Mostrando postagens com marcador Ramesh Balsekar. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Ramesh Balsekar. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Ramesh Balsekar: trechos do livro "Consciousness Speaks"


Pergunta: Existe Consciência no espaço físico entre você e eu?

Ramesh: Tudo o que existe é a Consciência. Você e eu somos meros objetos projetados neste espaço. Tudo o que há é a Consciência. O espaço e o tempo são meros conceitos, um mecanismo para os objetos serem estendidos. Para os objetos tri-dimensionais serem estendidos o espaço é necessário. E o tempo é necessário para os objetos serem observados. A menos que aquele objeto seja observado, ele não existe.
Então o espaço e o tempo são meramente conceitos, um mecanismo, criado para esta manifestação acontecer e ser observada.
É incrível o quanto nos últimos poucos anos, comparativamente, a ciência deslanchou. A ciência diz a mesma coisa. Ela diz que o tempo e o espaço não são reais. Acho que foi o Sr. Fred Hoyle que disse: “Se você pensa que há um passado indo para o futuro ou futuro indo para o passo, você não poderia estar mais errado. Não pode existir tal fluxo. Está tudo aí, agora.”
A metáfora mais próxima que posso sugerir é esta: Se há uma pintura de uma milha de comprimento e dez andares de altura, está tudo lá, mas para você poder vê-la do início até o fim levaria algum tempo. Porque não conseguimos ver a figura toda num relance, a mente humana não é capaz disso, pensamos em termos de tempo. Mas a coisa toda está aí.

P: E como você disse, não vemos a figura toda, estamos vendo apenas uma pequena parte dela.

R: Parte por parte. Então até você chegar ao fim o tempo transcorreu. O conceito de tempo transcorreu.

P: Então, na realidade estamos limitados pelo tempo e o espaço?

R: Correto. Limitados pelo tempo, pelo espaço e pelo intelecto.


________________________


Pergunta: Há um ditado Zen: “Quando você carrega água, carregue água.”

Ramesh: Sim! Assim como um mestre Zen que disse: “Se você quer a iluminação vá lavar os pratos.” O que quer dizer que quando você lavar os pratos, não lave-os com suas mãos enquanto sua mente está vagando por toda parte.

P: Com ressentimento.

R: Isso não é lavar pratos. O sábio, o homem de sabedoria, tem uma atitude básica de trabalho e de vida de uma confiança respeitosa com relação à natureza e à natureza humana, a despeito das guerras, das revoluções, da fome, do aumento da criminalidade e todos os tipos de horrores. Ele não está preocupado com a noção de um pecado original e nem tem o sentimento de que a existência, samsara mesmo, é um desastre. Seu entendimento básico tem a premissa de que se você não pode confiar na natureza e nas outras pessoas, você não pode confiar em você mesmo.
Sem essa confiança como pano de fundo, uma fé no funcionamento da Totalidade, em todo o sistema da natureza, ficamos simplesmente paralisados. Afinal, não é realmente uma questão de você estando de um lado e a confiança na natureza de outro. Na verdade é uma questão de perceber que nós e a natureza somos um e o mesmo processo, não entidades separadas. Você não pode omitir um inteiro sem perturbar o sistema todo.
Em outras palavras, o universo é um processo orgânico e relacional, não um mecanismo. Ele não é de maneira nenhuma análogo a uma hierarquia política ou militar onde há um comandante supremo. Ele é múltiplo, uma rede multi-dimensional de jóias, cada uma contendo o reflexo de todas as outras. É assim que o universo tem sido descrito. Cada jóia é uma coisa-evento e entre uma coisa-evento e outra não há obstrução. A mútua interpenetração e interdependência de tudo no universo. É por isso que o Chinês diz: “Arranque uma folha de grama e você chacoalhará o universo.”
O princípio básico dessa visão orgânica do universo é que o cosmos está implícito em cada membro dele e cada ponto dele pode ser considerado como um centro. A compreensão perfeita é um holofote de luz no universo todo em seu funcionamento, exibindo-o como uma harmonia de padrões intrincados. Enquanto que a visão-lanterna da mente dividida da entidade individual ilusória vê apenas cada padrão por si mesmo, parte por parte, e conclui que o universo é uma massa de conflito. É uma visão-lanterna limitada que daria um senso de horror ao normal fenômeno universal de uma espécie no mundo biológico sendo a comida de outra. A perspectiva mais ampla, a do holofote, é a compreensão perfeita e ela veria as coisas como elas são.
O nascimento e a morte não são nada além de integração e desintegração, o aparecimento e o subsequente desaparecimento dos objetos fenomenais na manifestação. A compreensão verdadeira, a apercepção, inclui a compreensão de que não existe separação entre a compreensão e a ação.
.
__________________________________

Pergunta: A utilização do termo “evolução espiritual” pressupõe um envolvimento com o tempo.

Ramesh: De fato, é claro. Todo o processo é na fenomenalidade tempo-espaço.

P: O que é isso que está envolvido com o tempo, é o mecanismo corpo-mente?

R: Não. O que está envolvido no tempo-espaço é a Consciência identificada, a Consciência que deliberadamente identificou-se com um organismo individual.

P: Por que isso ocorreu?

R: Para que esse lila, esse jogo, esse sonho cósmico pudesse acontecer. Esse processo de identificação é contínuo. Novas criaturas, novos seres humanos estão constantemente sendo criados e neles a identificação acontece. Essa identificação prossegue num processo de evolução. Em algum ponto a mente volta-se para dentro e o processo de desidentificação se inicia. Esse processo leva muito tempo e muitos nascimentos. Todo o jogo é identificação, depois a mente volta-se para o interior e então dá-se o processo de desidentificação. Saiba você, tudo isso é um conceito, mas pode ajudar a trazer a compreensão final.

P: Esse voltar-se para dentro é um meio de ignorar o ego?

R: Não. O voltar-se para o interior pode apenas acontecer, você vê. O voltar-se para dentro é esse processo de evolução espiritual. A evolução ocorre em todas as coisas. Há a evolução física, há a evolução na música, na arte, na ciência e há evolução espiritual.
Nessa evolução espiritual, há primeiro a identificação que ocorre através de muitos milhares de organismos corpo-mente. Quero dizer, poderiam ser centenas de milhares ou milhões, esse não é o ponto mas é que ocorre através de diversos organismos corpo-mente. E num certo organismo corpo-mente o voltar-se para dentro irá acontecer. Um pensamento ocorre ou um evento ocorre ou algo acontece, e com isso como uma aparente causa, a mente volta-se para dentro. E em vez da mente ir para fora, querendo mais e mais objetos materiais, a mente volta-se para dentro e quer conhecer sua natureza real: “Quem sou eu? O que estou fazendo aqui? Qual é o sentido da vida?” Então o processo de desidentificação começa. A busca espiritual nessa evolução começa com a mente voltando-se para dentro e o indivíduo começando a buscar. E essa busca, que na verdade é o processo de desidentificação, continua através de vários processos na evolução. De um tipo de busca você vai para outro tipo de busca e passa por muitas frustrações, até que finalmente há uma compreensão repentina de que nenhum “indivíduo” jamais pode ser iluminado. A iluminação, sendo um acontecimento impessoal, pode acontecer apenas através de um objeto. Para qualquer evento poder acontecer um objeto é necessário. Assim, quando a iluminação está para acontecer um organismo corpo-mente que está pronto para receber essa iluminação é criado nesta evolução. Ele tem as características físicas, mentais, temperamentais, que tornam esse organismo corpo-mente capaz de receber a iluminação. E esse próprio organismo corpo-mente é um processo de evolução.
O início dessa compreensão, na duração, é a aceitação de que a iluminação pode não acontecer através deste organismo corpo-mente. Para um buscador é uma coisa muito difícil de aceitar, para um indivíduo buscador, mas esse é um marco importante nesse processo na dualidade. Então um “abrir mão” acontece e há um tremendo sentido de liberdade. “Se eu não posso ter a iluminação e se um objeto não pode ser iluminado, o que estou buscando?”
De modo que esse “abrir mão” acontece e essa identificação com este corpo-mente, esse “eu”, fica mais fraca. Mas um certo salto quântico acontece no processo. E o salto quântico final, que está logo antes da iluminação, é este: “não há mais busca, não há mais preocupação se a iluminação vai acontecer ou não.” Quando essa aceitação surge, o “eu” praticamente já se foi. Porque é o “eu” que é o buscador, não o organismo corpo-mente. O organismo por si mesmo é apenas um objeto inerte, necessário para a iluminação acontecer.

P: O “eu” é o “eu” enquanto houver o buscador, correto?

R: Sim, correto. Então quando a busca desaparece, o “eu” buscador também desaparece.

P: Então, esse é o ponto final, a evolução de “eu”?

R: Sim. O “eu” evolui, mas não esse “eu”.

P: Sei, quero dizer coletivamente.

R: Sim, como disse, um “eu” chamado Albert Einstein foi evoluído para a teoria da relatividade. Mas apenas para a teoria da relatividade. Para uma subsequente evolução na ciência, outros corpos-mentes foram criados. Einstein não estava pronto para aceitar o desenvolvimento ulterior da teoria quântica. Ele não podia aceitar a teoria da incerteza de Heisenberg. Einstein disse que essa teoria da incerteza significava que “Deus estava jogando dados com o universo.” Ele disse que ele não podia aceitar que Deus estava jogando dados com o universo. Niels Bohr respondeu: “Deus não está jogando dados com o universo. Nós pensamos isso porque não temos todas as informações que Deus tem!”
.
_______________________________
.
Pergunta: Você pergunta frequentemente: “quem está aprisionado?” “Quem está buscando?” Eu gostaria de fazer a mesma pergunta para você.

Ramesh: É a consciência individual ou pessoal que está buscando sua fonte. A consciência, tendo identificado a si mesma num “eu” pessoal, está agora tentando recuperar sua impessoalidade. Isso é tudo que está acontecendo. E o processo torna-se mais rápido quando a mente não interfere, quando o “eu” não está presente, apenas o eu, o Eu Subjetivo está presente. O sábio Ashtavakra nos diz o que é o aprisionamento.
Ele diz: “Significa aprisionamento quando a mente deseja algo ou se aflige por algo. Significa liberação quando a mente não deseja ou se aflige, não aceita ou rejeita, não sente-se feliz ou infeliz.”
Agora, a mente humana treinada e condicionada como é, prontamente diz: “Eu não posso desejar nada, não devo rejeitar nada.” Mas a mente é incapaz de perceber que esse não-desejar algo inclui desejar o conhecimento de sua verdadeira natureza. Desejo não significa apenas desejar algum objeto mas mesmo o desejo pela iluminação. A necessidade de saber, de ter o conhecimento de sua verdadeira natureza, mesmo isso é um desejo e esse desejo acontece através do “eu”.
Significa aprisionamento quando a mente deseja algo ou se aflige por algo. A mente deseja a iluminação e se aflige pelo fato que ela ainda não se iluminou. “Eu” estou nisso a dez, doze, vinte e cinco anos e ainda assim nada está acontecendo!” A mente se aflige por esse “não acontecer”. A mente deseja ou quer algum acontecimento e se aflige pelo não acontecimento desse evento. Significa liberação quando a mente não deseja, quer ou se aflige, quando a mente está vazia, quando a mente está aberta. A mente vazia não é a mente vazia de um idiota, é uma mente aberta, o mais alerta que a mente possa estar, porque ela não está condicionada. Não está querendo nada, não está preenchida de coisa nenhuma. Não há ninguém em casa. A mente está vazia. Ela não rejeita ou aceita, não sente feliz ou infeliz.
Em seguida, Ashtavakra diz: “ Significa aprisionamento quando a mente está apegada a qualquer experiência sensorial. É liberação quando a mente está desapegada de todas as experiências sensoriais.” Novamente ele coloca isso de uma maneira tão breve. Ele não forçou-se a explicar. O sábio quer que o suposto buscador descubra isso por si mesmo. Ele não está dizendo que a experiência sensorial não surgirá. Ele não está dizendo que a iluminação impede o surgimento de qualquer experiência sensorial. O surgimento de uma experiência, de um evento, está totalmente fora do controle de qualquer organismo corpo-mente, tenha a iluminação acontecido ou não. Portanto, não é que o sábio recusa toda experiência sensorial, ela está lá. A experiência sensorial é experimentada mas a mente não está apegada àquela experiência sensorial. Ela acontece e termina. E qualquer experiência é sempre no momento presente. Qualquer experiência boa ou ruim, prazerosa ou não-prazerosa, é sempre no momento presente. Toda experiência é uma experiência impessoal. A experiência impessoal perde sua impessoalidade quando a mente-intelecto aceita essa experiência como sendo dela própria, aceita-a ou rejeita-a como boa ou ruim. Se é prazerosa ela quer que essa experiência venha mais frequentemente. Se for ruim ela rejeita-a, ela não quer. Portanto, o apego a uma experiência acontece sempre no tempo, na duração. A experiência impessoal, que é a experiência do sábio, é sempre no momento presente e quando essa experiência se vai a mente não pensa mais sobre ela. A mente está totalmente desapegada. A experiência é vista como uma experiência impessoal e naquele momento ela é terminada. A liberação é quando a mente está desapegada de todas as experiências sensoriais.
Por último Ashtavakra diz: “Quando o 'eu' está presente é aprisionamento. Quando o 'eu' não está lá é liberação. Sabendo disso o sábio mantém-se aberto para o que quer que a vida possa trazer, sem aceitar e sem rejeitar isso.”
.
____________________
.
Pergunta: Esse sentimento íntimo e próximo que tenho de “eu”, ele de fato dissolve?
Ramesh: Ele dissolve, mas quem vai testemunhar essa dissolução? Você vê o que quero dizer? Ele de fato dissolve, portanto o que dissolve é o próprio “eu”. Quem é que sabe que o “eu” dissolveu? É apenas o “eu” que poderia experimentar isso.
P: Então o “eu” vai ir e vir e depois terminará?
R: Sim. E enquanto o “eu” vai e vem, o estado de testemunhar acontece. O “eu” é a mente, portanto, a mente não pode observar a si mesma. Se a mente observar sua própria operação, então sempre haverá comparação e julgamento: “Isso é bom, isso é ruim, isso é tal e tal.” Isso não é testemunhar. Testemunhar é meramente observar um evento ou um pensamento ou uma emoção conforme surjam, sem fazer nenhuma comparação, sem nenhum julgamento, meramente testemunhar. O testemunhar é impessoal e é vertical, portanto ele corta o envolvimento horizontal. Conforme o “eu” diminuir, o testemunhar irá acontecer mais frequentemente e por períodos mais longos. De repente chegará o momento em que as reações não mais acontecerão para um evento ou um pensamento, onde haverá um sentimento de paz, de bem-estar, mas não haverá “alguém” para sentir esse bem-estar. Não é que o “eu” repentinamente dirá: “Ah, eu desapareci!” Quem estará lá para dizer que desapareceu?
P: Mas ele dissolve?
R: Sim, mas não se você quiser que ele dissolva.



(Extraído do Blog Portal do Conhecimento Divino)


terça-feira, 13 de julho de 2010

Nota do Editor sobre o livro Sinais do Absoluto




"Descobrir um novo autor de mérito genuíno é como descobrir um novo planeta ou estrela no espaço infinito do céu. Enquanto escrevo estas linhas, posso imaginar como William Herschel se sentiu quando descobriu Urano.

Ramesh Balsekar, o autor desta obra, é uma nova luz de cintilante esplendor que adornou o firmamento misterioso da literatura esotérica de grande significação, embora totalmente indiferente a seu próprio brilho. Quando, depois de um rápido olhar para uns poucos capítulos de seu manuscrito, o qual me chegou às mãos através de um amigo comum, eu o encontrei e lhe falei sobre quão gratamente impressionado eu estava, ele me fixou um olhar vazio. Eu não sou o autor, ele disse, e o que escrevi não é para publicação, mas para minha clara compreensão dos ensinamentos do meu mestre, para minha orientação e para minha própria satisfação. Foi difícil convencê-lo de que o que ele havia escrito para sua satisfação poderia ser proveitoso para milhares de outros se fosse publicado como um livro. Ele escutou-me sem responder – um enigmático sorriso nos lábios, com atitude afável, mas totalmente neutra.

Aparentando sessenta anos e muito bem conservado para sua idade, Balsekar tem tez branca, sendo bastante gentil e amigável, mas taciturno por natureza. Quando decide falar, fala com uma circunspecção e distanciamento próprio de um presidente de banco conversando com um solicitante de crédito. Mais tarde, senti-me muito intrigado ao saber que ele realmente tinha sido um banqueiro e que tinha se aposentado como o mais alto executivo de um dos principais bancos da Índia.

Evidentemente, como um solicitante de crédito, fui uma pessoa bastante tenaz, pois fui bem sucedido em tomar emprestado de Balsekar o seu manuscrito por uns poucos dias, para minha iluminação pessoal como um admirador dos ensinamentos de Maharaj. E, quando eu o li, achei-o muito além de minhas melhores expectativas. Não perdi tempo em chamá-lo e a lhe oferecer a publicação da obra. Depois de um breve silêncio, e despreocupadamente, ele abanou a cabeça, expressando seu consentimento.

Li novamente todo o manuscrito, muito cuidadosamente, como um leitor profundamente interessando, mantendo à margem minhas inclinações editoriais. E, enquanto o lia, experimentei em um flash, momentaneamente, minha verdadeira identidade como algo distinto do que penso ser, ou do que pareço ser. Nunca havia tido tal experiência antes. Uns poucos anos atrás, quando tive a boa sorte de editar e publicar as conversações de Nisargadatta Maharaj, Eu Sou Aquilo, senti o impacto de sua originalidade criativa e raciocínio socrático, mas não tive sequer um fugaz lampejo da Verdade ou Realidade ou de minha verdadeira entidade, como agora. E isto porque Balsekar em seus escritos não repete meramente as palavras de Maharaj, mas as interpreta com grande discernimento e lucidez, e um profundo entendimento. Ele escreve com um poder e uma autoridade intrínseca oriunda do próprio Maharaj, por assim dizer. Ele não argumenta; ele anuncia. Suas afirmações são da natureza dos pronunciamentos em nome do Mestre.

Eu nunca fui um visitante regular de Maharaj, mas ouvi suas conversas com bastante freqüência, sempre que minhas ocupações me permitiam um tempo livre. Um dedicado devoto de Maharaj, chamado Saumitra Mullarpattan, que é igualmente bem versado em Marathi e inglês, atuava como intérprete. Em um par de ocasiões, contudo, encontrei uma pessoa desconhecida traduzindo, e fiquei impressionado pelo tom competente com que comunicava as respostas de Maharaj a seus inquiridores. Ele sentava com os olhos fechados e transmitia as sábias palavras de Maharaj com a determinação característica do Mestre. Era como se o próprio Maharaj estivesse falando em inglês, para variar.

Quando perguntei, disseram-me que o tradutor era um devoto novo de Maharaj, chamado Balsekar. No fim da sessão, quando os presentes se dispersavam, apresentei-me a ele e o elogiei por sua excelente tradução das palavras do Mestre. Mas ele mostrou-se impassível, como se nada tivesse ouvido. Surpreendido por sua atitude intratável, afastei-me e nunca voltei a pensar nele até que o encontrei recentemente tendo como motivo este livro. E, agora, compreendi quão deploravelmente errado estava ao formar minha opinião sobre ele. Devia ter-me ocorrido que ele vivia em um diferente nível de existência, o qual estava fora do alcance de elogio ou crítica. Eu devia ter entendido que ele estava em união com o Mestre e nada mais o interessava. E isto é provado por seu presente trabalho no qual encontrei a presença de Maharaj em cada página – sua agilidade mental excepcional, suas conclusões rigorosamente lógicas, seu pensamento total, sua completa identidade com a unidade que aparece na diversidade.



Sri Nisargadatta Maharaj e Ramesh Balsekar



É interessante notar que em seu Prefácio ao livro, Balsekar quase negou sua autoria. Ele disse que o material que apareceu neste volume surgiu espontaneamente, ditado, em um frenesi que sobrecarregou seu ser, por um poder compulsivo que não podia ser negado. Eu acredito no que ele falou. E estou inclinado a pensar que o leitor estará de acordo comigo, conforme avançar na leitura. Não há nada neste trabalho que possa ser tomado como projeção do próprio autor, nenhuma improvisação, nenhuma citação erudita das escrituras; não há nenhum adorno de qualquer tipo tomado emprestado. Os pensamentos apresentados por Balsekar levam a assinatura silenciosa do Mestre. Eles parecem vir de um conhecimento luminoso, de uma exaltação da glória da Verdade que preenche seu interior.

Esta obra, intitulada SINAIS DO ABSOLUTO, é o próprio Maharaj, de modo completo. É, sem dúvida, um tipo de curso de pós-graduação para o leitor que já absorveu o que é oferecido em EU SOU AQUILO. Ela compreende os ensinamentos finais e mais sublimes do Mestre e vai muito além do que ele havia ensinado nos anos anteriores. Eu arriscaria dizer que não pode existir nenhum conhecimento mais elevado do que o que este livro contém. Também arrisco dizer que ninguém, exceto Balsekar, poderia ter exposto este conhecimento, pois nenhum daqueles que estiveram próximos do Maharaj entenderam seu ensinamento tão profundamente como ele.

Alguns dos devotos de Maharaj que conheço assistiram a suas conversas por vinte anos ou mais e, no entanto, suas mentes não mudaram, e eles continuam as mesmas entidades que eram duas décadas atrás. A associação pessoal de Balsekar com Maharaj, por outro lado, estendeu-se por apenas três anos. Mas, tais associações não devem ser medidas no tempo, se pudessem ser medidas de alguma forma. O que é mais importante que a duração da associação é o tipo especial de receptividade que é o forte de Balsekar. Não tenho dúvidas de que o manto de Maharaj tenha caído sobre seus ombros. Na falta de uma expressão melhor, eu diria que Balsekar é o alter ego vivo de Maharaj, embora ele não tenha nenhuma inclinação para desempenhar o papel de um mestre. Que ele está saturado com a Jnana passada pelo Mestre é mais do que evidente por este livro. Todavia, quero atrair a atenção particular do leitor para este artigo especial, “A Essência do Ensinamento”, o qual expõe, em todas as suas facetas, a filosofia única de Maharaj (Apêndice 1) assim como sua nota sobre o desconcertantemente difícil tema da consciência (Apêndice 2). Nenhum leitor deve deixar de ler.

Antes de terminar, posso também relatar um divertido incidente no qual o editor em mim teve um choque com o autor em Balsekar. Sua distância e indiferença sempre me irritaram. Ele obteve a graduação da Universidade de Londres e tinha um bom domínio da língua inglesa. Dificilmente poderia encontrar alguma falha em sua linguagem. Ainda assim eu tentei melhorar sua dicção e expressão aqui e lá, como um editor deve fazer! Ele reparou nos melhoramentos não solicitados e permaneceu quieto, com sua habitual indiferença. Então ficou claro que ele tinha feito de seu silêncio uma virtude, exatamente como eu havia feito com minha verbosidade. Éramos antípodas, senti. Ansiando por um entendimento com ele, queria retirá-lo de sua casca, de qualquer modo. E achei por acaso um artifício. Ataquei sua exposição de um dos aspectos do ensinamento de Maharaj (embora realmente concordasse com ele), e ele explodiu repentinamente. Seu contra-ataque foi devastador e eu me alegrei com a quebra da casca, finalmente. Ele, contudo, rapidamente acalmou-se quando concordei com ele sem muita discussão. E seus olhos irradiavam amizade. As habituais circunspecção e distância desapareceram, dando lugar a uma nova intimidade entre nós. Depois daquilo, nós trabalhamos juntos no livro; de fato, ele me permitiu todas as liberdades com seu manuscrito e nunca se incomodou em olhar os acréscimos e alterações que escolhi fazer. Desenvolvemos um necessário entendimento entre nós, o qual, sem dúvida, apreciei muito. Ele passou os olhos casualmente na cópia final, antes que fosse para a gráfica, e parecia estar totalmente feliz com isto.

Perguntei a ele se iria escrever para nós outro livro sobre os ensinamentos do Mestre. Ele sorriu levemente e talvez houvesse um imperceptível abanar de sua cabeça."

Sudhakar S. Dikshit - Editor

Mumbai
Março, 1982


"Sinais do Absoluto"



Fonte:

http://editoraadvaita.blogspot.com/

segunda-feira, 26 de abril de 2010

Compreendamos os fatos básicos




"Quase todos os visitantes de fora vêm ao Maharaj depois de ter lido seu livro Eu Sou Aquilo. Eles dizem que na sua leitura sentiram um desejo compulsivo de encontrar Maharaj pessoalmente. Poucos deles dizem também que têm estado interessados na busca espiritual por muitos anos.

Consideremos o caso de um visitante estrangeiro comum. Sua primeira visita quase invariavelmente levanta uma certa quantidade de dúvidas em sua mente, tal como se agiu corretamente em gastar tanto dinheiro e seu tão duramente merecido descanso anual de férias vindo aqui. Os arredores sujos da casa de Maharaj, a simplicidade de sua minúscula sala, sua aparência física sem graça e sua roupa simples – tudo isto contribui para a dúvida inicial. Claro, depois de assistir a duas sessões e, certamente, no momento de ir embora, o visitante estrangeiro já estará pensando em sua próxima visita!

Há também um outro fator que, inicialmente, inquieta o visitante estrangeiro. O comportamento de Maharaj não é diferente daquele de qualquer outro homem comum na rua. E isto vai contra seu conceito de como um sábio, ou Jnani, deveria comportar-se, embora seu próprio conceito possa ser muito vago. Ele encontra as paredes da pequena sala de Maharaj cheias de imagens de numerosos deuses e santos. Ele o vê participando do canto dos Bhajans quatro vezes ao dia. Ele o encontra fumando cigarros baratos, produzidos artesanalmente na região, todo o tempo e, algumas vezes, falando sobre assuntos triviais em sua maneira despreocupada, e acha tudo isto muito desconcertante. Sua noção preconcebida sobre Maharaj era talvez aquela de uma figura patriarcal vestida com roupas de cor amarelo alaranjado, conversando seriamente de um assento elevado a alguma distância dos visitantes e, ocasionalmente, produzindo um milagre ou dois de maneira condescendente. Em vez disto, ele encontra um homem totalmente comum!

Não é, portanto, surpreendente que antes do fim da própria primeira sessão, nosso visitante não pudesse resistir à tentação de perguntar por que Maharaj, a despeito de ser um Jnani, canta Bhajans quatro vezes ao dia. Ou, talvez, a questão pudesse ser: Por que Maharaj acha necessário fumar? A resposta usual de Maharaj em tais casos é simples: Por que não? Estou associado com este corpo por oitenta e tantos anos; por que não deveria receber as poucas migalhas às quais está acostumado? Quanto aos Bhajans quatro vezes ao dia, é uma prática dos tempos de meu Guru. Se, desde então, tive o que se chama usualmente de ‘despertar’, deveria sentir-me obrigado a desistir desta velha e inofensiva rotina? Devemos ocupar o tempo que nos tenha sido designado. Importa o que alguém faz, desde que não cause dano a um outro? É tão simples.

Maharaj continua com este tema mais ou menos como abaixo: Se alguém vê – apercebe-se – as coisas com elas são, se alguém apreende a total manifestação com toda mente e não com a mente dividida de um indivíduo, não está muito longe do grande despertar, e então o que quer que faça não tem importância. De fato, pensar que um ser individual possa atuar independentemente é em si mesmo um engano. O que somos é a presença consciente, e não o invólucro externo da consciência; não o corpo, o qual é apenas um aparato psicossomático utilizado para a cognição da manifestação. Este aparato é apenas um conceito espaço-temporal e, como tal, não tem existência independente e, portanto, não pode atuar independentemente, apesar de todas as aparências do contrário. Compreendamos este fato básico.

O que, então, é a vida? A vida neste universo é nada senão o ‘funcionamento da manifestação’, apesar do que cada indivíduo possa pensar. Vistas nesta perspectiva, as várias manifestações destrutivas como inundações e terremotos perdem sua veemência. Cada corpo é nada exceto alimento para um outro – o rato para o gato, o homem ou o animal para o leão, o cordeiro ou a galinha para o homem e assim por diante. De modo que o que é bom para um é mau para o outro; de fato, tudo que parece acontecer constitui apenas o funcionamento da manifestação. Para cada indivíduo, tudo parece ser seu próprio fazer e experimentar, mas o fato fundamental é que nenhum objeto fenomênico (e isto é tudo o que um ser sensível, relativamente, é) pode ter qualquer existência independente própria. Uma vez que isto seja claramente apreendido, automaticamente se seguirá que todas as responsabilidades e culpas são também conceitos imaginários, baseados na noção errada de que um ser sensível tem existência independente, autonomia e escolha de ação.

Então, o que dizer a respeito de todos os eminentes expoentes nas várias esferas da atividade humana – artes, ciências, esportes –, os maiores pensadores? Devemos admirar o trabalho feito pela consciência ‘através’ destas várias formas físicas, mas não as pessoas particulares que são nada mais que fenômenos conceptuais. Permita-nos entender e ser claro sobre o que realmente acontece. A pergunta que se segue seria: Se as pessoas particulares não alcançaram tudo o que tenha sido obtido, quem o fez? A resposta seria: Ninguém individualmente. O ‘funcionamento’ da manifestação acontece na consciência através de Prajna, o refulgente ator/produtor deste total espetáculo de sonhos, que assume todos os papéis no grande drama onírico que esta manifestação é. E a origem desta presença consciente é o númeno. Os seres sensíveis parecem agir e reagir, mas as ações reais acontecem na consciência.

Admiremos, diz Maharaj, o azul-celeste do céu, a bela lua e o cintilar das estrelas; escrevamos poemas sobre as belezas da natureza; amemos os muitos Avatares que desceram à terra em todas as épocas, cantemos Bhajans quatro vezes ao dia, mas, ao menos, entendamos a condição verdadeira! Eu, o númeno, sou todo o ‘funcionamento’ na consciência!

Finalmente, podemos perguntar-nos: O que fazemos então todo dia? Não estamos vivendo nossas vidas, nós, as milhões de pessoas no mundo? Se pudéssemos pensar profunda e racionalmente sobre o que conhecemos como vida, iríamos facilmente concluir que tudo o que nós fazemos, durante todo o dia, e dia após dia, não é nada senão objetivação. De fato, a manifestação é em si mesma nada mais que contínua objetivação, porque, quando no sono profundo, a consciência descansa, necessariamente cessa a objetivação; e assim acontece com o universo objetivado. No sono profundo, não existe a pessoa, nem o mundo, nem Deus.

O que concebemos por ‘fazer’ nada mais é que objetivação; o funcionamento da manifestação acontece desde que haja consciência. Mas identificar-se desnecessariamente com o executor atrai responsabilidade e culpa. Quando a mente, que é o conteúdo da consciência, está vazia – quando ‘jejua’ ou descansa –, cessa seu fiar e tramar, e ela se acalma. Quando a mente cessa de ‘fazer’, ela simplesmente é. Na ausência de objetivação, nossa presença absoluta é, o universo manifesto não é – nós somos. Ou melhor, ‘Eu sou’.

Compreendamos estes fatos básicos. "



De: "Sinais do Absoluto"



Fonte: Blog da Editora Advaita

domingo, 3 de janeiro de 2010

Planeta Advaita

Ramesh Balsekar


Contatos Imediatos do Grau Advaita (por Chris Parish)

O nihilismo eufórico de Ramesh Balsekar

"Imagine, se puder, que uma manhã você acorda em outro mundo. Esfrega seus olhos pra ficar acostumado à luz brilhante do sol, você vê que sob muitos aspectos não é um mundo muito diferente deste. Você está cercado por criaturas que, aos seus olhos, aparecem idênticas aos seres humanos com quem você normalmente compartilha o mundo. Você os observa em suas atividades diárias, vivendo suas vidas, empenhando-se em conversas com outros, fazendo escolhas inumeráveis e tomando as decisões inerentes às exigências da vida. O quadro parece tranqüilizante, familiar e normal.

Mas neste mundo, você logo descobre que as coisas não são necessariamente como parecem. Porque estes não são seres humanos. Não, estes são "organismos corpo/mente" que, diversamente de seus pares humanos, não tem a faculdade de escolher entre opções nem de tomar decisões. De fato, estes organismos não têm nada mesmo que se assemelhe ao que nós chamaríamos de livre arbítrio. As tramas de suas vidas foram escritas na pedra muito antes deles nascerem, deixando a eles somente a possibilidade de cumprir mecanicamente os atos para os quais foram programados. Estas criaturas aparentemente humanas, não são nada mais que máquinas. Enquanto aparentam comportar-se como indivíduos normais com liberdade de escolha , ativamente empenhados nas atividades diárias, estranhamente, quando perguntados, respondem que eles não fazem absolutamente nada. Aliás, neste mundo peculiar, eles dizem que não ha "aqueles que agem". Além do mais, ninguém neste mundo jamais é julgado responsável por algo. Mesmo quando um destes seres parece prejudicar outro, não há nenhum remorso, nenhum sentido de culpa é atribuído. Se perguntasse a um destes organismos corpo/mente sobre esse evento, a resposta seria que não havia ninguém que tinha feito algo. A ética é um conceito desconhecido aqui. As leis da natureza não parecem aplicar-se neste admirável novo mundo. Ou talvez tenham sido reescritas aqui, desde que parece que esses seres observam algumas leis estranhas. Você se pergunta em que lugar da terra poderia estar. Mas você não está na terra. Você aterrisou no Planeta Advaita.

Tinha vindo a Bombaim entrevistar Ramesh Balsekar, um dos mais conhecidos professores de Advaita Vedanta atualmente em vida. Vive no coração desta caótica e vasta cidade numa área exclusiva frente mar que, me informou meu motorista de táxi, é um bairro onde moram muitos VIPs. O porteiro do seu prédio, deduzindo automaticamente que, sendo um ocidental ,devo estar vindo ver Ramesh Balsekar, dirigiu-me a um andar superior, onde Balsekar tem uma residência espaçosa e bem decorada. Balsekar foi um anfitrião muito cortês, saudando-me calorosamente em seu imaculado traje indiano tradicional. Seu comportamento era brilhante e animado e foi difícil para mim acreditar que tinha oitenta anos de idade.

Ramesh Balsekar tem um background insólito para um guru indiano. Educado no ocidente, teve uma carreira muito bem sucedida como dirigente executivo, aposentando-se de seu cargo de presidente do banco da Índia quando tinha sessenta anos. E, apesar de declarar que ele sempre tem sido inclinado a acreditar no destino, foi somente depois que se aposentou que iniciou sua busca espiritual, uma busca que o levou rapidamente ao seu guru, o famoso mestre de Advaita Vedanta Sri Nisargadatta Maharaj. Nisargadatta era um professor impetuoso que se tornou famoso no ocidente nos anos 70 quando foi publicada uma tradução inglesa de seus diálogos, intitulada Eu Sou Aquilo. Um livro que se tornou um clássico espiritual moderno. Menos de um ano depois de encontrar Nisargadatta, Balsekar alcançou o que ele denominou de "a compreensão final" - a iluminação - enquanto traduzia para seu guru. Segundo conta Balsekar, Nisargadatta autorizou-o a ensinar logo antes de morrer e desde então ele tem compartilhado constantemente sua mensagem como sucessor desse Mestre muito respeitado. Balsekar publicou muitos livros sobre seus ensinamentos e ensinou na Europa, nos Estados Unidos e na Índia. Oferece satsang [encontros com um mestre espiritual ou, literalmente - do sanscrito - "Comunhão (sanga) com a Verdade (Satya)"] no seu apartamento cada manhã, e um fluxo constante de buscadores quase que exclusivamente ocidentais vai para Bombaim para vê-lo.

Inicialmente quisemos entrevistar Balsekar seja porque é um popular e influente professor de Advaita - agora ele autorizou tambem alguns de seus estudantes a ensinar - seja porque é considerado, por muitos, como o sucessor de um dos professores de Advaita mais reconhecidos da era moderna. Entretanto, estudando os escritos de Balsekar, nós logo compreendemos que ele ensina uma forma de Advaita insólita e possivelmente excêntrica, que poderia, a nosso franco parecer, induzir a conclusões discutíveis e até perturbadoras. Mesmo que o pensamento indiano tenha sido longamente criticado por suas inclinações determinísticas, parecia-nos que Balsekar tem levado este fatalismo a um extremo sem precedentes. Enfim, foi seja um desejo de explorar estas áreas inquietantes, quanto para aprofundar-me no interesse sobretudo dos ensinamentos do Advaita, que trouxe-me finalmente a Bombaim para conversar com ele. E enquanto cheguei imaginando um encontro diferente, olhando posteriormente, me é claro que, enquanto nos era oferecido um café e nos sentávamos confortavelmente em sua sala, não teria tido nenhuma possibilidade de me preparar para o dialogo que seria iniciado.

WIE : . Você está cada vez mais conhecido como professor do Advaita Vedanta seja na Índia que no ocidente. Pode descrever para nós o que é que ensina?

Ramesh Balsekar: Posso realmente resumi-lo numa só frase. A frase na qual meu ensinamento inteiro é baseado é: "Seja feita a tua vontade." Ou, como dizem os muçulmanos, "Inshallah " - A vontade de Deus." Ou, nas palavras do Buddha: "Eventos acontecem, ações são feitas, mas não tem nenhum individuo que age". Veja, o conflito básico na vida é: "eu sempre faço tudo direito então quero minha recompensa. Ele ou ela sempre fazem algo errado então deveriam ser punidos." Essa é a vida, não é assim?

WIE : Bem, certamente acontece muito.

RB : Essa é a base daquilo que eu observei. O problema inteiro surge porque alguém diz , "Eu fiz algo e portanto mereço uma recompensa, ou ele fez algo e portanto eu quero puni-lo pelo que ele fez."

WIE : Como leva as pessoas compreender isso - que não há aquele que age, que não ha fazedor?

RB : Isso é muito simples. Se voce analisar qualquer ação que você considera como sendo sua ação, você vai descobrir que é uma reação do cérebro a um evento externo sobre o qual você não tem nenhum controle. Um pensamento vem - você não tem nenhum controle sobre o pensamento que chega. Algo é visto ou é ouvido - você não tem nenhum controle sobre o que você verá ou ouvirá em seguida. Todos esses eventos acontecem sem seu controle. E então o que acontece? O cérebro reage ao que pensou ou à coisa que é vista, é ouvida, é provada, é cheirada ou é tocada. A reação do cérebro é o que você chama "sua ação." Mas, de fato, isto é meramente um conceito.

WIE : Qual é a diferença então entre pensamentos, sensações e ações de uma pessoa iluminada e de uma pessoa não iluminada ?

RB : Acontece a mesma coisa. A única diferença é que, no caso do sábio, ele entende que é isso que acontece. Portanto ele sabe que não há nada que ele esteja fazendo: as coisas simplesmente acontecem. O sábio sabe que "eu não faço nada". Mas o homem comum diz, "faço coisas ou fazem coisas. Portanto quero minha recompensa e quero que eles sejam punidos." A recompensa ou o castigo dependem da idéia que eu, ele ou ela fazemos coisas, de que somos agentes.

WIE : Posso entender através de minha própria experiência que nós não temos qualquer controle sobre qual pensamentos nem sentimentos que surgem. Mas às vezes a uma ação segue outra, às vezes não, e me parece que existe uma grande diferença entre quando um pensamento meramente surge e quando é empreendida uma ação que envolve uma outra pessoa.

RB : A ação que acontece é o resultado da reação do cérebro ao pensamento. Se se é simplesmente a testemunha do pensamento e o cérebro não reage aaquele pensamento, então não há nenhuma ação.

WIE : Mas se, como você diz, não há ninguém que decide como responder, então o que é que causa o manifestar-se de uma ação?

RB : Uma ação acontece se for vontade de Deus que aconteça. Se não está em sua vontade, a ação não acontece.

WIE : Quer dizer que cada ação acontece por vontade de Deus?

RB : Sim, é a vontade de Deus.

WIE : Que age através de uma pessoa?

RB : Sim, através de uma pessoa.

WIE : Que seja uma pessoa iluminada ou não? Através de cada um, em outras palavras?

RB : Exatamente. A única diferença, como disse, é que o homem comum pensa, "é minha ação" enquanto o sábio sabe que não é a ação de ninguém. O sábio sabe isso: "Ações são feitas, eventos acontecem, mas não há um individuo, não ha "aquele que age". Essa é a única diferença quanto a mim. A única diferença entre um sábio e uma pessoa comum é que a pessoa comum pensa que cada indivíduo faz aquilo que acontece através daquele organismo corpo/mente. Portanto, desde que o sábio sabe não há nenhuma ação que ele faz, se se produz uma ação que possa machucar alguém, então ele fará tudo que for possível para ajudar aquela pessoa, mas não haverá nenhum sentimento de culpa.

WIE : Quer dizer que, se um indivíduo age de maneira que possa ferir outro, então a pessoa que fez, ou, como você diz, o "organismo corpo/mente" que agiu, não é responsável?

RB : O que eu estou dizendo é que você sabe que "eu" não o fiz. Não digo que eu não lamente por ter machucado alguém. O fato de que alguém foi machucado produzirá um sentimento de compaixão e o sentimento de compaixão resultará em meu tentar fazer qualquer coisa que possa aliviar essa ferida. Mas não haverá nenhum sentimento de culpa: eu não o fiz! O outro lado da moeda é que, se acontecer uma ação que é elogiada pela sociedade e essa me oferecer uma recompensa por isso, eu não digo que não surgirá um sentimento de felicidade por causa da recompensa. Assim como surgiu a compaixão por causa do magoado, um sentimento de satisfação ou de felicidade pode surgir por causa de uma recompensa. Mas não haverá nenhum orgulho.

WIE : Mas você literalmente quer dizer que se vou e firo alguém, não sou eu a fazê-lo? Quero simplesmente ficar claro em relação a isso.

RB : O fato inicial, o conceito original ainda resta: você feriu alguém. Surge o conceito adicional que o que acontece é a vontade de Deus, e a vontade de Deus respeito a cada organismo corpo/mente é o destino daquele organismo corpo/mente.

WIE : Então eu poderia somente dizer, "Bem, agi pela vontade de Deus; não tenho culpa" ?

RB : Certamente. Um ato acontece porque é o destino deste organismo corpo/mente e porque é a vontade de Deus. E as conseqüências daquela ação são também o destino daquele organismo corpo/mente. Se uma boa ação acontece, isso é o destino. Por exemplo, nós tivemos um Madre Teresa. O organismo corpo/mente conhecido como "Madre Teresa" era programado de modo que acontecessem somente boas ações. Então o acontecimento das boas ações era o destino do organismo corpo/mente chamado Madre Teresa. E as conseqüências foram: um Prêmio Nobel, recompensas, prêmios, e doações para as várias causas. Tudo isso era o destino daquele organismo corpo/mente chamado Madre Teresa. Por outro lado há um organismo psicopata que é programado de tal maneira - pela mesma fonte - que somente aconteçam ações perversas e maldosas. A manifestação dessas ações maldosas e perversas são o destino de um organismo corpo/mente que a sociedade chama de psicopata. Mas o psicopata não escolheu ser psicopata. Aliás não há nenhum psicopata; há só um organismo corpo/mente psicopático, cujo destino é produzir ações maldosas e pervertidas. E as conseqüências dessas ações são também o destino daquele organismo corpo/mente.

WIE : Você acha que tudo seja predestinado? Que tudo seja pré-programado desde o nascimento?

RB : Uso a palavra "programar" em referencia às características inerentes ao organismo corpo/mente. A "programação" para mim significa os gens mais os condicionamentos ambientais. Você não pude escolher seus pais, portanto você não teve escolha quanto aos seus genes. Do mesmo modo, você não teve escolha quanto ao ambiente onde você nasceu. Portanto você não teve nenhuma escolha sobre os condicionamentos da infância que você recebeu naquele ambiente, que inclui o condicionamento em casa, na sociedade, escola e a igreja. Os psicólogos dizem que o condicionando total que você recebeu até a idade de três ou quatro anos é seu condicionamento básico. Haverá mais condicionamentos, mas o condicionamento básico que cria a personalidade é a soma dos genes mais o condicionamento ambiental. Chamo isso de programação. Cada organismo corpo/mente é programado de maneira única. Não há dois organismos corpo/mente iguais.

WIE : Sim, mas não é verdade que duas pessoas podem ter bases muito semelhantes de condicionamento e, mesmo assim, serem completamente diferentes uma da outra?

RB : Claro. Essa é a razão pela qual eu uso dois termos: um é a programação do organismo corpo/mente, o outro é o destino. O destino é a vontade de Deus em relação aauele organismo corpo/mente, imprimido no momento de concebimento. O destino de um concebido poderia ser o de não nascer absolutamente, nesse caso ele será abortado. Isto tudo é um conceito, não se engane. Isto é meu conceito.

WIE : Você afirma que isto é um conceito e, certamente, todas as palavras são conceitos, mas como sabemos que este conceito é a verdade? Tendo a pensar que todo mundo tem responsabilidades indivíduais e que, embora haja uma certa quantidade de condicionamentos que nós herdamos, nós ainda podemos escolher como respondemos. Um indivíduo pode transcender os aspectos de seu condicionamento, enquanto outro pode ficar preso a eles durante toda sua vida. Desde que isto ocorra, diria que é devido à vontade individual transcender seus condicionamentos e prosperar.

RB : Mas se isso acontecer, pode acontecer a menos que seja a vontade de Deus? Vamos supor que haja duas pessoas: uma tenta superar seus limites e consegue, a outra não consegue. O que eu entendo é que seja aquela que prospera, seja aquela que fracassa, cada uma o faz porque isso é o destino de cada organismo corpo/mente - que é a vontade de Deus.

WIE : Mas não poderíamos simplesmente dizer que é a vontade de Deus dar a cada individuo a livre escolha de tomar suas próprias decisões?

RB : Não. Veja. A minha pergunta a você é: Qual das duas vontades prevalece? Aquela do indivíduo ou aquela de Deus? Pela sua própria experiência, até que ponto seu livre arbítrio prevaleceu?

WIE : Bem, acho que, às vezes, a vontade do individuo poderá certamente prevalecer.

RB : Em relação a vontade de Deus? Quando você quer algo e você trabalha para isso e isso acontece, acontece porque sua vontade coincidia com a vontade de Deus.

WIE: Vamos fazer o exemplo de um indivíduo que se torna um viciado durante toda sua vida. Alguém poderia argumentar que ele escolheu ir contra a vontade de Deus e conseguiu exatamente porque tinha o livre arbítrio.

RB : Mas seja que você aceite ou não, essa é a vontade de Deus, você não vê? Que você aceite a vontade de Deus ou você não aceite a vontade de Deus, isso tambem é a vontade de Deus!

WIE : Eu diria - não necessariamente.

RB : Sei, você quer fazer o advogado do diabo.

WIE : Bem, não, tento chegar a perceber qual é a verdade.

RB : Mas o que é verdade? Eu já disse que qualquer coisa que eu diga é um conceito.

WIE : Sim, eu entendo, mas nem todos os conceitos são iguais. Alguns afirmam algo que é verdadeiro e outros não.

RB : Todos os conceitos tentam apontar para algo, mas ainda assim são todos conceitos. A pergunta real seria, "o que é a verdade que não é um conceito?"

WIE : Afirmar que tudo é programado antecipadamente, que é tudo destino e que não há livre arbítrio parece-me como uma forma muito extrema de reducionismo. De acordo com esta visão, os seres humanos são como computadores; tudo que nos concerne já está pré-determinado.

RB : Sim, exatamente.

WIE : Mas essa me parece ser uma visão sem coração. Então somos somente máquinas, tudo nós acontece. Não há nada que nós pssamos fazer, nada que nós possamos mudar.

RB : Sim, precisamente.

WIE : Mas isso pode levar facilmente a uma indiferença profunda em relação a vida.

RB : Sim, e se isso acontecesse, então seria maravilhoso!

WIE : Realmente?

RB : Mas esse é o ponto! Claro. Então pode dizer que qualquer coisa que aconteça é aceita. Então não há nenhuma infelicidade, não há nenhuma miséria, nenhuma culpa, nenhum orgulho, nenhum ódio, nenhuma inveja. O que ha de errado nisso? E, como já disse, as ações acontecem através desse organismo corpo/mente e, se esse individuo descobre que uma atitude feriu alguém, nasce a compaixão. Como a compaixão poderia surgir se não houvesse nenhum coração?

WIE : Mas não parece um pouco estranho ferir alguém e depois sentir compaixão? Não seria melhor, em primeiro lugar, não machucá-lo?

RB : Mas não está sob seu controle! Se assim fosse, em primeiro lugar, você nunca o teria feito.

WIE : Mas se alguém acredita poder exercitar o controle, se opondo à crença que afirma o contrario, poderia escolher fazê-lo.

RB : Então por que o ser humano não exercita o controle em cada ação que acontece? Deixe-me fazer uma pergunta. E' evidente que o ser humano possui um intelecto extraordinário, tanto que um pequeno ser humano foi capaz de enviar um homem à lua.

WIE : Sim, isso é verdade.

RB : E ele também tem o intelecto pra saber que se faz certas coisas, coisas terríveis acontecerão. Tem o intelecto para saber que se produz armamentos nucleares ou armas químicas, então as pessoas as usarão e coisas terríveis acontecerão ao mundo. Tem o intelecto - portanto se tiver livre arbítrio, então por que o faz? Se possui o livre arbítrio, por que reduziu o mundo a essa condição?

WIE : Admito, a situação que você descreve é obviamente demente. Mas diria que é devido ao fato que as pessoas são indolentes. E acredito que as pessoas podem mudar se queserem.

RB : Então por que elas não o fizeram?

WIE : Algumas pessoas mudam, mas, como disse, infelizmente parece que a maioria das pessoas é muito indolente.

RB : Significa eles não têm nenhum livre arbítrio!

WIE: Tendo somente o livre arbítrio não nos assegura que agiremos inteligentemente. Como no exemplo que você acaba de dar, está claro que as pessoas freqüentemente escolhem fazer coisas que são bastante prejudiciais.

RB : Qdizer temos o livre arbítrio para destruir o mundo? Se dizem que temos o livre arbítrio para destruir o mundo, em outras palavras, significa que destruímos o mundo porque queremos fazê-lo - sabendo muito bem que o mundo será destruído! Livre arbítrio significa que quer fazê-lo.

WIE : Penso que o problema deve-se mais ao fato que as pessoas normalmente não assumem as conseqüências de suas ações. Elas freqüentemente pensam somente em si mesmas, sem considerar onde suas ações podem levá-las.

RB : Mas o ser humano é extremamente inteligente. Por que eles não pensam nesses termos que você propõe? Minha resposta é - porque não é previsto que eles o façam!

WIE : Quando você diz que "não é previsto que eles o façam" o que quer dizer?

RB : Não é a vontade de Deus que os seres humanos pensem dessa maneira. Não é a vontade de Deus que o ser humano seja perfeito. A diferença entre o sábio e a pessoa comum é que a sábio aceita o que é enquanto vontade de Deus mas, e isto é importante, isto não o impede de fazer o que ele pensa deva ser feito. E o que ele pensa que ele deva fazer é baseado na programação.

WIE : Mas porque o sábio faria "o que ele pensa deva ser feito" se, como você já explicou, sabe que, em primeiro lugar, não é ele que pensa?

RB : Quer dizer, como a ação acontece? A resposta é que a energia dentro deste organismo corpo/mente produz a ação de acordo com a programação.

WIE : Então a ação, como você a descreve, acontece somente através da pessoa.

RB : Sim, flui. A ação acontece. Portanto esse é o ponto daquilo que eu digo - voltando novamente as palavras do Buda "Eventos acontecem, ações são feitas."

WIE : Pelo que eu conheço sobre o pensamento do Buda, ele também sentia fortemente que os indivíduos eram pessoalmente responsáveis por suas ações. Não é essa a base do seu inteiro ensinamento sobre o carma, a lei de causa e efeito?

RB : Não o Buda!

WIE : É minha impressão que o Buda ensinou bastante sobre a "ação correta." Parece que ele prezava muito aquilo que as pessoas faziam e punha muita ênfase no fato de que as pessoas tinham que fazer um grande esforço para mudar.

RB : Isso é uma interpretação subseqüente do Budismo. As palavras do Buda são muito claras. Quem tem o controle sobre aquilo que acontece? Deus tem o controle! Isso, como vimos, é a base de cada religião. E', mas porque existem as guerras religiosas se isso está na base de cada religião? São os intérpretes que causam estas guerras! E como é que isso poderia acontecer se não fosse a vontade de Deus?

WIE : E' claro que você acredita que tudo que nós fazemos é porque é a vontade de Deus que nós o façamos. Mas me parece que isso só faria realmente sentido no caso de um indivíduo que chegou ao fim do caminho espiritual - que tenha acabado com o ego - porque as ações dessa pessoa não estão a serviço de si mesma e, portanto, não surgiria nenhuma deformação com a vontade de Deus. Mas até esse ponto, se um indivíduo age incorretamente em relação a outro, bem poderia ser somente uma reação compulsiva porque a pessoa sente-se egoísta. Se este é o caso, então o que você diz poderia realmente ser usado como uma justificativa para um comportamento desagradável ou agressivo. Você acaba de dizer, "é tudo a vontade de Deus. Não tem importância!"

RB : Sei, mas isso é a verdade. Sua pergunta real é, "por que Deus criou o mundo como é?" Mas veja, um ser humano é somente um objeto criado que é parte da totalidade da manifestação que veio da Fonte. Portanto minha resposta é: "um objeto criado jamais poderia conhecer seu criador!" Deixe-me trazer uma metáfora. Vamos imaginar que você pinte um quadro, e nesse quadro você pinta uma figura. Então aquela figura quer saber primeiro, por que você, como um pintor pintou esse quadro particular, e segundo, por que você pintou aquela figura de modo tão feio! Veja, como pode um objeto criado jamais conhecer a vontade do próprio criador? Meu ponto de vista é que, embora seja assim, isso não o impede de fazer o que você pensa que você deva fazer! Aceitar que nada acontece a menos que seja a vontade de Deus isso não impede a qualquer pessoa de fazer o que ela pensa que ele deva fazer. Poderia ser de outra forma?

WIE : Mas baseado nesta linha de raciocínio, como disse antes, seria bastante fácil concluir que, "Ok, tudo é a vontade de Deus, não importa o que acontece!".

RB : Quer dizer, "Então por que deveria fazer qualquer coisa em vez de ficar na cama o dia inteiro?"

WIE : Sim, por que continuar a fazer qualquer esforço?

RB : A resposta é que a energia dentro deste organismo corpo/mente não permitirá a este organismo corpo/mente permanecer inativo nem mesmo por um momento. A energia continuará a produzir alguma ação, física ou mental, a cada instante, de acordo com a programação do organismo corpo/mente e o destino do organismo corpo/mente, que é a vontade de Deus. Mas isso não impede a você, que ainda pensa que é um indivíduo, de fazer o que você pensa que você deve fazer. Portanto, o que de fato eu digo é, "Aquilo que você pensa você deve fazer em qualquer situação em qualquer momento particular é precisamente aquilo que Deus quer que você pense que você deve fazer!" Definitivamente , aceitar a vontade de Deus não vai impedi-lo de fazer o que você pensa que você deve fazer. Vê? Aliás, você não pode fazer nada mais que fazê-lo!

WIE : De acordo com sua maneira de ver o mundo, isso soa como se, tudo que quer que nós consideremos como sendo nossa escolha, nossa própria vontade e responsabilidade, foi transferida do indivíduo para Deus ou a Consciência. E' isso o que você diz?

RB : Quando você pensa que é você que faz , o que acontece? Ha culpa, orgulho, ódio e inveja. Mas isso ainda não impede ao que acontece de continuar a acontecer. Mas quando você pensa que você não faz , então não há nenhuma culpa, nenhum orgulho, nenhum ódio, nenhuma inveja! A vida torna-se mais pacífica.

WIE : Leio algo num folheto escrito por vários de seus estudantes que parece relevante a esse propósito. Diz: "Aquilo que você gosta só pode ser porque é a vontade de Deus que você goste. Nada pode acontecer a menos que seja Sua vontade.."

RB : Sim, é isso.

WIE : O folheto também diz: "Não se sinta culpado mesmo que um adultério aconteça. Você, a Fonte, é sempre pura."

RB : Isso é Ramana Maharshi quem disse.

WIE : Meu ponto é que a Fonte pode ser sempre pura, mas novamente, parece-me que isso poderia facilmente ser tomado como uma desculpa para agir sem consciência.Você poderia dizer, "não importa se cometo adultério, não importa se machuco meus amigos porque é simplesmente uma ação que acontece". Poderia facilmente ser tomada como uma permissão para agir segundo meu desejo, só porque me aconteceu de ter aquele desejo.


RB : Mas não é isso que acontece?

WIE : Acontece, certamente, mas. . .

RB : Quer dizer que aconteceria mais freqüentemente?

WIE : Com facilidade, poderia acontecer mais. Eu poderia dizer, "Hei, não importa o que eu faça agora. Eu não devo conter-me se sinto um desejo." E' claro o que eu quero dizer?

RB : A pergunta, normalmente formulada seria essa: "Se eu realmente não faço nada, o que me impede de pegar uma metralhadora e sair por aí e matar vinte pessoas?" E' isto que você pergunta, não?

WIE : Bem, isso é um exemplo extremo.

RB : Sim, vamos pegar um exemplo extremo!

WIE : Mas eu acho que seria mais interessante considerar o exemplo do adultério, porque muita gente realmente não faria algo tão extremo como sair por aí de metralhadora para derrubar outras pessoas.

RB : Bem. É a mesma coisa quando conversamos sobre cometer adultério. Leio que os psicólogos e biólogos, baseados em suas pesquisas, chegaram à conclusão que se você trair sua esposa, você não deve se culpar.

WIE : Bem, eu não creio que essa seja a opinião de toda a comunidade cientifica.

RB : O que eu digo é isso, cada vez mais os cientistas estão chegando à conclusão que os místicos sempre sustentaram - de que qualquer ação que aconteça, podemos sempre buscar o motivo na programação.

WIE : Me dou conta de que, em alguns casos, isto pode ser verdade, mas deixe-me dizer, por exemplo, que eu tenha o desejo cometer adultério. Posso dizer, "deve ser a vontade de Deus que eu faça isto e então seguirei adiante" ou, posso conter-me e não causar tanto sofrimento para meus amigos. Não seria melhor se eu me contivesse?

RB : Então o que é que o impede de se conter? Faça como quiser! O que o impede de conter-se? Contenha-se!

WIE : Meu ponto de vista é que é melhor fazer assim!

RB : Também é o meu.

WIE : Mas de acordo com sua visão, assim eu poderia facilmente dizer, "se eu sinto esse desejo deve ser porque é a vontade de Deus," e então não me contenho.

RB : Você afirma que você sabe que deveria se conter então por que você não se contém? Se um organismo corpo/mente não é programado para trair sua esposa, então qualquer coisa que digam os outros, ele não o fará. Se você for programado de maneira que você não levantará sua mão contra ninguém, você começará a matar as pessoas? Agora se existisse uma lei permitindo que você bata em sua esposa sem que você corra nenhum risco, você começaria a surrar sua esposa? Não, a menos que o organismo corpo/mente seja programado para fazer isso, e se é programado para fazer isso, o fará de qualquer jeito. Então como disse, aceitar a vontade de Deus não vai impedi-lo de fazer qualquer coisa que você pense que você deva fazer. Faça-a! Faça exatamente aquilo que você acha que deva ser feito!

WIE : Todavia, no final, como podemos dizer que sabemos que é destino ou a vontade de Deus? Tudo que nós sabemos é que certos eventos se manifestam. Em seguida, podemos rever algo que fizemos e admitir, "Aconteceu, simplesmente" e se gostamos, podemos chamá-lo de destino. Mas não é mais exato dizer que nós realmente não sabemos se é destino ou não?

RB : Esse é o ponto. Nós não sabemos.

WIE : Mas dizer que não sabemos é diferente de dizer "sabemos que é a vontade de Deus". É diferente de dizer "sabemos que tudo é predestinado". Veja, me parece que você quer afirmar que você sabe que tudo é a vontade de Deus.

RB : Nós não sabemos, e isto é um fato; então se você quiser você pode jogar fora o conceito de destino e dizer que ninguém realmente pode saber alguma coisa sobre nada. Ótimo! Não ha nenhuma necessidade de manter o conceito de destino. Afinal de contas, se se aceita que o que acontece não está em seu controle, então quem estaria preocupado com o destino?

WIE : Já que muitos buscadores espirituais vêm a você para receber algum conselho sobre o caminho espiritual, eu gostaria de saber que valor, se é que tem algum valor, você dá ao caminho espiritual como instrumento em direção à Iluminação.

RB : Se a sadhana [a prática espiritual] é necessária, um organismo corpo/mente é programado para seguir uma sadhana.

WIE : Em outras palavras, se tem que acontecer, acontece?

RB : Isso mesmo. As pessoas às vezes me perguntam, "Se nada está nas nossas mãos, deveríamos meditar ou não?" Minha resposta é muito simples. Se vocês gostam de meditar, meditem; se vocês não gostam de meditar, não se forcem a meditar.

WIE : A busca espiritual então é um obstáculo para Iluminação?

RB : Sim, buscar é o maior obstáculo por causa da presença do buscador. O buscador é o obstáculo - não a busca; a busca acontece por si mesma. A busca acontece porque o organismo corpo/mente é programado para buscar. Se a busca da iluminação acontece, então o organismo corpo/mente foi programado para buscar. O obstáculo é o buscador que diz, "quero a Iluminação."

WIE : Então porque tantos sábios falaram sobre a importância da busca? Ramana Maharshi disse que o buscador tem que querer a Iluminação com a mesma intensidade que um homem que esteja afogando-se quer o ar, com o mesmo grau de concentração e sinceridade.

RB : Certamente. Portanto isso quer dizer que tem que ter esse tipo de intensidade na busca. Mas ele também disse, "Se você quer fazer um esforço, você deve fazer um esforço; mas se o esforço não é destinado a acontecer, o esforço não será feito." E' isso que Ramana Maharshi disse. Então veja, se alguém busca ou não busca não está em seu controle. Se a busca por Deus ou a busca pelo dinheiro acontece, não é nem seu mérito nem sua culpa.

WIE : Num de seus livros você afirmou que alguém realmente alcançou uma certa profundidade de entendimento quando pode dizer, "eu não estou nem aí se a Iluminação acontece ou não neste organismo corpo/mente."

RB : E' verdade. Quando alcança esse estagio, então significa que o buscador não está mais aí. Está extremamente perto da Iluminação porque se não há ninguém que se interesse, então não há mais nenhum buscador.

WIE : Mas o resultado não pode ser uma indiferença extraordinariamente profunda que não é Iluminação?

RB : Isso poderia levar a Iluminação!

WIE : Tenho mais uma pergunta. Você freqüentemente diz que nós deveríamos "somente aceitar o que é".

RB : Sim, se é possível para você fazer isto - e isto não está em seu controle!


EPÍLOGO


Enquanto passei meio zonzo pelo porteiro e saia nas ruas tumultuadas de Bombaim minha mente vacilava. Como poderia ser, perguntei-me enquanto abria caminho no meio da multidão, que um homem educado e inteligente como Ramesh Balsekar pudesse realmente acreditar que tudo seja predestinado, que antes de ter nascido, nosso destino já estava gravado numa espécie de granito etéreo? Poderia ele ser realmente sério em sua insistência de que nossa vida inteira, com seu fluxo aparentemente interminável de escolhas e decisões e oportunidades para sistematizar o próprio curso para melhor ou para pior, seja realmente, desde o primeiro respiro, um destino? Enquanto atravessava a calçada em busca de um café onde encontrar um refugio do caos, os pontos difíceis de nosso breve diálogo iam passando em minha cabeça. Sim, "Assim seja" é a essência da maioria das religiões, pensei comigo, mas para os grandes místicos e sábios que fizeram tais declarações por toda a história, a rendição à vontade de Deus tem um significado muito maior do que simplesmente aceitar que não há nada que ninguém possa fazer para influenciar as circunstâncias da vida. Certamente aquilo que tradicionalmente se referia "a vontade Deus" é algo que alguém descobre quando o ego foi absolutamente abandonado, quando todas as motivações egoísticas foram todas queimadas, deixando-o completamente rendido para cumprir a vontade de Deus, qualquer ela seja! Para um Jesus ou um Ramakrishna ou um Ramana Maharshi dizer que se rendeu à vontade de Deus é um fato. Mas dizer que isto é verdade para todo o mundo, naquele momento, pareceu-me refletir uma forma perigosa e particular de loucura que poderia ser usada para justificar as mais extremas formas de comportamento. A declaração de Balsekar, "O que você acha que você deve fazer em qualquer situação. . . é precisamente aquilo que Deus quer que você ache que deva fazer," significa que para ele o Buda Iluminado não está fazendo em medida maior a vontade de Deus que o assassino em série que ataca sua próxima vítima.Tinha vindo a entrevista esperando que houvesse algum desacordo, mas de qualquer forma até os livros de Balsekar, nos quais todas essas idéias são claramente e repetidamente expressadas, não me tinham preparado para meu encontro com o homem. Como tinham lhe surgido essas idéias? Perguntei-me. E por que? Meus pensamentos rodavam e rodavam, lembrando-me de sua arrepiante afirmação de que, mesmo quando machucamos alguém, não precisamos sentirmo-nos culpados, pois nós não somos responsáveis por nossas ações - que mesmo "Hitler foi meramente um instrumento através o qual os acontecimentos horríveis que tinham que acontecer aconteceram" sua afirmação, desafiando todo bom senso, que nós não temos nenhum poder de controlar nosso comportamento ou até de influenciar o dos outros. E tudo isto no contexto de sua descrição fantástica de todos nós como "organismos corpo/mente exercitando nossa "programação". De repente a visão bem-vinda de uma loja de chá apareceu através da névoa e enquanto conseguia um espaço para entrar, senti alivio ao achar aquele tipo de oásis tranqüilo que tinha esperado encontrar. Foi aí, numa das muitas mesas vazias, enquanto o primeiro gole de chá ao leite de sabor adocicado passava pelos meus lábios que num flash, minha ficha caiu. Eu não estava bebendo aquele chá! Eu não estava sentado naquela mesa! De fato, eu não era aquele que tinha entrado na loja de chá. E eu não era aquele que acabava de se atormentar durante uma hora numa conversa com um homem que naquele momento começava a parecer como um indivíduo são. Aliás, eu nunca tinha feito alguma coisa. Era como se um peso que eu tinha carregado durante minha vida inteira de repente fosse levantado no céu graças a um balão de ar quente, e levado para longe, para nunca mais voltar novamente. Todos aqueles anos eu tinha lutado para virar um ser humano melhor, mais generoso mais honesto - todo aquele esforço que eu tinha feito para renunciar a minhas inclinações de superioridade, egoísmo e agressividade - foram todos uma louca empreitada, todos estupidamente e sem necessidade, baseados na idéia importante de que eu tinha algum controle sobre meu destino e a mesquinha presunção de que aquilo que eu fazia pudesse importar aos "outros". Como podia ter me desviado tanto? Mas espera , não era sequer eu quem se tinha desviado! Como se as nuvens se abrissem, de relance agora eu vejo claramente que aquilo que eu tinha pensado como "a minha vida" tinha sido na verdade somente um processo mecânico. A pessoa que eu pensava ser sempre tinha sido somente uma máquina. E o mundo em que eu pensei que eu tinha vivido não era, como tinha suposto, um mundo de complexidade humana, mas um mundo de simplicidade mecanicista, de ordem perfeita, um matemático desenrolar de programas em movimento desde o começo do tempo. Como a perfeição clínica do plano científico de Deus começou a abrir-se perante mim, a emoção extática da liberdade absoluta - da preocupação, do cuidado, da obrigação, da culpa - começou a fluir pelas minhas veias como uma torrente sem margens. E com isso veio uma paz envolvente e retumbante, uma cessação absoluta de tensão, no reconhecimento de que nenhuma ambigüidade aparente ou incerteza eu poderia encontrar daí pra frente, não importa quais decisões aparentemente difíceis poderia encontrar, eu poderia sempre descansar na certeza de que qualquer escolha que eu fizer era exatamente a escolha que Deus queria que eu fizesse. A sensação misteriosa de um desconhecido que tinha me arrastado por tanto tempo tinha evaporado. Os outros no café viraram suas cabeças enquanto eu ria alto, uma risada longa, de barriga, e fiquei pensando comigo mesmo que jogo fantástico seria a vida se todo o mundo entendesse como ela realmente funciona, se todo o mundo pudesse pelo menos ter um vislumbre de como poderíamos ser livres se todos vivêssemos no Planeta Advaita."


Extraído do excelente Blog Editora Advaita

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Quem se importa ?


O desejo de iluminação tinha levado um buscador, extremamente serio e motivado, a passar varios anos na companhia de um mestre espiritual. Durante esse periodo ele mostrou ser um discipulo devotado, completamente dedicado á obtenção da realização espiritual.

Quando chegou o momento de voltar para sua terra natal, seu Guru o fez prometer que iria escrever a cada mês, contando-lhe sobre seu progresso espiritual.

O discípulo deu a sua promessa e recebeu a bênção do seu guru.

Despediram-se e se separaram.

Depois do primeiro mes chegou a carta. "Estou experimentando a Unidade com o Universo", escreveu ele. O mestre não disse nada, mas amassou a carta e jogou no lixo.

O mês seguinte veio outro relato: "A Divindade presente em todas as coisas tem se revelado para mim. Ela está presente numa flor, numa pedra, no ar e em toda parte." Novamente o mestre leu a carta, amassou-a e jogou-a na lixeira sem comentar nada.

Durante quatro meses as cartas chegaram regularmente.

Em sua terceira mensagem, o discípulo declarou: "O mistério do Uno e dos Muitos tem se revelado para mim. Somente agora eu compreendo que não há diferença entre mim e você ou qualquer outra coisa." Uma vez lida, a missiva também acabava com o lixo do guru na cesta de papel.

Na quarta carta, o discípulo dizia: "Ninguém nasce, vive ou morre, porque não há ninguém que existe." Esta carta também foi lida sem comentários e seguiu, como suas antecessoras, para a lixeira.

Após o quarto mês, porém, nenhuma carta chegou. Nenhuma carta no quinto mês, nenhuma carta no sexto mês, sem cartas durante um ano inteiro!

Como o tempo passava sem trazer novidades, o mestre acabou ficando realmente curioso em saber o que tinha acontecido com seu amado discípulo.

No fim foi o proprio mestre que escreveu uma carta perguntando ao discipulo sobre seu progresso espiritual, e lembrando-lhe de sua promessa de mantê-lo informado.

Algum tempo depois, o guru recebeu uma carta. Era do seu discípulo distante. O guru abriu-a e leu, e riu alto, evidentemente deliciado. Os discípulos ao redor dele ficaram intrigados com essa improvisa explosão de alegria.

Todo feliz, o guru entregou-lhes a carta.

Eles viram que ela continha apenas quatro palavras: "Iluminação? Quem se importa?!"



De: Ramesh Balsekar: "Who cares?!"

Fonte: http://editoraadvaita.blogspot.com/