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quinta-feira, 10 de abril de 2008

A LIBERAÇÃO PELA AUDIÇÃO NO PLANO PÓS MORTE:O LIVRO TIBETANO DA MORTE





STANISLAV GROF, M.D., Ph.D.

Tradução de Evane Ferreira Júnior

*from "Books of the Dead - Manuals for Living and Dying", by Stanislav Grof
Edited by THAMES AND HUDSON, 1994.



O Livro Tibetano da Morte, ou Bardo Thödol é um texto funerário de origem muito mais recente que seu correspondente Egípcio e tem incomparavelmente mais consistência interna e congruência. Diferentemente do Pert em hru, é um texto bem definido e homogêneo do qual sabemos o autor e o tempo aproximado de sua origem. Apesar de ser claramente embasado em material oral muito mais antigo, foi primeiramente escrito no oitavo século a.D. e é atribuído ao Grande Guru Padmasambhava. Este lendário mestre espiritual introduziu o Budismo no Tibet e estabeleceu os fundamentos do Vajrayana, um amálgama dos ensinamentos Budistas e elementos de uma tradição indígena ancestral chamada Bon, que havia sido a principal religião do Tibet antes da chegada de Padmasambhava.

Pouco se conhece com certeza sobre a religião pré-Budista do Tibet; contudo, uma de suas características dominantes parecia ser a preocupação com a continuação da vida após a morte. Ela incluía elaborados rituais que tinham por objetivo assegurar que a alma da pessoa morta fosse conduzida seguramente para o além. Animais sacrificados, comidas, bebidas e vários objetos preciosos acompanhavam o falecido durante a jornada póstuma. Os ritos funerários eram particularmente elaborados em conexão com a morte de um rei ou um nobre. Aqui o sacrifício incluía imolação de companhias humanas selecionadas, as cerimônias envolviam um grande número de sacerdotes e oficiais da corte e duravam por vários anos. Além de assegurar a felicidade do falecido no além, também se esperava que esses ritos tivessem influência benéfica sobre o bem-estar e fertilidade dos vivos.

Aspectos característicos da antiga religião Tibetana original eram o culto aos deuses locais, especialmente as divindades guerreiras e da montanha e o uso de estados de transe para atividades oraculares. O Bon original tinha componentes anímicos e xamânicos significativos. Após a chegada do Budismo no Tibet, ambos sistemas religiosos coexistiram e apesar de sua natureza separada, mostraram rica fertilização cruzada. Nas suas formas extremas, é relativamente fácil de se distinguir o Budismo genuíno e a religião Bon; contudo, na prática as duas foram tão intimamente combinadas que nas mentes da maioria das pessoas elas se fundiram em um único sistema de crenças. Os elementos não-Budistas são particularmente proeminentes no rito apavorante do sacrifício premeditado de alguém aos demônios locais, praticado por certos iogues ascéticos, e no notável Bardo Thödol.

O Bardo Thödol é um guia para a morte e o morrer, um manual que auxilia quem partiu a reconhecer, com a ajuda de um lama competente, os vários estágios do estado intermediário entre a morte e o subseqüente renascimento e a obter liberação. Os estados de consciência associados com o processo da morte e renascimento pertencem a uma família maior de estados intermediários ou bardos:


1. O estado bardo natural da existência intra-uterina
2. O Bardo do estado de sonho
3. O Bardo do equilíbrio arrebatado durante meditação profunda
4. O Bardo do momento da morte (Chikhai Bardo)
5. O Bardo das ilusões cármicas que se seguem à morte (Chonyid Bardo)
6. O Bardo do processo inverso, o da existência sansárica enquanto buscando pelo renascimento (Sidpa Bardo).


O Livro Tibetano da Morte está escrito como um guia para o morrer; contudo, ele tem níveis adicionais de significado. De acordo com os ensinamentos Budistas, morte e renascimento não ocorrem somente em conexão com o óbito e subseqüente começo de outra vida, mas em cada momento de nossa existência. Os estados descritos no Bardo Thödol também podem ser experimentados em estados meditativos durante prática espiritual sistemática. Este importante texto é, portanto simultaneamente um guia para o morrer, para o viver e para buscadores espirituais sérios. Ele é uma de uma série de instruções sobre seis tipos de liberação: liberação através da audição, liberação através do vestir; liberação através da visão, liberação através da rememoração, liberação através do paladar e liberação através do toque.

As instruções sobre os diferentes tipos de liberação foram formuladas por Padmasambhava e escritas por sua esposa. Padmasambhava enterrou estes textos nas colinas Gampo do Tibet central, como foi feito com muitos outros textos e objetos sagrados, chamados termas ou “tesouros ocultos”. Ele deu a transmissão de poder para descobri-los aos seus vinte e cinco principais discípulos. Os textos do Bardo Thödol foram mais tarde descobertos por Karma Lingpa, que pertenceu à tradição Nyingma e estava encarnado em um desses discípulos. Eles têm sido utilizados por séculos por estudantes sérios de seus ensinamentos como importantes guias para liberação e iluminação.

O Bardo Thödol descreve as experiências que alguém encontra no momento da morte (Chikhai Bardo), durante o período de encarar as visões arquetípicas e ilusões cármicas que se seguem à morte (Chonyid Bardo), e no processo de buscar o renascer (Sidpa Bardo). Tradicionalmente, após a morte e por um período de quarenta e nove dias depois disso, esse texto tem sido cantado pelos mestres ou lamas para dar instruções ao espírito do falecido sobre o que esperar no estado Bardo e como utilizar as experiências para a liberação.

Chikhai Bardo: O Bardo do Momento da Morte



O Chikhai Bardo descreve as experiências associadas com o momento da morte. Seu aspecto mais característico é uma sensação de perder o contato com o mundo familiar das polaridades e entrar em um reino irreal de confusão. O mundo lógico e ordenado que nós conhecemos da vida quotidiana começa a se dissolver e com isso vem a sensação de incerteza quanto a se estar obtendo a iluminação ou se tornando insano. O Bardo Thödol discute a experiência anunciando a morte iminente em termos dos diferentes elementos do corpo.

A este Bardo pertencem experiências de peso, densidade, intensas pressões físicas e progressiva perda de contato com o mundo físico. Nesta situação, alguém pode tomar refúgio na mente e tentar reafirmar-se de que ela ainda está funcionando. Isto é descrito como “terra mergulhando na água”. No estágio seguinte, as operações da mente deixam de ser fluidas e a circulação dos pensamentos é perturbada. A única forma de se relacionar é através das emoções; para pensar em alguém se ama ou se odeia. Os sentimentos de um frio viscoso são substituídos por um calor abrasador. O Bardo Thödol refere-se a essa experiência como “água mergulhando no fogo”. Então as emoções vívidas se dissolvem e a atenção move-se para longe dos objetos de amor e ódio; o ser inteiro parece ter sido pulverizado em átomos. Esta experiência de “fogo mergulhando no ar” cria um estado de abertura para o encontro seguinte com a luminosidade cósmica.

No verdadeiro momento da morte, se pode ter uma esmagadora visão do Dharmakaya, ou a “Límpida Luz Primordial da Realidade Pura”. É como se toda a existência repentinamente aparecesse em sua totalidade absoluta brilhando como uma luz eterna por nascer. Nessa experiência, todas as dualidades são transcendidas – agonia e êxtase, bem e mal, beleza e feiúra, calor ardente e frio congelante, todas coexistem em um todo indiferenciado. Em última análise, o Dharmakaya é idêntico à própria consciência do observador, que não nasce nem morre e é em essência a Luz Imutável.

De acordo com o Bardo Thödol, se alguém reconhece esta verdade e foi preparado por práticas sistemáticas para a enormidade dessa experiência, tal situação oferece uma oportunidade única para liberação espiritual instantânea por render a ela a própria individualidade. Aqueles que se deixam atemorizar e afastam-se do Dharmakaya, terão outra chance imediatamente após a morte quando a “Límpida Luz Secundária” clarear sobre eles. Se eles também perderem essa oportunidade de dissolução completa de suas individualidades, a força de seus carmas os atrai implacavelmente para dentro de uma complicada seqüência de aventuras espirituais com um panteão inteiro de deidades felizes e iradas, durante as quais suas consciências se tornarão progressivamente mais separadas da luz libertadora à medida que se aproximam de outro renascimento. Estas são as experiências descritas no segundo e terceiro bardo.

Chonyid Bardo: O Bardo da Experiência da Realidade


As experiências no Chonyid Bardo consistem nas sucessivas visões de uma rica panóplia de presenças divinas e demoníacas que alguém encontra durante sua jornada do momento da morte ao momento da busca do renascimento. Nos primeiros cinco dias deste bardo surgem as gloriosas imagens das cinco Deidades Pacíficas. Estas são os Budas Dhyani transcendentais, ou Tathagatas, envolvidos em brilhantes luzes de diferentes cores – Vairocana (Buda Supremo e Eterno), Akshobhya (Buda Imóvel), Ratnasambhava (Buda do Nascimento Precioso), Amithaba (Buda da Luz Infinita) e Amoghadsiddhi (Buda do Sucesso Infalível). Eles aparecem com seus assistentes, Bodhisattvas masculinos e femininos.

No sexto dia, todos os Budas Dhyani surgem de uma vez com seus assistentes, juntos com os quarto Guardiões de Portais coléricos, ou irados, e suas shaktis femininas ou dakinis, os Budas das seis lokas ou reinos nos quais se pode renascer, e um número adicional de figuras divinas, num total de quarenta e duas deidades. Seus brilhos estão em agudo contraste com a sedução das luzes entorpecentes e ilusórias representando os seis lokas. No sétimo dia, cinco Deidades Detentoras do Conhecimento surgem dos reinos paradisíacos com suas dakinis, inumeráveis heróis e heroínas, guerreiros celestiais, e deidades protetoras da fé. Esplendores de luzes coloridas emanando de seus corações competem com a torpe luz do tiryaloka, o reino dos animais, ou brutais criaturas sub-humanas.

As emoções que podem nos atrair para as lokas individuais são: medo e terror carmicamente determinados (devaloka), raiva violenta (narakaloka), egotismo (manakaloka), apego (pretaloka), inveja e ciúme (asuraloka); o renascimento no tiryaloka é descrito no Bardo Thödol como um resultado da “influência das ilusões das tendências de alguém”.

O período entre o oitavo e o décimo quarto dia é o tempo do surgimento das Deidades Coléricas ou Iradas. As figuras demoníacas que se manifestam entre o oitavo e o décimo segundo dia, tão terríveis quanto possam ser, são na verdade os aspectos obscuros dos Budas transcendentais. No décimo terceiro dia, os Kerimas, os Oito Coléricos, e os cabeças-de-animal Htamenmas emergem de dentro dos profundos reinos da psique. No décimo quarto dia surge um rico arranjo de deidades, entre elas Quatro Guardiãs de Portais Femininas com cabeças de animais e outras poderosas deusas theriomóficas e yoguinis.

Para os não preparados e não iniciados, as deidades coléricas são uma fonte de terror e temor abismal. Contudo, aqueles familiarizados com estas imagens a partir de estudos prévios, preparados para elas por intensa prática espiritual, estariam aptos a reconhecê-las e perceber que elas são essencialmente imagens vazias de suas próprias mentes. Eles estarão aptos a unir-se a elas e atingir o Estado Búdico (trad. de Buddhahood).

Sidpa Bardo: O Bardo da Busca do Renascimento


Aqueles que perderam a oportunidade da liberação nos dois primeiros bardos têm que encarar este último estágio de estado intermediário. Após terem desmaiado devido ao medo no Chonyid Bardo, eles agora despertam em uma nova forma – o corpo bardo. O corpo bardo difere daquele grosseiro que conhecemos de nosso quotidiano. Ele não é composto de matéria e tem muitas qualidades notáveis. É dotado com o poder de movimento desimpedido e pode penetrar através de objetos sólidos.

Aqueles que existem na forma do corpo bardo podem aparecer e desaparecer à vontade, viajar instantaneamente a qualquer lugar na terra e mesmo até o Monte Meru, a montanha cósmica sagrada. Eles podem mudar de tamanho e forma, replicar sua forma, manifestar-se simultaneamente em mais de um local. Neste ponto pode parecer a alguém que ele se encontra no comando de poderes cósmicos milagrosos; aqui o Bardo Thödol faz uma advertência muito séria a qualquer um que se permita sentir desejo por essas forças e apegar-se a elas.

A qualidade de experiências neste bardo – o grau de felicidade ou miséria – depende do registro cármico da pessoa envolvida. Aqueles que acumularam muito carma ruim serão atormentados por eventos assustadores, como demônios comedores de carne ou rakshasas balançando armas, terríveis bestas predadoras e forças elementais furiosas da natureza. Estas podem ser o encontro com rochas que se chocam e destroem-se, mares transbordantes de raiva, fogos roncantes, fendas e precipícios ominosos. Aqueles que acumularam méritos cármicos irão experimentar vários prazeres deliciosos, enquanto que aqueles com carma neutro irão encarar o aborrecimento incolor e a indiferença.

O culminar das experiências no Sidpa Bardo é a cena do julgamento, durante a qual o Senhor e Juiz da Morte, cujo nome é Yama Raja ou Dharma Raja, examina as ações passadas do indivíduo de um ponto de vista cármico com o auxílio de seu espelho contador de histórias. Ele então designa a pessoa de acordo com seus méritos e débitos a um dos seis lokas ou reinos nos quais alguém pode renascer – o reino dos deuses, dos asuras beligerantes, seres e bestas sub-humanos, humanos, fantasmas famintos, ou inferno.

Quando as luzes dos seis lokas estão surgindo na pessoa neste estágio da jornada bardo, pode ser feita uma tentativa para fechar a porta do útero e prevenir uma reencarnação desfavorável. O Bardo Thödol sugere várias abordagens para esta finalidade. Pode ser útil a contemplação da divindade tutelar ou meditar sobre a pura luz; outras possibilidades são perceber o vazio essencial de todas as aparições sansáricas ou concentrar na corrente do carma bom. Alguém pode evitar os fortes sentimentos experimentados neste momento através das figuras dos futuros pais que são percebidos como corpos nus em união sexual. Em concordância com a moderna psicologia profunda da morte, estas emoções tomam a forma da atração pelo pai do sexo oposto e repulsão ou raiva contra a figura paterna do próprio sexo.

Se todas as oportunidades de libertação tiverem sido perdidas, a pessoa poderá ser irresistivelmente direcionada por ilusões vívidas e o renascimento se seguirá invariavelmente. Com a devida orientação, o desafortunado indivíduo ainda tem uma última esperança: com a devida orientação, ele ou ela pode ainda ter alguma influência sobre a escolha do útero no qual irá renascer. Com o ambiente certo e apoio, a nova vida pode oferecer oportunidades para prática espiritual que proveria melhor preparo para a próxima jornada através dos estados bardos.

A RODA TIBETANA DA MORTE E RENASCIMENTO

O Panteão das Divindades Budistas Tibetanas do Bardo Thödol

Muitas religiões e culturas têm mitologias elaboradas com vívidas descrições de deidades e demônios bem como cenários complexos de vários reinos arquetípicos. Contudo, nenhum deles se compara com a iconografia rica e meticulosa do Budismo Tibetano. Ela também encontra sua expressão no Bardo Thödol, que oferece descrições meticulosas de um fantástico arranjo de deidades felizes e coléricas e outros habitantes do plano pós-morte. Elas são descritas com maravilhosa precisão relativa às suas aparências gerais, características específicas, atributos simbólicos e cores associadas.

Enquanto as experiências da Pura Luz Primária e Secundária que caracterizam o Chikhai Bardo representam a energia criativa cósmica e sua natureza pura e refletem de um modo completamente amorfo toda a sua potencialidade de manifestar os infinitos reinos do ser, a progressão através do dois Bardos remanescentes revela uma crescente multidão de formas específicas. No Chonyid Bardo, as cinco expressões primordiais desta energia, ou os Buddhas Dhyani, surgem primeiramente em seus aspectos felizes e gradualmente se desenvolvem em um maravilhoso panteão de Deidades Guardiãs do Conhecimento, Coléricas, Guardiãs de Portais, Yoginis dos Quatro Pontos Cardeais, e um rico arranjo de outros seres arquetípicos. Simultaneamente brilham as torpes luzes de diferentes cores, representando os seis lokas, ou reinos nos quais se pode renascer. O Sidpa Bardo então traz a cena do Julgamento com Dharmaraja e seus auxiliares, bem como o intrincado cenário dos seis lokas e seus habitantes.

As Deidades Pacíficas do Chonyid Bardo


Os cinco primeiros Budas primordiais são também chamados de Tathagatas ou Jinas. Tathagata significa literalmente “portanto ido”, ou aquele que se tornou um com a essência do que é, e Jina se traduz como “vitorioso”. Ambos os termos são sinônimos com o nome Buda que significa “o desperto”. Os cinco Tathagatas são os cinco principais modos de energia da natureza Búdica, consciência plenamente desperta. Eles incorporam cinco qualidades de sabedoria; tudo que é parte da existência – seres viventes, locais ou eventos – está profundamente conectado com e descrito em termos de um dos cinco. Por esta razão, eles também são conhecidos como as cinco famílias. Contudo, no mundo sansárico ou no estado de mente de uma pessoa não-iluminada, eles aparecem como cinco venenos ou emoções confusas. Esta situação é então representada pelos seus aspectos coléricos.

Vairochana (Propagando a Semente Adiante) é o Buda do Reino Central. Ele é branco e o espaço em que surge é azul; a deslumbrante luz azul de Dharmdhatu que se irradia a partir de seu coração compete com a torpe luz branca do reino dos deuses (devaloka). Sentado em um trono de leão e abraçado pela Mãe do Espaço do Paraíso, ele está segurando uma roda de oito raios em sua mão, simbolizando transcendência do tempo e direção. Vairochana é freqüentemente representado com quatro faces, percebendo simultaneamente todas as direções, o que expressa completa abertura de consciência e visão panorâmica descentralizada. Ele representa a sabedoria de dharmadhatu, o espaço ilimitado que a tudo penetra, onde tudo existe como realmente é. Sendo a figura original e central, sua família é conhecida como a família Buda ou a família Tathagata; estes nomes representam a realidade verdadeira, oposto da ignorância. Em seu aspecto negativo, ele simboliza o veneno básico da confusão ou ignorância básica fora da qual todos os outros evoluem.

Akshobhya (o Buda Imóvel) ou Vajrasattva (Ser Diamante) é o Buda do Reino Oriental da Felicidade Pré-Eminente. Ele é azul e a brilhante luz branca da sabedoria espelhada que se irradia de seu coração compete com a torpe luz esfumaçada do reino do Inferno (narakaloka). Abraçado pela sua Shakti Buda-Locana, a Buda Olho, ele está descansando em um trono elefante, segurando em sua mão uma Vajra de cinco dentes ou raio. Seus acompanhantes assistentes são os Boddhisattvas Kshitigarbha, a Essência da Terra, e Maitreya, o Amoroso, bem como dois Bodhisattvas femininos, Lasya, a deusa da dança e Pushpa, a deusa das flores. Akshobhya é o soberano da família Vajra que representa sabedoria transcendental profunda que reflete tudo com claridade e sem julgamento crítico. O veneno correspondente é agressão ou ódio.

Ratnasambhava (Nascido de Uma Jóia) é o Buda do Reino Meridional Dotado de Glória. Ele é amarelo e irradia deslumbrante luz de equanimidade e não-discriminação, a riqueza e majestade que podem fazer alguém escolher a concorrente luz amarelo-azulada torpe do reino humano (manakaloka). Sentado em um trono cavalo, Ratnasambhava está segurando em sua mão a jóia realizadora dos desejos. Sua cor amarela representa a fertilidade, prosperidade e riqueza da Terra; sua consorte Mamaki representa a água, um elemento indispensável para a fertilidade. Os dois acompanhantes Bodhisattvas masculinos são Akashagarbha, ou a Essência do Espaço, e Samantabhadra, o Todo-Bom e suas contrapartes femininas são Mala, representando jóias e adornos preciosos de todos os tipos, e Dhupa, a deusa do olfato, perfume, e ar fresco. Ratnasambhava preside sobre a família Ratna que é caracterizada pela sabedoria da luz não-discriminante da equanimidade e igualdade; seu veneno específico é o orgulho.

Amitabha (o Buda da Luz Infinita) é o Buda do Reino Ocidental da Felicidade, O Paraíso Ocidental, ou Sukhavati. Ele é vermelho e irradia de seu coração brilhante luz vermelha da sabedoria que a tudo discrimina; a alternativa aqui é a torpe luz vermelha do reino dos fantasmas famintos (pretaloka). Amitabha está sentado em um trono de pavão, segurando um lótus em sua mão, e abraçado por sua Shakti Pandaravasini, a Vestida de Branco. O pavão e o lótus simbolizam pureza, abertura e aceitação. Os Boddhisattvas de Amitabha são Avalokiteshvara, a inteligência definitiva da compaixão, Manjushri, representando a comunicação da compaixão através do som, Gita, a deusa do som e a porta-tocha Aloka. Amitabha comanda a família Padma caracterizada pela compaixão e sabedoria discriminante; seu veneno é a indulgência nas paixões ordinárias e o apego aos aspectos prazerosos do mundo material.

Amogha-Siddhi (o Buda da Mágica Infalível) é o Buda do Reino Setentrional das Performances Bem Sucedidas das Melhores Ações. Ele é verde e emana de seu coração radiante luz verde que compete com a torpe luz verde do reino dos guerreiros divinos (asuraloka). Ele está sentado em um assento de sheng-sheng, uma forma de harpia ou Garuda, um pássaro arquetípico que é músico e um símbolo de realização; ele pode voar e percorrer todo o espaço. Amogha-Siddhi está abraçado por sua consorte, Samaya-Tara, a Salvadora do Mundo Sagrado, e a vajra cruzada multicolorida que ele segura em sua mão simboliza a área de todas as atividades percebidas em todas as direções, um tipo de realização e preenchimento panorâmicos. Aqui encontramos os Bodhisattvas Vajrapani, ou O que porta a Vajra, simbolizando enorme energia, e Sarvanivarana-viskambhin, o Purificador de Todos os Obstáculos, bem como suas contrapartes femininas, Gandha, a deusa do perfume, e Naivedya, que fornece alimento para a meditação. Amogha-Siddhi preside a família Karma, associada com ação sábia, eficiência, e desempenho; seu veneno característico é a inveja.

Os cinco Tathagatas surgem individualmente nos primeiros cinco dias consecutivos do Bardo Chonyid. No sexto dia, todos estes cinco Budas primordiais se manifestam simultaneamente. Se alguém não estiver preparado para esta experiência, isto leva a um estado de perplexidade, já que os cinco Tathagatas preenchem todo o espaço, todas as direções, não há escape, uma vez que os quatro portões também estão guardados pelos Guardiões dos Portões: Vijaya ou O Vitorioso (Leste), Yamantaka ou O Destruidor do Senhor da Morte (Sul), Hayagriva ou o Rei Cabeça de Cavalo (Oeste), e Amritakundali ou a Espiral do Néctar da Imortalidade (Norte), todos com suas Shaktis. Além disso, há os Budas dos seis lokas, e outras figuras, completando quarenta e duas deidades.

As Deidades Guardiãs do Conhecimento do Chonyid Bardo


No sétimo dia, com o desenvolvimento das imagens do Chonyid Bardo, os Vidyadharas, ou Deidades Detentoras do Conhecimento, fazem sua aparição. As deidades do Bardo Thödol têm uma conexão específica com os centros de energia psíquica ou chakras. Enquanto que as divindades pacíficas estão associadas ao chakra do coração e as divindades coléricas seguintes com o chakra frontal, os Detentores do Conhecimento representam a ligação entre eles, mediada pela fala e estão, portanto conectados ao chakra da garganta. Similarmente, eles não são nem pacíficos nem irados, mas intermediários, eles são imponentes, impressionantes, e esmagadoramente irresistíveis. No momento de sua aparição, a luz verde do reino animal (tiryakaloka) se manifesta simbolizando a ignorância.

Os Vidyadharas estão todos dançando, enquanto fazem mudras de fascinação e seguram longos punhais e crânios cheios de sangue; o significado esotérico do crânio cheio de sangue é a renúncia à vida humana e ao mundo de samsara. No centro de seu círculo está a Lótus do Senhor da Dança, o Supremo Detentor do Conhecimento Que Matura O Fruto Kármico, em um halo de radiantes cores do arco-íris, abraçado pela sua Dakini Vermelha. No leste está a deidade chamada Detentor do Conhecimento Terra-Permanente, de cor branca e abraçado pela Dakini Branca. Ao Sul está o sorridente e radiante Detentor de Conhecimento chamado Aquele que Tem Poder Sobre A Duração da Vida, de cor amarela e com a Dakini Amarela. A deidade no Oeste é o Detentor do Conhecimento do Grande Símbolo, vermelho, sorridente e radiante, e abraçado pela Dakini Vermelha. E finalmente ao Norte está o Detentor do Conhecimento Auto-Evoluído, verde na cor, com o semblante metade furioso e metade sorridente, abraçado pela Dakini Verde.

Os Detentores do Conhecimento são rodeados por inumeráveis dakinis de vários tipos, heróis, heroínas, guerreiros celestiais e deidades protetoras da fé. Utilizando tambores, trompetes de fêmures, pandeiros de crânios, cobertas e bandeiras de peles humanas, eles produzem música pavorosa que faz o mundo inteiro vibrar, sacudir e estremecer. Mantras inspirando assombro se alternam com gritos apavorantes: “Matar! Matar!”.

As Deidades Coléricas do Chonyid Bardo


Do oitavo ao décimo segundo dia, os Tathagatas aparecem em seus aspectos demoníacos, horripilantes e instigadores de pavor, como herukas e suas consortes. Eles têm três cabeças, seis braços e quatro pés e representam a qualidade irrestrita e ilimitada da energia das famílias Búdicas. Toda a energia básica de todos os Coléricos Herukas está concentrada no Grande Glorioso Heruka marrom escuro; ele é o aspecto horripilante de Vairochana. Vajra-Heruka é azul escuro e é a forma colérica de Vajra-Sattva (Akshobhya). O aspecto horrível de Ratnasambhava é o Ratna-Heruka amarelo, enquanto que a contraparte escura do Buda Amitabha é Padma-Heruka preto avermelhado, e a de Amogha-Siddhi é o Karma-Heruka verde escuro.

No décimo terceiro dia se manifestam os Kerimas, Os Oito Coléricos, e Htamenmas, assombrosas deidades zoomórficas; elas têm as cabeças de vários animais – de um leão, tigre, raposa negra, lobo, abutre, pássaro vermelho de cemitério, corvo e coruja. No décimo quarto dia, as visões do Chonyid Bardo terminam com um rico arranjo de deidades, entre elas Quatro Guardiões Femininos de Portais com cabeças de animais e outras poderosas deidades zoomórficas e Yoginis. Se todas as oportunidades de libertação nos primeiros dois Bardos foram perdidas, o processo se move para o Sidpa Bardo, ou O Bardo da Busca Pelo Renascimento, com seus desafios específicos.

Sidpa Bardo: O Julgamento e os Seis Reinos da Existência


Um tema central no processo de buscar o renascimento no Sidpa Bardo é a cena do julgamento que leva à designação para um dos seis reinos da existência ou lokas. O Rei e O Juiz da Morte é uma deidade chamada Dharma Raja (Rei da Lei) ou Yama Raja (Rei da Morte); ele é o aspecto colérico de Chenrazee, o Protetor Nacional do Tibet. Sua cabeça e corpo, bem como seu pavilhão e sua corte são adornados com crânios humanos, cabeças e peles. Sob seus pés, ele está pisando uma figura Mara, simbólica de maya, a natureza ilusória da existência humana. Ele julga a morte segurando em sua mão direita uma espada, um símbolo de poder espiritual e em sua mão esquerda o Espelho do Karma, no qual estão refletidas todas as boas e más ações para o julgamento.

Ao lado da balança, assistidos por Shinje, uma deidade com cabeça de macaco, perfilam-se duas figuras – O Pequeno Deus Branco com um saco de seixos brancos e O Pequeno Deus Negro com um saco de seixos pretos. Seguindo as instruções de Yama Raja, eles colocam na escala seixos brancos ou pretos de acordo com os méritos ou débitos kármicos do julgado. Um conselho de deidades sentado na Corte do Julgamento, muitas das quais com cabeças de animais, asseguram justiça imparcial e a regularidade do procedimento. De acordo com o resultado da pesagem, os mortos são designados a um dos seis reinos da existência. Na psicologia Budista Tibetana, todo este processo não está limitado ao tempo da morte biológica, mas se aplica igualmente às profundas transformações que ocorrem ao longo da prática espiritual. É esta parte do Bardo Thödol, a que mais agudamente se equipara aos eventos do Livro da Morte Egípcio, bem como aos textos escatológicos de outras culturas.

O Reino do Inferno (narakaloka) é um domínio onde alguém é exposto a torturas extremas, cada uma delas representa em última análise as forças que operam na nossa própria psique. Aqui estão os Oito Infernos Quentes onde campos e montanhas são feitos de metal quente ao rubro, rios são transformados em ferro derretido e o espaço claustrofóbico é preenchido com fogo. A situação é oposta nos Oito Infernos Frios, regiões de extremo frio onde tudo está congelado e coberto com gelo e neve. Nos infernos quentes estão aqueles que cometeram atos ímpios motivados por raiva violenta, enquanto que os atos resultantes de motivos egoístas e orgulhosos levam alguém aos infernos frios. Algumas torturas adicionais envolvem ser cortado ou serrado em pedaços, estrangulado com laços, perfurado por espinhos e exposto a pressões esmagadoras. Este é o Inferno Avitchi, onde aqueles que usam magia para destruir seus inimigos ou aqueles que deliberadamente negligenciaram a realização dos votos Tântricos sofrem torturas por tempos quase imensuráveis.

O Reino dos Fantasmas Famintos (pretaloka) é habitado pelos pretas, lamentáveis criaturas que possuem apetite insaciável. Eles têm grandes estômagos estendidos que demandam satisfação, mas suas bocas são do tamanho de furos de alfinete, de modo que eles nunca podem obter o suficiente. Neste reino, há uma tremenda ânsia de riqueza, para a obtenção de posses. Contudo, mesmo que obtenhamos os frutos de nossos desejos e os possuamos, somos incapazes de desfrutá-los Isto nos faz sentirmo-nos mais famintos e mais privados, carentes. Em adição, nossa satisfação não dura e após uma fugaz experiência de prazer segue-se mais outra busca sem fim. Este é o sofrimento que está associado com a ganância.

O Reino Animal (tiryakaloka) é caracterizado por um torpe modo de vida; isto é mera sobrevivência em um nível simples e descomplicado, onde um senso de segurança se alterna com episódios de medo. Toda as vezes que algo está irregular ou imprevisto é ameaçador e se torna uma fonte de confusão e paranóia. Entre outros, o reino animal é caracterizado por ausência de humor. Os animais podem vivenciar prazer e dor, mas o senso de humor e ironia não existe em suas vidas.



Extraído de: http://www.orion.med.br/psictrans/art11.htm

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008

Os Seis Bardos


Chagdud Tulku Rinpoche




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Chagdud Tulku Rinpoche (1930-2002) pertencia à última geração de mestres que herdaram os tesouros dos ensinamentos e métodos Vajrayana. Filho de Dawa Drolma, uma das mais célebres mulheres lamas deste século, abade do secular monastério de Chagdud Gonpa no Tibet, Rinpoche viveu os primeiros vinte anos de exílio, depois da invasão chinesa de 1959, na Índia e no Nepal. Lá serviu à comunidade tibetana como lama, médico e promotor das artes.

Em 1979, chegou aos Estados Unidos. Quatro anos depois, Rinpoche criou a Chagdud Gonpa Foundation, hoje com centros também no Canadá, Suíça e Brasil, onde residia em Três Coroas (RS).



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A palavra tibetana bardo refere-se aos seis estados de experiência "intermediários". Nos três primeiros - que acontecem nesta mesma vida - podemos nos preparar para a morte - quando as outras três ocorrem. A expressão tibetana kyene bardo refere-se ao estado intermediário entre o nascimento e a morte, o bardo desta vida. Dos seis bardos, este é o mais importante. É aqui que escolhemos criar felicidade - nesta vida e nas vidas futuras - e beneficiar os outros, ou escolhemos nos tornar mais afundados nos ciclos de sofrimento e causar os outros a fazer o mesmo.

O Karma



Apenas nós - e mais ninguém - determinamos se sofreremos ou se seremos felizes. A escolha entre beber veneno ou tomar remédio está em nossas próprias mãos. O remédio pode ter um gosto amargo no momento; o veneno pode até mesmo ter um sabor doce. Mas a longo prazo, o veneno apenas conduzirá ao sofrimento e o remédio a um benefício maior. Quando as pessoas sofrem, elas muitas vezes se perguntam, "O que eu fiz para merecer isto? Sou basicamente uma pessoa boa, mas as coisas continuando saindo erradas. Por quê?" Isto é porque o karma que criamos durante muitas vidas está amadurecendo agora. Quando plantamos as sementes de karma bom através de ações virtuosas, encontramos experiências afortunadas, e quando plantamos as sementes de karma ruim, encontramos experiências muito difíceis, cheias de sofrimento.

Apesar de o karma trabalhar deste modo, tendemos a culpar alguém ou algo - ao invés de nós - mesmos quando as coisas saem erradas. Podemos culpar a poluição do ar ou da água, por exemplo, por uma doença. Podemos atribuir um problema mental ou emocional a algo que nossos pais fizeram a nós quando éramos crianças. É verdade que nossa experiência é influenciada por condições externas, mas fundamentalmente é o nosso karma que produziu essas condições. Por exemplo, nem todos os milhões de pessoas que vivem em uma cidade grande com ar poluído ficam doentes. De modo similar, nem todo ser que vive no alto das montanhas - onde o ar e a água são puros - é saudável. Tanto a base da saúde quanto da doença é o karma.

Não sabemos qual aspecto de nosso karma prevalecerá ou qual experiência nos espera na hora de nossa morte. Mas podemos desenvolver algum insight nisto observando nossa mente desde manhã até a noite. Que tipo de pensamentos surge? Quantas horas passamos contemplando coisas virtuosas e criando virtude com nosso corpo, fala e mente? Quantas horas passamos nos engajando em pensamentos nocivos e negatividade? Quantas horas passamos nos entregando a pensamentos inúteis?

A maioria de nós teria dificuldades para encontrar uma única hora na qual nossos pensamentos e intenções fossem completamente puros. E mesmo se o fizéssemos, isso não seria o bastante. Em um cabo de guerra com uma pessoa de um lado e vinte e três do outro, quem ganhará? Uma hora de virtude é sobrepujada duramente por vinte e três horas de negatividade. Se nossas mentes não estiverem inclinadas para a virtude, não podemos assumir que atingiremos um renascimento superior, um reino celestial ou divino, ou nem mesmo um renascimento humano após esta vida.

Apesar de estarmos sujeitos à lei do karma, podemos mudar nossa experiência purificando as ações passadas através de métodos espirituais. A oportunidade para seguir o caminho espiritual é agora, no bardo desta vida.

Começamos nossa jornada no caminho buddhista tomando refúgio. Como o Buddha Shakyamuni realizou completamente o caminho, indo além do samsara e do nirvana, podemos confiar nele como um guia. O Buddha sustentou um compromisso de não ferir os outros, de parar todas as ações negativas do corpo, toda fala prejudicial e todos os pensamentos negativos e nocivos. Seguindo seu exemplo, nós também fazemos este compromisso, entendendo que se pararmos de prejudicar os outros, não mais iremos experienciar os efeitos do karma negativo. O compromisso de não nos engajarmos em pensamentos, palavras ou ações negativos é a essência do voto de refúgio.

Além de nos abstermos da não-virtude, criamos virtude revertendo o hábito da auto-importância, de sempre nos focarmos sobre nós mesmos. Durante muitas vidas, colocamos nosso próprio benefício antes do benefício dos outros. Ao invés disso, precisamos desenvolver uma motivação verdadeiramente abnegada - a intenção sincera de beneficiar os outros de todos os modos que pudermos através de nosso corpo, fala e mente. Quando agimos consciente e diligentemente com esta motivação pura, geramos virtude, a causa de felicidade futura. Acumular tanta virtude quando possível e dedicá-la para o benefício dos outros é o caminho do bodhisattva. Em essência, significa trazer um bom coração a tudo que fizermos.

Através da meditação, podemos purificar o karma que já criamos usando os quatro poderes. O primeiro poder é o da testemunha. Visualizamos à nossa frente nosso objeto de refúgio, o Buddha por exemplo. O segundo poder é o do arrependimento. Séria e profundamente, nos arrependemos do mal que fizemos aos outros através do corpo, fala ou mente, nesta vida ou em qualquer outra. O terceiro poder é o do compromisso. Nós contemplamos, "Agora que entendi as conseqüências, não mais cometerei ações prejudiciais, não importa o que aconteça". O quarto poder é o da bênção que surge em resposta à nossa fé e oração. Visualizamos as bênçãos de nosso objeto de refúgio como néctar ou luz, que flui através de nós e purifica todo o nosso karma negativo e obscurecimentos. Se fizermos esta prática de purificação diligentemente, seus efeitos se tornarão evidentes em nosso dia, assim como em nossas experiências durante os sonhos.

Fazendo o compromisso de não prejudicar e de purificar as ações prejudiciais passadas, podemos tanto purificar os efeitos do karma que já criamos tanto quanto fechar a porta para o sofrimento futuro.

Preparando-nos para a Morte através dos Bardos desta Vida
Se usarmos a oportunidade permitida pelo bardo desta vida para criarmos virtude e evitar a não-virtude, podemos assegurar mais experiências afortunadas em vidas futuras e evitar sentir arrependimento na hora da morte.

Dentro deste bardo há dois estados intermediários adicionais - o bardo da meditação e o bardo do sonho. Os métodos de meditação aplicados durante estes três bardos nos ajudam a derivar o maior benefício a partir dos três bardos da transmissão da morte.

A morte é uma experiência muito difícil se estivermos despreparados. Alguns pensam que, como todos morrem, como a morte naturalmente se segue ao nascimento, a morte não é ruim. Mas todo esforço que fizemos nesta vida com a mesma intensidade das abelhas coletando mel, tudo o que juntamos e tudo o que é importante para nós - nossos relacionamentos, país, posses, casa e especialmente nosso corpo - será perdido na morte. Pior do que isto, não sabemos o que acontecerá em seguida. Esta situação é extremamente amedrontadora e causa grande sofrimento.

A fim de não sermos dominados pelo medo e sofrimento na hora da morte - e ao invés disso a utilizarmos como uma oportunidade para uma profunda prática espiritual -, devemos nos preparar. O bardo da meditação referido acima, chamado samten bardo em tibetano, entende-se deste o início até o fim de uma sessão de meditação. De forma ideal, fazemos do bardo desta vida um bardo de meditação o tanto quanto pudermos a fim de nos prepararmos par a morte. Durante o bardo da meditação, desenvolvemos o calibre de prática necessário para nos ajudar a lidar com as dificuldades desta vida, assim como com a experiência da morte e do pós-morte.

Contemplar continuamente a impermanência é um modo de nos prepararmos para quando tivermos apenas alguns dias, horas ou minutos para viver. Se nos lembrarmos de que os seres através da história, não importa o quão grandes, ricos ou poderosos, encontraram as mesmas condições e nascimento, doença, velhice e morte, e se aceitarmos que agora é nosso momento de ir, estaremos mais relaxados e menos aptos a sermos dominados pelas emoções e pelo sofrimento desta mudança inevitável.

A junção e separação dos fenômenos é a natureza de nossa experiência. Nada dura muito; tudo é impermanente. Até mesmo os sentimentos mais fortes mudam; podemos estar tão apaixonados por alguém que duramente poderemos tolerar uma hora distante dele ou dela, mas com o tempo, simplesmente ouvir seu nome pode nos fazer ficar raivosos.

Se entendermos isto, valorizaremos o presente como uma oportunidade preciosa. Temos este momento; não sabemos certamente se teremos outro. Por que desperdiçar esta oportunidade brigando e discutindo, ao invés de criarmos harmonia, alegria e amor?

Refletir sobre a impermanência a cada noite, antes de ir dormir, é um outro modo de se preparar para a morte. Por exemplo, para si mesmo: "Tudo é impermanente; não sei se acordarei de manhã. Muitas não irão. Talvez a próxima coisa que eu saiba é que serei levado para o hospital em uma ambulância." Se você vividamente se imaginar em uma ambulância com apenas algumas horas de vida, um medo tremendo pode surgir. Isto pode ser útil porque você pode praticar no meio deste medo, assim como você aspira fazer quando o medo o apanhar no momento real da morte. Pratique com determinação, sabendo que você não pode agarrar o que está deixando para trás; reze e deixe ir. Visualizando seu objeto de fé - o professor, Buddha, Deus - no topo de sua cabeça, rogue para que você renasça com uma conexão com um caminho espiritual e com a capacidade de beneficiar os outros. Se praticar assim a cada noite, quando a morte chegar você terá alguma confiança e seu hábito de rezar e meditar será de grande benefício.

O milam bardo, ou bardo do sonho, acontece a partir da hora em que vamos dormir até a hora em que despertamos. Ao invés de desperdiçarmos oito ou nove horas por dia dormindo, podemos usar este tempo para fazer yoga dos sonhos. Nossas práticas do dia e da noite então apóiam uma à outra. Olhando para trás, vemos que todas as experiências de nossa vida, que uma vezes pareceram tão substanciais e verdadeiras, agora são apenas memórias, nada mais. Reconhecemos que se somos louvados ou culpados, se estamos felizes ou tristes, todas as condições são como um sonho. Então nossa meditação dará frutos à noite e reconheceremos que estamos sonhando. Quanto mais realizarmos a natureza de nossas vidas - semelhante a um sonho -, menos apego e sofrimento experienciaremos na morte e mais seremos capazes de aplicar os métodos meditativos na hora da morte.

Prática para a Hora da Morte



A capacidade meditativa que desenvolvemos durante os três bardos da vida pode nos capacitar a usar os três bardos da morte e do processo pós-morte como portas para a iluminação. O bardo do momento da morte começa quando as condições que causarão nossa morte - por exemplo, uma doença terminal - surgem pela primeira vez e dura até que os elementos do corpo deixem de funcionar. Através da grande prática do p'howa, ou transferência de consciência, na hora da morte projetamos nossa consciência para um reino puro de experiência como o do Buddha Amitabha ou de uma divindade específica.

Dentro de apenas uma ou duas semanas praticando a transferência de consciência dos três reconhecimentos - um dos cinco tipos de p'howa -, podemos desenvolver a capacidade de direcionar nossa consciência na hora da morte. Os sinais de realização desta prática são óbvios, dando-nos confiança de que este método será efetivo na hora de nossa morte.

Em um reino puro, recebemos ensinamentos do Buddha e meditamos, purificando nosso karma restante e abrindo a porta para a realização. Não retornaremos ao samsara - os ciclos infinitos de sofrimento - devido ao nosso karma, mas teremos o poder de encarnar intencionalmente a fim de beneficiar aqueles que ainda estão pegos na armadilha. Para pessoas muito ocupadas para fazer outras práticas espirituais e atingir a liberação nesta vida, o p'howa provém uma rede segura, um meio de assegurar que sua consciência não será dominada pelos ventos do karma na morte.

Nossa prática de p'howa e nosso entendimento do processo da morte também pode nos ajudar a dar assistência àqueles que estão encarando sua própria morte. Quando ajudar os moribundos, ao invés de segurá-los ou tocá-los, diga, "Agora você está indo. É hora de rezar." Eles devem rezar a quem quer que eles tenham fé. Se forem cristãos, não será útil dizer a eles para rezar ao Buddha. Toque apenas o topo da cabeça, o que atrai a consciência para cima em direção a um reino puro. Tocar qualquer outra parte do corpo pode atrair a consciência para um reino inferior de experiência.

Quando aqueles que amamos estão morrendo, nosso impulso pode ser o de abraçá-los e dizê-los o quão os amamos, mas isto apenas faz sua transição ficar mais difícil pois eles já estão lutando com seu apego a nós e a esta vida. Agora - e não quando eles estiverem no limiar da morte - é a hora de expressarmos esse amor, de dizer as coisas que nunca dissemos. Agora é a hora de sermos pacientes com aqueles que amamos, sabendo que temos apenas um curto período juntos.

Na morte, os cinco elementos do corpo dissolvem-se e todas as energias dos chakras, canais sutis e ventos sutis param de funcionar, assim como os oitenta conceitos de mente ordinária. Por um breve momento, todos os pensamentos cessam completamente e experienciamos o estado desperto aberto, nu e não-obstruído. Esta é a natureza pura e verdadeira de nossa mente, a "clara luz" (não deve ser confundida com a luz no fim de um túnel vista por muitos em experiências de quase morte). Se não praticarmos o reconhecimento do estado desperto nesta vida, não o reconheceremos na hora da morte, durante a primeira fase do chönyid bardo, o bardo do dharmatha ou da natureza verdadeira da realidade. Durante a segunda fase do chönyid bardo, as qualidades puras e incessantes da natureza aberta da mente surgem em uma vívida exibição de divindades pacíficas e iradas. Se - através dos métodos de meditação do Dzogchen, do Mahamudra ou Madhyamika, praticados nesta vida - formos capazes de reconhecer o primeiro ou segundo estágio do chönyid bardo, então a "clara luz mãe", a natureza absoluta da mente, funde-se com a "clara luz filho", o estado desperto que mantivemos através de nossa prática na vida diária. Sua união é a nossa iluminação.

Se não tivermos praticado deste modo em nossa vida, perdemos estas oportunidades para a liberação e a mente projeta-se no próximo estado intermediário, o sipe bardo ou bardo do vir-a-ser. Este é o intervalo entre a dissolução do chönyid bardo e o início do próximo renascimento samsárico.

Aqui, tudo parece como em nossa vida humana. Ainda percebemos nossa casa, as pessoas que amamos. Ouvimos tudo que eles dizem, mas eles não podem nos ouvir. Como não temos mais temos um corpo, elas nem mesmo sabem que estamos lá. Para complicar mais a situação, podemos não saber que estamos mortos. Podemos nos sentar à mesa com nossa família e nos espantarmos porque ninguém nos passa a comida. Podemos não entender porque quando fazemos uma pergunta, ninguém responde. Isto traz uma tristeza insuportável. E uma vez que percebamos que estamos mortos, um medo incrível surge.

Nosso apego às pessoas e posses de nossa vida passada pode nos atar ao bardo do vir-a-ser, ficando difícil de nos movimentarmos. Esta é uma razão pela qual é importante fazer um testamento - não importa o quão jovens somos ou quão poucas posses tenhamos. Podemos pensar que isto não importa, já que perderemos tudo de qualquer modo. Mas importa porque este ato de generosidade cria um grande mérito que vai conosco através da passagem da morte e na experiência futura. Se não tivermos um testamento, apesar de nenhuma não-virtude ser criada, nenhuma virtude será criada também.

Tendo escrito um testamento de antemão, na hora da morte não teremos arrependimento sobre assuntos não finalizados. De outro modo, sentiremos um apego tremendo às coisas que desejamos ter feito ou às pessoas das quais não cuidamos; esse apego pode não apenas fazer nossa partida ser mais traumática, mas pode nos atar no sipe bardo.

O sipe bardo inclui quatro estágios de sons extremamente amedrontadores e três estágios de experiências de lugares amedrontadores. Se nesta vida desenvolvermos uma forte fé e um hábito de rezar quando as coisas tornam-se difíceis, não importa qual seja nossa tradição espiritual, este hábito permanecerá conosco quando estivermos no sipe bardo. O poder da prece é muito maior lá do que neste reino humano, onde estamos atados por nosso corpo. Quando rezamos no sipe bardo, nos fundimos com o objeto da prece e renascemos em um reino de experiência puro.

A Importância de Praticarmos Agora



A prática e preparação espirituais não são apenas para pessoas mais velhas. Uma pessoa mais jovem pode facilmente morrer por causa de um grande número de causas, antes de morrer uma pessoa mais velha e terminantemente doente. Nenhum de nós sabe quando morreremos. Não temos tempo para nos atrasar pensando, "Treinarei minha mente e farei minha prática espiritual no mês que vem ou no ano que vem". O senhor da morte pode não esperar que nós façamos isso. Nossa situação neste corpo humano é como o de alguém alugando uma casa. Não a possuímos e não temos um contrato. Não temos um acordo sobre o quanto podemos ficar. A qualquer momento, o proprietário pode nos jogar para fora e estaremos sem poder para fazer qualquer coisa a respeito disto. Não precisamos consultar um paranormal ou olhar com o olho de sabedoria para saber o quão tentadora nossa existência é. Tudo o que precisamos fazer é assistir as notícias à noite. Muitas pessoas morrem a cada dia por causa de acidentes, guerra, fome e de uma miríade de outras condições. A vida humana é tão frágil quanto a chama de uma vela em um vento forte: a qualquer momento ela pode ser extinta. Não sabemos quanto tempo temos, mas podemos estar certos de que um dia perderemos esta vida. Não podemos nos permitir desperdiçá-la.

Muitas pessoas aqui no Ocidente estão se esforçando para criar uma nova tradição sintetizando elementos de diferentes caminhos. Mas não há tempo o bastante para tentar uma nova conexão. Podemos descobrir muito tarde que isso não funciona. É mais seguro confiar em uma tradição experimentada e verdadeira que se provou durante os séculos. Apesar de eu ter estudado, praticado e de agora ensinar dentro da tradição buddhista, não digo isto por apego ao buddhismo como sendo o único caminho espiritual ou por um desejo de propagar os ensinamentos. Ao invés disto, sei a partir de minha própria experiência que estes ensinamentos e métodos podem ser de grande benefício, não apenas na hora da morte, mas durante toda a vida. Pode parecer que tudo está indo bem, mas as coisas podem mudar rapidamente. Experienciei muitas dificuldades em minha vida. Minha mãe morreu quando eu tinha onze anos. Depois perdi meu país, a maior parte de minha família e tudo o que era familiar a mim: meu monastério, monges e alunos. Eu era um entre nove refugiados tibetanos que comeram juntos na Índia na mesma mesa, como uma família. Dentro de cinco ou seis meses, cinco destas pessoas morreram.

O que aprendi é que quando sofremos e nossas circunstâncias são muito difíceis, nosso melhor ajudante é o caminho espiritual. Os amigos mundanos `às vezes estão lá para nós, mas não sempre. De fato, durante os tempos mais difíceis, aqueles com que pensamos que poderíamos contar muitas vezes não são tão amigáveis assim. Quando estamos bem, podemos ter muitos amigos ou parentes ao nosso redor, mas se estivermos pobres e sofrendo, eles podem desaparecer. Se você desenvolver sua prática espiritual, ela será algo sobre a qual pode confiar. Ela sempre estará lá; é infalível. Não pode ser roubada, perdida ou colocada no lugar errado. Ela estará com você nesta vida, no momento da morte e depois da morte. Por esta razão, do meu coração, imploro a vocês que não neguem o caminho espiritual.



Este livreto foi produzido a partir da transcrição de um ensinamento dado por Chagdud Tulku Rinpoche em traduzido por Lisa Leghorn em Seattle, Washington, em novembro de 1994. Possam todos os seres se beneficiar!

segunda-feira, 3 de dezembro de 2007

Quando Morremos



por Hsing yun - Do livro "Ensinamentos Fundamentais do Budismo Ch’an"









Hoje vamos discutir o processo da morte e o que ocorre após a morte. Não é um assunto fácil. Se eu contasse que depois da morte há muito sofrimento, vocês poderiam sentir medo da dor que teriam que enfrentar. Com essa atitude mental, vocês podem não compreender a verdadeira natureza da morte. Se eu lhes revelasse que a vida após a morte é serena e pacífica, vocês talvez me interpretassem de maneira errônea e pensassem que a morte é maravilhosa e que ela é sinônimo de estar liberado. Portanto, a única coisa que posso dizer é: "A vida não é necessariamente alegre e a morte não é necessariamente miserável".
Havia um homem rico que teve um filho em seus anos tardios de vida. Quando o menino nasceu, a casa se encheu de convidados que tinham vindo saudar o novo pai. Entre eles havia um mestre Ch’an que não parecia compartilhar do clima festivo ao seu redor. E, de fato, logo ele começou a chorar. O homem rico ficou confuso e perguntou: "Mestre, há algo errado? Porque está tão aborrecido? O mestre Ch’an respondeu tristemente: "Eu choro porque vocês adicionaram mais um nome ao número de mortos da sua família."
Uma pessoa iluminada vê o nascimento como uma extensão da vida e a morte como o começo de uma outra vida. Nascer não diz respeito apenas à vida nem a morte quer dizer apenas morrer. Quando olhamos para o nascimento e para a morte como uma coisa só, o que há para ser comemorado ou para ser lamentado?
Quando vemos alguém com cem anos, com freqüência o saudamos dizendo: "Que você possa viver para comemorar 120 anos!" Todos os anos, no Dia da Lembrança (Remembrance Day, um feriado em Taiwan, festejado em 9 de setembro) o governo homenageia os idosos e celebra a sua longevidade. Vamos pensar sobre isso por um instante. Seria mesmo o fato de alguém chegar a 120 anos realmente uma razão para celebrar? Se um homem vive até os 120 anos, seu filho de cem anos pode um dia ficar doente e morrer. Um após o outro, seu neto de oitenta anos e seu bisneto de sessenta anos, também podem morrer. Esse homem idoso poderia não usufruir da alegria de passar o tempo com seus netos. Ao sobreviver à morte de seus filhos e de seus netos, ele ficaria sozinho. Na vida de uma pessoa, não há nada mais difícil de suportar do que a perda de um filho. Portanto longevidade não significa necessariamente felicidade. Na maioria das vezes, com ela vem a solidão, a carência e a debilidade física.
Não deveríamos ser obsessivos em relação à longevidade nem tampouco temer a morte. A menção da morte freqüentemente provoca várias imagens atemorizantes nas pessoas. Na cultura chinesa, os mortos são muitas vezes retratados sendo punidos, tendo de subir montanhas de facas ou sucumbindo em potes de óleo fervendo. Se nós pudéssemos de fato entender a morte, veríamos que morrer não é muito diferente de tirar um passaporte que nos permita atravessar para um outro país. Que liberdade! A morte é um caminho que nós todos devemos atravessar. Como podemos fazer para encarar a morte de forma a nos sentirmos preparados e não assustados? Para fazer isso, precisamos primeiro entender a morte. E é sobre a natureza da morte que eu gostaria de discutir nos tópicos que se seguirão.


I. O Momento da Morte e o Estado de Morte


Apesar de todos termos vivido e morrido através de inumeráveis renascimentos, nenhum de nós se lembra da experiência da morte. Não sabemos o que a morte realmente é. De acordo com os sutras, quando morremos ainda estamos totalmente conscientes de tudo o que está à nossa volta. Podemos ouvir a voz calma do médico ou os lamentos da nossa família. Podemos ainda ver pessoas se juntando ao redor de nosso corpo, tentando mover nosso corpo que agora está sem batidas de coração e respiração. Podemos nos preocupar com as várias coisas que necessitam ainda ser completadas. Podemos sentir a nós mesmos nos movendo entre nossa família e amigos, querendo dizer a eles o que deveriam fazer. Mas, todos estão cheios de tristeza e ninguém pode nos ver ou escutar.
No Reader’s Digest, saiu uma vez um artigo sobre a experiência de quase-morte de um homem. Um dia, enquanto dirigia, ele sofreu um grave acidente; o carro ficou completamente destruído, e ele morreu na hora. Quando a ambulância, os médicos, a polícia e sua família chegaram ao local, sua consciência já havia deixado seu corpo e ele se sentiu flutuando no ar. Podia ouvir um rumor, um grupo de pessoas discutindo sobre como o acidente ocorrera. Então ele foi até o oficial de polícia e tentou contar-lhe o que de fato ocorrera. Mas o oficial não podia nem vê-lo nem escutá-lo. A essa altura, ele só tinha sua consciência e já não tinha mais a posse de seu corpo. Finalmente ele tomou consciência de que estava flutuando fora de seu corpo, vendo seu próprio corpo como um observador. Em seguida, se encontrou passando, numa velocidade incrível, através de um túnel longo, escuro e estreito.
Uma outra pessoa também relatou sua experiência de quase-morte após sofrer um ferimento grave na cabeça e ser trazida de volta de seu leito de morte. Ela conta: "Lembro que minha cabeça fez ‘boom’ e perdi a consciência. Depois, senti apenas uma sensação de estar aquecido, confortável e em paz". Isto porque no momento que nossa consciência deixa o corpo, ela não mais está confinada e pode sentir um nível de conforto e serenidade que não teria experimentado antes. Uma outra pessoa também disse o mesmo de sua experiência de quase-morte: "Quando estava morrendo, tive uma sensação extremamente boa e pacificadora". Outro homem descreveu sua experiência dessa maneira: "Senti que estava leve como uma pluma. Eu voava livremente em direção a um mundo de luminosidade!". A morte pode não ser tão amedrontadora e horrível como nós imaginávamos.
Nos sutras está escrito que nossa vida nesse mundo é incômoda e desajeitada, não diferente da situação de uma tartaruga curvada sob o peso de sua carapaça. Quando morremos, podemos nos livrar desse peso e transformar uma existência que estava confinada pelos limites do corpo físico. Porém, quando estamos diante da morte, a maioria de nós ainda tenta se apegar às sete emoções mundanas e aos seis desejos sensuais. Ainda não conseguimos nos desprender de nossos filhos, filhas, netos ou de nossos bens. Não queremos morrer e não aceitamos a morte graciosamente. Pensamos na morte como uma experiência dolorosa, como quando se rasga o casco de uma tartaruga viva. O Budismo não compartilha dessa visão da morte. O Budismo nos ensina que quando morremos, nos libertamos desse corpo e nos sentimos extremamente à vontade e livres. É como se tirássemos das costas um grande peso. Como isto é leve e livre!
Independente de sermos espertos ou lerdos, bons ou maus, todos nós temos de encarar a morte. A morte não é uma questão de se, mas uma questão de quando e de como. Até mesmo um imperador poderoso como Chin-shih, que unificou a China, tornando-se o seu Primeiro Imperador, não conseguiu encontrar uma maneira de prolongar sua vida. O lendário Peng Tsu pode ter vivido até oitocentos anos, mas cosmológicamente sua vida foi curta como a de um inseto, que vive apenas do alvorecer ao anoitecer. Todos os seres que vivem devem, sem exceção, também morrer. A diferença só reside nas circunstâncias da morte. Os sutras dividem as circunstâncias da morte em cinco categorias.


1. Morte a partir da exaustão do tempo de sua vida


Isto é o que é chamado morrer de velhice. É como uma chama trêmula que morre naturalmente quando seu suplemento de óleo se exaure. Nós todos gostamos de viver uma longa vida, mas a vida humana tem um limite. A vida continua somente a cada inspiração nossa, mas tão logo cessamos de respirar, morremos e retornamos à terra. Há um ditado que diz: "Alguns vivem somente do amanhecer ao entardecer. Outros nascem na primavera ou verão e morrem no outono ou inverno. Alguns vivem por dez anos, ou cem, ou até por mil anos. Podemos viver por um período curto ou longo de tempo, mas há realmente uma grande diferença nisso?" O que esse ditado quer dizer é que nossa vida tem um limite e ninguém escapa dessa realidade.


2. Morte a partir da exaustão de seus méritos


Está escrito nos sutras: "Os seres humanos não entendem da vida e da morte; os olhos humanos não discernem méritos e deméritos (cármicos)". A vida é como uma bolha de ar na superfície da água; quando o ar dentro da bolha se dissipa, a bolha não mais existe. Depois que um homem rico tiver esbanjado sua fortuna, ele se torna pobre. Similarmente, quando nós tivermos exaurido nossos méritos, a morte brevemente virá bater à nossa porta.


3. Morte causada por acidentes


Isto é o que chamamos de "morte prematura". A pessoa morre quando não era previsto. Pode ser em um acidente de carro, numa emboscada de guerra, assassinado por um inimigo, ou atacado por uma fera. Essas mortes são repentinas ou inesperadas. Há um provérbio chinês que é uma boa descrição desse tipo de morte súbita: "Enquanto alguém continua a respirar, as possibilidades são abundantes. Quando a morte chega, tudo vai para um estar parado".


4. Morte desejada


As três circunstâncias de morte descritas acima são imprevisíveis e incontroláveis. Ao contrário, na morte desejada não cabe incerteza e ela pode ser planejada. No Budismo, isto é com freqüência descrito como "vivendo e morrendo como se quer". Há muitos grandes mestres e sábios budistas que podem nascer e morrer como querem. Eles não são controlados pelo nascimento e morte, pois estão em completa consonância com o existir simultâneo e o rompimento das causas e das condições. O mestre Tao-an da Dinastia Chin do leste é um exemplo perfeito de tais grandes mestres. Ele tinha controle total do momento de abrir mão da sua vida. Em 8 de fevereiro do vigésimo ano da era Chien-yuan, ele reuniu seus discípulos no grande vestíbulo do templo em Chang-an. Após ter rezado e reverenciado ao Buda, ele calmamente disse aos seus discípulos: "Vou deixá-los agora! Todos vocês devem continuar a propagar as palavras do Dharma e despertar os ignorantes de sua ilusão".
Todos ficaram chocados e imploraram: "Mestre, és tão saudável e forte. Deverias viver por um longo tempo para continuar o trabalho do Buda. Como podes parar e nos deixar agora? É hora do almoço; por favor, almoce primeiro."
Tao-an respondeu: "Bom, eu comerei um pouco" E tendo dito isso, comeu seu almoço como de costume, voltou ao quarto para descansar e morreu enquanto descansava. O mestre Tao-an morreu conforme desejava, completamente livre de dor e sofrimento. Se nós praticarmos o Dharma diligentemente, podemos ficar livres do carma, a força que nos liga à morte. Nós também podemos alcançar a iluminação e entrar no nirvana.
Agora que nós discutimos as circunstâncias da morte, vamos colocar nosso foco em outro aspecto da morte.

Quais são as sensações que a acompanham?


Os sutras nos falam de três sensações que experimentamos na morte:


1. O desequilíbrio do grande elemento terra1


Quando se morre de uma doença do corpo, a sensação é de afogamento e é como se o corpo fosse um torrão afundando no oceano. Vagarosa e gradualmente, o corpo é imerso e a pessoa sente-se sufocar. A sensação associada a esse tipo de morte é descrita como "o grande elemento terra sendo abarcado pelo grande elemento água".


2. O desequilíbrio do grande elemento água


Quando se morre de doenças circulatórias, a sensação inicial é a de ser submerso em água e a pessoa sente-se molhada e fria. Em seguida, essa sensação de frio dá lugar a uma queimação e a pessoa sente muito, muito calor. A sensação associada a esse tipo de morte é descrita como "o grande elemento água sendo tragado pelo grande elemento fogo".

3. O desequilíbrio do grande elemento fogo


Quando se morre de doenças pulmonares, a sensação é de estar queimando como um grande incêndio ao entardecer. Então o corpo sente uma dor como se fossem mordidas e como se estivesse sendo despedaçado por fortes ventos e espalhado como cinzas. A sensação associada a esse tipo de morte é descrita como "o grande elemento fogo sendo engolido pelo grande elemento vento".
Vamos agora discutir o que acontece imediatamente após a morte e antes de nosso próximo renascimento. Os sutras nos contam que a sensação imediatamente após a morte não é de todo desagradável, porque quando morremos nosso corpo se transforma de uma forma finita e limitada para um estado sem formas e sem limites. Pode parecer um pouco surpreendente, mas existem três boas razões para explicar isso:


1. O limite do tempo e do espaço


Quando estamos vivos, somos limitados pelo tempo e pelo espaço. Não podemos viajar simplesmente desejando ir até um certo lugar e não podemos reverter o processo de envelhecimento que a passagem do tempo nos traz. Ao morrer (e antes de nosso próximo renascimento) somos liberados dos limites do nosso corpo físico e nossa verdadeira natureza pode se mover livremente através dos três reinos da existência.


2. O fardo do corpo


Está escrito no Dhammapada, "O corpo físico é a causa de todos os sofrimentos no mundo. Os sofrimentos que nascem da fome e sede, calor ou frio, raiva ou medo, luxo, desejos, ódios e tragédia — todos têm raízes na existência do corpo". Quando estamos vivos, gastamos muito tempo cuidando do nosso corpo. Quando sentimos fome, temos de comer; quando sentimos frio, temos que colocar mais roupa. Quando nos sentimos doentes, temos que aliviar a dor. Se pararmos por um momento e prestarmos atenção, saberemos que muitas de nossas preocupações vem do corpo. Após a morte, a consciência não mais está restrita pelos limites do corpo e todos os problemas associados a um corpo físico também se extinguirão com ele. Não há mais fome nem doença. Uma grande carga é tirada de nossos ombros.


3. O elemento sobrenatural


Enquanto estamos vivos, nossas faculdades são limitadas pelo nosso corpo. Após a morte, não mais estamos cerceados pelas leis da física. Seremos capazes de ver coisas que não podem ser detectadas pelo olho humano. Seremos capazes de ouvir sons que não podem ser ouvidos pelo ouvido humano. Seremos capazes de flutuar no ar, pois a força da gravidade não nos diz respeito mais. Nesse estado, paredes não serão capazes de nos deter e seremos capazes de viajar simplesmente com a força do nosso desejo.
A morte não é um fim; não é uma finalidade. Ao contrário, é o começo de uma nova existência. Quando morremos, o corpo físico para de funcionar, mas a consciência continua viva. Durante o tempo que se segue logo após a morte e antes do próximo renascimento, a consciência está num estado conhecido no Budismo como um "estado intermediário do ser". Dependendo do carma acumulado em vidas anteriores, um ser intermediário renascerá em um dos seis reinos. Uma vez renascido, todas as memórias de vidas passadas se perderão. Isso é chamado "confusão do renascimento". Por isso não conseguimos ter acesso a nenhuma memória das nossas vidas anteriores. Um poema escrito pelo Imperador Shun Chin explica bem isso: "Quem era eu antes de nascer? Quem sou eu após meu nascimento? Se esse homem crescido sou eu, então quem é aquele [que vai viver] após minha morte?"
Realmente não é importante saber sobre nossas vidas passadas ou futuras. Dos ensinamentos budistas, nós apreendemos que nunca morremos. O que morre é o corpo físico, uma combinação dos quatro grandes elementos. Enquanto o corpo físico morre, a consciência continua sem interrupção. Quando aprendemos que o corpo físico é tão permanente como uma bolha d’água, começamos a ver as ilusões do mundo que nos circunda. Podemos então aceitar a morte sem reservas.


Julgamento após a Morte e o Próximo Renascimento


Comumente pensamos sobre os que partiram e refletimos em quais tipos de situação eles podem estar. Na cultura budista chinesa, é costume rezar pelos mortos durante a celebração do ano novo e em vários outros feriados. Isso é benéfico se for feito em atenção e respeito aos pais que se foram ou aos que amávamos. A maioria das pessoas, porém, acredita erradamente que quando seus pais morrem transformam-se em fantasmas no inferno e então encomendam serviços religiosos na esperança de que eles descansem em paz. Na verdade, isso é bastante desrespeitoso em relação aos pais falecidos, pois só os que cometeram graves erros renascerão como fantasmas famintos ou seres demoníacos. Será que achamos que nossos pais não eram virtuosos? Por que não podemos supor que nossos pais tenham ido para o reino celestial ou que renasceram na Terra Pura do Buda do Ocidente, Terra da Bem-aventurança.
Várias religiões acreditam que ao morrermos, seremos julgados em relação à forma como conduzimos nossas vidas. A religião popular da China acredita que após a morte, compareceremos diante do Rei Yama, que nos julgará. Os cristãos acreditam que ao morrermos, estaremos diante de Deus, que decidirá se seremos bem recebidos no céu ou condenados ao inferno. Os budistas também acreditam no julgamento após a morte. A diferença é que não seremos julgados pelo Buda, pelos bodhisattvas ou pelo Rei Yama, mas por nosso carma. O conjunto de carma positivo e negativo de nossas ações passadas vai determinar em que reino de existência nós renasceremos e as condições nas quais iremos renascer. Nos ensinamentos budistas, apreendemos que nossa felicidade ou miséria não são controladas pelas divindades, mas estão em nossas próprias mãos.
Para onde se vai após a morte? Algumas pessoas acreditam que a morte é o capítulo final da vida, que não existe nada após a morte e, muito menos, que se possa renascer. Para elas a vida é curta e frágil. Em função de sua visão da morte, olham a vida com ceticismo e ansiedade. Em vez de enxergar a vida como um tesouro e fazer o melhor uso dela, essas pessoas vêem a vida apenas como uma oportunidade de mergulhar nos prazeres e satisfazer os sentidos. Como não olham a vida e a morte no contexto da Lei de Causa e Efeito estão prontas para fazer o que quer que seja, legal ou ilegalmente, para conseguir alcançar seus objetivos pessoais. Tal visão da morte e, portanto, da vida é errônea e pode nos levar à perdição. Embora os cristãos sejam diferentes dos budistas na forma como vêem esse julgamento final, eles também acreditam na existência do céu e do inferno e que há uma vida após a morte. No Budismo, acreditamos que depois de morrermos, vamos renascer em um dos seis reinos da existência. De fato, existe um verso que pode ajudar os parentes dos que faleceram, a saber, em qual reino seus entes queridos renascerão: "Os iluminados emergem da cabeça, os seres celestiais se elevam aos céus através dos olhos. Os humanos emergem do coração e os fantasmas famintos do estômago. Animais saem pelos joelhos e os seres demoníacos, pelos pés."
Esse verso quer dizer que: a última parte do corpo que se mantém quente indica o reino no qual o morto irá renascer. Se uma pessoa morre e seus pés forem os primeiros locais a ficarem frios e a cabeça for a última, significa que o morto atingiu o sagrado fruto da iluminação. Se os olhos forem os últimos lugares a permanecerem quentes, significa que a consciência partiu através dos olhos e que a pessoa renascerá no céu. Caso seja o coração o último lugar a permanecer quente, ela renascerá como um ser humano. Se o ventre se mantiver quente por um longo tempo, ela terá caído no reino dos fantasmas famintos. Se apenas os joelhos ficarem quentes, ela renascerá como animal. Se forem os pés a ficarem quentes por último, ela cairá no inferno.
Em que reino de existência, nós renasceremos? Como é que isso é decidido? Tudo depende do carma positivo e negativo acumulado em nossas ações passadas. Como diz esse ditado: "Se você quiser saber sobre sua vida futura, só o que tem a fazer é refletir sobre sua vida presente". Existem três tipos de forças cármicas que determinam em que reino e em quais condições se dará nosso próximo renascimento. Essas forças cármicas são moldadas segundo:


1. O peso relativo de nosso carma positivo e negativo


A maneira como essa força cármica atua pode ser comparada à forma como um auditor de banco lida com as contas dos seus clientes; os que devem muito dinheiro devem ser cobrados primeiro. Quando se morre, o peso relativo do bom e do mau carma determinará o renascimento da pessoa. A pessoa que fez muitas ações positivas renascerá em um reino bom, enquanto a pessoa com muito carma negativo renascerá num dos três reinos de sofrimento. O princípio por trás disso é simples como o ditado: "O bem cria o bem, o mal cria o mal".

2. Nossos hábitos


No Budismo, nós acreditamos que os hábitos de uma pessoa podem afetar o seu renascimento. Se alguém tem o hábito de recitar o nome do Buda Amitabha, sua mente tem grandes chances de estar com Amitabha. Se essa pessoa se depara com um acidente e se lembra de recitar o nome do Buda Amitabha no momento de sua morte, esse gesto pode ajudá-la a renascer na Terra Pura da Bem-aventurança.


3. Nossos pensamentos


O renascimento de uma pessoa está intimamente relacionado com seus pensamentos diários. Se a pessoa é devotada aos caminhos do Buda, então renascerá na Terra Pura. Se a pessoa é compromissada com o céu e suas práticas estão de acordo com ele, renascerá em um reino celestial. Portanto em nossa prática diária é importante discernir os tipos de pensamentos nos quais ancoramos nossa mente.
Mas independentemente do fato de nosso renascimento estar ligado ao peso do nosso carma, à força de nossos hábitos ou ao poder de nossos pensamentos, devemos sempre nos ater ao pensamento correto, praticar o bem e evitar causar o mal. Dessa forma, não precisamos ter medo nem do julgamento nem da morte.


Costumes Quanto aos Funerais e a Forma de se Olhar a Morte


Diferentes culturas têm diferentes maneiras de lidar com o corpo do morto e os costumes variam quanto ao sepultamento. Algumas das diferentes maneiras de preservar o corpo incluem o congelamento, a desidratação, a dissecação e a mumificação.
Alguns povos enterram seus mortos enquanto outros os cremam. Alguns lançam os corpos ao mar, outros os deixam a céu aberto. A maneira como os budistas tratam os mortos é bastante similar a de outras culturas descritas acima, com duas grandes distinções. Primeiro, os budistas defendem a prática de não mover o corpo até oito horas após a morte. Segundo, recomendam que nós não deveríamos chorar alto próximo ao corpo, pois nosso choro perturba o morto.
Porque não se deve mover o corpo até oito horas após a morte? Realmente, há uma base científica para esse costume budista. Depois que os pulmões pararam de respirar e o coração parou de bater, o sistema nervoso pode ainda continuar a funcionar. Algum grau de consciência também pode ter restado no subconsciente. Embora possa estar clinicamente morta, a pessoa não está ainda completamente morta. Portanto quando alguém morre, não deveríamos mover a pessoa mesmo que esteja deitada, sentada ou reclinada na cama. Se tentarmos mover o corpo poderemos estar causando ao morto, desconforto que, por sua vez, pode provocar ressentimento e raiva. Como o estado da mente do morto influencia seu renascimento, é aconselhável não mover seu corpo por oito horas após a morte.
Na literatura budista, existe uma história de como perturbar o corpo do morto, ainda que sem intenção, pode ter conseqüências nefastas. Uma vez um rei, que era um budista devoto morreu. A família real se reuniu ao redor do corpo e ficou de vigília. Aconteceu que um mosquito pousou no nariz do rei. Um membro da família real tentou enxotar o mosquito, mas não conseguiu e terminou por bater no rei. O rei ficou muito perturbado e com raiva. Por conta disso, renasceu como serpente.
Há uma outra razão pela qual devemos esperar oito horas antes de mover o corpo de um morto. Durante a prática da meditação sentada, é possível entrar em um estado de concentração meditativa no qual o pulso se torna quase imperceptível. Para os que não estão familiarizados com a prática da meditação, a pessoa em concentração meditativa parece morta. Havia uma história de um velho monge que entrou em estado de concentração meditativa enquanto realizava sua prática. Quando seu jovem discípulo tomou seu pulso e descobriu que ele não estava respirando, pensou que o monge havia morrido. Desta forma, o corpo foi cremado. Quando o velho monge saiu de seu estado de concentração, não conseguia encontrar seu corpo. Logo, as pessoas no templo começaram a ouvir o monge chamar dia e noite: "Onde está a minha casa? Onde está a minha casa? Irritadas com o choro, as pessoas no templo, pediram ajuda a um grande amigo do monge. O amigo chegou ao templo e sentou-se em silêncio. Quando o velho monge chamou pela sua casa (isto é, por seu corpo), seu amigo disse-lhe bem alto: "Simplesmente vá. Por que você ainda quer se incomodar com uma casa?". Quando o velho monge ouviu isso, instantaneamente atingiu a iluminação e nunca mais procurou por sua casa.
Nos tempos antigos, quando não havia nenhum método certo para se saber se uma pessoa havia, de fato, morrido, o costume budista de não mover o corpo do morto por oito horas era uma proteção contra os erros. Num livro intitulado A Verdade da Morte, há um capítulo sobre um homem que, por engano, foi considerado morto. Ora, existe um costume chinês de se exumar e juntar os ossos dos mortos alguns anos após sua morte. Muitos anos se passaram, até que a família decidiu que era tempo de abrir o túmulo e recolher os ossos do homem. Quando abriram o caixão, ficaram horrorizados ao encontrar sua cabeça virada e seus membros dobrados na posição fetal. A família se deu conta que havia errado ao considerá-lo morto, quando ele tinha apenas desmaiado. Que horror deve ter sentido quando despertou e se encontrou num caixão. Dessa forma, o costume budista de não mover o corpo do morto por oito horas não é sem razão. Isso também permite à família um tempo para se acalmar e ao morto um momento de paz e silêncio.
Ao longo das oito horas do período de espera, é ideal que a família ajude o morto recitando o nome do Buda. Dessa maneira, ele pode repousar sua mente no nome do Buda enquanto faz sua viagem para um outro renascimento. Devíamos lembrar de não chorar perto do morto. Se não conseguimos nos controlar e precisarmos chorar, devemos fazer isso longe dele.
Embora o corpo possa estar duro e frio, a consciência ainda pode estar hesitando. Nossa tristeza pode causar bastante problema para o morto e se tornar um obstáculo para seu movimento em direção a um outro renascimento.
Será realmente necessário lamentarmos a perda de alguém que morre? Podemos pensar na morte como uma partida para umas férias e podemos nos regozijar pela alegre e agradável viagem que ele empreende.
Quando nossos entes queridos morrem, devemos pensar neles indo para o paraíso ou se transformando em Budas. Podemos pensar na morte como uma mudança para a Terra Pura da Bem-aventurança. Uma terra onde o sofrimento não pode ser encontrado. Isso não é maravilhoso? No Budismo, nós olhamos a morte como o início de uma nova vida, como uma crisálida se metamorfoseando em uma linda borboleta, ou um pintinho saindo de sua casca. Porque que nós, que estamos vivos, sentimos tamanho pesar pelos que morrem?
Em relação aos preparativos funerários, o Budismo apóia a cremação. É ao mesmo tempo conveniente e higiênico, especialmente em áreas densamente populosas. Diferentemente de se enterrar o corpo, cremar não requer muito espaço; é também relativamente barato.
Lembro de um monge mais velho falar para mim: "Depois que eu morrer, por favor, jogue minhas cinzas no oceano para os peixes e camarões. Dessa maneira, posso construir algumas relações causais com as criaturas do oceano". Isso é uma maneira tão solta de olhar a vida e a morte - um grande contraste à tendência egocêntrica que a maioria de nós possui. Algumas pessoas são muito egoístas e gananciosas. Quando estão vivas, querem adquirir esse ou aquele pedaço de terra para si próprias. Quando morrem, querem competir com os vivos por melhores e mais espaçosos terrenos para sua última morada. Que absurdo!
Alguns de vocês podem dizer que um funeral budista é digno, mas extremamente simples. Como é possível mostrar nosso amor pelo morto se não fazemos uma cerimônia elaborada ou não o enterramos em um túmulo suntuoso? Eu acredito que a resposta para essa pergunta tem mesmo a ver com a visão que cada um tem da morte. Se pudermos nos liberar da vida e da morte, não estaremos restringidos por costumes sociais que dizem o que é ou não adequado para um funeral. Chuang-tzu, um antigo e famoso filósofo chinês, foi alguém que não se sentiu preso aos costumes sociais. Quando estava morrendo, seus discípulos se juntaram ao seu redor para discutir sobre os arranjos do seu funeral. Chuang-tzu, que acompanhava a discussão, riu e disse: "O céu e a terra são meu caixão, o sol e a lua são meus tesouros, as estrelas são minhas pedras preciosas. Isso já não é suficiente? Existe alguma coisa mais grandiosa?"
Os discípulos estavam descrentes e responderam: "Nós não podemos fazer isso. Se deixarmos seu corpo para fora os corvos e as águias virão bicá-lo. É melhor usarmos um caixão adequado".
Chuang-tzu riu e disse: "Que diferença faz? Se vocês deixarem meu corpo para fora os corvos e as águias virão bicá-lo. Se enterrarem meu corpo num caixão, as formigas e as larvas vão se alimentar da minha carne. Por que vocês roubam dos corvos para alimentar as formigas? Por que são tão injustos?"
Não basta ter um funeral adequado, devemos também ter uma perspectiva adequada em relação à morte. Se pudermos cortar os gastos nos arranjos de um funeral e utilizar esse dinheiro para caridade, estaremos ajudando os mortos a deixarem seu amor como herança para os vivos. Se as circunstâncias permitirem, não deveríamos hesitar em doar órgãos para salvar a vida dos que precisam. Quando temos a perspectiva correta perante a morte, então teremos a possibilidade de conduzir os arranjos de funeral com tal sabedoria e de tal forma que ambos, vivos e mortos, serão beneficiados.
Como os budistas vêem ou não vêem a morte? Os budistas não olham a morte como aniquilação ou sono eterno. Os budistas vêem a morte como um mudar-se de uma casa para outra ou de uma situação para outra. Nos sutras existem muitas metáforas para a morte.


1. A morte é como nascer novamente


A morte é o início (de uma nova vida); não é um fim. O processo da morte pode ser comparado a extrair o óleo de sementes de gergelim ou de fazer manteiga a partir do leite.


2. A morte é como uma formatura


A vida de uma pessoa pode ser comparada à vida escolar de um jovem e a morte, à sua formatura. Quando se forma, as notas que ele recebe dependem do quanto ele foi bom ou mau aluno. Da mesma forma, quando morremos, as circunstâncias nas quais renasceremos dependem do bom e do mau carma que acumulamos.


3. A morte é como se mudar


Quando há nascimento, há morte. A morte é como se mudar de uma casa antiga para uma casa nova.


4. A morte é como trocar de roupa


Morrer é como tirar a roupa antiga, já gasta e colocar roupas novas. Quando entendemos que todas as experiências na vida são nuvens flutuantes passando em frente aos nossos olhos, veremos então que o corpo nada mais é do que um artigo de roupa.


5. A morte é renovação


Nosso corpo experimenta processos metabólicos todos os segundos. Novas células são criadas enquanto células antigas morrem. O ciclo de nascimento e morte é como o processo de criar células novas para repor as células antigas.
Quando temos a perspectiva correta sobre morte, não há por que temê-la. O que deve nos preocupar não é o quando morremos, mas o que acontece após a nossa morte. A maioria de nós passa a vida pensando apenas em se divertir e em aproveitar. Gastamos nosso tempo atrás de fama e de fortuna, sem termos uma visão clara de para onde estamos indo. Sem um propósito e uma direção claramente definidos, a vida não tem sentido. O que é fama e fortuna quando nos encontramos em nosso leito de morte? Quando sabemos como viver a vida, sabemos como lidar com a morte.

Confúcio uma vez falou:
"Se não entendemos a vida, como podemos compreender a morte?". Não deveríamos ficar consumidos pelo medo de morrer, que é em si um processo físico. O que é mais trágico é viver nossas vidas na ilusão e na ignorância; podemos estar vivos no corpo, mas mortos no espírito. Por essa razão decidi falar sobre a morte. Espero que nossa discussão de hoje possa ajudar cada um de nós a despertar do pesadelo da morte. A tarefa urgente a ser feita é enxergar a vida e a morte no contexto da impermanência, do sofrimento e do vazio. Se nós assim fizermos, encontraremos o significado de vida e morte".


IV. Mortes Inusitadas e Mortes Extraordinárias


Alguns de vocês podem perguntar: Como pode a morte ser maravilhosa e extraordinária? Se fizermos uma pausa e pensarmos nisso com cuidado, descobriremos que a noção de uma morte maravilhosa não é artificial. Quando temos uma correta compreensão dos ensinamentos do Buda, vemos através do manto do mistério da morte e ficamos totalmente em paz sobre a vida e a morte. O mestre Ch’an, Shan-chao de Fen-yang falou muito bem sobre isso: "Cada um de nós vive por todos os seres e morre por todos os seres".
Existe uma história maravilhosa sobre a maneira como Shan-Chao morreu. Quando ele ainda estava vivo, havia um poderoso magistrado chamado Lee Hou. Lee sempre quis que Shan-chao se tornasse o abade do templo de Cheng-tien e ofereceu-lhe a posição de mestre em três diferentes ocasiões. E como o mestre repetidamente não aceitava a oferta, Lee ficou furioso. Então mandou um mensageiro ir até o mestre e pessoalmente trazê-lo para o templo. Quando o mensageiro ia partir, o magistrado disse: "Preste bem atenção, se você vier sem o mestre sua vida não será poupada!". O mensageiro ficou petrificado. Foi até o mestre Ch’an e implorou a ele que o acompanhasse ao templo Chen-tien. Ao saber do destino que o mensageiro teria caso não cumprisse a ordem do magistrado, o mestre percebeu que não tinha muita escolha. Juntou seus discípulos e lhes disse: "Por um lado, eu não gostaria de deixá-los todos aqui e me tornar o abade do templo Chen-tien. De outro, se eu os levar, tenho medo que vocês não consigam me acompanhar".
Um dos discípulos levantou-se e disse: "Mestre, eu quero ir com você. Posso andar 80 milhas por dia".
O mestre balançou a cabeça e suspirou: "Muito devagar. Você não consegue me acompanhar".
Outro discípulo o chamou: "Eu irei, posso caminhar 120 milhas por dia".
O mestre sacudiu a cabeça e disse: "Muito devagar, muito devagar".
Os discípulos se entreolharam confusos e pensaram: "Quão rápido pode o mestre viajar?"
Naquele instante, outro discípulo veio silenciosamente para frente. Ele reverenciou o mestre e disse: "Mestre, eu entendi. Eu irei com você". O mestre perguntou: "Quão rápido você pode andar?". O discípulo respondeu: "Tão rápido quanto o senhor possa viajar, eu também posso".
Ao ouvir isso, o mestre sorriu e disse: "Muito bem, vamos!".
Sorrindo e sem movimentos bruscos, o mestre Ch’an morreu. O discípulo que havia se oferecido como voluntário permaneceu respeitosamente ao lado do mestre e em seguida também morreu. Que despreocupado é deixar este mundo quando desejamos!
O mestre Ch’an Te-pu da Dinastia Sung foi igualmente encantador ao morrer. Certo dia, ele juntou os discípulos ao seu redor e disse: "Estou prestes a deixar vocês. Embora eu esteja curioso sobre o tipo de arranjos funerários que vocês irão preparar para mim, não estou certo se terei tempo de voltar para apreciar suas oferendas. Sendo assim, em vez de nós nos preocuparmos uns com os outros depois da minha partida, porque não gastamos um tempo juntos e desfrutemos das oferendas agora?"
Os discípulos sentiram que seu mestre estava agindo estranhamente, mas não ousaram desobedecer. Prepararam o serviço funerário e prestaram homenagem ao seu mestre pensando que se tratava de um jogo. No dia seguinte, Te-pu de fato morreu.
Alguns de vocês podem pensar que é muito estranho alguém preparar uma cerimônia funerária antes de morrer. Mas, na realidade, isso é bastante bem-humorado e prático. Um velho ditado chinês capta bem esse sentimento:
"Oferecer uma gota d’água para uma pessoa enquanto ela está viva é melhor do que oferecer a ela fontes d’água após ela ter partido desse mundo". É melhor respeitarmos nossos pais enquanto estão vivos do que dar a eles um funeral requintado quando morrerem.
O mestre Ch’an Tsung-yuan, da Dinastia Sung, também olhava a morte com desprendimento. Ele tinha oitenta e três anos quando alcançou a iluminação e não estava preso nem à morte e nem à vida. Quando sentiu que era tempo de deixar esse mundo, o fez com graça e dignidade. Compôs, inclusive, uma elegia para si mesmo:
Nesse mundo ninguém deve viver além de seu tempo, pois, após a morte, todos nos tornaremos pó na tumba. Como agora eu tenho oitenta e três anos; escrevo essa elegia para dizer adeus ao meu corpo. A maneira como o mestre Ch’an Hsing-kung morreu também é legendária. Naquele tempo, havia um bandido feroz chamado Hsu Ming. Ele havia matado muitas pessoas e causado bastante sofrimento. Hsing-kung não agüentava ver os aldeões sofrerem, então decidiu ir conversar com o bandido. Embora tivesse consciência de que sua vida corria grande perigo, ele não tinha medo. Enquanto fazia sua refeição com o bandido, escreveu essa elegia para si mesmo:

Frente a frente com a calamidade e no meio do terremoto,
Eu sou um sujeito feliz e sem medo.
Não há momento mais perfeito que agora,
Corte-me em dois se quiser.


A coragem e a compaixão de Hsing-kung converteram o ladrão e muitas vidas foram salvas por sua causa. Tempos depois, quando o mestre percebeu que o fim de sua vida estava se aproximando, contou aos seus discípulos que gostaria de morrer flutuando no rio. Eles então prepararam para ele um barco e fizeram um furo no fundo. O mestre entrou no barco levando uma flauta. O barco flutuou rio abaixo ao som da flauta. O mestre também deixou um poema explicando porque havia escolhido deixar o mundo dessa forma. O poema diz assim:


Uma morte sentada ou de pé não pode ser comparada com uma partida flutuando.
Economiza lenha e o chão não é perturbado.
Partir de mãos vazias é muito libertador e alegre.

Quem pode me entender?


O Venerável Chuan-tzu2 pode.

Na virada do século, havia um monge em Rangoon, Burma, que se chamava Miao-shan. Em 1934, Miao-shan ficou doente com derrame cerebral e desnutrição. Grandes bolhas cresceram em seus pés e em suas costas. Mesmo assim, ele continuou a fazer prostrações ao Buda nas pedras quentes do calçamento. As bolhas abriram e infeccionaram, soltando pus e sangue. Sua condição não o perturbava e ele recusou tratamento médico. Nem banho queria tomar e ninguém sabia mais o que fazer. No dia de sua morte, um de seus discípulos de novo sugeriu que tomasse um banho. Dessa vez, o venerável acenou e respondeu: "Estou contente que você tenha sugerido isso; é hora". Tendo dito isso, foi até o banheiro e alegremente tomou seu banho. O discípulo, que estava preocupado com o mestre, ficou ao lado da porta e insistiu que o venerável tomasse um bom banho para acalmar suas feridas. O venerável respondeu através da porta: "Eu sei, tomarei um bom banho hoje, pois é meu último banho".
Muitas horas se passaram. O discípulo ainda ouvia o som da água escorrendo, mas o venerável não estava mais à vista. Ao abrir a porta, descobriu que o venerável havia morrido. Embora continuasse de pé, seu coração tinha parado. Quando conseguimos deixar de lado as coisas às quais nos prendemos, não temeremos mais a morte.
Existem muitos outros exemplos de mestres Ch’an tendo mortes pacíficas. O mestre Ch’an Tan-hsia Tien-jan morreu debruçado em seu bastão. O Venerável Hui-hsiang morreu ajoelhando-se com um sutra em suas mãos. O mestre Liang-chieh da Dinastia Tang tinha controle absoluto da hora de sua morte. Pediram que ele ficasse vivo por mais sete dias e ele assim o fez. O mestre Ch’an Yu-an voltou à vida depois de haver estado em seu caixão por três dias. O mestre Ch’an Ku-ling Shen-tsan perguntou a seus discípulos:


"Vocês querem saber o que significa o samadhi silencioso?"


Quando os discípulos responderam a seu mestre negativamente, o mestre fechou os lábios com firmeza e morreu instantaneamente. A forma como Pang Yun e sua família morreram são ainda mais interessantes e variadas. Sua filha Lian-chao sentou na cadeira de seu pai e morreu, enquanto o próprio Pang Yun deitava-se para morrer. Quando seu filho, que estava trabalhando no campo, soube das mortes, baixou seu arado e morreu de pé. A mulher de Pang Yun viu que todos eles tinham morrido, empurrou uma rocha abrindo uma fenda e entrou nela. Antes, porém, deixou esse verso:


Morrer sentado, deitado ou de pé não é inusitado.


A senhora Pang simplesmente deixou-se ir e partiu. Com ambas as mãos ela afastou uma rocha sem veio E partiu sem deixar vestígios para outros verem. Quando alcançarmos a sabedoria de ver através da vida e da morte, também poderemos morrer sem dor e sem esforço, como alguns dos mestres Ch’an sobre os quais falamos hoje. Com o nascimento vem a morte. Sejamos ou não budistas, teremos de enfrentar a morte um dia. Felizmente, com os ensinamentos budistas, podemos entender a vida, e, a partir daí, a morte. Não devemos ter medo da morte, porque a morte é nada mais do que um fenômeno natural. Quando nos preparamos enquanto estamos vivos, podemos ter esperança naquilo que se segue após a morte.
Nós fazemos provisões de tudo na vida. Guardamos uma lanterna para um caso de emergência ou de blackout. Temos à mão um guarda-chuva caso chova. Empacotamos comida para longas viagens e trocamos nossos guarda-roupas ao anúncio de uma nova estação. Da mesma maneira, deveríamos nos preparar espiritualmente para o dia em que a morte vier bater à nossa porta. Não devemos depositar nossas esperanças apenas no presente, também devemos refletir sobre a vida após a morte. Em meio à impermanência da vida e morte, temos que ter em mente que o Corpo-dármico3 é eterno e a vida-sábia4 é atemporal.
Nossa natureza búdica é eterna!


Notas:


1 No Budismo, acreditamos que o corpo é composto de quatro grandes elementos: terra, água, fogo e vento.
2 Venerável Chuan-tzu foi um monge que viveu antes de Hsing-kung e que também preferiu morrer flutuando na água.
3 Conjunto de ensinamentos do Buda
4 Nossa sabedoria espiritual