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quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008

Entrevista de TERENCE MCKENNA



Entrevista de TERENCE MCKENNA, concedida a Will Noffke, que foi publicada no n° 1 da revista High Frontiers ("uma revista de ciência psicodélica, potencial humano, irreverência e arte moderna"), em 1984. Esta revista se fundiu com a Reality Hackers e fundou a revista Mondo 2000 tendo William Gibson e Timothy Leary como seus gurus.

Trata-se de uma revista com a seguinte proposta:
“Mondo 2000 está aqui para cobrir a vanguarda em hipercultura. Nós traremos para você as novidades nas formas de mutação interativas entre o humano e o tecnológico. Estamos falando Cyber-Chautauqua: trazendo a cibercultura para as pessoas! Módulos de conhecimento artificiais. Música visual. Tecnologias. A Matrix do ciberespaço de William Gibson – plenamente concretizada! As antigas elites de informação estão morrendo. As crianças estão no controle.Esta revista é sobre o que fazer até que o novo milênio venha. Estamos falando sobre possibilidades totais. Avanços radicais nos limites da biologia, gravidade e tempo. O fim da escassez artificial. O surgimento de um novo humanismo. Tecnologia para o poder individual, diversão e jogos. Tornando a felicidade máxima nosso estado de consciência normal.”.





A revista existiu até meados de 1989.

WILL NOFFKE: Fale-nos da experiência que moldou a sua vida e a sua obra - a viagem à Amazônia.

TERENCE MCKENNA
: Na verdade, participei de várias viagens à Amazônia, a primeira em 1971, a mais recente em 1981. Em 1981, uma expedição etnobotânica conjunta, composta de membros das universidades de Harvard e Colúmbia Britânica, viajou até Iquitos, no extremo leste do Peru. O meu irmão, que trabalha como etnoquímico na Universidade da Colúmbia Britânica, também fazia parte dessa expedição. Estávamos estudando o ayahuasca, bebida alucinógena empregada em uma área muito extensa das selvas litorâneas do Equador, da Colômbia e do Peru, e também um alucinógeno pouco conhecido, chamado oo-koo-hey ou kuri-coo, que é usado pelos índios uitotos, boros e muinanes, tanto um quanto outro tendo por base o DMT ou o DMT combinado com algum outro produto químico que propicia a experiência alucinógena. Trata-se provavelmente dos alucinógenos menos pesquisados de todos, embora o ayahuasca constitua importante religião popular em uma área bastante extensa. É utilizado em curas xamanistas e é bem conhecido pelas classes pobres das planícies litorâneas do Peru e da população de mestiços. Quanto ao kuri-coo, é substância bem menos conhecida. Estávamos estudando-o porque as teorias farmacológicas ortodoxas dizem que ele não deve ser oralmente ativo, mas é. Portanto, havia um problema científico a resolver.

WILL NOFFKE: Algo como descobrir uma nova realidade para a ciência?

TERENCE MCKENNA:
Bom, é preciso que haja um problema científico para justificar essas expedições. No fim, o que se estuda é a fenomenologia da droga, a droga tal como ela é experimentada - o que é bem diferente das questões farmacológicas que hoje estão sendo examinadas em laboratório. Mas a experiência de tomar essas drogas na Amazônia, subindo pequenos tributários do rio principal, entre pessoas pré-letradas, que definitivamente não pertenciam à classe média, e no ambiente da selva equatorial do continente, foi muito interessante, muito instrutiva.

WILL NOFFKE: Como você reagiu a ela? Suponho que, pouco antes de fazer essa viagem, já havia experimentado outros alucinógenos e, de fato, estava querendo conhecer o efeito, a reação psicofísica em seu próprio organismo. No entanto, parece que encontrou algo inteiramente inesperado.

TERENCE MCKENNA:
Exato. Desde meados da década de 60, estávamos interessados na dimetiltriptamina, ou DMT, tanto em virtude da experiên*cia que ela proporciona como da rapidez de sua ação. Quando se fuma essa droga, o efeito se faz sentir em cerca de quinze a trinta segundos. O conteúdo da experiência parecia ir além da noção ortodoxa do que deve ser a experiência psicodélica. Em outras palavras, a experiência psicodélica tem sido discutida em termos da expansão da consciência, ou da exploração do conteúdo do inconsciente pessoal ou coletivo, ou ainda de grande empatia com obras de arte etc. O que verificamos no uso das triptaminas é que parece haver uma dimensão imprevista, envolvendo contato com uma inteligência alienígena. Uso essa expressão por não dispor de outra melhor. Enteléquias organizadas apresentavam-se na experiência psicodélica com informações que pareciam não provir da história pessoal do indivíduo e nem mesmo da experiência humana coletiva. Mais tarde, viemos a perceber que esse efeito era peculiar aos alucinógenos à base de triptamina. Em outras palavras, não só ao DMT, ao ayahuasca e às substâncias mais exóticas da Amazônia, mas também à psilocibina, que é provavelmente a mais empregada dessas drogas. Para mim, era espantoso que uma voz pudesse se dirigir a uma pessoa naquele estado e transmitir informações durante um diálogo. Gordon Wasson, que descobriu o cogumelo portador de psilocibina e o apresentou à ciência ocidental, também escreveu sobre esse fenômeno. O mesmo fez Platão, ao discutir a importância do Logos para a religião helênica.
Essa experiência de uma voz interior que nos guia, dotada de um nível superior de conhecimento, não é estranha à história do Ocidente, mas a aventura intelectual dos últimos mil anos fez com que tal idéia parecesse absurda, senão psicopatológica. Assim, na qualidade de farmacólogos modernos dedicados ao estudo dos alucinógenos, o meu irmão e eu nos deparamos com esse fenômeno. Nos anos seguintes, tratamos de estudá-lo e dirigir para ele a atenção de outras pessoas; diria que hoje há um consenso de que a experiência é real. Não existe, porém, um consenso a respeito do que ela é exatamente. Estaremos lidando com um aspecto - uma entidade psíquica autônoma, como diriam os adeptos de Jung -, um assunto que escapa ao controle do ego? Ou com algo semelhante a uma Supermente da espécie - um tipo de enteléquia coletiva? Ou, de fato, estaremos lidando com uma inteligência alienígena e com tudo o que isso implica? São perguntas difíceis de responder. Até mesmo abordar o assunto é difícil, pois o fenômeno só se manifesta quando se tomam doses heróicas.




WILL NOFFKE: Existem paralelos bastante óbvios. Um dos que me ocorrem é Santa Joana D'Arc ouvindo vozes e recebendo orientação. Acontece que ela era uma moça do campo, e talvez tivesse uma horta onde cultivasse cogumelos. A História está cheia de vozes que são ouvidas no contexto da experiência religiosa, vozes que são sempre atribuídas a um "deus", qualquer que seja a imagem que este conceito evoque na pessoa que as escuta. Essa experiência não resulta - pelo menos não necessariamente - da ingestão de drogas. Pode ocorrer através de alguma outra alteração da consciência humana.

TERENCE MCKENNA:
Certo. Sempre ocorre através de uma alteração da química interna do corpo e do cérebro. Mas essa alteração pode ser induzida por plantas ou por situações de estresse; ou uma pessoa ou linha hereditária pode simplesmente ser predisposta a esse tipo de coisa. Você tem toda a razão: a religião, como concebida em termos pré-modernos, é essencialmente a resposta humana ao problema do estímulo interno, embora muita gente afirme que se trata de um fenômeno que molda a cultura, ou mesmo dirige a cultura.
Infelizmente, nos últimos quinhentos anos a religião passou a ser uma pirâmide hierárquica em cujo topo os dogmas são interpretados por teólogos. As interpretações são transmitidas aos fiéis através de uma hierarquia. Acho que a noção de revelação direta perturba muito as hierarquias religiosas. Não obstante, a revelação direta é certamente bastante comum nas culturas pré-letradas de todo o mundo. Em tais casos, verificamos que os xamãs eram os únicos com os quais podíamos falar sobre o assunto ou que pareciam familiarizados com o fenômeno. E o que eles nos dizem é: "Claro. Naturalmente. É assim que se obtêm informações: de espíritos que habitam aquela dimensão, espíritos que nos ajudam e espíritos que nos atrapalham." A idéia de inteligências alienígenas autônomas na dimensão mental é, para eles, lugar-comum. E creio que provavelmente é mesmo. Acho que a cultura ocidental fez um longo desvio idiossincrático para afas*tar-se do espírito, e só agora estamos começando a perceber que talvez nos falte alguma coisa. Na verdade, não representamos o máximo de conhecimento da natureza da realidade. Possuímos mapas muito interessantes, digamos, do interior do átomo ou de regiões longínquas do universo; mas, nas áreas que nos são mais próximas - nossa própria mente, a maneira como vemos a nós mesmos e aos nossos semelhantes -, acredito que essas culturas primitivas, por serem fenomenológicas, isentas do estorvo da téc*nica e de teorias abstratas de tudo o que acontece, aproximam-se mais da realidade. Em outras palavras, os xamãs são psiquiatras populares, psicanalistas populares, muito mais avançados que nós.
Os antropólogos já observaram a ausência de distúrbios mentais graves em muitas culturas pré-letradas. Acredito que a mediação do xamã e, através dele, o contato com o Logos centralizante, fonte de informação ou gnose, é provavelmente a causa dessa capacidade de curar ou minimizar distúrbios psicológicos.

WILL NOFFKE: Você mencionou algo em relação à religião organizada. Acho que o cristianismo ocidental foi muito bem-sucedido, na tarefa de garantir o seu território, infundindo medo, dúvida e desconfiança em relação a tudo o que provém de fontes internas. Estabeleceu um critério que diz: "Se não está nas escrituras, deve ser ignorado ou podemos suspeitar de que provém de alguma força malsã". Há aí uma clara negativa da validade da experiência pessoal. Acho que, para muitas pessoas, a experiência psicodélica é altamente suspeita, perigosa e incontrolável. Como você acha que as pessoas a encaram?

TERENCE MCKENNA:
É incontrolável na medida em que não é compreendida. Essas culturas pré-letradas possuem uma tradição ininterrupta de conhecimentos e etnomedicina xamanistas, tão ou mais antigos que os tempos paleolíticos. Quanto a nós, não dispomos de nada parecido. Assim, em nossa cultura, a quem recorrem as pessoas que têm problemas com essas plantas? No Peru, vimos pessoas que eram inteiramente despreparadas em relação ao ayahuasca. Pessoas vindas de Lima para fazer a experiência chegaram ao ponto em que estavam definitivamente tendo uma bad trip. Mas o xamã pode vir a elas, soprar-Ihes fumaça de tabaco e cantar - coisas que podem nos parecer simbólicas mas que, ainda assim, funcionam com a mesma eficácia de uma injeção de Demerol. Portanto, o simbolismo de uma pessoa é a tecnologia de outra. Devemos ter isso em mente ao lidarmos com essas culturas. A aparência que as coisas têm para nós não é a mesma que têm para os que estão intimamente envolvidos com elas. A não ser que você se desfaça de sua linguagem e mergulhe inteiramente nessas culturas, o seu ponto de vista será sempre o ponto de vista de um estranho, de um forasteiro.

WILL NOFFKE: Mesmo naquele setor da sociedade que poderia ser classificado de Nova Era, por falta de um termo melhor, onde há um afastamento em relação à educação dogmática e um movimento no sentido da experimentação direta, a experiência psicodélica é vista com suspeita. Coisas como a kundalini, a hipnose, os mantras, as atividades psíquicas - manipulações psicofísicas da consciência - são consideradas seguras e aceitáveis como áreas de investigação. Mas há esse incrível preconceito contra o uso de meios químicos, até mesmo dos meios orgânicos a que você se refere.

TERENCE MCKENNA:
Parece haver um preconceito muito forte contra tudo o que é gratuito. As pessoas repelem a idéia de que seja possível adquirir clarividência espiritual sem sofrimento, sem auto-análise, sem flagelação, pois acreditam que a visão dessas dimensões superiores deveria ser concedida somente aos bons, e provavelmente somente a eles depois que morrem. Acham alarmante pensar que se possa ingerir uma substância como a psilocibina ou DMT e ter esse tipo de experiência. No entanto, trata-se de uma realidade que agora começamos a aceitar. Não creio que essas coisas sejam um substituto da prática espiritual. Por outro lado, não acho que a prática espiritual possa jamais substituir essas experiências. Percorri a índia, a Indonésia e muitos outros lugares, e encontrei as tradições que você menciona, inclusive o tantra da kundalini, a dança em transe de Bali, controlada por sacerdotes e fundamentada em tradições cuja mentalidade você precisa aceitar para ter a experiência. São coisas extremamente impalpáveis. Já a experiência provocada pelas drogas é muito real. E irresistível. Certamente, nada há de impalpável nas triptaminas. A triptamina é o grande fator convincente. É preciso incorporar essas coisas à nossa cultura, e sem sentimento de culpa, com a certeza de que apontam o caminho que leva a algum lugar. Creio que foi Aldous Huxley que as chamou de "graças gratuitas", explicando que elas não são necessárias nem suficientes para a salvação, mas ainda assim constituem um milagre.

WILL NOFFKE: Você atribui grande importância aos fatores de estado de espírito e ambiente como parte da experiência, ao dizer que as drogas não devem ser usadas levianamente nem como recreação, e sim encaradas com respeito. E que é preferível ter alguém por perto para servir de guia. Pretendo ter uma entrevista também com Timothy Leary. Não sei bem qual a atitude dele, se procura diversão e prazer a qualquer preço ou se é mesmo sério.

TERENCE MCKENNA:
Acho que ele é um homem que provavelmente teve ampla oportunidade de mudar de opinião. A euforia dos anos 60, a suposição dos intelectuais que rodeavam Huxley e Humphrey Osmond - de que bastava apresentar essas coisas às pessoas para que a humanidade se transformasse - era terrivelmente ingênua. No entanto, as pessoas jamais tinham se deparado com uma encruzilhada cultural como essa. Ouço dizer que talvez venha a ocorrer um retomo da experiência psicodélica como fenômeno social. Se ocorrer, espero que os que viveram os anos 60 tenham processado essa experiência e aprendido suas lições. Não acho que essas coisas devam ser feitas em grupos muito grandes.
A maneira mais útil de se abordar a experiência psicodélica é em um ambiente de virtual - embora não formal - privação dos sentidos. Você deve deitar-se em completa escuridão e silêncio, e fixar o olhar na superfície interna de suas pálpebras. É espantoso como esse conselho parece exótico a certas pessoas. Trata-se apenas de bom senso.
Você está procurando observar um fenômeno mental. Para ver o fenômeno mental sem a contaminação
de fontes externas de informação, você deve colocar-se em uma situação na qual ele possa manifestar-se em sua totalidade. Se ingerir as doses eficazes dessas substâncias, posso garantir que a experiência não será monótona. Talvez um número muito grande de pessoas já tenha feito meditação e imagine que a experiência psicodélica seja como a meditação. Mas é a antítese exata da meditação. Trata-se, de fato, de sair do corpo e viajar no espaço mental - que é uma área pelo menos tão grande quanto o espaço. sideral. A diferença entre os dois pode ser apenas convenção cultural. Você viaja em um extenso campo de informação que parece medir anos-luz de comprimento. Isso só se torna possível quando os insumos externos são reduzidos ao mínimo. Nessas condições, você vê o que Blake viu, o que Meister Eckhart viu, o que São João da Cruz viu. Talvez não aprenda com essas coisas tanto quanto eles aprenderam, mas, por outro lado, ninguém pode medir o oceano, nem Meister Eckhart nem ninguém. Não é fácil medir o oceano, mas podemos ser medidos por ele, confrontá-lo, e estar dentro dele.
Acho que essas substâncias exerceram, exercem e continuarão a exercer grande impacto na história humana. Talvez elas sejam, de fato, a causa da história humana. Estamos tão habituados à doutrina da evolução - a idéia de que descendemos dos macacos – que tendemos a esquecer o fato de que o homem é, realmente, uma criatura estranha, muito estranha. Considerando que, em um milhão de anos, fomos desde a pedra lascada até o lançamento do ônibus espacial e a colocação de instrumentos fora do sistema solar, parece absurdo afirmar que as forças e fatos da natureza, tal como os conhecemos, nos permitiriam chegar a esse ponto. Prefiro optar por uma noção muito pré-modema: estamos mancomunados com o demiurgo. Somos filhos de uma força que mal podemos imaginar, uma força que nos chega das árvores e através das planícies da História, e que nos chama para ela. Esse processo está levando dez, vinte, cem mil anos - não mais que um instante. Os indivíduos vêm e vão, mas a natureza atua do ponto de vista da espécie, e, nessa escala, mal se passou um instante desde que só existiam neste planeta a pedra lascada e a farmacologia. A farmacologia precedeu a agricultura, uma vez que as propriedades das plantas vieram a ser conhecidas muito antes do seu cultivo. As visões transmitidas pela psilocibina - visões de enormes máquinas em órbita, de planetas distantes, de criaturas estranhas e vastas paisagens biomecânicas - mal podem ser processadas. A pessoa não sabe se está caminhando no interior de um enorme instrumento ou organismo. Mal podemos assimilar tais coisas. No entanto, essas visões constituem a imagem que nos guia no momento, a imagem que está sendo projetada no tempo histórico - da mesma forma como projetou o cálculo diferencial há cerca de duzentos anos, como projetou os grandes progressos da história humana. A história dos avanços científicos ou técnicos tem o caráter de revelação. Os homens aos quais esses avanços ocorrem costumam dizer: "Foi uma coisa que me veio, que me foi dada de repente." Leibniz inventou o cálculo diferencial quando estava estendido na cama, certa manhã. Newton fazia o mesmo a algumas centenas de quilômetros de distância, e os dois nem se conheciam. Ao longo dos milênios, tem havido um diálogo entre o eu individual e o Desconhecido, entre o eu coletivo e o Desconhecido. Demos a isso o nome de Deus. Os sacerdotes passaram a controlar esse diálogo e sobrecarregaram-no com todo tipo de "faça isso" e "não faça aquilo", coisas sem qualquer relação com a verdadeira experiência religiosa. Esta tem a ver com o diálogo com o Logos e aonde ele pode nos levar e o que pode nos mostrar. Hoje, portanto, quando nós, como espécie, estamos a ponto de abandonar ou destruir o planeta, o Logos ressurge com grande intensidade. Não sairemos deste planeta sem que a nossa mente seja transformada. O que está acontecendo é uma transformação global da humanidade em um tipo de criatura inteiramente diferente. Estamos saindo do invólucro do macaco. E essa coisa feita de linguagem, de imagem e de imaginação, que residiu nos macacos durante tanto tempo, está agora superando a evolução biológica e, através da cultura, assumindo as rédeas de sua própria forma e destino. O caos da nossa era, que tanto perturba a todos nós, não é absolutamente incomum. É o que normalmente acontece quando uma espécie se prepara para deixar o planeta. É o caos do fim da História.
Não resta a menor dúvida. Há sinais disso por toda parte. E os sinais que nem todos percebem, que somente os aficionados das substâncias psicodélicas conhecem, são as transformações da cons*ciência, simultaneamente com a transformação da cultura técnica. Essas duas transformações são, de fato, expressões uma da outra.
Os tempos atuais são as dores do parto de uma nova humanidade.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008

A cena: lançando sombra sobre o real



Vincent Crapanzano

(professor no CUNY Graduate Center.)


Fonte:



RESUMO

Este artigo explora a relação entre o que se considera como realidade 'objetiva' ou 'suprema' — e digamos — a sua subjetivação: um mundo de sombras, na fronteira da imaginação, que chamo de 'cena'. Sugiro que essas duas 'realidades' são mutuamente implicadas. Argumento que, na medida em que reagimos a (ou criamos) essas cenas que colorem a nossa experiência da realidade objetiva, elas merecem atenção antropológica. Enfatizo a natureza intersubjetiva da própria subjetividade e apresento uma tentativa preliminar de entendimento dos dramas interlocutórios complexos (que ocorrem no ritual, por exemplo, ou na psicanálise) que constituem a cena.

Palavras-chave: Subjetivação, Intersubjetividade, Ritual, Construção da Realidade, Dramas Indiciais

ABSTRACT

The paper explores the relationship between what we take to be objective or paramount reality and, roughly, its subjectification: a shadowy world, edging on the imaginative, which I call the scene. I suggest that the two "realities" are mutually implicated. I argue that insofar as we respond to (as we create) these scenes that color our experiences of objective reality, they demand anthropological consideration. I stress the intersubjective nature of subjectivity itself and offer a preliminary attempt at understanding the complex interlocutory dramas, occurring in ritual, for example, or psychoanalysis, that constitute the scene.

Key words: Subjectification, Intersubjectivity, Ritual, Constructions of Reality, Indexical Dramas


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Ce que je vois existe. Seulement, on ne croit en ce que
l'on voit que parce qu'on voit ce en quoi on croit.

(J.B. Pontalis, Perdre de vue)



Sentado à minha escrivaninha, vejo uma água-forte chamada Crépuscule, do artista francês contemporâneo Gerard Trignac. É a imagem, rica em sombras, de um enorme castelo cercado por um fosso largo sobre o qual se estende maciça ponte. O ponto de vista é o de quem está sob a ponte, e quem observa o quadro pode sentir o imenso peso daquela construção. Atrás de um dos pilares que a sustentam, vislumbra-se a vela branca de um barco iluminada por um raio de luz. De imediato, a gravura faz pensar em Piranesi, embora seja menos dramática que seus trabalhos, mais arrebatada. Apesar de sugerir castelos e torres sombrias, perigos ocultos e o rio da morte, a própria morte, há algo reconfortante no mistério, na aura que do quadro emana. Ao menos, foi o que encontrei nesses tantos anos em que trabalhei sob sua silenciosa vigilância.


Uma água-forte de Gerard Trignac


Enquanto olho a água-forte de Trignac, penso em sombras e meios-tons as dimensões ensombreadas da existência social e cultural que nós, antropólogos, costumamos encontrar, de um jeito ou de outro, e que tendemos a afastar de nosso trabalho "sério", como se embaraçados pelo mistério, pelo perigo e pela iminência, a proximidade do que presumimos ser o irracional ou, no mínimo, o efêmero. Evidentemente, outras eras se compraziam com o que Shelley chamava de "mundo do imperscrutável". No primeiro de seus grandes poemas, Alastor ou O Espírito da Solidão, ele se dirige à "mãe deste mundo, da Natureza e da Necessidade".

I have watched
Thy shadow and the darkness of thy steps,
And my heart ever gazes on the depth
Of thy deep mysteries. I have made my bed
In charnels and on coffins, where black death
Keeps record of the trophies won from thee,
Hoping to still these obstinate questionings
Of thee and thine, by forcing some lone ghost,
The messenger, to render up the tale
Of what we are (1934: ll.2-28)(1).

Quero ressuscitar a dimensão romântica da antropologia, não porque deseje propor uma antropologia romântica, de modo algum, mas porque gostaria de que nos reconciliássemos com nossa herança romântica e o efeito que ela teve sobre nós, mesmo que apenas por sua insistente rejeição ideológica. Com essa rejeição, tal como com a das raízes religiosas judaico-cristãs de nossa disciplina, que desempenharam um papel tão fundamental no entendimento e na interpretação dos fenômenos que estudamos, freqüentemente perdemos uma dimensão da realidade muito cara àqueles que estudamos (e a nós também, em nossas vidas). Ou, se não a perdemos, se não a ignoramos, suprimimos ou reprimimos, acabamos por reduzi-la de tal maneira a um ou outro paradigma amortecido, que esses mundos de sombras ou experiências perdem toda e qualquer realidade empírica que possam ter e toda e qualquer influência que poderiam exercer sobre o comportamento e os pensamentos daqueles que encontramos em nossos trabalhos de campo.

Andei pensando no modo como tendemos a ignorar (por falta de melhor termo) a "subjetivação" dos contextos presumidamente objetivos que buscamos para explicar os fenômenos que observamos. De um modo preliminar, que requereria consideravelmente mais rigor epistemológico do que posso agora oferecer (se é que poderei algum dia), tentei diferenciar a realidade "objetiva" do que chamo de cena(2). Por "realidade objetiva" quero dizer algo semelhante ao que Alfred Schutz (1970:253 [1979:248-249]) denomina "realidade suprema" ou a realidade do senso comum da vida cotidiana que aceitamos sem questionar. Ela inclui, nos termos fenomenológicos de Schutz, "não só objetos, fatos e eventos físicos ao nosso alcance real e potencial, percebidos como tais através do código de percepção simples, mas também referências de apresentação de ordem inferior, pelas quais os objetos físicos da natureza são transformados em objetos socioculturais". É a "província finita do significado que chamamos de realidade de nossa vida cotidiana" e, como tal, difere dramaticamente de domínios como "o mundo de imaginações e fantasmas ou o mundo da contemplação científica"(3).

Quer entendamos a realidade suprema em termos de coercitividade, como William James poderia ter feito, quer como resistência, como os fenomenologistas fariam, ou mesmo em termos de convenções (socialmente construídas e aceitas ou aceitáveis), estaremos supondo uma certa constância partilhada, ou pelo menos negociável, a partir de diferentes perspectivas (Husserl 1931:129-ss.). Trata-se, em resumo, da realidade de referência primária. Em nosso pressuposto empírico comum ou, se assim preferir o leitor, pragmático, a realidade suprema é despida do fantasioso, daquilo que é temporal ou mesmo espacialmente vinculado ao capricho — esses deslocamentos de atenção que relacionamos a sentimentos, emoções e humores, identificados com o domínio subjetivo e que não passam de elementos decorativos, epifenômenos, ou como diriam alguns, epifenômenos de epifenômenos. Pois é justamente para esses elementos decorativos, para esses epifenômenos, que quero chamar a atenção, pois eles são, a seu próprio e especial modo, uma dimensão significativa e efetiva do mundo em que vivemos, pensamos e agimos.

Não quero, contudo, reduzir a cena ao subjetivo, pois acredito que isso nos desviaria do que considero ser sua base intersubjetiva. Nesse particular, divirjo da concepção usual da fenomenologia centrada na consciência singular ou na intenção e, mesmo, do senso comum. Devo acrescentar, apesar de não poder aqui prosseguir com minha argumentação, que a subjetividade, a despeito de quanto possa parecer minha, é essencialmente intersubjetiva, tanto em um modo mediado pela linguagem, por exemplo, quanto imediatamente, por meio de encontros reais e imaginados com figuras significativas cercadas de sombras. Para mim, ao menos, a cena é aquela aparência, a forma ou refração da situação "objetiva" em que nos encontramos, colorindo-a ou nuançando-a e, com isso, tornando-a diferente daquilo que sabemos que ela é quando nos damos ao trabalho de sobre ela pensar objetivamente.

Embora colorida e intensamente nuançada, é naquela objetividade que reside a cena. De fato, por mais que a realidade objetiva nos pareça perturbadora em sua objetividade, firmeza e constância, ela nos dá uma segurança epistêmica ou mesmo ontológica. Podemos talvez falar da cena — em analogia com a "dupla voz"* — como "dupla visão". Reconhecemos imediatamente o que consideramos ser a realidade objetiva da situação em que nos encontramos, seja qual for a forma pela qual se encare esta objetividade — como realidade empírica em um sentido cruamente lockiano, por exemplo, ou como o produto de um conjunto de convenções sociais e culturais — e como se dê a nossa experiência direta dessa realidade, em toda a sua excentricidade. Retornarei ao modo como a natureza intersubjetiva de nossa experiência da cena facilita essa "dupla visão". Quero aqui destacar o fato de que é o reconhecimento do objetivo que facilita a precipitação da cena e nossa experiência dela, tanto quanto é a realidade objetiva do psicanalista enquanto psicanalista e a do paciente enquanto paciente que facilitam as projeções da transferência e da contratransferência. Da mesma forma que a identidade projetiva do psicanalista ou a do paciente pode tornar-se tão intensa na transferência e na contratransferência que cada uma ou ambas as partes desse encontro possam vir a perder a referência de suas identidades objetivas, há momentos em que a cena pode substituir a realidade objetiva em que reside ou que, pelo menos, emula.



***



Ontem, uma de minhas alunas, que está nas últimas etapas de seu trabalho de campo, veio à minha sala. Insegura sobre a possibilidade de ter terminado — "Não fiz todas as entrevistas de que precisava" — e confrontada pelo volume de material desordenado e ainda não assimilado que coletou, estava exausta e confusa. Seus olhos, comumente brilhantes e vivazes, estavam baços e furtivos. Lembro-me de como fiquei chocado na primeira vez em que a vi assim. Foi logo antes de suas provas orais. Como naquela época, ela trouxe ontem para minha sala uma atmosfera sombria tão intensa — escuridão seria uma palavra forte demais que cheguei a olhar para cima para ver se a luz das lâmpadas havia diminuído. Não havia. Então, alguns minutos mais tarde, depois de falar sobre suas dúvidas, seus olhos acenderam-se subitamente quando ela apresentou um papel em que havia feito anotações confusas sobre suas idéias. Esse movimento foi tão abrupto, tão espontâneo, tão repleto de alívio como se ela tivesse, de repente, se lembrado do que havia esquecido por tanto tempo — que minha sala se iluminou. Senti que a luz azulada das lâmpadas fluorescentes ganhara um brilho amarelo, como se fosse incandescente. Conseguimos falar sem dificuldade sobre a pesquisa e, enquanto conversávamos, minha sala, a iluminação, mesmo seu rosto, seus olhos ganharam leveza... No final de nosso encontro, contei-lhe sobre minha noção de cena e minha reação à ansiedade e ao alívio dela. Ela reconheceu que também havia sentido a mudança no "ambiente da sala". Devo acrescentar que esta aluna tem um espírito independente e não esconde seu ceticismo em relação à minha concepção de antropologia(4).

Não há, de fato, nada particularmente extraordinário sobre a minha — a nossa — experiência. Todos vivenciamos mudanças desse tipo, que associamos pessoalmente a mudanças no humor ou, coletivamente, a mudanças na atmosfera5. Elas são freqüentemente descritas em obras literárias. Kate Leslie, a heroína de A Serpente Emplumada, de D. H. Lawrence, lê um dos compridos hinos religiosos de Don Ramón (Don Ramón é, como o leitor recordará, o líder, o profeta em verdade, do movimento nativista mexicano imaginado por Lawrence e que proclama o retorno do deus-sol asteca Quetzalcoatl):

Kate leu aquele comprido folheto diversas vezes, e uma súbita escuridão, como um turbilhão, parecia ter envolvido a manhã. Ela tomou seu café na varanda, e os pesados mamões em suas pilhas pareciam verter como que grandes gotas do brotamento invisível da fonte de vida não-humana. Ela parecia ver esse enorme brotamento e a impulsão do cosmos, progredindo em misteriosa vida. E os homens apenas como pulgões agrupando-se nos brotos tenros, uma aberração ali. Tão monstruosos o desenrolar e a evolução da vida do cosmos, como se até o ferro pudesse crescer qual líquen na profundeza da terra e parar de crescer e começar a perecer. Ferro e pedra entregando a vida, quando chegasse a sua hora d... (Lawrence 1950:256).

Uma mudança no humor escurece a atmosfera em que Kate se encontra. Sua imediata percepção da cena leva, como costuma acontecer, a uma visão que tem talvez tanta realidade quanto a varanda obscurecida, a varanda iluminada pela luz intensa do sol da manhã. Essas mudanças da realidade objetiva da cena para experiências visionárias podem representar um papel importante em nossas vidas criativas ao descortinarem horizontes imaginários — possibilidades que pairam no limite da percepção comum (Crapanzano 2004). Porém, devo acrescentar que elas podem também constranger, mesmo que por negação ou por terror, a realidade suprema. Elas podem chamar a atenção para o artifício, a meu ver, dessa realidade e lançar uma sombra sobre o seu caráter já dado, a sua facticidade.

While daylight held
The sky, the poet — [Alastor] — kept mute conference
With his still soul. At night the passion came
Like the fierce fiend of a distempered dream,
And shook him from his rest, and led him forth
Into the darkness (Shelley 1934: ll.221-226)6.

Na tormentosa escuridão do sonho assombrado pela idéia da morte, apesar de seu esforço, o poeta não pode dar vida alguma à Natureza "vazia". Ele não pode reunir os dois mundos, o despertado e o sonhado, o real e o ideal.

Água-forte de Gerard Trignac



Deixemos Shelley de lado — posso estar fazendo má leitura de sua obra; é preciso notar que a relação entre a "realidade objetiva" e a cena está, ela própria, sujeita não apenas a diferenças culturais e de época, mas também a gêneros e convenções de cada cultura ou período. Não há dúvida de que há sociedades dispostas a abrirem mão da realidade objetiva em troca da cena, mas falar nestes termos generalizadores de mentalité não apenas envolve o risco de incorrer em estereótipos, mas também de ignorar a sutil economia da relação entre os dois e a dinâmica desse encontro. O poeta romântico — Shelley, Novalis ainda mais — pode ceder à idéia de cena pairando sobre a realidade como um sonho, uma sombra ou uma visão em sua poesia, em sua inspiração, mas deve ter experimentado uma dura realidade que resistia a essa concessão ou que o levou, como aconteceu com De Quincy e Coleridge, entre outros, a encontrar uma fuga em sonhos de ópio ou em algum misticismo. Meu argumento é que o modo como reagimos à cena — cedendo, negando ou ignorando — está sujeito ao modo como a situação em que nos encontramos está estruturada [framed] e não, ou pelo menos não tanto, ao caráter ou à disposição. Com controle autoral, Lawrence construiu a reação de Kate ao hino de Don Ramón. De modo menos pessoal, embora igualmente efetivo, se não mais, esse controle — a coreografia da realidade cênica e a pressão de sua suposição — opera no ritual e no teatro.



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Olho para o Crépuscule de Trignac e me vem à mente uma cena de minha tenra infância. Tinha quase quatro anos e estava em uma igreja pela primeira vez. Minha mãe, como vim a saber mais tarde, começou a acreditar que os nazistas venceriam a guerra. Embora ela e meu pai fossem obstinadamente não-religiosos, ela decidiu que minha irmã e eu deveríamos ser batizados — "para constar" — como ela me disse anos depois, consideravelmente embaraçada. Eu nunca havia estado em uma igreja antes e me sentia aterrorizado com a escuridão, o cheiro rançoso de incenso e, sobretudo, com aquele homem a quem me fizeram chamar de padre e de quem desgostei imediatamente depois que me chamou de "meu filho". Eu queria chorar, mas me contive, ainda mais depois que minha irmã, que tinha menos de um ano, rebentou em lágrimas. Fui o primeiro a ser batizado e não me lembro de nada, além do mau hálito do padre, o gosto de sal, cabelos molhados e murmúrios em uma língua que eu não entendia. Acima de tudo, lembro-me do raio de luz que atingiu meus olhos através de um ou dois caixilhos de vidro transparente de um vitral do qual um homem em uma longa veste branca e dourada e um chapéu cônico como o de um bobo — que eu havia visto em uma revista de quadrinhos — olhava para mim ameaçadoramente. Meus olhos foram ofuscados de tal forma que se encheram de lágrimas, e a expressão daquele homem, quem quer que ele fosse, ficava mudando de forma grotesca.

Por alguma razão, o raio de luz que ilumina a vela do barco no fosso da água-forte de Trignac me lembra aquela luz. Fiquei pensando se ela também ofuscaria os olhos de minha irmã. Ela era bem pequena e estava não nos braços da mãe, mas nos de uma das amigas de meu pai, de quem minha mãe não gostava e que me deu uma pequena cruz dourada em uma corrente para que eu a usasse, como uma menina. Depois minha mãe diria que eu não era obrigado a usá-la. Minha irmã teve sorte, porque se protegeu daquela luz por conta da sombra do padre que se curvou sobre ela. Embora eu não me lembre de ele ter colocado um véu branco sobre meu rosto, lembro-me de que ele cobriu o de minha irmã. Tive que apertar os olhos quando saímos da igreja porque tudo estava claro demais.



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Voltarei à dimensão diacrônica — o potencial narrativo — de nossas experiências da cena. Agora quero descrever sua coreografia em um serviço de comunhão que presenciei em uma igreja evangélica conservadora no sul da Califórnia, quando eu pesquisava o fundamentalismo cristão. A igreja era conhecida por seus batismos teatrais, realizados em uma elevada sacada sobre o altar. Aquele serviço de comunhão era um experimento. Mesas, arrumadas para a comunhão, estavam dispostas nas naves por toda a igreja, e aos que comungavam pediam que ministrassem a comunhão uns aos outros. No começo, todos hesitaram, mas quando as luzes diminuíram e o órgão começou a tocar música suave e sedutora — não consegui reconhecer o que era — um par atrás do outro foi levado às mesas. Alguns estavam envergonhados, mas a maioria foi envolvida pela ocasião. Eles se olhavam nos olhos, às vezes chorando, nem sempre era possível dizer se de alegria ou de sofrimento, enquanto ministravam a comunhão uns aos outros. Seus olhares transmitiam não apenas o amor que sentiam mutuamente, por Jesus, mas também — eu senti — histórias pessoais que exigiam perdão.

Tanto para mim, a despeito de mim mesmo, quanto para eles, a atmosfera estava repleta de uma sentimentalidade comovente que transformou a igreja em uma cena de tanta intimidade, de tanto amor — como eles certamente diriam — que a própria igreja parecia desvanecer. Ela se tornou um vasto teatro de comunhão, ao mesmo tempo intensamente pessoal e transcendente. Tanto aqueles que ministravam a comunhão como os que simplesmente observavam foram arrebatados. Fiquei pensando se eu era o único, entre os milhares de membros da congregação, que estava distanciado da cena, menos — eu suspeito — por meu olhar "profissional" do que por embaraço voyeurístico. O experimento foi considerado um enorme sucesso, soube mais tarde, e esperava-se que aumentasse o número de fiéis a freqüentar a igreja.

Que o ritual promove um sentido de comunidade ou, como diria Victor Turner (1969:94-165), de communitas, sempre foi do conhecimento comum muito antes do nascimento da antropologia. A efervescência social que Durkheim viu em seu cerne, ou ao menos no cerne dos rituais primitivos, é mais uma projeção da ressecada mente ocidental, eu suspeito, do que um fato objetivo. Não quero negar que haja rituais cujos desfechos são tão frenéticos que há uma perda da consciência individual e uma submersão no grupo, do tipo que acontece em uma discoteca, eu diria. De fato, testemunhei desfechos como esses entre os Hamadsha, os membros de uma irmandade religiosa marroquina conhecida por seus selvagens ritos de exorcismo, quando no meio da noite, de repente, após horas dançando e entoando cânticos em transe, as luzes apagavam-se e, em um rumoroso silêncio — apenas um oxímoro faria justiça àquele momento — 'A'isha Qandisha, o demônio feminino por eles venerado, fazia sua entrada. Embora eu não possa saber o que os participantes realmente sentiram naqueles momentos, todos se lembram de ver 'A'isha em uma manifestação ou outra (os psicólogos, sem dúvida, diriam que quaisquer que tenham sido as experiências individuais dos participantes, elas foram imediatamente interpretadas no idioma coletivo como uma manifestação do demônio feminino).

Apesar de eu mesmo não ter visto 'A'isha, pude sentir uma presença sombria, que atribuí imediatamente, dado o meu racionalismo (talvez defensivo), à intensa focalização dos participantes do ritual no demônio feminino. Mais tarde, comparei aquela sensação às experiências que todos temos quando, acreditando estar sozinhos, sentimos subitamente a presença de alguém em um cômodo antes de vermos efetivamente a pessoa.

A maior parte dos rituais que presenciei, inclusive muitos atos Hamadsha, ou sobre os quais li, são de fato eventos sem método algum, desprovidos de intensidade dramática. E quando efetivamente acontece esse tipo de dramaticidade, não fica claro se ela produz alguma efervescência. Descrevendo as sessões divinatórias realizadas por curandeiros Azande, Evans-Pritchard (1937) observou que sua dança foi a mais animada apresentação que já havia presenciado e que a música feita pelos curandeiros — uma "conjunção" de gongos e tambores — era inebriante tanto para os que a tocavam quanto para os que a ouviam. "Música, movimentos rítmicos, caretas, vestimentas grotescas, tudo ajudava a criar a atmosfera apropriada para a manifestação de poderes exóticos" (1937:177). Embora o público acompanhasse o espetáculo com interesse, movimentando suas cabeças no ritmo da música e cantando junto com os músicos quando queria, seria um erro, assegura-nos Evans-Pritchard, presumir que a atmosfera era de respeitoso temor. Ao contrário, as pessoas demonstravam jovialidade, conversavam e faziam piadas. Contudo, Evans-Pritchard lembra-nos:

que o público não estava apenas assistindo a uma apresentação de música percussiva, mas também a uma representação ritual de magia. Trata-se de mais do que dança, é uma luta, parte direta e parte simbólica, contra os poderes do mal. O completo significado da sessão como um espetáculo contra a bruxaria pode ser compreendido apenas quando se entende a dança […] Um curandeiro 'dança as questões' (Evans-Pritchard 1937:178).

O que Evans-Pritchard deixa de explorar é o efeito ritual (dramático ou mesmo psicológico) da disjunção entre a seriedade da sessão — o temor que pode inspirar — e a atitude (às vezes) jovial do público. Não parece haver, no evento, efervescência de grupo ou mesmo foco constante. É possível argumentar que haja desvio persistente? Talvez seja a abstração, tão pessoal em sua impessoalidade quanto coletiva, a atitude ritual mais característica. Um dos erros de muitos estudos sobre rituais é, a meu ver, sua derivação da forma e da intenção dramática a partir de um pressuposto desfecho. Como já observei anteriormente (Crapanzano 2004), vários participantes de rituais disseram-me que foi nessas ocasiões que sentiram mais intensamente a solidão.

Com muita freqüência eu — e outros antropólogos — fomos incapazes de distinguir entre um ideal não-realizado e a experiência real na descrição feita pelos participantes de rituais. Lembro-me de tomar parte em um musem Hamadsha, a peregrinação anual, que culmina no encontro dos líderes de duas aldeias rivais: uma delas, Beni Rachid, de status superior à outra, Beni Ouarad7. O líder, ou mizwar, de Beni Ouarad, à frente de milhares de seguidores, montado em um garanhão, chega à entrada de Beni Rachid, onde seu mizwar o espera montado em um garanhão branco, cercado de milhares de seus seguidores. O mizwar de Beni Ouarad desmonta e segue a pé através da aldeia o líder de Beni Rachid, que permanece montado, até o santuário do santo Hamadsha que eles veneram. Os dois oram e retornam, então, à entrada da aldeia. Esse é o ideal, o modo como costumava acontecer, mas me disseram que agora os dois líderes se encontram, um deles tendo desmontado, o outro sobre o cavalo, cumprimentam-se e partem. Segundo o que me explicaram, isso se deve ao fato de não poderem seguir o caminho em meio à multidão espremida de adoradores em transe e frenesi. Na verdade, os dois homens tinham ciúmes das prerrogativas um do outro e acabaram enfrentando-se na justiça em ações fundiárias.

O que pude ver não foi nem o ideal nem a versão "realista". Os dois comandantes encontraram-se no final da aldeia. Não se cumprimentaram. Simplesmente fizeram uma pausa, deram meia-volta e retornaram para suas casas. Quando perguntei aos espectadores o que havia acontecido, eles me asseguraram que não apenas os dois comandantes haviam se saudado, mas também apertado as mãos. Muitos insistiram que o mizwar de Beni Ouarad havia descido do cavalo! Quando insisti com minhas perguntas, eles ficaram tão violentamente irritados que tive que parar. É talvez essa flutuação entre o ideal e o real, a euforia e o senso de insuficiência, que caracterize boa parte da experiência ritual, como argumentei (Crapanzano 1992:260-280) para o caso dos rituais de circuncisão marroquinos e sua eficácia. Um lança uma sombra sobre o outro e vice-versa. O que importa é sua mútua implicação. O ideal não pode ser inteiramente desengajado de sua experiência real, embora eles possam ser, com algum sucesso, diferenciados analiticamente. É por essa razão que eu hesitaria em igualar o ideal à cena. Suas relações com o real têm gramáticas divergentes.



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Muitos estudos sobre rituais, mesmo aqueles que enfatizam a communitas, resistem ao sentido de milagre, de mistério e de estranho que os participantes descrevem, como se, apesar de metafóricos e simbólicos, eles não tivessem nenhum referente real. Embora eu não esteja pessoalmente disposto a aceitar a interpretação do milagre, acredito que temos que perguntar o que está sendo descrito pelo "milagroso", "misterioso" e "sinistro". Antes de atribuirmos a essas interpretações da experiência, ou às suas aproximações nativas, um referencial predeterminado e confortável — ansiedade da castração, digamos, no caso do sinistro; os poderes transcendentais do social, no caso do milagroso ou do misterioso — devemos tentar entender como esses termos e análogos são usados e como eles aparecem no panorama cultural em estudo. O "milagre" sugere na cultura euro-americana uma quebra da cadeia "natural" de eventos que são causalmente unidos tanto de modo mediato quanto imediato. Em verdade, o "milagre" é duplamente milagroso, pois não apenas é milagroso em seus próprios termos, mas também cria milagrosamente uma ruptura em nosso sentido naturalizado de história e torna-se ainda mais extraordinário.

A discussão de Freud (1963) sobre o "sinistro" pode nos servir de modelo, pois embora ele o relacione, em uma de suas manifestações pelo menos, à ansiedade da castração, ele resiste, ou melhor, seu material o força a resistir à postulação de um único referente causal. "Uma experiência sinistra ocorre tanto nas situações em que complexos infantis reprimidos são revividos por alguma impressão, quanto naquelas em que crenças primitivas que superamos parecem mais uma vez confirmadas" (Freud 1963:55). O que é importante em nossa leitura de Freud é o mecanismo que produz o sentido do sinistro: o estranhamente familiar, algo aterrorizante que já é há muito conhecido, mas está esquecido até que ele — o seu efeito — seja ativado por uma impressão no presente. Eu destacaria a paradoxal relação entre contingência e repetição: uma repetição que ao mesmo tempo realça e desarma o contingente.

Freud (1963:50) observa, em outro trecho de seu ensaio, que um "efeito sinistro é muitas vezes produzido facilmente pelo apagamento da distinção entre imaginação e realidade, como quando algo que havia sido até então considerado imaginário aparece diante de nós em realidade, ou quando um símbolo assume a função e o significado completos da coisa que ele simboliza e assim por diante". Freud relaciona essa "ênfase da realidade psíquica em comparação com a realidade física" aos sentimentos infantis de onipotência e às práticas mágicas. Sua busca por origens endopsíquicas da experiência reflete, evidentemente, o pressuposto histórico culturalmente específico de seu tempo. Eu preferiria destacar a dimensão interpessoal da experiência do sinistro em suas dimensões sincrônica e diacrônica. Em outras palavras, nos termos da situação na qual quem quer que experimente o sinistro se encontre no tempo da experiência e (na medida em que seja evocada de novo) no tempo em que for descrita, e nos termos do passado com-figurado, que insere a si mesmo no presente por meio da lembrança intencional ou não. Uso aqui "com-figurado" para sugerir tanto a articulação do evento passado quanto sua figuração — posso dizer animista? — que proporciona a possibilidade interlocutória.



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Olho ansiosamente para a água-forte de Trignac. Observo o modo como os pilares que sustentam a ponte sobre o fosso estão refletidos às avessas nas águas escuras. Seu reflexo, como um triângulo invertido, uma seta, aponta para baixo, para dentro das profundezas misteriosas da água e tudo o que está no fundo. Isso é destacado por uma vela que, por nenhuma razão aparente, se estende da base do pilar. Iluminado pelo mesmo raio de luz que brilha nas velas do que vejo agora ser o barco da morte, seu reflexo escurece à medida que mergulha nas profundezas do fosso. Quaisquer que sejam as associações pessoais que ele evoque — afogamento, medo de ser engolido — o pilar e a vela e seus reflexos tornam-se subitamente um mapa bastante ameaçador da realidade psíquica (uma versão dela ao menos), na qual a linha entre o pilar e a realidade da vela e seus reflexos, a linha da contigüidade, que os Sufis chamariam de barzakh, é reduzida a uma faixa escurecida que não pode ser identificada nem com a realidade nem com seu reflexo.



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Os Fang do Gabão, que são participantes de um movimento religioso sincrético chamado Bwiti, destacam o papel do assombro ou do miraculoso — akyunge — em seus rituais. Embora usualmente traduzido como milagre, akyunge significa, segundo James Fernandez (1982:436), "tudo o que for feito com tão inigualável habilidade e sutileza no sentido de impressionar e estar além da compreensão comum e da imitação".

Entidades sobrenaturais causam estupor por intervirem na ordem natural das coisas e transgredirem o normal. O Bwiti causa espanto em seus membros por intervir em suas vidas de tal modo que lhes permite superarem a si mesmos e virem a entender o extraordinário, o oculto, o aspecto relativo à morte de cada coisa. E, assim, estarem em comunicação com ela (Fernandez 1982:436).

Os Bwiti Fang estabeleceram seus padrões de prática ritual com base nos do povo vizinho no Gabão, os Metsoga. Fernandez (1982:438) descreve os "assombros" de um obango — uma dança extática dos Metsogo: "tochas que deslizavam de maneira misteriosa pelo terreno, o crescimento aparente de um broto de bananeira até se tornar uma pequena árvore no decorrer de várias horas, o aparecimento instantâneo de um galo a partir de um ovo e a precipitação de um dançarino na fogueira sem ser queimado". Alguns desses efeitos, no dizer de Fernandez, não passavam de prestidigitação, mas outros eram o resultado de extraordinária habilidade e de planejamento.

Era preciso manipular cuidadosamente cabos para fazer com que as lanternas "flutuassem" pelo terreno. Ou no caso de um estranho som vindo do topo de uma árvore próxima: seria um espírito? Um dançarino se fez voluntário para subir na árvore e descobrir. E ele o fez com uma tocha amarrada ao braço. Mas assim que alcançou o topo, foi derrubado; a tocha e o que parecia ser seu corpo caíram com um grito apavorante através das árvores. No momento seguinte, o mesmo homem pulou para fora da câmara secreta [presumivelmente da capela Bwiti] (Fernandez 1982:438).

Espetáculos como esse são apreciados por sua realização artística, mas na medida em que beiram o extraordinário, eles são com facilidade aparentemente tomados por milagres, pelo menos no momento — o ápice — de sua apresentação, ao final de uma cerimônia que se desenrola por toda a noite, o Caminho do Nascimento e da Morte, no qual o ciclo litúrgico-cósmico da crença Bwiti é ensaiado em canção, oração e dança, realçado pelo uso do eboga (um alucinógeno suave). A última parte da cerimônia, o Caminho da Morte, culmina na morte, transformação e ascensão do deus Eyen Zame e na liberação dos ancestrais aprisionados. Esse complexo ritual inclui dois episódios obango altamente dramáticos, separados por períodos menos intensos de canto e dança. Os dois episódios, que têm lugar após a meia-noite e pouco antes do amanhecer, têm o seu apogeu no que os Fang chamam de "um só coração" (nlem mvôre) — uma espécie de confluência. Os participantes do ritual, trazendo velas, seguem a harpa sagrada pela floresta em busca dos espíritos de ancestrais perdidos que ainda não encontraram o caminho para a capela, e são conduzidos de volta para lá, onde se aglomeram em torno do pilar central e do chefe religioso, tornando-se, no dizer de Fernandez, virtualmente um só ser. "Levantando as velas sobre suas cabeças (idealmente, eles deveriam poder fazer apenas uma chama de todas as velas), eles entoam […] agora nos tornamos um só coração" (Fernandez 1982:453-454).

Para Fernandez (1982:466-469), os assombros da cerimônia do ritual excitam a imaginação religiosa dos Fang ao confundirem categorias comuns da experiência. "Encontramos nelas [as cerimônias Bwiti dos Fang inspiradas pelas dos Metsogo] uma atmosfera liminar em que os mortos subitamente ganham de novo a vida, animais podem ser homens, brotos subitamente tornam-se árvores maduras, e homens brancos são, de fato, homens negros ou vice-versa. As coisas se confundem, perdem suas categorias — os 'milagres' metsogo tornam as coisas 'assombrosamente ambíguas'". Segundo Fernandez, as confusões semânticas ritualmente induzidas são mais tarde resolvidas, na perspectiva dos Fang, por seus ancestrais, os mortos-vivos. São eles que reclassificam e alinham homens e mulheres segundo seu pertencimento genealógico — no caminho do nascimento e da morte. Embora Fernandez (1982:476-487) relate algumas das visões de iniciados sob a influência do eboga, ele não nos conta como os participantes no Caminho do Nascimento e da Morte descrevem suas experiências durante a cerimônia. Isso fica para a nossa imaginação. Podemos vislumbrar que horas dançando, cantando, ingerindo doses moderadas de um alucinógeno suave, caminhando no meio da noite à luz de velas pela floresta, sempre sombria e cheia de perigos potenciais, encontros (imaginados) com ancestrais mortos possam, todos eles, produzir múltiplas e sempre cambiantes cenas cada vez mais distantes da "realidade suprema."

Indiferente do que se possa dizer sobre o ritual Bwiti, não há dúvida de que ele seja teatral e, como tal, acentue o elemento cênico de tal forma que pareceria ao observador distanciado que a realidade suprema se dissipa. Como isso afeta o panorama Bwiti sobre a vida em geral, sua percepção da vida cotidiana, o reconhecimento do artifício da(s) cena(s), mesmo o da realidade comum, o seu realismo e o modo como configuram e figuram — metaforizam — a cena em e para outras ocasiões, ainda precisa ser determinado. Essas determinações deveriam basear-se não apenas nos relatos experienciais (pois esses sozinhos gerariam talvez uma ênfase exagerada no individualmente subjetivo, em detrimento do intersubjetivo, do interpessoal, do coreografado), mas também e mais formalmente, na maneira como as experiências cênicas são estruturadas e, por conseguinte, estão sujeitas ao regime metapragmático — como a estruturação da cena [framing of the framing], os milagres, governam o modo como a cena é articulada, avaliada e configurada; ou como, em outras palavras, a "experiencialidade" da experiência é constituída.



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Lanço um olhar nervoso para a fortaleza de Trignac. Ela me lembra agora um cenário de ópera. Penso em calabouços, encarceramentos, as cenas de prisão em A Pequena Dorrit, em O Conde de Monte Cristo, escavação de túneis, fuga, a lentidão da fuga... cair na armadilha de uma realidade ou de outra, as ilusões de liberdade, os constrangimentos do realismo, a libertação imaginativa, as ilusões dessa libertação, maya... Todo o mundo é um sonho. Todo o mundo é um palco. É possível escapar do sonho? Ver além do palco? Por que o faríamos? Um de meus alunos, um ator, observou há alguns dias que, quando se está em cena, não é possível ver o público. Ele não passa de sombras, mas pode-se sentir sua presença, isto é, quando não se está inteiramente arrebatado. E mesmo assim...



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Não entrarei na discussão sobre o uso de drogas para produzir uma contra-realidade. Em minha argumentação, qualquer realidade que elas possam produzir fisiologicamente é ainda uma reação imersa na cultura — o produto de um complexo jogo interlocutório. No meu último ano de faculdade em Harvard, para ganhar algum dinheiro, amigos meus participaram de experimentos psicológicos em que lhes era fornecida uma droga — eles não sabiam do que se tratava — e tinham que relatar o que experimentaram. Eles viam luzes, estrelas, "efeitos de luz como a aurora boreal", como disse um deles. Isso era tudo. Eles tinham tomado LSD. O psicólogo era Timothy Leary. Alguns anos mais tarde (se tanto), eles estariam viajando, encontrando seus duplos, banhando-se em êxtase, voando para os céus, descendo aos abismos infernais, experimentando o nirvana, sofrendo os prazeres boschianos do Jardim das Delícias Celestiais, em contato com seus arquétipos. Alguns atravessariam a última fronteira, perderiam seus rumos e nunca voltariam. Para quê? Nunca me esquecerei do dia em que um de meus alunos em Princeton veio à minha sala sob efeito de ácido, desejando, como ele me contou, nunca mais sair daquela viagem. Foi um dia depois dos assassinatos na Kent State University...

Estou indo longe demais? Quebrando as convenções do meu gênero escolhido, prescrito? Espero ter demonstrado meu argumento. A realidade, a realidade suprema, pode ser dolorosa. Assim disse Freud. Os budistas, os hindus também. Platão entendeu a refinada dor da realidade — a realidade, a das Idéias. Estamos condenados, ele pensava (e seu pensamento infiltrou-se, desde então, em nosso pensamento), a um mundo de sombras, refrações de uma realidade que nunca podemos experimentar diretamente, pouco importando quão grande seja o nosso desejo, a nossa disciplina.

Mas por que postulamos uma realidade tão inatingível?

A pergunta é importante, menos por causa de suas implicações idealistas do que pelas empíricas. Por que nós — alguns de nós, ao menos — nos agarramos tão obsessivamente ao que chamamos de realidade empírica? Por que essa realidade se tornou o baluarte de uma disciplina epistemológica que, apesar de sua rejeição por qualquer fundamento ético, é conduzida com tamanho rigor moral — isso, moral — um rigor defensivo?

Lembro-me de uma palestra a que assisti, na época de minha pós-graduação, proferida por um antropólogo cuja identidade não revelarei. Ele passou uma hora descrevendo sua metodologia empírica. Havia morado em uma aldeia onde simplesmente anotava de modo minucioso o que as pessoas faziam, mas sem jamais prestar atenção ao que diziam. Acho que nem chegou a aprender a língua deles, por medo de que isso contaminasse sua objetividade e o compromisso com sua metodologia. Extremo, com certeza, absurdo, mas não deixa de ter ressonância em nossos pressupostos empíricos.

Mais uma vez, sinto-me compelido a reiterar que não estou fazendo a defesa do irracional. Ao contrário, peço apenas uma abertura em nosso empirismo para incluir em sua esfera de ação o irracional — o menos que racional. Não há, no caso em estudo, nada irracional, nem mesmo fictício, sobre a cena. Em sua experiência, em sua descrição, em suas interpretações ou não-interpretações, é algo dado.



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Sempre relutei em reduzir a cena ao meramente subjetivo por duas razões. A primeira é que, dado o regime empírico que estou contestando, não o empirismo em geral, o subjetivo é freqüentemente reduzido a uma categoria de rejeição. A segunda é que o modo como concebemos o subjetivo é individualizado de maneira a excluir os seus fundamentos interlocutórios, interpessoais. Mesmo quando tentamos nos aprofundar em sua estrutura, tendemos a olhar para as causas biográficas (isto é, individualizadas). Ou, sob sua roupagem assim chamada lingüística, para a função formativa da linguagem. Como procurei fazer inicialmente, antes de minha descida retórica ao aparentemente irracional, quero destacar o modo como a cena e mesmo a realidade suprema são construídas. Falamos com excessiva facilidade de construção social da realidade quando deveríamos talvez falar da construção social de cenas e realidade e — o que é ainda mais importante — da construção social do modo como cenas e realidades são relacionadas ou não umas às outras; do modo como elas se hierarquizam — se hierarquia for mesmo a figura apropriada. Outros arranjos são possíveis. Entre eles, incluem-se equações de diferentes cenas e realidades, a rejeição de algumas delas, até sua foraclusão, sua Verwerfung, ou sua obliteração sem deixar sinal. Elas podem estar temporalmente organizadas, digamos, de maneira a oscilarem, em um modo de esconde-esconde ou nos termos da mecânica quântica, entre uma modalidade interpretativa e uma posicional, ou vice-versa.

Concepções construtivistas sociais são sempre um pouco perturbadoras em sua generalidade. Eu gostaria de restringir aqui minha discussão ao modo como as trocas interlocutórias precipitam a cena — e, se não a realidade suprema, sua articulação e avaliação — tanto quanto a relação entre cena e realidade. Como sugeri quando discutia a estruturação e a sua metapragmática da esquematização, a constituição da cena, da realidade e suas relações resultam de um complexo jogo indicial entre interlocutores que, intencionalmente ou não, têm que indexar a si mesmos e a sua relação em um tempo dado. Não há nada particularmente novo sobre essa observação. O que quero destacar, contudo, é que os interlocutores constituindo a si mesmos e aos outros não precisam ser indivíduos com quem alguém se engaje imediata ou mediatamente como, por exemplo, na leitura, mas que eles também podem ser figuras da imaginação ou da memória, beirando o mundo ensombreado do fantasma (em muitas culturas, memória e imaginação são conceitualmente fundidas). Podemos conceber essas duas categorias de interlocutores em termos sincrônicos e diacrônicos ou, se o leitor preferir, em termos de um eixo horizontal e um vertical cuja interseção é o momento experiencial. Dependendo da situação em que alguém se encontra — o modo como é estruturada — os interlocutores imediatos ou mediatos ou os imaginados ou lembrados podem ser dominantes, mas os interlocutores latentes, é minha sugestão, nunca estão inteiramente ausentes ou sem influência na interlocução. Como a focalização nesse ou naquele tipo interlocutório relaciona-se com a constituição e a avaliação da cena e da realidade, é algo a ser determinado caso a caso.

Processos indiciais nunca são simples atos ostensivos que apontam ou provocam um único elemento em uma realidade constituída um contexto. Além do argumento bastante óbvio de que, ao se indexar um elemento contextual, também se indexa o contexto em que aquele elemento ocorre, como se fosse, digamos, um contexto em que tal elemento pode ocorrer. Ou eles podem, de maneira irônica, cômica, transgressiva, jogar com a "inadequação" ou com a "surpresa" contextual. Lembro-me de como minha filha, aos três anos de idade, começou a rir quando, sem pensar, pus uma cenoura que eu estava comendo em um copo de vinho vazio para liberar minhas mãos para brincar com o cachorro. Ironia, jogo e transgressão chamam a atenção para a complexidade da dinâmica pragmática e metapragmática, cuja análise está além do escopo deste artigo (ver Crapanzano 2003).

A indexação de todo elemento e, por conseguinte, seu contexto é minimamente uma dupla indexação, pois não apenas ela aponta para o que é — o elemento contextualizante, o contexto — mas também para o que não é. Esse jogo hegeliano com a negação é tão inevitável, ao menos do ponto de vista comunicacional, a ponto de ser sem sentido na maior parte das circunstâncias, isto é, a menos que o próprio negado seja destacado como freqüentemente o é em jogos de palavras. Todavia, seja por negação, seja por afirmação positiva, indicadores podem, como sugeri, apontar simultaneamente para a realidade suprema e uma ou mais cenas "coincidentes". Ao fazê-lo, os indicadores também "definem" a relação entre a cena e a realidade. Ao menos nessas sociedades que privilegiam o realismo, seu realismo, parece possível que esse privilegiar mascare o modo como a indexação dessa realidade também indexa a cena. Quando a cena, porém, é o foco da indexação, parece possível que a indexação da realidade seja mais evidente. É óbvio que essas hipóteses requerem confirmação. O que está claro — e o que tentei demonstrar em minha discussão do ritual — é que há momentos em que a indexação da cena pode mascarar de tal modo a indexação da realidade suprema que aquela realidade se esvai.



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Até aqui destaquei o jogo de indexação entre realidade ou realidades e cena ou cenas do ponto de vista de uma única posição discursiva, a do ser falante ou pensante, mas nenhuma posição discursiva, como o destaque na interlocução sugere, é jamais sui generis. É sempre o resultado de complexas dinâmicas interlocutórias que nascem pelo discurso ou pela conversação. Elas incluem o jogo da indexação ou, talvez de modo mais acurado, a luta (exceto nas situações mais convencionais) entre interlocutores diferentemente posicionados, incluindo tanto os reais quanto os lembrados e os imaginados. Esse jogo é, como costumo argumentar (Crapanzano 1992), governado por um conjunto de convenções determinantes (ou metapragmáticas) às quais me referi como o Terceiro, ele próprio um foco de luta interlocutória (Crapanzano 1992: introdução, capítulos 3 e 4). Em termos simples, qualquer interlocução sempre envolve uma negociação para definir o modo como a interlocução será esquematizada, quais convenções discursivas prevalecerão e quais procedimentos hermenêuticos e axiológicos serão apropriados para a interpretação e a avaliação. É nesse nível metapragmático — esse estruturar da estrutura [frame] — que o poder, seja no sentido entranhado de Foucault, seja em um outro mais institucionalmente centrado, como no marxismo, insinua-se mais efetiva e cegamente no discurso e sua precipitação da realidade, a cena, e em sua mútua relação8. Para que qualquer comunicação seja bem-sucedida, há sempre uma acomodação — uma aceitação da estrutura, convenções e hermenêutica e axiologia relevantes — para a ocasião. É claro que essa aceitação não precisa ser genuína. Ela pode ser prática, política ou simplesmente hipócrita. Apenas o ingênuo aceita a acomodação sem suspeitar. Sempre se esconde atrás de cada interlocução a opacidade — a mente — do outro que lança sua sombra na interlocução9.

Há momentos, contudo, em que as partes da interlocução se abandonam nem tanto uma à outra, mas ao mundo intersubjetivo que elas co-criaram. Pelo menos desde o trabalho de Winnicott (1982:104-110) sobre o espaço potencial e a área intermediária da experiência — grosso modo o espaço transicional entre a realidade interior e a exterior — teóricos das relações de objeto na psicanálise têm se preocupado com a dinâmica do espaço-tempo na sessão psicanalítica. Entre os mais importantes está Thomas H. Ogden (1999), que explora o espaço intersubjetivo criado durante a hora psicanalítica, ao qual se refere como um "terceiro analítico intersubjetivo" ou, simplesmente, um "terceiro"10. Ogden (1999:462) argumenta que o pensamento psicanalítico contemporâneo "simplesmente não pode mais falar do analista e do analisando como sujeitos separados que tomam um ao outro por objetos". Eles estão submetidos, pelo menos durante a sessão analítica, a um engajamento intersubjetivo (ou dialético) tão forte que o engajamento torna-se (experiencialmente) uma terceira subjetividade que eles têm que considerar tanto de dentro quanto de fora. "O intersubjetivo e o individualmente subjetivo criam, negam e preservam um ao outro" (1999:463).

Acredito que, no consultório, uma dimensão maior da vida psicológica do analista com o paciente assume a forma de um devaneio concernente aos detalhes cotidianos de sua própria vida... Esses devaneios não são apenas reflexões da falta de atenção, do auto-envolvimento narcísico, de conflitos emocionais não resolvidos e congêneres. Ao contrário, essa atividade psicológica representa formas simbólicas e proto-simbólicas (baseadas em sensação) dadas à experiência não-articulada (e, muitas vezes, ainda não sentida) do analisando enquanto estão tomando forma na intersubjetividade do par analítico (isto é, no terceiro analítico) (Ogden 1999:476).

Ogden (1999:487) destaca a dimensão inconsciente do terceiro intersubjetivo co-criado. Ele enfatiza o modo como o analista subitamente focalizará um objeto comum que ele havia ignorado, por exemplo, o carimbo de mala direta no envelope de uma carta que ele pensava ser confidencial. Ele reconhece que a relação co-criativa é duplamente assimétrica, pois: a) "a exploração do mundo do objeto interno inconsciente e de formas de relação com o mundo externo do analisando" é privilegiada; b) os dois participantes experimentam o terceiro a partir de suas divergentes perspectivas, personalidades, modos de ajuste a seus respectivos mundos, o seu mundo.

Ogden restringe sua discussão à sessão analítica, mas eu argumentaria que somos freqüentemente tão intersubjetivamente cativados que temos que considerar (não há dúvida de que com menos auto-reflexão crítica que o psicanalista) essa ou aquela figuração experiencial da intersubjetividade. Dois exemplos que vêm imediatamente à mente: o primeiro diz respeito àqueles emaranhados de ódio e amargor de longa data, do tipo que Strindberg descreve em "A Dança da Morte"; o segundo refere-se àqueles momentos de encantamento amoroso em que os amantes sentem-se como um só ser, mas têm mesmo assim que se separar. Há ainda toda a sorte de condições patológicas que podem ser entendidas em termos de atração intersubjetiva, a mais óbvia delas sendo a folie à deux, mas teríamos que incluir "perturbações familiares" que atam os membros de uma família uns aos outros de tal modo que eles não podem se libertar ou o fazem precariamente. Todos esses exemplos, bem como os momentos rituais que discuti aqui, são estruturados diferentemente da sessão psicanalítica. As demandas intersubjetivas são passíveis de serem tão intensas que a diferenciação subjetiva pode perder o seu rumo. É certo que ouvi psicanalistas falarem de raros momentos em que perceberam que eles e seus pacientes sentiram-se realmente como um só ser, "como se eles partilhassem uma única consciência". Esses momentos são raros e não cultivados nas sociedades ocidentais, onde são usualmente considerados como ilusórios, mas recebem maior crédito em outras sociedades, como vimos no conceito de "um só coração" dos Bwiti, quando os participantes do ritual se aglomeram erguendo suas velas para formarem uma só chama.

Como parte de minha recente pesquisa sobre os Harkis, os argelinos que se aliaram aos franceses durante a Guerra de Independência da Argélia, visitei um dos mais notórios campos em que aqueles que conseguiam escapar do massacre após a independência foram encarcerados11.

Mohammed B. crescera em um dos mais notórios desses campos — um camp de forestage isolado nas montanhas, perto de Carcassone — que ele visita pelo menos uma vez por ano "para se lembrar". Hoje, com exceção dos poucos hippies alemães que acampam ali, a aldeia está abandonada, os casebres de pedra em ruínas e a praça da entrada cheia de carros abandonados e pneus velhos. Apenas a casa do comandante do campo, agora seu chalé de caça, que preside a vista da aldeia, está conservada. Mohammed estava ansioso para me mostrar o campo. Na longa viagem de carro até lá, falamos dos Harkis, de mercenários, da economia francesa, de política e, inevitavelmente, da guerra no Iraque. À medida que nos aproximávamos do campo, Mohammed começou a ficar reflexivo, perdido, imagino, em memórias. Fiquei chocado ao ver quão isolado era o campo. Em vários momentos, ele me pediu para parar e tirar fotos da aldeia e dos arredores e, quando eu o fazia, ele me contava, como se fosse seu dever, sobre um amigo, um pied noir, que ficou tão tocado com as condições desumanas que não conseguiu mais tirar fotos. Fiz o que Mohammed me havia pedido — não gosto particularmente de tirar fotos. Senti-me manipulado. Fiquei indignado e, contudo, cheio de compreensão para com a ambivalência de Mohammed.

Às vezes, com lágrimas nos olhos, ele me mostrava o estábulo onde ele, a mãe e os irmãos moraram, a escola a que foi mandado, o terreno onde brincava, o poço... Fui tomado pelo pensamento de que tudo aquilo que passava por sua mente eu não tinha como saber, mas que eu sabia de algum modo. Na volta, paramos para almoçar. Mohammed bebeu muito vinho, ficou taciturno e, de volta ao carro, cochilou. Foi um sono obliterante, pensei. Quando ele acordou, ficou sentado em silêncio, mexendo de tempos em tempos em seu telefone celular, esperando, imagino, por um telefonema que o tirasse da implosão do mundo de sua memória. Eu também fiquei na esperança de que ele tocasse. Finalmente, após mais ou menos uma hora, Mohammed virou-se para mim e disse que, se não fosse por sua mãe — que sempre insistia em olhar positivamente para o futuro — ele cometeria suicídio. Mas ele não podia desapontá-la (Ela é, de fato, uma mulher notável que conseguiu não apenas sobreviver ao horror de ver o marido degolado diante dela e à subseqüente vida no campo, mas também encontrou um emprego que lhe permitiu criar e educar os seus três filhos). Fiquei aturdido pelas palavras de Mohammed, menos em razão do que ele havia dito, mas pelo fato de que eu estava pensando que ele tinha pensamentos suicidas enquanto estava sentado ao meu lado. Não pude dizer coisa alguma. Não havia o que dizer. O carro tornou-se uma espécie de prisão. Eu queria fugir. Felizmente, o telefone celular de Mohammed tocou. Era um de seus clientes. Ele é mestre-de-obras.

Água-forte de Gerard Trignac

Todo antropólogo teve experiências como essas. Temos uma relação assimétrica com nossos informantes. Privilegiam-se suas palavras. Ogden poderia dizer que fui tomado por algo como o terceiro intersubjetivo, mas embora eu tenha experimentado uma proximidade cativante, quem sabe até uma fusão com os pensamentos de Mohammed naquele momento, hesito em me referir àquela proximidade, àquela possível fusão como o terceiro. O entendimento de Ogden surge da própria experiência. Ele mesmo fala de estar ao mesmo tempo dentro e fora do terceiro intersubjetivo. Sua teoria reflete — e mistifica inevitavelmente — a experiência. Se assim entender o leitor, é um sintoma da experiência. Ele não pode nem atingir a distância necessária para observá-la de fora, nem pode refletir sobre o jogo da indexação — a luta — que está acontecendo enquanto ele o experimenta sem perturbar, até mesmo destruir, a própria experiência. Há sempre um limite para a nossa consciência autoduplicadora e triplicadora. Dada a construção intersubjetiva da autoconsciência que estou advogando, eu teria que perguntar, em todo caso, como uma consciência putativa da intersubjetividade, sua atratividade, relaciona-se com a subjetividade intersubjetivamente constituída. Não podemos nos deixar seduzir pela interpretação no rumo de uma onisciência pontual.



***



Olho pela última vez para a fortaleza de Trignac e percebo, de repente, que nunca me perguntei quem lá habita. Há janelas, mas elas estão na penumbra. Não consigo ver nelas mais do que posso ver na mente de outrem. Há alguém olhando para mim? Para alguém que observa o quadro? Minha sala mergulha na escuridão. É o fim de uma tarde de inverno — anoitecer, crépuscule.



Notas

(1)

Eu observei
Tua sombra e a escuridão de teus passos,
E meu coração só vê as profundezas
De teus mistérios fundos.
Eu me deito sobre ossos, ataúdes onde a morte
Esconde os troféus que ganhou de ti
Na ânsia de calar tenazes perguntas
Sobre ti, constrangendo algum espírito
Solitário, mensageiro, a dizer
Quem somos nós (1934: ll.2-28).

(2) Como se verificará, meu uso do termo "cena" não deve ser confundido com a metáfora teatral de Erving Goffman (1959). O estilo próprio de empirismo de Goffman exclui precisamente o que quero dizer por "cena". Nas palestras em que baseei este artigo, com o objetivo de diferenciar minha noção de cena das normalmente usadas pelos sociólogos, usei o termo francês scène, mas no fim das contas isso apenas parecia uma pretensiosa manipulação de palavras. Ressalte-se que o uso do vernáculo acarreta a perda da referência imediata à tradução de Lacan para a expressão freudiana der andere Schauplatz como scène: a cena do sonho.

(3) É importante observar que Schutz reconhece sua dívida para com a noção de "subuniversos" de William James. A realidade suprema de Schutz corresponde grosso modo ao "mundo do sentido" de James. Conferir, deste autor, o ensaio The psychology of belief (s/d.:1028-1030).

(4) Já discuti o conceito de cena com alguns psicanalistas. Embora eles sejam sensíveis enquanto grupo a mudanças de humor e de caráter de seus pacientes e de si mesmos, tiveram uma reação de surpresa quando lhes perguntei sobre mudanças no sentido de realidade imediata durante as sessões de psicanálise. Simplesmente, os seus consultórios eram o contexto. Porém, após pensarem sobre o assunto, começaram a se lembrar de mudanças como estas. Quando os pacientes estavam deprimidos, eles diziam que o consultório parecia mais escuro e menor. Muitos falaram em luz azulada. Já em casos de mania, com a euforia do paciente, o consultório iluminava-se e muitos mencionavam a luz amarela. Alguns sentiam que o cômodo ficava mais espaçoso; outros sentiam claustrofobia. Raiva e agressão foram associados com vermelho. Objetos também mudavam. De repente, tornavam-se conscientes de como o estofamento de um sofá estava gasto, ou da poeira na cúpula de um abajur que nunca antes haviam notado. Uma analista disse que um pequeno quadro diante dela, em estilo muito abstrato, que costumava ser para ela uma espécie de ponto de reflexão enquanto escutava seus pacientes, tornava-se maior ou menor dependendo da ocasião. Ela não soube dizer por que nem quando.

(5) Embora não haja dúvida de que o humor e a atmosfera desempenhem um papel importante na descrição, para não falar da constituição da cena, não quero reduzi-la a isso. Ambos são, como observa Charles Altieri (2003:54), englobantes. Humores referem-se a experiências interiores; atmosfera, a experiências exteriores. Humores difundem-se e não se ligam, como explica Altieri (2003:54), a objetos específicos: "Nos humores, os afetos parecem estar intimamente relacionados a um estado geral do sujeito. Mas essa relação persiste em não ser algo para o qual se possa estabelecer uma narrativa, talvez porque humores pareçam uma entidade completa, sem começo e sem fim, mas apenas extensão, duração e esvaecimento... Humores são sintéticos e imperialistas, absorvendo detalhes em vez de se conformarem a aparências específicas (2003:54)". Altieri insiste em que, como os humores se difundem, o sujeito intencional não é particularmente importante. "Decerto nos sentimos envolvidos como sujeitos, mas não organizamos as cenas em termos de nossos interesses específicos ou perspectivas enquanto sujeitos. Ao contrário, a subjetividade flutua, variando entre um sentido da própria participação e um sentido de se estar envolvido em estados de espírito que todo sujeito pode alcançar, uma vez que estados de espírito parecem existir independentemente de perspectivas práticas" (2003:54). Eles absorvem a agência para o transpessoal. Embora a atmosfera possa ser diferenciada dos humores em termos de seu foco exterior, eles podem metaforizar um ao outro, como quando minha aluna se referiu à mudança de humor na sala. Tanto humor quanto atmosfera são diferentes do que quero dizer com "cena". Este é um conceito "objetivista", definido em termos de elementos e eventos específicos e que tem grande potencial narrativo e teatral. Não quero, contudo, elaborar essas diferenças, já que as distinções entre humor, atmosfera e cena são inevitavelmente confusas.

(6)

Com o céu seguro pela luz do dia
O poeta [Alastor] consultava em silêncio
A alma inerte. À noite, a paixão vinha,
Tal inimigo cruel em sonho aflito
Arrancou-o do descanso e o conduziu
À escuridão (Shelley 1934: ll.221-226).

(7) Para uma descrição mais detalhada dos rituais e das peregrinações Hamadsha, ver Crapanzano 1973, especialmente pp.115-118.

(8) Não pretendo sugerir que não haja nenhuma realidade "dura" lá fora mas, ao contrário, que a realidade, aquilo a que os fenomenólogos se referem como resistência, é originada e recebe forma articulada e valor desencadeados pelo discurso.

(9) Veja minha discussão sobre diálogos de sombras, aqueles diálogos interiores que cada participante dialógico tem silenciosamente consigo mesmo enquanto a troca dialógica com o outro, com outros, transcorre (Crapanzano 1992:213-ss.).

(10) Ogden (1999:464) toma o cuidado de diferenciar sua noção do terceiro do "nome do pai" (nom du père) de Lacan, que Ogden entende como um "meio-termo" entre símbolo e simbolizado, entre o si mesmo e as circunstâncias em que ele se encontra, criando um "espaço em que o sujeito interpretante, auto-reflexivo e simbolizante é gerado". Eu acrescentaria que o terceiro de Ogden tampouco é equivalente ao meu uso do termo como metapragmaticamente autorizado. Embora próximo ao nome do pai de Lacan, o Terceiro, como eu o uso, está em outro nível de abstração, que pode ser simbolizado pelo "nome do pai" como também pode sê-lo pela "Lei", ou encarnado pelo pai ou, nesse sentido, uma figura totêmica ou deus. Quero evitar a implicação psicogenética do termo lacaniano.

(11) Dos aproximadamente 250 mil Harkis, entre 100 e 150 mil foram mutilados e assassinados pela população argelina, em geral no tempo da independência. Apesar da tentativa de De Gaulle para evitar a fuga dos Harkis para a França, por volta de 20 mil famílias conseguiram fazê-lo e foram imediatamente colocadas em campos, alguns por períodos que chegaram a 16 anos.



Referências bibliográficas

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CRAPANZANO, Vincent. 1973. The Hamadsha: a study in moroccan ethnopsychiatry. Berkeley: University of California Press.


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SHELLEY, Percy Blythe. 1934. Complete poetical work. London: Oxford University Press.

WINNICOTT, D. W. 1982. Playing and reality. New York: Tavistock.

Recebido em 12 de agosto de 2005
Aprovado em 29 de agosto de 2005
Tradução: Rodrigo Maffei Libonati



* [N.T.] A expressão original "double voicing" remete ao conceito de Bakhtin de um duplo nível de alocução, na linguagem literária.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2008

Horizontes imaginativos e o aquém e além





Vincent Crapanzano

Distinguished Professor of Anthropology and Comparative Literature at the Graduate Center of the City University of New York

RESUMO


O autor desenvolve as noções de horizontes imaginativos e de liminaridade, travessia, meio-termo, fundamentos de uma proposta de antropologia da imaginação. Lança seu olhar às dimensões ignoradas da experiência, embora considere imprecisão e obscuridade como componentes necessários a toda experiência, ao pensamento e à percepção. Indica as diferentes concepções do entre, pensando, por exemplo, os tempos e espaços intersticiais (ma) na estética tradicional japonesa ou o barzakh no misticismo sufi. Questiona os nossos pressupostos quanto à natureza das relações, mediante uma releitura da teoria da liminaridade de Victor Turner.


Palavras-chave: antropologia da imaginação, horizontes imaginativos, liminaridade, experiência, Victor Turner.


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Este artigo divide-se em duas partes principais.1 A primeira desenvolve a noção de horizontes imaginativos e o papel teórico que acredito deva desempenhar nas ciências humanas. A segunda examina o aquém e além,2 o liminar e as travessias que ocorrem nos ritos de passagem e em outros movimentos sociais. Mediante o exame do intersticial na estética japonesa e no misticismo sufi, ela chama atenção para alguns de nossos pressupostos quanto à natureza das relações. Discuto tais pressupostos como estão exemplificados na teoria da liminaridade de Victor Turner. Ao revelelar uma outra perspectiva, um outro horizonte possível de compreensão, a discussão reporta à primeira parte deste artigo.


Muito se tem escrito nos círculos acadêmicos em anos recentes sobre divisas, limites e fronteiras, sobre seu reforço, sua supressão, dissolução e porosidade, sobre idas e vindas através deles, sobre transmigração, tudo supostamente afetado e efetuado por conexões pela web, pelo transnacionalismo e pela globalização de nossa estipulada pós-modernidade. Embora reconheça a importância de divisas, limites e fronteiras geopolíticos, a violência que inspiram, as ciladas que produzem, o doloroso deslocamento que causam e os controles que provocam, não trato deles neste artigo. Não me ocuparei do movimento ou - não-movimento - de pessoas através de linhas constituídas legalmente ou em domínios de cultura, língua e poder institucionalizado nitidamente marcados. Antes, as fronteiras me interessam como horizontes que se ampliam da insistente realidade do aqui e agora para aquele espaço ou tempo optativos - o espaço-tempo - do imaginário. É esse âmbito que nos dá uma folga, às vezes dolorosa e angustiante, às vezes prazerosa e apaziguadora, do aqui e agora em toda sua viscosa imediação. Permite-nos escapar da insistente atração da realidade. Embora estar preso à realidade imediata seja associado às culturas primitivas em nossas mitologias etnocêntricas inteiramente questionáveis, que salientam a primazia da vida instintiva deles e a sublimação, de fato, a eterealização, de nossa condição civilizada, todos nós, em algum momento, fomos tão consumidos pela realidade a ponto de perdermos a paciência, a consciência de nós mesmos e de nossos limites. Supomos, acertadamente, creio, que a distância que nos define nasce de nossa habilidade de representar simbolicamente o mundo, inclusive nós mesmos. O que parece escapar a esse acento no simbólico é a relação deste com a possibilidade imaginativa - com a esperança, com o optativo, com os modos - como o subjuntivo, concebido por nossas gramáticas.


Ao contrário das divisas, que podem ser cruzadas (a menos que estejam fechadas), e dos limites, que podem ser transgredidos, as fronteiras, conforme estou empregando a palavra, não podem ser atravessadas. Elas marcam uma mudança de registro ontológico. Postulam um além que é, por sua natureza íntima, inacessível de fato e de representação. Interesso-me pelo papel do que está situado além do horizonte, pelas possibilidades que oferece, pelos desejos lícitos e ilícitos que desencadeia, pelos jogos de poder que sugere, pelo terror que pode causar - a incerteza, a sensação de contingência, de acaso -, pela exaltação, pelo frêmito com o desconhecido que pode provocar. Imaginado, sonhado, projetado, calculado, profetizado - logo, construído -, o além sempre depende de como o encaramos. Nossas imagens, sonhos, projeções, cálculos e profecias podem dar forma e substância ao além, mas, ao fazê-lo, destroem-no; pois, enquanto o constroem, garantem seu deslocamento. E esse deslocamento abala nossas premissas acerca da realidade, base sobre a qual nossas construções são feitas. Embora fundacional, não está imune a nossas imagens do além. Assim, estou particularmente interessado nas vias paradoxais pelas quais a irrealidade do imaginário imprime o real na realidade e por que o real da realidade compele a irrealidade do imaginário. Essas vias não podem ser separadas. São como amantes que, de tão emaranhados, tornam qualquer delimitação de um corpo- ou alma - singular quase arbitrária.


Examinarei a imaginação por meio de um tropo - o do arrière-pays, do sertão, e de seus correlatos, o além e o alhures. Utilizo o termo arrière-pays para relembrar o trabalho do poeta e crítico francês Yves Bonnefoy, cujo livrinho L'arrière-pays (1982) é a inspiração para minhas reflexões de uma antropologia da imaginação. Para Bonnefoy, o sertão evoca as dimensões da experiência que se situam além da percepcão imediata de um objeto, de uma paisagem. Incluem a ansiedade que ele sente em uma travessia: "Lá, a dois passos do caminho que não trilhei e do qual já me distanciei, sim, é lá que se abre uma terra de essência mais elevada, onde poderia ter morado e que, desde então, perdi" (p. 9). É uma terra de pura possibilidade, de desejo e medo.


O além é como as trevas: não pode ser contido. Ele escapole - para aparecer de novo exatamente quando se pensava, para alívio ou desespero, que havia sido eliminado. Bonnefoy insiste que o arrière-pays é inacessível, inexistente como - todo objeto da imaginação, é ausente, inexistente, uma negação, um não-ser.


O que torna a inacessibilidade do sertão assustadora é menos a inacessibilidade que seu papel determinante em nossa percepção daquilo que, de modo ingênuo, tomamos por acessível - daquilo que efetivamente percebemos, vivenciamos, tocamos e sentimos. Imaginada - melhor ainda, imaginável -, ela permanece elusiva. Como nota o filósofo Edward Casey (1976, p. 7): "De fato, estritamente falando, não observamos o que imaginamos, pois não estamos em condições de submeter objetos e eventos imaginados ao exame minucioso que pode ser administrado àquilo que percebemos". É esse caráter elusivo, essa ausência determinante do acessível, que é assustadora: pois o que percebemos sempre é determinado - até certo ponto - pela ausência, aquela presença imaginada. O que nos amedronta é mais que a contingência. É o artifício de factualidade, de nosso empirismo, de nosso realismo, pelos quais nos cegamos a nós mesmos - muitas vezes, por meio de disparatadas metodologias da verdade e de ingênuas filosofias positivistas. Velhas conhecidas de todos nós.


Temos de perguntar, contudo, se há alguma razão para que nos assustemos com o sertão, com a possibilidade imaginativa que ele oferece e nega, com (a impossibilidade de) ir ao outro lado? Podemos não sentir prazer com sua irrealidade, com sua possibilidade, o jogo que propicia? Estamos cultural e historicamente vinculados ao medo e à ansiedade perante a possibilidade imaginativa? Perante a ausência - o não-ser - que atribuímos ao imaginário? Somos vítimas de uma epistemologia puritana da presença? Ou esses medos, essas angústias, são um componente essencial da condição humana? Eu não sei. Mas posso imaginar e, na verdade, conheço o prazer que a possibilidade oferece, a libertação, a fuga que proporciona. Incomoda-me a banalidade, o caráter repetitivo, de nossos enunciados sobre o sertão. Conforta-me seu contínuo deslocamento o domínio que recusa.


Reconhecendo os horizontes imaginativos e o sertão acolá, desejo oferecer uma crítica de alguns pressupostos empíricos comuns. Não estou descartando o empirismo de per si nem a ciência, a ciência antropológica, mas uma apropriação específica do empirismo (da realidade) que nega ou, ao menos, ignora uma importante dimensão da experiência humana - bem conhecida de todos nós. Não estou advogando uma veneração ao irracional, ao irreal, à imaginação. Meu objetivo é mais mundano. Como o filósofo William James, desejo atentar para aquela dimensão da experiência que, por resistir à enunciação - com efeito, desaparece ao ser enunciada -, tem sido ignorada de fato. Em seu apelo para reintegrar "o vago e inarticulado ao lugar que lhe cabe em nossa vida mental", James notou que "as imagens precisas da psicologia tradicional compõem apenas a menor parte de nossas mentes, enquanto estas realmente vivem" (1992, p. 164-65). Ele salientou que "o significado, o valor da imagem está todo neste halo ou penumbra que a rodeia ou acompanha - ou antes, que se lhe funde e torna-se sangue de seu sangue, carne de sua carne". O halo, a penumbra - prefiro a aura - que rodeia toda experiência, toda percepção e toda compreensão pode apenas ser evocado. Impreciso, obscuro, ele é um componente necessário, creio, de qualquer pensamento, percepção e experiência.


Fenomenólogos relacionariam o que chamo de horizonte imaginativo da percepção à periferia da consciência, aos limites externos de nossa atenção, como um pano de fundo. Insistiriam, entretanto, como faz Husserl, que a periferia é simplesmente uma extensão do mundo percebido - e não do imaginado. Os psicólogos também insistiriam no alargamento do campo de percepção. Entenderiam-lhe a qualidade antecipatória não como possibilidade imaginativa, mas como algo pré-lingüístico, pré-verbal, pré-cognitivo, pré-perceptivo. Os "pré", contudo, não eliminam o fato de o próprio horizonte pressupor língua, cognição e percepção. Ele é, nos termos de Jacques Lacan, um precipitado da ordem simbólica. Os "pré", apesar de alegarmos a imediação deles, indicam um adiamento em nossa percepção, nosso pensamento, nossa imaginação e experiência - um adiamento para o que compõe o sertão, não importa o que seja.


Pense em uma paisagem de montanha pintada pelo artista romântico alemão Caspar-David Friedrich.

Quadro de Caspar David Friedrich



Reisengenbirge, de Caspar David Friedrich



Muitas vezes, como em sua pintura do Reisengenbirge, nossos olhos são conduzidos do primeiro plano para o horizonte, neste caso, para as montanhas coroadas de neve e o céu claro, luminoso. Mesmo em suas paisagens montanhosas mais íntimas, o que vemos no primeiro plano é percebido em função do que está situado além das montanhas: outras montanhas, um vale, uma aldeia, um agricultor lavrando a terra, uma celebração de colheita, um cortejo fúnebre. Não sabemos. Só podemos imaginar. Quando olhamos para o primeiro plano do quadro, contudo, geralmente não imaginamos de um modo concreto o que se situa além das montanhas, mas nossa percepção está, como estava, impregnada de possibilidades imaginativas. Por mais numerosas que aparentem ser, essas possibilidades não são infinitas. A menos que eu esteja empenhado, digamos, em uma paródia pós-moderna consciente de si mesma, imaginando um mundo de carros a buzinar, camponeses a olhar fixamente para computadores, ou fábricas a expelir vapores nocivos, que impediriam qualquer apreciação da paisagem montanhosa nos próprios termos - nossos constructos imaginativos, por mais difusos que sejam, conforme delimitados pelas premissas românticas de Friedrich, por sua idealização da natureza, pelo sublime evocado por suas montanhas. A relação entre primeiro plano e sertão é, contudo, recíproca. Caso enunciássemos de fato o sertão como uma espécie de fantasmagoria pós-moderna, por certo veríamos a paisagem de Friedrich de um modo diferente.


Poderia dar muitos exemplos de tais horizontes. Nem sempre têm natureza pictórica -visual -, embora, ao menos na cultura euro-americana, o visual esteja intimamente ligado ao imaginário e à imaginação. Aqui, desejo salientar que o escopo dos horizontes imaginários não é limitado apenas por nossas capacidades psicológicas ou por nossas convenções estéticas, mas também por arranjos socioeconômicos, políticos e culturais. Embora relute em dar exemplos dessas influências, por serem altamente complexas e operarem tanto indireta como diretamente, darei dois breves exemplos de pesquisas de campo que conduzi entre fundamentalistas cristãos nos Estados Unidos3 e entre os Harki, aqueles argelinos que tomaram o partido dos franceses na guerra pela independência da Argélia. Desejo salientar aqui o estilo mais que a causa. Como é sabido, os fundamentalistas cristãos esposam uma forte hermenêutica literalista. Como cada palavra da Bíblia é inerrante, eles acreditam que devem ser o mais fiel possível ao sentido literal delas - ao sentido "próprio". Qualquer desvio desse sentido, ou seja, qualquer interpretação figurativa (a menos que a figuração, como tal, esteja marcada com clareza no texto) é perigosa, pois se corre o risco de sacrificar o sentido de Deus pelo de algum intérprete. Os fundamentalistas preocupam-se com o que chamam, à boa moda vitoriana, imaginação depravada. A hermenêutica, como a oração, o auto-exame e a aplicação da Bíblia à vida cotidiana, é uma disciplina criada, entre outras coisas, para controlar a imaginação e a propensão desta para a interpretação alegórica e figurativa. Como cada palavra na Bíblia, segundo a vêm, é inspirada por Deus e, por isso, ligada de modo indelével a todas as outras palavras, qualquer desvio do sentido - do sentido literal - da palavra arrisca pôr abaixo toda a compreensão fundamentalista das Escrituras. Seus horizontes estão contidos no interior desse rígido arcabouço hermenêutico. Como isso se relaciona à vida atual nos Estados Unidos, trata-se, claro, de especulação. Sem dúvida, é possível relacionar essa hermenêutica rígida a uma necessidade de estruturação em um mundo ameaçado pelas incertezas inerentes à sociedade capitalista e pela brutalidade relativa do cotidiano, mas, como sugeri, se este for realmente o caso, o nexo causal não é, de modo algum, direto. É mediado, por exemplo, por uma tradição religiosa duradoura que antecede o capitalismo como o conhecemos - uma tradição que enfatiza a salvação pessoal e uma intensa relação pessoal com Deus, ao menos com uma das manifestações Dele, Jesus. Pode-se relacioná-la também ao individualismo - ao individualismo muitas vezes aterrador e contestado promovido pelo capitalismo. Não sei. Prefiro reconhecer a impossibilidade de determinação sem explicitá-la com açodamento e concentrar-me no estilo.
Meu segundo exemplo se refere aos Harki, os argelinos que tomaram o partido dos franceses na guerra pela independência da Argélia. Quando se conquistou finalmente a independência, em 1962, entre 100 e 150 mil dos, no máximo, 250 mil Harki foram mutilados e massacrados pela população argelina em geral. Embora De Gaulle tenha feito de tudo para desencorajar a emigração dos Harki para a França, cerca de 20 mil famílias harki conseguiram fazê-lo e foram encarceradas em campos de prisioneiros por até 16 anos. Sem dúvida, ambivalentes quanto à posição política, traídos e abandonados, do ponto de vista deles, pelos franceses, incapazes de retornarem à Argélia, os Harki são uma população à part - agora, uma população espalhada pela França e estendendo-se pela terceira geração, unida por traumas coletivizados ao longo das gerações, que são reiterados em histórias ou reconhecidos silenciosamente. Esses traumas - esse trauma (pois, coletivizado, se tornou singular) - tornam-se um ponto de referência básico que, gostaria de indicar, restringe as possibilidades imaginativas dos Harki - uma restrição que, sem dúvida, se correlaciona com o status marginalizado deles na França. Cada adversidade é reportada aos maus-tratos que sofreram, que, por reais que tenham sido e sejam, não são, de modo algum, cabais.


Passo agora à segunda parte deste artigo. Em certo sentido, ela decorre diretamente de meu interesse pelo horizonte imaginativo, pois é uma tentativa de inaugurar uma via para pensar sobre a contigüidade, a metonímia e a montagem. Interessa-me especialmente a montagem - conforme a entendo, a justaposição, às vezes arbitrária, às vezes inusual, de dois ou mais itens, elementos, imagens ou representações que chama atenção para aspectos desses itens que estavam escondidos ou eram ignorados. Montagens inusuais podem produzir surpresa ou choque, iluminações repentinas, epifanias ou insights e, por isso, podem ser retóricas, estéticas ou terapeuticamente efetivas. Podem ser transgressivas, inquietantes, perigosas e iconoclastas. O significado que atribuímos às justaposições, claro, é determinado, consciente ou inconscientemente, pelo discurso. Produzindo ansiedade interpretativa, as montagens exigem uma firmeza interpretativa -uma tradução, por exemplo, a um paradigma familiar que produza contentamento. Devo observar, entre parênteses, que a montagem é intrínseca à etnografia, pois o antropólogo conjuga elementos de duas culturas - a cultura em estudo e a cultura de referência. Assim, há uma dimensão iconoclasta importante para a etnografia que é (em meu ponto de vista, infelizmente) reduzida pela etnologia - pela descrição tornada convencional, pela interpretação autorizada, pela explicação científica. Não estou negando agora o valor da interpretação ou da explicação (embora questione o da descrição convencional). Desejo simplesmente indicar-lhes um efeito secundário inevitável, que exige reconhecimento crítico.


Agora, desejo demonstrar que, ao menos na cultura euro-americana, tendemos a enfatizar antes os elementos que compõem uma relação, incluindo a montagem, do que a própria relação - o aquém e além, o intersticial. É por demais óbvio que elementos compositivos e relações são mutuamente determinantes. E, decerto, não quero envolver-me em uma discussão do tipo quem-veio-primeiro-o-ovo-ou-a-galinha. O que desejo salientar é que em determinadas sociedades, ao menos em alguns de seus domínios, enfatiza-se a própria relação e o modo pelo qual esta formula e define os elementos que a compõem. Tal ênfase - chame-se estilo cognitivo ou perceptivo - afeta não apenas a estética e outras formulações teóricas, mas também é refletida e reflete outros elementos culturais e suas relações sintáticas. Que na cultura euro-americana ao entre preferimos os elementos que o balizam - à relação preferimos os termos que a constituem - pode relacionar-se, por exemplo, à prioridade que damos à palavra - o nome e - ao referente em nossa concepção (popular) de linguagem. Concentramo-nos em categorias e sistemas classificatórios baseados nessas categorias, em vez de em sistemas determinados pela relação e pela sintaxe. Acentuamos a coesão e moderamos a elipse, a interrupcão e a pausa. De modo geral, não lemos em função do silêncio e do não dito. Muitas vezes, choco meus alunos quando peço que considerem um romance como The Awakening [O despertar], de Kate Chopin, ou algum de Clarice Lispector, sob o aspecto das lacunas entre os capítulos, com efeito, entre os parágrafos e as frases.


Não creio que os japoneses ficassem tão chocados quanto meus alunos norte-americanos. A estética (tradicional) daqueles, profundamente enraizada em sua perspectiva religiosa, enfatiza o intervalo, a lacuna, o silêncio, o entre e o em meio a. No verso encadeado japonês (renga), por exemplo, o efeito estético resulta menos das cenas descritas que do espaço-tempo entre os versos encadeados (Ebersole, 1983, p. 55). "Concentre-se no que não é dito", disse Shinkei (1406-1475), o poeta (Kamparu, 1983, p. 74). Zeami Motokyio (1363-1443), o fundador do teatro nô, afirmou que "os momentos de inação" (sensu tokoro), ocorridos entre (himu), são os mais deliciosos do teatro nô (Pilgrim, 1995, p. 58). "O que o ator não faz tem interesse" (sennu tokoro ga omoshiroki) (Komparu, 1983, p. 73).


Os japoneses chamam esses espaços ou tempos intersticiais de ma. Diz-se que o ma vem do chinês, o caractere que mostra o sol no meio de portão aberto. Originalmente, era usado unicamente para referir-se a espaço mas passou a designar igualmente o tempo. Pode ser traduzido por "espaço, epaçamento, intervalo, lacuna, vão, lugar, interrupção, pausa, tempo, ocasião ou abertura" (Komparu, 1983, p. 70). Tem conotações tanto abstratas como concretas. Um lugar é ma porque é um espaço entre paredes; em música, uma pausa também é ma, porque ocorre entre duas notas (Pilgrim, 1995, p. 56). Roland Barthes (1982) tentou - de um modo por demais afetado e profundamente francês (e, por isso, etnocêntrico) - delinear o ma em sua interpretação pós-estruturalista do Japão. Ele utiliza expressões como "o nada pregnante", "uma reminiscência desmembrada, descentrada, deslocada", um "signo vazio remanescente da fissura do simbólico" para evocar algo que ele não nomeia. Artistas, acadêmicos e arquitetos japoneses defendem que o termo resiste à tradução. Salientam-lhe a ambigüidade, o fato de que, para ser compreendido, se deve levar em conta uma configuração de espaço e tempo, que não podem ser separados um do outro, unicamente japonesa e uma concepção de energia ou poder espiritual (ki_ ou chi) que ressoa no interior do espaço-tempo, entre e em meio a. Ele é um cronotopo negativo - um silêncio, um vazio -, não obstante fecundo, que antecipa (e é antecipado por) o espaço-tempo positivo da ação em, digamos, uma peça nô (Komparu, 1983). Ma refere-se, simultaneamente, a algo e a experiência desse algo. Não é objetivo nem subjetivo, mas uma coalescência dos dois, pois, visto que o ma desconstrói todos os limites, ele tem (suponho) de eliminar aqueles existentes entre o objetivo e o subjetivo.


Motokiyo observa que é o kokoro - a força espiritual subjacente do ator nô - que produz o deleite da platéia em "momentos de inação". O ator "não relaxa a tensão quando a dança ou o canto chegam ao fim ou em intervalos entre (hima) o diálogo e os diferentes tipos de mímica". Ele conserva sua "firme vontade interior (naishin)", mas não deve torná-la aparente, o que equivaleria a agir e, portanto, deixaria de ser inação (Pilgrim, 1995, p. 58-59). Quero destacar uma espécie de relação chame-se suspense ou tensão dramática - que não se presta a uma análise coloquial. Depende sobremaneira de pausas e silêncios; que fogem à mensuração. Há diferentes silêncios, diferentes pausas; diferentes atitudes em relação a eles. Têm valor qualitativo.


Embora voltadas para palavras, coisas e eventos, para notas musicais, nossas interpretações, seja de um ator representando o papel de Rei Lear ou de um pianista executando uma sonata de Haydn, necessariamente, devem considerar o espaço - o silêncio - entre palavras e notas. Permitimos que essas interpretações ficassem privadas de teorização, o que, em uma época excessivamente teorizada como a nossa, por certo, deve ser tomado como um sintoma de nossa perspectiva epistêmica e de seus efeitos sobre a atenção, ou mesmo sobre a percepção. Deixamos esse - silêncio , que pode ser de tamanha importância hermenêutica, à arte da interpretação. Reconhecemos, claro, a importância do silêncio na interlocução, que é interpretado primordialmente, creio, em termos psicológicos e, apenas de modo secundário, em termos estéticos (salvo quando tratamos de uma comunicação moldada para a apreciação estética, claro). Como o psicanalista, embora de modo menos consciente, observamos os silêncios, as pausas das pessoas com quem conversamos. Nós os lemos como sinais de estados interiores - medo, culpa, constrangimento, vergonha - e, com muita freqüência, como revelações involuntárias do que se procura ocultar. Em épocas de espírito mais retórico, como na Grécia e Roma antigas, o silêncio foi reconhecido e cultivado como uma figura retórica sob total controle do orador.


Lembro-me de passar horas com meu amigo e mentor marroquino Moulay Abedslem, um velho analfabeto de grande sabedoria espiritual que fazia mortalhas e lavava corpos, discutindo o barzakh - o que está situado entre as coisas, entre as bordas, as divisas e os eventos. Ele o equiparava ao silêncio entre as palavras e aos sonhos. "O sonho está entre a vigília e o sono", disse. Barzakhi é o âmago da filosofia do grande sufi andaluz Ibn al-'Arabi (1165-1240) (ver Chittick, 1989; Corbin, 1958). Moulay Abedslem ouvira falar dele, mas não tinha conhecimento preciso de seu pensamento e certamente não relacionava a própria compreensão do barzakhi à de al-'Arabi. Para este, a imaginação (al-khayal) é um termo intermediário que resiste à definição. Em alguns momentos, parece estar entre o mundo espiritual e o material; em outros, entre o ser e o nada, como algo equivalente à existência. O importante é que a imaginação é uma "realidade" intermediária, ambígüa por natureza e melhor descrita como "nem isso nem aquilo ou tanto isso quanto aquilo". É barzakh, que al-'Arabi descreve como:


Algo que separa [fâsil] duas outras coisas, sem nunca pender para um lado [mutatarrif], como, por exemplo, a linha que separa a sombra da luz do sol... O barzakhi é algo que separa o conhecido do desconhecido, o existente do inexistente, o negado do afirmado, o inteligível do ininteligível. (Chittick, 1989, p. 117-18)


Ele tem grande poder. É um termo inteligível, o filósofo sufi nos diz, mas é apenas imaginação. Ele insiste na transitoriedade - as mutações contínuas - da realidade mediadora da imaginação, ou seja, o que Vincent Crapanzano. Horizontes imaginativos e o aquém e além normalmente tomamos pela realidade cotidiana, o mundo como o conhecemos. Ibn al-'Arabi não desenvolve, contudo, uma estética fundada no entre, como os japoneses fizeram. Adotou uma atitude marota em relação ao barzakh, ao mesmo tempo, jocosa e imensamente séria, o que é inteiramente estranho à variante japonesa de ma. Essa atitute permitiu-lhe trazer à baila o artifício do mundo como o conhecia - presunção humana. Para o filósofo sufi, barzakhi, o jogo retórico que oferece, possibilitou-lhe insinuar outra realidade - outras realidades - a que, mediante disciplina mística ao menos, tem-se aceso.


Esforcei-me em descrever diferentes atitudes com respeito ao entre, pois, embora nossa perspectiva epistêmica peculiar tenda a ignorá-lo, ele é na realidade uma "arena" de singular importância social, cultural e psicológica. Ficamos ansiosos, como insistem os existencialistas, perante qualquer indício do não-ser. Podemos ignorá-lo; podemos evitá-lo; podemos ocultá-lo. Podemos enunciá-lo tangencialmente. Também podemos conceber o não-ser esteticamente, como os japoneses fazem com o ma, atribuindo-lhe, assim, valor positivo; ou podemos jogar com ele retoricamente, como Ibn al-'Arabi faz com o barzakh, para evocar a dimensão imaginária - sempre, de algum modo, uma negação - do que tomamos por realidade. Concentramo-nos, como insiste Heidegger (1979, p. 340), no que é, sem levar em conta o fato de o Nada ser um tipo de pano de fundo projetivo para o que é: "o Nada é o que torna possível a revelação de nossa existência humana como ela é". Não desejo, aqui, discutir a noção heideggeriana do Nada, apenas observar que o suspense - estar em suspensão, pender, flutuar, pairar, ascender, scwebwen - é um componente essencial do terror que revela o Nada. "Aterrorizados, ficamos em 'suspense' (wir schweben)" (Heidegger, 1979, p. 336). Quero salientar o suspense - o risco - da passagem. Desejo sugerir que em todas essas travessias há sempre um momento, assintótico, que está simultaneamente dentro e fora do tempo e do espaço, como normalmente os conhecemos. São fundamentais à vida social, aos seus procedimentos mais básicos: troca, passagem, reprodução e transformação.



Victor Turner

Estou interessado, portanto, nos perigos de atravessar o limiar - o limen - e, para utilizar as palavras do antropólogo Victor Turner (1969, 1974), os estados liminares que estão associados a essa travessia. Ibn al-'Arabi iria chamá-los de barzakh, mas daria ao termo um sentido epistêmico que Turner, dada sua epistemologia, não pode. O modelo de Turner é basicamente o modelo tripartite do rite de passage de Van Gennep (1960): separação, margem e incorporação. Ele e outros ampliaram o modelo dos ritos concernentes a crises na vida de um indivíduo para aqueles da sociedade como um todo. Estes incluiriam ritos preparatórios para a guerra, cerimônias de primeira frutificação, colheita e chuva, que marcam a passagem da escassez para a abundância, e rituais de posse, como coroações, que, embora centrados em um indivíduo, são eminentemente sociais na orientação e nos efeitos. Turner (1974, cap. 1) amplia mais ainda o modelo, aplicando-o a períodos de reparação de conflitos sociais, que chama de dramas sociais. O centro de sua atenção é a liminaridade - a margem - , que considera uma "situação interestrutural" e é entendida como processo e devir. Julga o aquecimento da água até a fervura, ou a modificação de uma pupa de lagarta em mariposa "analogias apropriadas" de transição e transformação. Não está particularmente interessado em pontuar o liminar - em suas disjunções internas - e em como este efetua e é afetado pelo momento final, definidor, da transição.4



Ao contrário de Turner, quero atentar nas disjunções rituais, sociais e culturais e no momento, que cada vez mais se reduz mas nunca desaparece por completo, da diferença que resiste à enunciação. Eles são apenas executados e geralmente ignorados, embora possam ser exibidos em rituais dilatados e repetitivos, no drama, na literatura e na música. São os momentos definidores dos ritos de passagem, das cerimônias de cura, das investiduras de poder e autoridade sagradas e seculares e transições corriqueiras de um registro experiencial, por exemplo, a vigília, a outro, por exemplo, o sonho, o transe ou o simples adormecer. São arriscados e, às vezes, perigosos, embora o perigo e o risco que acarretam sejam em regra limitados pela convenção, repetição e sanção. Podem marcar uma mudança de status dos participantes; muitas vezes, envolvem a troca de objetos, reais ou simbólicos, que pairam "despossuídos" por um instante. Com efeito, há, em qualquer troca, um momento disjuntivo no qual o objeto não é dado nem recebido e em que os participantes ainda não são doadores nem receptores. Há sempre o risco de desistência e a conseqüente ruptura da relação. E há momentos, os mais dramáticos de todos, em que os participantes são apanhados em um entre que não podem sequer definir - em que não há travessia.


Na maioria das vezes, os momentos que desafiam a enunciação permanecem um paradoxo: para cada travessia, há sempre um momento em que não se está num lado nem de outro, em que não se é o que era nem o que será; pois, uma vez que são discriminados, o contígüo nunca os atinge. Fica-se em suspensão - pairando eternamente de permeio. (Talvez por isso os japoneses imaginam a si mesmos como preenchidos de energia.) Tome-se o casamento, por exemplo. Há sempre o mais breve dos momentos, quando não se é mais solteiro e tampouco se é casado ainda. Um casal está diante do altar, um sacerdote está prestes a declará-los marido e mulher, mas ainda não o fez ou apenas proferiu as primeiras palavras da declaração. O casal ainda está solteiro? Embora, tecnicamente, não estejam casados, hesitaríamos em dizer que ainda são solteiros. De modo mais extremo, mais absurdo: o sacerdote declarou-os marido e mulher, mas eles (ou as testemunhas) ainda não ouviram - ou escutaram - as palavras. Ainda são solteiros? Casados? A mudança de status é instantânea; ou seja, ela ocorre em um instante e, nesse instante, sempre há um risco. Ainda que breve, sempre há a possibilidade de a noiva ou o noivo fugir; o sacerdote parar; uma testemunha morrer; um dos convidados levantar uma objeção. Essa é a substância do melodrama, mas ela reflete o suspense e o risco de qualquer transição social. (Descobri que a maioria das pessoas - incusive eu mesmo - não é capaz de recordar tais momentos.)


Turner (1967, p. 96) relaciona os símbolos de morte, decomposição e menstruação (muitas vezes, tida como a perda de um feto), que são com freqüência vinculados aos iniciados, ao fato de estes não serem mais classificados. Estruturalmente "mortos", podem ser tratados como cadáveres; denegridos; sepultados; obrigados a deitar, imóveis, na posição habitual dos defuntos, e forçados a viver "com mascarados monstruosos que representam, inter alia, os mortos, ou, pior ainda, os mortos-vivos". Por não estarem ainda classificados, associam-se os neófitos a símbolos de gestação e parto. Podem ser tratados como embriões, neonatos ou crianças de peito. Os dois conjuntos de símbolos, diria, são inextricáveis, ocultam ao revelar, revelam ao ocultar o momento de transição que resiste a ser enunciado. Paradoxalmente, é o simbolismo do nascimento e do renascimento que media a transição, na maioria das vezes, e encobre a disjunção, por sua vez, exposta pela imbricação do simbolismo da morte e do nascimento. Porquanto o nascimento media a oposição entre nascimento e morte, as cartas são sempre embaralhadas em favor dele - da afirmação do ser sobre a não-ser, da continuidade sobre a descontinuidade.


O que há de interessante nesses momentos de transição é que sua liminaridade de vida curta está muitas vezes encravada na liminaridade dilatada, em que a transição final é, como foi, ensaiada em uma série de minitransições: as provas, testes e provações das cerimônias de puberdade, por exemplo. Caracterizam-se por múltiplas repetições em vários registros. Turner descreveu essas longas passagens e, embora reconhecesse sua qualidade dramática, em meu juízo, não avaliou plenamente o modo como elas atingem o clímax, o momento da passagem que, em essência, não pode ser enunciado. Ele tendeu, em suas generalizações sobre a liminaridade, como antiestrutura e communitas, a achatá-lo. Freud, sem dúvida, teria visto essas travessias cada vez mais dramáticas como um modo de dominar a ansiedade. Lévi-Strauss talvez as visse como um modo de reduzir a lacuna entre os dois lados da travessia. Eu quero salientar o perigo, a ansiedade e o terror que evocam. Eles, de maneira inconsciente, chamaram atenção para o artifício de nossa compreensão social e cultural ao exporem esses momentos refratários, que escapam a - e correm o risco de destruir - aquela compreensão e suas exigências de coesão e continuidade. Podemos descrever tais momentos com a expressão horror vacui,5 com a qual Nietzsche (1967) caracterizou o momento dionisíaco da tragédia grega; ou "abismo" - l'abîme -, tão popular na poesia simbolista francesa; ou não-ser. Mas devemos fazê-lo com cuidado, pois elas refletem, como insiste Derrida, nossa insistente ontologia da presença - uma ontologia que, apesar de suas pretensões universalistas, de modo algum é compartilhada universalmente.
O liminar foi muitas vezes equiparado ao sonho - ao processo primário de pensamento. Ele sugere possibilidades imaginativas que, não necessariamente, estão ao nosso dispor no cotidiano. Por meio de paradoxo, ambigüidade, contradição; de símbolos incomuns, exagerados e, por vezes, grotescos - máscaras, indumentária, estatuetas -; e pela evocação de realidades transcendentes, do mistério e de poderes sobrenaturais, o liminar nos oferece uma visão do mundo, que normalmente não enxergamos, cegados pelas estruturas usuais da vida social e cultural. Turner cita o místico alemão Jakob Böhme: "Em incerteza todas as coisas consistem". Devemos citar igualmente al-'Arabi ou um sem-número de outros místicos que chamam atenção para os paradoxos de nossa compreensão. Turner escreve:


A liminaridade talvez possa ser considerada como o Não de todas as asserções estruturais positivas, mas, em certo sentido, a fonte de todas elas e, mais do que isso, como um reino de pura possibilidade, de onde novas configurações de idéias e relações podem surgir. (1967, p. 97)
Sim, queremos dizer - tamanho é o ethos de nossa criatividade -, mas devemos reconhecer que o liminar também impõe constrangimentos. Ele não é sem estrutura, como Turner algumas vezes afirma, mas, como sustenta em outras, é antiestrutural, ou seja, conforme entendo, sempre está em relação com a estrutura do cotidiano. O liminar pode estimular a invenção, mas, ainda que pela negação, também afirma a tradição.


À guisa de conclusão, quero destacar um paradoxo no modo como compreendemos o liminar, quanto à imaginação. Se tomamos a imaginação, como fazem Sartre e, à sua maneira, Ibn al-'Arab, como algo que apresenta o que está ausente ou é inexistente, somos obrigados a concluir que expomos essas lacunas, esses momentos disjuntivos do não-ser, que pontuam nossa vida social e cultural, por meio de um atividade que permanece no não-ser de seu objeto - a imagem. A imaginação também nos fornece o brilho, os dispositivos retóricos, as manobras narrativas e as estratégias rituais que ocultam essas lacunas. Expomos o não-ser, como era, por meio de um ato que postula o não-ser, assim como ocultamos esse não-ser por um não-ser que declaramos, ao menos no ritual, ter completude - plenitude. Que é mais "real" que os objetos rituais? Turner poderia chamá-los sacerrima. É a esse paradoxo que se deve a contínua (ainda que repetitiva) elaboração, no ritual e no drama, na literatura e na arte, especialmente e do modo mais puro, na música, do momento assintótico de passagem, que torna as fronteiras imaginativas tão ameaçadoras quanto fascinantes e encantadoras para nós? Tal subterfúgio, se pode ser chamado assim, é uma fonte de nossa inegável criatividade social e cultural - ou de sua extinção - por meio da repetição e de sua proclamação como verdade última.

Notas


1 Este artigo, em boa medida, baseia-se nos dois primeiros capítulos de meu novo livro, Imaginative Horizons: An Essay in Literary-Philosophical Anthropology (2004).


2 N. do T.: O autor emprega a expressão betwixt and between - traduzida geralmente por "nem uma coisa nem outra" e que denota estado ou natureza ambígua, indeterminada -, em referência ao ensaio de Victor Turner "Betwixt and Between: The Liminal Period in rites de passage" (in Turner, 1967). Este a utiliza para caracterizar a condição dos indivíduos que, nos ritos de passagem, encontram-se no "estado de transição" ou liminaridade: "Entidades liminares não estão cá nem lá; estão aquém e além [betwixt and between] das posições designadas e dispostas por lei, costume, convenção e cerimonial" (Turner, 1969, p. 95). O tradutor valeu-se de leitura e comentários dos professores Rose Satiko Hikiji e John Dawsey, a quem agradece.


3 Ver Crapanzano (2000) para uma discussão pormenorizada da hermenêutica do fundamentalismo cristão.


4 Ver Crapanzano (1992, p. 260-80) para uma discussão das disjunções intra e extra-ritual. Ver também Taussig (1987, p. 441 ss).


5 N. do T.: Literalmente, horror ao vácuo.



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(Tradução de André Pinto Pacheco)

ABSTRACT


In this paper, the author develops the notions of imaginative horizons as well as of betwixt and between, liminality and crossing; grounded on them, he propounds an anthropology of the imagination. Despite considering fuzziness, shadowiness as a necessary component of all experience, thought and perception, he focuses on ignored dimensions of reality. Examining the interstitial spaces and times (ma) in traditional Japanese aesthetics or the notion of barzakh in Sufi mysticism, the author stresses different conceptions of the between. Finally, through a rereading of Victor Turner's theorization of the liminal, he calls in question our presuppositions about the nature of relations.
Key-words: Anthropology of the imagination, imaginative horizons, liminality, experience, Victor Turner.
(Fonte: Rev. Antropol. v.48 n.1 São Paulo jan./jun. 2005)