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terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

A ONU pede 'New Deal Verde' contra aquecimento global

Os líderes mundiais que se encontrarão em Londres em abril para a cúpula do G20, o grupo das 20 principais economias do mundo, deveriam lançar um "New Deal Verde" para lutar contra o aquecimento global e ressuscitar a combalida economia mundial em bases sustentáveis, disse ontem a ONU.

A notícia é do jornal Folha de S. Paulo e do Le Monde, 17-02-2009.

Ministros do Ambiente de mais de cem países iniciaram em Nairóbi um encontro do Pnuma (Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente), tendo no topo da agenda a questão de como atrair atenção para temas verdes no meio da crise econômica mundial.
O Pnuma diz que esforços políticos para afastar a mudança climática falharam e que o mundo deve aprender com a resposta do presidente americano Franklin Roosevelt à Grande Depressão.

"A mudança climática bem pode ser um acontecimento mais importante do que aquilo que está acontecendo em Wall Street", disse Achim Steiner, diretor-executivo do Pnuma. Segundo ele, socorros bilionários a bancos foram mobilizados em semanas, mas a resposta à mudança climática tem sido letárgica. "Devemos nos assegurar de que trilhões de dólares não sejam gastos por esta geração para salvar sua economia hoje sem nenhuma resposta sobre o que a próxima geração, que terá de pagar a conta, fará em termos de empregos no futuro."



quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

Reduzir, reutilizar, reciclar. Esse é o caminho para a sustentabilidade.


Entrevista com Flávio Tayra.


“A crise ambiental é fundamentalmente a crise de um modo de produção.” Essa é a definição do economista Flávio Tayra para o atual caos ambiental vivenciado em todo o mundo. A falta de preocupação com os recursos naturais estão nos aproximando “do limite da lógica de exploração econômica desmesurada”, alerta.


De acordo com o pesquisador, a internet é bom meio para mudar o curso da história e projetar um futuro diferente. Além disso, destaca, precisa ser incorporado um novo padrão de desenvolvimento capitalista, no qual “a percepção da finitude dos recursos e a necessidade de direcionamento de pesquisas” ajudem a encontrar soluções mais sustentáveis.


Em entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line, ele diz que, para alcançar uma produção menos degradante em termos ambientais e um consumo equilibrado, “é preciso mover esforços” e direcionar a técnica “para a nossa sustentabilidade, nos libertando da pressão imediatista. O esforço individual precisa ser multiplicado até atingir a escala global”.


IHU On-Line – Como o senhor entende a atual crise ambiental?

Flávio Tayra –
A crise ambiental é fundamentalmente a crise de um modo de produção. Parece cada dia mais claro que estamos próximos do limite da lógica de exploração econômica desmesurada, sem preocupação com a sustentabilidade dos recursos. Além de afetar o meio físico e as outras espécies, o que já vem acontecendo há muito tempo, o limite de exploração do modelo atual fica cada dia mais claro na medida em que já passa a afetar diretamente a vida das pessoas, comprometendo sua saúde e suas condições de vida.

IHU On-Line – Em que sentido as novas tecnologias da informação podem ajudar a encontrar uma solução para a crise ambiental?

Flávio Tayra –
De maneira geral, acredito que o desenvolvimento tecnológico, bem conduzido, pode ser a nossa chance para chegarmos a uma espécie de “reequilíbrio” com a natureza. Alguns analistas mais céticos acreditam que só vamos começar a sentir a real necessidade desse reequilíbrio através do aprendizado pela dor, quando realmente sentirmos na pele os seus efeitos. Talvez estejamos nos aproximando desse momento, mas é evidente que a margem para a piora do quadro é muito grande. Para não chegarmos a esse extremo, o desenvolvimento de novas tecnologias, mais econômicas e menos degradantes, será uma condição essencial para a nossa sobrevivência.


Sem conscientização não há mudanças

Além dessa nova tecnologia ainda em gestação, creio que a outra importante variável no caminho para a sustentabilidade é o da conscientização e mobilização. Sabemos da iminência de uma crise ambiental de proporções seriíssimas, mas continuamos, a grande maioria, consumindo muito (e sendo estimulados a isso). O alto consumo é o parâmetro para o crescimento econômico. Vemos isso na atualidade: cresceremos menos em 2009 porque os Estados Unidos estão em crise e a China diminuirá sua produção; isso nos abalará pelos próximos anos. A economia precisa continuar caminhando e não temos alternativas econômicas sérias para entendê-la sem analisá-la sob o binômio produção/consumo. Precisamos mudar o padrão. Precisamos de uma produção menos degradante em termos ambientais e um consumo que seja mais equilibrado, sem os exageros do padrão norte-americano, que quer ser espalhado pelo resto do mundo, mas é altamente perdulário em termos energéticos. Se os chineses, em sua escalada econômica, adotarem o padrão americano, é evidente que os recursos ambientais do Planeta se esgotarão muito rapidamente.
Hoje já existem alguns estudos muito sérios veiculados, como o Relatório Stern, que dão conta da magnitude do problema. Segundo o relatório coordenado pelo economista britânico Nicholas Stern, se investirmos uma fatia pequena do PIB global atual (algo em torno de 2%), economizaremos a quantia absurda que teremos de gastar no futuro para mitigar os efeitos do aquecimento global (cerca de 25% do PIB). O problema é global, não é localizado num só país, e por conta disso exige uma conscientização, enfrentamento e uma solução global. Talvez a tecnologia da informação – estou pensando aqui na internet –, possa dar uma força nesse sentido. O sociólogo espanhol Manuel Castells, famoso por suas obras sobre a tecnologia da informação, destaca a importância das redes suscitadas pela internet em escala global e essa movimentação da sociedade civil tem por alvo o Estado para tentar obter mudanças em suas condições de vida. As mídias são muito importantes nesse sentido, pois através delas os atores da sociedade civil criam uma sensibilidade que indiretamente influencia as instituições políticas. Óbvio que ainda existe um longo caminho a percorrer nesse sentido.


IHU On-Line – Como a técnica pode interferir na natureza e construir um mundo mais sustentável?

Flávio Tayra –
Falando bem rapidamente, o paradigma da modernidade se deu sob a égide do domínio da técnica para o controle da natureza. Para conseguir se afastar do mundo assombrado pelos demônios era preciso que se desmistificasse uma porção de ideias até então largamente difundidas. Foi o grande motivador para o crescimento e grande expansão do conhecimento. E isso nos trouxe uma série de facilidades e melhores condições de bem-estar que não podem ser ignoradas. Do conhecimento científico para o crescimento econômico foi um pulo; e aí começam as mazelas ambientais. O que precisa ser incorporado, de imediato, num novo padrão de desenvolvimento capitalista é a percepção da finitude dos recursos e a necessidade de direcionamento de pesquisas para que sejam encontradas soluções mais sustentáveis. Parece óbvio, mas ainda não está claro para todo mundo. É preciso tornar fontes alternativas de energia, como a eólica e a solar, mais atraentes economicamente, bem como aproveitar os recursos naturais de maneira mais saudável (os famosos 3R´s: reduzir, reutilizar, reciclar). Para isso vai ser preciso o desenvolvimento de novas técnicas. Mas isso é apenas parte do processo.

IHU On-Line – Que relação pode estabelecer entre o mundo do trabalho e o meio ambiente? A partir dessa relação, quais são os limites para o desenvolvimento sustentável?

Flávio Tayra –
Numa das maiores tentativas de acordos globais em termos ambientais – o Protocolo de Kyoto – o que ficou patente foi a recusa americana na ratificação do tratado. Quando o distinto presidente Bush recusou a adoção, o seu argumento foi de que a assinatura poderia compreender a extinção de quase 5 milhões de postos de trabalho. Houve repercussão negativa sim, principalmente internacional, mas isso parece não ter afetado muito a percepção dos norte-americanos, que o re-elegeram dois anos depois (em 2004). Em resumo, todos temos as nossas preocupações ambientais, mas ela não é a prioridade zero para a grande maioria. A maioria, senão a sua totalidade, está muito mais preocupada com as suas questões mais mundanas e diárias. Para isso é preciso emprego, ou seja, renda. Nos anos 1970, ainda dava para falar em crescimento zero, mas nos 1980 já era evidente que esse discurso não emplacava mais. Como diz o sócio-economista Ignacy Sachs, precisamos encontrar fórmulas para crescer sem destruir.

IHU On-Line – O senhor percebe relações entre as crises ambiental e econômica? Como ambas estão interligadas na constituição do caos mundial?

Flávio Tayra –
É preciso resistir às tentações de se fazer análises do tipo “o declínio do império americano” para explicar a derrocada econômica atual. Acredito que existam relações entre as duas crises, mas ela é muito sutil, tênue. Mas não dá para falar: “a economia americana desabou porque é insustentável ambientalmente”. Está em crise porque isso acontece no sistema capitalista de tempos em tempos e porque faltaram mecanismos de regulação no seu sistema financeiro, eufóricos com uma criatividade desenfreada dos mecanismos de alavancagem, que permitiram anos de grande crescimento econômico. É evidente, no entanto, que o modo de ser (e de consumir) dos americanos só piora o quadro ambiental global: a pegada ecológica dos EUA (9,4 hectares por habitante) é quase 3,5 vezes superior à média mundial (2,7 hectares por habitante), que já está acima do aceitável (2,1 hectares por habitante).

IHU On-Line – A introdução da técnica sobre o mundo moderno mudou nossa maneira de perceber o meio ambiente?

Flávio Tayra –
A popularização do aquecimento global veio nos mostrar que o mundo tem limites. Por muito tempo, acreditamos na dispersão dos nossos dejetos. “O esgoto pode ir pro mar, pois lá, diante da sua imensidão, ele se dilui”. O mesmo pensamento em relação à poluição atmosférica. A percepção do nível exacerbado de poluição atmosférica devido ao uso de combustíveis fósseis já era muito clara nas grandes cidades, mas por algum motivo, acreditava-se que ele se dispersava e isso não traria maiores consequências além das localizadas. Em resumo, achava-se que dava pra varrer para baixo do tapete. Agora, com a percepção do aquecimento global, mesmo as regiões mais distantes como os pólos sentem os efeitos dessa poluição.
Essa poluição e utilização massiva dos recursos naturais só ganharam escala após o advento do capitalismo, que por sua vez, nasceu (e para muitos é também fruto) no bojo das grandes transformações da modernidade. Até então, talvez devido à pequena escala de produção econômica (que só veio com o capitalismo), as atividades do homem não chegavam a oferecer riscos mais graves ao meio ambiente.

IHU On-Line - O senhor diz que a modernidade rompeu o equilíbrio entre homem e natureza. Considerando a crise climática, chegou a hora de retomar esse enlace?

Flávio Tayra –
Esse equilíbrio foi desfeito na modernidade por conta do crescimento científico e do capitalismo. Para algumas correntes críticas da modernidade, como Marcuse, ciência e capitalismo são uma só coisa. Em poucas palavras, ciência (conhecimento racional e objetivo) e ideologia (concepção de mundo) se confundem. Desaparece o valor objetivo do conhecimento científico. Nesse sentido, a crítica da "razão instrumental", "razão unidimensional", ou "razão técnica" encerra, no fundo, uma crítica da própria civilização. Daí o ataque à "sociedade industrial" ou "tecnológica", justamente a sociedade moderna baseada na ciência e na tecnologia.

IHU On-Line – É possível estabelecer uma harmonia entre técnica e meio ambiente? Como ciência e técnica devem ser redelineadas?

Flávio Tayra –
A associação com o capitalismo decorre do fato de que o desenvolvimento dos meios de produção e obtenção dos recursos, a técnica, desencadeou o processo de grande crescimento econômico dos últimos séculos. De uma forma mais ou menos pragmática, temos de observar, no entanto, que, apesar dos tropeços de ordem social e ambiental, tal crescimento econômico trouxe também benefícios e facilidades que nos períodos anteriores seriam quase inimagináveis. Essas facilidades, por certo, deviam ser almejadas e aspiradas pelos homens. Segundo o historiador Lewis Mumford, a técnica existe como um elemento da cultura humana, que promove o bem ou o mal, segundo os que a exploram programem. A máquina em si não tem exigências ou fins. É o espírito humano que possui exigências e estabelece as suas finalidades. A tecnologia pode ser tanto boa quanto má. Existem processos tecnológicos estritamente danosos; mas isso não é necessariamente consequência de sua existência, e sim de seu mau uso. É preciso mover esforços para direcioná-la para a nossa sustentabilidade, nos liberando da pressão imediatista. Mas o esforço individual precisa ser multiplicado até atingir a escala global.

terça-feira, 13 de janeiro de 2009

Agroecologia: uma forte alternativa ao agronegócio


Abaixo, trecho de entrevista com José Tardim.

IHU On-Line – Como o senhor analisa o debate acerca da agroecologia no país?


José Tardim –
A agroecologia tem alcançado no Brasil um espaço crescente de debate e estudo. Afinal, ela vem sendo colocada em prática nas comunidades, nos assentamentos, em todas as regiões do Brasil. Com isso, a população camponesa está cada vez mais se abrindo para a questão. O seu crescimento acontece num impulso muito grande a partir do momento em que os movimentos camponeses da Via Campesina no Brasil assumem essa proposta junto aos seus programas e começam efetivamente a impulsioná-la nas comunidades e nos assentamentos de reforma agrária.


IHU On-Line – Uma dos grandes motivações para o desenvolvimento da agroecologia é que, a partir dela, os camponeses poderão se tornar independentes das grandes empresas de sementes. Como a agroecologia pode também resgatar a identidade dos camponeses?


José Tardim –
A agroecologia, mesmo se organizando como uma ciência, parte de dois fundamentos. O primeiro é o conhecimento tradicional das populações indígenas e camponesas. O outro aspecto é que o saber dessa prática indígena e camponesa se associa ao saber acadêmico-científico. Então, a agroecologia é uma ciência que vem construindo uma unidade, uma cooperação solidária e muito forte entre o saber e a prática indígena e camponesa e o saber acadêmico-científico. Seu trabalho faz com que a auto-estima do povo camponês seja erguida, recuperando saberes que estavam latentes e recursos genéticos em processo de risco de erosão genética, além de resgatar o plano técnico e cultural. Desse modo, a agroecologia tem se revelado, nessa conjuntura atual, uma das ciências mais importantes para reconstrução ecológica da agricultura de base camponesa. Traz de volta, então, a recriação de territórios indígenas e camponeses, de territórios livres no sentido plano, de autonomia tecnológica, de conhecimento, de geração de saberes, de uma nova cultura que contribua para que a humanidade corrija o seu grande desvio, detectado na agricultura do agronegócio, com transgênicos, o monocultivo em larga escala, o problema dos agrotóxicos cada vez mais potentes e ameaçadores à saúde e a natureza. Esse é o campo da mudança mais radical que a agroecologia aponta para o mundo camponês e a sociedade em geral.





IHU On-Line – Que transformações nos modelos de produção e de consumo da sociedade são necessários para que um modelo de desenvolvimento realmente sustentável possa ser construído no Brasil?

José Tardim –
No Brasil, é notório que uma política fundamental e imediata seria uma ampla e massiva reforma agrária. Não podemos seguir sendo o Brasil do latifúndio, do trabalho escravo e da violência no campo. A reforma agrária é uma política estrutural fundamental para criar uma ampla base de agricultura camponesa no país, que possa, nesse momento, ampliar em larga escala a produção de alimentos básicos e a garantia de uma soberania alimentar, assim como produzir trabalhar com uma agricultura ecológica, no sentido de produzirmos alimentos saudáveis para a vida. Essa é uma mudança fundamental e estrutural para o país. A outra é, no plano da sociedade urbana, alterar o padrão de consumo. Isso porque a sociedade urbana está cada vez mais concentrada e precisa passar por um processo de desconcentração, ou seja, de reforma urbana. Dentro desta, devemos incluir uma reeducação no que se refere ao que é necessário ser consumido diariamente, a fim de garantir a vida das pessoas que utilizam um produto de base agrícola contaminante, além de consumirem uma quinquilharia, uma quantidade de objetos desnecessários para manutenção da vida, colocados nas lojas do comércio, em geral da cidade. Então, é preciso uma reforma agrária, uma reforma na base tecnológica da produção agrícola e uma ampla reforma urbana que possa incluir uma educação ao consumo daquilo que é necessário e ambiental. Tudo com o objetivo final de cuidarmos da vida de forma diferente a partir de fundamentos ecológicos.

IHU On-Line – Pensando no campo da agricultura brasileira atual, como o senhor analisa a produção de bicombustíveis?

José Tardim –
Os bicombustíveis aparecem na pauta internacional do agronegócio e inclui os interesses do grande capital que controlam a economia mundial, fundamentada na energia do petróleo. Interessa às petroleiras ter uma fonte alternativa de energia combustível sob seu controle. Não que o agrocombustível será a fonte de energia do futuro: isso é uma grande mentira. Na verdade, é uma forma de as petroleiras controlarem o outro processo alternativo, mas numa escala que não irá alterar o padrão geral ecológico da destruição ambiental, que continua a ser praticado na sociedade capitalista. No caso brasileiro, essa política responde diretamente aos interesses do agronegócio. As transnacionais que controlam a tecnologia dos transgênicos, da maquinaria da agricultura, do agrotóxico, das sementes têm grande interesse em expandir, em larga escala no Brasil e no mundo, o monocultivo de algumas espécies sob as quais as transnacionais possuem total controle tecnológico. Assim, ela consegue impor uma ampliação da sua capacidade de explorar a sociedade dos países do Terceiro Mundo e entregar nos países ricos alguma escala de energia pode ser interessante para o ambiente deles.



(Fonte: http://unisinos.br/ihu/index.php?option=com_noticias&Itemid=18&task=detalhe&id=15487.)

Aqueles que querem comer o mundo: as corporações


A partir do documento do Grupo ETC "De quem é a natureza - O poder corporativo e a fronteira final na mercantilização da vida", Silvia Ribeiro analisa a relação entre a produção e comercialização de alimentos e sementes, a crise econômica e o papel dos movimentos sociais que combatem os oligopólios agroalimentares.

O artigo foi publicado no sítio America Latina en Movimiento, da Agencia Latinoamericana de Información, 29-12-2008. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Imersos em uma enorme crise do capitalismo, mãe de muitas crises convergentes, resgata-se com dinheiro público às maiores empresas privadas do planeta, enquanto os pobres, os famintos e o caos climático seguem aumentando. Segundo o economista mexicano Andrés Barreda, estamos em uma crise de brutal sobreacumulação capitalista: gigantesco vômito daqueles que acreditaram que podiam engolir o mundo, mas não puderam digeri-lo.

Amplamente acunhadas, as crises atuais têm um contexto de concentração crescente do poder corporativo, apropriação de recursos naturais e desregulação ou leis em favor das empresas e especuladores financeiros, que aumentaram sem pausa nas últimas décadas. Em 2003, o valor global de fusões e aquisições foi de 1,3 bilhões de dólares. Em 2007, chegou a 4,48 bilhões de dólares. Na indústria alimentar, o valor das fusões e compras entre empresas duplicou de 2005 a 2007, chegando a 200 bilhões de dólares. O desastre financeiro acabou com algumas empresas, favorecendo oligopólios ainda mais fechados.

O que isso significa para as pessoas comuns? O documento do Grupo ETC, "De quem é a natureza" (disponível em http://www.etcgroup.org/es), oferece uma análise no contexto histórico da concentração corporativa de setores-chave nas últimas três décadas. Desde então, o Grupo ETC seguiu as manobrs de mercado das autodenominadas “indústrias da vida” (biotecnologia em agricultura, alimentação e farmacêutica). No novo informe, agregam-se as empresas atrás da convergência de biotecnologia com nanotecnologia e biologia sintética, que promovem novas gerações de agrocombustíveis e ainda mais: tentam gerar uma economia pós-petroleira baseada no uso de carboidratos e vida artificial.

O setor agroalimentar segue sendo um dos exemplos mais devastadores, por ser um campo essencial: ninguém pode viver sem comer. É, além disso, o maior “mercado” do mundo. Por ambas as razões, as transnacionais se lançaram agressivamente para controlá-lo. Nas últimas três ou quatro décadas, ele deixou de estar altamente descentralizado, fundamentalmente em mãos de pequenos agricultores e mercados locais e nacionais, para ser um dos setores industriais globais com maior concentração corporativa. Para isso, foi necessária uma mudança radical nas formas de produção e comércio de alimentos. Graças aos tratados de “livre” comércio, a agricultura e os alimentos se transformaram cada vez mais em mercadorias de exportação, em um mercado global controlado por duas dezenas de transnacionais.

Segundo um documento da FAO sobre mercados de produtos básicos, no começo da década de 60, os países do Sul global tinham um excedente comercial agrícola próximo dos 700 milhões de dólares anuais. Em fins da década de 80, o excedente havia desaparecido. Hoje, todos os países do Sul são claros importadores de alimentos.

Na década de 60, quase a totalidade das sementes estavam nas mãos de agricultores ou instituições públicas. Hoje, 82% do mercado comercial de sementes estão sob propriedade intelectual, e dez empresas controlam 67% desse campo. Essas grandes sementeiras (Monsanto, Syngenta, DuPont, Bayer etc.) são, em sua maioria, propriedade de fabricantes de agrotóxicos, área em que as dez maiores empresas controlam 89% do mercado global. Que, por sua vez, estão representadas entre as dez maiores empresas em farmacêutica veterinária, que controlam 63% desse campo.

Os 10 maiores processadores de alimentos (Nestlé, PepsiCo, Kraft Foods, Coca-Cola, Unilever, Tyson Foods, Cargill, Mars, ADM, Danone) controlam 26% do mercado, e 100 cadeias de vendas diretas ao consumidor controlam 40% do mercado global. Parece “pouco” em comparação, mas são volumes de venda imensamente maiores. No ano 2002, as vendas globais de sementes e agroquímicos foram de 29 bilhões de dólares, as de processadores de alimentos, 259 bilhões, e as de cadeias de vendas ao consumidor, 501 bilhões. Em 2007, esses três setores aumentaram respectivamente para 49 bilhões, 339 bilhões e 720 bilhões de dólares. Segue sendo o supermercado Wal-Mart a maior empresa do mundo, sendo a número 26 entre as 100 maiores economias do planeta, muito maior do que o produto interno bruto (PIB) de países inteiros como Dinamarca, Portugal, Venezuela ou Singapura.

Das sementes ao supermercado, as transnacionais ditam ou pretendem ditar o que plantar, como comer e onde comprar. Frente às crises, receitam-nos mais do mesmo: mais industrialização, mais produtos químicos, mais transgênicos e outras tecnologias de alto risco, mais livre comércio. Não é estranho, já que todas estão entre os que mais lucraram com o aumento de preços e escassez de alimentos: obtiveram lucros que vão até 108% acima do que em anos anteriores.

A disparidade de rendas individuais no mundo também cresceu. A riqueza acumulada dos 1.125 indivíduos mais ricos do mundo (4,4 bilhões de dólares) é quase equivalente ao PIB do Japão, segunda potência econômica mundial depois dos Estados Unidos. Essa cifra é maior do que os ingressos somados da metade da população adulta do planeta. Cinqüenta administradores de fundos financeiros (hedge funds e equity funds), os grandes especuladores que provocaram a “crise”, ganharam durante 2007 uma média de 588 milhões de dólares, cerca de 19 mil vezes mais do que o trabalhador norte-americano comum e cerca de 50 mil vezes mais do que um trabalhador latino-americano médio. O diretor executivo da financeira Lehman Brothers, agora em bancarrota, embolsou 17 mil dólares por hora durante todo 2007 (dados do Institute for Policy Studies).

Resumindo, uma absurda minoria de empresas e uns quantos multimilionários que possuem suas ações controlam enormes porcentagens das indústrias e dos mercados básicos para a sobrevivência, como alimentação e saúde.

Isso lhes permite uma pesada ingerência sobre as políticas nacionais e internacionais, moldando, à sua conveniência, as regulamentações e os modelos de produção e consumo que se aplicam nos países, que, por sua vez, são causadores das maiores catástrofes alimentares, ambientais e de saúde.

Assim, foi possível avançar a privatização e conversão do sistema agroalimentar há até poucas décadas descentralizado e baseado majoritariamente em sementes de livre acesso, água, terra, sol e trabalho humano, para convertê-lo em uma máquina industrial petrolizada, que exige grandes investimentos, maquinários caros, devastadoras quantidade de agroquímicos (melhor chamados de agrotóxicos) e sementes patenteadas controladas por algumas poucas empresas. Ainda que tenham se produzido maiores quantidades de alguns grãos, isso não solucionou a fome no mundo tal como prometiam, mas sim a aumentou. O saldo de erosão de solos e biodiversidade agrícola e pecuária, junto à contaminação químico-tóxica das águas, não tem precedentes na história da humanidade. Tudo acompanhado, como se fosse pouco, por uma crescente crise de saúde humana e animal (que também é negócio para as mesmas empresas).

O paradigma mais significativo dessa “involução verde”, são os transgênicos, sementes patenteadas viciadas nos produtos químicos das empresas, promovidas como panacéia para resolver os atuais problemas de fome que o próprio modelo criou. Outro ingrediente do mesmo modelo, agora impulsionado com mais força, é a altíssima requisição de fertilizantes, que, por seu nome, parece menos nocivo do que o resto dos agrotóxicos. Mas o uso de fertilizantes industriais, em vez do equilíbrio de nutrientes naturais dos modelos anteriores de agricultura, também gera adição e dependência e está nas mãos de um fechado oligopólio transnacional. Tal como o petróleo, baseia-se no uso de produtos finitos e não-renováveis: segundo dados da PotashCorp, a primeira empresa global de fertilizantes, as reservas de fósforo, ingrediente fundamental dos fertilizantes, diminuem em ritmo acelerado. Globalmente, o consumo industrial de fertilizantes aumentou 31% entre 1996 e 2008, devido ao incremento da produção de gado industrial e a produção de agrocombustíveis. E, com a crise, o preço disparou em mais de 650% entre janeiro de 2007 e agosto de 2008. A Mosaic, terceira empresa de fertilizantes em nível global (55% propriedade da Cargill), aumentou seus lucros em mais de 1.000% nesse período.

Apesar de que as transnacionais pretendam controlar tudo, 1,2 bilhões de agricultores e agricultoras no mundo seguem tendo suas próprias sementes. Ainda que a Wal-Mart seja a maior empresa do mundo, 85% da produção global de alimentos é consumida próximo de onde se semeia – a maioria no mercado informal.

Urge, por bem de todos e para frear as ameaças ao ambiente que nos sustenta, o questionamento profundo do modelo de agroalimentação industrial e corporativo, incluindo a crítica radical aos que, em nome das crises alimentares e climáticas, querem nos impor mais do mesmo modelo com transgênicos e agrocombustíveis. As soluções reais já existem e são diametralmente opostas: soberania alimentar, como propõe a Via Campesina, a partir de economias agrícolas descentralizadas, diversas, livres de patentes, baseadas no conhecimento e as culturas campesinas, que são as que, por mais de dez mil ano, provaram sua capacidade de alimentar sustentavelmente a humanidade.


segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

A tradição vence o deserto



Burkina Fasso combate a desertificação e a mudança climática com técnicas tradicionais

Por: Gaëlle Dupont
Enviada especial a Gourcy, Burkina Fasso


Fonte: Le Monde Diplomatique

Um cavalo está amarrado na entrada do quintal de Ali Ouedraogo, no povoado de Gourcy, a 150 km ao norte de Ouagadougou, a capital de Burkina Fasso, em pleno Sael [faixa de campos áridos ao sul do deserto do Saara]. Não é uma coisa banal: um animal é um sinal de sucesso, a prova de que aos 78 anos Ali Ouedraogo vive melhor que seus vizinhos, agricultores como ele. No meio de seu quintal, três paióis circulares estão cheios de sorgo até o topo. Eles contêm o suficiente para alimentar toda a família até a próxima colheita, em setembro, talvez até mais. Quarenta pessoas, entre elas uma fieira de crianças, vivem disso, enquanto outras famílias já enfrentam escassez. Elas terão de sobreviver com babenda, um mingau com gosto de espinafre velho, feito de um punhado de cereais e muitas folhas.

Os campos de Ouedraogo não se parecem com os de seus vizinhos. Aqui o hábito é desmatar, plantar e colher até esgotar o solo, depois recomeçar um pouco mais longe. Os agricultores deixam para trás uma terra estéril, nua como um piso de cerâmica. Com o aumento da população cresce a necessidade de terras e mais se esgota o solo. É a engrenagem da desertificação, agravada pelos fatores climáticos.

Para Ali Ouedraogo tudo mudou em 1983. "Naquele momento a situação era muito dura", ele conta. "Não havia chuva, as colheitas eram ruins, eu pensava em deixar a região." Muitos emigraram. Ele decidiu ficar e cuidar das terras degradadas, que ninguém queria na época. Com a ajuda de uma organização não-governamental dedicada ao combate à desertificação, ele pouco a pouco bateu recordes de produtividade. Hoje colhe em média 1.500 quilos de sorgo por hectare, contra 800 quilos nas melhores terras das redondezas.

Para isso não houve necessidade de máquinas agrícolas, adubos químicos ou sementes milagrosas. Os agricultores não poderiam pagá-los. Nem de represas, pois o relevo não se presta. São necessárias pedras, picaretas, pás, um nível para calcular o sentido do escoamento da água e muita mão-de-obra. O objetivo é impedir a erosão e reter o máximo de água no solo.

"Trata-se de técnicas rurais tradicionais, aperfeiçoadas por agrônomos", explica Matthieu Ouedraogo, que forma os agricultores. Nos campos, fileiras de pedras, batizadas de cordões pedregosos, são feitas ao longo das curvas de nível, desenhando pequenos terraços. Árvores são plantadas aí. Barreiras em forma de meia-lua retêm a água em microbacias. Os "zai", buracos com 20 cm de profundidade onde as sementes são plantadas em esterco, permitem uma infiltração mais profunda da água.

"Todas essas técnicas contêm o escoamento da água", continua Matthieu Ouedraogo. "Pouco a pouco a terra se regenera." E as árvores que crescem nos terrenos fornecerão lenha que não será mais retirada da mata...

"Com essas técnicas podemos deixar o Sael verde de novo", afirma Souleymane Ouedraogo, pesquisador do Instituto do Meio Ambiente e Pesquisas Agrícolas (Inera). "Contivemos a desertificação, aumentou a fertilidade das terras, e, portanto a produção de cereais e de ração para os animais, a biodiversidade se recupera." Bastam quatro ou cinco anos para obter bons resultados nas terras degradadas.



Por que então todo o Sael não é transformado? Em Burkina Fasso, cerca de 300 mil hectares estariam preparados, ou seja, menos de 9% da superfície cultivável do país. "Essas técnicas não são muito caras, mas é preciso um investimento inicial", explica Bertrand Reysset, engenheiro agrônomo do Comitê Inter-Estados de Combate à Seca no Sael (Cilss), que reúne nove países da região.

O investimento chega em média a 130 euros por hectare. É preciso alugar um caminhão e pagar o combustível para buscar as pedras, comprar um mínimo de material, pagar a mão-de-obra durante os trabalhos. Uma formação e um acompanhamento são necessários. Tudo isso está fora do alcance dos agricultores que trabalham com foice, dobrados em dois nos campos. Os bancos não lhes dão crédito. Os projetos implementados tiveram o financiamento de ONGs.

Essas técnicas, experimentadas desde os anos 1980 no âmbito do combate à desertificação, seriam muito úteis para adaptar-se à mudança climática. "Os modelos climáticos prevêem um aumento da freqüência de acontecimentos extremos, um prolongamento da estação seca, precipitações mais concentradas e torrenciais", explica Edwige Botoni, especialista em gestão de recursos naturais do Cilss. "Isso terá um impacto negativo na produtividade do solo."

A estação de chuvas de 2007 foi um exemplo perfeito disso. Ela começou atrasada e toda a água caiu ao mesmo tempo, em agosto, provocando inundações. "A luta contra a desertificação e a adaptação à mudança climática coincidem em 90%", afirma Reysset.

Todos esperam que a crise alimentar mundial faça mudar as coisas. Eles ouviram o discurso do presidente francês, Nicolas Sarkozy, que apelou para "aplicar esforços na agricultura de sobrevivência subsaariana" em 3 de junho em Roma, durante a cúpula sobre a alimentação. A agricultura é um parente pobre há 30 anos. Ela representa apenas 5% da ajuda pública ao desenvolvimento, e são raros os países que lhe dão prioridade. Ela vem depois dos ambulatórios, escolas, estradas...

Na aldeia de Guiè, ainda no norte de Burkina, a ONG Terra Verde obteve resultados especialmente espetaculares, criando um "bosque saeliano", segundo a expressão de seu fundador, Henri Girard, um engenheiro agrônomo francês. Cercas vivas protegem o solo da erosão. Com uma mecanização mínima, uma pequena dose de fertilizantes químicos, variedades selecionadas e rotações culturais bem escolhidas, a região reverdeceu e a produção é quatro vezes superior à média.

"É a prova de que não há fatalidade, que mesmo com nossos solos e nossos climas tudo é possível", comenta Hamado Sawadogo, agrônomo do Inera. O investimento inicial foi de 400 euros por hectare. Mas a evolução das práticas também exige uma mudança de mentalidade. "As pessoas aqui são fatalistas: se eu sou pobre, se perdi minha colheita, foi Deus quem quis", explica Girard. "Mas alguns se levantam. A cada 50 km há alguém disposto a se mexer."

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves
Fonte: Le Monde Diplomatique

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

Clima vai exigir muito mais pressão



Por: Washington Novaes

Há quantas décadas os cientistas advertem que não se devem desmatar encostas e topos de morros, nem ocupá-los com construções, porque se corre o risco de deslizamentos e mortes? Há quantas décadas a legislação proíbe essa ocupação? Há quanto tempo a ciência mostra os riscos de ocupar a planície natural de inundação de rios, que periodicamente ali produzem enchentes mais fortes, com vítimas e perdas materiais, ainda mais se canalizados, retificados, obstruídos por barragens? Não são conhecidos há muito tempo os riscos de impermeabilizar todo o solo das cidades com asfalto e não deixar espaço para a infiltração de água - agravando o risco de inundações? Há quantas décadas o Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC) alerta para a maior freqüência e o agravamento dos chamados “eventos extremos” do clima, principalmente chuvas intensas em curto espaço de tempo?

Quem acompanhou nas últimas semanas o noticiário sobre as chuvas e inundações em Santa Catarina viu todos os fenômenos indesejáveis acontecerem em poucos dias, nos quais morreu mais de uma centena de pessoas, mais de 100 mil foram desalojadas (principalmente moradores de encostas, topos de morros e adjacências), cidades se inundaram, rodovias, gasodutos e portos foram danificados, o turismo teve prejuízos imensos. Numa das cidades choveu mais de 850 milímetros (850 litros de água por m2 de solo) em 36 horas, quando menos de um quarto disso estava previsto para todo o mês. Sofreu-se com a falta de políticas públicas adequadas aos conhecimentos científicos, falta de ações administrativas conseqüentes, falta de informação, de organização da sociedade. Não se tratou apenas de fatalidade.

Pode-se transpor agora o tema para o plano universal. Há pelo menos 20 anos o IPCC vem advertindo para o aumento da temperatura do planeta em conseqüência da emissão de gases poluentes, que intensificam o efeito estufa e agravam os eventos climáticos extremos. Ao longo desse tempo, a Organização Meteorológica Mundial vem mostrando que a cada ano aumentam os milhões de vítimas desses eventos, assim como os prejuízos financeiros, já na casa das centenas de bilhões de dólares anuais. O IPCC alerta que as emissões precisam cair em pelo menos 80% até 2050, para evitar que a temperatura suba mais que 2 graus Celsius (já subiu 0,8 grau) e os problemas sejam ainda mais graves. A Agência Internacional de Energia advertiu em outubro que mesmo com a redução de 80% a elevação da temperatura será de 3 graus. O Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, nos seus cenários para o Brasil, prevê que a temperatura na Amazônia poderá subir até 6 graus, na tendência atual, e 3 a 4 graus no Centro-Oeste (com a contribuição da perda anual de 22 mil km2 no Cerrado) - e tudo isso influenciará o clima em todo o País, principalmente no Semi-Árido, que poderá perder 20% de seus recursos hídricos. Para completar, o estudo do ex-economista-chefe do Banco Mundial sir Nicholas Stern diz que temos menos de uma década para enfrentar todas essas questões, aplicando anualmente de 2% a 3% do produto bruto mundial (de US$ 1,2 trilhão a US$ 1,8 trilhão) - se não quisermos ter a mais grave recessão econômica da história.

Nada disso foi suficiente para levar os 192 países da Convenção do Clima a chegar, na Polônia, na reunião encerrada no dia 13, a um acordo para reduzir as emissões. A Grã-Bretanha anunciou-se disposta a cortar as suas em 40% até 2030 e 80% até 2050. A União Européia enfrenta resistência de alguns de seus países membros para reduzir 20% até 2020. Os EUA dizem que até 2020 podem cortar 17% sobre as emissões de 2000. E fica-se por aí, sem decisão conjunta, à espera de novas reuniões. Os países “em desenvolvimento” pediam que os industrializados destinassem US$ 20 bilhões por ano para o repasse de tecnologias que os ajudassem a enfrentar o problema; conseguiram míseros US$ 80 milhões. Os países detentores de florestas tropicais queriam que se criasse um mecanismo internacional para custear a redução de desmatamento, queimadas e mudanças no uso do solo em florestas tropicais; só conseguiram a aprovação teórica do sistema (REDD), mas não o caminho concreto para a mobilização e destinação do dinheiro.

O mundo continuará à espera. E o Brasil não sabe como fará para obter os US$ 3 bilhões a US$ 4 bilhões anuais em financiamentos internacionais que o Ministério do Meio Ambiente diz serem necessários para atingir sua meta (sem compromisso na convenção) de baixar o desmatamento na Amazônia em 70% até 2018 - o que significaria chegar a esse ano desmatando 7,5 mil km2 por ano e até lá ainda perder 70 mil km2 de florestas no bioma. Mas quem financiará o mecanismo, sem poder descontar a redução em seu balanço de emissões?

Enquanto isso, diz a ONU (Estado, 6/12) que este ano os dramas do clima já atingem 18 milhões de pessoas na América Latina e no Caribe. Diz o Banco Mundial que o produto bruto dessas mesmas regiões pode cair mais de 11% até 2080. E diz o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, que a crise financeira não deve ser desculpa para a inação. Mas o secretário da Convenção do Clima, Yvo de Boer, admitiu na Polônia que de lá saía com “alguma amargura”. Que provavelmente terá aumentado nesta semana com um relatório da minoria republicana no Senado norte-americano enumerando as divergências de centenas de cientistas com relação às conclusões do IPCC.

Nada disso autoriza ou justifica o desânimo. Ao contrário. Reforça a necessidade de mais informação, mais organização social, mais pressão política, mais urgência, para que seja feito o indispensável: programas de redução de emissões, programas de adaptação às mudanças, criação de sistemas de defesa civil em cada município. E sistemas sofisticados de previsão de eventos. Não há alternativa.


Artigo publicado no jornal O Estado de São Paulo (19/12/-2008) e extraído de:




quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

A crise econômica e a luta contra as mudanças climáticas


14/12/2008

Entrevista com Nicholas Stern


Há dois anos, publicou o relatório que mudou a percepção econômica do “global warning” mostrando que ficar parados olhando o crescimento do caos climático custa de cinco a 20 vezes mais do que arregaçar as mangas e colocar em prática a nova economia baseada no uso inteligente da energia. Agora, lord Nicholas Stern, ex-economista-chefe do Banco Mundial que se dedicou à análise do aquecimento global, participou da conferência da ONU em Poznan para medir o pulso da mudança em ação.

A reportagem é de Antonio Cianciullo, publicado no jornal La Repubblica, 12-12-2008. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

O senhor lançou uma advertência de tons claros. Mas alguns governos, dentre os quais o italiano, não crêem no alarme: consideram que os investimentos em eficiência e em fontes renováveis devem ser concedidos no momento em que a crise econômica se resolva.

“A pressão italiano para o reenvio fez a Europa correr um risco considerável”, responde Stern, “ameaçando destruir o processo que pode levar ao sucesso da cúpula de Copenhagen, isto é, à definição de uma via que comprometa a União Européia, os Estados Unidos e os países emergentes. Foi uma grave responsabilidade sobre o mundo e também sobre os cidadãos italianos: a região meridional da Itália está entre as áreas mais expostas à ameaça climática. Até o final do século, poderia se transformar em uma paisagem semelhante ao Saara. Mas a reestruturação da economia baseada na energia solar traria muitas vantagens à Itália”.

A desertificação maciça do sul da Itália pressupõe um nível de aquecimento que pende sobre os 6 graus: é a mais pessimista das hipóteses da IPCC, a força-tarefa dos cientistas da ONU sobre o clima.

Seguindo o modelo de negócio “as usual”, isto é, bloqueando as intervenções de correção, as probabilidade de se chegar a um aquecimento de 5 graus são de 50%. Para fazer descer aos 3%, deve-se reduzir pela metade as emissões de gases poluentes em nível global, o que quer dizer que os países de industrialização madura, aqueles que começaram antes, devem chegar aos 80%.Exatamente o objetivo que o Parlamento da Inglaterra adotou votando a primeira lei sobre clima do mundo.

Mas um empreendimento do gênero é compatível com a saúde das nossas economias, enfraquecidas pela crise?

Colocar em competição ambiente e clima é absurdo. A crise econômica representa uma razão a mais, não uma a menos, para nos comprometermos com a luta contra as mudanças climáticas. Devemos dar novamente a partida no motor da produção, devemos criar postos de trabalho, devemos dar-nos um grande objetivo capaz de mobilizar recursos e inteligências. E esse objetivo está diante de nós, ao alcance das nossas mãos. Estamos na aurora de uma revolução tecnológica de porte epocal que daria, por si mesma, resultados positivos em termos de reestruturação econômica e bem-estar difundido. Hoje, esse salto se tornou urgente e indispensável pela necessidade de salvaguardar as condições de base, sem as quais nenhuma economia é possível.

Há algo que o senhor reveria em seu relatório à luz do que ocorreu nos últimos dois anos e da crise econômica de hoje?

Do ponto de vista ambiental, a situação de hoje parece mais grave com relação a dois anos atrás. E, portanto, o 1% do PIB que era colocado no balanço para a promoção do sistema baseado sobre as energias limpas deve-se ligeiramente corrigido, colocando o percentual sobre 2%. Quanto à crise econômica que estamos atravessando, provavelmente mais grave do que a de 1929, posso dizer que nos oferece um grande ensinamento: todo atraso na compreensão dos problemas, todo atraso na resposta é pago com um preço alto.

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Tompkins, o ambientalista latifundiário e antiliberal

Por:Humberto Saccomandi, de Rincón del Socorro, Argentina

24/11/2008

Em Rincón del Socorro, uma estância na Província argentina de Corrientes, a paisagem é absolutamente plana e o horizonte parece não ter fim. A longa e poeirenta estrada de terra converge para o infinito. Apesar dessa amplitude, até onde a vista alcança a terra pertence a uma pessoa, o americano Douglas Tompkins. Mas lá não há plantações e quase não há gado, como nas estâncias vizinhas. Sobram pássaros, capivaras e jacarés, comuns nessa região, os Esteros del Iberá, uma versão argentina do pantanal brasileiro.

Tompkins, de 65 anos, é um dos maiores proprietários de terras do mundo. Empresas e fundações dele e de sua mulher, Kristine, possuem cerca de 830 mil hectares na Argentina e no Chile (o número é uma estimativa). Mas seu objetivo é diametralmente oposto ao de grandes latifundiários, como os reis da soja brasileiros. Ex-empresário do setor de moda, Tompkins vendeu sua empresa nos EUA para se tornar um ícone do ambientalismo, comprando terras para promover a conservação da paisagem e da biodiversidade.

Para isso, ele disse já ter gasto US$ 370 milhões de sua fortuna. E espera gastar outro tanto até o fim da vida. "Mas isso vai depender de quanto eu vou viver", brincou Tompkins em entrevista ao Valor em sua casa, em Rincón del Socorro, parte dos 135 mil hectares que possui nos Esteros del Iberá.

A maior parte de suas terras é área de conservação natural, onde não há nenhum tipo de atividade econômica, a não ser visitação turística. É o caso do imenso Parque Pumalín, com seus quase 300 mil hectares no sul do Chile. Ele divide o país ao meio, pois ocupa uma área que vai da costa do Pacífico até a fronteira com a Argentina (veja mapa). Mas Tompkins tem também fazendas com criação de gado e plantações, cujos objetivos são, segundo ele, dar dinheiro e fornecer um modelo de produção ambientalmente sustentável. "Somos bons fazendeiros."

Olhando pelo seu ponto de vista atual, o da conservação quase sem concessões, Tompkins passou por uma espécie de conversão, já que hoje renega a atividade com a qual fez fortuna. Ele fundou nos anos 60 duas grifes de muito sucesso nos EUA: a The North Face, que logo vendeu para criar a Esprit.

"Comecei a me dar conta do negócio em que atuava, que era produzir coisas de que ninguém necessitava. Na verdade, o que fazíamos era produzir o desejo nas pessoas de comprá-las, por meio de propaganda, construção de imagem e marketing. E constantemente fornecer algo novo", disse.

Essa crise existencial coincidiu com um interesse maior pelo ambiente. "Eu retornava a lugares e via vários tipos de desenvolvimento, como projetos florestais, estradas, prédios, represas. Projetos humanos tinham avançado sobre a paisagem, deformando-a. Tentei entender, de modo sistemático, quais eram as forças que estavam por trás dessa marcha implacável do progresso e do desenvolvimento, como chegamos ao ponto de achar que é bom derrubar florestas e eliminar biomas, alterando seriamente paisagens e ecossistemas." Sua conclusão foi que "isso era uma crise de civilização".

Essa conversão foi um processo longo, explica. O ativismo ambiental conviveu anos com a atividade empresarial, até 1990. "Então simplesmente me livrei dos meus negócios. E usei a receita aferida para criar fundações sem fins lucrativos, cujo objetivo é parar a demolição da paisagem por essa civilização perturbada. Coloquei-me do lado de Davi contra Golias."

Sua primeira fundação foi a Deep Ecology Foundation, inspirada no conceito de ecologia profunda, do filósofo norueguês Arne Naess, que coloca o ser humano em pé de igualdade com outras espécies como parte integrante (e não acima) do ambiente e que se opõe a um uso utilitarista da natureza pelo homem. Essa fundação financia estudos e publica livros. Em seguida, Tompkins criou a The Conservation Land Trust, por meio da qual passou a comprar terras para conservação, inicialmente no Chile e depois na Argentina. A Conservacion Patagonica foi criada em 2000, por Kristine, para projetos específicos de conservação na Patagônia argentina.

Hoje, o casal mora parte do ano na Argentina e parte no Chile. Nos dois lugares, Tompkins comprou brigas pelo ativismo conservacionista. No Chile, ele se opõe à construção de hidrelétricas, que ajudariam a minimizar o problema da escassez de energia no país, e de estradas na região de seu parque. Na Argentina, denunciou à Justiça fazendas vizinhas que retiravam, sem autorização, água do pantanal para irrigar plantações. Isso levantou suspeitas e críticas. Ele foi acusado, entre outras coisas, de ser agente da CIA e de querer se apoderar do aqüífero Guarani. Na estrada que leva à sua estância, há pichações "Tompkins pirata".

"Há oposição em todo lugar, não há dúvida. O mundo da produção e o da conservação são antagonistas, por natureza. É assim no mundo inteiro, pois o uso da terra é uma questão política."

A estância Rincón del Socorro, onde ele mora, foi quase totalmente convertida de rancho de gado para a conservação (há também uma pequena pousada). Parte das terras fica dentro da reserva natural do Iberá. O vilarejo mais próximo, que antes dependia da produção, agora vive de turismo e das atividades de conservação, como o monitoramento ambiental da área, em boa parte financiadas por Tompkins. "A conservação da biodiversidade sempre foi uma questão central na minha visão de mundo. Ao final, é a saúde do ecossistema que sustenta tudo", disse.

Para ele, a visão utilitarista segundo a qual o homem pode fazer o que bem entender com a natureza, é uma característica do que ele chama de sociedade tecnológico-industrial, que se desenvolveu no Ocidente rico e se alastrou. "Essa obsessão pela produção e pelo consumo é, na realidade, uma conversão da natureza em produtos humanos. Isso é claramente uma coisa errada, é a grande ilusão da modernidade", diz. "Essa sociedade acha que pode ignorar a natureza, que seria apenas um vasto armazém de recursos à nossa disposição, e que podemos mudar a paisagem do modo que quisermos e não haverá conseqüências."

Nessa hora lhe vem em mente o Brasil. "Você vê aquelas imensas plantações de soja no Brasil e se pergunta: que tipo de vida selvagem vai sobreviver lá? Nenhuma. Mas isso nem é percebido como um problema." Mas os produtores brasileiros podem respirar aliviados. Tompkins diz que nunca cogitou comprar terras no Brasil e que não tem planos para isso. "Vocês no Brasil têm um imenso reservatório de espécies, e provavelmente estamos extinguindo espécies que ainda não foram descobertas. Deveríamos nos envergonhar."


O Chile o atraiu por conta da paisagem, com montanhas, neve, vales e o mar, tudo muito perto, além da segurança jurídica oferecida pelo país no início dos anos 90. Já a maior parte das terras na Argentina foi comprada durante a crise econômica no país, no início desta década. Nesse caso, Tompkins se disse atraído por um ecossistema muito particular, os Esteros del Iberá, que estavam em situação ruim de degradação. "Gosto de comprar as coisas em mal estado e recuperá-las."

Tompkins esclarece alguns princípios de sua atuação. Ele não compra pequenas propriedades para juntá-las, pois nesse caso teria de remover muita gente, em geral gente pobre. Ele mantém seu dinheiro em fundos em euro, mas não permite investimentos numa série de empresas, como de armas, biotecnologia e combustíveis (inclusive etanol). Ele e suas fundações não financiam partidos nem políticos. "Queremos estar bem com todos, o que não é fácil." Ele cita a boa colaboração com o governo do ex-presidente socialista Ricardo Lagos, no Chile, e com o ex-presidente argentino Néstor Kirchner, nesse caso para a criação de um parque nacional na Província natal de Kirchner.

Milionário, ele diz que não tem ambições patrimonialistas e que seu modelo preferido é, sempre que possível, recuperar o ecossistema e devolver a terra ao país, por meio da criação de parques nacionais. Nesse caso, ele faz uma doação ao governo, condicionada à manutenção do parque. "Se tentarem dar um outro uso, retomamos a terra." Essas doações já foram feitas na Argentina e no Chile.


O ponto central da atuação de Tompkins é que a paisagem deve ser o principal "marcador", sinalizador, da economia, e não a produção. Assim, um modelo que estimula, por exemplo, uma agricultura intensiva baseada na monocultura, que resulta em profundas modificações na paisagem e no seu ecossistema, não é um modelo saudável, ainda que em termos de produção seja mais eficiente. "Isso significa passar de um mundo antropocêntrico para um mundo ecocêntrico. Essas duas visões de mundo estão em disputa, e uma delas é muito perigosa."

"Obviamente isso é muito diferente do que dizem os economistas e políticos 'integrados', cuja visão e gestão nos levaram à crise das extinção [de espécies], da redução da biodiversidade e, é claro, da mudança climática, que é a expressão pura do modelo econômico neoliberal." Modelo, ele alfineta, que é promovido pelos jornais econômicos. "Todas as pessoas que têm poder, prestígio e privilégio são ligadas a esse modelo, se beneficiam dele, e não querem ver nada diferente." E, no que ele qualifica de realidade única, "o desenvolvimento, o progresso e o crescimento econômico são dogmas".

Tompkins é cético quanto à maioria dos programas de sustentabilidade promovido por empresas. "Isso em geral é bobagem, é só marketing. O máximo que podemos falar é de menos insustentabilidade." Também é crítico de boa parte do movimento ambientalista pelas excessivas concessões.

Para ele, não é possível conciliar sustentabilidade com transformações profundas na natureza, inerentes ao padrão de produção e consumo atual, e que geram efeitos imprevisíveis. "Temos de pensar no sistema como um todo. É um sistema muito complexo e não deveríamos ter a arrogância da ciência ocidental que crê que tudo é compreensível. Em última análise, não é. E não é bom pensar que vamos entender, pois isso é um modo de nos isolarmos da enorme complexidade do mundo. Há esferas que não conhecemos. Toda vez que se lança no ambiente uma nova tecnologia, como os telefones celulares, abre-se um vasto buraco negro de ignorância. Não sabemos quais os efeitos de todas essas microondas. Suspeita-se agora que elas estão confundindo os sinais de reprodução dos sapos. E se os sapos não se reproduzem, estamos perdendo sapos por toda a parte. Bem, um financista em Nova York ou Paris pode dizer: ´Para que precisamos de sapos?´. Isso só demonstra o quão estúpido ele é. Os sapos são peças-chave para ciclos que são importantes para outras coisas, pois tudo está interconectado. As variáveis são tantas que nenhum modelo de computador pode predizer quais são as implicações. Só podemos saber que haverá problemas não previstos em cascata nos ecossistemas."

Pergunto a Tompkins: como fazer para vencer o incentivo econômico que é o fato de que as pessoas, a sociedade, o país ficam mais ricos no curto prazo derrubando florestas para plantar soja? "Sua questão é típica, pois vai direto para a estratégia. Sabemos que as pessoas ficam mais ricas no curto prazo, que essa é a força motora. Como se muda isso? Não sei, prefiro deixar para o futuro. Mas sei que, se mais pessoas pensarem como eu penso, políticas diferentes começarão a ser elaboradas. Haverá uma preocupação com o futuro. Não pensamos no curto, mas no longo prazo, bem além das nossas vidas. É uma posição religiosa, moral, se você quiser. Vai além do você ganha ou perde hoje. Você precisa acordar pela manhã preocupado com o futuro do mundo. Se você assume essa posição, então pode liberar a sua mente para poder ver o que estamos de fato fazendo."

Tompkins admite que as desigualdades no mundo constituem um obstáculo, mas não justificam continuar a marcha de destruição da natureza. "Vamos olhar pelo outro lado: se não for possível [reduzir a degradação ambiental], podemos dar adeus ao mundo." Observo que quem não tem o que comer dará adeus ao mundo antes. "Se partirmos da idéia de que não há futuro, então tanto faz dar adeus mais cedo ou mais tarde." E argumenta que o modelo de produção intensiva, além de degradar o ambiente, não favorece a distribuição de renda, pelo contrário.

Tompkins não fornece uma estratégia clara de saída, mas a sua atuação indica para onde ele gostaria de ir. A sua produção agrícola sustentável implica pequena escala, com variedade de culturas e pouco ou nenhum uso de fertilizantes químicos e agrotóxicos. Isso reduziria a produção e elevaria o preço dos alimentos. Haveria assim menos excedente para gastar com consumo de outros bens e serviços, o que, por sua vez, diminuiria a pressão sobre outros recursos e sobre o ambiente. O mundo seria materialmente mais pobre.

Ele diz que que as pessoas nos países ricos gastam de 5% a 10% de sua renda, em média, com alimentação. "Deveria ser muito mais, algo como 25% a 30%." Essa redução, para que as pessoas tivessem um excedente para gastar com carros, viagens e universidades caras, só foi conseguida por meio da produção agrícola intensiva, com forte dano ambiental. Ele vê nisso um antagonismo entre o campo e a cidade. "A população urbana vive de sugar os recursos do campo, mas não tem a menor idéia do que se passa lá, do tsunami ambiental que está chegando."

A entrevista está acabando e pergunto a Tompkins se ele não se sente às vezes vivendo numa ilha da fantasia, tanto pela paisagem que se vê de sua janela como pelas suas idéias. "Toda revolução começa com um primeiro passo. Não sabemos onde estamos na história. Vamos descobrir isso depois. Ao final, todos buscam fazer o melhor que podem, sob as condições e as perspectivas que têm. O que mais você pode fazer? Sabemos que estamos lutando contra as tremendas forças motoras da economia e seus fatores políticos. Mas qual é a alternativa? Aderir a isso? Isso está arruinando o futuro. Você tem de trabalhar no que acredita, e acredito que o que fazemos é melhor para o presente e para o futuro. É por isso que acordamos todas as manhãs, mesmo sem ilusões e sem grandes esperanças diante das tremendas forças da sociedade tecnológico-industrial. Sem encontrar um sentido no trabalho diário, a vida não vale a pena."


Fonte: VALOR ONLINE

O mundo não agüenta essa pantomima

"Encarregados de produzir um plano para cortar emissões de carbono, os governos produziram muito pouco além de bravatas", escreve Kevin Watkins, pesquisador sênior do Programa de Governança Econômica Global da Universidade de Oxford (Inglaterra), comentando a reunião de Poznan, em artigo publicado pelo jornal Folha de S. Paulo, 16-12-2008. Segundo ele, "nos últimos meses, os governos dos países ricos moveram montanhas financeiras para proteger a integridade de seus sistemas bancários. Qual é o preço da integridade ecológica do planeta, do bem-estar das gerações futuras e do compromisso com os pobres do mundo?"

Eis o artigo.

As negociações cruciais sobre mudança climática em Poznan, Polônia, caminharam para lugar nenhum. Encarregados de produzir um plano para cortar emissões de carbono, os governos produziram muito pouco além de bravatas, com ministros reciclando promessas vagas de ação futura. Sem dúvida, eles se deitam à noite recitando uma variação da oração de Santo Agostinho: "Ó Senhor, torna-me casto - mas não ainda, e certamente não em Poznan".

Infelizmente, este é um momento do tipo "agora ou nunca". A Conferência de Poznan marcou a metade da trajetória de negociação de uma nova convenção climática das Nações Unidas. Esperava-se que prepararia o terreno para um grande pacto global para enfrentar o maior desafio que a humanidade já viu.

Falando claramente, o desafio em Poznan era estabelecer as coordenadas para evitar uma colisão entre os sistemas de energia que alimentam nossas economias e a biosfera da Terra. Metas ambiciosas devem estar no cerne de qualquer acordo para enfrentar o desafio. Mas também necessitamos de uma nova arquitetura institucional de cooperação entre países ricos e pobres.

Se a tendência no aumento da temperatura continuar, conduzirá a reversões no desenvolvimento humano sem precedentes ainda em nosso tempo de vida, seguidas rapidamente de uma catástrofe ecológica para as gerações futuras. As economias podem se recuperar de uma crise financeira. Mas não há antídoto ou tecla de replay para o aquecimento global.

Em Poznan, os países ricos deveriam ter estabelecido uma intenção séria. Era preciso sinalizar um compromisso obrigatório de reduzir sua pegada de carbono pelo menos em 80% (relativo aos níveis de 1990). Acima de tudo, era e é preciso aproximar as metas de mudança climática e as políticas energéticas.
Os países ricos têm os recursos financeiros e a capacidade tecnológica para fazer uma transição rápida para baixo carbono. Com um aumento do preço da emissão de carbono, por meio de impostos, cotas e normas regulatórias mais duras, podem transmitir um sinal claro para os investidores e estimular a inovação.

As parcerias público-privadas em pesquisa têm um papel-chave no desenvolvimento e na comercialização de novas tecnologias. A captura e o armazenamento de carbono são uma prioridade porque têm o potencial de reduzir as emissões das usinas de energia movidas a carvão, a forma predominante de geração elétrica, a zero. Contudo, nem os EUA nem a UE foram além de investimentos de pequena escala em projetos piloto.

Os países ricos também precisam construir as bases para um novo pacto global com os países em desenvolvimento. Não se trata apenas do fato de esses países abrigarem as populações mais vulneráveis à mudança climática, incluindo 1,6 bilhão de pessoas vivendo com menos de US$ 1 por dia. Eles também respondem por grande parte do aumento projetado de emissões de CO2 até 2030: o crescimento econômico movido a carvão na China e na Índia será responsável por bem mais que a metade do aumento. E o desmatamento em países em desenvolvimento é responsável por cerca de um quinto das emissões.

Em Poznan, os governos tinham a oportunidade de estabelecer três dos pilares para um acordo global. Primeiro, precisamos de um plano de ação para adaptação. Como indicado por Oxfam, para milhões das pessoas mais pobres do mundo, a mudança climática perigosa não é uma ameaça futura: está acontecendo agora.

O Relatório de Desenvolvimento Humano das Nações Unidas estima o custo de combater essa ameaça em US$ 86 bilhões de ajuda adicional, quase um nono do que foi oferecido pelo governo nos EUA para o resgate dos bancos americanos.

Em segundo lugar, os países ricos têm que parar de falar e começar a agir com relação ao desmatamento, um dos caminhos mais custo-efetivos para cortar emissões de gás de efeito estufa.

Em terceiro lugar, o mundo precisa de um Plano Marshall para financiamento de baixo carbono e transferência de tecnologia. Um elemento desse plano deverá ser a expansão de oportunidades de comercialização de emissões para países em desenvolvimento. Mas os países ricos também têm que implementar mecanismos multilaterais mais amplos para sistemas de descarbonização da energia.

O mundo não agüenta o tipo de exibição desorganizada que foi encenada em Poznan. Nos últimos meses, os governos dos países ricos moveram montanhas financeiras para proteger a integridade de seus sistemas bancários. Qual é o preço da integridade ecológica do planeta, do bem-estar das gerações futuras e do compromisso com os pobres do mundo?

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

Algumas reflexões sobre o ambientalismo atual


Por: Henrique Cortez

(coordenador do EcoDebate)



"Se realmente acreditamos no desenvolvimento sustentável, se apoiamos e defendemos um outro modelo de desenvolvimento, então devemos nos preparar em enfrentar restrições, limites e o condicionamento de nossos interesses individuais aos interesses de toda a sociedade, nacional e planetária.


Caso contrário, continuaremos meramente discursivos. Ou, dizendo de outra forma, seremos tão hipócritas quanto os políticos que elegemos
…"

(Henrique Cortez)



Já sabemos que o planeta passa por uma grave crise sócio-ambiental, mas nem sempre é claro que o ambientalismo também se debate com diversas questões conceituais, éticas e pragmáticas.

Desde a Conferencia de Estocolmo, em 1972 (leiam a Declaração de Estocolmo sobre o Meio Ambiente Humano em http://www.dhnet.org.br/direitos/sip/onu/doc/estoc72.htm ), inúmeras transformações sociais e econômicas, com destaque à globalização, também afetaram os militantes ambientais.

No Brasil atual, vivemos um momento estranho e, em certos momentos, esquizofrênico. Talvez porque existam muitas questões em aberto e com inúmeras respostas possíveis. Afinal, não existem soluções simples para temas complexos.

Não tenho a pretensão de ter as respostas e, pessoalmente, não creio que alguém tenha, mas acho que devo colocar em debate algumas destas questões, para que possamos refletir, discutir, questionar e, se possível, encontrar as melhores alternativas possíveis. Colocado o desafio, vamos lá…

• O ambientalismo é um movimento social? Se for, por que não consegue integrar-se na agenda comum dos demais movimentos sociais e populares?

É evidente que é um movimento social, mas creio que herdamos um equivoco de origem a partir do ambientalismo europeu, muito próximo dos movimentos pacifistas, mas sem ligação com as questões de cidadania.

A Europa já não precisa discutir os temas essenciais de cidadania, tão presentes nos paises em desenvolvimento. Precisamos nos preocupar com exclusão social e econômica; educação; saúde; emprego/renda; trabalho escravo/degradante; desenvolvimentismo predatório; direitos indígenas; quilombolas; populações tradicionais; reforma agrária, etc.

Raras ONGs ambientalistas conseguem traçar uma agenda comum com os agentes sociais e os movimentos populares como a CPT, o MST, o MAB, as organizações de defesa dos direitos humanos, dos indígenas, dos quilombolas.

Reafirmo que isto pode ter sentido na Europa, mas no caso do Brasil e demais paises em desenvolvimento isto é ilógico.

Felizmente a imensa maioria dos militantes ambientais já superou a fase inicial do movimento, baseado na defesa “das plantinhas e bichinhos”, mas acredito que precisamos dar um passo além de nossos companheiros europeus, que não precisam e não querem questionar o modelo de desenvolvimento de seus países.

No Brasil e nos demais países em desenvolvimento, adotamos um modelo de desenvolvimento socialmente injusto, economicamente excludente e ambientalmente irresponsável e este é o grande tema que nos aproxima de todos os demais movimentos sociais. Pelo menos deveria nos aproximar.

Se não questionarmos o modelo de desenvolvimento, ficaremos presos a temas meramente acessórios, em um ambientalismo de butique que não vai muito além de discutir as sacolinhas de supermercado ou fazer a separação do lixo reciclável.

Também não podemos deixar de lado o atual padrão de consumo, que é evidentemente insustentável. Consumo sustentável supõe grandes mudanças culturais, com significativos impactos sociais e econômicos.

Sugiro uma visita ao Relógio da Terra (http://blog.ecodebate.com.br/relogio-da-terra/ ) para uma compreensão do atual “andar da carruagem” do planeta.

Ainda sobre sustentabilidade de consumo, um exemplo simples, mas significativo, está na produção de automóveis. Uma agenda eficaz de combate ao aquecimento global exigiria que atual frota mundial de 800 milhões de automóveis fosse, no mínimo, reduzida à metade.

Mas isto traria um grande impacto econômico, com a redução da capacidade de produção da industria automotiva, e impactos sociais, com a redução de dezenas de milhares de empregos e uma grande redução na arrecadação de impostos.

Assim, evitamos o tema, simplesmente propondo automóveis mais eficientes, menos poluentes, com combustíveis “verdes” (se é que isto realmente existe). Enquanto isto, em 2007, serão produzidos mais de 25 milhões de automóveis.

Defendemos os agro-combustíveis de forma veemente, mas não questionamos o modelo oligarca de produção, a exploração de mão-de-obra e o aumento da fronteira agrícola. Em nenhuma hipótese os fins justificam os meios e com os agrocombustíveis não pode ser diferente.

Uma agenda ambiental, minimamente coerente, resultará em impactos sociais e econômicos em escala global. Se não compreendermos isto, continuaremos tratando câncer com aspirina. Ou pouco mais que isto.

Estas questões sem resposta são fortes argumentos para que nos aproximemos dos movimentos sociais e populares, que questionam e lutam contra estas seqüelas do modelo de desenvolvimento e de consumo.

A única diferença é que eles estão tratando dos temas e agindo em escala local e o ambientalismo deve agir em escala global porque a crise ambiental não reconhece fronteiras.

Reafirmo que não tenho as respostas, mas também reafirmo a minha convicção pessoal de que precisamos de uma ampla reflexão, de uma severa autocrítica no que fazemos ou propomos e de humildade para nos integrarmos aos demais movimentos sociais, companheiros de jornada por um outro mundo possível.

Ou, então, assumimos um mero e decorativo ambientalismo fashion, fazendo de conta que é o suficiente.


Ecologia do medo e epistemologia da catástrofe




Por: Henrique Carneiro

Os três últimos livros de um dos mais importantes marxistas norte-americanos, o urbanista e historiador Mike Davis, traduzidos recentemente no Brasil (Cidades mortas, Record, 2007; O monstro bate à nossa porta: A ameaça global da gripe aviária, Record, 2006; e Planeta favela, Boitempo, 2006), assim como a publicação de um novo, Apologia dos bárbaros: Ensaios contra o império, a sair neste ano também pela Boitempo (com apresentação de Paulo Daniel Farah), mais a reedição prometida para 2008, pela mesma editora, de Cidade de quartzo, são expressões de análises lúcidas e precisas das condições sociais e ambientais que nos esperam no futuro das próximas décadas.

Davis, membro da revista New Left Review, que lecionou planejamento urbano no Instituto de Arquitetura do Sul da Califórnia, e atualmente é professor de História na Universidade da Califórnia, em Irvine, vem tratando nessas notáveis obras de uma análise crítica das condições urbanas contemporâneas. Em Cidade de quartzo (Scritta, 1993), contou a história de Los Angeles, metrópole pósmoderna por excelência, nascida do nada, no deserto, para tornar-se uma cidade para automóveis, espalhada como a mais extensa mancha urbana do mundo. Em Holocaustos coloniais (Record, 2002), analisou as ondas de fome do século 19 e suas relações com o clima, o mercado mundial e as expansões dos impérios europeus na Ásia e África. Em O monstro bate à nossa porta (Record, 2006) e Planeta favela (Boitempo, 2006), se debruçou sobre dois dos mais terríveis cavaleiros do apocalipse: a pobreza e a peste.

É difícil não sentir um arrepio apocalíptico diante dos cenários catastróficos que se combinam: explosão de hiper-urbanização favelizada em megacidades, aquecimento global e pandemia. A fome, a doença, a guerra e a pobreza potencializam-se num complexo espantoso de desastres e tragédias anunciadas.

Ler Mike Davis é uma tarefa indispensável, mas extremamente sombria. O futuro que nos espera será terrível. Um “futuro exaurido”, em que bilhões de seres humanos vão viver amontoados nas maiores cidades que já existiram em um planeta no qual o aquecimento global, a poluição, o extermínio da biodiversidade e demais processos de decadência do século 21 serão anunciados na forma de ondas de calor, incêndios, inundações, pandemias, além, é claro, da violência e da guerra onipresentes.

Um profeta do apocalipse, dir-se-á. E não é para menos, pois como este crítico implacável do capitalismo e do imperialismo analisa em suas muitas obras, “tempos estranhos começam”.

Na turbulência do movimento juvenil dos anos 1960 na Califórnia, Mike Davis, nascido em 1946, tornou-se um jovem ativista da Students for a Democratic Society, a principal organização de política estudantil contestadora, e começou sua trajetória como um dos críticos mais radicais das condições da sociedade contemporânea. Mas, diferentemente da maioria dos jovens rebeldes brancos, que eram de classes médias e abastadas, Mike Davis foi aprendiz de açougueiro e caminhoneiro, antes de tornar-se um professor de planejamento urbano no Instituto de Arquitetura do Sul da Califórnia.

Sua obra já vasta começou com a análise de Los Angeles como a cidade síntese da civilização do automóvel, da especulação imobiliária, da mercantilização da água, da indústria armamentista, do entretenimento e da alta tecnologia, cujo presídio high tech em pleno centro da cidade num edifício de vidro e aço é um símbolo mais significativo que o letreiro de Hollywood. Mais tarde, abordou o fenômeno da cidade contemporânea, em que as megalópoles tornam-se pela primeira vez na história da humanidade o lugar de moradia da maioria da população e a área rural uma zona despovoada em todo o planeta. Essa expansão caótica é um sintoma mais profundo de uma ruptura da civilização humana com a sua interdependência da natureza.



O ponto de convergência da crítica de Davis é a noção de cidade, originalmente vista como um refúgio diante dos perigos da natureza selvagem e que se tornou hoje em dia o centro de todos os pavores e inquietações. A “ecologia do medo” visa compreender como a vida urbana tornou-se tão monstruosa. E não é para menos, já que diante do apocalipse anunciado é preciso cada vez mais pensar uma “epistemologia neocatastrofista para reinterpretar a história ocidental”.

Na tradição do pensamento marxista, a análise das condições habitacionais dos pobres das cidades inglesas foi o ponto de partida de Friedrich Engels, em A condição da classe trabalhadora na Inglaterra (1845). Nos dias de hoje, essa tradição crítica do marxismo em relação à crise urbana refloresce na obra de Mike Davis. Sua perspectiva ambiciosa aponta para a necessidade de uma “ciência urbana realmente unificada”, a qual ainda mal podemos vislumbrar, mas que deveria tentar compreender a dialética entre a “cidade e a natureza”.

A conexão da crítica ao crescente caos urbano com a denúncia da escala gigantesca do ecocídio que está em curso, aliada a uma arguta análise da política interna norte-americana, assim como das relações internacionais, leva Davis a mostrar como a catástrofe da natureza não se separa das condições da exploração capitalista e da dominação imperialista mundial, cujo fundamento é uma doutrina de terror militar.

Para isso, uma boa data a ser lembrada é 10 de março de 1945. O dia do maior morticínio que a humanidade já conheceu no “mais devastador ataque aéreo na história mundial”, quando duas mil toneladas de napalm e magnésio incineraram cerca de um milhão de habitantes de Tóquio.

Esse foi o coroamento (seguido, é claro, alguns meses depois, das bombas atômicas) de uma doutrina militar nascida na GrãBretanha, na década de 1920, quando Churchill era o secretário da guerra. Essa “doutrina Churchill” é a do “bombardeio moral”, ou seja, do terror aéreo contra populações civis. Ele começou a ser praticado no Iraque em 1920, quando a RAF (Royal Air Force) usou, além de bombas, gás mostarda. As populações coloniais foram as cobaias para o aperfeiçoamento do bombardeio terrorista contra civis, “a trajetória até Guernica, Varsóvia, Dresden e Hiroshima começou nas margens do Tigre e nas encostas do Atlas”.

O modelo da guerra pós-moderna, além da supremacia absoluta do poderio bélico e dos bombardeios com “armas inteligentes”, enfrentará a resistência na forma não de exércitos convencionais, mas de milícias travando “operações militares em territórios urbanos”. A insurgência do século 21 também terá como cenário as cidades. A “israelização” das táticas de combate “assimétrico” às milícias insurgentes se aplicará não só ao Iraque ou à Palestina, mas a qualquer rebelião potencial do futuro, com a visão panóptica dos satélites e aviões espiões, com armas eletromagnéticas e de microondas, além das já tradicionais armas nucleares, químicas e biológicas de destruição em massa. Esse cenário sombrio é definido por Mike Davis como “o estado de terror puro e simples: uma Assíria do século 21 com laptops e modems”.

Henrique Carneiro é professor do Departamento de História da USP.

Artigo enviado por Myron Régis, colaborador e articulista do EcoDebate e originalmente publicado pela Revista Cult






segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

Debate sobre clima recomeça alterado por Obama e crise




O encontro é o início da negociação do regime de combate ao aquecimento global que sucederá o Protocolo de Kyoto, válido até 2012. Como pano de fundo, há uma crise global que deverá encarecer as medidas para reduzir a emissão de gases do efeito estufa. Por outro lado, os Estados Unidos -país que não ratificou o tratado de Kyoto e vinha sendo o principal entrave diplomático no debate- sinalizam com mudanças, após o presidente eleito Barrack Obama tomar posse.
A notícia é do jornal Folha de S. Paulo, 01-12-2008.
"A América está de volta", afirma o senador democrata John Kerry, que deve participar do encontro de Poznan como um dos observadores que produzirão um relatório para Obama. "Após oito anos de obstrução, atraso e negação, os EUA voltam a se juntar à comunidade mundial para lidar com esse desafio global."
A idéia em Poznam é lançar as bases para concluir o novo acordo do clima no fim de 2009, num encontro em Copenhague (Dinamarca).
Os entraves econômicos para a negociação, porém, não serão poucos. Um relatório do Secretariado da ONU para Mudança Climática feito no ano passado estimou que o custo de cortar em um quarto as emissões de gases estufa até 2030 seria de US$ 200 bilhões por ano. O documento foi revisto recentemente -após a crise financeira global- e o preço foi reajustado para um valor 170% maior.
A crise já está atrapalhando debates internos na União Européia. Países que dependem muito do carvão como fonte de energia, como Polônia e Itália, já pressionam a UE para mudar alguns pontos de seu plano de metas até 2020, que seria deixar as emissões do bloco 20% menores do que eram em 1990.
A economia também pode se tornar um fator adicional na pressão sobre países em desenvolvimento que ficaram desobrigados de assumir metas de redução de emissões no Protocolo de Kyoto. O discurso de resposta de nações como a China, porém, será pedir mais dinheiro. O governo chinês defende que os países ricas concedam às pobres uma ajuda financeira que represente 0,7% de seu produto interno bruto.Espera-se que cerca de 9.000 pessoas participem do encontro de Poznan, entre integrantes de governos, pesquisadores, industriais e representantes de ONGs ambientais. As sessões da conferência com integrantes de alto escalão dos governos estão marcadas para os dias 11 e 12. Até 150 ministros de meio ambiente devem comparecer.






quarta-feira, 12 de novembro de 2008

As próximas crises


Por: Rogério Grassetto Teixeira da Cunha



Embora a crise econômico-financeira atual motive preocupação, principalmente em relação às conseqüências para os mais pobres, preocupo-me muito mais com turbulências de outra natureza, que só tendem a aumentar e terão impacto muito mais profundo. Isso porque estou convicto de que as crises ocasionadas pela reação da natureza aos nossos despautérios ambientais (embora negligenciadas pela maioria da mídia e da sociedade) aumentarão muito em freqüência, serão muito piores e terão efeitos mais duradouros que aquelas geradas pela criatividade burra de engravatados milionários.

Ao focarmos nossa atenção apenas nos aspectos econômicos da crise atual, estamos perdendo uma importante chance de discutir com coragem as bases insustentáveis da economia global. Ou seja, o modelo que se baseia no crescimento eterno e funciona no formato de um fluxo linear, que começa na extração de recursos naturais e termina na disposição de lixo. Mas não. O principal tema que domina as discussões é o temor da recessão, da queda no consumo, vendidas como monstros terríveis. Na verdade elas são, sim, monstros, mas apenas se aceitarmos este modelo. Por isto que é preciso analisá-lo e criticá-lo a partir de uma perspectiva externa, para fugir das amarras que ele nos impõe e mostrar suas incongruências.

Por exemplo, essa falsa necessidade de que é preciso crescer, crescer sempre, crescer a qualquer custo. Mas a economia não existe como algo que paira suspenso no vácuo (embora alguns financistas tenham lucrado muito vendendo esta idéia, antes que a bomba estourasse no colo de todos). Ela precisa de dois elementos básicos, além do trabalho humano: matéria-prima e energia. Como o suprimento destes é finito, simplesmente não há recursos naturais suficientes para sustentar um crescimento constante da economia. Aliás, não há recursos suficientes nem mesmo para sustentar por muito tempo a taxa atual de consumo de recursos naturais, ainda que as economias permanecessem com o tamanho atual, sem crescimento algum. É até assustador, de tão simples e óbvio. Não há pirotecnia de argumentos tecnicistas que possam contradizer esta realidade inquestionável. Até uma criança pode entender isto facilmente (às vezes elas entendem melhor do que muitos adultos nas principais cadeiras das maiores universidades). Experimente. Dê a ela uma pilha de qualquer coisa, feijões, bolinhas, botões (que seriam os recursos naturais não renováveis) e proponha um jogo: “olha, toda vez que você quiser brincar ou ganhar um doce (os objetos de consumo), você tem que jogar no lixo um item”. A criança trocará seus itens até que acabem, e só então irá abalar-se de verdade. Mas daí perceberá que os recursos finitos são justamente isso, finitos e, uma vez terminados, adeus consumo.

Diversos cálculos já foram feitos mostrando que o planeta não conseguirá suprir recursos naturais suficientes para sustentarmos taxas até mesmo modestas de crescimento até o fim deste século. Outros cálculos comparam a quantidade de recursos que consumimos a cada ano com aquela que o planeta é capaz de repor no mesmo período. Estas estimativas mostram que, a partir de meados dos anos 1980, passamos a gastar mais recursos naturais do que o planeta pode repor. Com isto, criamos um débito do futuro. Os responsáveis pela idéia usam uma metáfora, pela qual vão somando o consumo diário de recursos desde o dia primeiro de janeiro. Na data em que o uso acumulado iguala a quantidade que o planeta é capaz de repor ao longo do ano inteiro, chega-se ao limite que poderíamos ter consumido naquele ano. A partir daí, passamos a avançar nos recursos do futuro. E esta data tem chegado mais cedo a cada ano.

Ou seja, não estamos nem pagando e nem estacionando a nossa dívida, mas aumentando-a continuamente. Pior ainda, a própria quantia que descontamos a cada ano de nosso futuro também vem aumentando. É como se estivéssemos na mão de um agiota muito cruel, nós mesmos. Por isso que, ainda que toda a economia do planeta parasse subitamente de crescer e ficássemos estacionados no volume atual, mesmo assim, a Terra não agüentaria por muito tempo.

Qual a solução então? Bem, em primeiro lugar, seria necessário que houvesse sim uma estagnação do crescimento e uma recessão por algum tempo, até que as economias chegassem a um nível de consumo de recursos que fosse inferior à capacidade de reposição do planeta. “Ah, mas recessão gera desemprego e pobreza”, dirão. Sim, é verdade, mas apenas se forem mantidos outros pressupostos e pilares desta estrutura sócio-econômica. Se houvesse distribuição mais eqüitativa da riqueza gerada, o problema seria menor. Mais, se o lucro e a produtividade não fossem os únicos parâmetros a guiar as atividades econômicas, mas sim a função social das mesmas, teríamos mais elementos positivos para combater o desemprego.

Por fim, e mais importante, o problema seria imensamente menor se a estrutura econômica não fosse calcada no consumismo, num sem-número de necessidades fictícias que foram sendo criadas nos últimos séculos e sem as quais convivemos sem grandes crises durante 99,9% do tempo em que estivemos aqui neste planeta.

Reduzindo-se a necessidade de satisfação dos desejos de consumo, reduz-se também a necessidade de dinheiro para adquiri-los, o que casa perfeitamente com uma distribuição mais eqüitativa da riqueza e com o foco voltado para a função social da produção industrial, agrícola e de serviços.

E se você acha a proposta muito radical, é bom lembrar que a crise ambiental já vem apresentando-se aos poucos. É um furacão Catarina aqui, um desastre de Nova Orleans ali, uma abertura do mar do Pólo Norte acolá. Não sabemos ao certo se a catástrofe ambiental virá na forma de uma batida abrupta contra o muro que afetará a todos (ou à maioria) de uma vez só ou se seguirá de forma mais gradual e dispersa, como tem acontecido, intensificando-se aos poucos. Porém, qualquer que seja o processo, logo mais não será questão de escolha, seremos forçados a uma redução drástica no consumo. Dependendo da magnitude da crise, talvez sejamos obrigados até mesmo a mudar para um estágio pré-industrial.

Não defendo agora um retorno ao estilo de vida pré-industrial como solução. Primeiro porque não sei se seria preciso ser tão radical. Segundo porque acho que nunca conseguiremos isto por vontade própria, por mais que fosse interessante do ponto de vista ambiental. Teremos sim (por bem ou por mal) que frear muito o consumismo, reduzir paulatinamente o que achamos ser necessidades (e no geral não são), mudar a nossa relação com o meio ambiente, repensar nosso estilo de vida, aumentar muito a reciclagem e tentarmos ir equilibrando por aí. Aqueles que começarem mais cedo estarão mais preparados e sofrerão menos (física e psicologicamente) com as mudanças que inevitavelmente virão. Bem, há outra opção. A nossa extinção.

Rogério Grassetto Teixeira da Cunha, biólogo, é doutor em Comportamento Animal pela Universidade de Saint Andrews.


Fonte:EcoDebate
(Artigo originalmente publicado no Correio da Cidadania, parceiro estratégico do EcoDebate na socialização da informação socioambiental.)