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sábado, 22 de agosto de 2020

Alvo de delegado da PF, Sleeping Giants vai à fonte para minar financiamento de Olavo de Carvalho

A matéria abaixo, publicada na edição brasileira do El País, é de autoria do jornalista Breiller Pires

Incômodo para o bolsonarismo, perfil foi investigado, mas inquérito acabou arquivado pela Justiça. Movimento trava agora batalha contra patrocínio digital do mentor da família presidencial

 

São Paulo - 18 AGO 2020

“Desmonetizar” é um verbo que passou a frequentar o vocabulário do debate político desde que o Sleeping Giants, movimento que expõe empresas que financiam sites de extrema direita e notícias falsas por meio de anúncios, chegou ao Brasil há exatos três meses, provocando incômodo em setores influentes bolsonaristas e motivando até um breve e controverso inquérito da Polícia Federal, cuja existência foi revelada nesta terça-feira pelo The Intercept Brasil. Na Internet, o conceito de desmonetização significa tirar dinheiro de propaganda automática das páginas, mas, para o perfil que alerta anunciantes sobre publicidade em espaços de desinformação, a palavra tem representado a ação mais efetiva para desidratar redes disseminadoras de ódio e mentira, a exemplo da encabeçada pelo maior guru do Governo Bolsonaro, Olavo de Carvalho.

Terceiro alvo da versão brasileira do Sleeping Giants, o site Brasil Sem Medo foi criado no fim do ano passado pelo escritor, mentor intelectual do bolsonarismo, definindo-se como “o maior jornal conservador do país”. Em março, quando a pandemia de covid-19 já havia matado 30 pessoas no Brasil, com base nos dados oficiais divulgados na época, o portal teve um vídeo retirado do ar pelo YouTube em que Olavo afirmava que “não tem um único caso confirmado de morte por coronavírus. Essa epidemia simplesmente não existe.” De linha editorial pró-Governo, o site endossa a narrativa bolsonarista e insiste em relativizar as mortes pela doença. Na semana passada, repercutiu a interpretação deturpada do tabloide sensacionalista Daily Mail a respeito de um relatório do Governo britânico, também difundida pelo presidente Jair Bolsonaro, sugerindo que o confinamento teria matado duas de cada três pessoas que morreram por coronavírus —na verdade, o levantamento ressalta que as medidas de isolamento social no Reino Unido salvaram mais de meio milhão de vidas.

No início de junho, o Sleeping Giants iniciou uma campanha para desmonetizar o Brasil Sem Medo por “utilizar constantemente notícias falsas, discursos odiosos e teorias conspiratórias”, além de “promover o ‘anticientificismo’ em plena crise de saúde pública”. Não bastasse a cobrança aos anunciantes pela retirada de propaganda automática, o perfil adotou a estratégia de “ir direto na fonte” ao alvejar empresas fornecedoras da tecnologia de pagamentos ao site, que cobra 290 reais pelo plano de assinatura anual. Em um primeiro momento, a Hotmart, utilizada como sistema de venda online das assinaturas, hesitou em parar de prestar o serviço ao portal. “Não somos a instância julgadora de fake news da Internet”, justificou em nota João Pedro Resende, CEO da empresa.

Já em 7 de julho, a Hotmart divulgou comunicado informando sobre a decisão de descontinuar o oferecimento de sua tecnologia à categoria de produtos jornalísticos e periódicos de cunho político, “independentemente da ideologia”. A empresa prometeu informar aos clientes afetados e interromper as vendas em no máximo 30 dias. Porém, o Brasil Sem Medo seguiu utilizando até a semana passada o sistema —já bloqueado pela Hotmart— para a comercialização de assinaturas, que, segundo cálculos do Sleeping Giants, rendem aproximadamente 236.000 reais por mês ao portal. O novo sistema operado pelo site não identifica o provedor do serviço.

Outra tática de desmonetização da máquina olavista empregada pelo Sleeping Giants foi expor PayPal e PagSeguro, plataformas que promovem a venda dos cursos online de Olavo de Carvalho e arrecadam doações para o ideólogo bolsonarista. Após mais de um mês de reivindicações pela interrupção do serviço, a norte-americana PayPal bloqueou a conta de arrecadação de Olavo, reiterando “o compromisso de revisar diligentemente qualquer usuário que não se enquadre nas políticas de uso”. Por outro lado, a brasileira PagSeguro, pertencente ao grupo UOL, resiste em suspender as transações eletrônicas remetidas ao filósofo, ainda que o Sleeping Giants sinalize violação dos termos de uso da plataforma por parte do usuário, como “propagar mensagem ou material que incite à violência ou ao ódio”.

“Reforçamos nosso compromisso transparente e ético em não compactuar com a disseminação de ódio, fake news ou qualquer tipo de discriminação”, manifesta o PagSeguro ao dizer que há impedimento legal para bloquear Olavo. “Por lei, instituições de pagamentos devem garantir acesso não discriminatório aos seus serviços e liberdade de escolha dos usuários finais.” Para uma corrente de especialistas em direito comercial, entretanto, empresas não atentam contra a Constituição ao deixar de prestar serviço a propagadores de notícias falsas. “Isso pode ser entendido como uma forma de compliance empresarial para observância de política corporativa de respeito aos direitos humanos”, argumentou Vladimir Aras, mestre em direito público e procurador do Ministério Público Federal (MPF).

Indignado com o bloqueio do PayPal, Olavo de Carvalho chama de “censura do comunismo” a campanha para desidratar o financiamento do site. “Usam a palavra desinformação para designar qualquer erro acidental ou imprecisão”, disse o filósofo em uma live do Brasil Sem Medo. “Não mostraram nenhuma fake news minha.” Em sua pregação contra ideais progressistas aos quais se refere como “doutrinação comunista”, Olavo já associou a pedofilia ao “movimento gay” e, recentemente, rogou pena de morte ao ministro Alexandre de Moraes, responsável pelo inquérito das fake news no STF que mira influenciadores e parlamentares bolsonaristas.

De acordo com o último balanço do Sleeping Giants, mais de 270 empresas atenderam à solicitação para bloquear a monetização em mídia programática, sistema de anúncios automáticos do Google, no site Brasil Sem Medo. Em três meses de atuação, a versão brasileira do movimento calcula ter ajudado a desmonetizar cerca de 1 milhão de reais de páginas e canais ligados à extrema direita, incluindo campanhas de crowdfunding (financiamento coletivo) paralisadas por plataformas que aderiram aos apelos do perfil. “Temos muito a agradecer a todos os seguidores que se engajam diariamente em nossa luta, cobrando das empresas a responsabilidade social em prol de um país livre de fake news”, afirma o administrador da conta brasileira, que mantém anonimato por questões de segurança, ao celebrar os resultados obtidos pelo movimento em menos de 100 dias de operação no país.

Inquérito da PF

Antes do Brasil Sem Medo, o Sleeping Giants mirou o Jornal da Cidade Online (JCO) e o Conexão Política, ambos com linha editorial bolsonarista e histórico de propagação de fake news. Primeiro alvo da ofensiva antiextremismo, o JCO também perdeu mais de 200 anunciantes, mas, após passar dois meses desmonetizado, voltou a veicular anúncios por meio de plataformas alternativas de mídia, como o programa de afiliados da Bet365, empresa de apostas britânica. O site ainda é irrigado por propagandas automáticas em sua página no Facebook.

Para manter contribuições e escapar do cerco digital, sobretudo no sistema do Google, ativistas digitais associados ao bolsonarismo têm recorrido a outras formas de financiamento. Entre as opções testadas está o uso de bitcoins ou até mesmo de plataformas de financiamento coletivo menos conhecidas, como a recém-lançada Thinkspot, voltada à monetização de conteúdos ultraconservadores. Por causa da debandada de anunciantes em sites alinhados à extrema direita, a cruzada do Sleeping Giants despertou reação de apoiadores e integrantes do Governo Bolsonaro, que passaram a levantar campanhas pregando boicote às empresas que vetam anúncios nas páginas de seus aliados. Um estudo elaborado pelo Netlab, laboratório da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) que pesquisa interações em redes sociais, identificou que 30% dos perfis que subiram hashtags contra marcas no Twitter eram operados por robôs.

Jornal da Cidade Online recorre a novo sistema de anúncios após bloqueios no Google.

O contragolpe não se limita ao ambiente digital. Segundo o The Intercept Brasil, a Polícia Federal de Londrina tentou investigar o perfil, em maio, por meio de um inquérito que terminou arquivado por pedido do MPF e decisão da Justiça. “A informação de que há sites propagadores de fake news causou extremo desgaste e inconformismo à toda população, inclusive a que vive em Londrina”, diz trecho do inquérito agora arquivado. O EL PAÍS questionou a PF sobre o inquérito, mas não havia obtido resposta até a publicação desta reportagem. O administrador do perfil do Sleeping Giants tampouco havia respondido aos questionamentos do jornal a respeito.

Fazendo coro aos filhos do presidente, o secretário de Comunicação do Planalto, Fabio Wajngarten, assegurou publicamente que iria contornar a situação a favor dos “veículos independentes” após o Banco do Brasil restringir anúncios no Jornal da Cidade Online em resposta ao Sleeping Giants. A possível interferência no órgão gerou ações no MPF e no Tribunal de Contas da União (TCU), que, no fim de maio, determinou a suspensão de campanhas digitais do banco em sites, blogs e redes sociais reconhecidos por disseminar notícias falsas. Relatório da CPMI das Fake News aponta que páginas apoiadoras do Governo já veicularam aproximadamente 2 milhões de anúncios pagos com verbas da Secom. A pasta explica que apenas contratou o serviço de mídia programática do Google, negando ter feito direcionamento específico a sites bolsonaristas.

Em nota enviada à reportagem, o porta-voz do Google informa que a empresa removeu anúncios, entre abril e junho deste ano, de mais de 600.000 páginas e 16.000 domínios no país por violação de suas políticas, que foram atualizadas em março para evitar a monetização de sites e canais com informações sobre a pandemia de covid-19 que contradizem o consenso científico. Recentemente, o TCU recomendou que o Governo suspendesse contratos com o Google para evitar a veiculação de propaganda estatal em páginas impróprias. A plataforma mantém contatos com o tribunal a fim de esclarecer o funcionamento do sistema de mídia programática, “incluindo opções de configurações e controles colocados à disposição dos anunciantes ou de seus representantes (como agências de publicidade)”, pontua o Google.

Com mais de 380.000 seguidores no Twitter, o Sleeping Giants Brasil já tem alcance maior que a matriz norte-americana, que foi tema de reportagem do EL PAÍS que inspirou o movimento brasileiro. Além do foco na desmonetização dos três sites, o perfil acumula trunfos pontuais, como a derrubada de uma campanha de financiamento dos 300 do Brasil, descrita pelo Ministério Público como “milícia armada”, e a investida contra o Xbox Mil Grau. O canal de gamers notórios por falas racistas, sexistas e homofóbicas acabou derrubado devido à mobilização em torno do YouTube e anunciantes. “Uma luta coletiva que deu resultados”, comemorou o perfil.

 

terça-feira, 5 de maio de 2009

Consumo ético e ação política




CONSUMO ÉTICO: CONSTRUÇÃO DE UM NOVO FAZER POLÍTICO ?



Por: Isleide Arruda Fontenelle

Fundação Getúlio Vargas/EAESP



RESUMO: Objetiva-se compreender o movimento pelo consumo ético e refletir sobre seu alcance na constituição de uma nova cultura de consumo e seu papel no “espaço público”. Efetuou-se uma revisão bibliográfica sobre o tema, em interlocução com a abordagem sociológica sobre os processos de democratização, consolidada nos anos 90, que traz a perspectiva de uma dinâmica nova do “espaço público” a partir da emergência de novos atores políticos e, com isso, recupera a possibilidade de um diálogo entre teoria crítica e teoria democrática. Na ausência de uma produção acadêmica nacional, buscou-se, na literatura internacional, as principais interpretações sobre o tema: uma que assume a positividade do movimento, sua capacidade de resistência e seu poder de transformação social; e outra que aponta para a negatividade do movimento e sua total absorção pelo mercado. Como pano de fundo, tem-se a problemática da falsa autonomia do sujeito burguês e da (im)possibilidade da consciência crítica.

Palavras-chave: consumo ético; cultura de consumo; espaço público; democratização; consciência crítica

1. Introdução

“O posicionamento ético é a continuação da guerra por outros meios” (Gilles Lipovetsky).


O objetivo deste ensaio teórico é o de refletir sobre o alcance do “consumo ético” na construção de uma nova cultura de consumo; bem como, de questionar até que ponto esse tipo específico de movimento de consumidores representaria uma forma nova de política no seu significado amplo, qual seja, no sentido de recolocar a questão do “espaço público” como uma esfera de crítica e de poder na determinação dos rumos da transformação social.

Consumo ético, na proposição dos autores e organizadores do livro The Ethical Consumer (Harrison; Newholm; Shaw; 2005), se refere a um ato de compra (ou não compra) no qual estão implícitas as preocupações do processo de consumir com os impactos que isso possa causar ao ambiente econômico, social ou cultural. Ou seja, ele está circunscrito ao fato de que o consumidor pensa e se preocupa com os efeitos que uma escolha de compra gera aos outros e ao mundo externo como, por exemplo, com o tratamento despendido aos trabalhadores envolvidos na produção de um determinado produto, ou com os impactos ambientais que certos produtos causam.

Esse tipo de atitude, que pode ser individual, só se tornaria política ao se condensar em um coletivo, denominado de movimento de consumidores ou consumer activism, nas proposições de Lange e Gabriel (2005). Empreendendo uma breve história sobre o ativismo dos consumidores, os autores demonstram como esse termo não é novo, remontando ao século XIX, através de histórias de boicotes e de formação de cooperativas de compras, como as cooperativas inglesas emergentes no final do século XIX, formadas em reação aos preços excessivos e à má qualidade dos produtos. Os autores reconhecem que o ativismo dos consumidores tem sido pouco teorizado na literatura histórica e acadêmica, mas apontam para a importância que o movimento pelo consumo ético tem ganhado nesse início de século, na medida em que as questões contemporâneas que o movimento tem levantado envolvem problemas complexos como a sustentabilidade do planeta, o comércio justo, a solidariedade social, e os direitos do consumidor enquanto direitos de cidadania.

Mas qual é o alcance e a efetividade desse tipo de movimento? Murphy e Bendell (2001) descrevem os consumidores como a nova força capaz de enfrentar as grandes corporações em face do declínio do poder e a da influência dos sindicatos trabalhistas; e que eles, de fato, estão causando impactos profundos nos projetos das grandes corporações. Segundo os sociólogos Beck (1999) e Giddens (1990), tendo em vista que muitos dos riscos que nós estamos enfrentando são decorrentes das nossas próprias ações humanas na construção das sociedades de consumo, tais ações passaram a ser questionadas e politizadas. Sob essa perspectiva, o “consumo ético” estaria provocando uma mudança na atual sociedade de consumo de massas e formatando uma nova “cultura de consumo”.

Mas até que ponto esse tipo de atitude pode ser considerada política no seu sentido amplo, qual seja, na determinação de uma transformação social que altere o jogo de forças no qual predomina, hoje, o mercado? Na literatura crítica internacional, há dois tipos de interpretação: a que acredita na importância do movimento em provocar mudanças radicais na sociedade contemporânea e, nesse sentido, promover a transformação social; e, em uma perspectiva oposta, uma interpretação que recusa ver o movimento como uma forma de ação política. Na primeira linhagem, estariam trabalhos como o de Klein (2002), Gorz (2005), Canclini (1996;1990), Beck (1999) e Giddens (1990). Entre os que desacreditam dessa possibilidade, encontram-se autores como Frank (1997; 2004) e Potter e Heath (2005).

Tais autores e suas argumentações serão desenvolvidos ao longo deste artigo. Por ora, pretende-se demonstrar que o debate em torno dessa questão aponta para as reflexões que este artigo apresenta acerca das relações entre consumo ético e espaço público, lançando mão, especialmente, da abordagem sociológica sobre o processo de democratização na América Latina, consolidada ao longo dos anos 90, que redefiniu a noção de “espaço público” enquanto um “modelo discursivo”. Essa concepção, que “diz respeito mais propriamente a um contexto de relações difuso no qual se concretizam e se condensam intercâmbios comunicativos gerados em diferentes campos da vida social” (Avritzer & Costa, 2004), reforça a importância da sociedade civil como um eixo central das novas relações de poder. Mas é possível se assumir que tal concepção também deixa brechas para se pensar a emergência de novos atores que surgiram como produto de novas formas de vida e de comportamento, dentre os quais poder-se-ia localizar o movimento de consumidores?


Certamente que as respostas para essas questões só poderiam ser respondidas a partir de uma pesquisa empírica mais ampla, na qual, de fato, este ensaio teórico está inserido. Entretanto, tal pesquisa – sobre movimentos de consumidores e consumo ético no Brasil – ainda está em fase inicial de realização. Daí porque, neste momento, propõe-se este ensaio teórico no sentido de apontar as questões, as reflexões teóricas e a importância de se colocar, na pauta da discussão, a temática dos movimentos de consumidores e do consumo ético. Adianta-se, também, que, embora a produção acadêmica sobre consumo ético já comece a despontar em publicações internacionais – das quais a coletânea “The Ethical Consumer” é uma referência e traz contribuições de diversas áreas - uma primeira revisão da literatura nacional na área de Psicologia não indicou produções acadêmicas nesse sentido.

Visando contribuir para esse debate, o presente artigo discorrerá sobre os seguintes tópicos: sobre o papel do consumo ético na produção de uma nova cultura de consumo; e sobre as relações entre resistência, poder e politização do consumo. Por último, tecem-se algumas considerações finais a respeito do assunto. Com isso, pretende-se alcançar uma melhor compreensão sobre o que está acontecendo no campo do consumo ético e sobre o que a análise desse campo nos fornece a respeito do espaço público e do papel da sociedade civil. Em outras palavras: estariam os movimentos de consumidores que defendem o consumo ético forçando a produção de uma nova cultura de consumo, na medida em que lançam mão de seu poder de causar danos às imagens de marca? Até que ponto isso poderia provocar uma transformação social mais ampla ou, nessa esfera, o ativismo dos consumidores se apresentaria como um mero movimento de resistência passiva que, estruturalmente, não mudaria muita coisa?




2 . O consumo ético na produção de uma nova cultura de consumo

Buscando entender o que provocou o florescimento de movimentos pelo consumo ético nas últimas três décadas, Harrison et al. (2005) identificaram sete fatores: a globalização dos mercados e o enfraquecimento dos governos nacionais; a ascensão das marcas e corporações transnacionais; a ascensão de campanhas de grupos de pressão; os efeitos dos avanços tecnológicos sobre os ambientes natural e social; o deslocamento do poder do mercado em direção aos consumidores; a eficácia de campanhas de mercado; o crescimento de um amplo movimento de responsabilidade corporativa. Tais fatores teriam emergido como resultado de uma sociedade de consumo no qual o mercado tornou-se dominante, mas cujas conseqüências sociais teriam transformado o consumo em um espaço de disputa política, tanto pelos problemas a ele associados, quanto pela “descoberta” da força do consumidor frente ao poder do mercado.

Na perspectiva de Lipovetsky (2004), o consumo ético pode ser compreendido como a contrapartida da responsabilidade social corporativa, espelhando uma nova forma de gestão global que foi pautada por uma necessidade ética do mundo organizacional, no sentido de recolocar a dimensão humana nas empresas. Nesse sentido, para Lipovetsky, a ascensão da ética nos negócios se deveu a quatro fatores: a) a uma necessidade real de preservação do meio ambiente e do homem; b) a uma busca de maior transparência dos mercados, tendo em vista o novo modelo econômico do capitalismo a partir das políticas neoliberais dos anos 1980, gerando uma fúria econômica e, conseqüentemente, escândalos corporativos que puseram o mundo organizacional sob suspeita; c) a uma nova estratégia do marketing, na medida em que as empresas passaram a perceber o lado benévolo de atitudes socialmente responsáveis para suas imagens de marca; d) a uma promoção da cultura empresarial, em busca de uma mobilização dos empregados, na medida em que, acredita-se, alcançando uma imagem de respeitabilidade externa, a empresa também conseguiria motivar o seu pessoal e a mobilizá-lo, fazendo com isso também influenciasse na dinâmica produtiva da empresa.

Embora a perspectiva de Lipovetsky não deixe espaço para se pensar que o movimento pela “ética nos negócios” seria decorrente de uma pressão social - e, não apenas, de uma escolha das empresas-, ela nos ajuda a demonstrar como as organizações já estão reagindo ao movimento. Nesse sentido, o consumo ético pode ser compreendido como o resultado necessário de um novo estágio das sociedades de consumo e, como desdobramento deste, pode se apresentar como uma nova estratégia de negócio e de fortalecimento da imagem. Um conceito que permitiria pensar essa questão seria o de “risco”: risco corporativo relacionado especialmente aos prejuízos causados, por uma “crise de imagem”, sobre a reputação da empresa, com repercussões negativas diretamente na escolha dos seus consumidores.

O processo funcionaria da seguinte maneira: diante da pressão de movimentos de consumidores, especialmente do “patrulhamento das ONG´s”, as empresas estariam sendo impelidas a desenvolverem um modelo de produção socialmente responsável como uma nova estratégia de negócio. Sendo assim, na outra ponta, as empresas buscariam disseminar a sua imagem “socialmente responsável” através de estratégias de comunicação que veiculassem e valorizassem suas ações, visando um consumidor disposto a realizar uma escolha “politicamente correta”, ou seja, que reconheça e atribua valor a tais estratégias empresariais. O “consumidor ético” passa a ter, portanto, um papel fundamental, especialmente através das escolhas de compra, consumindo ou boicotando determinados produtos por conta das ações das empresas envolvidas em sua produção.

Esse movimento parece indicar que poderia estar se dando a construção de uma nova cultura de consumo, tal qual se constituiu, nas primeiras décadas do século XX, a “cultura de consumo de massas”. Como a história da formação da sociedade de consumo americana nos mostra, a construção da sociedade de massas foi mais que um projeto econômico: foi também um projeto político de grande envergadura que, nos anos 1920, contou com a força-tarefa da comunidade empresarial, de intelectuais da “psicologia humana” e de medidas políticas do Presidente Herbert Hoover. Dentre muitos os fatores que contribuíram para a “criação da psicologia do consumo de massa”, estão a criação do crédito ao consumidor, o surgimento dos subúrbios e um novo imaginário baseado na insatisfação que formatou uma “expansão capitalista do desejo” (Sennett, 2006) .

A esse respeito, também são interessantes as referências de Jeremy Rifkin em “o Fim dos Empregos” (Rifkin, 1995) e de André Gorz, em “O Imaterial” (Gorz, 2005) Ambos os autores discorrem longamente, a partir de uma vasta bibliográfica histórica sobre o período americano, sobre como se deu a produção dessa sociedade de consumo de massas e como isso se espraiou pelo mundo como um american way of life. Nesse sentido, os profissionais de marketing tiveram um papel fundamental na longa jornada de “educação” do povo americano para que, por exemplo, este viesse a desistir da compra a granel – ainda predominante nas primeiras décadas do século XX – e passasse a consumir produtos industrializados e embalados em massa.

Tal cultura de consumo se globalizou, sobretudo, a partir do segundo pós-guerra e, mesmo misturando um ideário americano às especificidades nacionais, o fato é que se pode falar de uma “estandardização da cultura mundial, com as formas locais populares ou tradicionais sendo deslocadas ou emudecidas para abrir espaço para a televisão americana, para a música americana, para comida, roupas e filmes, como um aspecto central da globalização.” (Jameson, 2001:20).

Em que pese essa predominância dos produtos culturais americanos, há algo mais penetrante a se enfocar aqui: a de que consumir tornou-se uma modalidade específica de vida, como afirma o sociólogo Zygmunt Bauman:

“quando falamos de uma sociedade de consumo, temos em mente algo mais que a observação trivial de que todos os membros dessa sociedade consomem... O que temos em mente é que a nossa é uma ‘sociedade de consumo’ no sentido, similarmente profundo e fundamental, de que a sociedade dos nossos predecessores, a sociedade moderna nas suas camadas fundadoras, na sua fase industrial, era uma ‘sociedade de produtores’. Aquela velha sociedade moderna engajava seus membros primordialmente como produtores e soldados; a maneira como moldava seus membros, a ‘norma’ que colocava diante de seus olhos e os instava a observar, era ditada pelo dever de desempenhar esses dois papéis... Mas a maneira como a sociedade atual molda seus membros é ditada, primeiro e acima de tudo, pelo dever de desempenhar o papel de consumidor. A norma que nossa sociedade coloca para seus membros é a da capacidade e vontade de desempenhar esse papel” (Bauman,1999:87-88).

De fato, esse modelo cultural ainda predomina nos nossos dias, e é esse modelo que o movimento de consumidores pelo “consumo ético” vem questionar. Nesse sentido, é interessante apontar como, em seus primórdios, as batalhas travadas em torno do consumo ético não colocavam em xeque a sociedade de consumo de massas. Pelo contrário. Eram batalhas pela inserção no modelo, visando baixar os preços dos produtos ou questionando a higiene, a qualidade ou a segurança dos mesmos. Foi apenas a partir da década de 1970 que começou a emergir, muito lentamente, uma nova forma de organização de consumidores voltada a questionar o consumo excessivo e propor alternativas a ele. Segundo Harrison et al. (2005) essa nova onda de ativismo passou a envolver temas como consumo verde, ética, solidariedade para com o terceiro mundo e orientações para comércio justo. Entretanto, para esses autores, somente a partir da década de 1990 é que foi possível apreender uma coerência global desses movimentos que pudesse agregá-los em torno do termo “consumo ético”, especialmente a partir da criação da Ethical Consumer Research Association (ECRA), no Reino Unido, e do Council on Economic Priorites, nos Estados Unidos. Assumindo o poder do consumidor – “cada vez que você se dirige a uma caixa registradora, você vota.” (Will; Marlin; Corson; Schorsch; 1989:143) – esses novos movimentos passaram a afirmar que seus objetivos seriam provocar uma mudança cultural e promover a consciência do consumidor sobre as implicações globais do padrão de consumo do mundo ocidental.

Em que pese a força e a importância desse movimento para uma transformação da cultura de consumo de massas, há outros elementos em jogo. Rifkin (2001) demonstra um outro lado que nos faz compreender a real extensão das novas formas de atuação das organizações: não se trataria apenas de reagir a uma forma de resistência do consumidor, mas o foco em formas de produção e consumo “socialmente responsáveis” poderia ser também produto de um esgotamento do mercado de massas, no sentido de que o capitalismo enfrenta um novo desafio:

“Para as nações ricas e, em particular, para os 20% mais abastados da população mundial que continuam a colher os frutos oferecidos pelo modo capitalista de vida, o consumo de bens está quase alcançando o ponto de saturação. Restam poucos valores psíquicos que se podem tirar ao se ter… aparelhos de todo tipo para suprir todas as necessidades e desejos possíveis. É nessa conjuntura que o capitalismo está fazendo sua transição final para o capitalismo cultural plenamente desenvolvido…” (Rifkin, 2001:117).

Demonstrando sua tese, Rifkin nos mostra como o mercado empreendeu a desregulamentação das funções e serviços do governo nas décadas de 1980 e 1990 e, em menos de duas décadas, absorveu grande parte do que antes era da esfera pública, incluindo, no âmbito comercial, os serviços de utilidade pública, de telecomunicações e do transporte coletivo. A próxima etapa da esfera pública a ser absorvida pelo mercado, ainda segundo Rifkin, seria a cultural já que, no capitalismo contemporâneo, “a única área onde há oportunidades para se ganhar dinheiro é o oferecimento de experiência aos clientes, na forma de serviços.” (Rifkin, 2001:76).

Daí porque, o capitalismo do futuro, ainda segundo Rifkin, terá que, necessariamente, envolver um “vasto arranjo de experiências culturais”, tais como: viagem e turismo global, parques e cidades temáticos, centros de bem-estar, enfim, formas de entretenimento pessoal pago. De fato, quando analisamos as denominadas pesquisas de mercado de tendências culturais, constatamos o quanto o mercado tem mapeado e investido em uma nova frente: na Economia da Experiência (Pine & Gilmore; 1999), desenhada como produto do “novo desejo fundamental”, que estaria relacionado a buscar “estados alterados que realmente façam bem, conexões humanas mais saudáveis, um senso de identidade, e caminhos e líderes com fins benévolos” (Davis, 2003:280). Ou seja: a fusão entre cultura, ética e negócios, que termos como “marketing cultural” e “marketing social” definem tão bem.

Essa necessidade estrutural do mercado que o faz buscar novos nichos de consumo se soma a outras perspectivas que nos apresentam um quadro mais acabado da crise da sociedade de consumo de massas, qual seja, o esgotamento dos recursos naturais e do próprio imaginário, no sentido de ter se tornado claro de que o sonho do consumo de massas nunca esteve, mesmo, ao alcance de todos. No que diz respeito à questão da sustentabilidade, o estudo de Portilho (2005) demonstra a virada discursiva que se deu no movimento de defesa pelo meio ambiente que, a partir da década de 1990, deslocou a ênfase até então dada à produção, para o campo dos hábitos de consumo e do papel do consumidor na responsabilidade pela sustentabilidade ambiental. Essa questão tem impacto no imaginário, na medida em que torna claro o quanto o planeta Terra não suportaria a extensão do consumo de massas a todos os rincões da terra, como era a promessa da ideologia do progresso.



Na perspectiva de Frank (1997), seria esse estado de coisas que estaria levando as empresas a absorverem os movimentos de resistência dos consumidores. Autor do livro “The conquest of cool”, Frank demonstra como os movimentos contraculturais dos anos 60 injetaram um novo alento para o mercado e para a renovação e perpetuação da sociedade de consumo. Nesse início de século, com a nova etapa pelo “consumo ético”, o mercado também teria encontrado sua nova face: trata-se do “marketing de libertação... do capital”, título de um artigo escrito por Frank para o Le Monde Diplomatique, no qual o autor demonstra a nova feição do marketing, que absorve o discurso crítico e até mesmo questiona a sociedade de consumo:

a publicidade da moda admite que realmente há algo de errado com a nossa existência, que o mercado não nos deu tudo o que prometeu, que não resolveu os problemas decorrentes do desenvolvimento capitalista...Seguindo essa grande narrativa publicitária, estimulada todos os anos por centenas de bilhões de dólares, o problema maior de nossas sociedades seria o conformismo, e a resposta apropriada, o carnaval... Para resistir, seria preciso que freqüentássemos as redes de restaurantes ‘étnicos’, ou víssemos os vídeos de Madonna. Ou simplesmente homenageássemos os consumidores que o fizessem... A crítica do capitalismo tornou-se, de forma bem estranha, o sangue salvador do capitalismo. É um sistema ideológico fechado, dentro do qual a crítica pode ser abordada e resolvida, porém de maneira simbólica. (Frank, 2004).

De fato, quando nos deparamos com o imenso “mercado verde” ou com o “mercado da cidadania”, relacionados, respectivamente, a atitudes politicamente corretas e a ações de filantropia e de responsabilidade social, somos tentados a concordar com Frank e a admitir que esses movimentos de consumidores funcionariam como uma espécie de vírus do sistema, que, à semelhança de Neo, no filme Matrix, seriam produzidos para indicar as falhas e as possibilidades de correção do modelo. Ou seja: poderiam até causar mudanças no modelo, mas não alterariam as relações de força, comandadas, hoje, pelo mercado, e nem empreenderiam transformações sociais mais amplas.

Mas o movimento pelo consumo ético também inspira um outro tipo de interpretação que o coloca como novo ator social. Referindo-se ao livro “Sem Logo”, de Klein (2002), André Gorz argumenta que a autora retraça, ao mesmo tempo, o método e a extensão da “tomada dos espaços públicos e a resistência que ela encontra” (Gorz, 2005:51). Essa tomada se daria através da penetração cultural das grandes corporações e suas marcas publicitárias, gerando uma nova forma de conflito:

“uma luta de classes deslocada para um novo campo: o do controle da esfera pública, da cultura comum e dos bens coletivos. Os atores da resistência, organizada... em grande escala – ou melhor, auto-organizada localmente e internacionalmente graças à Internet -, são movimentos de estudantes secundaristas, de consumidores e de moradores decididos a reconquistar o domínio público, a novamente se apropriar do espaço urbano, a retornar o poder sobre seu meio, sua cultura comum e sua vida cotidiana.” (Gorz, 2005:51-52).



André Gorz



De fato, Naomi Klein estaria retratando uma forma específica de resistência ligada ao contexto do consumo: a de negar que todos os aspectos da vida fossem transformados em mercadoria. Segundo a autora, essa forma específica de resistência se chamaria “movimentos anticorporação”, mas seu livro acaba por abrir o leque, a fim de incluir toda forma de protesto que não indicaria

“manifestações e um só movimento, mas convergências de muitos movimentos menores, cada um visando a uma multinacional específica (como a Nike), um setor particular (como o de agrobusiness) ou uma nova iniciativa de comércio (como a Área de Livre Comércio das Américas), ou em defesa da autodeterminação de povos nativos (como os zapatistas)” (Klein, 2002:478).

Naomi Klein


Esses movimentos estariam lutando com as mesmas forças que, segundo Klein, baseiam-se em participações no nível local – associações de bairro, sindicatos, fazendas, grupos anarquistas, etc – mas que visariam, estrategicamente, desvincular suas lutas de algo étnico ou local, a fim de apontar uma questão universal e um inimigo global: o neoliberalismo, caracterizado pelo poder mundial do mercado. Tais movimentos ainda estariam, segundo a autora, substituindo as instituições tradicionais “que antes organizavam os cidadãos em grupos ordenados e estruturados [e que] estão todas em declínio: sindicatos, religiões, partidos políticos.” (Klein, 2002:483).

Desse ponto de vista, tratar-se-ia, de fato, de uma mudança de perspectiva cultural e política: a agenda de conflito dos movimentos de consumidores estaria absorvendo temas caros à agenda política dos processos de democratização relativos à esfera pública e aos direitos de cidadania. Portanto, não se trata apenas de uma questão semântica. Dessa perspectiva, o consumidor assume, de fato, o lugar de um ator político de maior importância, através de uma nova forma de conflito caracterizada pela não mediação estatal, que interpela diretamente o mercado e usa, como arma de protesto, os riscos à imagem publicitária das corporações.

Por que essa mudança de foco? Para Newholm (2000), tendo em vista a influência que a cultura de consumo teve em moldar nossos estilos de vida, nós, cada vez mais, expressamos nossas éticas através do consumo, precisamente porque o consumo e sua relação com a construção da auto-imagem, tornou-se nossa principal atividade e aquela que mais consome o nosso tempo. Daí porque, quando os consumidores são forçados a considerar as conseqüências existenciais do consumo, isso pode apontar para uma nova concepção de cidadania na qual o consumidor tem um papel central. Nesse sentido, ganha espaço a tese de Nestor García Canclini, que articula consumo e cidadania a partir de um outro prisma: aquele no qual “os Estados cederam ao capital privado o controle da economia, tanto material quanto simbólica, através da privatização em larga escala.” (Portilho, 2005:15). Tal mudança de contexto forçou a recolocação da questão do público no qual o consumidor reconhece não apenas o seu direito mas, principalmente, o seu poder. Isso nos encaminha para a segunda parte do artigo.




3 . Resistência, poder e politização do consumo: novos domínios do espaço público?

A temática do consumo sempre representou um objeto central de reflexão para a teoria crítica que, a partir dos escritos de Adorno; Horkheimer (1985), sob como as sociedades de consumo estariam gerando uma nova “cultura de massas”, produziu um amplo arcabouço teórico-crítico que demonstrou o lugar do consumo na sociedade contemporânea e de como, a partir do marketing e de seus principais mecanismos de persuasão (anúncio comercial e publicidade), começou a se dar uma infiltração da esfera comercial na esfera pública, mediante uma forma de comunicação cada vez mais guiada pelo mercado. Tal fenômeno seria ainda mais forte nas sociedades latino-americanas, caracterizadas pela inexistência histórica de um espaço comunicativo semelhante ao contexto europeu, possibilitando, dessa forma que os meios de comunicação de massa passassem a ser os mediadores sociais por excelência e estabelecessem “uma nova diagramação de espaços e intercâmbios urbanos” em tais sociedades (Canclini, 1990:.49). Tal estado de coisas levou a uma interpretação central da teoria crítica, especialmente adorniana: a da perda da autonomia do espaço público e da atomização do indivíduo e sua transformação em consumidor de entretenimento.

Predominante ao longo de quase toda a metade do século X, foi apenas na década final do referido século, no prefácio da reedição alemã de 1990, do livro Mudança Estrutural da Esfera Pública, que a teoria crítica foi revisitada por Jurgen Habermas, um dos principais representantes contemporâneos da Escola da Frankfurt (Habermas, 2003). Em uma bela revisão histórica que faz sobre o desenvolvimento do conceito de espaço público, Avritzer e Costa (2004) enfatizam as questões centrais que Habermas elaborou nesse prefácio, no qual sustenta o potencial público de crítica, a despeito da pressão da mídia, e detalha “o papel de uma esfera pública politicamente influente dentro de sua concepção teórico-discursiva da democracia.” (Avritzer & Costa, 2004:709)[1].

Ainda, segundo esses autores, Habermas recuperou a possibilidade de uma relação entre a teoria crítica e a teoria democrática que passou a demarcar uma nova abordagem sociológica sobre o processo de democratização na América Latina, que se consolidou ao longo dos anos 90 e que redefiniu a noção de “espaço público” enquanto um “modelo discursivo”. Entretanto, os autores apontam para necessidades de correção do modelo discursivo habermasiano, dentre os quais, estaria a proposição de Cohen e Arato (1994) acerca da emergência dos new publics:

“a criação e expansão de novos públicos e novos loci de realização de formas críticas de comunicação – contextos de difusão de subculturas, movimentos sociais, microespaços alternativos, etc..., os quais colocam em movimento dinâmicas de inovação cultural e contestação dos padrões sociais estabelecidos no plano, por exemplo, das representações de gênero, das relações étnicas, etc.” (Cohen & Arato, 2004:711).



Seria possível, a partir dessa definição dos new publics, identificar o movimento pelo consumo ético, tal qual ele vem sendo caracterizado nesse início de século - com sua agenda voltada para questões como comércio justo, direitos civis, solidariedade global, etc -, como um novo ator político, que pudesse recuperar a relação entre teórica crítica e teoria democrática? A revisão bibliográfica empreendida até o momento nos leva a perceber um silenciamento a esse respeito no campo da teoria crítica. O avanço do conceito de espaço público, no interior da literatura sociológica ao longo dos anos 90, indica um debate travado em torno da questão da representação e do conceito de democracia, ou seja, da relação entre política institucionalizada e “relação argumentativa crítica”, com a organização política no lugar da participação direta. É esse o centro do debate e é em torno dele que os denominados “novos movimentos sociais” ou new publics, são chamados a participar, tendo em vista que, na proposição habermasiana, o espaço público continuaria “estabelecendo, como órbita insubstituível de constituição democrática da opinião e da vontade coletiva, a mediação necessária entre a sociedade civil, de um lado, e o Estado e o sistema político, de outro.” (Avritzer & Costa, 2004:708).

Convém destacar que a questão da representação também é central para o movimento de consumidores “éticos”, envolvendo desde as organizações que se fundam e agem em torno dos limites institucionais, até os movimentos mais radicais – como os denominados “ecoterroritas”, de defesa dos animais - que negam o lugar do Estado e reivindica a ação direta e anárquica. O fato é que esse poder de pressão direta sobre as corporações têm levado teóricos do anarquismo, como o antropólogo americano David Graeber, a tomarem esses exemplos como modelos vivos de formas contemporâneas de luta pela reinvenção da democracia, mediante uma ação direta que pudesse mudar o mundo sem ser a partir do controle do Estado (Graeber, 2005). No campo da literatura, o escritor J.G. Ballard tematizou diretamente sobre essa questão envolvendo a revolta de consumidores. Falando a respeito do seu livro “Terroristas do Milênio”, em entrevista dada à Folha de São Paulo, Ballard (2005) assume que

“a política fracassou completamente no mundo inteiro e não é mais capaz de resolver nossos principais problemas – intolerância étnica e racial, desigualdades de renda, epidemias globais, a destruição do ambiente, o aquecimento global, ajudar o Terceiro Mundo e tantos outros. Onde a política falha, soluções mais perigosas e radicais tendem a aparecer...” (Ballard, 2005).



Em que pese esse foco, o livro de Ballard não apresenta o consumidor como uma força política capaz de fazer frente a tal estado de coisas; pelo contrário, sua crítica ácida se dirige, ao mesmo tempo, à sociedade de consumo, ao Estado e à “falta de sentido” dessa revolta de consumidores entediados com aquilo que lhes dá conforto e comodidade.

Essa questão permeia o debate em torno da politização do movimento. Daí porque, para Harrison et al. (2005) – que são ao mesmo tempo, ativistas e pensadores do movimento –, é preciso definir consumo ético, antes de tudo, como aquele que está preocupado com questões para além do mundo interno dos consumidores, ou seja, com sua saúde, seu conforto, sua qualidade, etc. As “bandeiras” do consumo ético precisam ser, na perspectiva desses autores, fundamentalmente externas, voltadas para o mundo que os rodeia, encampando o tema da solidariedade. Assim, a questão da representação política está ligada a uma outra temática – que também aproxima o movimento pelo consumo ético das reflexões que fundaram a teoria crítica – qual seja, a da possibilidade de consciência crítica. Na medida em que as proposições do consumo ético, nesse sentido, é de circunscrevê-lo ao campo da moral, de mudar a mentalidade para o consumo, até que ponto isso pode representar a possibilidade da “consciência crítica” e da ação política?

Sabe-se o quanto esse tema foi central, especialmente nas proposições de Adorno a respeito da “autonomia ilusória do sujeito burguês [e] do funcionamento opressor da razão científica e tecnológica, inclusive em sua aplicação ao campo social” (Dews, 1996:51), o que levou a uma certa paralisação da teoria crítica acerca da possibilidade da emancipação. Mas sabe-se, também, o quanto, para Adorno “as verdades mais profundas, e amiúde não reconhecidas, dos artefatos culturais revelam-se pelos seus aspectos aparentemente mais marginais e fortuitos” (Dews, 1996:51). Desnecessário, portanto, afirmar a importância de se pensar a emergência de um movimento de crítica no interior de uma cultura na qual o consumo passou a influenciar, decididamente a maneira como nós agimos, pensamos e vivemos ao longo da vida.

O desafio deste artigo é, justamente, propor que é possível se pensar o movimento pelo consumo ético no horizonte da teoria crítica, a partir das duas temáticas elencadas acima, quais sejam: a do nível da representação política e o da consciência crítica. Trata-se de um desafio para o futuro, que este artigo não tem a menor pretensão de esgotar mas, tão somente, de apontar, na medida em que, para ser rigorosamente coerente com a teoria crítica, tal empreendimento só poderia ser plenamente realizado a partir da pesquisa empírica. Retomando Habermas, quando o autor forjou seu conceito de espaço público enquanto espaço discursivo, não deixou de levar em conta a ambivalência constitutiva da esfera pública, marcada como esta está pela imbricação entre a esfera pública e a privada, levada a cabo pelo mercado, especialmente, pelos meios de comunicação de massa. Daí porque, propôs que as associações voluntárias que operariam na esfera pública, se opondo aos atores instituídos, fossem desvinculadas do mercado e do Estado – e passassem a se denominar “sociedade civil” – e alertou para que tais movimentos fossem avaliados individualmente e empiricamente, a fim de que se pudesse compreender o seu alcance de interferência nas instâncias decisórias.

Será, portanto, mediante a realização da pesquisa empírica sobre movimento de consumo ético que se espera encontrar maiores desenvolvimentos para as questões que este ensaio teórico aponta. Mas espera-se que este artigo já contribua com o debate, na medida em que aponta algumas questões contemporâneas pertinentes às questões relativas às possibilidades da emergência do sujeito do conflito.




4 . Considerações finais

Este ensaio teórico procurou compreender uma faceta do movimento de consumidores, denominada de “consumo ético”, visando entender até que ponto ele estaria forjando uma nova cultura de consumo, em oposição à cultura de consumo de massas. O levantamento bibliográfico realizado até o momento permite elucidar que, em conjunto com outros fatores - o esgotamento do mercado de consumo de massas e a demanda das empresas por novos nichos de consumidores; bem como, um problema real de sustentabilidade do planeta -, o movimento pelo consumo ético tem forçado a uma mudança de mentalidade e, portanto, à produção de uma nova cultura de consumo. Essa ainda emergente cultura de consumo pode ser localizada em movimentos pelo consumo verde, boicotes contra empresas que não são socialmente responsáveis ou, inversamente, através da compra positiva.

O artigo também procurou refletir sobre a produção acadêmica que vem teorizando sobre o movimento pelo consumo ético, que se divide em duas formas opostas de interpretação: aquela que aponta para o consumidor ético como um “novo ator social”, no sentido de que ele seria a força capaz de pressionar por transformações sociais mais amplas; e, por outro lado, uma posição que aponta a total absorção dos ideários do consumidor ético pelo mercado. Mas o artigo propôs que é possível refletir sobre a temática do consumo ético a partir da teoria crítica, na medida em que foi esta teoria que melhor formulou os impasses relacionados à questão da esfera cultural e das (im)possibilidades de uma esfera cultural autônoma. Através dos conceitos de representação política e de consciência crítica – ambos presente no horizonte prático do movimento pelo consumo ético, bem como, no horizonte teórico da crítica da cultura – a realidade contemporânea poderia interpelar e fazer avançar a teoria que, a esse respeito, tem se emudecido.

Tais proposições têm um horizonte de pesquisa mais amplo, qual seja, uma pesquisa empírica sobre movimento de consumidores e consumo ético no Brasil, que ainda está em sua fase inicial de realização. As reflexões obtidas ao longo deste ensaio teórico indicam para a necessidade de um foco maior da pesquisa na mecânica da “consciência crítica” e da reinvenção da democracia nesses novos processos de contestação que trazem em seu bojo a crítica ao consumo.



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[1] Vale ressaltar que o termo “teoria crítica” refere-se à produção intelectual da Escola de Frankfurt que, por sua vez, tem dois momentos históricos distintos: o que se inicia com a primeira geração – que, dentre outros, é representada por Max Horkheimer e Theodor Adorno – e a sua continuidade em uma segunda geração capitaneada por Jurgen Habermas. É preciso ressaltar que há diferenças substantivas entre a produção teórica e crítica nessas duas gerações. O que se pretende é que, com o desdobramento da pesquisa que este artigo propõe, se possa partir da formulação de Habermas – e de sua teoria comunicacional da sociedade, com seu potencial crítico -, para se retornar à primeira geração – especialmente Theodor Adorno - e sua formulação de uma teoria crítica que, em interlocução com a produção freudiana a respeito do peso da cultura na formatação subjetiva, nos instigou e ainda instiga a pensar sobre as (im) possibilidades de sermos sujeitos críticos em uma cultura de consumo.









ETHICAL CONSUMPTION: THE CONSTRUCTION OF A NEW POLITICAL DOING?

ABSTRACT: Our aim is to understand the movement for ethical consumption and reflect on its scope on the constitution of a new consumer culture, and its role in the “public space”. We conducted a bibliographic review on the subject, which dialogues with a sociological approach on the democratization processes consolidated in the 1990’s, bringing the perspective of a new dynamic of the “public space” arising from the emergence of new political actors. The possibility of a dialogue between critical theory and democratic theory is hence recovered. In the absence of a national academic production, we searched in the international literature for the key interpretations on the subject: one that assumes the positivity of the movement, its capacity for resistance and its power of social transformation, and another which points to the negativity of the movement and its complete absorption by the market. At the backdrop is the issue of the false autonomy of the bourgeois subject and the (im)possibility of a critical conscience.

Key words: ethical consumption; consumer culture; public space; democratization; critical conscience



CONSUMO ÉTICO: ¿CONSTRUCCIÓN DE UN NUEVO PROCEDER POLÍTICO?

RESUMEN: El objetivo es comprender el movimiento por el consumo ético y reflexionar sobre su alcance en la constitución de una nueva cultura de consumo y su papel en el «espacio público». Se efectuó una revisión bibliográfica sobre el tema, en interlocución con el abordaje sociológico sobre los procesos de democratización, consolidada en los ‘90, que trajo la perspectiva de una nueva dinámica del «espacio público» a partir de la emergencia de nuevos actores políticos y, con eso, recupera la posibilidad de un diálogo entre teoría crítica y teoría democrática. Con la ausencia de una producción académica nacional, se buscó, en la literatura internacional, las principales interpretaciones sobre el tema: una de ellas asume lo positivo del movimiento, su capacidad de resistencia y su poder de transformación social; y otra apunta a la negatividad del movimiento y su total absorción del mercado. Como plano de fondo, se tiene la problemática de la falsa autonomía del sujeto burgués y de la (im) posibilidad de conciencia crítica.

Palabras clave: consumo ético; cultura de consumo; espacio público; democratización; conciencia crítica



Fonte: http://www.fafich.ufmg.br/psicopol/seer/ojs/viewarticle.php?id=16&layout=html



quinta-feira, 6 de novembro de 2008

É preciso ousar


6/11/2008

'Passamos da fase dos slogans simpáticos dos fóruns sociais'


No Brasil para uma série de palestras que acompanham o lançamento de um de seus livros - Os Irredutíveis, teoremas de resistência para o tempo presente (Ed. Boitempo) - o cientista político e filósofo francês Daniel Bensaïd, analisa a crise financeira global e seus possíveis desdobramentos. Durante a conversa, que aconteceu antes da palestra realizada segunda-feira (3) na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), Bensaïd apontou as contradições dos líderes europeus de direita que falam em um “novo acordo de Bretton Woods” e afirmou - ainda sem saber o resultado das eleições - que a liderança dos Estados Unidos sofre um declínio irreversível e que a hegemonia norte-americana só se sustenta atualmente graças ao poderio militar e político do país.

Renomado teórico trotskista, Bensaïd fez também duras críticas à social-democracia européia e apontou a falta de um projeto de esquerda na Europa. O francês afirma não conhecer muito bem a situação da América Latina, mas acredita que os governos de esquerda da região podem constituir uma alternativa local à crise. Ele afirma também que chegou a hora de dizer qual “outro mundo possível” realmente queremos.

A entrevista é de Maurício Thuswohl e publicada pela Agência Carta Maior, 05-11-2008.

Eis a entrevista.

Quais são suas impressões, em linhas gerais, sobre a atual crise financeira mundial? Estamos diante de uma crise terminal do sistema capitalista?

O capitalismo não vai acabar sozinho. Esta é uma crise histórica, e não somente uma crise ordinária, como o capitalismo conheceu a cada dez ou quinze anos. Essa crise era também previsível, porque é impossível exigir - como fazem os acionistas - um retorno sobre seus investimentos da ordem de quinze por cento ao ano frente a um crescimento que em média, no caso dos países desenvolvidos, é de dois ou três por cento ao ano. Alguns dizem que a crise financeira pode chegar à economia real, o que é uma fórmula um pouco absurda porque as finanças fazem parte da economia, elas não são irreais, efetivamente. Por trás dessa crise financeira já havia uma crise de produção. Ao menos para os países europeus - eu não conheço as estatísticas sobre o Brasil - a divisão do valor agregado entre salário e trabalho se deslocou dez por cento em favor do capital, ou seja, do ganho do capital em detrimento do trabalho, o que provoca uma crise incontrolável. Para continuar a vender - porque se existe o produto é preciso vendê-lo - houve um aumento totalmente louco do crédito, e não somente do crédito hipotecário imobiliário nos Estados Unidos. Também aumentou o crédito ao consumo, o crédito às empresas, etc. A crise, desse ponto de vista, era previsível.

Por outro lado, ela não é simplesmente uma fatalidade, é o resultado de decisões políticas que se acumularam por vinte anos, porque a desregulamentação das bolsas, a livre circulação de capitais, o desenvolvimento dos ganhos do capital não fiscalizados, tudo isso foi precedido por uma série de medidas legislativas tomadas pelos diferentes parlamentos na Inglaterra, na França, na Alemanha, etc. No que concerne à Europa, isso foi sistematizado pelos diferentes tratados da União Européia, de Maastrich em 1992 até o Tratado de Lisboa no ano passado, que codificaram o livre mercado europeu. Portanto, essa era uma crise previsível e ela é muito grave porque é globalizada, esse é seu caráter inédito. Mas, por trás de tudo isso, eu creio que o capitalismo poderá se restabelecer, ele já resistiu a outras crises. O problema é saber a qual preço e quem vai pagar o preço, pois essa é, afinal de contas, uma crise mais profunda. No jargão marxista, podemos dizer que a lei do valor atualmente funciona muito mal. Hoje, não podemos medir pelo tempo do relógio um trabalho social muito complexo, que cada vez mais mobiliza conhecimento acumulado, como não podemos tampouco medir a crise ecológica pela flutuação das bolsas de valores.

A crise ambiental, com o problema do aquecimento global, torna a crise financeira ainda mais grave. Estamos vivendo uma crise da humanidade?

Sim, e a crise ambiental não é um problema qualquer. Quando pensamos nas conseqüências, que virão durante séculos ou talvez milhares de anos, da estocagem de lixo nuclear, da destruição das florestas, da poluição dos oceanos e, agora, das mudanças climáticas, vemos que todos esses problemas não poderão ser controlados simplesmente pelos mecanismos do mercado que, por definição, são mecanismos que arbitram no curto prazo ou de maneira instantânea. Está no centro do que chamamos de organização social a prática de medir toda riqueza, toda relação social, e mesmo a relação da sociedade humana com a natureza, pelo único critério do tempo de trabalho abstrato.

Os países da Europa tomaram a dianteira contra a crise com medidas protecionistas e forte presença do Estado. O presidente da França, Nicolas Sarkozy, afirmou que os países devem caminhar para um novo Bretton Woods. Como o senhor analisa a posição européia?

Existe uma contradição em uma crise como esta. Como a globalização esta aí e é, em parte, irreversível, todo mundo hoje, e mesmo os antigos liberais fanáticos de outrora, pensa que é preciso estabelecer uma regulação e novas regras do jogo. Todo mundo fala de uma regulação em escala mundial, um novo Bretton Woods, ou ao menos em escala continental como, se pegarmos o exemplo da Europa, a criação do Fundo Soberano Europeu. Estas são as intenções. Ao mesmo tempo, dentro de uma crise grave como esta, cada um tenta jogar de forma solitária, e nós observamos desde o início da crise interesses diferentes como, por exemplo, na Alemanha e na Irlanda, que quiseram proteger seus próprios capitais e seus próprios bancos.

É cedo demais para dizer quem vai levar a melhor ou se haverá uma espécie de solidariedade entre capitalistas suficientemente forte para criar mecanismos de controle da crise e de solução para os nossos problemas. Ou ainda, ao contrário, se vamos assistir a um agravamento muito forte da concorrência intercapitalista, interimperialista ou entre os grandes blocos. Uma crise como a atual cria também tendências centrífugas muito fortes.

O senhor acredita que esta crise consolida o declínio dos Estados Unidos como potência hegemônica mundial?

Do ponto de vista econômico, o declínio do império americano começou há muito tempo. Os EUA é o país mais endividado do mundo, que continua a desempenhar um papel hegemônico, em grande parte, por causa do seu poderio militar, que representa 60% dos armamentos e das despesas com armamentos em todo o mundo. E, atualmente, existe um efeito perverso, pois a dívida americana havia sido neutralizada pelo deslocamento de capitais dos países produtores de petróleo e da China aos EUA sob forma de Obrigações do Tesouro, ou seja, em dólares. Se esse capitais se retiram, eles fazem o dólar cair e os EUA perdem de todo jeito. Portanto, do ponto de vista econômico, existe uma espécie de mecanismo que deixa os EUA na condição de refém. Enquanto os EUA mantiver a hegemonia militar, o cenário atual poderá durar, mas a gente vê muito bem hoje, e via mesmo antes da crise, que o euro - ou mesmo o yen, mas, sobretudo o euro - pode se tornar a moeda de reserva no lugar do dólar, que ainda guarda seu papel de moeda de troca internacional muito mais por causa da potência política e militar estadunidense do que por causa da solidez da economia dos Estados Unidos. Por isso, eu creio que hoje o declínio dos EUA é irreversível.

Qual sua avaliação sobre o posicionamento da esquerda frente à crise financeira? O senhor acredita que os governos de esquerda da América Latina podem ter papel importante na busca de soluções para a crise?

Eu não conheço muito bem o contexto da América Latina. Eu não sei qual vai ser, por exemplo, a capacidade da Venezuela se o preço do petróleo continuar a cair, portanto é mesmo possível que os efeitos da crise sejam mais duros para paises como a Bolívia ou a Venezuela do que para o Brasil, que tem uma exportação mais diversificada. Eu penso que a crise se fará sentir também no Brasil, mas talvez menos forte. Agora, se a reação à crise vai começar a partir de um pólo bolivariano ou a partir da tentativa do Banco do Sul para se tornar autônomo em relação ao dólar, se vai ser criada uma solidariedade energética e alimentar entre os países da América Latina, se isso tudo vai avançar ou não, a questão está aqui e a resposta está aqui. Eu não tenho resposta.

E na Europa, existe um projeto da esquerda?

A social-democracia, que é a maior força de esquerda na Europa, vem destruindo metodicamente nos últimos vinte anos os mecanismos do Estado-providência e do Estado de Bem Estar Social. Atualmente, diante da brutalidade da crise, vemos dirigentes do Partido Socialista na França falarem novamente de nacionalização. O que fez Sarkozy não foi em hipótese alguma a nacionalização dos bancos. O que ele fez foi dar aos bancos a segurança do Estado sem nem mesmo solicitar o direito a voto nos conselhos de administração, foi meramente um socorro aos bancos.

Certas vozes de esquerda pedem o relançamento de uma política de aumento dos salários, mas isso exigiria uma política séria em escala européia, porque existe o desafio de fazer em nível europeu o contrário do que fizeram os partidos socialistas nos governos nacionais nos últimos vinte anos, ou seja, reconstruir os serviços públicos europeus, harmonizar a fiscalização européia, desenvolver uma fiscalização fortemente progressiva e retomar o poder de compra. Isso significa destruir todos os tratados sobre os quais foi construída a União Européia desde 1992. Eu não acredito que exista nem a vontade política de fazer isso nem a força social para fazer. Por uma razão, pois, através do processo que atravessou, a social-democracia européia perdeu muito do seu apoio popular. Por outro lado, ela se integrou muito fortemente ao topo, às empresas privadas e às finanças globalizadas. O símbolo disso é a presença de dois social-democratas franceses como homens de confiança do capital à frente da OMC (Pascal Lamy ) e do FMI (Dominique Strauss-Khan). Isso resume um pouco a situação.

O economista François Chesnais afirma que esta crise é a primeira etapa de um processo muito longo e que não sabemos como ele vai acabar. O senhor sempre foi um crítico contumaz tanto do capitalismo e da globalização financeira quanto dos regimes socialistas constituídos sob a ótica stalinista. O senhor acredita que a humanidade está preparada para construir uma terceira via?

A terceira via não passa nem pela gestão estatal e burocrática que faliu nos países do Leste da Europa, notadamente na União Soviética, nem pelo liberalismo. Muita gente diz hoje em dia que a crise não foi causada pelo capitalismo em si, mas pelos excessos e abusos cometidos. Não, a crise foi causada fundamentalmente pela própria lógica do capitalismo. Eu acredito que passamos da fase dos slogans simpáticos dos fóruns sociais. Se um outro mundo é possível, chegou a hora de dizer qual. Nós saímos de um século que terminou, sob o meu ponto de vista, com uma derrota histórica das esperanças de emancipação. Nós entramos no século XXI com muito menos ilusão do que nossos ancestrais entraram no século XX, sobretudo os socialistas, que acreditavam no fim das guerras e da exploração.

O problema atual é que estamos no início de uma longa reconstrução, mas, ao mesmo tempo, numa corrida contra o relógio, mais do que nunca, pois vivemos uma crise de destruição não somente social, mas também ecológica. Para mim, há somente uma alternativa: opor à concorrência e à lógica do todos contra todos uma lógica do bem comum, dos serviços públicos e da solidariedade. Podemos chamar isso de socialismo, comunismo ou democracia autogestionária. É preciso tentar. Se nós não tentarmos mudar o mundo, ele vai nos esmagar.







segunda-feira, 16 de junho de 2008

Militantes da civilização


Por: MARINA SILVA


NA SEMANA PASSADA o Congresso brasileiro recebeu dois grandes homens: um bengalês e um indiano, ambos cidadãos do mundo. Muhammad Yunus, Prêmio Nobel da Paz de 2006, criador do Banco da Aldeia, que deu aos pobres microcrédito e oportunidade de gerar emprego e renda. Rajendra Pachauri, Nobel da Paz em 2007 como chefe do IPCC, o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas, que demonstrou a gravidade do aquecimento global e a urgência de medidas para controlar seus efeitos.
É paradoxal a singeleza com que trazem uma pororoca de desafios que a humanidade não pode banalizar nem deles fugir. Ao lado de seus temas específicos -pobreza e mudanças climáticas-, Yunus e Pachauri são portadores do grande tema oculto de nosso tempo: a coragem, tanto para mudar quanto para manter o que tem que ser mantido.
A sociedade de consumo, amplamente vitoriosa, nos impõe uma derrota acachapante: o fatalismo, a crença de que o mundo é assim mesmo, atracado a um conceito de civilização assustador, cuja medida de avanço é o aumento da capacidade de consumir. Quanto trabalho humano e quanto em recursos naturais e energia são gastos para multiplicar consumo perdulário?
Não fosse nosso insustentável desejo de ter, essa força monumental poderia ser redirecionada para dar habitação digna, saúde, alimentação, educação e meio ambiente equilibrado para todos.
Fatalismo pode ser explicação plausível para tanta inércia diante do que podemos chamar de Consenso dos Insensatos, o conluio de poderes para colocar interesses pequenos sempre à frente quando se trata de combater os impactos da máquina de produzir "civilização" descartável, risco ambiental e exclusão social.
Yunus e Pachauri são pessoas simples, discretas. Ambos se dedicam a levar o extraordinário para o dia-a-dia. Lembram que há espaço para a contribuição de todos, de onde saem as grandes mudanças.
Mostram a conexão inexorável dessa nossa encruzilhada civilizatória: não há soluções isoladas. Os instrumentos são econômicos, tecnológicos, sociais, mas eles serão inócuos sem um redirecionamento de processos e de demandas. Isso implica decisões pessoais e coletivas, culturais e espirituais, éticas e até estéticas. O caminho que leva ao abismo nos dá sinalizações para a volta. Há que fazer escolhas.
Hoje, para quem quiser se engajar, não é mais possível ser só ambientalista, ou só militante de causas sociais, políticas, culturais. É preciso se engajar em tudo, ser militante da civilização.



Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/fz1606200806.htm

quinta-feira, 24 de abril de 2008

Uma discussão interessante


Transcrevo abaixo uma interessante discussão que travei com uma das integrantes do Blog Diacrianos (http://www.diacrianos.blogspot.com/) e que, acredito, possa ser de interesse para aqueles que estejam atentos aos temas tratados neste Blog ou naquele.
Para contextualizar, devo dizer que tudo começou em torno da postagem "Marxismo Idealista" (postado por mim em ambos os Blogs), postagem essa dividida em 2 partes: na primeira, transcrevi uma pequena Nota de Marx em O Capital, na qual o eminente pensador defendia que o materialismo histórico poderia ser usado na análise de qualquer sociedade. Na segunda parte, postei uma entrevista - bastante irônica e provocadora - com o "fantasma" de Marx, em que este defende que a sociedade socialista já se encontra implantada.
A discussão que se segue inicia tratando desses assuntos, porém envereda para temas mais amplos, alcançando um tom bastante contundente:



shaka disse...

Zé, acho que você poderá discutir isso com outros colegas do blog, porque eu, sinceramente, já perdi tempo suficiente lendo essa incrível entrevista! E não consigo entender o que ela tem a ver com o excerto colocado antes. Lá trata-se da discussão, quem veio antes, o ovo ou a galinha, a vida material ou a vida simbólica. A entrevista é um absurdo sem qualquer sentido... não condiz com qualquer realidade... não entendi...


jholland disse...
Hehehehe...mas onde está seu senso de humor ??
Vamos "por partes":
1)em relação à primeira parte, não se trata "apenas" do que veio "primeiro", mas a questão nos remete a interessantíssimas e atualíssimas discussões do chamado "marxismo-ocidental" (ou neo-marxismo, ou o que restou dele, e que assumiu alguns contornos cor-de-rosa, sobretudo a partir dos pseudo-marxistas frankfurtianos). Esse marxismo é algo encabulado acerca de algumas proposições do próprio Marx. O título da postagem é, claro, uma provocação, pois se o materialismo histórico é a-histórico (uma lei geral válida para toda e qualquer formação sócio-histórica), poderia ser considerado "idealista" ? (no sentido que todo marxista considera um "palavrão")
2) a segunda parte é uma provocação bem humorada, mas não desprovida de sentido, como vc disse. Por trás da chacota, percebe-se muita densidade; e quem formulou a "entrevista", está por dentro das coisas. Por exemplo:há muito tempo, Schumppeter já havia lamentado que o Capitalismo sucumbiria frente ao socialismo sem a necessidade de uma Revolução, pois a socialização do Capital viria com o desaparecimento do burguês (como de fato aconteceu). E mais: esse mesmo fenômeno, como já haviam salientado outros importantes autores, daria nascimento à burocratização (ou proletarização, como queira) do mundo inteiro. Como de fato aconteceu. E que isso redundaria em um outro tipo de cultura, onde o know-how e o "imaterial" seriam os "valores" por excelência. Disso decorre que talvez já estejamos em uma outra formação sócio histórica (não capitalista e que exigiria, portanto, um ooutro aparato teórico-metodológico para análise), embora essa transformação não tenha redundado em uma sociedade igualitária. Uma conclusão desse tipo foge inteiramente aos cânones marxistas, mas é perfeitamente possível de ser realizada e talvez seja mesmo a única forma de encararmos a situação atual. Daí a ironia "fina" do texto...
Bjs


shaka disse...
Zé, realmente é nesses momentos que vemos que, apesar de alguns pontos coincidirem, nossas concepções de mundo são MUITO diferentes (inclusive nosso humor).
1) Não acho que da nota de Marx dê para se implicar que materialismo histórico seja a-histórico, apenas que Marx dá um certo primado a vida material sobre a vida simbólica.
2)Não achei nada de refinado na entrevista, achei foi de muito conservador. Não concordo com seu diagnóstico de que foi tudo socializado, claro, olhando pra nossa classizinha de merda, nós, proletariosinhos infelizes que achamos muito bacana poder sermos burguesinhos, com nossos computadores, nossos Ipods, nossas 2 refeições por dia (porque 3 engorda!), nossas roupinhas e sofas que "nos definem como pessoa" (O Clube da luta). Para 90% da população no mundo, absolutamente nada foi socializado, e um diagnóstico desse só poderia vir de uma linha conservadora, como a de Schumpeter e essa entrevista "surreal" que você postou. 90% da população no mundo vivi uma vida não só simbolica, mas principalmente material, miserável.
3)Realmente você acha que não estamos mais no capitalismo? Você está falando muito sério? Não dá pra te acompanhar, então. Um mundo onde a única lógica é a do lucro, você realmente acredita que não estamos no capitalismo?
4)Acho que quando conversamos em outro nível, sobre a colonização crescente do imaginário e do simbólico, falamos a mesma língua. Mas quando vamos ver sobre que premissas estão acentados nossos diagnósticos vemos quando grande é a diferença de nossos pontos de vista. Já falei isso uma vez, você nunca concorda, mas eu acho que são essas premissas que fazem com que no fim tenhamos concepções "políticas" (no sentido de ação no mundo) também muito diferentes. O meio do caminho fazemos juntos, mas chegamos a ele por vias diversas, e o resto, também acho que é difícil pensarmos junto. Vamos coincidir apenas em alguns diagnósticos...

shaka disse...
Ah, deixa eu adicionar mais alguns pontos.
Se você quer dizer que o mundo do trabalho - e eu especifico, formal - não é mais o centro das contradições no capitalismo finaceirizado em que estamos e com nosso aburguesamento, estamos de acordo, já disse pra você isso, pessoalmente. Embora eu acredite que exista ainda remanescentes das relações trabalhistas industriais como na época de Marx, mas seu estudo, na minha concepção não leva mais a nenhum resultado interessante. Para essa antiga classe proletária, o que conta agora não é a alienação dos meios de produção, mas da vida simbólica. Aí, de fato, a teoria econômica de Marx não cabe mais.
No entanto, estou com todo marxismo ocidental quando fico com o fenômeno de reificação de Marx, até seu admirado Debord casou com ele nesse ponto. E não acho que isso seja um marxismo cor-de-rosa. O que ficou cor-de-rosa foi a esquerda do estado de Bem-estar social.
Mas, também é preciso admitir que a política marxista feitas nos moldes antigos faliu e quem insiste nela não percebe que a burocratização e a alienação de ideais que virá com ela - descolando discurso de agenda política - será inevitável.
Então, de fato, será preciso ter uma ousadia arendtiana e apropriar-se livremente de outras teorias e buscar outras abordagens que complementem o fetichismo marxista e sejam capzes de atualizar as tentativa de união entre teoria e práxis 9uma das ambições de Marx em seu tempo).
Nesse sentido apropriar-se de concepções pós-modernas e pós-estruturalistas(embora o diagnóstico dessa escola já tivesse sido, pelo menos em seu esboço masi geral adiantado pela escola de Frankfurt) e verificar que existe de fato uma fragmentação e uma perda total de valores que está a impossibilitar uma "luta de classes". Que querer voltar a um ideal de vida comunitária é romanticametne conservador. É preciso assumir essa fragmentação.
Aí vamos coincidir de novo. Hoje, o indivíduo é quem, microscopicamente, reproduz o sistema, sem o perceber, porque está fragmentado e alienado ao extremo, porque não só sua vida material foi alienada, mas todas as suas relações.
É preciso olhar agora as formas de alienação não do trabalho, mas sim do consumo.
Mas também é preciso reconhecer que o mundo está nas mãos do poder financeiro. Que enquanto levamos uma vida de gado, comendo nossa ração diária e nos satisfazendo com isso, o capital financeiro dita as regras do jogo. Isso não se pode negar. Toda miséria do mundo, toda escassez do mundo (vide e-mail do Guilherme de hoje) é gerada aí. Não dá pra negar esse fator de economia política.
A maior parte da energia gasta no mundo não somos nós que gastamos, mas a indústria. A poluição em sua maioria não vem de nossas casas, mas das corporações.
Não digo que não devemos pensar nessas coisas, que não devamos economizar água e luz, reciclar lixo. Essas são questões que nos fazem pensar, pelo menos nos DEVE fazer pensar sobre o nosso padrão geral de consumo e nossas relaç~es com as coisas.
O mundo precisa de nós desesperadamente e é preciso lutar contra essa colonização de nosso imaginário, lutar contra essa matrix e ver que para além do nosso jardim de delícias há algo que cheira muito mal. É preciso que os indivíduos se transformem, mas que também tomem partido, é preciso que surja uma nova práxis política, de todos, não de alguns representantes, que nos devolva o mundo e que nos faça novamente viver com ele.
Agora, existe sempre a opçao de deixar o barco correr e esperar que a raça humana se extinga logo, porque na maioria das vezes não vejo nada que vaçha a pena eternizar essa espécie. Somos apenas mais uma das milhares que surgiram e só porque temos o dom de falarmos bobagens nos achamos "sobrenaturais". Gosto de ser otimista e acreditar que nós não sobreviveremos a nós mesmos, mas que a Terra poderá.


jholland disse...
Boa resposta ! Só não entendi o que vc falou acerca do "senso de humor".
De qualquer forma, vamos lá:
1) em relação àquela filigrana teórica, a Nota de Marx deixa claro, claríssimo, que seu "sistema" pode e deve ser aplicado às mais diferentes e díspares formações sócio-históricas do mundo inteiro (!), desde Atenas, Roma e até na Idade Média, sem falar, é claro, ao próprio Capitalismo. Ora, se isso não significa que seja "a-histórico" (pois se trata de uma formulação que tem o poder e o dever de explicar a dinâmica nas mais singulares culturas), então não sei o que significa "a-histórico". Então, para não ficarmos presos a uma discussão "semântica" (do que seja a-histórico etc etc), creio que podemos nos ater à própria Nota, pois é auto-explicativa. Não que isso tenha grande importância. Quis apenas chamar a atenção para o fato de que alguns setores se (auto-)apropriam do marxismo, mas, comodamente, parecem "esquecer" algumas implicações e pressupostos teóricos.Acho também que ilustra um pouco aquilo que, para alguns, teria sido um escorregão de Engels, ao tentar criar o "materialismo dialético" - no que foi esculhambado pelo nosso festejado Lukacs (com razão !), embora, vê-se, aquele estivesse em concordância com o próprio Marx !
2) em relação à sua crítica e ao seu diagnóstico, estes merecem maior atenção. De início, percebi um certo ímpeto em refutar-me, porém, lendo com mais atenção a primeira e a segunda parte, creio que concordamos em quase tudo, embora isso talvez te sôe desconfortável. Novamente, não sei porque devemos discutir semântica. Será que as etiquetas, as grifes devem ser tão importantes ? Explico: da mesma forma que pouco importa o que seja "a-histíco", sendo mais importante o conteúdo, a idéia em si, no presente caso, pouco importa se chamamos a atual configuração cultural/sócio-histórica/econômica de "Capitalismo de Terceira Fase", "Capitalismo Pós-Industrial", Capitalismo Cognitivo", Capitalismo Simbólico", ou mesmo que confiramos outro nome para isso (diferente de "Capitalismo - "Trololó", por exemplo). O que importa é que a configuração mudou inteiramente sua dinâmica e requer outra formulação teórica e outra "práxis" - conforme vc mesma disse. Portanto, estamos aqui diante de uma formação diferente em praticamente tudo, com exceção é claro, de que não temos igualdade nem liberdade (muito pelo contrário - estamos diante mesmo de um sistema neo-fascista, como vc bem sabe). A afirmação de que talvez fosse melhor simplesmente abandonar o conceito "Capitalismo" é, sem dúvida, bastante ousada, mas creio que também seja instigante, especialmente para as análise da situação futura, pois creio que estamos num período de transição (fim do Estado Nacional, mudança nos tipos de conflitos, nos sistemas de vigilância e repressão, nas formas de sociabilidade, nas formas de tratar o corpo etc etc). Porém é muito difícil de ser aceita pelos establishment ("marxistas" (?) ou não) de hj; para o imaginário dos "marxistas", pelo simples fato de que , o Capitalismo somente poderia "evoluir" em (a) uma sociedade sem classes ou (b) o apocalipse (qualquer semelhança com mitos Judaico-Crstãos não é mera coincidência); para o imaginário dos "não-marxistas" (?) , decretar o fim do Capitalismo seria representaria um terremoto. É mais ou menos a mesma coisa que acontece com sua irmã siamesa, a "Democracia". Ora, sabemos que não há mais qualquer resquício de Democracia no Ocidente, mas seria muuito difícil para alguém dizer publicamente isso. O imaginário (e os mitos) são muito poderosos. Dizer, por ex. que os EUA não são mais uma Democracia talvez provocasse uma revolução no O cidente. É importante para o sistema que mantenhamos certas concepções míticas em funcionamento...Ora, em relação aos "marxistas " (?) voltamos aqui à incrível necessidade "nominalista-mítica" , necessidade esta que acaba por obliterar a análise e a própria ação...Creio mesmo que aqui haja um resquício de "messianismo". Será que numa análise corajosa e sincera, esse tipo de motivação não poderia ser desvendada ?


jholland disse...
Apenas para pontuar melhor a discussão, gostaria de acresntar que:
1) quando me referi a persistência da desigualdade e da não-liberdade - como elementos que persistem em relação ao "Capitalismo" - gostaria de corrigir-me. Sim, porque até mesmo essa afirmação é "fetichista" e "obliterante". Na verdade, a conformação atua atual deve ser analisada em toda sua singularidade e, assim, devo dizer que a desigualdade e a não-liberdade que temos a nossa frente (no sentido espacial e temporal) é de natureza diferente da que foi analisada ´no passado, especialmente por Marx. O novo sistema é singular em tudo.
2)em segundo lugar, apenas para evitar mal-entendidos, quando me referi à idéia de "Democracia", estava obviamente me referindo à Democracia burguesa, o que torna o diagnóstico bastante radical.


shaka disse...
0)Tenho um probelma horrível de tom, sempre.Eita que não perco essa característica. Então, não tô brigando, hein (digo isso porque fui ler de novo o que escrevei e me achei meio mal-criada).
1)Humor: disse isso pra te provocar, pq não achei nada engraçado enm irônico naquela entrevista, não adiante, não vou gostar dela. Pode me chamar de marxista burocrata!
2)Entendi o que vc quis dizer com a-histórico, e de fato parece que Marx com a nota quer dizer que o materialismo histórico é a-histórico. Mas, se considerarmos que materialismo histórico é o método que tem como fundamento a vida material (não economia no sentido da economia poítica, que é característica do capitalismo, mas como forma de existência material). Nesse sentido, devo admitir que Weber foi essencial. A forma como se estabelece a vida material não surge do nada, surge com seu suporte, os homens e seus sistemas simbóligos. Mas, ao mesmo tempo, a vida simbólica não surge do nada, tem um dialogo direto com o meio material. Seria interessante pensar, antão, em termos de uma "dialética" (diálogo) entre meio e crença/ideologia/simbólico.
3) Pode ser que eu não esteja me vendo bem, mas não sou a favor de manter o diagnóstico do capitalismo porque é difícil se desfazer de "mitos!, mas pq a lógica do sistema continua o mesmo, o valor que gera valor, o lucro pelo lucro. Se as formas de dominação tiveram que se atualizar graças a uma série de movimentos que surgiram de contradições do sistema, a lógica continua a mesma.
4) Nesse sentido, as formas de luta devem ser atualizadas e os novos lugares onde as contradições aparecem, já que não serão apenas nomundo do trabalho, devem ser buscados. Por exemplo, a esfera polítca, da representação democrática é um novo lugar de contradições. E se a esquerda já pensou em tomar o poder, hoje percebeu (ou pelo menos deveria er percebido) que isso não traz mais benefícios, esvaziou-se.
Um sintoma disso é a transformação de exercítos antes revolucionários em "terroristas", ou seja, a negação total de uma esfera política de fato, que consiga engajar atores diversos e dissonantes, fez com que surgisse esse novo conceito.
5) Muitas formas mudaram, mas não acho que se trate de uma fase Além do capital. Estamos na era do capital, cada vez mais do que nunca.


jholland disse...
Que bom que vc voltou a seu estado de humor habitual, pois pareceu-me mesmo que vc estava "em pé de guerra". Não que isso nos afetasse, pois "faz parta" da relação - hehehehe...
Bom, novamente me vejo mais em convergência com vc do que em divergência (não sei se isso te agrada).
Talvez a questão seja: o que é o Capitalismo? Para não alongar demais, considero o Capitalismos não apenas um sistema econômico, mas como uma configuração sócio-cultural (e também econômica, portanto).
Sigamos em frente...
Todos nós aqui - especialmente deste Blog, que tem se dedicado a evidenciar isso - sabemos que mudanças profundas estão em curso bem na frente de nossos olhos. Senão vejamos: a) mudanças nas relações de gênero; b) mudanças na relação com o corpo; c) mudanças na concepção de tempo e de espaço; d)mudanças nos sistemas repressivos; e)mudanças nas guerras; f)mudanças nos sistemas de soberania (configuração imperial difusa etc); g)mudanças na educação; h) mudanças no cotidiano e nos sistemas de valores (do "ter" para o "parecer" etc); i) mudanças na identidade (construção social de identidades, por grupos e subgrupos etc etc); j)mudanças na representação poítica (não me admiraria se voltarmos a um sistema Feudo-Fascista do tipo: representação proporcional de mulheres, negros, gays etc etc); k)mudanças nas formas de contestação; l)mudanças nas formas de organização social (em rede etc).
Vejo claramente que o sistema individualista está se alterando para algo ainda mais egóico, porém de caráter grupal. As identidades estão sendo construídas por matiz: "sou mulher, gay e negra. Sou pobre e tenho direitos enquanto representante desse grupo..." etc.
Isso não representa uma mudança "civilizacional" ? E o que dirá da relação com a técnica (pós-humano)? Dizer simplesmente que isso é uma radicalização do antigo sistema é uma "meia-verdade" e, por isso, muito perigogo, pois se em parte é verdade (pois não houve uma ruptura, uma revolução como queriam muitos), isso ofusca o alcance da transformação que, para ser aceita, requer que abandonemos, sim, nossas arraigadas concepções messiânicas e verifiquemos que o sistema se desdobrou e se reforçou em uma outra configuração, talvez mais forte. Sem falar que muito derramamento de sangue está acontecendo por conta disso, inclusive por razões ecológicas.
Ora, dizer que a geração de mais-valia significa a persistência do Capítalismo é dissolver esse conceito a quase nada, generalizá-lo. Novamente vejo a persistência mítica, na afirmação de que "se temos geração de capítal, então nada de significativo mudou...". Além disso, devemos considerar: será que o "capital" de hoje é gerado, distribuído e consumido nos mesmos termos que dantes? De que "capital" estamos falando (material, cognitivo, virtual, simbólico - cada uma dessas modalidades não gera diferentes tipos de apropriação e de construções de distinção e poder) ?
Por fim, receio dizer que uma teorização ampla dessa forma de "novo-Capitalismo" ("Capitalismo-trololó"...) não está sendo elaborada nas Universidades (muito bem comportadas para isso...), mas deve estar sendo elaborada, nesse exato instante, no Pentágono ou em Pequim...
Bjs


shaka disse...
1)Não tenho problema nenhum em concordar com você... nem de discordar... às vezes acho que você gosta mais quando discordo ;)
2)As mudanças nas relações de gênero, etnia, opção sexual não se explicam pelo caráter econômico do capitalismo, mas com seu estágio avançado de alienação. O que quero dizer é... contra o que parecia uma massificação e homogeinização de tudo e de todos, a perda total de identidade, surgiram movimentos em prol da diferença (o romantismo, podemos dizer, já foi um certo tipo de reação ao processo civilizador). Acontece que, o sistema "fagocita" tudo, e no estágio que Debord diagnosticou como de reino das imagens, o que era uma busca por uma voz e por um engajamento no mundo virou marca. O ser foi deixado de lado e agora basta parecer... não só basta! É PRECISO parecer! Preciso de uma marca que me "defina como pessoa" (adoro citar Clube da luta!): Preciso ser negra, gay e pobre. Preciso ser free-lancer, bissexual e chinês. Preciso ser "meio-intelectual,meio-de-esquerda". Esses são meus "tótens", porque nada mais me restou, porque não tenho qualquer relevância no mundo a não ser por meio destas imagens. "Tudo o que era vivido diretamente tornou-se representação" e "O espetáculo não é um conjunto de imagens, mas a relação social entre pessoas, mediada por imagens".
Quais instrumentos o sistema usou para se apropriar dessa vozes e torná-las vazias, "aliená-las", como vez primeiro com o trabalho, depois com o consumo, e agora com o amor (por deus, entre as pessoas, pelos amigos, entre homens e mulheres)? Dos mesmos meios que a dissonancia criou! O método é o mesmo: esvaziar para dominar, tornar mercadoria.
Mas pensar assim e o mesmo que pensar o capitalismo como um senhor de barbas, brincando com suas marionetes.
Por esse motivo gosto de voltar ao velho barbudo. Então vamos devagar e deixemos algumas coisas um pouco mais claras.
O que é capital? Capital é valor que gera valor. Nesse sentido, para mim não existe "capital simbólico","capital humano", "capital qualquer coisa". Capital é capital, valor que gera valor (D - D').
Quando a lógica passa de m - m' ou mesmo m - d - m' (d aí servindo como MEIO, de fato, de troca) para d - m - p - m' - d' (vamos abstrair a esfera da produção, p, que para o que nos interessa aqui ainda não é relevante, e que Marx não me ouça falando isso, pq para ele todo segredo está nessa esfera, mas... vamos lá). Quando o fim não é um valor de uso, mas sim mais-dinheiro, toda a lógica da produção vai mudar, o que era mei passa a ser fim. Num primeiro momento, comer, vestir, morar, beber, são meios de lucrar. Sem lucros não há como "reinvestir", sem "reinvestimento" perde-se vantagens competitivas, e a existência, mesmo material, do capitalista está em riso.
(Masi uma vez vamos dizer que nem tudo é tão simples assim, e como não estamos presos a dogmas acad~emicos podemos colocar Weber nesse caldo e lembrar que paralelamente as revoluções industriais, e ao desenvolvimento do comércio, aparecem mudanças de mentalidade, como a reforma, possibilitandoe reforçando a adoção desse sistema material de reprodução)
Voltando, se o lucro é não só fim, mas é também necessário, única forma de sobrevivência do capitalista, ele buscará novas possibilidades de lucro, de negócios em todos os lugares e esferas.
Vamos fazer mais uma combinação maluca e chamarmos Rosinha... podemos ousar voar e alargar a concepção de Rosa, pensando que a "colonização" necessária de formas não-capitalistas pelo capitalismo pode ser uma colonização de tudo aquilo que ainda não entrou na sua lógica, seja um modo de produção (de meios materiais), seja uma forma de sociabilidade, seja "arte", seja "politica". Por que? Porque aí estão novas formas de negócio, porque assim amplia-se não só o mercado, mas a gama de mercadorias que se pode oferecer. Ou seja, quando a lógica é lucro, lógica capital (valor que gera valor) tudo DEVE ser mercantilizado.
Mai uma vez precisamos lembrar do substrato, os indivíduos. Ora, nessa lógica perderam qualquer sentido: o preocsso de alienação que começou na esfera do trabalho espalha-se. Indivíduos não são sujeitos, não se sentem mais sujeitos: primeiro no trabalho, depois na política, em casa, na cama... Sem achar lugar que faça sentido no mundo, desprovido de todo seu mundo humano (a esfera do simbólico e da cultura) e preso a esfera biológica da mera sobrevivência física, os indivíduos são o "mercado" perfeito. Gerar sentido para a vida humana e transformá-la em mercadoria é muito lucrativo.
Voltamos ao começo: o sistema "fagocita" a dissidência não para controlar/evitar a revolução, mas para lucrar com ela! Lucrar para sobreviver! Sobreviver biologicamente!


shaka disse...
Ah, só faltou dizer, no monento em que o texto, se fecha como num círculo, que se a lógica econômica já não é mais o motivo de me dizer "meio-intelectual, meio-de-esquerada", mas sim falta de sentido na minha existência. Numa perspectiva maior, o econômico volta. Por isso é melhor pensar sempre num diálogo entre simbólico e material.


jholland disse...
Mas eu nunca disse que não se gera capital mais-valia etc, ao contrário, disse que essa explicação converteu-se numa generalização que esconde todas as diferenças.. e possibilidades. Persistimos no mundo da "auto-consciência" burguesa...Persistir nisso apenas nos encerra dentro de seus ditames ; o universo mítico parece-nos absoluto, um paradigma muito difícil de ser transposto. Encerramos, limitamos, a nós mesmos e nosso futuro - assim como a todo nosso horizonte cognitivo - que, dessa forma, não se amplia, e fica a dar voltas em círculos.
Obviamente que a mercadoria e a acumulação de capital são peças-chaves na reprodução do sistema. Mas não são as únicas e talvez nem mesmo as principais. Lembro-me, a propósito, uma idéia antiga: a Crítica da Razão, lembra-se ? Enquanto isso, a história não pára, novas formas estão sendo criadas todos os dias, o cotidiano é um incessante devir, ao contrário do que quer que pensemos a ideologia hegemônica...


shaka disse...
Zé, não estou entendendo. estamos ou não vivendo nesse mundo "fascista", segundo suas prórpias palavras. Não acho que ficar no que ver o capitaliso como um grande demônio devorador me deixa presa ao que você chama de "auto-consciência burguesa" (aliás explique isso, pq pra mim auto-consciência burguesa mais uma peça de supermercado, vamos lá comprar...). Não posso é tapar o sol com a peneira. Que outras formas estão livres de sua fagocitose, diga-me!!!??? E por qaunto tempo??? está aí pra qualquer um ver Zé. Agora se eu de fato achas-e que o cotidiano é construido a cada dia, tinha ficado com a posição do jardinerio, e ia logo comprar um ingresso de camarote pra ver o mundo humano se acabar (como já disse, posição extremamente otimista).
A lógica do lucro tem se mostrado fagocitária SIM! Você quer que eu diga o que? Que a vida é linda porque me levanto todo dia e todo dia é dia de mudar minha vida!
Tá outra diferença nossa. A mudança na esfera pessoal, pra mim, não vai tão fundo assim. Já disse que preciso de exemplos de conjunto, ação viva, conjunta, efetiva. Só transformação pessoal pra mim não dá. É lindo de pensar, mas não dá pra ver a miséria, material e simbólica, que nos cerca e pensar: "Ah... mas o cotidiano é um devir, e o lucro não é sequer a lógica mais importante". O páis tá uma merda, os EUA invadiram o Iraque por conta de petróleo, bancam o genocídio de palestinos perpetrado por Israel para maner controle de uma área economicamente estratégica, milhares de pessoas morrem de fome no mundo, do lado da minha casa, no meu país, na África. A África vive a barbárie ensinada pelo ocidente, pq não tem qualquer relevancia economica, na verdade é um verdadeiro embaraço. E o sistema não é a forma mais poderosa de colonização???!!!
Voc~e já começa a falar como os antropólogos, Zé. Lindo! lembro te ter dito isso ao John, lindo o que o Sahlins fala em "pessimismo sentimental": "As culturas sobrevivem"! Sei sobrevivem uma ova e se o fazem é as duras penas e sob a ameaça do extermínio físico. Vamos dar um exemplo que talvez toque mais nos dias de hoje, já que falar de palestinos não dá ibope, os judeus são muito mais vítimas...
O Tibet! E o Tibet!? Não é de hoje a destruição da cultura tibetana. Mas hoje virou marca:"Sou negra, gay, pobre e pró-Tibet, não vou assistir as olimpíadas"!
Vamos esquecer que os protestos são mercadoria, emblemas, imagens, simulacros. Vamos dizer que são verdadeiros, pelo menos uma porcentagem não é cínica e leva isso a sério. Bem, o que o Ocidente tem feito? NADA!!! Por que? Porque o Tibet não tem qualquer relevância econômica, mas a China...
Claro que é preciso buscar o "resíduo" no cotidiano, porque somos nós, indivíduos cotidianos que existimos de fato, assim, se algo novo surgir, surgirá de nós. E se somos colonizados, é sempre bom pensar que ainda somos humanos, e por masi que sejamos jogados, por uma lógica (que nós mesmo criamos, hein!!!Veja-se bem!! O Sistema, como disse não é um velho de barba e bigode controlando tudo e a todos, naõ surgiu do nada, é criação humana!), para o âmbito da "vida nua", somos marcados por crenças, por busca de sentido, por "desrazão".
Mas não posso deixar de ver as coisas como são e entrar na do Sahlins e na dos pós-modernos (fazer texto coloridinho, que bunitinho, para mostrar a "voz do outro"). O outro não tem voz!! É preciso colocar cor na vida real não no livrinho da Princeton University Press, ou nos do Encontro Estadual de Ciências Humanas.
(tenho certeza que devo ter sido mal-criada nesse e-mail também..., fazer o que... juro que não queria)


jholland disse...
O que eu acho curioso é que vc fala como se eu não concordasse com vc, como se eu tb não me indignasse. É um vício...Minha posição não está "aquém", mas "além". Considero sua indignação justíssima, porém insuficiente. Para os marxistas - e todos os teóricos generalizantes - tudo aquilo que foge à "fórmula básica" é irrelevante, detalhes que podemos passar por cima. Enquanto isso, como vc bem disse, a história segue, pessoas nascem, são felizes, infelizes, amam, odeiam, assumem o poder, perdem o poder, fazem guerras, morrem etc etc., enfim, infinitas coisas "DE N FORMAS DIFERENTES" acontecem, transmutam-se, modificam-se. A história segue, mas a teoria não acompanha isso. Perde a singularidade. As pessoas estão vivendo, nascendo, amando, se relacionando e morrendo de "n" formas diferentes, porém "tudo é uma manifestação do mesmo fetichismo da mercadoria, nada de essencial mudou etc etc.
Considero que a ideologia é fascista, mas não o mundo. Essa é a diferença: não confundamos a visão que temos do mundo com o próprio mundo. Obviamente, se todo mundo compartilhar a visão fascistóide, a ideologia se fecha mais...Ou não ? Creio que, enquanto o homo sapiens sapiens ainda existir, a ideologia não terá jamais o caráter absoluto que ela pretende ter (o Espetáculo limita-se a exibir a si próprio, lembra-se ?). Os resíduos vão se acumulando, dentro e fora de nós mesmos. Eles são, na verdade, o motor da história, ou melhor, do cotidiano. A história, como disse, continua a girar, não pode ser resumida simplesmente a uma "acumulação fetichista de capital" etc etc. A história é multifacetada, é um fluxo infinito. Perder isso de vista, é perder a noção da realidade (que é sempre infinitamente mais complexa que qualquer abstração generalizante).
Nosso desafio é ampliarmos nossa própria lucidez até o infinito.


shaka disse...
Não estamos de acordo, Zé. Isso é fato! Não sou eu que reproduzo uma ideologia, Zé. Embora você ache. Não é a teoria que me prende nessa visão de mundo, é o mundo que me obriga a usá-la! Eu não tenho TV, mas basta um dia assitindo Hollywood Young celebrities pra ver que as pessoas não se amam, não se reproduzem , não nascem e vivem impunimente. São caricaturas de pessoas que nascem, ama, e morrem (quando inevitável morrem, porque não acredtitam que envelhecerão ou morrerão). É so ver com que dificuldade encontra-se vida "inteligente" com que conversar, mesmo que seja de bobagem, hein!
E de novo. Nem tudo na minha vida é guiado pela lógica do sistema (mais é preciso olhar pra si mesmo e ver que uma grande parte é sim, mera sobrevivência). Eu vivo e amo á minha maneira (nem sempre, há sempre a sombra do padrão externo guiando minhas escolhas amorosas e sexuais, não posso me enganar e dizer que não), mas mesmo assim amo a minha maneira. Sou feliz em alguns momentos, ouvindo minha música, lendo meus livros, pensando em meus amigos, comendo bem, ouvindo e sentindo o cheiro da chuva. E não importa se o Bush está matando milhares de iraquianos e jovens americanos.
Mas minha felicidade cotidiana não muda o mundo, não desaliena os outros 90% da minha vida e da vida dos outros, não posso me sentir livre porque consigo amar a minha maneira enquanto outros não amam nunca!!! Minha liberdade não faz nenhuma sentido, pra mim, nem a pequena liberdade íntima do outro são não for comprtilhada.
Essa é uma diferença. Meu mundo é coletivo, compartilhado, não é o amor e o nascimento isolado do outro. Enquanto o sangue rola sem qualquer sentido, só pelo lucro, o nascimento e a fomra de amar do outro e minha não me interessa.
Me interessa o nascimento e o amor de todos!!!


shaka disse...
O que quero dizer é, não concordo com você que minha visão de mundo esteja presa pela teoria que uso para dele fazer um diagnóstico. Não acho que ela seja "auto-consciência burguesa". Pra mim "auto-consicência burguesa" é assisitir Tropa de elite (nada contra filme, que é muito bom!).
O diagnóstico que ela me dá mostra as entranhs do sistema, sim! E como diagn´sotico não abrirei mão dela!
Mas marxismo tradicional como forma de ação política está falido e não é porque ele só "veja o econômico", é porque foi burocratizado, alienou-se. E porque a sensação de impotência invadiu nossas visa como um todo, não só nossa esfera de trabalho. Por isso ela falha em ver saídas, por isso Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia viram guerrilhas patrocinadas pelo narcotráfico.
Quanto a outras formas de sociabilidade, como vc gosta de mostrar, já disse, para mim sobrevivem a duras penas, qdo o fazem. Acho tudo muito bonito, mas não vejo efetividade nenhuma nisso.
Pode ser, como já disse em outro post há tempos remotos, que exista um mundo lindo, onde vários já habitam, e só meus olhos não vêem.
Mas, como você me falou em email, sim! A mudança deve vir de dentro das contradições do sistema, como um vírus, uma doença.


jholland disse...
Eu penso assim: seja livre. E faça, com sua liberdade, todos os que estão à sua volta igualmente felizes e livres. Se voce conseguir isso - ou tentar com sinceridade fazê-lo - terá realizado a obra de uma vida.


shaka disse...
Esse é um exercício diário, se tudo que pensamos pensamos verdadeiramente. O fato é que diante de tanta merda, isso sempre me parece muito pouco...


shaka disse...
Acho que toda vez que entramos nessa polêmica do marxismo ser uma teoria totalizante (como vc vê)ou marxismo como teoria que desvenda o caráter totalizante/englobante do capitalismo (como eu vejo), acabamos saindo da discussão teórica e indo para uma conversa que fica pessoal.
O que quero deixar claro é que as diferenças não são pessoais, são teóricas/epistemológicas. è claro que quero construir um cotidano, no plano individual, privado, com relações não alienadas. è claro que existem pessoas tentnto se socializar de outra forma por aí. Mas para mim, deve existir um compromisso que vai além disso, quando partimos para discussões teóricas e tentativas de compreensão do mundo contemporâneo. O que quero dizer é, se temos essa ambição "intelectual" é preciso se engajar para além da vida cotidiana. Senão, todo nosso excercício aqui vira uma "intelectualismo" auto-referente e complacente. Toda teoria e toda tentativa "intelectual" de compreensão do mundo deve estar permeada de comprometimento com ele, senão torna-se onanismo.
E para mim, engajar minha tentativa de desvelamento dos mecanismos englobantes do sistema significa engajar para além das mudanças, que obviamente seguem paralelamente, em minha vida cotidiana.
Vou postar em breve outro texto, agora amparada em Jameson, para ver se continuamos a discussão, mas no nível da teoria/epistemologia.


jholland disse...
Hehehehehe...
Então vou te provocar mesmo !!
Pois aqui "penso que pensamos" diferente mesmo, hehehe...
Na verdade, minha idéia era não mais me alongar nessa discussão, por 2 motivos: 1) por amor à concisão (ou seja, creio que uma leitura bem atenta de tudo o que escrevemos acima deixa claro todos os pontos de convergência e divergência), de modo que corremos o risco de ficarmos repetindo...2) porque receio que talvez fosse inútil. Porém, obviamente, algumas idéias tb me vieram à cabeça e podería bem colocá-las aqui. Então, como vc continuou, resolvo agora falar mais alguma coisa.
1) o ponto mais importante de todos diz respeito justamente à relação coletivo/individual. Aqui, de fato, considero que não há cisão. Ou seja, a forma como vemos, sentimos, agimos e teorizamos são uma única coisa. Se nós pensamos em teorizar de um jeito, mas vivemos de outro, estamos diante de uma cisão, cuja causa aquele que "teoriza cindidamente" desconhece de fato. Quando superamos essa cisão, "a paisagem mental" se amplia, nossa visão de mundo também e a ação no mundo ocorre naturalmente. Portanto teoria e prática são sempre uma única coisa, quer queiramos isso ou não, quer aceitemeos ou percebamos isso ou não. Quando um eminente professor de Filosofia dá uma ótima aula sobre algum teórco "revolucionário", mas sua ação (do professor, do teórico ou dos alunos, pouco importa) limita-se ao blá-blá-blá, é porque a própria teoria está desvinculada do "Ser" e portanto é uma má teoria (cisão psíquica = cisão teoria x prática). Acho que Marx já andou falando algo parecido, hehehe...Portanto, em minha visão, não dá para cindirmos a discussão teórica da análise pessoal, NOSSA auto-análise, enquanto pessoas, seres-humanos.
2) Por isso, se nós estamos TÃO profundamente sensibilizados com sofrimento do Outro, o que nos impede de, agora mesmo, neste instante, desligarmos o computador, e sairmos para a rua, dedicando tempo integral a essa causa ? Por que andamos de carro ou a pé todos os dias e passamos indiferentes ao sofrimento que, como vc disse, está bem à nossa frente ? Ora, a questão diz respeito justamente ao fato de que NÃO ENXERGO O OUTRO COMO UM IGUAL. E, indo mais além, nem mesmo ENXERGO A MIM MESMO COMO UM SER HUMANO. Tudo bem, voce irá dizer: Fetichismo !! OK, sem dúvida, nunca neguei isso. Porém, como dissolver o Fetichismo ? Jogando pedras no Bradesco ? Jogando Bombas em todos os supermercados do mundo ? Sequestrando o Bush ? O alcance de ações desse tipo redundariam em mais fechamento ideológico, evidentemente. A Matrix não está fora, mas sobretudo dentro de nós;
3) não podemos dar mais do que temos. Explico: se não sou livre, se não me enchergo como um ser-humano, se meu psiquismo se encontra obliterado e cindido, se minha identidade é uma construção "espetacular" não consiguirei enxergar o outro, nem mostrar que ele pode ser livre, nem mesmo consigo sair desta cadeira. Passo por um mendigo e dou minha maçã para ele...É suficiente ? Não !!! "Tentei chorar, mas não consegui !" (lembra-se dessa música ?); 4) quem é o "outro" e quem "sou eu" ? Atualmente, devo dizer: para 99,99%das pessoas, somos todos meta-identidades; personagens em um palco ("A Representação do Eu na Vida Cotifdiana", Sartre etc...). Isso nos imobiliza. Não tenho como nem porque sair da cadeira emquanto não tiver idéia: a) do meu sofrimento: sim, é verdade, nosso sofrimento é tão grande que nem mesmo conhecemos nsua verdadeira dimensão ! b) e, por decorrencia, do Outro, que nem sequer sabemos que existe (pois só temos uma visão turva desse Outro, é uma representação "fetichizada".

Bjs

jholland disse...
(...continuação)
Não se trata assim de uma questão teórica ("vou teorizar sobre o fetichismo" etc) ou epistemológica, APENAS. Tudo bem que posssamos tratar disso, mas é insuficiente. A questão do fetichismo e da cisão é de natureza existencial, atingindo todas as esferas, simultaneamente. Talvez a melhor forma de dizer isso, tal como Debord o fez, seja decretando o FIM DA TEORIA. Sim ! Estamos diante do fim da teoria, da política , da arte, de todas as esferas, enquanto esferas autônomas. Trata-se não apenas de uma Crítica da Razão, mas da necessidade de uma transmutação pessoal profundíssima, que me possibilite a APREENSÃO DA REALIDADE SEM MEDIAÇÕES. E aí discordo frontalmente de vc: as mudanças pessoais podem ter um alcance INFINITO.


shaka disse...
Você sabe que concordo e discordo de você."A Matrix não está fora, mas sobretudo dentro de nós".
SIM, CLARO, CONCORDO! Minha mudança pessoal é imprescindível, mas meu caminho intenlectual precisa "Sair agora mesmo da frente do computador e ir às ruas", achar um caminho. Essa sou eu, sou assim. Há anos me pergunto o mesmo, se me sinto tão sensibilizado com o outro por que não saio agora mesmo de casa? Os anos passam e eu não acho uma resposta, e eu me cobro todos os dias de manhã, todos os dias antes de dormir. O que você fez quanto a isso além de sentar e se lamentar?
Sim, não sai de casa porque também não sou livre. E não sou livre porque a matrix está dentro de mim, porque todos os meus sentimentos foram colonizados.
MAS. A seta que aponta pra dentro, pra mim também deve aponta pra fora. Isso quer dizer que sequestrar o Bush, pra mim, seria uma ótima idéia. Explodir o quarteirão financeiro de NY (mais uma vez Clube da luta), seria fantástico.
Você falou em não conseguir chorar, da música, eu falo de não conseguir chorar nem dormir como o portagonista do Clube da luta. Ele só consegue chorar e portanto dormir de novo, quando começa a frequentar associações de ajuda (tipo AAA, pessoas com câncer de pulmão, portadores de parasítas, etc.) esse é seu novo vício, sua nova droga. Quando isso não funciona mais ele "pira o cabeção" e cria coragem de liberar um alter-ego que é "Mais livre" que ele "em todos os sentidos". O que ele faz? resolve explodir o quarteirão financeiro de NY, fantástico!Não preciso ser totalmente livre - questões em mim sempre estarão por ser resolvidas - mas devo ser capaz de usar o pouco de liberdade que conseguir pra fazer alguma coisa que MATERIALMENTE abale as estruturas de um sistema que só reforça nossa fraquezas.
Essa é minha posição.
Só queria reforçar que, não é a teoria que é totalizante e o sistema que ela desvenda. O sentido disso estará melhor colocado em outra postagem.


jholland disse...
Mas o sistema não é material ! Não é algo novo. Não é particular ao Capitalismo. Nem foi descoberto por Marx ou Hegel. Já foi detectado há milênios e sempre existiu. Nâo está na sociedade de classes, nem nas estruturas mateirais, que são apenas reflexos, projeções disso.
Vc nunca vai abalar mateiralmente as estruituras do sistema, mesmo que exploda NY inteira, pelo simples fato de que o SISTEMA NÃO É MATERIAL. É uma coisa óbvia: exploda NY e o que acontece ? Nada. Voce reforçará o sistema. Temos até uma evidência prática disso, bem na nossa frente: Bush fez isso, implodindo o WTC. Exploda NY e o que vc consegue, NA VERDADE: apenas uma (pseudo-)satisfação SUA, somente SUA. A ilusão de ter feito algo, sem ter feito nada. São seus 15 minutos de fama. Uma anestesia para o desespero particular, pequeno-burguês. Infantilismo da esquerda. Niilismo desesperado que não nos leva a nada. Apenas desencadeia uma rede de causas e efeitos (mentais, a princípio; depois em ações) que reforçará a visão e a cadeia desses mesmos pensamentos.
A ditadura é do PENSAR (a identiicação de que o Ser, a Mente, são os pensamentos); cada um de nós é escravo de uma rede de PENSAMENTOS, que nos aliena; esse é o sistema. É reproduzido por cada um, enquanto estivermos em um jogo mental de pensamentos que nos impede de viver de fato!

shaka disse...

Ficaremos no jogo eterno do é e náo é material. Sim, é material! E continuar por esse viès não vai mais seguir adiante. Essa é uma afirmação importante e uma divisão de nossos pensares que não serão resolvidas.
Pensar junto, nesses termos, é sempre uma tarefa inglória. Por isso ficamos alguns momentos sem discutir essa diferença absolutamente central.
Pelo pra zer de sentir que ainda podemos pensar o mundo junto de quem a gente gosta e admira.
Mas quando você afirma que não há uma especificidade na época em que vivemos, que não há uma especificidade no advento do capitalismo que possibilitou tamanha alienação e tamanha barbárie travestida de civilização... quando você afirma que isso não tem conseqüências materiais... então os caminhos se separam. E é preciso admitir isso.


shaka disse...
E se separam porque a verdade não é a sua nem é a minha. Não poderemos resolver um problema de pressuposto. Como o próprio nome diz, são pré supostos, e estão ligados sobre uma "irracionalidade", no sentido de que não pode ser argumentado e contra-argumentado, mas apenas sentido.


shaka disse...
É claro que destruir NY não é o mesmo que deswtruir o sistema (nesses momentos sinto como meu talento não é escrever, como me fez acreditar na infância, meu pai). Só queria deixar isso bem claro. Não é essa a leitura que faço do Clube da luta, nem é essa a leitura que faço de V de Vingança. E pretendo ser justa quando vejo a viloência como resposta, não porque a destruição material do sistema seja sua destruição plena. Mas porque seja um sintoma. Não sei se me fiz entender, mas estou um pouco cansada para explicar melhor. Que sabe uma hora possa me fazer entender...