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sexta-feira, 5 de março de 2010

Yoga Sutra : Contemplação do OM - Turya


Yoga Sutra, I:23-29: Contemplação do Om

Swami Jñaneshvara Bharati
09 de Fevereiro de 2010

O Om é um caminho direto

A vibração do som do AUM (ou OM), acompanhado de um profundo sentimento (não o conceito deste sentimento, a sensação por detrás deste sentimento com entrega, atenção, concentração e relaxamento ao mesmo tempo) para com o significado do que ele representa (1.28), traz a realização do Eu individual e a remoção dos obstáculos que normalmente impedem esta realização (1.29). De certa forma, esta prática é como um atalho pelo qual podemos ir diretamente para o coração do processo.

Passando sistematicamente pelos vários níveis de consciência: Esta prática conduz a um caminho direto para o interior, percorrendo sistematicamente os quatro níveis de consciência. Isto é feito com sinceridade e dedicação (1.23), visando a fonte criadora não contaminada, ou consciência pura (1.24), que é o que o AUM representa (1.27). Esta consciência contem a semente da onisciência (1.25), que é a fonte dos ensinamentos de todos os sábios antigos (1.26).

Lembre do significado: Para que isto funcione, deve haver um profundo sentimento para com o som do AUM e para com o significado do que ele representa (1.28).






1.23 Por um processo especial de devoção e entrega para a fonte criadora da qual nos emergimos
(ishvara pranidhana), a vinda do samadhi é iminente.
(ishvara pranidhana va)






* ishvara = fonte criadora, consciência pura, purusha, Deus, Professor ou Guru supremo
* pranidhana = praticar a presença, sinceridade, dedicação, devoção, render-se aos frutos da prática
* va = ou


Os resultados do samadhi vêm mais rapidamente através da prática sincera, dedicada, devotada e direcionada para a consciência pura, simbolizada pelo AUM e conhecida por palavras como purusha, Deus, ou Guru. Em outras palavras, a prática de acompanhar o AUM pelos níveis de realidade e consciência é uma espécie de atalho, significando uma rota direta para o centro da consciência.

Isto pode ser melhor entendido por uma leitura atenta do seguintes artigos: OM and the 7 Levels of Consciousness e OM and 7 Methods of Practice.

Significado de Ishvara

Nas Upanishads, a palavra Īśvara é usada para denotar um estado de consciência coletiva. Assim, Deus não é um ser que está sentado sobre um pedestal lá no alto, além do sol, da lua e das estrelas. Na verdade, Deus é um estado de Realidade Última. Mas devido a inexistência da experiência direta, Deus tem sido personificado e recebeu vários nomes e formas nas diversas religiões através das eras. Quando expandimos a consciência individual para a Consciência Universal, isto é chamado de Auto-realização, onde o eu individual realizou a integração ou a unidade da diversidade, o princípio fundamental absoluto, ou Eu Universal, que está por baixo de todas as formas e nomes. Os grandes sábios das Upanishads evitam as confusões relacionadas a conceitos de Deus e encorajam os estudantes a serem honestos e sinceros na busca pela Auto-realização. A filosofia das Upanishads fornece vários métodos para desvelar os mais elevados níveis da verdade, e também ajuda os estudantes a se tornarem capazes de solucionar os mistérios individuais e universais (extraído de What God Is from Enlightenment Without God de Swami Rama).










1.24 Esta fonte criadora (ishvara) é uma consciência especial (purusha) que não é influenciada pelas cores (kleshas), ações (karmas), ou o resultado das ações, ações estas geradas pelas impressões latentes que se manifestam.

(klesha karma vipaka ashayaih aparamristah purusha-vishesha ishvara)






* klesha = colorido, doloroso, aflitivo, impuro; a raiz klish significa causar problema
* karma = ações
* vipaka = frutos de, amadurecimento, maturação
* ashayaih = pelos veículos, local de descanso, traços ou pegadas ou sinais armazenados, tendência, acúmulo
* aparamristah = intocado, não manchado
* purusha-vishesha = consciência, purusha especial ou distinto (purusha = uma consciência; vishesha = especial, distinto)
* ishvara = fonte criadora, Deus, Professor ou Guru Supremo

A consciência pura, representada pelo AUM, não é colorida como os samskaras normalmente são (klishta, 2.3, 2.1-2.9, 2.10-2.11). Também não está sujeita as manifestações dos karmas, nem executa ações que gerem novos samskaras (2.12-2.25).






1.25 Nesta consciência pura (ishvara) a semente da onisciência alcançou seu desenvolvimento mais elevado, e não pode ser superada.

(tatra niratishayam sarvajna bijam)






* tatra = lá, naquele ( naquele purusha especial)
* niratishayam = não há superior a ele, não pode ser superado por outros, ilimitado
* sarvajna = tudo conhece (sarva = tudo; jna = conhecer)
* bijam = semente

A consciência pura identificada pelo AUM é também a semente do conhecimento puro ou onisciente. Este nível de conhecimento é alcançado pela prática do mantra OM.





1.26 Por esta consciência (ishvara) os professores mais antigos foram ensinados, posto que ela não é limitada pelo obstáculo do tempo.

(purvesham api guruh kalena anavachchhedat)





* purvesham = do primeiro, prévio, cedo, antigo
* api = também
* guruh = professor
* kalena = pelo tempo
* anavachchhedat = não limitado pelo (tempo), sem quebra ou divisão, contínuo

Esta consciência pura, sendo eterna por natureza, é o professor direto de todos os professores antigos e ensinou até mesmo o primeiro professor de toda a humanidade. Em outras palavras, os primeiros professores da humanidade aprenderam diretamente desta consciência pura, e não de uma linhagem professor-estudante, na qual existe apenas uma passagem de informação. O aprendizado direto desta fonte suprema sempre esteve e continua a estar disponível, embora a ajuda das pessoas no aprendizado seja útil, se não essencial.





1.27 A palavra sagrada que designa esta fonte criadora é o som OM, chamado pranava.
(tasya vachakah pranavah)





* tasya = daquele
* vachakah = designador, aquilo que explica, indicador, termo
* pranavah = o mantra AUM ou OM





O AUM possui uma qualidade vibracional e vários significados, um dos quais é ser um termo para denominar a consciência pura referida nos sutras acima. A palavra pranavah é traduzida literalmente como “zunir”.


A parte mais baixa da curva representa o estado ou nível Denso, Desperto, chamado Vaishvanara.

O centro da curva representa o nível Sutil, Inconsciente e Sonho, chamado Taijasa.

A parte superior da curva representa nível Causal, Subconsciente e Sono Profundo, chamado Prajna.

O ponto, ou bindu, representa o quarto estado, a consciência absoluta, que abrange, permeia e é as outras três, chamado Turiya.

O arco abaixo do ponto simboliza a separação do quarto estado, que permanece acima, apesar de sempre ser parte dos outros três. (Nota do tradutor: para uma descrição detalhada dos quatro estados, ou níveis, de consciência, leia o artigo “Yoga Nidra, Sono Profundo Consciente do Yoga”, também disponível neste site: http://www.yoga.pro.br/).





1.28 Este som é lembrado com um sentimento profundo para com o significado do que ele representa.

(tat japah tat artha bhavanam)





* tat = seu
* japah = lembrança repetida
* tat = seu
* artha = significado
* bhavanam = entendendo com sentimento, absorvendo, enfatizando

É importante lembrar não só da vibração (japa), mas também do significado profundo do mantra, e não fazer apenas repetições mentais, como se um papagaio fosse.









1.29 Desta lembrança vem a realização do Eu individual e a remoção dos obstáculos.
(tatah pratyak chetana adhigamah api antaraya abhavash cha)






* tatah = daí
* pratyak = individual
*chetana = consciência
* adhigamah = entender, realizar, alcançar
* api = também
* antaraya = de obstáculos ou impedimentos
* abhavash = ausência, desaparecimento, remoção
* cha = e, também


Dois benefícios diretos vêm da prática apropriada do mantra OM:

1. Os obstáculos serão removidos (1.30-1.32).

2. É uma rota direta para a Auto-realização.

Se alguém é capaz de praticar sinceramente, devotadamente e intensamente o mantra AUM na profundidade de seus significados, esta então é uma pratica completa por si mesma.



Próximos sutras: Yoga Sutras 1.30-1.32: Obstáculos e Soluções.
Sutras Anteriores: Yoga Sutras 1.19-1.22: Esforços e Compromissos.


Traduzido pelo yogi Rogério Maniezi do original “Yoga Sutras 1.23-1.29: Contemplation on AUM (or OM)”, de autoria de Swami Jñaneshvara Bharati, disponível em http://www.swamij.com/.




Veja ainda neste Blog: Yoga Nydra: Sono Profundo Consciente do Yoga


quarta-feira, 19 de agosto de 2009

A experiência fora do corpo (EFC)



PROVA DA VIDA APÓS A MORTE


Por Scott Rogo

O capitão Burton, inglês, morreu de um ataque do coração. Pelo menos foi o que pensaram os médicos. Mas ele sobreviveu ao ataque e viveu ainda muitos anos depois de sua "morte", sobre a qual contava uma história estranha: "Encontrei-me de pé ao lado de minha cama, olhando para mim mesmo e para o médico, sentindo-me muito bem, ainda que surpreso. De súbito fui violentamente puxado para a cama, por cima da qual flutuei; a seguir veio um violento impacto. Então ouvi o médico dizendo: 'Ele está voltando a si'. Ele me havia considerado morto por algum tempo".

A experiência do capitão Burton é igual à de todos que conseguiram enganar a morte. Essa experiência enigmática, contudo, não se restringe apenas aos que passaram pela morte, mas estende-se a centenas de pessoas de todas as culturas. Os parapsicólogos chamam a isso experiência fora do corpo, expressão que substitui uma outra mais antiga, "projeção astral".

Houve tempo em que as pessoas que passaram por essa experiência mantinham-se reticentes sobre o assunto, temerosas do ridículo ou de serem acusadas de loucura. Mesmo assim os parapsicólogos conseguiram reunir centenas de casos relatados por indivíduos absolutamente normais e tentaram estudar o fenômeno também no laboratório.

Com o passar do tempo, centenas de pessoas comuns, homens de negócios, donas-de-casa, artistas que passaram por essa experiência, mencionaram uma série de observações semelhantes entre si. Sir Aukland Geddes, muito conhecido e respeitado médico inglês, relatou estranha experiência desse tipo para a Royal Medical Society, de Edimburgo: "Eu estava muito doente... Mas de repente compreendi que minha consciência se separava de outra consciência que também era eu. O ego-consciência que agora eu era parecia fora do corpo que eu via na cama e que era meu".

Geddes viu-se num corpo de aparição. Viu o médico tentar reanimá-lo com uma injeção de cânfora. Sua consciência se obscureceu e de novo ele estava em seu corpo. Mais tarde verificou que tudo que notara enquanto estava supostamente inconsciente realmente acontecera. A sra. Carlina Larsen, uma dona-de-casa de Vermont, nunca tinha ouvido falar na experiência fora do corpo até uma noite em que se deitou e adormeceu ao som da música de câmara que seu marido e amigos tocavam numa sala próxima. "Um sentimento de profunda depressão e apreensão me tomou, e forte torpor paralisou todos os meus músculos. A seguir me vi de pé ao lado de minha cama, olhando atentamente para 'meu corpo físico ali deitado.

"A sra. Larsen desceu a escada em seu novo corpo, que descreveu corno mais radioso do que o corpo físico, e espiou o ensaio. Mais tarde, quando voltou para seu corpo, confirmou com o marido tudo que tinha observado... Coisas que não sabia antes. Durante anos, experiências desse gênero foram relatadas, mas nunca houve um esforço organizado para estudá-las, até que pesquisadores psíquicos começaram a se interessar. Alguns puseram tais casos de lado, considerando-os como sonhos ou alucinações.

Mas outros, principalmente os que tinham a mente alerta para a crescente ciência da parapsicologia, acharam que as perguntas precisavam ser respondidas, e uma delas era se a experiência fora do corpo era ou não imaginária. Por que aquelas pessoas podiam descrever fatos ocorridos durante sua inconsciência e dos quais não podiam ter conhecimento? O caso da sra. Larsen era um deles. E, se a experiência fosse simples alucinação, por que tanta gente dizia ter visto um fio de prata unindo o corpo físico ao seu "duplo"?

ENTRE O CORPO E SEU ASTRAL, "UM FIO DE TEIA DE ARANHA"

Esse fio é freqüentemente mencionado por pessoas que passaram pela experiência. A. S. Wiltse, físico de Kansas, depois de sarar de grave doença, contou como havia flutuado para cima e para baixo, até que se libertou do corpo e caiu levemente no chão. Dirigiu-se para a porta do quarto e, olhando para trás, viu "um fio, como uma teia de aranha", unindo seu corpo físico ao superfísico.

A sra. H. D. Williams, uma dona-de-casa inglesa, teve idêntica experiência, que relatou a Robert Crookall, cientista inglês que passou vários anos estudando a experiência fora do corpo. Ela contou que olhou à sua volta durante a experiência e viu um fio brilhante, com 2 ou 3 polegadas de largura, preso a cabeça de seu corpo físico. É claro que esses relatos estranhos nos impelem a ir mais adiante, não apenas a rotulá-los como ocorrências imaginárias.

Tanta gente conta que saiu de seu corpo, e os parapsicólogos há muito tempo sabem que certos indivíduos conseguem abandonar o corpo quase que na medida de sua vontade. Em 1919 o livro de Hereward Carrington "Modern Psychical Phenomena" foi ter às mãos de um jovem fraco e doentio que ainda não tinha vinte anos, Muldoon, e que desde a infância tinha experiências fora do corpo. Lendo-o, Muldoon resolveu escrever ao pesquisador contando que ele próprio podia escrever um livro sobre coisas que as "autoridades" não conheciam. Logo se estabeleceu correspondência entre ambos. Em 1929 foi publicada a biografia de Muldoon em co-autoria com Carrington. O livro, "A Projeção do Corpo Astral", tornou-se um clássico do assunto. Muldoon tinha doze anos quando teve a primeira experiência. Acordou no meio da noite e sentiu pânico ao ver que estava paralisado. Depois a catalepsia mudou para a sensação de flutuar.

Quando, afinal, conseguiu ver, encontrou-se planando sobre seu corpo. Como estava de pé, o menino virou-se e viu um fio prateado unindo seus dois corpos. Com o passar dos anos, Muldoon teve centenas dessas experiências, que podia controlar perfeitamente. Certa noite adormeceu sentindo sede; encontrou-se desperto no estado fora do corpo tentando abrir uma torneira no quarto pegado. Em outra ocasião tocou casualmente num fio elétrico e imediatamente foi atirado para fora do corpo e calmamente contemplou seu corpo se contorcendo. Muldoon notou que, quando sonhava estar voando, passava para o estado fora do corpo. Essa circunstância levou muita gente a indagar se sonhar que está voando, um sonho muito comum, teria algo a ver com o estado fora do corpo. Muldoon descreveu não só suas experiências mas também o método de forçá-las, os fatores que as afetavam e o que pensava sobre o assunto. Muldoon e Carrington mais tarde reuniram casos dessas experiências e juntos publicaram o livro "O Fenômeno da Projeção Astral": Muldoon publicou ainda "The Case for Astral Projection".

À medida que a saúde de Muldoon melhorava, sua extraordinária capacidade começou a enfraquecer e praticamente desapareceu. Apesar de seu nome ter se tornado célebre na pesquisa psíquica, Muldoon perdeu o interesse por ela e ficou dirigindo um salão de beleza até seu falecimento, há alguns anos.

PODE SER COMUNICAÇÃO TELEPÁTICA. MAS NEM SEMPRE

Enquanto Muldoon passava por suas estranhas aventuras nos Estados Unidos, um inglês descobria que possuía poder semelhante. Oliver Fox (um pseudônimo) descobriu que tinha um "duplo" que podia abandonar seu corpo. Contou suas experiências em vários artigos, depois transformou-os no livro "Projeção Astral". Descobriu que, muitas vezes, quando estava sonhando, compreendia que estava sonhando e, controlando seus sonhos, podia forçar o estado fora do corpo. (Método semelhante foi descoberto por uni experimentador holandês, Frederick van Eeden.)

Oliver Fox




Certa vez Fox acordou em estado de semitranse. Compreendendo que estava passando por uma experiência fora do corpo, apenas desejou sair da cama. "Simultaneamente me sentia deitado na cama e de pé a meu lado. Andei devagar pelo quarto, até a porta; a sensação de dualidade diminuía à medida que me afastava do corpo; mas, quando ia sair do quarto, meu corpo foi puxado para trás Como Muldoon, Fox tinha uma infinidade de dados sobre a experiência. Gabando-se de seu poder diante de uma amiga, ela disse que ia projetar-se no quarto dele naquela noite para mostrar que também tinha o mesmo poder. Quando estava na cama nessa noite, Fox percebeu o vulto de Elsie no quarto.

No dia seguinte Elsie descreveu com exatidão o quarto de Fox, onde nunca tinha estado. Seria possível que, estando invisível no estado fora do corpo, ocasionalmente uma pessoa podia ser vista por outra? Uma série de casos indica essa possibilidade. Várias dessas experiências foram realizadas por S. H. Beard, amigo de Edmund Gurney, um pioneiro na pesquisa psíquica em Londres. Gurney ficou tão impressionado com essas experiências que as publicou, em co-autoria com Beard, em dois volumes clássicos: "Fantasmas dos Vivos". A primeira experiência foi em novembro de 1881. Beard desejou projetar-se para sua noiva e a menina irmã dela. Na noite do experimento, a noiva acordou e viu o vulto de Beard de pé à sua frente. Ficou tão assustada que deu um grito. A irmã acordou e também viu o vulto. Depois disso Beard mandava cartões-postais para Gurney comunicando que planejava alguma experiência e muitas vezes a noiva de Beard lhe mandava cartas datadas comprovando ter visto sua aparição. Uma vez a aparição chegou a acariciar seus cabelos.

TODOS CONCORDAM: O CORPO ASTRAL SAI PELA CABEÇA

Poderiam esses casos ser, na realidade, ao invés de experiências fora do corpo, alucinações telepaticamente motivadas pelo pensamento intenso do experimentador? Essa teoria foi aceita por muitos parapsicólogos. Mas explicará todos os casos desse tipo? Provavelmente não, como no caso a seguir, que se tornou um dos mais célebres de "aparição de vivos". Uma noite a sra. Wilmot dormia muito inquieta porque o marido estava num vapor que atravessava o Atlântico com tempo tempestuoso. Dormindo segura em sua casa em Connecticut, ela se viu deixando o corpo, viajando pelo mar e descendo num navio. Encontrou o caminho para a cabine do marido e, vendo-o, tentou se aproximar. Viu outro homem num beliche por cima do dele. Ela hesitou, mas continuou a andar, beijou o marido e partiu. No dia seguinte Wilmot contou que tivera uma visão de sua mulher, que viera a ele e o beijara.

O que há de novo neste caso é que o companheiro de cabine de Wilmot também viu a aparição e a tomou por uma pessoa real; gracejou com Wilmot dizendo que ele havia recebido durante a noite a visita de uma mulher. A sra. Wilmot anotou toda a experiência, especialmente a posição do beliche do companheiro de seu marido. Quando as anotações foram conferidas, tudo foi confirmado. A prova dos testemunhos foi tão forte que Eleanor Sidgwick, outra pioneira na pesquisa psíquica, incluiu-a no seu artigo "Sobre a Prova da Clarividência", publicado em "Proccedings", da Society for Psychical Research. Até há algum tempo, a maior parte dos dados sobre a experiência fora do corpo resultava do relato de casos pessoais reunidos aqui e ali, com pouca análise científica. Só em 1960 a experiência fora do corpo começou a ser estudada cientificamente, e os dois cientistas interessados obtiveram importantes progressos para a compreensão do fenômeno.

Um dos cientistas era o pesquisador inglês Robert Crookall, que fez brilhante carreira como cientista. Possuidor de dois doutorados, esteve primeiro na faculdade da Universidade de Aberdeen e mais tarde foi diretor de geologia no H. M. Geological Survey. Deixou esse lugar a fim de se dedicar exclusivamente ao estudo e à análise dos casos de experiência fora do corpo. O dr. Crookall ficou surpreso com as semelhanças encontradas entre as experiências e, como Carrington e Muldoon, começou a reunir o maior número possível de casos. Mas, ao contrário de seus predecessores, Crookall estava interessado na análise crítica, esperando que, através da investigação de grande número de casos, chegasse a alguma definição sobre a experiência fora do corpo. Reuniu perto de mil casos tirados da literatura sobre pesquisa psíquica e de relatos obtidos em primeira mão. Esses casos foram publicados em três volumes: "The Study and Practice of Astral Projection"," More Astral Projection", "Case Book of Astral Projection". Até agora Crookall apresentou quatro tipos diferentes de análise de seus dados. Todos revelaram particularidades desconhecidas. A primeira análise foi baseada no que é conhecido como "lei de comprovação de Whateley", que diz, se um número suficiente de testemunhas independentes comprova as características de uma observação — testemunhas que comprovadamente não poderiam estar em conluio —, então há muita probabilidade de que a observação seja genuína.

Ao analisar perto de trezentos casos, Crookall encontrou total concordância entre os casos. As mesmas particularidades foram encontradas em centenas de casos, contudo seis características principais sobressaíram de sua análise:

1) o perceptivo sente que está saindo do corpo físico pela cabeça;

2) ocorre um escurecimento no momento da separação entre a consciência e o corpo;

3) o corpo-aparição flutua sobre o corpo físico;

4) o corpo-aparição volta ao corpo físico antes do término da experiência;

5) ocorre novo escurecimento no momento da reintegração;

6) a rápida reentrada causa choque ao corpo físico.

Os casos estudados por Crookall também mostraram que muitas vezes a pessoa que passa pelo estado fora do corpo vê outras aparições; possui percepção extrasensorial; encontra-se num ambiente obscuro, nevoento ou num mundo "paradisíaco"; e, por fim, um fio de prata muitas vezes é visto durante a experiência.

DIFERENÇAS ENTRE AS VIAGENS ESPONTÂNEAS E AS INDUZIDAS

A segunda análise de Crookall é ainda mais interessante. Apesar de todas as experiências fora do corpo seguirem um padrão geral, parecia haver diferenças qualitativas entre os casos. Para melhor avaliar este aspecto, o dr. Crookall dividiu os casos em dois grandes grupos. Um grupo era de projeções ocorridas naturalmente, pouco antes de adormecer, ou causadas por doença ou exaustão.

O outro consistia de experiências forçadas pelo uso de anestésicos, choque, sufocação, hipnose ou projeção voluntária. Comparando os dois grupos de dados, descobriu que a experiência fora do corpo natural era muito mais vivida e tinha características gerais diferentes das experiências forçadas. Por exemplo, perto de l0% dos casos naturais mencionavam o abandono do corpo pela cabeça, enquanto na projeção forçada nem metade dessa porcentagem referiu-se a essa ocorrência. A terceira análise de Crookall consistiu na comparação dos relatórios feitos por psíquicos com os de pessoas comuns que passaram pela experiência. Descobriu que de modo geral os psíquicos contam experiências muito parecidas com projeções compelidas, ao passo que as pessoas não psíquicas tiveram experiências que eram como projeções naturais. Na quarta análise Crookall revela que muitas experiências fora do corpo ocorrem em dois estágios. Ao analisar relatos de primeira mão, Crookall verificou que grande número de pessoas fala num estágio inicial de confusão durante o princípio da experiência; a consciência se torna mais clara; e no término da experiência volta certa imprecisão.

Outro grande grupo de casos parece revelar a liberação numa só etapa. A meticulosa pesquisa de Crookall provavelmente fez mais do que qualquer outra para ajudar a parapsicologia a compreender a experiência fora do corpo. Baseado nessas pesquisas, Crookall criou teorias esmeradas e cuidadosamente elaboradas sobre essa experiência, e sua opinião básica é que esse experimento mostra que o homem possui um corpo ultrafísico que tem a capacidade de sobreviver à morte. O trabalho de Crookall mostra ainda que todos os relatos sobre a experiência fora do corpo podem ser avaliados cientificamente.

PROVAS, EXISTEM MUITAS. ATÉ AS DE LABORATÓRIO

Outro pioneiro no estudo dessa experiência foi o dr. Charles T. Tart, psicólogo experimental. Era sua intenção descobrir se as pessoas que afirmam passar freqüentemente por essa experiência podem produzi-la em laboratório, onde pudesse ser controlada, da mesma forma que se controlam os sonhos, seguindo o desenho das ondas cerebrais, o movimento rápido dos olhos etc. Antes de Charles Tart outros pesquisadores já haviam tentado estudar a experiência fora do corpo em laboratório. O pesquisador francês H. Durville afirmou haver fotografado o "duplo" da médium mme. Lambert. Outro francês, Charles Lancelin, pretendia haver obtido as impressões digitais do corpo astral. Esses experimentos, contudo, são bastante antigos, e os métodos exatos empregados pelos investigadores são um tanto misteriosos.

Tart pode ser considerado como realizador do primeiro trabalho experimental importante sobre a experiência fora do corpo. O primeiro médium do dr. Tart foi Robert Monroe, que autorizou a publicação de sua biografia "Journey out of the Body". Os primeiros experimentos foram levados a efeito na Universidade de Virginia em 1965 e 1966. Após uma semana de tentativas, Monroe conseguiu a experiência fora do corpo. Esperava-se que Monroe saísse da sala de experiências no estado fora do corpo, fosse a uma sala próxima e contasse o que tinha visto. Durante todo o tempo foi controlado por um aparelho encefalográfico e por outros. Esperava-se também que lesse um número de seis algarismos colocado numa prateleira a 2,5 metros acima do solo.

O experimento obteve êxito parcial. Monroe contou que o técnico estava no corredor com um homem, o que era correto. Os aparelhos de controle revelaram que Monroe permaneceu numa espécie de estado de sonho durante a experiência fora do corpo. Quando os experimentos foram repetidos em Davis, Califórnia, a leitura registrada foi semelhante, além de assinalar queda de pressão sangüínea. Miss Z. foi a segunda médium talentosa de Tart. Na segunda noite dos experimentos, também em Davis, ela teve a experiência fora do corpo. A leitura de seu eletroencefalograma não pôde identificar se estava dormindo ou acordada. Tart esperava que ela pudesse ler um numero escrito numa prateleira mais alta do que ela, à qual não teria acesso fácil. Na quarta noite ele conseguiu.

O número só podia ser lido se alguém "flutuasse" sobre a prateleira. Infelizmente o dr. Tart descobriu que o número podia refletir-se num relógio do quarto, se fosse iluminado por luz brilhante. É pouco provável que a médium o tivesse lido por esse meio. Aqui também foram registrados estranhos desenhos no eletroencefalograma. Testes semelhantes aos descritos também foram levados a efeito pela American Society of Psychical Research, com o médium Ingo Swann.

REVELA-SE ENTÃO UM NOVO CONCEITO DE CONSCIENCIA

Finalmente a experiência fora do corpo está emergindo da esfera da anedota para o campo experimental. Todavia, para onde nos levam esses estudos, tanto os anedóticos como os experimentais? Três áreas da pesquisa psíquica são drasticamente afetadas pela pesquisa da experiência fora do corpo. A primeira é a do estudo das aparições.

O pesquisador Hornell Hart acredita que a experiência fora do corpo poderia ser a chave para compreender as aparições, já que muitas "aparições de vivos", tanto quanto "aparições de mortos", foram registradas. Em estudo magistral, Hart analisou as características desses diferentes casos de aparições e viu que ambos possuíam as mesmas peculiaridades. Deduziu que os dois tipos tinham a mesma natureza e muito provavelmente revelavam um mecanismo semelhante ao da experiência fora do corpo. A segunda área afetada pelo estudo da experiência fora do corpo é a da sobrevivência à morte. Tanto Tart como Robert Crookall afirmaram achar que a experiência fora do corpo demonstra ser possível a vida consciente espacialmente distante e separada do corpo físico. A consciência não depende do corpo e poderia, assim, sobreviver à morte. Em terceiro lugar a experiência fora do corpo substancialmente altera nosso conceito sobre o que é "consciência".

Durante a experiência fora do corpo o perceptivo é muitas vezes atirado para novas experiências sensoriais e novos níveis de consciência. Por exemplo, algumas leituras dos encefalogramas tomados durante as experiências fora do corpo feitas por Charles Tart são semelhantes às leituras obtidas com praticantes do zen em meditação. Assim como a experiência mística traz consigo uma expansão da consciência, a experiência fora do corpo pode muito bem ser uma avenida aberta para um novo mundo da mente. Como escreveu um perceptivo: "Era uma noite de outubro, mais ou menos às 11 horas da noite. De repente me senti fora do corpo flutuando sobre um pântano no Highland, num corpo tão leve ou mais leve do que o ar. Havia um bosque, e o vento era leve e fresco. Vi que o vento não me incomodava, como aconteceria se estivesse no meu corpo físico; eu era parte do vento. A vida no vento, as nuvens, as árvores, tudo era parte de mim, fluindo dentro e através de mim, e eu não oferecia resistência. Estava repleto de vida gloriosa. Durante todo o tempo, à margem da minha consciência, eu sabia onde estava meu corpo terrestre, ao qual poderia retornar se surgisse algum perigo. Tudo deve ter durado alguns minutos ou segundos, não sei dizer — porque eu estava fora do tempo..."


Fonte: Portal da Reencarnação

terça-feira, 9 de junho de 2009

Experiências Fora-do-Corpo (EFC) e Sonhos Lúcidos



Por: Rick Stack


TRABALHO COM SONHOS

As técnicas mais fáceis que conheço para induzir EFCs envolvem projeção enquanto o corpo está adormecido ou num estado "próximo" do sono. Focalizaremos em breve métodos simples para conseguir isso. Existe, porém, algum trabalho preliminar com sonhos que, para muitos, será um requisito prévio para se tirar o máximo proveito das técnicas que serão apresentadas. Para aqueles leitores que já trabalham com sonhos, boa parte deste capítulo será uma revisão.

Os sonhos são, muito simplesmente, uma porta natural para as dimensões interiores do nosso ser. No estado onírico, viajamos todas as noites para níveis fundos onde bebemos da fonte "da energia e do conhecimento, a qual sustenta permanentemente a nossa identidade eterna e em constante crescimento. Recordamos usualmente pouco dessas excursões mais profundas porque elas alcançam dimensões da experiência que são muito diferentes do mundo físico que conhecemos tão bem. Por vezes, os sonhos que recordamos são as nossas próprias tentativas para traduzir essa sabedoria mais profunda para um plano físico que possamos compreender.

Acredito que, no mundo onírico, visitamos com freqüência o passado e o futuro. Comunicamo-nos com outras partes dos nossos seres. Comunicamo-nos com os "eus" reencarnacionais, comparando impressões, trocando informações e deslocando-nos através do tempo com a mesma facilidade com que os nossos corpos físicos respiram. Recebemos instrução dos nossos "eus" interiores, os maiores "eus" dos quais somos uma parte. E na medida em que temos acesso a tal informação, podemos facilitar a transferência e a incorporação desse saber às nossas vidas físicas.

Os sonhos podem ser usados para muitos fins, incluindo a solução de problemas, o exame de crenças, a aquisição de entendimento sobre situações da vida corrente, promovendo a saúde e a cura, entrando em contato com emoções reprimidas, e muito mais. Entretanto, para auferir todas as vantagens desse recurso, é importante dar aos nossos sonhos a atenção que eles merecem.

Acredito que os nossos eus oníricos são exatamente tão válidos quanto os nossos eus físicos. Eles são uma parcela de nós próprios. O eu sonhante e o eu fisicamente orientado são partes da nossa identidade maior - uma identidade que habita em muitas dimensões. O eu sonhante e o eu vígil estão intimamente relacionados. Fazem parte de um continuum do ser e não estão realmente separados. São o mesmo Eu, duas faces da mesma moeda mas existindo em dimensões diferentes.

Segue-se a descrição de uma experiência fora-do¬corpo que eu tive, na qual parecia como se eu me fundisse com alguma das outras parte do meu ser:

Vi-me sentado a uma mesa numa sala que não reconheci. Na mesa havia muitas pessoas, inclusive eu próprio. Eu estava completamente acordado e sabia estar fora do meu corpo físico. Estava fascinado por ver como tudo parecia totalmente real. Essa sala era percebida como tão real quanto qualquer outra onde eu tivesse até hoje estado. Eu era eu mesmo e sabia que era eu mesmo; e, no entanto, eu era algo mais, de um certo modo. Senti-me como se estivesse fundido com um outro e mais vasto aspecto do meu eu. Comecei discutindo com as pessoas da mesa sobre a parcela de mim mesmo que habitava a realidade física normal. A discussão gravitou em tomo do comportamento e características do meu eu físico. O eu com que me fundira nesse estado parecia ter acesso a uma perspectiva mais esclarecida e sagaz do que aquele que eu normalmente possuía. Parecia saber uma grande quantidade de coisas que eu ignorava; mas agora, que estávamos juntos, alguns dos seus conhecimentos pareciam-me acessíveis. Eu não estava separado desse eu. Esse eu era eu. Era deveras estranho estar sentado a uma mesa não-física que eu sentia ser tão física e sólida quanto qualquer outra na Terra e ouvir-me descrevendo e analisando calmamente o meu eu físico normal com um nível de discernimento que parecia exceder facilmente aquele a que eu estava habituado.

Acredito que na experiência acima fundi-me com o meu eu onírico; que esse eu está bem vivo e alerta, vivendo em dimensões válidas da experiência que todos visitamos noite após noite; que a sua existência e experiência continuam, mesmo quando estam os despertos no mundo físico normal. Com um pouco de prática, podemos aprender a levar a nossa consciência vígil conosco para o estado de sono e assim fundi-la com o nosso "eu onírico", aumentando o fluxo de informação entre os mundos interior e exterior.

O mundo dos nossos sonhos é freqüentemente considerado uma criação de nossa imaginação. Mas, muito pelo contrário, é um caminho de superlativa importância - um caminho que se destina a ser por nós usado para descobrir as dimensões plenas de nossas próprias identidades. É uma estrada que leva às incontáveis dimensões da realidade que algum dia será o nosso permanente campo de atividade lúdica.

Os sonhos fornecem ao eu desperto inestimáveis informações que utilizamos com freqüência, quer recordemos ou não o que sonhamos. A informação pode aparecer em qualquer ponto do dia como uma intuição ou insight. Além disso, o estado onírico faz parte do mecanismo pelo qual criamos as nossas vidas. É aí que as tremendas interconexões e logísticas são elaboradas, o que nos habilita a inserir eventos específicos em nossas vidas de acordo com as nossas crenças e em harmonia com as muitas outras pessoas cujas realidades possuem fronteiras comuns.

Se o nosso foco do dia-a-dia é pusilânime ou negativo, o mais provável é que os nossos sonhos reflitam esse tema. Os indivíduos que se vêem nessa situação podem beneficiar-se imenso se reestruturarem seus padrões de pensamento a fim de mudar a tônica de seus dias físicos, assim como de seus sonhos.

Os sonhos podem ajudar-nos às vezes a sair de depressões comunicando-nos conhecimentos oriundos de um nível emocional profundo. Eis um exemplo, extraído dos meus diários, de um sonho que tive há uns 12 anos, quando estava sentindo-me deprimido:

No sonho, eu sentia-me deprimido a respeito de minha vida e trabalho. Estava assistindo a uma representação teatral. O enredo pretendia expressar duas atitudes ou modos diferentes de conduta. A primeira atitude expressada envolvia um homem que se queixava a respeito de tudo. Achava que sua vida e seu trabalho eram um pesado fardo. A segunda atitude, ou modo, de atuação era expressa por um homem cantando uma canção extremamente exuberante. A canção era sobre um homem que amava totalmente a vida. Amava o trabalho. A canção continuava para dizer que todo o novo ofício ou aprendizado era uma grande e jubilosa experiência. E então o cantor começou interatuando com o gigantesco público que assistia à representação. Ele entoou as palavras "E Deus teve o Seu dia" , e o público todo repetiu "E Deus teve o Seu dia". Depois de duas ou três vezes, ele cantou "E eu tive o meu". A canção era de uma beleza e de uma força extraordinárias. O último verso dizia "Trate-se a si mesmo com o respeito que merece" . Eu chorava de emoção.

Quando acordei, o meu estado de espírito tinha mudado por completo. O sonho comunicara-me efetivamente, num nível intuitivo, que cada dia da vida de toda e qualquer pessoa é único, precioso e magnífico. Ter muitos sonhos como esse pode mudar literalmente o rumo de nossas vidas. Entretanto, se não se lembra nem registra esses sonhos, a pessoa diminui sua capacidade para extrair deles o máximo proveito.

O fluxo de informação entre os eus interno e externo pode ser consideravelmente intensificado por uma tentativa deliberada de trabalhar com sonhos. Além disso, trabalhar com sonhos leva diretamente a habilidades que facilitam a indução de experiências fora-do-corpo. Eis, em linhas gerais, como proceder. Em primeiro lugar, desenvolver o hábito de recordar e interpretar os seus sonhos. Depois, experimentar alguma forma de controle dos seus sonhos. Isso prepara o cenário para o sonho lúcido (a atividade onírica. em que a pessoa percebe estar num sonho) e para o uso efetivo das técnicas de indução de EFDCs. Não existem regras estritas, de modo que cada um deve optar pela técnica que melhor lhe convenha e de acordo com o seu próprio ritmo. Começará com o programa para trabalhar com sonhos.


(...)




O ESPECTRO DA CONSCIÊNCIA:
EXPERIÊNCIAS FORA-DO-CORPO E SONHOS LÚCIDOS

Há uma forte conexão entre sonhos e EFCs. Para se entender essa conexão, é útil pensar nos vários estados de consciência que os seres humanos experimentam como sendo uma espécie de contínuo.

Numa extremidade do contínuo estão sonhos como aqueles que você pode surpreender-se criando rapidamente, instantes antes de acordar. Como foi mencionado há pouco, acredito que nesse tipo de sonho tentamos traduzir conhecimentos adquiridos na realidade não-física em termos físicos, de modo que possamos trazê-las de volta à nossa consciência vígil normal. Essa espécie de sonho é, em certos aspectos, semelhante ao que poderíamos usualmente designar como imaginação. Isso não significa, porém, que tal experiência não tem realidade.

Repito ser minha convicção de que o mundo onírico é uma porta natural para os mundos desconhecidos donde viemos e para os quais estaremos voltando em breve. Podemos, às vezes, encontrar-nos em paisagens oníricas com muitos elementos imaginários. Em outros sonhos, entretanto acredito viajarmos para dimensões da existência tão reais quanto mundo físico, que usualmente temos por ponto pacífico ser único mundo. Isso tampouco significa que os sonhos com elementos imaginários ou que variam constantemente não tenham qualquer validade, pois têm.

Poderíamos afirmar que diferentes tipos de sonhos possuem graus variáveis de realidade - literalmente diferentes gradações de matéria e energia.

Podemos considerar um sonho lúcido um "grau superior" de um sonho típico, um passo mais adiante no contínuo. Um sonho lúcido é aquele em que o sonhante percebe estar sonhando. Esse tipo de sonho é, com freqüência muito intenso e vívido. Uma diferença interessante entre 'sonhos normais e sonhos lúcidos é que, nestes últimos, a paisagem onírica parece tornar-se mais coerente e menos irreal assim que o sonhante atinge a lucidez.

A medida que nos deslocamos ao longo do nosso contínuo hipotético, chegamos às experiências fora-do-corpo. Esse estado de consciência pode ser dividido, grosso modo, em EFCs que têm lugar no mundo físico e as que ocorrem em mundos não-físicos. As EFCs que ocorrem em mundos não-físicos podem ser consideradas um grau superior dos sonhos lúcidos.

Para fins de definição, a principal diferença entre uma EFC em mundos não-físicos e um sonho lúcido, de um modo geral, parece residir na percepção subjetiva do indivíduo. O sonhante lúcido pensa que está num sonho e que o que está vivenciando é imaginário. Não está cônscio ou não se preocupa no que diz respeito ao paradeiro de seu corpo físico. Entretanto, o indivíduo que passa por uma experiência fora-do-corpo está profundamente cônscio de que se encontra fora de seu corpo físico, sabe onde seu corpo físico está e pensa que o que está experimentando é real.

Acredito que, na grande maioria dos casos, o sonhante lúcido já está baseado fora do corpo e simplesmente não se apercebe disso. Por outras palavras, a maior parte dos sonhos lúcidos são uma forma de EFC. A bem dizer, acredito que deixamos os nossos corpos todas as noites durante o sono, quer recordemos ou não qualquer tipo de sonho.

O sonho lúcido tem sido, historicamente, um caminho efetivo para a viagem astral. Muitos que aprenderam como deixar seus corpos começaram por aprender como induzir sonhos lúcidos. Converter um sonho lúcido numa EFC parecer ser, basicamente, uma questão de perceber que o seu corpo físico está dormindo em algum outro lugar e que você está separado dele.

Penso que, na realidade, é sobre os graus variáveis de percepção dos diferentes estados de consciência que estamos falando. Como sugerimos no Capítulo 1, a própria EFC pode flutuar em seu grau de exteriorização. Alguns sonhos lúcidos podem começar com sua base de conscientização parcialmente no corpo e parcialmente fora dele, e o grau de exteriorização pode recrudescer à medida que a experiência prossegue e você se concentra mais intensamente no meio ambiente interno. Quando você percebe que está sonhando e também se dá conta de que está fora do seu corpo, esta úlima percepção eleva ainda mais o seu estado de conscienti.zação de todo o processo em que está envolvido. Isso será mais ou menos equivalente a outras formas da EFC, como flutuar para fora do seu corpo físico no seu quarto de dormir e testemunhar conscientemente a separação. De fato, podese utilizar o sonho lúcido como um ponto de lançamento do qual regressar ao corpo físico e depois flutuar fora dele no seu quarto de dormir, se estiver propenso a isso. Essa técnica é descrita no Capítulo 10. Não que você queira necessariamente ir correndo de volta para o físico, de qualquer modo. Na maioria dos sonhos lúcidos, sua consciência já transferiu sua base de operações para os mundos interiores. Algumas das mais excitantes e educativas excursões fora do corpo têm lugar na realidade não-física.

De um modo geral, as EFCs são mais coerentes do que os sonhos lúcidos. Em certos aspectos, as EFCs que ocorrem na realidade física podem parecer francamente "ordinárias". Uma vez fora do seu corpo, você poderá explorar seu lar ou seu bairro, observar que tudo realmente é muito parecido - a não ser pelo fato de que você pode estar voando ou caminhando através de paredes. Mesmo as EFCs nos mundos interiores parecem, em geral, mais coerentes e menos irreais do que os sonhos lúcidos. Acredito que isso se deve ao estado especial de conhecimento alcançado na experiência fora-do-corpo. Considera-se que os mundos interiores são receptivos. Portanto, quando você percebe que está fora do seu corpo e vivenciando uma realidade válida , essa percepção consente-lhe, em si mesma, compreender (e criar) com maior clareza.

Em seu livro Journeys Qut ofthe Body, Robert Monroe chama Locale II a essas dimensões interiores. Postulou ele que Locale II é um "meio ambiente não-material com leis de movimento e de matéria só remotamente relacionadas com o mundo físico' . E prossegue dizendo que esses locais são habitados por seres inteligentes, e que Locale II é "o ambiente natural do Segundo Corpo" (em outras palavras a forma não-física usada em EFCs). Uma vez que Locale II é para onde o segundo corpo quer "naturalmente" ir, ele para al será conduzldo, ou do contrário aí permanecerá uma boa parte do tempo. Em minha experiência pessoal observei uma tendência análoga. Mesmo que começasse por alçar-me do meu corpo no meu quarto e explorasse o meu ambiente físico imediato, era freqüente terminar em mundos não-físicos antes do final da experiência.

Penso ser basicamente irrelevante se você se levanta ou não do seu corpo no seu quarto e depois viaja para Locale lI, ou se, em vez disso, torna-se simplesmente lúcido no estado onírico e depois se apercebe de que está fora do seu corpo. Ambas as experiências são edificantes e, portanto, merecem ser vividas. Praticaremos técnicas que abrangem ambasessas formas de EFC no Capítulo 10. Aqueles que têm dificuldade em admitir o conceito de outros mundos, poderão querer começar por concentrar-se em EFCs nas quais se mantêm apegados à realidade física e tentam obter alguma espécie de evidência de que estão fora do corpo.

Neste ponto, o que algumas pessoas parecem perder de vista é o poderoso efeito de sistemas de crenças fundamentais sobre as experiências na realidade não-física. Se você tem uma forte orientação no sentido de acreditar que o mundo físico é o único que deve ser seriamente considerado ou pensado como "real" , essa crença impregnará a sua experiência num sonho lúcido ou numa EFC. A realidade não-física é extremamente receptiva ao pensamento. Rígidos pressupostos podem literalmente bloquear um indivíduo para as experiências intuitivas, de conhecimento direto, acerca da validade dessas dimensões não-físicas.

Algumas pessoas afirmam que a EFC é, simplesmente, uma forma de sonho lúcido. E o sonho lúcido é, em geral, considerado justamente isso - um sonho - ou seja, uma experiência que não tem realidade objetiva e existe apenas na mente do sonhante. Rejeitar as EFCs como sendo apenas uma outra forma de sonho é um modo simples e confortável de permanecer dentro dos limites dos pressupostos materialistas que ainda predominam em nossa cultura. É muito mais aceitável dizer aos amigos e colegas que sonhou certa vez ter voado para o apartamento de alguém do que declarar que deixou realmente seu corpo (ainda que possa corroborar sua experiência com o fato de que, durante a sua excursão, viu algo que pôde mais tarde verificarl). A realidade da experiência fora-do-corpo é um conceito capaz de abalar os próprios alicerces de crenças há muito acalentadas. É muitíssimo mais fácil dizer que as EFCs são irreais e apenas uma outra forma de sonho. Não obstante, as EFCs são reais e já vimos algum apoio científico para esse conceito (no Capítulo 1).

Não há muita concordância quanto ao modo como definir precisamente uma experiência fora-do-corpo. Algumas pessoas consideram uma EFC uma experiência em que uma pessoa percebe o mundo físico desde um ponto de vista fora do corpo físico. Isso incluiria as EFCs em que o indivíduo testemunha a separação do corpo e é capaz de ver seu corpo físico do ponto de vista de seu corpo "astral". Outros definem a EFC como qualquer experiência em que o indivíduo sente que sua mente ou ponto de consciência está fora do seu corpo físico, quer ele esteja percebendo o mundo físico ou alguma outra dimensão da experiência. Isso incluiria as EFCs que são iniciadas a partir do estado onírico e nas quais o indivíduo pode viajar para mundos interiores (' 'oníricos' ') válidos.

Para esclarecer, podemos identificar diversas formas de experiências fora-do-corpo:

1. Ver-se conscientemente flutuando fora do seu corpo físico e permanecendo no universo físico.

2. Ver-se conscientemente flutuando fora do seu corpo físico e viajando em seguida para outras dimensões da experiência.

3. Encontrar-se fora-do-corpo sem ter presenciado a separação do seu corpo físico.

4. Perceber que está num sonho e depois dar-se conta de que está fora do seu corpo.

5. Perceber simplesmente que está num sonho (neste caso, o mais provável é que já se encontre fora do seu corpo, embora não o saiba).


Eis uma interessante questão a considerar aqui: Onde se situa a consciência vígil normal no nosso hipotético contínuo? Na realidade, esse é um ponto discutível mas, em todo o caso, gostaria de mencionar que, de certa maneira, aEFC pode oferecer um quadro mais completo da nossa verdadeira identidade do que a consciência vígil normal. Embora a nossa consciência cotidiana pareça bastante coerente, ela está freqüentem ente associada a um entendimento limitado do contexto maior em que existimos. A realidade física que percebemos durante o nosso estado vígil normal poderia, pois, ser até concebida como um sonho em que nos concentramos com excessiva intensidade.

Pode-se argumentar que a EFC inclui freqüentemente uma compreensão intuitiva de que a existência não é dependente do corpo físico e poderia, por conseguinte, ser considerada um grau superior do nosso estado vígil normal. É claro, esse conhecimento - e alguns outros que, aparentemente, são mais acessíveis durante uma EFC - também pode ser obtido durante a consciência vígil normal, pelo que seria inexato dizer que é intrínseco nas EFCs apenas. Além disso, como foi mencionado antes, algumas pessoas sufocam o potencial do estado EFDC com pressuposições rígidas. Finalmente, todos os vários estados de conscientização que consideramos são divisões artificiais efetuadas apenas a bem da clareza. O eu sonhante, o eu vígil, o eu EFC, o eu interior e a alma são todos uma só coisa, e todas as tentativas para encaixá-los em categorias estritas acabarão fracassando. Digamos apenas que a posição relativa da consciência vígil normal em nosso contínuo hipotético depende do ponto de vista de cada um.

Nada disso significa que as pessoas, por vezes, não tenham alucinações enquanto fora-do-corpo; elas têm. Muitas pessoas têm visto objetos, cenários e mesmo os seus próprios corpos enquanto têm EFCs, só mais tarde descobrindo que suas visões continham poucos ou muitos elementos imaginários. Por outro lado, numerosas pessoas têm relatado EFCs em que puderam descrever com exatidão cenas e eventos físicos que não tinham a menor possibilidade de ser percebidos desde o ponto onde seus corpos físicos se encontravam, com o uso exclusivo de seus sentidos físicos. Pode-se influenciar o grau de elementos alucinatórios que são encontrados enquanto fora-de-corpo solicitando ou ordenando que todas as alucinações desapareçam. É evidente que esse tipo de aptidão, assim como outros que requerem um delicado ajuste, só pode ser aperfeiçoado através da prática.

Em nossa cultura, temos sido treinados para considerar o intelecto a nossa única voz idônea. Bloqueamos o conhecimento intuitivo que é nosso direito inato. Aprendemos a questionar sempre intelectualmente a sabedoria que já possuímos em níveis mais profundos. Aprender a confiar em nosso próprio conhecimento interior e a escutar a nossa intuição é um importante passo em nosso crescimento espiritual. Se confiarmos realmente em nossa intuição e em nossos sentimentos, acabaremos por "saber", pura e simplesmente, que na grande maioria dos nossos sonhos lúcidos já estamos fora do corpo físico. Usando esta teoria como hipótese de trabalho, o leitor estará apto a induzir mais facilmente EFCs a partir do estado onírico e a abrir-se para experiências e conhecimentos que, caso contrário, poderão ser bloqueados.

A verdadeira arte de sair do seu corpo envolve a aprendizagem de como operar efetivamente onde quer que vá, seja flutuando em redor de sua cama ou viajando na realidade interior. Há toda uma série de diferentes graus de consciência que você pode experimentar enquanto fora do seu corpo. De um modo geral, poderá melhorar o seu grau de clareza cons¬ciente através da prática.


(Trechos dos capítulos 8 e 9 do livro de Rick Stack, "Viagem Astral - As Aventuras Fora do Corpo")

segunda-feira, 11 de maio de 2009

Morte, Renascimento e Meditação



Por: Ken Wilber

(Ken Wilber, fundador da "Psicologia Integral", escreveu mais de uma centena de artigos e é autor ou organizador de dez livros, que incluem The Atman Project e Up from Eden.)


Praticamente em todas as tradições religiosas místicas pelo mundo afora se acha presente algum tipo de doutrina de reencarnação. O próprio cristianismo a admitia até por volta do século IV d.C., quando por motivos em grande parte políticos, recaiu sobre ela o anátema. Não obstante, muitos místicos cristãos aceitam hoje essa idéia. Como salientou o teólogo cristão John Hick em sua importante obra Death and Eternal Life [Morte e Vida Eterna], todas as religiões do mundo, inclusive o próprio cristianismo, estão de acordo quanto à ocorrência de algum tipo de reencarnação.



Por certo, o fato de muitas pessoas acreditarem em alguma coisa não faz com que ela seja verdadeira. E é muito difícil sustentar a idéia da reencarnação fazendo apelo a "evidências" que assumem a forma de alegadas lembranças de uma vida passada, pois na maioria dos casos pode-se demonstrar que essas lembranças não passam de revivescências de traços de uma memória subconsciente oriundas desta vida.



No entanto, o problema não é tão sério quanto poderia a princípio parecer pois a doutrina da reencarnação, tal como é apresentada pelas grandes tradições místicas, é uma noção bastante específica: Ela não significa que a mente viaja ao longo de vidas sucessivas e que, por conseguinte, em condições especiais como, por exemplo, sob hipnose - a mente pode recordar todas as suas vidas passadas. Pelo contrário, é a alma, e não a mente, que transmigra. Portanto, o fato de não se poder provar a reencarnação fazendo-se apelo às lembranças de vidas passadas é exatamente o que se poderia esperar: lembranças específicas, idéias, conhecimentos, e assim por diante pertencem à mente e não transmigram. Tudo isto é deixado para trás, juntamente com o corpo, por ocasião da morte. Talvez algumas poucas lembranças específicas consigam se insinuar de vez em quando, como nos casos registrados pelo Professor Ian Stevenson e por outros, mas esses casos constituiriam antes a exceção que a regra. O que transmigra é a alma, e esta não é um conjunto de lembranças, de idéias ou de crenças.



Bem, de acordo com a maioria dos ramos da filosofia perene, a alma possui duas características básicas que a definem: primeira, ela é o repositório das "virtudes" do indivíduo (ou da falta das mesmas) - isto é. de seu carma, mesmo tempo bom e ruim; segunda, ela é a "força" da percepção de uma pessoas, ou a capacidade que o indivíduo possui de "testemunhar" o mundo dos fenômenos sem nenhum apego ou aversão. Esta segunda capacidade é também conhe cida como "sabedoria". A reunião de ambas - virtude e sabedoria - constitui a alma, que é a única coisa que transmigra. Desse modo, quando as afirmam que se "lembram" de uma vida passada - onde viveram, qual era seu meio de vida, e assim por diante - essas pessoas, de acordo com qualquer religião importante ou em qualquer ramo da filosofia perene, não estão se lembrando de nenhuma efetiva existência passada. Somente os budas (ou tulkus), segundo se afirma, podem se lembrar de vidas passadas - constituem eles a exceção à regra.


Ken Wilber


A Reencarnação como Hipótese Espiritual





Porém, se ostensivas lembranças de vidas passadas não constituem provas satisfatórias de reencarnação, que outro tipo de eviências poderia haver para sustentar essa doutrina? Seria preciso lembrar aqui que a filosofia perene, de um modo geral, permite três tipos principais e diferentes de conhecimento e sua verificação: o conhecimento sensorial ou empírico, o conhecimento mental ou lógico e o conhecimento espiritual ou contemplativo. A reencarnação não é uma hipótese sensorial nem mental; não pode ser explicada ou verificada por meio de dados sensoriais ou de dedução lógica. É uma hipótese espiritual que deve ser testada com os olhos da contemplação, e não com o olhos da carne ou com os da mente. Desse modo, embora não possamos encontrar nenhum tipo habitual de evidência capaz de nos convencer da reencarnação, quando praticamos a contemplação e adquirimos uma certa competência nessa tarefa, começamos a observar determinados fatos óbvios - por exemplo, que a postura testemunhante, a postura da alma, começa a compartilhar da eternidade, do infinito.



Há uma natureza atemporal com relação à alma que se toma perfeitamente óbvia e inconfundível: começa-se de fato a "sentir" a imortalidade da alma a intuir que, até certo ponto, ela está acima do tempo, acima da história, acima da vida e da morte. Dessa maneira, vamos gradualmente adquirindo a certeza de que a alma não morre com o corpo, ou com a mente, que a alma existia antes e continuará a existir. Mas esta certeza não tem nada a ver com lembranças específicas de vidas passadas. É, em vez disso, uma recordação daquele aspecto da alma que toca o espírito, e é, por conseguinte, radical e perfeitamente eterno. Na verdade, a partir desse ponto de vista, torna-se óbvio que, como expressou Shankara, o grande vidente vedanta: "único transmigrante é o Senhor", ou o próprio Espírito Absoluto. É, afinal, o próprio Buda-mente, o Único, que aparece sob todas essas formas, manifestando-se sob todas essas aparências, transmigrando como todas essas almas. Nos estágiós mais profundos da contemplação, torna-se bastante palpável essa experiência da eternidade e do espírito como imortal e indestrutível.



Não obstante. de acordo com os ensinamentos perenes, não é apenas o Absoluto que transmigra: a própria alma do inívíduo, quando não iluminada, também transmigra. Quando a alma desperta, ou se dissolve no espírito, ela não mais transmigra; ela está "libertada", ou compreende que, enquanto espírito, está reencamada em toda a parte, como todas as coisas. Mas se a alma não desperta para o espírito, se não é iluminada, ela reencarna, levando consigo o acúmulo de sua virtude e de sua sabedoria, em vez de recordações específicas de sua mente. E essa cadeia de renascimentos prossegue até que esses dois acúmulos - virtude e sabedoria - atinjam finalmente um ponto crítico, quando a alma se torna iluminada, ou se dissolve e se liberta no espírito, fazendo assim com que termine a transmigração individual.



Mesmo o budismo, que nega a existência absoluta da alma, reconhece que ela tem uma existência relativa, ou convencional, e que essa alma, relativa ou convencionalmente existente, transmigra. Quando o Absoluto, ou shunyata, é diretamente vivenciado, a transmigração relativa - e a alma separada - chega ao fim. Poder-se-ia pensar, entretanto, que um budista se oporia ao uso da palavra alma neste contexto, por se tratar de um termo que em geral tem uma conotação de algo indestrutível ou eterno - conotação que parece incompatível com a concepção budista de que a alma tem apenas uma existência relativa e temporária. No entanto, uma consideração mais atenta dos ensinamentos da filosofia perene, resolverá essa aparente contradição.



De acordo com a tradição perene, a alma é de fato indestrutível, mas quando ela descobre plenamente o espírito, seu próprio sentido de separatividade se dissolve ou é transcendido. A alma ainda permanece como individualidade, ou expressão da pessoa em particular, porém o seu ser ou centro desloca-se para o espírito, dissolvendo assim sua ilusão de separatividade. E esta doutrina concorda quase exatamente com os ensinamentos mais elevados do budismo a anuttaratantra ioga, ou "supremo ensinamento tântrico" - segundo o qual existe no centro mesmo do chakra do coração, em cada indivíduo, aquilo que é tecnicamente denominado "a gota indestrutível" (ou luminosidade). Como ensina o Vajrayana, é essa gota indestrutível que transmigra. E mais: ela é indestrutível; afirma-se que até mesmo os budas a possuem. A gota indestrutível é considerada a sede do próprio "vento" sutil (rLung) que sustenta a "própria mente sutil [ou causal], a mente da iluminação, ou essência espiritual do indivíduo. O budismo concorda, portanto, com a filosofia perene: a gota indestrutível é a alma, o continuum, tal como a defini.


Ken Wilber



Estágios do Processo do Morrer: Dissolução da Grande Cadeia do Ser

De um modo geral, os diversos ramos da filosofia perene estão de acordo quanto aos estágios do processo do morrer e às experiências que acompanham esses estágios: a morte é um processo no qual a Grande Cadeia do Ser se "dissolve", para o indivíduo, "de baixo para cima", por assim dizer. Isto é, por ocasião da morte o corpo se desfaz dentro da mente, depois a mente se desfaz dentro da alma, e então a alma se desfaz dentro do espírito, sendo cada uma dessas dissoluções caracterizada por um conjunto específico de acontecimentos. Por exemplo, a dissolução do corpo na mente corresponde ao processo efetivo da morte. A dissolução da mente na alma é vivenciada como uma revisão e um "julgamento" da própria vida. A dissolução da alma no espírito é uma libertação radical e uma transcendência. O processo é, então, por assim dizer, "revertido", e, com base nas tendências cármicas acumuladas pelo indivíduo, é gerada uma alma a partir do espírito, em seguida uma mente a partir da alma, e depois um corpo a partir da mente, quando então o indivíduo esquece todas as etapas anteriores e se encontra renascido num corpo físico. De acordo com os tibetanos, esse processo todo leva cerca de quarenta e nove dias.

A tradição tibetana contém a descrição mais rica e mais detalhada dos estágios da dissolução da Grande Cadeia durante o processo do morrer. Segundo os tibetanos, as experiências subjetivas que acompanham cada um dos oito estágios da dissolução são conhecidos tecnicamente como "miragem", "aparência de fumaça", "pirilampos", "lamparina", "aparência branca", "aumento do vermelho", "quase-realização do negro" e "clara luz". Para compreender esses termos, precisamos de uma versão um pouco mais detalhada e precisa da Grande Cadeia. Por isso, em vez de nossa versão simplificada de corpo, mente, alma e espírito, recorreremos a uma versão ligeiramente ampliada: matéria, sensação, percepção, impulso, psíquico, sutil, causal (ou não-manifesto) e espírito (ou supremo).

O primeiro estágio do processo do morrer ocorre quando o agregado de forma, ou matéria - o nível mais baixo da grande cadeia - se dissolve. São cinco os sinais externos desse estágio: o corpo perde seu vigor físico; a vista se torna embaçada e indistinta; sente-se o corpo pesado, como se estivesse "afundando"; a vida abandona os olhos; e a tez perde o seu brilho. O sinal interno que acompanha espontaneamente esses sinais externos, é uma "aparência de miragem", uma espécie de imagem tremeluzente e como que aquosa, semelhante às que aparecem no deserto num dia quente. Afirma-se que isto ocorre porque, tecnicamente, o "vento" (prana) do elemento "terra" dissolveu-se no "canal central" e, desse modo, o elemento "água" predomina - daí o aspecto aquoso ou semelhante a miragem.

A seguir, o segundo agregado, o da sensação, se dissolve. Há, novamente, cinco sinais externos: a pessoa deixa de experimentar sensações corpóreas, agradáveis ou desagradáveis; cessam as sensações mentais; secam os fluidos do corpo (por exemplo a língua fica muito seca); deixa-se de ouvir os sons exteriores; e cessam igualmente os sons interiores (por exemplo, zumbidos nos ouvidos). O sinal interno associado a essa segunda dissolução é uma "aparência de fumaça", semelhante a um nevoeiro. Tecnicamente, diz-se que isto ocorre porque o elemento "água", que provocara a aparência de miragem, está se dissolvendo no elemento "fogo" - daí o aspecto esfumaçado.

O terceiro estágio é a dissolução do terceiro nível ou agregado, o nível da percepção ou discernimento. Os cinco sinais externos: o indivíduo não reconhece nem distingue mais os objetos; já não pode reconhecer os amigos ou familiares; o corpo perde o calor (ele se torna frio); a respiração fica muito fraca e superficial; e o indivíduo não consegue mais perceber os odores. O sinal interior que acompanha espontaneamente esse estágio denomina-se "pirilampos", e é descrito como uma aparição semelhante a um enxame de pirilampos ou de fagulhas que se desprendem de uma fogueira. Tecnicamente, explica-se essa ocorrência atribuindo-se à dissolução do elemento "fogo", e à predominância, a partir daí, do elemento "vento".



O quarto estágio é a dissolução do quarto nível ou agregado, o do impulso (ou "disposições intencionais"). Eis os cinco sinais externos dessa dissolução: o indivíduo já não consegue se mover (pois não há mais impulsos); já não consegue lembrar-se de ações ou dos objetivos das memas; cessa toda a respiração; a língua fica espessa e azulada, e o indivíduo já não consegue falar com clareza; e já não sente o gosto ou paladar. O sinal interno desse estágio é uma "aparência de lamparina", descrita como semelhante a uma luz brilhante, clara e constante. (A essa altura, podemos começar a perceber semelhanças com a experiência de quase-morte, que discutirei adiante.)

Para compreender o quinto estágio, e os subseqüentes, do processo de dissolução, é necessário ter alguma noção de fisiologia tântrica. Segundo o Vajrayana, todos os estados mentais - grosseiro, sutil e muito sutil - são mantidos por "ventos", ou energias, ou forças vitais correspondentes (prana em sânscrito, rLung em tibetano). Quando esses ventos se dissolvem, também se dissolvem as mentes que a eles correspondem. O quinto estágio é o da dissolução do quinto nível ou agregado, o da cognição, ou a própria consciência. Todavia, como elucidam os ensinamentos do Vajrayana, há muitos níveis de consciência. Esses níveis se dividem nas chamadas mente grosseira, mente sutil e mente muito sutil, cada uma delas dissolvendo-se numa determinada ordem, produzindo experiências e sinais específicos. Assim, o quinto estágio é o da dissolução da mente grosseira, juntamente com o "vento" ou prana (força vital) que a sustenta. Deixa então de haver a conceitualização grosseira, a mente ordinária.

Durante esse quinto estágio, depois que morre o último vestígio da mente grosseira e que começa a emergir a mente sutil, experimenta-se um estado denominado "aparência branca". Afirma-se que se trata de uma luz branca, muito clara e brilhante, semelhante a uma clara noite de outono brilhantemente iluminada pela opaca luminosidade da Lua cheia. Para compreender a causa dessa aparência branca, temos de introduzir a noção tibetana de thig-le" que significa, aproximadamente, "gotas" ou "essência". Segundo o Vajrayana, há quatro gotas, ou essências, que são particularmente importantes. A primeira, a gota branca, está localizada na parte superior da cabeça; o indivíduo a recebe de seu pai e afirma-se que ela representa (ou que é, realmente) bodhicitta, ou a mente-iluminação. A segunda, a gota vermelha, o indivíduo a recebe de sua mãe; está localizada no centro umbilical. (Também se diz que a gota branca está associada ao sêmen e a gota vermelha ao sangue [menstrual], mas o importante é que ambas estão igualmente presentes nos homens e nas mulheres). A terceira, conhecida como "a gota que é indestrutível nesta vida", está localizada no próprio centro do chakra do coração. Essa gota é, por assim dizer, a essência da presente vida do indivíduo; é o seu "continuum", que armazena todas as impressões e conhecimentos de sua existência particular. E no interior dessa "gota indestrutível nesta vida" está a quarta gota, "a gota que é eternamente indestrutível ou para todo o sempre indestrutível". É esta a gota indestrutível que persistirá para sempre - isto é, que é indestrutível no decorrer da vida presente, indestrutível no decorrer da morte e do processo de morrer, indestrutível no decorrer do bardo, ou estado intermediário entre a morte e o renascimento, e indestrutível no decorrer do próprio renascimento. Essa gota persiste até mesmo no decorrer da iluminação e é, na verdade, o próprio vento sutil que serve de "montaria", ou de base, para o ser iluminado. Como foi mencionado antes, afirma-se que até mesmo os budas possuem essa gota eternamente indestrutível.

Desse modo, o que vimos até agora foi a dissolução de todos os ventos grosseiros e das mentes grosseiras a eles associadas. Emergiu, então, a primeira mente sutil- a da "aparência branca" - "cavalgando" o vento sutil, ou energia sutil, que a ela corresponde. Bem, afirma-se que a verdadeira causa dessa mente da aparência branca é a descida da gota branca, ou bodhicitta, do chakra coronário para o chakra do coração. Costuma-se dizer que a gota branca é retida no chakra coronário pela constrição de nós e ventos da ignorância e pelo apego e agarramento ao nível grosseiro. Porém, nesse estágio do processo do morrer, a mente grosseira dissolveu-se de modo que os nós ao redor do chakra coronário se afrouxam naturalmente e a gota branca desce até a gota indestrutível do chakra do coração. Quando a alcança, surge espontaneamente a mente da aparência branca.

Incidentalmente, se essas explicações tibetanas dos fenômenos em questão parecem um tanto artificiais, seria bom lembrar que há uma enorme quantidade de evidências contemplativas que dão apoio em favor da existência das diversas experiências que, segundo se diz, ocorrem durante o processo do morrer. As próprias experiências são reais e parecem em grande parte irrefutáveis, mas a avaliação tradicional que os tibetanos oferecem para explicar o que realmente as provoca deixa bastante espaço para discussões. (Voltarei em breve a este ponto.) Aqui, limito-me a descrever a pura e simples versão tibetana como ponto de partida.

Não obstante, não deveríamos nos esquecer de que, ao contrário de nossa própria cultura ocidental, culturas tradicionais como a tibetana convivem constantemente com a morte; as pessoas morrem em suas casas, rodeadas pela família e por amigos. Desse modo, os estágios reais do processo do morrer têm sido observados milhares, até mesmo milhões de vezes. E quando acrescentamos o fato suplementar de que os tibetanos possuem uma compreensão bastante sofisticada da dimensão espiritual e de seu desenvolvimento, o resultado é um acervo incrivelmente rico de conhecimento e de sabedoria a respeito do efetivo processo do morrer e da maneira como ele se relaciona com a dimensão espiritual, o desenvolvimento espiritual, o carma e o renascimento, e assim por diante. Para um investigador, seria evidentemente uma tolice rejeitar a massiva quantidade de dados acumulados por essa tradição.

Continuamos, porém, com os estágios do processo do morrer. No sexto estágio, dissolve-se a mente sutil juntamente com seu vento, e emerge uma mente ainda mais sutil, chamada de "aumento do vermelho", que é igualmente uma experiência de luz brilhante. Neste caso, porém, trata-se de uma experiência semelhante a um claro dia de outono banhado por uma brilhante luz solar. Tecnicamente falando, isto ocorre porque se dissolveram os ventos que sustentam a vida material, de modo que todos os nós e constrições ao redor do umbigo que aí estavam retendo o bodhicitta vermelho, ou gota vermelha, se soltam ou são afrouxados. Então, a gota vermelha sobe até a gota indestrutível, no coração. Quando a atinge, a mente do aumento do vermelho surge espontaneamente.

O sétimo estágio, segundo se afirma, é a dissolução da mente sutil do aumento do vermelho e a emergência de uma mente e de um vento ainda mais sutis, a que se dá o nome de "mente da quase-realização do negro". Nesse estado, cessa por completo a consciência, e dissolve-se toda a manifestação. Além disso, há uma cessação de todas as consciências e energias específicas que se desenvolveram nesta vida. Diz-se que é a experiência de uma noite completamente negra, sem estrelas, sem nenhuma luz. Denomina-se "quase-realização" pois está, por assim dizer, "aproximando-se" da realização final; está se aproximando da clara luz do vazio. Em outras palavras, pode-se imaginar que esse nível é o mais elevado do sutil ou o mais baixo do causal, ou que é a dimensão não-manifesta do proprio espírito. Tecnicamente falando, esse "negrume" ocorre porque a gota branca de cima e a gota vermelha de baixo cercam agora a gota indestrutível, eliminando assim toda a percepção.

No entanto, no estágio seguinte e final- o oitavo estágio - a gota branca continua a descer e a gota vermelha a subir, libertando ou abrindo assim a gota indestutível. Diz-se, então, que o resultado é um período de claridade extraordinária e de percepção brilhante, onde se vivencia a presença de um céu extremamente claro, brilhante e radioso, livre de quaisquer tipos de manchas, de nuvens e de obstruções. É essa a clara luz.

Agora, diz-se que a mente da clara luz não é uma mente sutil, mas uma mente muito sutil, que cavalga um vento, ou energia, correspondentemente muito sutil. Essa mente e essa energia muito sutis, ou "causais", são, na verdade, a mente e a energia da gota eternamente indestrutível. É esse o corpo causal, ou a suprema mente e energia espiritual, o Dharmakaya. Neste ponto, a gota eternamente indestrutível deixa cair a gota indestrutível da vida presente, cessa por completo a consciência e a alma, a gota eternamente indestrutível, inicia a experiência do bardo, ou os estados intermediários que levarão eventualmente ao renascimento. A gota branca continua a descer e surge como uma gota de sêmen no órgão sexual, e a gota vermelha continua a subir e surge como uma gota de sangue nas narinas. Finalmente, ocorre a morte, e o corpo pode ser descartado. Quem faz isso prematuramente torna-se carmicamente culpado de assassinato, pois o corpo ainda está vivo.

Estágios do Processo de Renascimento

O que vimos até agora foi a progressiva dissolução da Grande Cadeia, no caso de um indivíduo, começando embaixo e operando para cima. A matéria, ou forma, dissolveu-se no corpo (ou na sensação, e depois na percepção, e por fim, no impulso) e o corpo dissolveu-se na mente, na mente grosseira. Esta dissolveu-se em seguida na mente sutil ou nos domínios da alma, que por sua vez reverteu à essência causal ou espiritual. Neste ponto, o processo será invertido, dependendo inteiramente do carma da alma - do acúmulo de virtude e de sabedona que a alma leva consigo. Desse modo, a experiência do bardo se divide em três domínios, ou estágios básicos, os quais são simplesmente os domínios do espírito, em seguida da mente, e por fim do corpo e da matéria. De acordo com a sua virtude e com a sua sabedoria, a alma reconhecerá as dimensões superiores - e neste caso permanecerá nelas - ou então não as reconhecerá - na verdade, ela fugirá delas - e neste caso acabará "escorregando" pela Grande Cadela do Ser até ser forçada a adotar um corpo físico grosseiro e portanto, a renascer.

No momento da morte efetiva ou final - a que estivemos nos referindo como sendo oitavo estágio de todo o processo do morrer - a alma, ou gota eternamente indestrutível, penetra no chamado bardo chikhai, que nada mais é que o proprio espírito, o Dharmakaya. Como afirma o Livro Tibetano dos Mortos: "Nesse momento, o primeiro vislumbre do Bardo da Clara Luz da Realidade: que é a infalível Mente do Dharmakaya, é percebido por todos os seres sensíveis.

É neste ponto que a meditação e o trabalho espiritual tornam-se tão importantes. De acordo com o Livro Tibetano dos Mortos, a maioria das pessoas é incapaz de reconhecer esse estado pelo que ele realmente é. Em termos cristãos, essas pessoas não conhecem Deus, de modo que não sabem quando é Deus que olha para elas de frente. Na verdade, elas estão, a essa altura, unidas a Deus, estão inteira e totalmente numa situação de identidade suprema com a Divindade. Porém, a menos que reconheçam essa identidade, a menos que tenham sido contemplativamente treinadas para reconhecer esse estado de unidade divina, elas na verdade fugirão dele, levadas por seus desejos inferiores e por suas inclinações cármicas. Como diz W. Y. Evans-Wentz, o primeiro tradutor do Livro Tibetano dos Mortos: "Devido à não-familiaridade com esse estado, que é um estado extático de não-ego, um estado de consciência [causal], falta ao ser humano médio a capacIdade de funcionar nesse estado; as inclinações cármicas obscurecem a consciência-princípio com pensamentos de personalidade,.de ser individualizado, de dualismo, e, perdendo o equilíbrio, a consciêncla-princípio abandona a Clara Luz."

Desse modo, a alma se retrai afastando-se da Divindade do Darmakaya do causal. De fato, diz-se que a alma procura realmente escapar da realização da Divina Unidade e se "apaga", por assim dizer, até acordar no domínio inferior seguinte, denominado bardo chonyid, a dimensão sutil, o Sambhogakaya, a dimensão arquetípica. Essa experiência é caracterizada por visões psíquicas e sutis de todo tipo, visões de deuses e deusas, dakas e dakinis, todas acompanhadas de luzes deslumbrantes e quase dolorosamente brilhantes de iluminações e de cores. Porém, mais uma vez as pessoas, em sua maioria, não estão acostumadas com esse estado, e não têm nenhuma idéia do que seja a luz transcendental e a iluminação divina, de modo que elas fogem desses fenômenos e são atraídas pelas luzes mais fracas, ou impuras, que também aparecem.

Dessa maneira, a alma volta a se contrair interiormente, tenta afastar-se dessas visões divinas, se apaga de novo e acorda no chamado bardo sidpa, o domínio da reflexão grosseira. Aqui, a alma tem eventualmente uma visão de seus futuros pais copulando, e - no bom e velho estilo freudiano - se vai nascer como menino, sentirá desejo pela mãe e ódio pelo pai, e se vai nascer como menina, odiará a mãe e sentirá atração pelo pai. (Pelo que sei, é esta a primeira explicação pormenorizada do complexo de Édipo/Electra - cerca de mil anos antes de Freud, como o próprio Jung assinalou).

Nesse estágio, diz-se que a alma - por causa de seu ciúme e de sua inveja - "entra" em sua imaginação para separar o pai e a mãe, para se interpor entre eles; mas o resultado é, simplesmente, que ela de fato, se interpõe entre eles, na realidade - isto é, ela acaba renascendo como seu filho, ou sua filha. Ela agora sente desejo, aversão, apego, ódio, e tem um corpo grosseiro: em outras palavras, é um ser humano. Encontra-se no estágio mais baixo da Grande Cadela, e seu próprio crescimento e desenvolvimento será uma nova subida, passando mais uma vez pelos estágios que ela acaba de negar e dos quais fugiu; sua evoluçao é, por assim dizer, uma inversão da "queda". A altura até onde subirá de volta na Grande Cadeia do Ser determinará a maneira como ela consegue lidar com o processo do morrer e com os estados do bardo, quando chegar de novo a hora de abandonar o corpo físico.

Interpretação das Experiências Subjetivas de Morte e de Renascimento

As evidências contemplativas sugerem vigorosamente que os dados, as experiências reais que acompanham o processo do morrer - por exemplo, a "aparência branca", o "aumento do vermelho" a "quase-realização do negro", ou sejam quais forem os termos que queiramos usar - existem e são bastante reais. Encontram-se evidências suplementares de sua realidade no fato de que essas experiências possuem efetivas referências ontológicas nas dimensões superiores da Grande Cadeia do Ser. Por exemplo, as três experiências acima mencionadas referem-se, respectivamente, àquilo que chamei de estruturas (ou níveis de consciência) psíquicas, sutis e causais. Na verdade, referem-se com muita precisão a esses níveis, a despeito das várias e legítimas diferentes explicações que também lhes poderiam ser dadas. Desse modo, em minha opinião os níveis são reais, eles possuem status ontológlco real e definido, de maneira que as experiências desses níveis são, elas próprias, reais. Isto, porém, não significa que não podem ser bastante diferentes as experiências que cada indivíduo tem desses níveis.

Um budista, por exemplo, provavelmente perceberá a "aparência branca" como uma espécie de vazio ou shunyata, ao passo que um místico cristão poderá vê-la sob a forma de uma presença santa, possivelmente a do próprio Cristo, ou como um grande ser de luz. Mas é assim que tem de ser. Pois, até que a "gota indestrutível da vida presente" - as impressões e crenças acumuladas e que foram reunidas no decorrer da vida de um indivíduo - se dissolva efetivamente (naquele a que chamamos de sétimo estágio), ela irá colorir e moldar todas as experiências desse indivíduo. Um budista terá, por conseguinte, uma experiência budista, um cristão terá uma experiência cristã, um hindu terá uma experiência hindu e um ateu se sentirá provavelmente muito confuso. Seria tudo isso o que deveríamos esperar. É somente no oitavo estágio, na clara luz do vazio, ou da pura Divindade, que as interpretações pessoais e as crenças sutis de cada indivíduo são abandonadas, e que é proporcionada uma compreensão direta da própria realidade pura, como clara luz. Portanto, a explicação tibetana para os dados não é a única possível. É, não obstante, uma dentre várias e muito importantes, reflexões ou perspectivas sobre os processos do morrer, da morte e do renascimento, arraigados numa compreensão profunda da Grande Cadeia do Ser, tanto no sentido "ascendente" (meditação e morte), como no "descendente" (bardo e renascimento).

A Experiência de Quase-Morte e os Estágios do Processo do Morrer

O fenômeno mais comum nos relatos ocidentais sobre a experiência de quase morte (EQM) é a sensação de atravessar um túnel e de avistar então uma luz brilhante, ou de encontrar um grande ser de luz - um ser dotado de incrível sabedoria, inteligência e bem-aventurança. Pouco importa aqui o credo religioso de cada indivíduo em particular; os ateus têm esse tipo de experiência com a mesma freqüência dos verdadeiros crentes. Em si mesmo, esse fato tende a corroborar a idéia de que, durante o processo do morrer, a pessoa estabelece contato com algumas das dimensões mais sutis da existência.

Do ponto de vista do modelo tibetano que discutimos acima, a "luz" relatada nas EQMs, dependendo de sua intensidade ou de sua claridade, poderia ser o nível da lamparina, da aparência branca ou do aumento do vermelho. O importante é que, a essa altura do processo da morte, dissolveram-se a mente e o corpo grosseiros, ou os ventos e as energias grosseiros, e assim começam a emergir as dimensões mais sutis da mente e da energia, caracterizadas pela iluminação brilhante, pela clareza mental e pela sabedoria. Não é, pois, de causar surpresa o fato de que, independentemente de sua crença, as pessoas relatem universalmente, a essa altura, a experiência da luz. Muitos daqueles que descrevem suas EQMS acreditam que a luz que viram é espírito absoluto. No entanto, se o modelo tibetano estiver preciso, o que as pessoas vêem durante a EQM não é exatamente o nível mais elevado. Para além da aparência branca ou do aumento do vermelho, há a quase-realização do negro, depois a clara luz e depois os estados do bardo.

A experiência da luz do nível sutil é muito agradável - é, na verdade, um espantoso estado de beatitude. E o nível seguinte, o nível muito sutil, ou causal, o é ainda mais. De fato, as pessoas que tiveram EQMs relatam jamais terem experimentado maior sensação de paz, nem nada tão profundo e tão pleno de felicidade. Não nos devemos porém esquecer de que, até essa altura, tudo nessas experiências é moldado pela "gota indestrutível da vida presente": por conseguinte, como já observamos, os cristãos poderiam ver Cristo, os budistas ver Buda, e assim por diante. Tudo isto faz sentido, pois as experiências desses domínios são condicionadas pelas experiências de nossa vida presente.


Mas depois, no oitavo estágio, a "gota indestrutível da vida presente" é solta, juntamente com todas as lembranças e impressões pessoais, e com tudo o que é específico desta vida em particular, e a "gota eternamente indestrutível" sai do corpo e entra no estado bardo. Começa, portanto, a provação do bardo - um verdadeiro pesadelo, a menos que o indivíduo esteja muito familiarizado com esses estados graças à meditação.

Num certo sentido, a experiência do morrer e a EQM são, na verdade, muito divertidas: relata-se universalmente que, uma vez superado o pavor de morrer, o processo passa a ser pleno de felicidade, de paz e de eventos extraordinários. Tendo-se porém completado a "subida", começa a "descida", ou bardo - e aí é que entra a dificuldade. Porque, ao chegar neste ponto, todas as nossas inclinações cármicas, todos os nossos apegos, desejos e medos aparecem realmente bem diante de nossos olhos, por assim dizer, como num sonho, pois o bardo é uma dimensão puramente mental ou sutil, semelhante a um sonho, na qual tudo o que pensamos surge imediatamente como uma realidade.

Desse modo, não se ouve falar nesse "lado do declive" do processo da morte entre os que passaram por uma EQM. Eles experimentaram apenas os primeiros estágios do processo global. Seus testemunhos constituem, não obstante, uma poderosa evidência de que esse processo realmente ocorre. Tudo neles se ajusta com notável e inconfundível precisão. Além disso, não é possível explicar seu testemunho alegando que todos eles estudaram o budismo tibetano; na realidade, a maioria dessas pessoas jamais ouvira falar nele. Mas suas experiências são essencialmente semelhantes às dos tibetanos pois elas refletem a realidade universal e transcultural da Grande Cadeia do Ser. Parece agora que, simplesmente, não há outra maneira de interpretar os dados, de fato abundantes, que vêm se acumulando sobre esse assunto.



A Meditação como Treinamento para a Morte

Como é que a meditação se ajusta a tudo isto? Toda forma de meditação é, basicamente, uma maneira de transcender o ego, ou de morrer para o ego. Neste sentido, ela imita a morte - isto é, a morte do ego. Quando progride razoavelmente bem num sistema qualquer de meditação, o indivíduo pode atingir um ponto em que, tendo "testemunhado" de maneira tão exaustiva a mente e o corpo, ele realmente se ergue acima da mente e do corpo, isto é, os transcende; "morre", assim para eles, para o ego, e desperta como alma sutil, ou mesmo espírito. E isto é efetivamente vivenciado como uma morte. No zen, é chamado de Grande Morte. Pode ser uma experiência bastante fácil, uma transcendência relativamente tranqüila do dualismo sujeito-objeto, mas também pode ser aterrorizante por abranger vários tipos de morte. Porém, sutil ou dramaticamente, rápida ou lentamente, morre ou se dissolve o sentido de que se é um eu separado, e o indivíduo encontra uma identidade primaz e mais elevada no (e enquanto) espírito universal.

Mas a meditação também pode ser um treinamento para a morte verdadeira. De acordo com os ensinamentos zen, se morremos antes do morrer, então quando morrermos não morreremos. Alguns sistemas de meditação, particularmente o sikh (os santos Radhasoami) e o tântrico (hindu e budista) contêm meditações muito precisas que imitam ou induzem, com muita proximidade, os vários estágios do processo do morrer - inclusive a parada da respiração, o progressivo esfriamento do corpo, o retardamento e por vezes a parada do coração, e assim por diante. A morte física verdadeira não representa então uma surpresa, e pode-se desse modo utilizar com muito mais facilidade os estados intermediários de consciência que aparecem depois da morte - os bardos - para obter a compreensão iluminada. O objetivo dessas meditações é tornar o indivíduo capaz de reconhecer o espírito, de modo que quando o corpo, a mente e a alma se dissolverem durante o efetivo processo do morrer, ele poderá reconhecer o espírito, ou Dharmakaya, e permanecer como tal, em vez de fugir dele e terminar voltando ao samsara, à ilusão de uma alma separada da mente e do corpo; ou capaz de poder, caso escolha reentrar num corpo, fazê-lo deliberadamente - isto é, como um bodhisattva.

Essas meditações que imitam a morte não representam nenhum perigo real para a vida; o corpo não está realmente morrendo, nem passando concretamente pelos estágios da morte. Assemelha-se, em vez disso, a reter a própria respiração para ver como é: não se pára de respirar para sempre. Porém, alguns dos estados que podem ser induzidos por essas meditações são de fato poderosas imitações dos fatos reais. As batidas cardíacas, por exemplo, podem ser realmente sustadas durante um longo período, tal como a respiração. É desse modo que se pode dizer, por exemplo, que os "ventos" penetraram e estão permanecendo no canal central. A pessoa está "imitando" a morte mas, ao fazê-lo, ela realmente - embora de maneira temporária - dissolve os mesmos ventos que são dissolvidos na morte. Trata-se, portanto, de uma imitação muito concreta e real.

Qual é, exatamente, a relação entre os diversos ventos, ou energias, descritos nos Tantras, e a meditação? A idéia central de todo Tantra, seja ele hindu, budista, gnóstico ou sikh, é que cada estado mental, ou cada estado de consciência - em outras palavras, cada nível da Grande Cadeia do Ser - possui também uma energia específica que o sustenta, o prana, ou vento. (Já examinamos a versão tibetana dessa doutrina.) Desse modo, ao dissolver um vento específico, o indivíduo estará dissolvendo a mente que é por ele sustentada. Por conseguinte, quando consegue controlar esses ventos ou energias, o indivíduo transcende as mentes que os "cavalgam". É esta a noção geral de pranayama, ou controle da "respiração" ou do "vento". Mas também, visto que a mente cavalga o vento, onde quer que coloquemos a mente seus ventos tenderão a se reunir. Assim, por exemplo, se ao meditar a pessoa se concentra muito intensamente no chakra coronário, o vento, ou energia, tenderá a se reunir ali e, depois, a se dissolver ali.



Isto significa que a mente, em qualquer dos níveis, tem uma medida de controle sobre os ventos a ela associados. Por conseguinte, graças ao treinamento mental e à concentração, pode-se aprender a juntar ventos ou energias em determinados lugares, e depois dissolvê-los ali. E essa dissolução é exatamente o mesmo tipo de processo que ocorre na morte. Desse modo, a pessoa está realmente vivenciando, de maneira muito concreta, o que acontece quando todos os diversos ventos se dissolvem quando se morre - a começar pelos ventos grosseiros, continuando depois quando se dissolvem os ventos sutis, deixando o vento muito sutil ou causal, e a mente da clara luz que o cavalga. Ao induzir, por livre e espontânea vontade, essas experiências do processo do morrer, quando ocorrer a morte verdadeira a pessoa ficará sabendo exatamente o que a dissolução dos ventos irá produzir.

Este tipo de prática também proporciona à pessoa a capacidade de prolongar cada estado, particularmente os estados mais sutis, tais como o da aparência branca, o do aumento do vermelho, o da quase-realização do negro, e a clara luz, por já os ter mais ou menos dominado. Então, no momento final da morte verdadeira, no estágio que estivemos designando como o oitavo - ao penetrar no bardo chikhai, o Dharmakaya - o indivíduo poderá ali permanecer, se assim o desejar. Esse estado da clara luz é muito nítido, óbvio e fácil de ser reconhecido, por ter sido visto muitas vezes durante a meditação e na mente do guru; por conseguinte, o indivíduo abre caminho em direção a ele, ficando assim livre da necessidade de renascer. Ainda poderia, entretanto, optar por renascer num corpo físico a fim de ajudar outras pessoas a alcançar esse conhecimento e essa liberdade.

Uma técnica usual para reunir e dissolver ventos num determinado ponto do corpo consiste em concentrar-se na "gota vermelha", no centro umbilical (a fonte do chamado fogo tummo). A pessoa simplesmente se concentra nesse objeto - visualizado como uma flamejante gota vermelha, do tamanho de uma pequena ervilha - até conseguir se manter concentrada, sem desviar sua atenção, durante mais ou menos trinta ou quarenta minutos. Nessa situação, as energias do corpo estarão tão concentradas na área umbilical que a respiração se acalmará, tornando-se muito suave, quase imperceptível. Todos os ventos ou energias do corpo estarão sendo removidos de sua função ordinária e ali concentrados. De modo que essa dissolução dos ventos, ou sua remoção, assemelha-se muito ao que ocorre na morte verdadeira. Portanto, se continuar a se concentrar meditativamente, o indivíduo começará a vivenciar todos os sinais do processo do morrer, na ordem que lhes é própria, inclusive as aparências de miragem, de fumaça, de pirilampos e de lamparina.

Nessa situação, quando os ventos ou energias do corpo começam a se reunir e a se dissolver no coração, como acontece na morte verdadeira, a pessoa vivenciará os níveis da mente sutil, da mente da aparência branca, em seguida a do aumento do vermelho e depois a da quase-realização do negro. Depois, graças ao poder de sua própria meditação e de invocações espirituais, todos os ventos ou energias se dissolverão, finalmente, na gota indestrutível no coração, e a pessoa vivenciará a clara luz do vazio, a suprema dimensão, e realização, espiritual. Em suma, esse tipo de meditação constitui uma perfeita imitação do processo do morrer. Mais uma vez, a questão toda está no fato de que, ao se familiarizar com a clara luz, desenvolvendo a sabedoria e a virtude meditativas, então, ao se aproximar a morte real, a pessoa poderá permanecer em conformidade com a clara luz e, desse modo, reconhecer a libertação final.




(Texto extraído do livro "Explorações Contemporâneas da Vida Depois da Morte" - Org. por: Gary Doore, PhD.)