que a própria pessoa deixa de ter consciência dessas coisas! Desse modo, mantém sua personalidade superficial.

Gurdjieff tem uma história a esse respeito...

Havia um mágico que vivia numa floresta densa e tinha muitas ovelhas, que eram seu único alimento. No meio da floresta, ele mantinha todas aquelas ovelhas somente para matá-las diariamente, uma a uma. Naturalmente, as ovelhas tinham muito medo dele e costumavam correr pela floresta, temendo que qualquer dia fosse o seu dia de morrer. As companheiras que eu tinha já se foram, não se pode confiar... Por puro medo, elas costumavam fugir para muito longe, entrando profundamente pela floresta. E todo dia era uma canseira tentar encontrá-las.

Finalmente, o mágico recorreu a u m truque. Ele hipnotizava as ovelhas, dizendo-lhes: "Você é uma exceção; todo mundo pode ser morto, mas não você. Você não é uma ovelha comum; você tem um privilégio divino". Para as outras dizia: "Vocês não são ovelhas; são leões, tigres, lobos. Só as ovelhas são mortas. Não precisam esconder-se na floresta; seria muito embaraçoso um leão se escondendo na floresta com medo de ser morto - só as ovelhas são mortas". Dessa forma, ele conseguia hipnotizar todas as ovelhas.

Chegava inclusive a dizer para algumas delas: "Vocês são homens, seres humanos, e os seres humanos não se matam uns aos outros. Vocês são exatamente como eu (ser humano). Nunca tenham medo nem tentem fugir por medo". Desde esse dia, nenhuma ovelha voltou a fugir para se esconder na floresta, embora todas elas vissem diariamente que uma delas era abatida e morta (como vemos todos os dias, não é mesmo?). Mas é claro que todas pensavam: ela deve ser uma ovelha; eu sou um tigre, um leão, um ser humano. Eu sou especial e excepcional, tenho um privilégio divino... Eram essas as histórias que o mágico botava em suas cabeças.



Gurdjieff


Gurdjieff afirma que, se não nos conscientizarmos da primeira coisa - de que estamos numa prisão, que somos a prisão -, não existe esperança de liberdade. Se você já acredita que é livre, é por ser uma ovelha hipnotizada que pensa ser um leão - excepcional, não é preciso ter medo -, que acredita inclusive que é um ser humano (divino). Você continua vendo outras ovelhas serem mortas, mas ainda está sob efeito da hipnose, sem tomar consciência de sua condição concreta. Ser livre, quando já sabemos que somos livres, não constitui problema.

Todas as religiões juntas, talvez involuntariamente, geraram um tremendo estado hipnótico. As pessoas acre ditam ter almas imortais. Não estou dizendo que você não tem, mas apenas que não sabem em que acreditam. E, como acreditam que têm uma alma imortal, nunca descobrem que já a têm. Disseram-lhes: "Vocês são o reino de Deus"... e é tão cômodo e consolador acreditar nisso. Mas não existe uma maneira de buscar e tentar descobrir se essa crença hipotética tem algum fundo de verdade, ou é apenas um truque hipnótico usado pela sociedade (pelos manipuladores da sociedade) para mantê-lo livre do medo da morte, da doença, da velhice, da solidão (e manter você disponível para ser sacrificado, quando for conveniente).

O seu Deus pode ser apenas uma hipnose psicológica. Não é uma descoberta sua. Isso é verdade: até aqui, é a absoluta verdade. Ele (Deus) foi implantado em sua mente e, como você continua acreditando nele, a sua crença impede qualquer aventura de busca da verdade.

Geralmente, estão sempre lhe dizendo que, se não acreditar, você não encontrará. Mas a verdade é exatamente o contrário. A crença é uma barreira para se encontrar a verdade, não é uma ponte. Os que acreditam nunca encontram, pois sequer se dão ao trabalho de buscar; não há necessidade, "já sabem"...

Você está numa prisão e se julga livre.

Você está preso a grilhões, mas acha que são apenas adornos. É um escravo (numa sociedade escravagista), mas lhe disseram que você é apenas humilde, simples, que é assim que deve ser uma pessoa religiosa como você. Você está cercado de muitas estratégias hipnóticas desenvolvidas pela sociedade ao longo das eras. E essas estratégias hipnóticas sã a causa essencial da sua ignorância, do seu sofrimento, da sua falta de esclarecimento (de suas doenças físicas e mentais).

De modo que a primeira coisa a ter em mente é que você está numa prisão. A partir do momento em que você reconhece que está numa prisão, você já não pode mais tolerá-la. Ninguém a tolera; ela vai contra a sua dignidade humana. Você começará a encontrar maneiras de sair dela. Começará a conhecer pessoas que já se libertaram. Pode começar a buscar ajuda além das muralhas, pois lá fora existem pessoas capazes de oferecer todo tipo de ajuda. Mas elas não serão de ajuda alguma se você acreditar que já está vivendo em absoluta liberdade.

Se você acredita que essa prisão é a sua casa, seria naturalmente absurdo pensar em se livrar dela. Você acredita que o muro que o mantém prisioneiro é uma proteção para você. Estaria portanto fora de questão fazer um buraco na parede para escapar, ou encontrar uma escada, ou ainda buscar ajuda lá fora. Pode até ser lançada uma corda lá de fora, ou providenciada uma escada, mas isso só teria valia se for reconhecido o principal: que você está numa prisão. George Gurdjieff estava constantemente insistindo: "É a principal coisa a entender. Sem isso, não pode haver avanço para o esclarecimento. Se você acha que é livre, você não pode escapar".




Fonte: Osho, Encontros com pessoas notáveis, Editora Academia, São Paulo, 2009.

Histórias Sufi




Um viajante encontrou a casa de um beduíno perdida no meio do deserto. Este não tinha mais do que um pouco de leite de cabra, que não saciou a fome do hóspede.

Nisto, o beduíno disse à esposa:

“Mata a cabra.”

“Marido, é tudo o que temos, sem ela morreremos de fome.”

“Antes morrer de fome que deixar o nosso hóspede faminto. Mata a cabra, mulher!”

A cabra foi morta, cozinhada e servida.

Na hora da partida, o hóspede disse ao seu criado:

“Dá ao nosso anfitrião tudo o que contigo trazes.”

“Mas, Senhor, tamanha riqueza por uma cabra apenas?”, questionou o servo.

“É verdade. No entanto, este bom homem deu-nos tudo o que possuía e nós pouco lhe estamos a dar. A sua generosidade é muito superior à nossa.”


Fonte:

http://www.cienciadasreligioes.eu/wikipedia/index.php?title=Pequenas_Hist%C3%B3rias_Sufi

quarta-feira, 28 de julho de 2010

Deleuze e o Tarô







Retirei o excelente texto que se segue do Blog: Cosmos e Consciência.
Clique no link para acessar o texto completo, que possui uma interpretação delueziana para as cartas do tarô, aqui não reproduzida.



Deleuze e o Tarô

Rascunho rumo a um pensar em êxtase

Por: Nelson Job

Em magia, como em religião e em linguística,
são as idéias inconscientes que agem.

Marcel Mauss

A filosofia “deleuziana” se presta a quê? Se presta a pensar em limiar, a pensar com, sem amarras, sem limites, em ressonância. Deleuze dialogou com vários filósofos clássicos, com a física, a biologia, a antropologia, a literatura, o cinema, a pintura, a psicanálise, a química etc. Em um artigo anterior, “Ontologia Onírica”, nos dedicamos a evidenciar as ressonâncias entre a filosofia da diferença (tendo Deleuze como atrator), a física “pós-newtoniana”, o hermetismo e a literatura de ficção científica pré-cyberpunk. Tais relações permitem uma ressonância mais específica: a relação entre os principais conceitos de Deleuze (e da filosofia da diferença) com os arcanos maiores do tarô.

Sobre o tarô, pouco desenvolveremos. As imagens devem falar por si. Existem inúmeros livros sobre tarô, mas nenhum deles vai fornecer o mais relevante: a relação intensiva e intuitiva com as imagens.

Uma filosofia como a de Deleuze ser relacionada com um saber pagão como o hermetismo, e, por conseqüência, com o tarô, não nos surpreende. Deleuze, em seu texto “Nietzsche e São Paulo, D. H. Lawrence e João de Patmos” faz um belo elogio ao paganismo (simbólico), que possui conexões vivas, em detrimento do judaísmo e cristianismo (alegóricos) com seu amor abstrato (dar sem nada tomar) e o Apocalipse já industrial (que, com o seu “Juízo” - pré kantiano - Final, nos desconecta com o cosmos).

O paganismo é uma relação de êxtase com o cosmos, onde a vida é celebrada. Não nos surpreende que um antropólogo como Eduardo Viveiros de Castro, dado a reviravoltas deleuzianas, relacione o seu trabalho etnográfico (que envolve o xamanismo Yawalapíti e Araweté) com o filósofo neo-platônico Plotino, em seu texto “A Floresta de cristal”. Nele, é formulada uma operação que nos é cara: “Seria preciso apenas trocar a metafísica molar e solar do Um neo-platônico pela metafísica da multiplicidade lunar, estelar e molecular indígena”.

Plotino é o primeiro grande filósofo do êxtase (lembrando que "êxtase" significa literalmente "sair de si mesmo"). Francis Yates, em seu brilhante “Giordano Bruno e a Tradição Hermética”, o considera o verdadeiro iniciador histórico do hermetismo. Porfírio, seguidor de Plotino, nos diz que seu mestre sofreu quatro êxtases em que ele sofria tremores e tinha visões, donde os textos das “Enéadas” derivavam-se a partir de tais êxtases. Deleuze celebra o conceito de “contemplação” em Plotino, que já era uma relação onde sujeito e objeto se misturavam.

O autor que Deleuze considera o seu “plano de imanência”, Spinoza, também tinha várias influências místicas (a cabala judaica, por exemplo), como afirma Marilena Chauí em sua máquina do tempo “A Nervura do Real”. Vale lembrar que Bergson, outro grande atrator na obra de Deleuze, possui um livro chamado “A Energia Espiritual”, onde afirmava a telepatia e a vida após a morte. As questões de Deleuze seriam místicas, mas não com essa alcunha: mistura de sujeito e objeto, problematização da atomização do eu, conexão intensiva com a Natureza apenas para sair dela rumo ao inominável: o devir contra-natureza e a criação de Corpo sem Órgãos.

Uma relação do tarô com Deleuze já foi feita, sobretudo enfatizando o seu caráter semiótico, por Inna Semetsky. A nossa abordagem é diferente, relacionando conceitos filosóficos. François Jullien - esse um grande autor cujo conjunto de obra é um extensivo trabalho relacionando a filosofia do Ocidente e o pensamento chinês - em seu livro “Figuras da Imanência”, realizou um ótimo estudo relacionando o “I Ching”, antigo livro oracular chinês, com vários conceitos da filosofia da diferença.

O tarô, como quase tudo relacionado ao conhecimento antigo, tem um passado incerto. Costuma-se afirmar que tenha se originado no Antigo Egito, com o hermetismo. Os jogos de carta começaram a se popularizar na Europa no séc XIV e o tarô mais popular – com o qual lidaremos neste texto – conhecido com o Tarô de Marselha, surgiu no final do séc XV, constituído por 22 arcanos maiores, de sentido mais geral e por 56 arcanos menores.

Jogar tarô é mais e menos que realizar um “oráculo”. Mais do que “dizer o futuro”, o tarô realiza o princípio hermético de correspondência, a saber: tudo o que está em cima é como o que está embaixo. Desse princípio se desenvolve, por exemplo, a astrologia, que é um embrião da astronomia. O princípio hermético da correspondência é o mais profícuo (e popular, daí um texto apenas para ele: “Fractais quânticos monádicos”) de todos, pois possui ressonância com a teoria do caos (fractais), mecânica quântica (“colapso” de onda) e filosofia, já que o conceito leibniziano de mônada, se origina no hermetismo. Então, jogar tarô é ver o presente, grávido de passado e futuro



Fonte:
http://cosmoseconsciencia.blogspot.com/2010/02/deleuze-e-o-taro.html

sexta-feira, 23 de julho de 2010

Cristianismo e xamanismo


The Pharmacratic Inquisition
Gênero: Astrologia e xamanismo
Diretor: Andrew Rutajit
Duração: 1h58 minutos
Ano de Lançamento: 2007
País de Origem: Estados Unidos
Idioma do Áudio: Inglês

"O filme argumenta que virtualmente toda a mitologia, simbolismo e a história de Jesus e das tradições Cristãs estão relacionadas a dois assuntos básicos: astrologia e xamanismo. Para aqueles não familiares com as evidências que apóiam esta declaração, este filme pode ser verdadeiramente revolucionário e abrir a mente.

Muito do material do filme está apoiado no trabalho de John Allegro. Allegro foi um dos acadêmicos originalmente escolhidos para traduzir os Pergaminhos do Mar Morto, escritos Católicos antigos, descobertos em Qumran próximo ao Mar Morto no meio do século XX. Diferentemente de seus colegas, Allegro não era comprometido com a Igreja Católica e portanto foi capaz de desenvolver suas próprias teorias e interpretações, livre do dogma Católico. O resultado foi a sugestão radical de que Jesus era um cogumelo psicoativo. Em particular, Allegro argumentou que a mitologia e o simbolismo que rodeiam Jesus Cristo apontam para o cogumelo Amanita muscaria, o icônico cogumelo vermelho e branco tão comum no simbolismo e imagens Cristãs.

O cogumelo Amanita tem papel central no filme e é apresentado como base dos elementos xamânicos no Cristianismo. Existe uma história longa de uso do Amanita entre xamãs do norte europeu e da Sibéria, as próprias culturas de onde se origina a palavra "xamã". Nestas culturas, xamanismo era sinônimo do uso do Amanita e o conhecimento de suas propriedades psicoativas eram bem conhecidos em toda esta região do mundo. Portanto a influência do uso xamânico do Amanita no Cristianismo não deveria necessariamente surpreender, mas o argumento de que Jesus é o Amanita, e não um personagem histórico, é provavelmente surpresa para muitos.

O filme faz uma argumentação convincente para esta conexão entre Jesus e o Amanita, e mesmo com os cogumelos psilocibe, através da apresentação do simbolismo Católico, iconografia e imagens. Quando se olha cuidadosamente para a Igreja Católica, o simbolismo do Amanita parece abundante, das roupas dos Papas e cardinais até afrescos, arcos de passagem e arquitetura de igrejas. Mesmo os mitos, como do Santo Graal, parecem cair na categoria de simbolismo do amanita. Realmente, quando as imagens são apresentadas desta maneira, a comparação com o amanita se torna imediatamente óbvia e difícil de desbancar.

Mesmo Papai Noel recebe o tratamento amanita neste filme. Aqui o elfo bom velhinho é apresentado no contexto do xamanismo do norte europeu, onde, de acordo com a tradição, o xamã secava seus amanitas em um pinheiro e depois visitava os yurts de sua comunidade, entrando pelo buraco para fumaça trazendo de presente para as pessoas cogumelos sagrados. Não é muito estender esta visão para perceber que estes xamãs que passeavam com renas foram o modelo icônico para o velho gordo Noel vestido de vermelho e branco, ele mesmo parecendo muito com o amanita.

O filme apresenta, adicionalmente à influência do xamanismo e de cogumelos psicoativos no Cristianismo, a relação entre astrologia e astronomia com o mito Cristão. Aqui os produtores fornecem argumentos convincentes para a correlação entre o mito Cristão e o céu no Solstício de inverno, incluindo as Eras Zodiacais, demonstrando graficamente como estes contos da estrela brilhante, os três reis, a morte e ressurreição de Jesus todos se encaixam com fatos previamente conhecidos do céu noturno e a mudança das estações.

Por fim, a Inquisição Farmacrática desafia muitos dos pressupostos e crenças que podemos ter sobre o Cristianismo e suas figuras centrais, mostrando evidências provocativas de que as coisas não são como parecem nesta tradição. Se for verdade, a pergunta que vem é: Será que a Igreja Católica ainda usa o amanita secretamente nos confins do Vaticano? Estariam eles realmente escondendo esta verdade fundamental por dois milênios, ou eles mesmos passaram a acreditar nos mitos que foram criados para comunicar e esconder a verdadeira identidade de Jesus Cristo? Assista este filme e tome sua decisão."



quarta-feira, 21 de julho de 2010

Consciência e consciência



(Nota do Editor: usa-se aqui o termo "Consciência" - com letra inicial maiúscula - quando se refere à presença onde não há sentido de " eu". Refere-se à consciência pura e impessoal. O estado original e eterno, além da percepção, do tempo e de qualquer identificação mundana. Usa-se a palavra "consciência" - em minúsculo - quando se refere à sensação de existir, ao sentimento "eu sou" identificado com um objeto, uma entidade, à consciência no nível da percepção manifestada do tempo e do espaço)



Pergunta: Que você faz quando está adormecido?

Maharaj: Tenho consciência de estar adormecido.

P: Não é o sono um estado de inconsciência?

M: Sim, tenho consciência de estar inconsciente.

P: E quando está desperto, ou sonhando?

M: Tenho consciência de estar desperto ou sonhando.

P: Não o entendo. O que quer dizer exatamente? Deixe-me esclarecer meus termos; por adormecido quero dizer inconsciente, por desperto quero dizer consciente, por sonhar quero dizer consciente da mente mas não das cercanias.

M: Bom, é quase o mesmo para mim. Ainda assim, parece que há alguma diferença. Em cada estado, você esquece os outros dois, enquanto que, para mim, apenas há um estado de ser, incluindo e transcendendo os três estados mentais de vigília, do dormir e do sonhar.

P: Você vê um rumo e um propósito no mundo?

M: O mundo não é senão um reflexo de minha imaginação. Posso ver o que quiser. Mas porque eu deveria inventar modelos de criação, evolução e destruição? Não os necessito. O mundo está em mim, o mundo sou eu mesmo. Não o temo e não desejo encerrá-lo em uma imagem mental.

P: Voltando ao dormir. Você sonha?

M: Certamente.

P: Que são os sonhos?

M: Ecos do estado de vigília.

P: E seu sono profundo?

M: A consciência do cérebro está suspensa.

P: Está, então, inconsciente?

M: Inconsciente de minhas cercanias, sim.

P: Não totalmente inconsciente?

M: Permaneço ciente de que estou inconsciente.

P: Você utiliza os termos "cônscio" e "consciente". Não são a mesma coisa?

M: A Consciência é primordial; é o estado original, sem princípio nem fim, sem causa, sem apoio, sem partes, sem mudança. A consciência está em contato, um reflexo contra uma superfície, um estado de dualidade. Não pode haver consciência sem a Consciência, mas pode haver Consciência sem a consciência, como no sono profundo. A Consciência é absoluta, a consciência é relativa a seu conteúdo; a consciência é sempre de alguma coisa. A consciência é parcial, a Consciência é total, imutável, tranqüila e silenciosa. E é a matriz comum de toda experiência.

P: Como se vai além da consciência, até a Consciência?

M: Já que a Consciência é a que faz possível o ser consciente, há Consciência em todo estado de consciência. Portanto, a própria consciência de ser consciente já é um movimento na Consciência. O interesse em sua corrente de consciência o levará à Consciência.
Não é um novo estado. Ele é imediatamente reconhecido como a existência básica, original, que é a própria vida, e também o amor e a alegria.

P: Já que a realidade está sempre conosco, em que consiste a auto-realização?

M: A realização é o oposto da ignorância. Tomar o mundo por real e ao próprio ser por irreal é ignorância, a causa da aflição. Conhecer o ser como a única realidade e todo o restante como temporal e transitório, é liberdade, paz e alegria. Tudo é muito simples. No lugar de ver as coisas como as imaginamos, aprenderá a vê-Ias como são. Quando puder ver as coisas como são, também você se verá como é. É como limpar um espelho. O mesmo espelho que lhe mostra como é o mundo também lhe mostrará sua própria face.
O pensamento "eu sou" é um pano de limpeza. Use-o.




(extraido do livro "EU SOU AQUILO - Conversações com Sri Nisargadatta Maharaj" - Editora Advaita)

terça-feira, 13 de julho de 2010

Nota do Editor sobre o livro Sinais do Absoluto




"Descobrir um novo autor de mérito genuíno é como descobrir um novo planeta ou estrela no espaço infinito do céu. Enquanto escrevo estas linhas, posso imaginar como William Herschel se sentiu quando descobriu Urano.

Ramesh Balsekar, o autor desta obra, é uma nova luz de cintilante esplendor que adornou o firmamento misterioso da literatura esotérica de grande significação, embora totalmente indiferente a seu próprio brilho. Quando, depois de um rápido olhar para uns poucos capítulos de seu manuscrito, o qual me chegou às mãos através de um amigo comum, eu o encontrei e lhe falei sobre quão gratamente impressionado eu estava, ele me fixou um olhar vazio. Eu não sou o autor, ele disse, e o que escrevi não é para publicação, mas para minha clara compreensão dos ensinamentos do meu mestre, para minha orientação e para minha própria satisfação. Foi difícil convencê-lo de que o que ele havia escrito para sua satisfação poderia ser proveitoso para milhares de outros se fosse publicado como um livro. Ele escutou-me sem responder – um enigmático sorriso nos lábios, com atitude afável, mas totalmente neutra.

Aparentando sessenta anos e muito bem conservado para sua idade, Balsekar tem tez branca, sendo bastante gentil e amigável, mas taciturno por natureza. Quando decide falar, fala com uma circunspecção e distanciamento próprio de um presidente de banco conversando com um solicitante de crédito. Mais tarde, senti-me muito intrigado ao saber que ele realmente tinha sido um banqueiro e que tinha se aposentado como o mais alto executivo de um dos principais bancos da Índia.

Evidentemente, como um solicitante de crédito, fui uma pessoa bastante tenaz, pois fui bem sucedido em tomar emprestado de Balsekar o seu manuscrito por uns poucos dias, para minha iluminação pessoal como um admirador dos ensinamentos de Maharaj. E, quando eu o li, achei-o muito além de minhas melhores expectativas. Não perdi tempo em chamá-lo e a lhe oferecer a publicação da obra. Depois de um breve silêncio, e despreocupadamente, ele abanou a cabeça, expressando seu consentimento.

Li novamente todo o manuscrito, muito cuidadosamente, como um leitor profundamente interessando, mantendo à margem minhas inclinações editoriais. E, enquanto o lia, experimentei em um flash, momentaneamente, minha verdadeira identidade como algo distinto do que penso ser, ou do que pareço ser. Nunca havia tido tal experiência antes. Uns poucos anos atrás, quando tive a boa sorte de editar e publicar as conversações de Nisargadatta Maharaj, Eu Sou Aquilo, senti o impacto de sua originalidade criativa e raciocínio socrático, mas não tive sequer um fugaz lampejo da Verdade ou Realidade ou de minha verdadeira entidade, como agora. E isto porque Balsekar em seus escritos não repete meramente as palavras de Maharaj, mas as interpreta com grande discernimento e lucidez, e um profundo entendimento. Ele escreve com um poder e uma autoridade intrínseca oriunda do próprio Maharaj, por assim dizer. Ele não argumenta; ele anuncia. Suas afirmações são da natureza dos pronunciamentos em nome do Mestre.

Eu nunca fui um visitante regular de Maharaj, mas ouvi suas conversas com bastante freqüência, sempre que minhas ocupações me permitiam um tempo livre. Um dedicado devoto de Maharaj, chamado Saumitra Mullarpattan, que é igualmente bem versado em Marathi e inglês, atuava como intérprete. Em um par de ocasiões, contudo, encontrei uma pessoa desconhecida traduzindo, e fiquei impressionado pelo tom competente com que comunicava as respostas de Maharaj a seus inquiridores. Ele sentava com os olhos fechados e transmitia as sábias palavras de Maharaj com a determinação característica do Mestre. Era como se o próprio Maharaj estivesse falando em inglês, para variar.

Quando perguntei, disseram-me que o tradutor era um devoto novo de Maharaj, chamado Balsekar. No fim da sessão, quando os presentes se dispersavam, apresentei-me a ele e o elogiei por sua excelente tradução das palavras do Mestre. Mas ele mostrou-se impassível, como se nada tivesse ouvido. Surpreendido por sua atitude intratável, afastei-me e nunca voltei a pensar nele até que o encontrei recentemente tendo como motivo este livro. E, agora, compreendi quão deploravelmente errado estava ao formar minha opinião sobre ele. Devia ter-me ocorrido que ele vivia em um diferente nível de existência, o qual estava fora do alcance de elogio ou crítica. Eu devia ter entendido que ele estava em união com o Mestre e nada mais o interessava. E isto é provado por seu presente trabalho no qual encontrei a presença de Maharaj em cada página – sua agilidade mental excepcional, suas conclusões rigorosamente lógicas, seu pensamento total, sua completa identidade com a unidade que aparece na diversidade.



Sri Nisargadatta Maharaj e Ramesh Balsekar



É interessante notar que em seu Prefácio ao livro, Balsekar quase negou sua autoria. Ele disse que o material que apareceu neste volume surgiu espontaneamente, ditado, em um frenesi que sobrecarregou seu ser, por um poder compulsivo que não podia ser negado. Eu acredito no que ele falou. E estou inclinado a pensar que o leitor estará de acordo comigo, conforme avançar na leitura. Não há nada neste trabalho que possa ser tomado como projeção do próprio autor, nenhuma improvisação, nenhuma citação erudita das escrituras; não há nenhum adorno de qualquer tipo tomado emprestado. Os pensamentos apresentados por Balsekar levam a assinatura silenciosa do Mestre. Eles parecem vir de um conhecimento luminoso, de uma exaltação da glória da Verdade que preenche seu interior.

Esta obra, intitulada SINAIS DO ABSOLUTO, é o próprio Maharaj, de modo completo. É, sem dúvida, um tipo de curso de pós-graduação para o leitor que já absorveu o que é oferecido em EU SOU AQUILO. Ela compreende os ensinamentos finais e mais sublimes do Mestre e vai muito além do que ele havia ensinado nos anos anteriores. Eu arriscaria dizer que não pode existir nenhum conhecimento mais elevado do que o que este livro contém. Também arrisco dizer que ninguém, exceto Balsekar, poderia ter exposto este conhecimento, pois nenhum daqueles que estiveram próximos do Maharaj entenderam seu ensinamento tão profundamente como ele.

Alguns dos devotos de Maharaj que conheço assistiram a suas conversas por vinte anos ou mais e, no entanto, suas mentes não mudaram, e eles continuam as mesmas entidades que eram duas décadas atrás. A associação pessoal de Balsekar com Maharaj, por outro lado, estendeu-se por apenas três anos. Mas, tais associações não devem ser medidas no tempo, se pudessem ser medidas de alguma forma. O que é mais importante que a duração da associação é o tipo especial de receptividade que é o forte de Balsekar. Não tenho dúvidas de que o manto de Maharaj tenha caído sobre seus ombros. Na falta de uma expressão melhor, eu diria que Balsekar é o alter ego vivo de Maharaj, embora ele não tenha nenhuma inclinação para desempenhar o papel de um mestre. Que ele está saturado com a Jnana passada pelo Mestre é mais do que evidente por este livro. Todavia, quero atrair a atenção particular do leitor para este artigo especial, “A Essência do Ensinamento”, o qual expõe, em todas as suas facetas, a filosofia única de Maharaj (Apêndice 1) assim como sua nota sobre o desconcertantemente difícil tema da consciência (Apêndice 2). Nenhum leitor deve deixar de ler.

Antes de terminar, posso também relatar um divertido incidente no qual o editor em mim teve um choque com o autor em Balsekar. Sua distância e indiferença sempre me irritaram. Ele obteve a graduação da Universidade de Londres e tinha um bom domínio da língua inglesa. Dificilmente poderia encontrar alguma falha em sua linguagem. Ainda assim eu tentei melhorar sua dicção e expressão aqui e lá, como um editor deve fazer! Ele reparou nos melhoramentos não solicitados e permaneceu quieto, com sua habitual indiferença. Então ficou claro que ele tinha feito de seu silêncio uma virtude, exatamente como eu havia feito com minha verbosidade. Éramos antípodas, senti. Ansiando por um entendimento com ele, queria retirá-lo de sua casca, de qualquer modo. E achei por acaso um artifício. Ataquei sua exposição de um dos aspectos do ensinamento de Maharaj (embora realmente concordasse com ele), e ele explodiu repentinamente. Seu contra-ataque foi devastador e eu me alegrei com a quebra da casca, finalmente. Ele, contudo, rapidamente acalmou-se quando concordei com ele sem muita discussão. E seus olhos irradiavam amizade. As habituais circunspecção e distância desapareceram, dando lugar a uma nova intimidade entre nós. Depois daquilo, nós trabalhamos juntos no livro; de fato, ele me permitiu todas as liberdades com seu manuscrito e nunca se incomodou em olhar os acréscimos e alterações que escolhi fazer. Desenvolvemos um necessário entendimento entre nós, o qual, sem dúvida, apreciei muito. Ele passou os olhos casualmente na cópia final, antes que fosse para a gráfica, e parecia estar totalmente feliz com isto.

Perguntei a ele se iria escrever para nós outro livro sobre os ensinamentos do Mestre. Ele sorriu levemente e talvez houvesse um imperceptível abanar de sua cabeça."

Sudhakar S. Dikshit - Editor

Mumbai
Março, 1982


"Sinais do Absoluto"



Fonte:

http://editoraadvaita.blogspot.com/

sábado, 10 de julho de 2010

EXPERIÊNCIAS FORA DO CORPO DURANTE A ATIVAÇÃO DOS CHACRAS



Por Hiroshi Motoyama -


O DESPERTAR DO CHAKRA ANAHATA

Embora tivesse tido problemas digestivos (1), nunca senti nenhum incomodo relacionado com o coração. Entretanto, depois de aproximadamente dois anos após ter iniciado a Ioga, comecei a sentir um tipo de dor no ponto onde a linha que liga os dois mamilos se cruza com a mediana (o ponto Danchu do meridiano do vaso da concepção, Shanchung, VC 17) e meu coração parecia estar funcionando de modo irregular. Porém, em lugar de me sentir doente, estava saudável, muito ativo e necessitava de pouco descanso.

Nesta época, como de costume durante o período mais rigoroso do inverno, praticava o tradicional ascetismo aquático. Levantava-me de madrugada, ia para o lado de fora da casa e derramava água gelada sobre o corpo seminu, durante aproximadamente uma hora. Enquanto fazia isso, minha mãe ficava do meu lado, rezando por mim.

Certa manhã, aconteceu o seguinte: senti um tipo de energia quente elevar-se de meu cóccix para o coração, através da espinha dorsal. Percebi que meu tórax estava muito quente e vi brilhar em meu coração uma luz dourada. A água gelada se esquentava com esse calor e da superfície de meu corpo saía vapor; porém, eu não sentia frio. Quando a kundalini (2) subiu de meu coração para o alto da cabeça, ela tornou-se uma luz branca radiante. Deixei meu corpo e elevei-me juntamente com ela, para uma dimensão muito mais elevada. Meu corpo físico ficou imóvel, exposto ao vento frio do mundo terreno; havia me esquecido dele. Estava meio inconsciente, porém ainda podia perceber que estava nos céus e adorava o Divino. Quando voltei a mim dez ou vinte minutos depois, minha mãe me disse que havia visto uma luz dourada brilhar no alto de minha cabeça e em meu coração. Creio que esta experiência ocorreu no momento em que se ativou meu chakra anahata (chacra cardíaco, na região peitoral).


O DESPERTAR DO CHAKRA SAHASRARA

Uma das práticas que executei regularmente em meu programa inicial de disciplina foi a taoísta chamada Shoshuten. Esse método purifica o sushumna (canal central da coluna) através da circulação de energia na parte superior do corpo, o que se consegue com a elevação da kundalini pelo sushumna até o alto da cabeça e depois deixando-a fluir para o chakra ajna (chacra frontal) durante a inspiração. Em seguida, prende-se a respiração por dois ou três segundos, conservando a energia neste chakra. Depois ele é deixado fluir para o chakra svadhishthana (chacra sexual) através da linha mediana frontal, sendo conservado ali simplesmente prendendo-se mais uma vez a respiração por dois ou três segundos. Deve-se manter, então, a circulação da energia através do sushumna, partindo do muladhara (chacra da base da coluna) até o alto da cabeça e depois de volta ao muladhara, por diversas vezes.

Enquanto executava o Shoshuten, eu podia ver o interior do sushumna (3), o sahasrara (chacra coronário, situado no meio da alto da cabeça) e dois ou três outros chakras brilhando. Depois de praticar Ioga de seis meses a um ano, uma luz dourada brilhante começou a entrar e sair de meu corpo pelo alto da cabeça, e senti como se este ponto tivesse se alongado de dez a vinte centímetros. Na dimensão astral, não na física, notei um vulto que parecia a cabeça de Buda, brilhando nas cores violeta e azul, apoiado em cima de minha própria cabeça. Havia uma luz dourada-clara que entrava e saía pelo alto da coroa de Buda. Fui gradualmente perdendo a sensação do meu corpo, porém continuava com a perfeita percepção de consciência, e também de superconsciência. Pude ver meu próprio espírito elevando-se, saindo de meu corpo pelo alto da cabeça, a fim de ser revigorado nos Céus.

Tornei-me capaz de ouvir uma Voz poderosa, mas muito tema, ressoar pelo Universo. Enquanto escutava essa Voz, compreendi espontaneamente minha missão, minhas vidas anteriores, meu próprio estado de espírito, e muitas outras coisas. Em seguida, senti um estado de fato indescritível; toda minha existência espiritual ficou corno que inteiramente imersa numa serenidade extraordinária. Após algum tempo, senti que era imperativo voltar ao mundo físico. Retomei pelo mesmo caminho, entrando pelo portão no alto de minha cabeça. Tive de inundar conscientemente todo o corpo com a energia espiritual, pois ele estava enregelado e todas as extremidades paralisadas. Afinal, consegui mover mãos e pés, e gradualmente fui retomando ao estado normal.

Isso aconteceu depois de menos de um ano de prática iogue. Durante os dois anos seguintes, os chakras vishuddhi (chacra laríngeo) e anahata (chacra cardíaco) foram ativados. Meus chakras svadhishthana (sexual), manipura (chacra umbilical) e sahasrara, conforme mencionei antes, foram os primeiros a serem ativados.

Depois de ativar o chakra sahasrara, meu corpo astral tomou-se capaz de sair livremente pelo Portão de Brahman (4). Isso me permitiu observar o mundo exterior durante a meditação.

(Texto extraído do livro “Teoria dos Chacras” – Hiroshi Motoyama – Editora Pensamento)

- Comentários de Wagner Borges:

O livro "Teoria dos Chacras", do pesquisador japonês Hiroshi Motoyama é uma das principais obras sobre o estudo dos chacras dentro do contexto iogue. Uma das partes essenciais do seu livro é quando ele narra as repercussões da ativação dos chacras dentro de sua prática iogue. E com isso, ele também relata as projeções da consciência que ocorriam com ele durante o processo de ativação energética.

Baseado nas narrativas projetivas dele, e de outros iogues ao longo da História, pode-se dizer que seguramente há estreita relação dos processos energéticos dos chacras com as saídas do corpo. Por esse motivo, e evidenciando tal correlação bioenergética com as projeções, é que selecionei esses dois relatos projetivos iogues para esse envio de texto pelo site.

1. O autor se refere a alguns problemas digestivos ocorridos com ele enquanto atendia a pessoas doentes e assediadas espiritualmente. Nesse ocasião, o seu chacra umbilical foi afetado seriamente pela ação das energias pesadas dos obsessores que assediavam às pessoas que ele estava atendendo. Isso chegou a prejudicar as suas saídas do corpo por um tempo, já que ele se deparava com severos ataques extrafísicos e não sabia lidar espiritualmente com isso.

Numa da partes do seu livro ele explica como isso acontecia com ele: "Há aproximadamente treze anos (1967), dezessete anos após ter-me iniciado na ioga, minha mãe ficou doente. Substituindo-a, dei consultas espirituais aos membros do Tamamitsu Shrine durante uns três anos. A princípio, era capaz de deixar meu corpo, através do chakra sahasrara, durante a meditação para entrar num estado de união divina ou superior. Contudo, depois de uns seis meses de ter dado início àquelas consultas, apareciam espíritos diante de meu chakra manipura ou ajna quando eu me concentrava, isso me obrigava a negociar com eles constantemente. Era incapaz de passar por eles e deixar meu corpo através do chakra sahasrara para alcançar aquela união – uma situação que continuou por dois ou três anos. Apesar de não ter mais ficado doente depois de começar a praticar a ioga, meu estômago passou a abalar-se com facilidade e comecei a sentir-me freqüentemente cansado."

2. Kundalini (do sânscrito): Kundalini significa literalmente "enroscada". Esse nome deve-se ao seu movimento ondulatório que lembra o movimento de uma serpente. Daí a expressão esotérica "fogo serpentino". Ela também é chamada pelos iogues de "Shakti" (do sânscrito): a força divina aninhada na base da coluna (chacra básico).

Kundalini nada tem a ver com o sexo diretamente, muito embora seja a energia que ativa e vitaliza a sexualidade. Devido a prática de exercícios tântricos que envolvem a contenção do orgasmo, quando esse conhecimento chegou ao Ocidente foi logo desvirtuado. Hoje, esse tema surge associado a rituais e posturas sexuais aqui no Ocidente. No entanto, o despertar da kundalini é um processo puramente espiritual e energético em essência. Envolve a ativação dos chacras, principalmente do chacra cardíaco, que equilibra e distribui corretamente o fluxo ascendente da shakti ao longo dos nádis.

3. Os nádis são os condutos sutis de transporte de energia pelo sistema. Há milhares deles interligando vibracionalmente vários pontos energéticos no corpo sutil. Estão correlacionados com os mesmos pontos no corpo denso. Contudo, apenas dez deles é que são de grande importância na ativação dos chacras e da kundalini. E desses, são três os principais: Ida, Píngala e Sushumna.
Esses nádis são importantes porque correm ao longo do duplo etérico da coluna, onde estão situadas as raízes dos chacras principais.

4. Portão de Brahman (do sânscrito "Brahmarandra"): Trata-se de uma abertura sutil situada no centro do chacra coronário. Dentro do Hinduísmo se considera essa abertura como a passagem sutil do espírito, ligada ao centro cardíaco em linha reta por dentro do canal central da coluna vertebral. É por isso que muitos iogues narram saídas do corpo pelo alto da cabeça, principalmente nos momentos de ativação de alguns chacras, ou mesmo no despertar da Kundalini.



Fonte:

http://www.ippb.org.br/index.php?option=com_content&view=article&id=2353&catid=31&Itemid=57

segunda-feira, 28 de junho de 2010

Respostas da memória

Sri Nisargadatta Maharaj
(ao fundo, foto de Sri Ramana Maharshi)



Pergunta: Alguns dizem que o universo foi criado; outros, que sempre existiu e que está sempre passando por contínuas transformações. Alguns dizem que está sujeito a leis eternas. Outros negam inclusive a causalidade. Alguns dizem que o mundo é real, outros que não tem nenhuma existência, seja qual for.

Maharaj: De que mundo está falando?

P: Do mundo de minhas percepções, certamente.

M: O mundo que você pode perceber é, sem duvida, um mundo muito pequeno. É um mundo inteiramente privado. Tome-o por um sonho e deixe-o de lado.

P: Como posso considerá-lo um sonho? Um sonho não dura.

M: Quanto durará seu pequeno mundo?

P: Depois de tudo, meu pequeno mundo é apenas uma parte do total.

M: Não é a idéia de um mundo total uma parte de seu mundo pessoal? O universo não vem dizer para você que você é uma parte dele. É você que inventou uma totalidade que o contenha como parte. De fato, tudo o que você conhece é seu próprio mundo privado, por mais que o tenha mobiliado com imaginações e esperanças.

P: Certamente, a percepção não é imaginação!

M: Que outra coisa é? A percepção é reconhecimento, não é assim? Algo inteiramente desconhecido pode ser sentido mas não pode ser percebido. A percepção implica memória.

P: Tudo bem, mas a memória não o converte em ilusão.

M: A percepção, a imaginação, a esperança, a antecipação, a ilusão, todas estão baseadas na memória. Dificilmente existem quaisquer linhas fronteiriças entre elas. Simplesmente se fundem umas com as outras. Todas são respostas da memória.

P: Não obstante, a memória existe para provar a realidade do meu mundo.

M: Quanto recorda você? Trate de escrever de memória o que esteve pensando, dizendo e fazendo no dia 30 do mês passado.

P: Sim, não me lembro.

M: Não está tão mal. Você se lembra de muita coisa; a memória inconsciente faz o mundo em que vive tão familiar.

P: Admito que o mundo em que vivo é subjetivo e parcial. E você? Em que tipo de mundo você vive?

M: Meu mundo é igual ao seu. Vejo, ouço, sinto, penso, falo e atuo em um mundo que percebo como você o percebe. Mas para você isto é tudo, enquanto que para mim é quase nada. Sabendo que o mundo é uma parte de mim mesmo, não lhe dou mais atenção que a que você dá aos alimentos que comeu. Enquanto o prepara e o come, o alimento está separado de você, e sua mente está nele; uma vez que tenha comido, você chega a ser totalmente inconsciente dele. Eu comi o mundo e não necessito mais pensar nele.

P: Não se torna completamente irresponsável?

M: Como poderia? Como poderia causar mal a algo que é um comigo mesmo? Pelo contrário, sem pensar no mundo, qualquer coisa que fizer o beneficiará. Assim como o corpo se põe bem inconscientemente, assim eu estou incessantemente ativo pondo em ordem o mundo.

P: No entanto, você está consciente do imenso sofrimento do mundo?

M: Certamente que estou, muito mais que você.

P: Então, o que você faz?

M: Olho-o através dos olhos de Deus e percebo que tudo está bem.

P: Como pode dizer que tudo está bem? Olhe para as guerras, a exploração, a luta cruel entre o cidadão e o estado.

M: Todos estes sofrimentos foram fabricados pelo homem e está dentro de seu poder acabar com eles. Deus ajuda antepondo ao homem os resultados de seus atos e pedindo que o equilíbrio seja restaurado. O karma é a lei que trabalha pela retidão, é a mão curativa de Deus.



(Extraído do livro: "Eu Sou Aquilo - Conversações com Sri Nisargadatta Maharaj"- Editora Advaita)

domingo, 27 de junho de 2010

Por que os sonhos parecem tão reais ?



Retirei esses dois textos anônimos do excelente Blog Ninguém, Nunca, em Lugar Nenhum:



POR QUE OS SONHOS PARECEM TÃO REAIS?



A Consciência resplandecendo em você está sempre brilhando, Ela nunca dorme. Assim, quando o seu corpo está 'dormindo', mas o pensar continua ativo durante o estado de sonho, a Consciência resplandece nos pensamentos-sonho, emprestando sua realidade a eles, fazendo, dessa forma,o sonho parecer real. Qualquer coisa a que a Consciência empreste a sua realidade, ganha a ilusão de ter vida - sejam os seus pensamentos durante o estado de sonho ou os seus pensamentos durante o seu estado 'acordado'. A Consciência Universal é a ÚNICA fonte de realidade e percepção que existe. Tudo o mais apenas pega emprestada a sua realidade da Consciência Universal, mais ou menos como a lua à noite parece ter brilho próprio, quando na verdade sua luminosidade vem do sol.

Uma outra coisa sobre os sonhos, é que todos os personagens do sonho PARECEM absolutamente separados no sonho, mas ainda assim você sabe que eles todos de fato vêm de UM sonhador, e são, portanto, UM só. Entretanto, se alguém chegasse para a sua 'persona onírica' durante um seu sonho, e lhe dissesse que todos no sonho eram de fato apenas UM, você pensaria que esse alguém estava louco. Portanto, mesmo nos sonhos, as crenças incorretas distorcem a realidade. E não pense que os pensamentos, que criam essa distorção da realidade durante seus sonhos, param de fazer seus "truques" quando você "acorda" - eles estão criando a mesma distorção da realidade AGORA MESMO.


Você é 100% "auto-relizado" nesse mesmo instante, quer você entenda isso ou não. Não existe um "caminho", apenas crenças incorretas que precisam ser removidas. E a própria crença de que existe um caminho é, em si mesma, um obstáculo. Você não pode nunca estar fora da eterna realidade, ISSO É IMPOSSÍVEL.

Não esqueça, TUDO acontece NA PERCEPÇÃO. Mesmo quando você entende tudo o que eu estou dizendo, os pensamentos ainda podem aparecer como "Eu tive um dia cheio no trabalho hoje, distraí-me e não fiquei muito na PERCEPÇÃO". Mas isso é apenas um pensamento que está acontecendo na PERCEPÇÃO. Da mesma forma, o pensamento oposto, "Eu tive um dia muito 'focado', e realmente permaneci na PERCEPÇÃO" é igualmente um pensamento, uma visão, que está acontecendo na PERCEPÇÃO. Tudo é apenas uma aparência na PERCEPÇÃO. E você é a PERCEPÇÃO, não a aparência.

Uma pessoa ocupada num sonho tem o sonhador fluindo através dela em menor escala que uma pessoa meditando no mesmo sonho? Para o sonhador, ambas são apenas um sonho. O personagem do sonho que ignora o fato de que existe apenas a Consciência do sonhador está tão na Consciência quanto o personagem que tem esse entendimento. A única diferença entre eles é que o que não tem esse entendimento está simplesmente carregando crenças incorretas.

domingo, 20 de junho de 2010

Não há "você"


P - Existem algumas áreas onde minha atenção fica presa, por exemplo no relacionamento com minha família.

Mooji - O que quer que envolva a sua atenção se torna a sua experiência. Existe certa comodidade em se envolver, e o resultado é que você se sente sendo "alguém".

P - Por que isso acontece?

Mooji - A atenção vai por causa do hábito. Eu acredito que todas as questões acerca da espiritualidade se resumem neste ponto. Algo do passado atrai sua atenção e isso leva a um estado de agitação; então, você faz algum esforço para manipular a agitação ou suprimi-la, a fim de mudá-la.

P - Quando se vê que é o passado se manifestando, pode-se simplesmente deixa-lo ir?

Mooji - Isto parece uma pergunta muito boa. Se eu seguir pela linha desta pergunta em particular, estarei cooperando com uma ideia que não é verdadeira, a ideia de que há um "você" que vive a sua vida. Se você pensa que é um “alguém" agindo a partir do seu passado, você está reforçando esta identidade errônea.

Descubra quem é este que vê as coisas dessa maneira. Quem é que está agindo e reagindo? Existe realmente um "eu" que tem esse condicionamento?

Não questione meramente para se livrar do condicionamento ou do desconforto, mas para ver realmente se é isso que você é. Veja aquilo que não tem familia, não é uma mulher ou um homem, e não tem passado. Vá além de todas as associações até que você permaneça sozinho, sem você.
O problema não é o papel em si, mas a crença nele.

P - Sim. Mas ... Por exemplo, em minha família, eles me veem como uma
pessoa.

Mooji - Você não tem controle sobre o que os outros pensam e fazem. Você apenas criará um fardo tentando consertar isso. Apenas seja honesto e verdadeiro no momento.
Veja: o “eu” tem algumas associações do passado, projeções para o futuro, um papel ou comportamento, e por causa da crença no papel a consciência é mantida prisioneira em uma certa identidade.

Quem é "eu"e precisamente onde está o "eu" agora mesmo? Posso eu ser alguma coisa? O que seria isso? Tais questionamentos guiam a consciência de volta para a vacuidade, sua fonte.

O Satsang apresenta a oportunidade de reconhecer o seu Ser diretamente, de descobrir aquilo que é atemporal e imutavelmente presente.

P - Por que esquecemos nossa natureza?

Mooji - Aquilo que nós realmente somos não se esquece. Aquilo não é capaz de lembrar ou esquecer.

***

P - Eu fiz um movimento errado.

Mooji - Eu não conheço nada como "um movimento errado". Tudo é simplesmente perfeito! Essa ideia o está mantenda prisioneiro, e ela é uma completa construção da sua mente!

Pare de pensar que você produz a você mesmo. Na verdade não existe nenhum você de fato, nada ali em absoluto, a não ser enquanto conceito. O observador disso é a realidade única que nós somos.
A mente percebe o vazio como ausência de atividade, impotência, não-existência pessoal; e não percebe que o vazio é pureza, paz e completa satisfação de ser. Isso já é assim mesmo agora. Mesmo agora, que você apresenta estas questões. Aquele que fala é aquele que ouve.
Existe uma fase nesta investigação que pode parecer um pouco paranóica, quando mesmo a mais sutil das sensações é investigada.
Gradualmente, esse tipo de entusiasmo se dissolve e apenas a investigação permanece, sem um inquiridor. Quem está investigando? Ninguém está investigando.
Isso não pode ser compreendido racionalmente. Na verdade, isso não pode ser explicado e você não pode encontrar a você mesmo, porque você nunca esteve separado.
Paradoxo e charadas existem apenas para a mente. Você é aquilo que contém todos os paradoxos.

***

P - Você me disse: "não olhe com a mente, olhe com o coração". Eu não sei como olhar com o coração.


Mooji - Quem é este "eu" que diz: "eu não sei como olhar com o coração?"
Esqueça de tudo o que você ouviu ou leu. Esqueça de tudo isso. Eu não presumo que exista algum "você" que compreenderá e se lembrará disso.
É como um novelo de lã que se emaranhou e cada vez que vem aqui ao Satsang se sente: "ah,como foi que eu me tornei emaranhado desta forma?"
Uma explicação parece ser dada a isso, mas a explicação é apenas outra forma de lançá-lo contra a parede, e ele se desemaranha sozinho. O novelo não pode receber o conselho de como desenredar-se. O que deve acontecer é que aquele eu, enquanto Silêncio em si, receba o conselho (5), e ele então corre até que é desemaranhado - mas ele próprio não é capaz de por em pratica esse conselho!
Isso deve ser bastante libertador para você. Você não tem que fazer nada em absoluto. Estes diálogos são um tipo de brincadeira; não é realmente o que está acontecendo. O cozimento de certa forma está acontecendo por baixo. O que quer que precise acontecer está acontecendo por si só. Apenas olhe.

P - A única coisa que eu posso descrever é aquilo que eu posso ver. Portanto, o que eu posso ver está acontecendo comigo.


Mooji - O que está consciente deste acontecimento?
Cada vez que você segue essa pergunta é como um espelho, refletindo você olhando para esta atividade e o próprio espelho. Quão próximo está esse reflexo? Por mais perto que seja, o reflexo nunca se tornará você, porque você está vendo o reflexo.
Tudo é somente agora. A sua existência é somente agora. Apenas o Agora atemporal. Todo o resto é um sonho devido ao condicionamento e à memória.


Memória de quem? De ninguem. É um misterio! Um mistério não pode ser decifrado.

"Para quem é o misterio?" É a pergunta mais importante. Descubra.



(5) NT: "Receba o conselho" ou, em outras palavras, "aceite o conselho" ou "dê espaço a este conselho".



Extraído do livro "Antes do Eu Sou - Diálogos com Mooji - O Reconhecimento direto do nosso Ser original" - Ed. Qualitymark.

***

Assista a um trecho do Satsang de Mooji no Brasil (com tradução para o português):








quarta-feira, 16 de junho de 2010

Com um mestre Zen




MONDO COM O MESTRE ZEN MORIYAMA ROSHI

No budismo Zen, o mondo é um diálogo entre mestre e discípulo, destinado a transformar os processos habituais de pensamento e conceituação em intuição direta da natureza da mente.

Esta sessão de mondo aconteceu sábado, 12 de fevereiro de 2005, no encerramento da semana de retiro (seshin) de carnaval do Via Zen, no centro de retiros do CEBB do Caminho do Meio, Viamão, RS.

Na sala de meditação, depois de recitar os versos dos Tres Refugios, o Mestre Zen Daigyo Moriyama respondeu dezessete perguntas de seus discípulos.



Pergunta - O "Sutra do Coração" diz que o Bodisatva Avalokitesvara, praticando profundamente O Prajna Paramita, viu o vazio de todas as coisas. O que é praticar profundamente Prajna Paramita?

Moriyama Roshi - (longo silencio) Prajna Paramita é a prática da iluminação e Prajna Paramita é a iluminação. Logo, a prática de Prajna Paramita é o objetivo do budismo e o caminho para alcançá-la é a pratica do zazen (meditação).

P - Como e quando foi sua primeira experiência profunda do Darma através do zazen?

MR - Minha primeira experiência com o zazen foi na época da faculdade. Como para qualquer principiante, zazen era só dor. Dor na perna, no joelho, no cotovelo,nos ombros, nas costas, em tudo. Quando encontrei meu mestre, minha pratica mudou completamente e com ele encontrei o espirito do Darma.

P - O senhor começou a apreciar o zazen antes ou depois de atingir estabilidade mental durante a pratica?

MR - Para mim o zazen começou a ser prazeroso depois de três anos de pratica. Antes disso não conseguia me concentrar direito.

P - Por que o mestre que conheceu muitos lugares do mundo escolheu ficar no Brasil e como veio parar no Rio Grande do Sul?

MR-Por causa do convite de um discípulo de mente buscadora do caminho, com grande energia de pratica. Quando vim para o Brasil, fui ser abade do templo Bushinji, em Sao Paulo. Minhas duas tarefas eram reconstruir o templo e ensinar meditação aos brasileiros. Naquela época uma integrante da diretoria do Via Zen visitou Bushinji e me convidou para conhecer um grupo de meditação em Porto Alegre, no Rio Grande do SuI. Eu estava muito ocupado na reconstrução do templo, não estava trabalhando como um mestre Zen. Então eu disse: "O que? Rio Grande do SuI? Porto Alegre? Nunca ouvi falar. Não tenho tempo para visitar Porto Alegre. " Naqueles três anos, trabalhando na reconstrução, viajei ao Japão vinte vezes a fim de pedir doações para o templo. Estava completamente exausto e só pensava no trabalho de reconstrução do templo. Porem, ela insistiu, insistiu, insistiu e finalmente eu lhe disse: "Estou ocupado. Por que você não volta para Porto Alegre?' - Mas ela insistiu outra vez: "Por favor, venha nos visitar em Porto Alegre". Respondi: ''Não.'' De repente me veio um sentimento muito forte. Muitas pessoas que estão realmente buscando o caminho vivem em Porto Alegre, pensei.
Naquele momento minha mente mudou. Refleti novamente: essa é minha missão, preciso ir. E disse, "Ok, eu vou. Mas, como não sei falar português, mandarei primeiro minha assistente, a monja francesa Joshin Sensei, que fala e entende português, no meu lugar. O primeiro passo será a visita dela em vez da minha. E na segunda vez, como havia combinado, fui junto com minha assistente. Assim aconteceu minha primeira visita a Porto Alegre.

P - Sua pratica meditativa ficou mais intensa depois de encontrar seu mestre? Gostaria que falasse a esse respeito, porque ouvi certa vez que o discípulo não escolhe o mestre, mas o mestre encontra o discípulo. Como isso funciona?

MR- Não se pode dizer que um encontra o outro , a energia, de onde brota o espirito do Darma, vem tanto do mestre quanto do discípulo.

P – Quer dizer que sem um mestre não podemos ir longe no caminho do Darma?

MR- Não, não acredito que seja assim, mas na nossa tradição Zen japonesa a transmissão do Darma se dá de mestre para discípulo. Outras correntes budistas procedem de maneira diferente. Porém, para o Zen, esse vínculo entre mestre e discípulo é muito importante.

P - Poderia falar sobre seu processo de iluminação e sobre as pessoas iluminadas que conheceu?

MR- Quanto ao primeiro tópico, aconteceu no final de um dia de seshin intenso com meu mestre. Expliquei minha. experiência e ela foi aceita como genuína. O mesmo aconteceu com o mestre Dogen, quando ele esteve na China e encontrou mestre Tendo Nyojô Zenji. Certo dia de pratica, Dogen teve uma experiência e descreveu-a ao seu mestre como Shin Jin Datsu Raku, que em japonês significa "abandonar corpo e mente" e Tendo Nyojô aceitou-a como genuína. O que eu quero dizer com esses dois relatos é que, em nossa tradição Zen japonesa, não cabe ao discípulo se julgar iluminado. Apenas o seu mestre pode certificar isto. Por exemplo, um ano antes daquela minha experiência, meditando profundamente, vi aparecerem flores bonitas e misteriosas na parede para a qual eu estava virado. Pensei que aquilo era a iluminação e fui ao quarto de meu mestre.
"Mestre, mestre, alcancei a iluminação !"
Ele disse: "Fale-me sobre ela." Expliquei minha visão e que sentira uma energia muito poderosa e misteriosa. Meu mestre disse: "Isso não é atingir a iluminação". Curioso, perguntei: "Então, o que é?" E ele gritou: "Ilusão ! Engano ! Devaneio ! Você precisa de mais meditação!" Fiquei com muita vergonha. Quanto às pessoas iluminadas que conheci, são alguns mestres Zen que viveram no Japão - meus dois mestres do Darma e mais uns dois ou três que já faleceram. É uma pena, pois todos os, grandes mestres japoneses já morreram.

P - Quais foram as mudanças em sua vida após esta experiência? Depois dela, sua meditação ainda sofre interferência de pensamentos?

MR - As mudanças ocorreram no âmbito espiritual e não no físico. Falando de uma maneira genérica, encontrei o sentido da vida e descobri minha missão; que é ensinar O Darma aos meus discípulos e dar a transmissão aqueles que seguirem O caminho monástico. Com relação à segunda questão, os pensamentos não mais perturbam a minha meditação.

P - Costuma-se dizer que Deus esta onde você O deixa entrar. Evocar Deus só e valido para a religião católica ou e também para outras religiões, como o próprio budismo?

MR - Antes de responder esta pergunta é preciso, definir claramente a que nos referimos, pois os conceitos de Deus variam conforme a religião - cristianismo, judaísmo, religiões primitivas, o próprio budismo, etc. Por exemplo, em alguns textos budistas encontram-se as palavras "Deus" e deidade", mas elas não correspondem à noção católica de divindade e sim à hinduísta. Podemos ver outro exemplo nas estátuas que enfeitam este altar. Elas representam deidades que são frutos da fusão da cultura xamânica que existia no Tibete com a budista. Porém mesmo que as noções católica e budista de Deus sejam completamente diferentes, um dos ideais de Buda é aceitar outras formas de ver essa questão. Digo isso porque alguns religiosos consideram sua religião superior às outras e porque espero que vocês, como budistas, desenvolvam uma mente aberta e não tenham um pensamento estreito. O fato de confiar somente nos ensinamentos do Buda não nos impede de aceitar outras expressões religiosas. Discutir sobre a melhor religião equivale a dizer a quem goste mais de maçãs do que de bananas: "Como você é estúpido, banana e muito melhor do que maçã!.”

P - No Budismo Tibetano, assim como em outras religiões, trabalha-se com a idéia de reencarnação que é muito confortadora. Porém, quando leio o comentário do Sutra do Coração feito por Thich Nhat Hanh, entendo que o autor nos fala da vida após a morte de uma forma diferente, como um desdobramento de nossa energia vital em outras formas de vida - as plantas, por exemplo , a menos que atinjamos o nirvana. Gostaria de saber se estou compreendendo bem o texto do Thich Nhat Hanh e, também, qual a posição da Soto Zen quanto a essa questão, pois sei que o autor pertence a outra linhagem. Tenho esta duvida porque o senhor, numa cerimonia que fez após o falecimento do meu pai, disse que havia vida após a morte, mas sem mencionar 'reencarnação' em outro corpo humano.

MR- O ponto mais importante do budismo é a realidade da vida aqui e agora, o que você era antes do nascimento e o que será após a morte não tem importância neste momento (longa pausa). O momento mais importante para você esta aqui, agora. Depois da morte e antes do nascimento são apenas idéias abstratas, você não precisa delas. Este é o ensinamento do Buda.

P - Pode-se dizer que o budismo Zen conservou os ensinamentos do Buda em sua forma mais pura?

MR- Essa questão de uma linhagem de ensinamentos ser mais pura e genuína é muito genérica e difícil de se verificar no âmbito espiritual. Portanto, eu só posso falar de minha experiência pessoal. Quando conheci meu mestre, tive uma forte intuição espiritual: 'Ah, esses ensinamentos, tanto os de Dogen quanta os de Shakiamuni, são puros, fortes, diretos": E é nisso que acredito. Nesse sentido, não posso dizer que outros caminhos não são puros, fortes e diretos. Para mim, o caminho é o Zen. Para outras pessoas, pode ser outro caminho.

P-Os apegos, incluindo o apego à vida, desaparecem depois da experiência da iluminação? O senhor ainda conserva algum apego (risos)?

MR - A resposta da primeira questão é sim, eles desaparecem. E isso não vale só para mim. Se alguém encontra o sentido da vida - que é o ensinamento espiritual mais valioso - todo o resto perde o sentido. "Perder o sentido" significa perder importância, desapegar-se. Sobre a segunda pergunta, é importante saber que o apego presente em nossa mente possui dois lados, um positivo e outro negativo. Mas o apego em si não é negativo. Podemos, portanto, transformá-lo em energia de esforço, que é o que acontece, por exemplo, com o desejo. Assim como vocês, eu tenho desejos. No entanto, eu consigo canalizar para o Darma a energia que surge dos desejos. É o que acontece com a minha energia vital, eu a coloco integralmente na prática Zen.

P - Tive uma experiência extra-corpórea extremamente marcante que, justamente, me fez procurar o Zen e na qual não posso deixar de acreditar. Creio que ela foi importante e válida. Seria necessário, ou mesmo possível, desapegar-me dela?

MR - Como já expliquei, o ensinamento Zen sabre o desapego - o "cortar fora", o "abandonar" - diz respeito às energias negativas da experiência, porque as energias negativas sempre perturbam a busca pelo caminho. Isso significa que, se abandonar as energias negativas das experiências ou das idéias, você gerará mais energias positivas.

P - Como para outros seres vivos, alimentação, sono e sexo são necessidades primordiais para nós, humanos. Como uma pessoa que escolheu o caminho espiritual pode lidar com a energia sexual? Como os monges que optam pelo celibato lidam com essa energia?

MR-Este é um ponto que eu sempre enfatizo: se você encontra o verdadeiro sentido de sua vida, a energia sexual - bem como a da fome e a do sono - pode ser facilmente dirigida. Se não o encontra, essa energia pode perturbá-lo. No budismo não se diz que dormir, comer ou manter atividade sexual é ruim, a não ser quando se perde o controle sobre essas coisas. Você poderá utiliza-las de maneira positiva se encontrar o sentido de sua vida, canalizando a energia dessas atividades para seu bem-estar como ser humano.

P - Mestre Dogen, em um de seus textos, diz que o universo inteiro nas dez direções é o verdadeiro corpo do homem. Como se explica isso?

MR- Creio que Dogen quis nos dizer que cada coisa existente no universo inteiro é a verdade em si mesma e que todos os fenômenos a expressam.

P - O que significa deixar cair corpo e mente?

MR - Boa pergunta. Mestre Dogen sempre usava expressões poéticas e não racionais para expressar suas experiências espirituais de meditação profunda. Shirijin significa literalmente "corpo-e-mente" ou também "desejo" - representa a nossa dimensão não iluminada; datsu raku significa "libertação". Quando encontro a verdade; esse desejo é modificado completamente: meu corpo-e-mente se transforma no Darma. Isso e o que Dogen quis dizer com "deixar cair" corpo e mente.

P - No Shinjinmei está escrito: buscar a mente com a mente dual é o maior de todos os erros. Assim, com qual mente devemos buscar a mente búdica?

MR-Oh! Que perguntas difíceis! Com qual mente? Não use a mente (risos).
É a mente humana que cria os conceitos de mente búdica e mente dual. Na natureza essas distinções não existem. Isso está relacionado a algo sobre o que sempre falo: a relação tempo-espaço. Um dia, para nós, humanos, é percebido como 24 horas. No entanto, na natureza não há 24 horas, existe apenas o sol nascendo e o sol se pondo. Os seres humanos é que criaram essa numeração. Se vocês se aprofundarem na meditação, o tempo pode até voltar (risos). Num nível mais profundo, não mais verão números gravados em seus relógios - há apenas ponteiros que se movem. Mais profundamente ainda, nem os ponteiros são necessários, pois o tempo desaparece. Como é relaxante saber que não existe o tempo.

P - Ontem eu virei a noite em meditação. A estranha sensação que tenho agora é de que não preciso mais dormir, só descansar. O senhor ainda dorme (risos)?

MR – O Buda disse que isso é o despertar, parabéns (muitos risos) ! Você não precisa mais dormir ! Você é realmente "O desperto”(mais risos). Vamos fazer uma festa para comemorar. Vou fazer um Curry que o manterá desperto, pois ele é bem picante.



A sessão terminou com uma nova recitação dos versos dos Tres Refúgios.


*Moriyama Roshi é diretor espiritual da Associação Zen Budista de Porto Alegre.




(Extraído da Revista Bodisatva - Revista de Pensamento Budista - Outono/2005 )