terça-feira, 22 de julho de 2008

Compaixão viva


PSICANÁLISE E SURTO PSICÓTICO: CONSIDERAÇÕES SOBRE ASPECTOS TÉCNICOS (1)

Roosevelt M. S. Cassorla (2)

O trabalho visa discutir aspectos técnicos em psicanálise de pacientes psicóticos, principalmente em surto. Inicialmente descrevem-se vicissitudes da dupla analítica frente ao cataclismo psicótico. Enfatizam-se características necessárias da mente do analista que a permitam ser receptiva à invasão de destroços mentais, vivenciando-os, para tentar reconstitui-los. A interação entre catástrofe e mente do analista conduz a problemas técnicos, controversos. São discutidos: 1) O impasse necessário, situação em que a psicanálise não mais daria conta do processo, tendo que apelar para outras áreas do conhecimento. Demonstra-se sua utilidade para o aprofundamento posterior da análise. 2) A percepção intuitiva, comunicação sem aparente mediação entre mentes, que, se bem utilizada permite um contato profundo intra-dupla. 3) A pessoa real do analista, onde se propõe que cada analista tem uma “forma de ser” própria, que vai além de sua formação analítica. Essa “forma de ser” facilita ou dificulta o contato com determinados pacientes. Chama-se também a atenção para a necessidade do analista cuidar de sua própria mente, sujeita a atividade insalubre.
O trabalho é concluído descrevendo-se características da psicanálise atual, enfatizando-se a liberdade, espontaneidade e criatividade da dupla, em detrimento da rigidificação da técnica, o que costuma levar a encaixes teóricos forçados e desvitalização do processo.


“A crise psicótica esgarça a trama tecida pelo tempo, irrompe, rompe, paralisa, impõe seu tempo, sua realidade, seu princípio de “irrealidade”. A psicose nos defronta com o problema da ruptura: o diálogo interior entra em crise, está cindido, feito em pedaços, fragmentado, desmantelado, disperso. A experiência psicótica de um mundo que explodiu em pedaços é a exteriorização de um cataclismo interior, de um tempo apocalíptico que viola as barreiras do exterior. Há um momento em que é difícil “situar” os fragmentos, saber se estão “dentro” ou “fora”; alguns, ligados à função linguística, continuam seu discurso autônomo e dismórfico, mas “em outro lugar”, em outros espaços, em outros tempos, em outros “mundos”. Da mesma forma que se perde o horizonte que delimita subjetividade e objetividade, perde-se também a “objetividade”, o sentido da realidade; os objetos internos se con-fundem com os externos, isto é, perdem sua alteridade, alienando a condição de sujeito pensante e que sente. As noções de alteridade e identidade entram em crise e se extraviam. O ser, submergido na situação, perde sua visão interior, ponto de partida de uma concepção ontológica de “homem interior” (Plotino) e do conceito de “insight” (Freud). Na crise se adquire uma perspectiva espaço-temporal que não segue necessariamente as regras e leis da geometria euclidiana. As perspectivas, os valores categoriais são “outros”, reinventados ou diferentes, na situação de crise. (RESNIK, 1986, p. 50).


Esta descrição da psicose, do surto psicótico, é familiar a todos os que lidamos com pacientes seriamente perturbados. Ela foi escolhida, para introduzir este trabalho, porque consegue dar-nos uma idéia bastante precisa do mistério terrificante da psicose sem prender-se a teorizações específicas. Por isso, qualquer que seja a teoria psicanalítica que apreciemos, ela poderá ser facilmente defrontada com a descrição.
O objetivo deste trabalho é discutir alguns aspectos controversos da técnica psicanalítica, nessas situações, e em consultório. Evitarei, na medida do possível, utilizar conceitos escolásticos, tentando ater-me a fatores comuns às várias teorias, mas nos interstícios não poderei esconder a influência de autores provindos originalmente da escola kleiniana.(3)
Suponho que, caso as influências tivessem sido outras, minha percepção do assunto não seria diferente, em essência, pois eu continuaria basicamente a mesma pessoa.
Creio que o ter redigido a última frase se coaduna com a importância que darei, neste texto, à pessoa do analista. Isso, porque quando lidamos com psicóticos, mais do que com qualquer outro tipo de analisando, a indispensável capacidade de captação de fenômenos emocionais primitivos, por vezes desvinculados da percepção do próprio paciente, dependerá de características da mente do analista. Ainda que saibamos que não existe analista sem paciente e que ambos constituem uma entidade virtual, que vai além de sua somatória.(4).
Neste trabalho abordarei três pontos, controvertidos, como estímulo para a troca de experiências: 1) o que chamo impasse necessário, uma situação particular em que não há possibilidade de agir através da psicanálise, a dupla criativamente tendo que apelar para outras áreas do conhecimento. 2) o que denomino percepção intuitiva, um fenômeno de comunicação primitiva, intra-dupla, sem mediação aparente. 3) a importância da pessoa real do analista, no tratamento de pacientes severamente perturbados.

1. ALGUMAS VICISSITUDES DO TRABALHO COM PSICÓTICOS

Para finalidades técnicas, sustento que consideremos o surto psicótico que está
ocorrendo durante o processo analítico como consequência de vicissitudes transferenciaiscontratransferenciais.
Esta visão permite que não nos afastemos do vértice analítico, ainda que saibamos que existem outros fatores, externos ao processo, conhecidos e desconhecidos. Não ignoro esses fatores: apenas proponho que os deixemos entre parêntesis, já que eles deverão, em teoria e na prática, repercutir na relação analítica. Mas, nada impede que a equipe multiprofissional, que cuida do paciente extra-analiticamente, possa tomar providências em relação a situações concorrentes, lidando com fatores biológicos, a família e o ambiente, por exemplo. Essa equipe deve sempre existir, quando lidamos com pacientes graves, protegendo a relação.
Seja o surto ocorrido durante a análise, ou a análise sendo efetuada em paciente que vem em surto, temos que trabalhar psicanaliticamente, mas levando em consideração fatos que serão comentados a seguir. Evidentemente, acreditamos que, por mais perturbado que o paciente esteja, existem aspectos não psicóticos, através dos quais poderemos ter acesso à parte psicótica, como vários autores têm demonstrado.(5) Não nos esqueçamos, também, que o surto pode constituir-se num momento ímpar propiciador de re-articulação de elementos, num nível mais evoluído, ou ser o resultado de uma crise evolutiva, como costuma ocorrer com adolescentes (LAUFER, 1986).
Sabemos que o problema básico, na psicanálise de psicóticos, é poder entrar em seu mundo perturbado, e deixar que esse mundo nos penetre. Mergulhar profundamente num espaço “ anespacial” ou infinito, num tempo interminável ou comprimido, num mundo em que não existem referenciais coerentes, permeado de violência e morte impensáveis, nos seria totalmente impossível se não tivéssemos vivido experiências similares, que continuam como ruínas “arqueológicas”, em nosso mundo interno. O desafio do analista será entrar em contato profundo com a loucura que permeia o trabalho da dupla, confrontando e por vezes deixando que se misturem aspectos psicóticos do paciente com os dele mesmo, sem que enlouqueçamos.
Desenterrar esses aspectos arcaicos é um trabalho penoso e que demanda preparo e coragem.
Isso se aprofunda em nossas análises pessoais, mas, salvo resistências, a escavação prossegue, pelo resto da vida. O analista que trabalha com psicóticos sabe e comumente deseja que seu paciente o ajude a desvelar melhor suas próprias vivências primitivas, correndo os riscos a isso inerentes.
Pacientes em surto psicótico nos levam a rever os procedimentos estandartizados da psicanálise, quando eles são compreendidos de forma rígida. Estaríamos bastante perturbados se desejássemos que nossos pacientes, ainda mais em surto, se comportassem associando livremente, deitados placidamente num divã, que nos ouvissem segundo os códigos acertados da linguagem simbólica e pensassem sobre o que está ocorrendo. Tudo isso, num tempo cronológico convencional. O paciente psicótico não pode fazer isso, ele está em “outro mundo”, ou num “não mundo”, sem referenciais ou com referenciais estranhos aos nossos.
Forçá-lo a isso o deixará mais perturbado, totalmente incompreendido, e o levará a desconfiar (com razão) que seu analista nada entende do que está ocorrendo, funcionando como um objeto louco e enlouquecedor (6).
O analista, para poder entrar em contato com seu paciente, terá que deixar-se invadir pelos aspectos psicóticos, de uma forma controlada. Isso é possível se o profissional efetuauma cisão sadia, em que uma parte de nossa mente se deixa tomar e entra dentro do mundo psicótico, enquanto outra parte observa o que ocorre, no analista e na dupla analítica. Dessa forma, tentamos decifrar os códigos incompreensíveis do mundo psicótico, a partir de nossas próprias experiências. Esperamos que o paciente, com o tempo, faça o mesmo, introjetando aspectos da função analítica. Mais ainda: a relação analítica permitirá que a dupla, durante o processo de decifração, viva novas experiências, criando sentidos e significados nunca vividos pelo paciente.
É praticamente unânime entre os analistas a importância do uso da contratransferência como instrumento, no trabalho com psicóticos, mas vou considerar que as várias definições e vicissitudes quanto a sua conceituação e funções são de amplo conhecimento. Explicitarei apenas que considero a existência de uma só entidade, a unidade funcional transferência-contratransferência.
Será chamada somente ‘contratransferência’ se privilegiamos a focalização no analista. Fique claro que, se entram no jogo interativo conteúdos internos do paciente, também entrarão os do analista. Mas, ao contrário daquele, o profissional deve saber separar contratransferência prejudicial daquela que levará a desenvolvimento do processo. O que nos interessa é o uso que o analista pode fazer dos derivados de sua contratransferência, resultado da interação de aspectos da mente do analista com o mundo psicótico do paciente, e que podem ser esquadrinhados e compreendidos como produtos do campo analítico.
Parto do pressuposto que o psicanalista deve efetuar tudo o que estiver ao seu alcance para que o paciente aproveite a crise produtivamente, proporcionando-lhe condições para tal. O caminhar do processo analítico em pacientes psicóticos difere pouco do que ocorre com os pacientes em geral, ainda que ali tudo ocorra de uma forma mais intensa e confusa, com maior grau de comunicação não verbal e pensamento concreto, e a transferência sendo, ao mesmo tempo, intensa e frágil. O analista, permeável aos aspectos estranhos, expelidos violentamente pelo paciente, deve considerar as várias funções dessa expulsão, resultante de explosões/implosões maiores ou menores da mente e seus conteúdos. O paciente nos avisa, como pode, que essa ruptura está ocorrendo, e os produtos fragmentados, que nos atingem como se fossem projéteis, também podem dar-nos pistas sobre outras funções estimuladoras ou
decorrentes da catástrofe, tais como controlar o objeto ou destruí-lo, fundir-se com ele com finalidades de proteção, eliminar aspectos insuportáveis, etc.
Proponho que consideremos, sempre, a existência de um aspecto comunicativo, um assinalamento para que o analista tente aproximar-se compreensivamente dos fenômenos que estão ocorrendo.(7).
Como estamos numa relação em que as leis da lógica de pouco nos valem, em que a simbolização está prejudicada, e em que os fenômenos são principalmente não verbais, teremos que apelar, mais do que em qualquer outra situação analítica, para nossos sentimentos, emoções, reações, fantasias, devaneios, sintomas físicos, etc. (a “contratransferência como instrumento”), no maior grau de profundidade possível, o que nos faz retomar, de alguma forma, nossas experiências arcaicas. Para podermos perceber os elementos eliciados em nós mesmos pela transferência do paciente, temos que sentirmo-nos suficientemente livres, e isso dependerá de nossa análise pessoal e das características de nossa personalidade. O preceito técnico que nos leva ao estado necessário para entrar em contato com as fantasias inconscientes que transitam no campo analítico é a clássica atenção flutuante freudiana, dissecada como “sem memória, sem desejo”, e sem intenção de compreender (BION, 1967), buscando-se ativamente um estado alterado de consciência, similar ao sonho (BOYER, 1994), “sonhando-se” o “sonho” do paciente, que é um novo “sonho”, a dois (BION, 1962; FERRO, 1997).
A possível compreensão que o analista terá dos fatores envolvidos na explosão/implosão psicótica não pode ser somente intelectual. Certamente é altamente desejável que não o seja, durante a sessão. A compreensão tem que ser emocional, vivenciada e, por isso decorre da identificação do analista com os fenômenos que permitiu que o invadissem, ou que, mesmo evitando-os, o atingiram. Geralmente, antes que surjam pistas para a compreensão existe uma fase, mais ou menos longa, de não compreensão. Essa fase deve ser pacientemente tolerada até que surjam pistas produtivas (ou o “fato selecionado”, para BION, 1962). Este processo pode continuar fora da sessão, e partimos do pressuposto que envolvem componentes contratransferenciais. O analista utiliza sua contratransferência também para sentir a ameaça ou proximidade de colapso. Propus em outro trabalho (CASSORLA, 1995) que: “a continuidade da sensação, por parte do analista, de não compreensão, de que o paciente ‘está indo embora’, que predomina uma desesperança em relação a obter contato emocional, é bastante significativo de que algo muito grave está acontecendo, incluindo-se a possibilidade de um ato suicida”. O mesmo ocorre face à ameaça de um surto psicótico, e a sensação de caos, medo e incerteza também aparecem8. No caso do surto que antecipa o suicídio propus que “a tranquilidade angelical, mística, repentina, aparecendo após um período extremamente turbulento, indica que o ato está para ser consumado nas próximas horas”.
A patologia da compreensão redunda na incompreensão: o analista, devido à intensidade e complexidade dos fenômenos, associado à intolerância frente à não compreensão, fica perdido e/ou cria uma teoria defensiva sobre o que estaria ocorrendo. Este fenômeno comumente se associa à falta de condições mentais do profissional, que pode ser atingido em seus aspectos mais profundos. O paciente incompreendido reintrojetará os elementos projetados de forma ainda mais terrorífica. A continência (que deve ser diferenciada do suporte (9)) implica na transformação, pelo analista, dos fenômenos psicóticos, indizíveis, não simbólicos, em algo possível de ser pensado (uso da função alfa, para BION, 1962). Esses fenômenos, não mais terroríficos, são re- introjetados pelo paciente. A boa continência harmoniza fenômenos não verbais com nomeações simbólicas. O desacordo entre eles sinaliza falhas: por exemplo, a compreensão apenas intelectual é uma incompreensão. O mesmo se diga das vivências sem conceito.
Os fenômenos verbais do analista incluem desde assinalamentos, confrontações, esclarecimentos, perguntas, até interpretações superficiais ou sofisticadas, e os não verbais são fenômenos sutis, difíceis de descrever, ou ações, que devem decorrer de um acolhimento compreensivo. O que fazer, como e quando, dependerá da capacidade do analista identificar-se com as ansiedades, mecanismos e recursos do paciente. Por exemplo, interpretações decodificadoras saturadas, “fortes” (no sentido de FERRO, 1995), quando precoces, podem provocar contra-reações derivadas de “indigestão” pela mente danificada do analisando.
Colocações metafóricas ou abstratas, em momentos inadeqüados, podem ser ouvidas de forma concreta, promovendo rupturas no processo. Assinalamentos sobre o funcionamento da mente costumam ser úteis, enquanto se vai testando, cuidadosamente, a capacidade de escutar interpretações transferenciais, sem que o paciente se sinta perseguido ou subjugado de forma
insuportável. Etc.(10).
Paula (CASSORLA, 1997), uma jovem em surto, ainda na primeira entrevista, se acalma quando lhe mostro que expeliu alucinatoriamente parte de sua mente aterrorizada, para um canto de minha sala, de onde fugiu assustada, sentando-se próxima a mim. Conta-me que seu namorado tem a ver com isso. É ele que faz com que apareçam na televisão os pensamentos dela.
Conversamos sobre ele entrar dentro dela, roubar-lhe os pensamentos e dispersá-los pelo espaço - com isso se sente vazia. (Penso também que estamos iniciando um namoro, o analista-namorado intruso podendo ser responsabilizado pela exposição de destroços mentais, mas dizer-lhe isso a ameaçaria mais, fechando a possibilidade de ampliação do campo).
Concorda com minha colocação, acenando a cabeça, e me pergunta como se chama o seu problema, o que lhe está acontecendo. Sinto que se está desesperando, de novo, e precisa, pelo menos, dar nome a seu enigma. Sem pensar, pego uma folha de papel. Ela continua: "me vejo como uma repórter, vendo tudo o que eu penso na TV". Olha para a folha que estou segurando e me pergunta. "O que o sr. ia dizer ?" Coloco uma tampa de caneta sobre o papel, que mantenho firme por uma borda. Nada acontece. Acrescento uma caneta. A folha resiste. Explico-lhe: "tua mente foi sendo carregada, carregada, e de repente...". Coloco outro peso sobre o papel e tudo desaba, tampa, caneta, peso e papel, esparramando-se pelo chão. Olha, me ouve e acena com a cabeça que sim. Imediatamente, levanta-se e senta-se em outra poltrona, ao meu lado. Olha-me nos olhos, fixamente. Sinto-me intimidado, mas não desvio o olhar. Parece-me um jogo, quem agüenta mais. Ela agüenta menos, e desvia.
A seguir, me diz que me conhece, com ar misterioso. Pede-me meu documento de identidade. Após uma conversa em que tento saber das fantasias relacionadas a seu pedido, acaba me dizendo que tem dúvidas se pode falar mesmo. Quando falamos sobre desconfiança, me pergunta se eu sou traficante. Sinto que devo responder, agora, e não investigar nem interpretar. Digo-lhe que não, não sou traficante. Agora está examinando minha identidade de médico, que eu acabei lhe dando. Pergunto-lhe como através da identidade vai saber se sou ou não traficante. Olha-me surpresa, me diz: "desculpe", e me devolve o documento. Conta-me, a seguir, que um casal, na escola lhe deu balas e era droga. E, essa é a causa de sua loucura. Esta vinheta, que envolve vários aspectos (incluindo controvérsias quanto à técnica), visa demonstrar como agimos, por vezes insolitamente, no nosso contato com pacientes graves.
Quando peguei a folha de papel, não tinha qualquer idéia sobre o que iria ou não fazer com ela, e o fui fazendo, o pensamento vindo a reboque de meus atos. Não tinha a intenção de deixá-la cair, só os pesos, mas ela me escapou junto com eles. Esse ato falho, suponho, revelava que inconscientemente sabia que não eram apenas os conteúdos internos que desabavam, mas era a própria mente que explodia. O jogo seguinte, do olhar, me pareceu um desafio para ver se eu suportava a violência de sua projeção dentro de mim, se eu não desabaria com o "peso" dos seus objetos. Penso que ela se permitiu esse jogo, por estar mais segura quanto a minha força.
Mas, quer saber o que eu farei com ela, se se entregar a mim. Farei como o casal parental, que a engana, que lhe dá leite/balas e depois verifica que são objetos maus, que a viciam e enlouquecem ? Os traficantes podemos ser todos nós: pais e analista. Quando consegue discriminar algo da confusão que está fazendo, me pede desculpas e me explica porque estava desconfiada (alimento envenenado), dando-me uma pista importante.
A seguir, automaticamente, sem planejar, peço-lhe a sua identidade. Fica surpresa e me diz que está com a mãe, na sala de espera. Pergunto se ela não quer buscá-la. Sai e fico esperando. Percebo-me inquieto e me indago se não estou contra-identificado. Mas, ao mesmo tempo, sinto uma razoável confiança nos meus recursos como analista, curioso em ver o que acontecerá. Volta com o documento. Leio o nome do pai e da mãe, em voz alta, e indago sobre eles. No momento em que viro o documento, defronto-me com sua foto. Paula o arranca bruscamente de minha mão, se levanta e corre em direção à porta. Abre-a e diz: "vou embora". Reajo imediatamente: "volta aqui, Paula". Ela fecha a porta e volta, mansa. Pergunto-lhe o que aconteceu, porque me arrancou a identidade. Responde: "porque você começou a falar de meus pais. Querem tirar-me de meus pais". Neste momento Paula está olhando para o chão, assustada e algo envergonhada. Continuamos a conversa: conta-me que alguém quer roubá-la dos pais para que seja empregada. Fala de sua empregada, que é uma vampira. Tem dentes longos, cabelo esticado, sai sangue de sua narina. Atravessa portas à noite e chupa seu sangue. Mostra-me o pescoço, onde teria sido mordida. Diz que a grande esperteza da empregada vampira é enganar os pais, eles não acreditam na filha. O único aliado que tem, às vezes, é o pai.
Quando fala do vampiro, gesticulando, deixa cair as costas de sua mão sobre a minha mão. Instintivamente a ia retirando, quando percebi. Mantive a minha mão sob a dela e tive a sensação de algo erotizado. Após longos segundos ela a retirou. Encerro a entrevista, sentindo que ainda não devo interpretar, e digo que quero vê-la de novo amanhã. Concorda. Fico de pé examinando minha agenda, de costas para ela. Ela se levanta e fica do meu lado. Encosta seu corpo ao meu, como que sem perceber. Ao mesmo tempo, pega de minha mesa um livro sobre sonhos e fantasias, e o folheia. Havia outros livros, de mais fácil acesso. Pede que lhe indique alguma leitura. Digo que amanhã falaremos disso. Penso que ao pedir-lhe seu documento estava sinalizando que queria investigar, junto com ela, o seu problema de identidade, que ela queria/temia deixar dentro de mim. Ao indagar sobre seus pais, tentei discriminá-los e discriminar-me para ela. Mas, essa discriminação a aterrorizou, e isso emergiu quando ia ver sua foto. Não queria que nós a víssemos individuada, mas também fragmentada. Se se desprende, sente que a estou roubando dos pais, da relação fusional. Recupera-os, excluindo-me bruscamente, correndo em direção aos pais concretos, para refazer a fusão.
Quando a chamo, sem vacilar, me sente capaz de conter seus terrores. Pode falar-me dos perigos de perder-se dentro de mim: ficará submissa, perderá sua identidade, será empregada. As empregadas, submissas, com muito ódio dos patrões os atacam oralmente, sugando seu sangue, esvaziando-os porque se sentem desesperadamente vazias. Ela é, ao mesmo tempo: a empregada vampira que vampiriza os pais e o objeto do vampirismo dos pais, dentro do jogo projetivo-introjetivo. Esses mesmos pais, no entanto, são protetores. Quando nomeia o pai, mostra um esboço de discriminação da relação entre os pais, possivelmente também vampiresca, em sua fantasia. A sua mão sobre a minha e sua insinuação com seu corpo, indicam a tentativa de sexualização da relação oral agressiva com o analista. Mas, também me solicita que a proteja, a contenha, como uma pele. E, através dos livros, solicita boa alimentação para seus sonhos e fantasias.
O material clínico acima foi escolhido também com o objetivo de subsidiar a idéia de que o analista deve observar, cuidadosa e minuciosamente, as reações a seu suporte, compreensão, continência, ou qualquer outro procedimento, pois será o paciente que nos fornecerá elementos, por vezes instantâneos, quanto à direção adequada ou falha de nossa atividade, possibilitando sua correção ou mudança de rumo. De nossas novas atitudes, outros fenômenos surgirão, e o processo se desenvolve com ensaios, erros, acertos, compreensões, incompreensões contornáveis, e impasses. Estes últimos implicam na estagnação do processo e existe um conhecimento razoável sobre fatores envolvidos que, examinados cuidadosamente, podem ser desfeitos com o trabalho psicanalítico (ROSENFELD, 1987; ETCHEGOYEN, 1987; FERRO, 1993, STEINER, 1993). Neste trabalho proponho a existência de outra categoria de impasse, que não responde aos procedimentos analíticos. Será denominado “impasse necessário”.

2. O IMPASSE NECESSÁRIO


Proponho que, por melhor que seja o analista ou o processo analítico, a psicanálise pode não ser suficiente para controlar a explosão psicótica. Evidentemente, o paciente psicótico está constantemente nos forçando a sair da situação analítica, através da violência e qualidade de suas identificações projetivas, que nos produzem confusão, medo, impotência, raiva, ódio, e outros sentimentos intensos, podendo desorganizar-nos mentalmente e impedindo que pensemos. Compreender, esclarecer, conter, interpretar esses aspectos, e sem que o analista esconda de si mesmo suas reações e sentimentos, é o que ocorreria “no melhor dos mundos”. (11)
Como não vivemos nele, por vezes nos defrontamos com situações em que as atitudes acima não são possíveis ou suficientes. Essas situações podem envolver, entre outras, ansiedades terríveis de desintegração, atuações violentas auto ou/e heterodestrutivas, manifestas, ou potenciais, etc., que não respondem aos procedimentos analíticos, por mais que se tente. Nessas fases, após uma minuciosa investigação sobre o que está ocorrendo na dupla (investigação essa que, em alguns momentos, emergenciais, só pode durar alguns segundos, não sendo possível apelar para supervisão ou análise pessoal), o analista e, por vezes, a dupla, percebe que, para além da compreensão ou incompreensão de eventual estagnação, urge a necessidade de auxílio de outras áreas do conhecimento que não a psicanálise.
Proponho chamar este fenômeno de impasse necessário, e utilizo esse nome porque sinaliza aquela necessidade. Por isso, costuma ocorrer em duplas bem constituídas, que podem perceber o que está ocorrendo. Se isso não acontecesse estaríamos frente a um impasse estagnante ou que resultaria em situações descontroladas, por vezes extremas. Frente ao “impasse necessário” o analista ou a dupla concluem que o processo analítico deve ser interrompido, provisoriamente. Essa interrupção pode ocorrer por minutos, horas ou dias. O
analista deverá expor ao paciente o que percebe que está ocorrendo, e discuti-lo. Por vezes a dupla poderá solicitar auxílio da família ou da equipe de saúde mental de retaguarda. O paciente poderá ser medicado, internado, ou necessitar outros procedimentos não analíticos.
Em outro trabalho (CASSORLA, 1996) descrevi uma paciente melancólica, já beirando restituições alucinatórias e delirantes, que despertou fortes sentimentos contratransferenciais relativos a morte e suicídio. A analista, após uma longa pesquisa e reflexões cuidadosas sobre suas próprias fantasias, pensou que seria muito perigoso continuar o processo, que parecia paralisado. A decisão definitiva ocorreu quando alucinou cheiro de formol e lembrou-se das autópsias em seu curso médico (sensações corporais contratransferenciais). Disse claramente à paciente que queria conversar com ela, agora não mais como analista. A paciente, paralisada, como que despertou. Em seguida a profissional mostrou o impasse e exigiu que a analisanda procurasse ajuda psiquiátrica, ainda que esta a desprezasse. Acabou concordando, contrariada. O episódio permitiu que o processo saísse da paralisia. Tempos após, a paciente não mais melancólica, lembrou-se do fato, colocando sinceramente que fora a firmeza da analista que “a impedira de matar-se”, demonstrando sua gratidão.
De minha experiência como analista e supervisor, a interrupção do processo analítico, devido ao impasse necessário, é sempre benéfica, ao se retomar a análise, quando se trabalham as fantasias que não o puderam ser naquele momento. Desvelam-se também as conseqüências da interrupção. O paciente costuma sentir reconhecimento por verificar que seu analista foi rápido e compreensivo, percebendo a impotência do seu método e podendo apelar para outros.
Introjeta-se, assim, um objeto anti-onipotência. Verifica também que não destruiu seu analista ou a análise, e que não houve rejeição por parte do profissional. Penso que isso decorre da percepção inconsciente do paciente da necessidade do impasse e da força do analista, que não se intimidou frente às dificuldades, podendo utilizar todos os recursos necessários.
Uma colega passou a sentir-se preocupada com a possibilidade de um surto, num paciente grave, face a fortes sentimentos contratransferenciais e outros sinais que o paciente enviava. Logo percebeu que isso estava relacionado às futuras férias analíticas, quando ela viajaria por um tempo longo. As vicissitudes transferenciais e contratransferenciais iam sendo adeqüadamente trabalhadas, mas a sensação de perigo continuava persistente. Passadas algumas semanas, já próxima a viagem, surpreendeu-se quando o paciente lhe confessou que vinha pensando se não seria melhor ficar internado até a volta da analista. Era exatamente a mesma idéia que estava assomando, ainda que nebulosa, na mente da colega e que, nesse momento, ficou clara. Foram trabalhadas as fantasias envolvidas, por algumas sessões, e descobriu-se que o paciente vacilara em falar sobre sua idéia para que ela não se sentisse incapaz e isso atrapalhasse suas férias. Essa não-comunicação também embutia fantasias agressivas e de retaliação que coexistiam, cindidas, e foram trabalhadas. Ainda assim, o trabalho subseqüente da dupla concluiu pela internação, reforçado pelo psiquiatra do paciente, que independentemente, pensara o mesmo. Retomada a análise, novos elementos surgiram, a internação tendo sido bastante útil na compreensão de aspectos do funcionamento mental do paciente, da dupla e da própria analista.
Evidentemente, quando possível, um paciente internado deve continuar sendo
analisado, o analista indo até o hospital ou o paciente sendo trazido ao consultório. Isso implica na necessidade de termos equipe e instituição de retaguarda com visão psicanalítica.
Em algumas ocasiões emergenciais, o próprio analista terá que fazer algo para proteger o trabalho analítico, o paciente e a si mesmo. Essas atitudes, não analíticas, têm que ser o mais transitórias possíveis, e deverão ser objeto de compreensão posterior. Por exemplo, se me sinto incapaz de continuar a trabalhar analíticamente face a ameaças reais ou potenciais de um paciente, fruto de seu terror incontrolável, devo dizer-lhe que, ainda que não saibamos o
suficiente sobre o que o leva a isso, o processo analítico deve ser interrompido, neste momento,e teremos que procurar outras formas de auxílio. Devo explicar-lhe o porquê, detalhadamente, o analista tentando fazer-se compreender. Por mais perturbado que o paciente esteja, alguma compreensão sempre ocorrerá e dependerá, por vezes, menos do conteúdo da fala (a “letra”) do que da tonalidade afetiva (a “música”) com que nos comunicamos com ele. Não custa reforçar que o paciente não deve sentir-se acusado por algo que ele (nem o processo analítico) não conseguem controlar, mas esse risco ocorre se o analista não estiver atento para suas contrareações.
O analisando também deverá escutar, claramente, que posteriormente o processo analítico continuará, e poder-se-á investigar o que não está sendo possível neste momento.
Caso, na situação descrita, ocorresse uma aparente acalmia, haveria que examinar cuidadosamente o fato. Correr-se-ia o risco dela ser o resultado de sentimentos de intimidação super-egóica por parte do analista, ou de controle deste pelo paciente, que o invadiria com identificações projetivas maciças. Se o analista se visse prestes a usar a fórmula: “agora que v. ficou calmo, podemos continuar o processo analítico”, ele deve saber que contra-reagiu sadicamente, não aproveitando produtivamente o impasse necessário, ou ele era “desnecessário”. Evidentemente, o paciente reintrojetaria o expelido, potencializando seu desespero. A situação descrita assinala possibilidades e cuidados que temos que tomar frente à complexidade dessas situações.
Outro exemplo: o analista pode sugerir ou solicitar a um paciente desestruturado, que espere até que venham buscá-lo, não permitindo que ele vá embora sozinho, ao mesmo tempo que continua pensando sobre o que ocorreu na relação para deixá-lo nesse estado. Pode também ampliar o tempo da sessão, sugerir ou aceitar a solicitação de sessões extras, não previstas no contrato. Conversar com a família, orientá-la, etc., são outras atitudes que podem ser necessárias.
Enfim, nessas situações, usamos procedimentos não analíticos, como aconselhamento, sugestão, apóio, contenção, no intuito de recuperar as condições para o prosseguimento do processo, esgotados os recursos da psicanálise. O ideal é poder efetuar esses procedimentos sem perder a visão analítica, prestando atenção nos fenômenos transferenciais-contra-transferenciais, mas isso nem sempre é possível no momento do impasse, face à intensidade e qualidade dos fenômenos que estão ocorrendo (12).
Os procedimentos que se seguem ao impasse necessário devem ser efetuados de uma forma tranqüila e, para isso o analista tem que estar suficientemente seguro sobre o que está ocorrendo. Como assinalado, deve explicar-se ao paciente que a ação visa proteção da vida e/ou do processo analítico. Uma intervenção adeqüada implica em que o analista se coloque como alguém potente, mas que tem consciência de suas limitações e do seu método, naquele
momento, sem que exista medo desnecessário nem rejeição ao paciente, ficando claro que o processo analítico será retomado logo que for possível.
Em alguns casos, suspeito, o impasse é “necessário” objetivando a correção ou
fortalecimento de recursos enfraquecidos da dupla ou do analista Ele não ocorreria se o vigor da dupla estivesse mantido. Naquelas situações o analista, se humilde, pode conscientizar-se de suas limitações e propor-se a repensar seu trabalho, seus recursos pessoais, e a possibilidade de necessitar auxílio pessoal. No entanto, repito, do ponto de vista teórico, o impasse pode ocorrer
por melhor que seja o processo analítico.
Assim, somos obrigados a admitir que nem sempre é possível diferenciar os impasses necessários dos impasses desnecessários, estes decorrentes de dificuldades do analista. Mas, mesmo os “desnecessários”, como já assinalei, podem acabar sendo úteis, se percebidos pelo profissional, por si só ou em suas supervisões e análise pessoal. O analista, então, pode conhecer-se melhor e desmanchar os nós contratransferenciais13.

3. A PERCEPÇÃO INTUITIVA

Não vou entrar, propositalmente, nas controvérsias que envolvem possíveis definições desses termos, que pertencem a várias áreas do conhecimento. Neste trabalho, será considerada como um fenômeno emocional, em que se tem uma captação ou visão direta e imediata de uma realidade ou verdade.
Entramos numa área perigosa, na qual o próprio FREUD se reservou, como nos seus estudos sobre telepatia. No entanto, tenho verificado, como muitos outros psicanalistas, a existência de fenômenos em que ocorre comunicação primitiva, entre mentes, inexplicáveis pelos modelos de ciência hegemônicos e de forma limitada pela teoria da constratransferência. . Observa-se, também, que esse tipo de comunicação ocorre com mais intensidade, quando predominam processos psicóticos. A literatura sobre o tema, pequena, é bastante cuidadosa e prudente e processos similares ou parecidos ao que estou descrevendo, são chamados de várias formas, por diferentes autores: ressonância afetiva, empatia, comunicação extra-sensorial, comunicação extra-verbal, comunicação inconsciente a inconsciente, sexto sentido, insight, fantasia compartilhada, vivência subjetiva, sintonia, identificação, intuição, imagens intuitivas e mesmo contratransferência como instrumento (DOIN, 1983; PICCINI, 1985; TRINCA, 1988; CASSORLA, 1990). Percebe-se, portanto, que existe confusão, mesmo em relação a alguns termos consagrados. Evidentemente, se utilizamos a concepção totalística de contratransferência, a percepção intuitiva do profissional estará aí incluída. Ela pode ocorrer também no paciente, mas, em última instância, é o resultado da interação paciente-analista, como processo intersubjetivo.
O que diferenciaria a “contratransferência como instrumento” do uso da percepção intuitiva ? Na primeira o analista se sente incômodo, e de alguma forma, observa seus sentimentos, derivados de sua contratransferência inconsciente, os avalia usando seu autoconhecimento, tenta diferenciá-los de conflitos próprios, pode arriscar uma colocação ou interpretação e verifica sua validação a partir das reações do paciente e da dupla. Isso pode durar desde segundos até o tempo de várias sessões, ou ser compreendido somente “a posteriori”, quando o analista revê seu trabalho.
Já na percepção intuitiva o analista sente ou reage a algo, de repente, sem mediação aparente e vivenciado como incompreensível. Quando aproveita o fenômeno para efetuar algum ato analítico, sente-se perplexo. Coexistem dois sentimentos: o de ter entrado em contato com verdades profundas e o sentir-se dominado por forças obscuras e misteriosas. Face à perplexidade, prudentemente costuma ficar quieto, assustado com o que está percebendo ou
sentindo. Por vezes, procura compreendê-lo através da investigação de sua contratransferência, mas costumeiramente fracassa. Por isso o ignora ou o atribui a conflitos próprios aos quais não tem acesso. Em outras ocasiões, o profissional não tem sequer consciência que o fenômeno ocorreu e lhe foi útil, somente o percebendo posteriormente. Espero ir demonstrando, em seguida, que o analista não deve assustar-se com essas percepções, para que possa aproveitá-las produtivamente.
Evidentemente, além de tentar diferenciar sua possível percepção intuitiva de
fenômenos patológicos próprios, o analista que a utiliza deve obter sua validação, observando a seqüência do processo analítico. Com isso confirmará ou infirmará sua percepção e poderá, mesmo, compreender uma eventual atuação obstrutiva.
O paciente psicótico também tem, frequentemente, percepções intuitivas. Elas podem ser relativas a aspectos próprios, por vezes expelidos, e a fenômenos que ocorrem em outras mentes, principalmente na do analista, durante a sessão. Quase todos nós já vivemos situações em que o paciente percebeu fatos sobre nosso estado emocional, do qual sequer tínhamos consciência e postulo que qualquer paciente sabe, de alguma forma, o que ocorre conosco, o
psicótico sendo mais sensível. Algo similar ocorre com outros analisandos, em que o trabalho da dupla atingiu níveis profundos, mas aqui é necessário um tempo longo para que esses fenômenos se manifestem. Possivelmente a intensidade e qualidade das identificações projetivas, em áreas primitivas, psicóticas, permite o esquadrinhamento mais acurado do funcionamento de outras mentes. Acredito que ainda não sabemos o suficiente para compreender esse fenômeno, ainda que me faça sentido a colocação de TRINCA (1988) que os atribui aos “infinitésimos” que ocorrem na relação analítica: linguagem do corpo, do rosto, dos olhos, entonações e modulações das falas, entrelinhas da conversação, etc., e também fatores desconhecidos., “em que pigmentos quase imperceptíveis revelam o embate de imensas forças, que se revolvem, telúricas, no fundo das pessoas e das quais elas próprias, muitas vezes, não se
dão conta”, revelando vitalidade e exuberância criativa da relação analítica. SANDLER (1993), usando outro referencial, propõe a existência de “ressonâncias” captadas pelo analista, derivadas de mecanismos similares à identificação primária freudiana.
Dessa forma, o que estou chamando de percepção intuitiva deve incluir elementos comunicativos atípicos, decorrentes de vicissitudes transferenciais-contratransferenciais, extremamente sutis. Não excluo a possibilidade que, antes que o fenômeno se manifeste, algum tipo de elaboração inconsciente tenha ocorrido, cujos derivados de repente assomam à mente do paciente, do analista ou de ambos.
Penso que isso ocorreu com uma paciente (CASSORLA, 1991) que sentia que estava enlouquecendo. Já vivera a experiência psicótica intensamente, e iniciara a análise em surto. Concomitante com a sensação de loucura, se sentia dominada por uma idéia obssessiva: de que interromperíamos a análise em outubro. Estávamos em maio. Durante meses trabalhamos num ambiente nebuloso, sempre ameaçados pela interrupção fantasiada, quase delirante, frente à qual as pistas que apareciam logo se mostravam insatisfatórias. Vivíamos a ameaça de uma catástrofe, controlada a duras penas. Em determinada sessão o material indicava fantasias de exclusão, ciúme e inveja e, de repente, me vi devaneando sobre o nascimento de minha filha.
Num átimo, me vi tomado pela lembrança de que outubro seria o mês do nascimento, acompanhada de uma sensação plena de segurança, de que tinha decifrado o enigma. Subjacente me vinham idéias sobre ciúme e rivalidade entre paciente e bebê, como motivadores da situação. A perplexidade descrita acima também se impôs. Logo me vi muito preocupado, questionando minha integridade mental. Comecei a investigar perguntado à paciente se ela soubera algo de mim ultimamente. A resposta foi “não”, mas sua fala seguinte foi sobre uma situação de exclusão de uma amiga, efetuada por um colega meu. Em seguida contou-me uma longa história sobre o fim de semana, em que se sentiu extremamente enciumada e rejeitada, frente à pequena filha adotiva de seu marido. A essas alturas, o grau de certeza quanto a minha percepção era sentida como total. Mas, minha razão não aceitava o fato e o questionava. De
repente, sem saber porque (e até hoje não o sei), perguntei-lhe se tinha observado algo diferente em mim ultimamente. Sua resposta foi: “não”. Após um pequeno silêncio, continua, divertida: “só que quando v. abriu a porta hoje e vi tua barriga, pensei: o Roosevelt está grávido”.
Penso que o analista percebeu intuitivamente que a paciente tinha captado algo, que ela também tinha tido uma percepção intuitiva, mais terrorífica ainda por ser-lhe incompreensível. A confirmação, por parte do analista, de que a intuição da paciente relativa à gravidez correspondia à realidade, fez com que seu medo de enlouquecer desaparecesse, após uma descarga emocional intensa, enquanto me agradecia por ter-lhe removido seus terrores sem nome. Penso (e este tema é também controvertido), que o revelar a verdade da intuição deve ser um preceito técnico, principalmente com pacientes psicóticos, ainda que o analista tenha que expor-se, mas prudente e cuidadosamente, e informando somente aquilo que for necessário para o prosseguimento adequado do processo analítico. A validação de que a ligação da intuição com o conceito, tornando-a pensável, evitara o sofrimento psicótico, surgiu não só no material posterior imediato, como no restante do processo analítico, permitindo um aprofundamento nas fantasias que não podiam ser nomeadas. A impossibilidade de pensar seus sentimentos fazia parte dos fenômenos psicóticos da paciente e o episódio descrito permitiu o refazer vinculações.
Como ampliação do conceito abordado acima, e interpenetrando-se com fenômenos transferenciais-contratransferenciais, proponho que também podem ser produtivas determinadas ações (por vezes, dramatizações ou encenações), em que a dupla torna claro em atos, elementos não conscientes. Um exemplo poderia ser o dos pesos na folha de papel, no material de Paula.
Nessas situações, por vezes, podem ser re-encenadas situações traumáticas arcaicas, substituindo a comunicação verbal, que assim são explicitadas. Tanto a percepção intuitiva, como a ação, o “ acting-out”, a encenação, podem ser produtivas, meios de comunicação entre as mentes, e podem ocorrer no paciente, no analista, ou frequentemente nos dois elementos da dupla concomitantemente. No entanto, se a pretensa percepção intuitiva ou ação for produto de fantasias onipotentes, estaremos nos defrontando com as limitações do trabalho da dupla. Ainda que, nesses fenômenos, nem sempre seja possível diferenciar os componentes produtivos dos patológicos, estou convencido que ambos sempre existem como substitutos da capacidade de explicitar o impensável, e, por isso têm uma função comunicativa que deve ser decifrada.(14).
Numa fase mais adiantada da análise de Paula, ela já fora do surto, os.pais resolvem viajar para o exterior. A situação era trazida como conturbada, os pais marcando e desmarcando passagens, parecendo vacilar. Aos poucos percebo que Paula se mostra mais confusa. Numa sessão após um fim de semana prolongado, entra na sala assustada, olhando desconfiada em torno e me pede, aterrorizada, que eu a ajude, que não a abandone. Pega no meu braço, segura minha mão, agitada. Levanta-se e senta-se, anda pela sala. Volta para perto de mim e me agarra. Olha fundo nos meus olhos e repete: "por favor, não me deixe". Vivencio seu pavor.
Quero saber o que a está assustando tanto. Fala, de forma confusa, que ao entrar aqui percebeu que na casa ao lado moravam pessoas que queriam matá-la. Lembro-me que me falara de alucinações e delírios em relação aos vizinhos de sua casa, ocorridos antes de entrar em análise. Esses vizinhos também queriam matá-la e faziam magia negra, de noite, quando ela ouvia ruídos e orações, o que a deixava aterrorizada. Nessas ocasiões os pais lhe davam antipsicóticos e a levavam para seu próprio quarto.
Continuo escutando os detalhes: ela não havia notado antes que os meus vizinhos faziam parte da seita de magia negra, ao lado de sua casa. Continua falando agitada, andando pela sala. E, me pergunta, agora em dúvida. "O sr. acha mesmo que seus vizinhos fazem parte da seita ?". Sinto que preciso responder-lhe e não interpretar. Digo-lhe que não acredito que meus vizinhos façam magia negra, que ela deve estar fazendo confusão. Nesse momento, ela
me diz que a casa deles, dos meus vizinhos, é igual à dos vizinhos de sua casa.
Automaticamente lhe digo que gostaria que me mostrasse as semelhanças. Saímos ambos do consultório, atravessamos o jardim, saímos na rua. Ela vai na frente e eu a sigo. Atravessa a rua, assim podemos ver melhor a casa vizinha e também a minha. Olha para a casa e me diz que, na verdade, ela é diferente do que imaginava. Vemos minha vizinha na janela e Paula parece que aceita que se enganou. Sinto que agora está calma. Começa a falar-me que
está assustada com a viagem dos pais. Acha que eles devem ir, mas teme ficar com muita saudade e piorar. Sua fala é coerente, acabou o terror. Senta-se na grama. O dia está muito bonito, convidativo para tomar sol. Pergunto-lhe se quer ficar aqui ou prefere entrar no consultório. Diz que, se eu não me incomodar, seria bom tomar sol. Acho sua proposta coerente com o que eu estava sentindo e fico ao seu lado. O restante da sessão ocorre ali. Falo-lhe do medo que tem de que eu a abandone, junto com seus pais. Isso lhe traz lembranças da infância, da avó querida que morreu, e de outras situações de perda e luto. Emociona-se. Agora estou frente a uma pessoa não psicótica, lidando com lutos. Falo-lhe também de minha casa (que está à nossa frente) e do desejo que ela tem de ficar comigo, com minha família, quando seus pais viajarem. Ela concorda e fala dos meus filhos, de como imagina que eles devem ser felizes e bem tratados. Penso que nesta sessão Paula me ajudou, criativamente, estimulando-me a defrontá-la com a realidade externa, a discriminar (função necessária, com estes pacientes, que vivem estados confusionais). Mais importante, no entanto, penso que foi o fato de que, ao acompanhá-la e ir à rua, isso a fez sentir-se protegida: tem com quem enfrentar seus objetos assassinos, alguém que não tem medo e a quem pode entregar-se. As alucinações tinham a ver com fantasias arcaicas, ela sendo evidentemente esse bebê ameaçado, e futuro ser diabólico. Os objetos e fantasias terroríficas foram mobilizadas pelo fim de semana prolongado e pela viagem dos pais, que de idealizados passam a diabólicos, atacando um bebezinho desesperado e impotente. O deslocamento para meus vizinhos tenta poupar o analista e sua família (como antes projetava nos vizinhos de sua casa o que imaginava que ocorria no quarto dos pais).
Recupera-me como objeto bom e me convida a dividir com ela o prazer do sol-objeto bom, protetor e carinhoso. Assim cuidada, pode lidar com suas perdas e lutos, incluindo o não poder ter-me totalmente. Pode tolerar que tenha outros “filhos”, ainda que de uma forma algo idealizada.
Concluindo este ítem: penso que a unidade transferência-contratransferência se constitui num fenômeno extremamente complexo, que envolve alguns aspectos razoavelmente compreensíveis mesclados com outros, ainda desconhecidos e misteriosos. Entre estes últimos se encontra o que chamei percepção intuitiva. Ela foi colocada neste texto por dois motivos: 1. pela sua presença freqüente, em análise de psicóticos, ora assustando o analista, ora servindolhe de auxiliar para compreender e vivenciar os fenômenos de comunicação primitiva, e, em outras ocasiões passando desapercebida, misturada com outros fenômenos contratransferenciais. Possivelmente a última alternativa é bastante comum. 2. pelo seu caráter polêmico, próprio para ser discutida em reuniões científicas.

4. A PESSOA REAL DO ANALISTA

Em situações em que pessoas em surto, ameaçam matar-se (por ex., jogando-se de uma ponte), a experiência tem demonstrado que terapeutas, qualquer que seja a teoria ou técnica que utilizam, fracassam mais do que leigos, no convencer o potencial suicida a não matar-se. Isto nos mostra que a interação humana, também nessas situações extremas, depende de características pessoais, individuais, do agente terapêutico, mais do que de suas características profissionais ou formação teórica.
Refiro-me à pessoa real do analista, quando considero as tendências e identificações que pertencem ao analista e a seu desenvolvimento pessoal e tornam seu trabalho diferente em qualidade do de qualquer outro analista (WINNICOTT, 1947) (15). A pessoa real do analista inclui suas características únicas como pessoa, sua personalidade, aspectos de sua experiência, e seu comportamento na sessão analítica que vai além da interpretação e esclarecimento (VIEDERMAN, 1991). A forma de diálogo da dupla depende também de elementos únicos do analista. O tipo e grau de envolvimento com o paciente aparece no tom de voz, na maneira de intervir, no “ timing” e propriedade das suas colocações, na distância ou proximidade emocional.
Já FREUD (1922) assinalava que as partes que o paciente projeta no analista não ocorrem no ar, “mas deixam-se guiar por seu conhecimento do inconsciente e deslocam sobre o inconsciente do outro a atenção que substraem de seu próprio inconsciente”. HOFFMAN (1983) leva isso adiante: “se o paciente projeta partes de si-mesmo, projetará aquelas partes que tenham algo a ver com a realidade do analista na interação ‘aqui-agora’ com esse paciente em particular”. Outros autores têm se debruçado sobre o tema, por ex., GIOVACHINI, 1975; EPSTEIN E FEINER, 1979B; THOMÄ & KACHËLE, 1992 (16). Desejo acrescentar algo mais: a contratransferência como instrumento e a percepção intuitiva se somam ao que chamarei espontaneidade, algo que vem de dentro do analista, de sua própria personalidade e criatividade, estimulado ou não pela relação com o paciente, mas que iria além da contratransferência. Um modelo similar corresponderia ao conceito bioniano de “ rêverie” materno, ou o winnicottiano de “mãe suficientemente boa”: ele dependerá não somente da estimulação pelo bebê, mas, principalmente de condições e capacidades próprias da mãe, que nada têm a ver com o bebê. Repito: algo íntimo, que pertence somente ao analista, está em jogo no processo. Podemos incluí-lo na acepção totalística de contratransferência, mas como é algo próprio, que independe do outro, a adjetivação “contra” me soa mal. Não é fácil descrever quais seriam as características adequadas próprias do analista, ainda mais aquele que lida com pacientes severamente perturbados. ZIMMERMANN (1995) garimpa na obra de BION as características desejáveis a um analista: identidade analítica, amor
à verdade, capacidade de ser continente, capacidade de premonição, ou pressentimento, paciência, capacidade negativa, capacidade de intuição, capacidade de empatizar, comunicação, capacidade de discriminar, ética, respeito e coragem. Penso que muitas dessas características podem ser desenvolvidas na análise do analista, mas suas variações e outras dependem dele mesmo, a análise podendo reforçá-las ou, se mal efetuada, até obstruí-las. Este último caso vemos quando terapeutas potencialmente corajosos saem de suas análises acovardados, seguidores de receitas e fanatizados por teorias ou pessoas idealizadas.
Proponho que espontaneidade, interesse genuíno, criatividade, capacidade de sonhar junto com o paciente, generosidade e coragem, devem fazer parte das características reais do analista, além do contato profundo e produtivo com seus próprios aspectos arcaicos. Essas características são ainda mais importantes no trabalho com psicóticos, que captam a máscara de frialdade ou de proteção do analista. Penso que se este não tem as características acima, em
grau suficiente, o processo analítico fracassará ou ficará estancado, porque o paciente o perceberá. Lembremo-nos de ROSENFELD (1987) no início de sua vida profissional, conversando com pacientes psicóticos, sem conhecer psicanálise, e fazendo catatônicos emudecidos falarem. Muitos dos leitores, certamente, já viveram algo similar, que só pode decorrer de características pessoais do profissional.
Resumindo, penso que os analistas se diferenciam também pela sua “forma de ser”, e graças a ela teremos mais ou menos facilidade com determinado tipo de paciente, ou com aquele analisando em particular. Evidentemente, ao valorizar a pessoa real do analista, continuo considerando a transferência-contratransferência como elemento básico do processo analítico e será principalmente através das interpretações e outros procedimentos, que o paciente conhecerá a “forma de ser” do profissional. Certamente, um analista com as características descritas facilitará que fenômenos psicóticos possam emergir, visando transformação produtiva.
Há ainda outro ponto importante, ligado a este ítem: a necessidade do analista saber proteger-se de dano mental. Ele tem que estar alerta para o fato de que trabalha num ambiente insalubre, e que deve saber cuidar-se, abandonando alegres fantasias de onipotência. Não tomar mais que o número de pacientes graves que dê conta, naquele momento de sua vida, é básico.
Assim, como efetuar constantemente “reciclagens” do principal instrumento de trabalho: seu inconsciente. E, lembrar-se sempre que a vida não se reduz à psicanálise: se isso acontecesse, poderíamos efetuar a hipótese de ela estar sendo usada, defensivamente, para evitar contato profundo com o mundo mental do profissional, a aparente “normalidade” escondendo aspectos psicóticos.
Insalubridade e potencial dano mental me fazem trazer Marcelo, um paciente preso de ansiedades confusionais, que ataca permanente e violentamente o analista e a função da dupla. Em determinada fase de sua análise passou a afirmar, obsessivamente, que “no final todos nós morreremos”. Depois de muitas sessões consegui identificar um padrão: a frase era dita depois que eu lhe assinalava algo que, em minha opinião, poderia expandir seu universo mental. Com essa colocação ele matava, instantaneamente, minha fala. Passei a mostrar-lhe isso. Ainda que efetuasse algumas pobres associações sobre o fato, a frase continuava presente. Obviamente, eu concordava com ele, que no final todos nós morreríamos, e nunca a havia questionado em seu conteúdo. Mas, aos poucos, me percebi não suportando mais ouvi-la, sabendo que minhas intervenções de nada valeriam. Isso foi logo ampliado para o paciente, como um todo, e passei a sentir um mal-estar aversivo quando se aproximava a hora de sua sessão. Mesmo contando com o auxílio de colegas na apreciação do caso, parecia que minha mente estava limitada, ou danificada, e o trabalho já se aproximava de algo torturante. Considero essas situações altamente desafiantes, mas, naquela fase, me percebia paralisado e culpado pela minha desesperança frente ao desafio.
Aos poucos, e penosamente, pude perceber que Marcelo, insistentemente, me obrigava a defrontar-me, de várias maneiras, com ansiedades e defesas relacionadas a minha própria morte. Não por acaso, nessa fase da análise, eu estava vivendo situações reais de perdas e lutos, que, imaginava não estarem interferindo demasiado em minha forma de trabalhar. Estou certo que o terror de Marcelo relativo ao tema (tanto a morte concreta como a morte mental), eliciou dificuldades do analista, e assim, em várias situações havíamos fugido de um maior contato com esse terrível fenômeno. Falávamos, sim, de várias “mortes” metafóricas, mas, fugíamos da “morte” em si mesma, como finitude da vida, concretamente sentida. Suponho que Marcelo captara esses aspectos obstrutivos no analista. Assim, ao mesmo tempo que tentava sadicamente massacrar-me e encenar a morte da análise, me fornecia pistas, que poderiam levar-me a aperfeiçoar instrumentos para “digerir” algo mais de meus terrores, e, consequentemente auxiliá-lo com os deles. Faz parte de qualquer processo analítico que pacientes ajudem o analista, para que este possa trabalhar melhor, mas isso é mais claro e profundo quando lidamos com aspectos psicóticos. Para isso, o analista tem que desembaraçar-se do emaranhado contratransferencial.
Possivelmente já vinha elaborando inconscientemente meus terrores a partir dessas pistas, quando um dia, conversando “por acaso” sobre a situação com um colega que sabia do paciente (17) (e, essa é uma ajuda que usamos sem perceber, e que denomino “supervisão informal”), ouvi como sugestão brincalhona que dissesse a Marcelo que eu não morreria. Achei divertida a idéia, mas estava certo que tanto eu como meu colega nunca diríamos isso. Mas, na sessão seguinte, logo que a frase apareceu me surpreendi dizendo-lhe que eu tinha pensado nessa sua afirmação (de que no final todos nós morreríamos) e chegara à conclusão que não tinha certeza de que eu morreria. Acrescentei, mais surpreso ainda: “pode ser que nós pertençamos a uma mutação da espécie, que não morrerá. Não posso provar que nós não vamos morrer, mas v. tampouco pode provar que nós vamos morrer”.
A reação de Marcelo foi impressionante: gritava “nós vamos morrer”, “nós vamos morrer”, “o sr. sabe disso”. Disse-lhe que ele achava que eu estava louco e que isso o deixava tão desesperado quanto o fato de depender de mim, ele sentindo-se louco por não poder viver sem mim. Essa linha interpretativa não era nova, mas, desta vez ficou num longo silêncio elaborativo, e me disse, bem humorado, que eu “o tinha pego de jeito”, seguindo-se associações produtivas. A frequência dessa frase (“nós todos vamos morrer”) foi diminuindo e praticamente cessou em algumas semanas. Após algum tempo, o diálogo analítico já menos perturbado, ela foi substituída por algo mais evoluído, ainda que persistente: ele me fantasiava morto, de morte natural, enterrado, ele dançando em cima de meu túmulo. Montava uma barraquinha de limonada, ao lado, que seria vendida aos visitantes. Estes fariam fila para comprá-la. Pelo número de visitantes, ele me considerava uma celebridade... Com esses dados e outros, foi possível mostrar-lhe, cuidadosamente, sua destrutividade invejosa associada a uma necessidade desesperada do analista idealizado. Concomitantemente a comunicação simbólica e metafórica se tornou menos difícil e o processo, antes estancado, passou a movimentar-se, ainda que com dificuldades consideráveis.
Na situação descrita foi necessário passar por momentos de formato maníaco, efetuando-se intuitivamente algo similar a uma “redução ao absurdo”. Isso permitiu a quebra da organização estagnante, trazendo à luz ansiedades terríveis, que permaneciam escondidas.
Posso supor que o diálogo analista-colega estimulou aspectos inconscientes do profissional, facilitando-lhe condições para a ruptura do impasse. Esta última vinheta, relativa a cuidados pessoais que o analista deve tomar, complementa aspectos já assinalados acima. E enfatiza dúvidas e limitações com que nos defrontamos no trabalho com esses pacientes. Outras situações em que o autor vem limitando o processo, por suas deficiências, podem estar ocorrendo. Existe sempre a esperança que as perceba, com a ajuda dos pacientes e de seus colegas. Com isto, proponho que não considero que exista analista imune a dano mental eliciado por paciente grave, por mais profundas que tenham sido suas análises pessoais. Evidentemente, esta proposta é discutível, pois pode decorrer da necessidade do autor sentir-se bem acompanhado. O desejável é poder aproveitar esses momentos de falência, produtivamente, o que nem sempre é possível.

6. CONCLUSÕES

Vou terminar este trabalho fazendo um resumo de como vejo a psicanálise atual, baseando-me nas idéias de ALVAREZ (1994).

1) A ênfase no presente da relação analítica, torna o trabalho muito mais interessante e infinitamente mais vivo. "A imagem popular do analista-cientista com um zíper na boca", distante e indiferente, não mais cabe. Melhor comparação é a de um músico experiente, mas que improvisa constantemente, e, que deve viver e aprender a partir da experiência sentida.
2) São pouco úteis explicações sobre o que teria ocorrido, no passado, com o paciente. A corajosa escuta receptiva, assim como uma atitude firme em relação às projeções terríveis, isto é, à desesperada necessidade do paciente de fazer conosco aquilo que sentiu lhe ter sido feito, é o que ajuda (18). A oportunidade de que ocorra algo novo, dentro do paciente, é importante. E, para isso o analista terá que envolver-se emocionalmente. Ou, como assinala FAVILLI (1988), o analista “coloca-se em jogo”, assumindo como base toda sua ignorância sobre esse novo relacionamento, suas chances dependendo de seu grau de liberdade em jogar com seu parceiro-paciente.
3) Deve-se tolerar a não compreensão e tomar consciência dos próprios sentimentos em relação ao paciente, e suas mudanças de momento a momento. O objetivo será tornar pensável o que não era, e para isso "fragmentos pré-digeridos", ou pior, "fragmentos indigestos" de explicação psicanalítica não funcionam.
4) Com pacientes graves grande parte de nosso tempo é usado na tarefa de auxiliá-los a aprenderem coisas como contenção, autocontrole, reflexão. O analista tentará manter o equilíbrio entre ficar suficientemente em contato com o paciente, e ficar afastado o suficiente para poder pensar.
5) Não mais se utiliza o velho esquema da gangorra, na teoria psicanalítica: um efeito aqui produz uma reação lá. Tudo ocorre num contexto, e se avalia o crescimento, que ocorre não a partir de mecanismos, mas sim de processos. Existe, por exemplo, um processo iterativo entre "self" e objeto que possibilita a emergência de elementos genuinamente novos: por exemplo, o "self" projeta algo dentro de um objeto. Este o transforma. O "self" pode reintrojetá-lo, com outra modificação. E, uma nova reprojeção será algo mais uma vez modificado. Ocorre, portanto, uma espiral ascendente. E, em casos patológicos pode haver estagnação ou deterioração.

Reforçaria as considerações acima, lembrando que: a) Devemos trabalhar visando ampliar a possibilidade de significados. De nada nos adianta explicações que fechem para novas questões, lembrando que a resposta “definitiva” aborta a investigação. A conversa entre analista e paciente (que inclui interpretações, mas não se reduzem a elas) amplia o universo mental, e também cria um universo novo, não se limitando a revelar algo que estava escondido, “mas ao tornar visível representações mentais de situações emocionais re-articula significações de planos simbólicos distintos abrindo novas possibilidades vivenciais” (BARROS, E.M.R., 1997); b) Relembrar que normas técnicas são instrumentos utilizados para facilitar o processo analítico e a conseqüente expansão do mundo mental. Se atrapalharem, devem ser questionadas, sem que se perca o vértice analítico. O “ setting” não pode ser uma moldura rígida onde paciente e terapeuta esbarram, mas uma película contensora, suficientemente flexível para conter os fenômenos que ocorrem, sejam quais forem sua expressão (BARROS, I.G., 1987). Penso que o “setting” mais importante é o mental, o temporal e espacial sendo auxiliares daquele. A rigidificação costuma associar-se ao uso defensivo de teorias, que costumam esconder a dificuldade em tolerar o desconhecido, forçando “conhecimentos” falsos.
Concluíndo, minha esperança é que as reflexões que trouxe neste trabalho despertem dúvidas, controvérsias e oposições. Ainda sabemos muito pouco sobre fenômenos tão complexos como aqueles com que a psicose nos defronta. E, para que ocorra fertilização e desenvolvimento, tanto no plano biológico, como no mental, a diferença é essencial.

SUMMARY

PSYCHOANALYSIS AND PSYCHOTIC BREAKDOWN: CONSIDERATIONS ABOUT TECHNICAL ASPECTS

The paper aims to discuss technical aspects in psychotic patients’ psychoanalysis, mainly in a breakdown. At first, some vicissitudes of the analytic double facing the psychotic cataclysm are described. Some necessary characteristics of the analyst’s mind are emphasized, which allow it to be receptive to the invasion of mental wreckage, experiencing them, so as to rebuild them. The interaction between catastrophe and the analyst’s mind leads to some controversial technical problems. The following are discussed: 1) The “ necessary impasse”, a situation in which psychoanalysis wouldn’t be able to handle the process, and would have to rely upon other areas of knowledge. We demonstrate the usefulness as a tool for getting deeper into the analysis in the future. 2) The “ intuitive perception”, a communication between minds without mediation, which allows a deep contact between the analytic double. 3) The analyst’s real person, where is proposed that each analyst has its own “ way of being”, something that goes beyond his/her personal analysis. That “ way of being” can make the contact with certain patients more difficult or easy. We also call the attention to the need of the analyst take care of his own mind.
The paper is concluded by the description of current psychoanalysis’ characteristics, giving more emphasis on the double freedom, spontaneity and creativity, to the detriment of the hardening of the technique, which usually leads to forced theoretical fittings and to the devitalization of the process


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Notas



1Trabalho para discussão no Painel “Patologias Graves”, do Congresso Brasileiro de Psicanálise, 1999, Rio de Janeiro. Versão modificada de “Psicanálise do surto psicótico e surto psicótico durante o processo analítico” apresentado no II Encontro Latino-Americano sobre Patologias Graves e “Standing Conference on Psychosis - IPA”, promovido pela SBPRJ em junho 1998.


2Membro Efetivo e Didata da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo.


3Portanto, basicamente, não utilizo mudanças técnicas relevantes, ao lidar com esses pacientes.


4Aqui se espelham idéias como as “campo”, desenvolvida por vários autores, e o conceito de “terceiro analítico” de OGDEN (1994)


5Uma revisão inestimável sobre a evolução do trabalho com psicóticos pode ser encontrada em ROSENFELD (1988). Infelizmente não são resenhados valiosos colegas brasileiros e latino-americanos, devido a nosso isolamento ou por serem posteriores. O Caderno do Departamento de Investigação Psicanalítica das Psicoses, da SBPRJ, vem se constituindo numa fonte oportuna, onde eles estão sendo retomados por colegas que vêm se dedicando ao tema.


6O conceito, mais amplo, de objeto enlouquecedor é de BADARACCO (1985)


7O aspecto levantado nos remete ao controvertido conceito de “ acting-out” ou atuação. O psicótico se comunica basicamente dessa forma, os elementos sendo “atuados” na relação analítica (através de descargas em atos ou palavras), já que o paciente não tem condições de pensá-los (elementos beta para BION, 1962). Acredito, como tantos outros, que se trata de um meio de comunicação de fenômenos mentais que podem tanto atrapalhar como auxiliar o processo analítico, uma das formas como a transferência se manifesta. Devido ao uso pejorativo e à extensão do termo para situações extra-analíticas, tem se perdido o componente produtivo do fenômeno, o que mais nos importa.


8KENNEDY (1990) enfatiza o aborrecimento do analista e a sensação de morte do processo. Não chama a atenção para o medo e situação de ameaça sentidos pelo profissional. Penso que o aborrecimento e sonolência, podem ser formações reativas, ou cisões, utilizadas para não entrar em contato com o cataclismo que se aproxima.


9Chamo suporte à capacidade do analista e da equipe de saúde de proporcionarem ao paciente um ambiente acolhedor para seus terrores, não se deixando atemorizar, aceitando o paciente da forma que ele pode ser e podendo transmitir confiança, segurança e esperança. Os conceitos winnicottianos de “holding” e “ handling” se superpõem ao que estou descrevendo.


10FERRO (1995) escreve: “se a decodificação de significado pode ter (ou ter tido) sentido para as partes neuróticas da personalidade, para aquelas partes psicóticas, é somente uma real operação de alfabetização que permite a transformação”. “Alfabetização”(tornar elementos beta em alfa) implica em transformação de identificações projetivas maciças do paciente pela mente do analista (continência), acompanhando os movimentos emocionais e relacionais do par. O autor citado, como vemos, valoriza pouco o conteúdo verbal decodificador, parecendo que o considera como algo intelectualizado. Acredito, entretanto, que interpretações decodificadoras de significado, se cumprem as condições acima (e, isso dependerá da forma e “ timing”), também “alfabetizam”, porque necessariamente devem embutir elementos afetivos e relacionais, resultantes da capacidade de continência.


11Quanto aos sentimentos do analista, WINNICOTT (1949) assinalou, paradigmaticamente: “Se o paciente busca um ódio justificado ou objetivo, ele deve consegui-lo, caso contrário não conseguirá sentir que pode alcançar um amor objetivo”. Para tal, é imprescindível que o analista tenha liberdade interior suficiente.


12. Pode-se divergir das soluções propostas e da definição de “impasse necessário”. Não discordaria da afirmação de que apenas se efetuaram modificações técnicas, tentando-se não perder a visão analítica. No entanto, penso que a constatação clara do que está ocorrendo, com nomeação adequada, impede que o analista confunda funções e papéis, não diferenciando procedimentos analíticos de não analíticos ou mesmo anti-analíticos, face à indiscriminação, produto dos aspectos psicóticos em jogo. Penso que o analista deve sentir-se livre para usar qualquer procedimento (mesmo não analítico), se sua experiência mostrar que isso lhe é útil, mas ele deve saber nomear e conceituar o que está fazendo.


13 Deixei de lado, propositalmente, as diferenças entre psicanálise e psicoterapia psicanalítica, assunto também controvertido. Proponho, indo contra as correntes preponderantes, que não existem diferenças entre elas, quando retiramos da chamada psicoterapia analítica procedimentos não analíticos, tais como aconselhamento, sugestão, persuasão, medicação, etc., além de objetivos pré-determinados. Os procedimentos da psicanálise, por outro lado, têm sido enriquecidos por novas vertentes teóricas que possibilitaram sua ampliação. Dessa forma, penso que existiriam, sim, várias formas de ser psicanalista (ou psicoterapeuta) e diferentes graus de profundidade alcançados pela dupla, decorrentes da forma peculiar como ela se constitui e trabalha.


14 Dramatização e encenação são traduções, não totalmente satisfatórias, do inglês “ enactment”, palavra cuja definição ainda é controvertida. Para alguns (McLAUGHLIN, 1991) o termo passou a substituir “ acting-out” devido a sua confusão conceitual e aspecto pejorativo. Atualmente, tende a chamar-se “ enactment” a comportamentos que envolvem ambos os membros da dupla analítica, por vezes encenando-se situações traumáticas do passado.
Para desfazer a confusão terminológica, ousaria propor o uso do termo “ enactment” para aqueles processos que predispõem a ganho para o processo analítico, mantendo “ acting-out” (expandido para a reação do parceiro, “duplo acting-out”) para as situações que levam a dificuldades e impasses (já que seu sentido pejorativo tornou-se predominante). Evidentemente, nem sempre será fácil separar os dois aspectos, que têm a mesma origem: repetição ou externalização de elementos não simbolizáveis.


15. FREUD (1937) já nos adiantantava que dentre os fatores que influem sobre o tratamento analítico, podendo dificultá-lo, devem considerar-se também as características de personalidade do analista. Ora, se elas podem atrapalhar o processo, com certeza, também, poderão auxiliá-lo.


16 ROSENFELD (1987) nos mostra que cada analista é diferente e trabalha de modo diferente (p. 66). Por outro lado, o paciente “também fica conhecendo a psique e a memória do analista (...). O estado de espírito do analista, sua capacidade de funcionar bem, é um fator terapêutico essencial na terapia psicanalítica...”(p. 63). E, no final do livro (p. 316), admite que as mudanças na abordagem terapêutica dos psicóticos foram influenciadas não só pelas concepções teóricas, mas por fatores na personalidade dos analistas.


17 Dr. Luiz Meyer


18 Valorizo também lembranças e fantasias sobre o passado, externalizações do mundo interno, e “construções em análise”, aspectos que devem ser visualizados ou explicitados em função do “aqui e agora” relacional.

Nazismo e contemporaneidade


A Revista IHU-On Line dedicou seu último numero (IHU-On Line, n. 265) à análise do Nazismo. Sob o título "Nazismo: a legitimação da irracionalidade e da barbárie", a revista traz uma série de entrevistas exclusivas com diversos intelecttuais brasileiros e estrangeiros, enfatizando a abordagem filosófica e psicanalítica do fascismo alemão.


Coletei alguns trechos - selecionando passagens das entrevistas concedidas por Ricardo Timm, Michel Stürmer, Vladimir Safatle, Saul Kirschbaum e Mário Fleig - sobretudo por trazerem à luz aspectos que se relacionam de perto com a realidade contemporânea (a aproximação da "esquerda" com a "extrema-direita", o discurso exclusivista e politicamente correto porém essencialmente intolerante etc).






I) Ricardo Timm (1)



IHU On-Line - Como a marca do ódio do homem contra o homem deixada pelo nazismo perpassa e inspira Lévinas a construir um sistema em que a Ética e alteridade são os pilares principais? Podemos falar numa ética da diferença? O que seria ela?

Ricardo Timm -
A Ética da Alteridade - que, em sentido lato, é uma ética das diferenças, assim mesmo, no plural - se constitui essencialmente em uma resposta à violência contra a vida e a Alteridade, o Outro, que não apenas o Nazismo significou de modo eminente, mas que todos os sistemas opressores da humanidade (e mesmo dos animais e da natureza em geral) vêm significando ao longo dos séculos. Consiste essencialmente em mostrar que a ética não é subsidiária de nenhum conhecimento ou saber prévio, mas condição vital-temporal de todo saber e conhecimento, ou seja, prima philosophia. Observe-se que Lévinas não “nega” o Ser; para Lévinas, o Ser é o lugar, o espaço onde o encontro com o Outro e a responsabilidade por ele se devem dar na construção do sentido humano-ecológico.

IHU On-Line - Filosoficamente, que outros autores, além de Lévinas, construíram respostas ao horror nazista?

Ricardo Timm -
É difícil conceber que algum filosófo que tenha vivenciado diretamente ou indiretamente o horror nazista não tenha sido influenciado por este acontecimento maior na história contemporânea, mas, se algum filósofo não o foi, eu duvido muito que permaneça merecendo essa designação de “filósofo”. Assim, a totalidade dos grandes pensadores que vivenciou o período foi obrigado a sobreviver a este trauma radical. Todavia, eu destacaria nesse universo um pensador em particular - Theodor W. Adorno - que elabora, a partir da crítica filosófica a um tal estado de coisas e em articulação com um diagnóstico interdisciplinar extremamente sofisticado da sociedade e cultura contemporâneas, um modelo de pensamento que propõe alternativas sólidas à violência que Auschwitz e tudo que se lhe assemelha significa. Temos em Adorno a fundamental reconfiguração do imperativo categórico da tradição: para ele, é imperativo “impedir que Auschwitz se repita”.


IHU On-Line - A Filosofia mudou depois de Auschwitz? Em que aspectos?


Ricardo Timm -
Definitivamente, se quiser merecer continuar sendo chamada de Filosofia. A Filosofia é obrigada, pelo horror e pelo imperativo de sua evitação, a se encontrar com seus fundamentos éticos de sentido. O problema não é mais questionar pelo Ser, mas questionar pelo sentido que o Ser deve assumir na construção de um mundo em que “Auschwitz” não tenha lugar.


IHU On-Line - Hitler dizia ter lido, entre outros, Hegel e Nietzsche, além de se declarar um wagneriano convicto. Em que medida Hitler compreendeu e distorceu o pensamento desses filósofos e compositor?

Ricardo Timm -
Nem Hegel, nem Nietzsche, nem mesmo o polêmico Wagner permitiriam, apenas pela leitura de suas obras ou de parte delas, inferências tão baixas que sustentassem uma doutrina do teor do nazismo. Outra questão é saber se nesses pensadores - Wagner incluído - não se encontram elementos da grande tradição logocêntrica ocidental que permitiram, por alguma metamorfose doentia, alguns aspectos daquilo que se pode ler como uma certa base “filosófica” de aspectos da doutrina nazista.


IHU On-Line - De que forma o agir político de Hitler se entrelaçou com a filosofia de pensadores como Heidegger e Carl Schmitt ?

Ricardo Timm -
Carl Schmitt é um pensador singular, essencial para a compreensão da filosofia política contemporânea independentemente de seu viés político explícito. Todavia, ao meu ver, permanece, apesar de tudo, um pensador, ou seja, alguém capaz de dialogar até mesmo com um Walter Benjamin. Há que saber distinguir o que, de Schmitt, nos dá hoje o que pensar. Já o caso de Heidegger me parece bem mais complicado; não é segredo para ninguém que ele, durante certo período crítico, abraçou o nacional-socialismo, havendo perdido posteriormente várias chances de se retratar. De qualquer forma, é possível - e tem sido realizada, especialmente na Alemanha, mas não apenas lá - uma exegese de seus textos que indiciam que sua proximidade com o referido ideário era mais intenso, até mesmo visceral, em relação ao que se depreende apenas, por exemplo, da leitura do “Discurso do reitorado”.

IHU On-Line - Como podemos entender que, em pleno século XX, e com amplo apoio da população alemã e de outras partes do mundo, se chegou ao terror nazista?

Ricardo Timm -
Através de uma rigorosa arqueologia da razão ocidental. Pensadores como os filósofos da Escola de Frankfurt, Derrida e Lévinas, entre outros, nos mostram que estranho seria se o caminho que vai “da funda à bomba atômica”, no dizer dos frankfurtianos, não fosse trilhado, uma vez que a obsessão pelo ser e o desprezo pela temporalidade confluem necessariamente em um delírio ontológico-instrumental no qual a ética como realidade propriamente dita não tem, ou apenas tem dificilmente lugar.

IHU On-Line - Na Alemanha e no mundo atual, há espaço para esse tipo de político ditador? As pessoas, em pleno século XXI, apoiariam uma política como aquela?

Ricardo Timm -
As condições permanecem. Devemos perder a ingenuidade e entender que a crença em uma idéia linear de “progresso moral” não se justifica nem historicamente, nem filosófica, política ou sociologicamente. Enquanto a racionalidade instrumental permanecer ditando as regras maiores do mundo, como hoje o faz sob a forma capitalista, na transformação da qualidade em quantidade pela anulação das diferenças, da Alteridade, nada nos garante que as massas não venham a aderir ao suicídio coletivo que significam doutrinas aberrantes em relação à vitalidade e à saúde dos seres humanos individuais, das comunidades e dos ecossistemas.


II) Michel Stürmer (2)



IHU On-Line – Qual era a situação dos partidos de direita e esquerda no período entre as guerras? De que modo esta situação política contribuiu para o advento do nacional-socialismo?

Michael Stürmer -
A República de Weimar foi uma civitas sitiada, desde o início, de ambos os lados: a guerra civil da esquerda, que no início foi forte, e a da direita, que no final venceu. Mas o nacional-socialismo é ambas as coisas: direita e esquerda – isto não se pode esquecer, caso se queira explicar o seu êxito.


IHU On-Line –Quais foram as influências intelectuais de Hitler? Até que ponto ele realmente entendeu os autores que ele afirma ter lido? Na mesma entrevista ao La Repubblica, o senhor considera que “o completo niilismo de sua vontade de poder não foi levado a sério”.

Michael Stürmer -
Hitler foi leitor compulsivo e autodidata. Mas, sobretudo um possuído pelo poder. Somente uma edição crítica de seu Mein kampf poderá dar informação mais exata a essa pergunta.


IHU On-Line – Alguns autores afirmam que o fenômeno do nazismo não seria uma anomalia social ou uma patologia cultural, mas uma síntese do pensamento reacionário europeu. Qual é seu ponto de vista?

Michael Stürmer -
Sobre isto, dou duas respostas. Quem se prepara para a guerra de ontem, vencerá a de amanhã. Mas a radical combinação de esquerda-direita, impulsionada pela crise social e de recursos, pode retornar e já é observável em alguns lugares. Os humanos aprendem pouco.

IHU On-Line – Na Alemanha e no mundo atual, ainda há lugar para tal tipo de ditador político? As pessoas que vivem em pleno século XXI ainda apoiariam tal política?

Michael Stürmer -
Não. As tentações são sempre diferentes, sempre novas. O estado do bem-estar torna todos nós imaturos. A história é mais rica em suas variações do que em deixar-se influenciar por pura repetição. Hoje em dia, as tiranias chegam via Tecnologia de Informação, via estado do bem-estar, estado econômico etc. Como poderia você acreditar que o nível de moral ou de sabedoria seria hoje mais alto do que nos anos 1970, 1980?

IHU On-Line – Que razões explicam a maciça adesão da juventude à proposta de Hitler?

Michael Stürmer - Juventude é embriaguez sem vinho. A capacidade de sedução é enorme. O desejo do parricídio também.

IHU On-Line –
Após 75 anos desde a ascensão de Hitler ao poder, como os alemães lidam com o passado?

Michael Stürmer - Sempre falar disso, jamais pensar nisso.

III) Vladimir Safatle (3)

IHU On-Line -
Nesse aspecto, o Iluminismo seria a exacerbação do logos e o ocaso definitivo de nossos aspectos dionisíacos, nietzschianamente falando? O homem se transformou num ressentido, num rato de subsolo (como dizia Dostoiévski ) que se compraz em arquitetar o mal, deixando de lado sua “crueldade inocente”?

Vladimir Safatle - Na verdade, tenho uma certa dificuldade em entender o que pode significar “o mal” neste contexto. Não creio que ele seja realmente um conceito ou um princípio que funda uma certa lógica própria da ação. Normalmente, dizemos que o mal está vinculado ao prazer de fazer o outro sofrer e de destruí-lo. Não seria difícil mostrar que este não é um prazer que funda um modo de conduta, mas é uma espécie de prazer derivado da hipóstase de princípios de auto-conservação. Mais aterrador não é o prazer de destruir o outro, mas a destruição do outro sem prazer, feita a partir de um formalismo levado às últimas conseqüências, um pouco como aquela máquina de “Na colônia penal”, de Kafka, que de tanto escrever a Lei no corpo dos condenados acaba por mutilá-los “em nome da Lei”.

IHU On-Line - O homem contemporâneo é suscetível de se deixar levar por outros ditadores como Hitler?

Vladimir Safatle -
Há um aspecto do fascismo que acabamos por esquecer. No entanto, ele é para mim o mais aterrador. Tendemos a acreditar que o fascismo era uma ditadura no velho estilo Law and Order. No entanto, ele era uma situação social onde, no fundo, ninguém acreditava na ideologia bricolada e inconsistente dos líderes. Na verdade, encenava-se a crença, agia-se como se todos acreditavam. Esta era a única maneira do sistema funcionar.
Pensando nisto, peguem alguém como Silvio Berlusconi. Trata-se de um caso extremamente interessante. Primeiro porque, do ponto de vista econômico, a Itália votou contra seus próprios interesses. Desde que Berlusconi subiu ao poder, a Itália estagnou. Meios de comunicação conservadores como The Economist e Financial Times fizeram campanha contra ele devido a sua mais completa inépcia econômica. No entanto, ele ganhou pela terceira vez, mas agora com um discurso francamente racista e xenófobo.

O que é interessante em seu caso é como sua figura de fora-da-lei notório, misto de malandro boa praça e mafioso empresarial, acaba por encarnar o desconforto e a ira da maioria contra uma Lei que, até agora, foi apenas a vontade do mais forte. Berlusconi representa a revolta contra a Lei social. No entanto, esta revolta está agora associada a demandas de “segurança”, que a suspensão pura e simples da Lei não traria. Por isto, pedimos ao fora-da-lei que, ao mesmo tempo, suspendam e cumpram a Lei com dureza. Cumpram não contra nós, mas contra os outros, contra estes invasores, parasitas, estes que não gozam como nós, sejam eles os judeus de ontem ou os árabes de hoje. Tanto faz quem ocupa o lugar dos que representam a insegurança contra o Todo social.
Berlusconi é a melhor figura do totalitarismo: alguém que mistura, de um lado, o sorriso maroto da criança que não quer se submeter à Lei e que, com isto, ganha a simpatia destes para quem a Lei tem gosto de opressão e que traz na sua mão o porrete implacável da polícia que não se deixa enganar pela ingenuidade destes que são complacentes com a insegurança e com os que burlam a lei de imigração. Um criminoso duro contra o crime. Alguém que não pede para acreditarmos nele, mas para apenas fingir que acreditemos nele.

IV) Saul Kirschbaum (4)

IHU On-Line - Em Mein kampf, Hitler afirma ter lido Hegel e Nietzsche, além de se declarar um admirador de Wagner. Em que medida Hitler compreendeu e distorceu o pensamento desses filósofos e compositor?

Saul Kirschbaum -
A idéia de “distorcer” conota uma intencionalidade perversa. Por outro lado, qualquer texto é suscetível de múltiplas leituras, dependendo da ótica do leitor. Certamente, não se pode afirmar que Hegel e Nietzsche tenham sido nazistas, ou proto-nazistas, ou mesmo simpatizantes do nazismo (ao contrário de Wagner, cuja recuperação e interpretação dos mitos germânicos foi instrumental para a elaboração do ideário nazista, e por quem a admiração de Hitler era notória). Mas, se o nazismo, o totalitarismo, a barbárie, são possibilidades concretas, apesar de extremas, da Civilização Ocidental, então deve ser possível encontrar aspectos que corroborem essas possibilidades em muitos pensadores. Neste sentido, talvez Hitler não tenha, propriamente, distorcido o pensamento dos filósofos, mas apenas compreendido em uma dimensão que nos aterroriza; para nos tranqüilizarmos, precisamos pensar que ele distorceu.

IHU On-Line - Além do extermínio físico, os nazistas promoveram um verdadeiro extermínio moral por onde passaram. De que forma a mentalidade nazista pôde ser aceita numa Europa evoluída? Por que as pessoas não se levantaram contra esse totalitarismo?

Saul Kirschbaum -
O extermínio físico somente foi possível por ter sido precedido pelo extermínio moral. Os judeus, ciganos, homossexuais, foram primeiro desumanizados, desindividualizados, rebaixados a números, condenados à exclusão pelo fato mesmo de pertencerem a um determinado grupo. O regime, totalitário, se encarregou de criar uma imensa burocracia, recrutada e treinada para suprimir quaisquer considerações éticas a respeito das tarefas recebidas. Uma gigantesca máquina de propaganda recebeu a atribuição de convencer a população de que as dificuldades vividas pela Alemanha eram conseqüência da presença maléfica dos grupos que estavam sendo excluídos, pois impediam a caminhada da Alemanha rumo ao seu futuro glorioso, de outra forma garantido pela supremacia racial dos alemães; ao mesmo tempo, a prática da brutalidade contra os adversários do regime, do fato consumado, espalhou o terror, impedindo que as pessoas se levantassem. Muitos intelectuais, reduzidos à impotência, optaram por emigrar.

IHU On-Line - O nazismo é uma expressão da pós-modernidade ou é sua própria essência, representando a falência de valores e o niilismo moral?

Saul Kirschbaum -
É necessário um consenso prévio sobre o significado da expressão “pós-modernidade”. Se a entendermos como a constatação do fracasso dos “ismos” do século XIX (comunismo, socialismo, liberalismo, positivismo), que prometiam um futuro jubiloso de progresso material permanente e a conseqüente melhoria moral da humanidade, então, sim, o nazismo é a própria essência da pós-modernidade, é a expressão máxima dessa aterradora e sempre presente possibilidade da Civilização Ocidental, a irrupção da barbárie; é a possibilidade do Campo de Concentração em escala internacional.

IHU On-Line - Como a marca do ódio do homem contra o homem deixada pelo nazismo perpassa e inspira Lévinas a construir um sistema em que a Ética e alteridade são os pilares principais?

Saul Kirschbaum -
O ponto de partida da reflexão levinasiana é que a primazia da liberdade do sujeito, constitutiva da ontologia ocidental, serve de suporte para a postulação da plena realização do Eu. O Outro se apresenta, então, como um obstáculo ao desenvolvimento do Eu em todo o seu potencial, e deve, por isso, ser suprimido. A liberdade é assassina, e a relação entre os homens é marcada pelo ódio. Esta reflexão inspira Lévinas a propor “a ética como filosofia primeira”, e a infinita responsabilidade pelo Outro em lugar da primazia do Eu.

IHU On-Line - Em que aspectos o pensamento de Lévinas é uma resposta e uma contraposição à filosofia nazista? A dominação do Ser na filosofia ocidental cede espaço ao Outro na filosofia Lévinasiana?

Saul Kirschbaum -
Lévinas já havia percebido, em seu ensaio de 1934, “Quelques réflexions sur la philosophie de l’hitlérisme”, que “a filosofia do hitlerismo [...] põe em questão os próprios princípios de uma civilização”. Como assinalou Miguel Abensour, no ensaio que acompanha aquela obra, “[t]rata-se de uma civilização, ou antes de uma anti-civilização instalada na brutalidade do fato de ser, na brutalidade do fato consumado. [...] Daí a advertência final de Lévinas em De l’évasion: ‘Toda civilização que aceita o ser, o desespero trágico que ele comporta e os crimes que ele justifica, merece o nome de bárbara’” [traduções minhas]. A grande lição do nazismo, a barreira moral até então intransponível que ele derruba para a Civilização Ocidental, é a demonstração prática de que é possível matar milhões de pessoas, bastando, para isso, que elas sejam previamente desumanizadas, privadas de seus direitos mais elementares. A constatação de que essas possibilidades extremas residem na aceitação do Ser (e, conseqüentemente, na desumanização do Outro, reduzido a corpo “matável”) tem como decorrência, para Lévinas, que somente uma filosofia baseada na infinita responsabilidade pelo Outro, no pleno reconhecimento de sua alteridade, será capaz de se opor à barbárie.

V) Mário Fleig (5)

IHU On-Line - É possível afirmarmos que no nazismo a perversidade se converteu na norma?

Mário Fleig -
A norma no nazismo estaria, penso eu, na negação de qualquer diferença, a começar pela afirmação de uma única raça pura, e a proposta de um único Reich para toda a humanidade. A norma, nesse caso, é a afirmação constante de apenas e somente um Um. Isso que significa o sistema exacerbado, que tem a pretensão de conter tudo, inclusive a si mesmo. É a imanência plena e completa. Por isso é que a dimensão da alteridade não tem lugar em tal sistema e, em decorrência, desaparece o pensamento, se o considerarmos como a operação da diferença ou da polêmica, como já propunha Heráclito , por meio do polemos.

IHU On-Line - Como podemos entender que, enquanto algumas pessoas pensam no mal e não o executam, outras o concretizam em campos de extermínio, por exemplo? Somos todos um pouco perversos?

Mário Fleig -
Quando não conseguimos ver claramente um fato social, talvez seja porque, de algum modo, fazemos parte dele. Parece que assim se passa com a perversão, pois temos indícios de que o funcionamento social hoje certamente é muito mais regido pela perversão, isto é, a recusa em fazer da subjetividade daquele com quem lidamos o menor entrave ao exercício de um poder ou de um gozo, não importando o fato de que ele exista. O que importa é que ele realize sua tarefa e isso sem nenhum limite, sem nenhuma barreira, sem nenhuma fronteira. Esse tipo de dispositivo parece fazer parte de nossa organização social, ao ponto de que não sabemos muito bem de que modo estamos imerso na perversão. Ou seja, os funcionamentos perversos tende a passar por normais e o questionamento que alguém possa levantar é visto como inconveniente. O império do politicamente correto, que estaria dentro da lógica da perversão comum que perpassa nossa cultura, determina que qualquer discordância àquilo que é suposto aprovado pelo consenso seja mal visto e reprovado.
Querer fazer o mal parece algo inerente à condição humana. Precisaríamos nos perguntar o que produz o ódio ao outro e qual é o futuro de nosso futuro do ódio. A partir disso, por que os modos de recalcamento do ódio têm sido tão ineficientes na contemporaneidade?

IHU On-Line - Como caracterizaria o tipo psicológico de Hitler?

Mário Fleig -
Não creio que seja algo produtivo fazer a psicologia de figuras públicas, ainda menos de Hitler. Penso que seja mais produtivo prestar atenção ao que se manifesta no discurso. Ressalto um elemento no caso de Hitler, que contraria a hipótese de se tratar alguém situado na perversão: a insistência em ocupar o lugar de exceção em nome próprio. Sabemos que o perverso tende a agir sempre fazendo uso do outro, especialmente de seu nome. O célebre “Burlador de Sevilha”, de Tirso de Molina, o Don Juan, costumava realizar suas conquista se apresentando no lugar e em nome de outro. Não é o caso deste senhor que exigia que todos declarassem incessantemente: Heil Hitler.

IHU On-Line - Como é possível compreender a adesão dos intelectuais ao nacional-socialismo? Nesse contexto, como se situa Heidegger e sua filosofia?

Mário Fleig -
Acredito que uma posição intelectual não implica necessariamente uma proteção contra o totalitarismo, a segregação e a maldade. Os intelectuais estão tão sujeitos a serem seduzidos pelas promessas perversas e paranóicas quanto o homem comum. Heidegger certamente não soube identificar os sinais de maldade que já se descortinava na proposta política nazista. Por que não conseguiu ou por que caiu na sedução que lhe prometia uma radical renovação da universidade? É uma pergunta que teria de buscar respostas dentro do pensamento do filósofo, assim como examinar a oposição à ideologia nazista posterior à renúncia ao posto de reitor da Universidade de Freiburg. Poderíamos levantar a hipótese de que o pensamento veiculado em sua obra principal Ser e tempo (1927) estava excessivamente centrado na perspectiva da subjetividade, sem suporte para a crítica dos fenômenos sociais. É após sua renúncia ao lugar político dentro da administração nazista que Heidegger inicia a elaboração dos fundamentos da crítica ao império da técnica e ao discurso objetivante calcado na raça. Não concordo com seus críticos que fazem uma equiparação injustificada entre sua filosofia e o nazismo. Bem pelo contrário, se Heidegger tivesse se ancorado de modo mais firme do que já fizera em seu antecessor, Kierkegaard, propulsor incansável do valor do indivíduo contra o sistema, talvez não tivesse se enleado tão desastrosamente na teia paranóica nazista. Sugiro, para esse debate atual, a lúcida discussão de vários colegas franceses em Heidegger, à plus forte raison (Paris: Fayard, 2007).


Notas

(1)
Timm é graduado em Instrumentos, pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), em Estudos Sociais e Filosofia, pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS). Também cursou o mestrado em Filosofia, pela mesma universidade, e doutorado em Filosofia, pela Universität Freiburg (Albert-Ludwigs) com a tese Wenn das Unendliche in die Welt des Subjekts und der Geschichte einfällt - Ein metaphänomenologischer Versuch über das ethische Unendliche bei Emmanuel Lévinas. Escreveu inúmeros livros, entre eles, Sujeito, Ética e História - Lévinas, o traumatismo infinito e a crítica da filosofia ocidental (Porto Alegre: EDIPUCRS, 1999), A condição humana no pensamento filosófico contemporâneo (Porto Alegre: EDIPUCRS, 2004) e Em torno à diferença - Aventuras da alteridade na complexidade da cultura contemporânea (Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2007). É também um dos organizadores de Alteridade e Ética - Obra comemorativa dos 100 anos do nascimento de Emmanuel Lévinas (Porto Alegre: EDIPUCRS, 2008).


(2)
Desde 1973, Stürmer é professor adjunto de estudos europeus e professor emérito de história medieval e moderna da Universidade Friedrich-Alexander, Erlangen-Nürnberg. Estudou História, Filosofia e Línguas na London School of Economics e Ciências Políticas na Universidade Livre de Berlim e na Universidade de Marburg. Foi conselheiro político do chanceler Helmut Kohl nos anos 1980. Desde 1989, é diretor de redação do jornal alemão Die Welt. Escreveu, entre outros, Bismarck und die preussisch-deutsche Politik, 1871-1890 (München: Deutscher Taschenbuch-Verlag, 1970), Die Reichsgründung: deutscher Nationalstaat und europäisches Gleichgewicht im Zeitalter Bismarcks (München: Deutscher Taschenbuch Verlag, 1984) e The German Empire, 1870-1918 (New York : Random House, 2000).


(3)
Graduado em Filosofia pela Universidade de São Paulo (USP) e em Comunicação Social, pela Escola Superior de Propaganda e Marketing, Vladimir Safatle é mestre em Filosofia, pela Universidade de São Paulo, e doutor em Lieux et transformations de la philosophie, pela Université de Paris VIII, com a tese La passion du négatif: modes de subjectivation et dialectique dans la clinique lacanienne. Professor da USP, atualmente desenvolve pesquisas nas áreas de epistemologia da psicanálise, desdobramentos da tradição dialética hegeliana na Filosofia do século XX e Filosofia da Música. É um dos coordenadores da International Society of Psychoanalysis and Philosophy.


(4)
Kirschbaum é graduado em Engenharia Elétrica, pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), especialista em Administração, pela Fundação Getúlio Vargas São Paulo (FGV-SP), e mestre e doutor em Língua Hebraica, Literatura e Cultura Judaica, pela Universidade de São Paulo. Sua tese intitulou-se Ética e literatura na obra de Samuel Rawet. Autor de inúmeros artigos e capítulos de livros é um dos organizadores de Dez Ensaios para Samuel Rawet (Brasília: LGE Editora, 2007


(5)
O psicanalista e filósofo Mário Fleig é professor do curso de pós-graduação em Filosofia da Unisinos e membro da Associação Lacaniana Internacional. Graduado em Psicologia pela Unisinos e em Filosofia pela Faculdade de Filosofia Nossa Senhora Medianeira, é mestre em Filosofia, pela UFRGS, doutor em Filosofia, pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), e pós-doutor em Ética e Psicanálise, pela Université de Paris XIII (Paris-Nord), França.

segunda-feira, 21 de julho de 2008

Site: Polar Inertia


Um site bem interessante. É uma espécie de guia visual das manifestações residuais que a vanguarda pós-moderna deixou para trás em todo o mundo. Sem descuidar do texto, essa revista fotográfica contem matérias sobre diferentes "zonas de fronteiras", liminaridades coletivas. Há, por exemplo, matérias sobre uma "cidade nômade" espanhola, ou sobre bases secretas norte-americanas, sobre grafites em zonas de guerra, bunkers abandonados e reaproveitados e diversas outras instalações e manifestações urbanas, antigas ou ultra-modernas.
Uma espécie de coleção fotográfica do delírio paraníoco-consumista pós-moderno.


Merece uma visita o Arquivo da Revista em: http://www.polarinertia.com/archives.htm.



Endereço do site: http://www.polarinertia.com/

Burocratização, neo-fascismo e estado policial no Brasil



Fascismo. Moralismo faz a política ficar de fora da discussão.


Entrevista especial com Luiz Werneck Vianna






Ao analisar os recentes episódios de corrupção no Brasil, a partir da prisão (ou da tentativa de) do banqueiro Daniel Dantas, o professor Luiz Werneck Vianna, do Iuperj, em entrevista concedida por telefone à IHU On-Line, identifica apenas “o capitalismo operando”. Para ele, o mal não está em figuras como a de Dantas ou de Eike Batista, “como se a sociedade fosse melhorar se nos livrássemos delas”. Ele garante: “Não vai melhorar. A sociedade vai melhorar se organizando em torno das suas questões centrais”, que são, na sua opinião, o crescimento econômico, a reforma agrária e a democratização da propriedade. O pesquisador acredita que “os piores instintos da sociedade estão sendo suscitados com tudo isso”. E que a solução virá “com mais política”. “O que constatamos, ao longo desse episódio, é que a política recua. Não há política. Está faltando sociedade organizada, reflexiva. A política está reduzida ao noticiário policial”, explica.

Werneck Vianna é professor pesquisador do Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (Iuperj). Doutor em Sociologia pela Universidade de São Paulo, é autor de, entre outros, A revolução passiva: iberismo e americanismo no Brasil (Rio de Janeiro: Revan, 1997), A judicialização da política e das relações sociais no Brasil (Rio de Janeiro: Revan, 1999) e Democracia e os três poderes no Brasil (Belo Horizonte: UFMG, 2002).

Confira a entrevista.

IHU On-Line - Personagens como Daniel Dantas e Eike Batista avançaram sobre nacos importantes do patrimônio do Estado brasileiro. Quais foram as condições políticas e econômicas que permitiram o surgimento desses personagens?

Luiz Werneck Vianna –
O Brasil é um país capitalista. E esses são empresários audaciosos, jovens, e têm encontrado um terreno favorável a tratativas com o executivo no sentido de fazer negócios de interesse comum. E nisso ambos parecem que têm se complicado muito. No entanto, há uma zona de sombra que ainda precisa ser esclarecida. Meu problema em relação a tudo é essa sucessão de intervenções espetaculosas da Polícia Federal, a mobilização da mídia, do Ministério Público, do Judiciário e da opinião pública para esses fatos. As questões centrais não são essas. Com essa cortina espetacular, o mundo continua como dantes. Nada muda no que se refere à questão agrária, às políticas sociais. A população anda desanimada, desencantada. Além disso, o que aparece aqui, que é muito perigoso, é um espírito salvacionista. Há um “Batman institucional” atuando sobre a nossa realidade. Esse “Batman” é a Polícia Federal associada ao Ministério Público. Há elementos muito perigosos aí, de índole messiânica, salvacionista, apolítica, que podem indicar a emergência de uma cultura política fascista entre nós. Todos esses escândalos e espetáculos atraem a opinião pública como se dependesse da salvação de todos apurar os negócios do Eike Batista e do Daniel Dantas. Não depende, isso é mentira! Com isso, se mobiliza a classe média para um moralismo que não pára de se manifestar. A política cai fora do espaço de discussão. Enquanto isso, aparecem dois personagens institucionais, ambos vinculados ao Estado: o Ministério Público e a Polícia Federal. Este caminho é perigoso, e a sociedade não reage a ele faz tempo. A cultura do fascismo pode se manifestar com traços mais bem definidos, a partir da idéia de que nosso inimigo é a corrupção, especialmente aquela praticada pelas elites. Então, a sociedade acha que se resolve esse problema colocando a elite branca na cadeia. Desse modo, o país viveria numa sociedade justa. Não vai, mentira!

IHU On-Line – O que o senhor considera como as questões centrais na sociedade brasileira, que devem ser discutidas com mais ênfase?

Luiz Werneck Vianna –
O tema do crescimento econômico, da reforma agrária, da democratização da propriedade. Para isso ninguém mobiliza ninguém.

IHU On-Line - Pode-se afirmar que os anos dourados do neoliberalismo brasileiro produziram uma nova burguesia nacional da qual Daniel Dantas e Eike Batista são hoje personagens centrais? O que distingue essa nova burguesia da “velha burguesia nacional” do período desenvolvimentista?

Luiz Werneck Vianna –
Eike Batista não é um homem das finanças, e sim um homem da produção. O Daniel Dantas, não. Ele é um homem do setor financeiro. Este setor apresentou enormes possibilidades. Esses executivos do setor financeiro não têm 40 anos. Se examinarmos os currículos deles, veremos que são formados por boas universidades, com doutorado no exterior. Apareceu um novo mundo para esses setores médios e educados da população, especialmente os economistas. Se passa da posição de economista para a posição de banqueiro hoje muito facilmente.

IHU On-Line - Como o senhor interpreta essas relações aparentemente ambíguas que o banqueiro Dantas tinha, ao mesmo tempo, com o mercado financeiro internacional e os fundos de pensão do Estado do qual fazem parte sindicalistas? Acabou-se a velha contradição capital - trabalho?

Luiz Werneck Vianna –
Essa questão dos fundos previdenciários existe em toda a parte, não apenas no Brasil. E o controle disso tem sido em boa parte corporativo. Quem mexeu com a questão e falou no surgimento de uma nova classe foi o Francisco de Oliveira. Não sei se devemos concordar inteiramente com o que ele diz, mas, pelo menos, é uma alusão importante. O capital hoje tem uma outra forma de circular, e isso não ajuda o mundo sindical a se reorganizar. O que vemos é um sindicalismo inteiramente cooptado pelo Estado. Dantas jogou com as oportunidades que viu. Até agora, as únicas coisas concretas pelas quais ele pode ser pego são o suborno ao policial e seu problema com o Imposto de Renda. Esse é o capitalismo operando. Daqui a pouco vão querer “prender” o capitalismo. E não creio que isso esteja na intenção da Polícia Federal. O mal não está nessas figuras, como se a sociedade fosse melhorar se nos livrássemos delas. Não vai melhorar. A sociedade vai melhorar se organizando em torno das suas questões centrais.

IHU On-Line - O banqueiro Dantas estabeleceu uma rede de conexões políticas tecida ao longo de três governos – Collor, FHC e Lula. Como entender o poder de Daniel Dantas, sua capacidade de manipulação e envolvimento de tantas pessoas, de diferentes governos, nessa malha de corrupção?

Luiz Werneck Vianna –
Era necessário que nessa rede público-privada aparecessem personagens. Essa rede não podia se montar sem pessoas concretas. Dantas foi uma. O ponto da privatização estabeleceu um caminho para que esses homens encontrassem a sua oportunidade.

IHU On-Line - O senhor considera que o caso Dantas ameaça o conceito de República, ou se pode afirmar que efetivamente o Brasil nunca desfrutou do status de República?

Luiz Werneck Vianna –
Não ameaça nada. Esse é um affaire midiático, com cortinas de fumaça. Os piores instintos da sociedade estão sendo suscitados com tudo isso. Vejo as primeiras fumacinhas de uma síndrome fascista entre nós. E isso deve ser denunciado, combatido, e com política, com mais política. O que constatamos, ao longo desse episódio, é que a política recua. Está faltando sociedade organizada, reflexiva, e a política está reduzida ao noticiário policial.

IHU On-Line - Como o senhor analisa a postura do Supremo Tribunal Federal nesse caso? Como interpreta o comportamento do ministro Gilmar Mendes?

Luiz Werneck Vianna –
Interpreto bem. O papel da Suprema Corte é defender a Constituição, as liberdades individuais, e também não deixa de incorporar essa preocupação com o testemunho do espetacular que essas operações policiais manifestam. Uma outra questão vinculada a isso é a escuta telefônica. Estamos indo para um estado policial? E a sociedade aprende a apontar como culpado o “malvado” lá da ponta, responsável por todos os males, que, caso preso e execrado, vai fazer com que a sociedade melhore. Num ano eleitoral, tudo se discute, menos a política. Não podemos defender a idéia de que um grande inquérito, um grande processo pode resolver as máculas da nossa história, criar um novo tipo de um encaminhamento feliz para nós (e isso é feito pela polícia, pelos grampos telefônicos, pela repressão!). Isso não lembra a linguagem do regime militar, quando ele se impôs? De que o grande inimigo é a corrupção? Só que agora tudo está sendo feito numa escala nova, imensa, com um domínio total dos meios de comunicação. O próprio Congresso se tornou uma ampla comissão parlamentar de inquérito, apurando, investigando e não discutindo políticas e soluções para os problemas. Além do mais, temos um grupamento novo na sociedade: a Polícia Federal é nova. Ela foi extraída da classe média. Seu pessoal é concursado, bem formado, com curso superior. Seus integrantes estão autonomizados a ir para as ruas com esse sentimento messiânico, que aparece no relatório do delegado Protógenes, de que a Polícia pode salvar o mundo.

IHU On-Line - Qual é a sua opinião sobre o combate à corrupção no Brasil? Este episódio recente abre a possibilidade de mudanças?

Luiz Werneck Vianna –
Nesse processo, a ordem racional legal avança, se aprimora, se aperfeiçoa. No entanto, o que tento combater é uma visão salvadora, justiceira, messiânica do papel policial para a erradicação dos nossos males, como se não devesse haver nenhum impedimento entre a ação da polícia e a sociedade, como se não devêssemos ter habeas corpus, como se as pessoas pudessem ser presas, retiradas das suas casas nas primeiras horas da manhã, algemadas, e tudo isso passando por câmeras de televisão... Não creio que isso seja um indicador de democracia.

IHU On-Line - Que tipo de sentimento esse episódio provoca na população brasileira? Revolta, descrédito nas instituições?

Luiz Werneck Vianna –
Descrédito. E também aprofunda o fosso entre a sociedade e a política, mantém a sociedade fragmentada, isolada, esperando que a ação desses novos homens, dessas corporações novas, nos livre do mal. Talvez eu tenha dado muita ênfase à dimensão negativa de tudo isso, mas também vejo que esse processo pode ser corrigido se a ordem racional legal for defendida por recursos democráticos, sem violência, com respeito às leis, à dignidade da pessoa humana. É possível se avançar na ordem racional legal, investigando a corrupção, prendendo seus responsáveis, mas sem que isso assuma o caráter de escândalo, de espetáculo, no qual parece que temos um agente de salvação em defesa da sociedade. Isso sim é perigoso.

quinta-feira, 10 de julho de 2008

Blog Subtopia

Trata-se de um Blog pesado, com conteúdo forte. Um guia-denúncia sobre as diversas co-ações, de caráter fascista, que vêm sendo perpetradas ao redor do mundo.


Por ele, ficamos sabendo, por exemplo, que a Austrália transformou a Ilha Natal (Christmas Island) em uma mega-prisão destinada a encarcerar eventuais imigrantes oriundos principalmente da Indonésia. E, não apenas isso, que supostos agentes australianos invadem o território indonésio para praticar ações de sabotagem contra embarcações que possam ser eventualmente utilizadas para esse fim.


A esse respeito, segue abaixo um pequeno trecho dessa matéria (tradução livre):

"Enquanto a mídia e os céticos ficam dando voltas em torno do novo documentário de James Cameron sobre a possível descoberta do túmulo de Jesus de Nazaré, fui dar uma olhada em uma instalação de detenção em massa que está sendo erguida na Ilha Natal, bem na costa da Austrália.

(...)


"Desde 2005, o Departamento de Imigração da Austrália vem construindo um “Centro de Recepção e Processamento de Imigração”.

"A 2.400 KM de Perth, 360 KM de Jakarta e apenas 2000 KM de Darwin, este complexo prisional fica na extremidade da ilha, que é uma estreita faixa de 24 KM de comprimento por 7 KM de largura.

"Tenha em mente que sob as leis Australianas, é possível internar pessoas extra-judicialmente (sem julgamento ou condenação) e, desde 2004, fazê-lo indefinidamente.

"Detenção por imigração é, assim, uma questão meramente administrativa. Então, o que exatamente eles estão construindo ali ? (...) Trata-se de uma prisão “paraíso-tropical” de $ 396 milhões. Isso mesmo. Para aquilo que, segundo o governo, se destina a deter a imigração ilegal, é um complexo prisional “state of the art” de 800 lugares, com cercas elétricas, detectores de movimento, centenas de câmeras de vigilância e microfones ocultos nas árvores.

Ilha Natal / Christmas Island - vista por satélite


"O campo na Ilha Natal possui um sistema de TV a cabo ligado a uma sala de controle remoto para que os guardas em Canberra possam assistir aos detentos 24 hs. por dia. “Os detentos vestirão ID eletrônicos ou cartões, identificando-os onde quer que eles estejam.(...)"
"Além disso, para desenvolver esta ilha offshore-barreira contra a imigração, o governo australiano lançou seu navio de patrulha costeira, o Triton, apelidado de navio-prisão por seus críticos. Este "trimaran" de 98 metros tem a reputação de ser capaz de deter 30 pessoas por mais de um mês a bordo e é armado com duas metralhadoras."

Navio Triton


(Fonte e texto original completo em inglês em: http://subtopia.blogspot.com/2007/02/doing-time-on-christmas-island.html)

No Blog, há ainda interessantíssimas postagens acerca das muralhas que vêm sendo erguidas ao longo de diversas fronteiras ao redor do mundo - uma espécie de "Nova Idade Média" sem os laços de proteção religiosos e tradicionais daquele período - além, é claro, de instrutivas matérias sobre o exército privado que vem "administrando" o Iraque ocupado ("Blakwater"), como protótipo do novo modelo de guerra privada do século XXI.

Endereço do Blog: http://subtopia.blogspot.com/ (também ascessível pelo link "Sites Recomendados" ao lado).



quinta-feira, 3 de julho de 2008

Baixar arquivo na internet pode virar crime


Mais um capítulo da série: "Criminalizando o cotidiano"

Projeto de lei sobre crimes eletrônicos, ou cibercrimes, em tramitação adiantada no Senado, pode levar à criminalização em massa de usuários de internet que baixam e trocam arquivos (músicas, textos e vídeos) sem autorização do titular. A reportagem é de Elvira Lobato e publicada pelo jornal Folha de S. Paulo, 03-07-2008.

Esse é o entendimento de seis professores da Escola de Direito da Fundação Getulio Vargas, em parecer conjunto divulgado no Rio. Segundo eles, as conseqüências iriam além do âmbito da internet. Pela amplitude da redação, poderia haver conseqüências até para donos de celulares que desbloqueiam seus aparelhos. O Brasil tem 130 milhões de celulares.

Assinam o parecer os advogados Ronaldo Lemos, Carlos Affonso Pereira de Souza, Pedro Nicoletti Miozukami, Sérgio Branco, Pedro Paranaguá e Bruno Magrani, fundadores do Centro de Tecnologia e Sociedade da Escola de Direito da FGV.

O projeto de lei foi aprovado pelas comissões de Assuntos Econômicos e de Constituição e Justiça do Senado, no mês passado, e está em fase de recebimento de proposta para votação em plenário.

O mesmo projeto já causara polêmica em 2006, quando especialistas e provedores de acesso à web reagiram contra a obrigatoriedade de identificação prévia dos internautas nas operações com interatividade, como envio de e-mails, que burocratizaria a rede.

O texto foi modificado, mas novos questionamentos estão sendo feitos. O parecer dos professores da FGV sustenta que os artigos 285-A e 285-B do projeto, que tratam dos crimes contra a segurança de sistemas informatizados, atingem ações triviais, praticadas por milhares de pessoas, na internet, e criam um instrumento de ""criminalização de massas".

O artigo 285 - A qualifica como crime - com pena de reclusão de 1 a 3 meses e multa- ""acessar rede de computadores, dispositivo de comunicação ou sistema informatizado sem autorização do legítimo titular, quando exigida".

Segundo o professor Ronaldo Lemos, diretor do Centro de Tecnologia e Sociedade da FGV, as pessoas poderiam ser condenadas por desobedecer a termos de uso criados por particulares.

"Cada "legítimo titular" decide quais são os termos de autorização e passa a ser dele o papel de preencher o conteúdo da lei penal. A violação passa a ocorrer de acordo com condições subjetivas e com interesses específicos, dando margem para abusos de direito", afirma o parecer dos professores.

MP3

Segundo Ronaldo Lemos, ao se referir a "rede de computadores", "dispositivos de comunicação " e ""sistema informatizado", o projeto engloba não só computadores mas reprodutores de MP3, aparelhos celulares, tocadores de DVD, sistemas de software e até conversores de TV digital, além de websites. Nessa linha, segundo ele, o projeto alcançaria até o desbloqueio de celular.

Os professores alegam que nenhum país criminaliza o acesso a informações na internet de forma tão ampla. "A legislação mais próxima ao que se propõe foi adotada nos EUA, que criminalizaram o ato de quebrar ou contornar medidas de proteção tecnológica. Mas nenhuma criminalizou o próprio acesso", diz o parecer.

O artigo 285-B qualifica como crime, também sujeito a reclusão de um a três anos, e multa "obter ou transferir dado ou informação" sem autorização do legítimo titular.

Os professores da FGV propõem a exclusão ou a mudança do texto dos dois artigos. Querem que só sejam considerados crime o acesso e a transferência de informações na internet se feito por meio fraudulento e com a finalidade de obter vantagem para si ou para outrem.

Vigilância

Um terceiro artigo do projeto de lei - o artigo 22 - também está sendo questionado tanto pelos provedores de acesso à internet quanto pelos professores da Escola de Direito da FGV do Rio de Janeiro. Ele cria a obrigação para os provedores de informar, sigilosamente, às autoridades indícios de prática de crime de que tenham tomado conhecimento.

Para os professores da FGV, o artigo cria um sistema de delação e de vigilância privada sobre os internautas, na medida em que os provedores estariam obrigados a informar os casos em que -de acordo com suas próprias convicções- haveria indício de crimes.

Ser homem ou mulher


Por: CONTARDO CALLIGARIS


A anatomia é o destino? Talvez, mas há lugares em que a mulher pode escolher ser homem

NOS ANOS 1960, "descobrimos" que a identidade de cada gênero, masculino, feminino ou outro (há outros, sim), era construída e imposta pela cultura em que vivíamos. Ou seja, nosso sentimento íntimo de ser homem ou mulher dependia dos valores que nos eram transmitidos: "alguém" nos oferecera bonecas ou soldados e nos propusera futebol ou costura.
A descoberta encorajou a militância igualitária, os papéis sociais de homens e mulheres se aproximaram e, enfim, tornou-se possível sentir-se homem e cuidar das crianças ou fazer bordado, e sentir-se mulher e pensar na vida profissional ou entrar no exército. Isso, sem que ninguém se atormentasse com dúvidas excessivas sobre sua identidade viril ou feminina.
Nas últimas décadas, houve um refluxo: hoje, sentir-se homem ou mulher nos parece ser, antes de mais nada, um efeito da diferença biológica entre os sexos.
Talvez seja por causa das próprias mudanças que mencionei acima: as diferenças culturais entre gêneros se tornaram menos relevantes e procuramos outras, mais "sólidas".
Mas muitos dirão que aconteceu o seguinte: os avanços da ciência mostraram que, na constituição das identidades de gênero, hormônios, genes etc. contam mais do que as palavras e os comportamentos. Ou seja, pouco importa que eu vista você de renda ou de farda, você será ou se sentirá homem ou mulher como mandam a química e a física de seu corpo.
Paradoxalmente, essa posição, que pretende ser materialista, parece apostar na separação de corpo e mente, como se um mundo "real" de genes e hormônios existisse separado do da fala e dos atos da gente (que, cá entre nós, não é menos real). Acho mais provável que haja um mundo só, em que interagem fenômenos descritos de jeitos diversos, mas que pertencem a uma única realidade, a nossa, feita de descargas hormonais, obrigações indumentárias e comportamentais, genes, xingões, chapoletadas, neurotransmissores, conselhos, amores e carícias.
Além disso, é bom não esquecer que a primazia atual das explicações "anatômicas" é, por sua vez, um fato cultural. Ela é a evolução esperada da cultura ocidental moderna, que promove, dessa forma, sua melhor idéia: a de uma humanidade comum a todos, além das diferenças culturais. Por exemplo, para justificar a existência de direitos humanos universais, nada melhor do que uma definição da espécie a partir da biologia comum e não das culturas, que divergem.
Seja como for, o clima de hoje sugere que a anatomia seja o destino. Nesse quadro, é bom meditar sobre um extraordinário artigo de Dan Bilefsky, no "New York Times" de 25 de junho (em www.nytimes.com, procurar "Woman as Family Man"). Bilefsky viajou pelas montanhas do norte da Albânia, onde sobrevivem os restos de uma cultura tradicional, regida por um cânon rigoroso que, entre outras coisas, prescreve a vendeta entre famílias, de geração em geração: vocês matam um dos nossos, nós mataremos um dos seus -sendo que só podem matar e ser mortos os homens das respectivas famílias. "Abril Despedaçado", de Ismail Kadaré (Companhia das Letras), dá uma boa idéia do clima local. Quem não leu pode assistir ao filme homônimo, de Walter Salles, que transpôs o romance de Kadaré para o norte do Brasil no começo do século 20.
Pergunta: o que acontecia, numa cultura como essa, quando só sobravam as mulheres de uma família? Pois é, no caso, encorajada pelo fato de que, nessa cultura, ser mulher era especialmente chato, uma virgem, livremente, podia decidir ser homem. Ela cortava o cabelo, vestia-se de homem, carregava faca e arma, sentava-se com os homens e com eles rezava na mesquita, matava e era morta nas vendetas e tornava-se patriarca da família.
Belefsky encontrou e fotografou várias mulheres-homens, na faixa dos 80 anos, mulheres que, 60 anos atrás, virgens, renunciaram à vida sexual e decidiram ser homens. E, de fato, sentiram-se e foram homens. Na verdade, ainda são: no pleno exercício de seu patriarcado.
O que assombra nessa história, aliás, não é só a construção cultural do gênero, mas a incrível liberdade que se revelava possível numa sociedade estritamente tradicional (a gente pensa, em geral, que a liberdade de escolha seja coisa exclusivamente nossa).
Queria prestar homenagem a Ruth Cardoso. O jeito foi escrever sobre algo que, onde quer que ela esteja hoje, talvez a interesse.

Filme: Investigação sobre um cidadão acima de qualquer suspeita



Abolicionismo penal, anarquismo e cinema

(Indagine Su Un Cittadino Al Di Sopra Di Ogni Sospetto)




País: Itália, 1970, 112 min


Direção: Elio PetriRoteiro: Elio Petri, Ugo Pirro


Fotografia: Luigi Kuveiller


Elenco: Gian Maria Volontè, Florinda Bolkan, Gianni Santuccio, Orazio Orlando




Um homem degola sua amante (Florinda Bolkan) com uma lâmina de barbear. Em seguida, espalha pelo cenário do crime diversas evidências apontando sua autoria: coloca um fio de sua gravata na unha da vítima, suja a sola de seu sapato no sangue dela e deixa impressões digitais num copo e no telefone. Este homem é o respeitado e eficiente chefe do Setor de Homicídios, que acabou de ser promovido ao Departamento de Informações Políticas. Qual o significado dessa autoridade querer se incriminar? Ele quer provar para si mesmo (devido ao poder conferido por seu cargo) que é intocável, ou melhor, "acima de qualquer suspeita". Ao mesmo tempo, ele tenta incriminar o outro amante da vítima, um universitário anarquista.
Para ele, crime e subversão são indistinguíveis; o preso comum e o preso político se assemelham e se apartam, segundo as conveniências do Estado e da polícia. Com sua conduta de assassino esperando pela denúncia, este fascista pretende fortalecer as hierarquias repressivas. Entretanto, não contava com o anarquista individualista, o único que sabia do crime e que podia livremente denunciá-lo. O jovem estudante, preso nos porões da democracia italiana, mesmo sob a ameaça da tortura e delatado por um companheiro supliciado, dá-lhe as costas informando que não o denunciará. Ao chefe de polícia resta confessar aos pares, as demais autoridades do Estado. Sem a denúncia do exterior que aciona o tribunal penal ele precisa apelar à confissão aos superiores. Mas esta é a zona restrita das medidas administrativas e que não abalam a eficácia da instituição.

O cidadão, a investigação, a tortura, o tribunal,... permanecem acima de qualquer suspeita!



Drama político ganhador do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro e do Prêmio Especial do Júri do Festival de Cannes, também indicado ao Oscar de Melhor Roteiro Original, escrito e dirigido por Elio Petri (um dos mais importantes realizadores do cinema italiano nos anos 70 e responsável por filmes como "A Décima Vítima", "Condenado pela Máfia", "Um Lugar Tranqüilo no Campo", "Sacco e Vanzetti", "A Classe Operária Vai ao Paraíso" e "O Caso Mattei") e estrelado por Gian Maria Volonté (de "Condenado pela Máfia" e "A Classe Operária..."), Florinda Bolkan (de "Os Deuses Malditos", "Amargo Despertar" e "Bela Donna"), Gianni Santuccio, Orazio Orlando (de "As Bonecas") e Arturo Dominci.

Fontes: http://64.233.169.104/search?q=cache:01jaTnWE4fEJ:www.nu-sol.org/hypomnemata/boletim.php%3Fidhypom%3D92+%22investiga%C3%A7%C3%A3o+sobre+um+cidad%C3%A3o+acima+de+qualquer+suspeita%22&hl=pt-BR&ct=clnk&cd=19&gl=br

e

http://64.233.169.104/search?q=cache:dxSK5PxKXPAJ:www1.folha.uol.com.br/folha/especial/2006/30mostradecinema/sinopses-i.shtml+%22investiga%C3%A7%C3%A3o+sobre+um+homem+acima+de+qualquer+suspeita%22&hl=pt-BR&ct=clnk&cd=3&gl=br