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terça-feira, 13 de janeiro de 2009

Aqueles que querem comer o mundo: as corporações


A partir do documento do Grupo ETC "De quem é a natureza - O poder corporativo e a fronteira final na mercantilização da vida", Silvia Ribeiro analisa a relação entre a produção e comercialização de alimentos e sementes, a crise econômica e o papel dos movimentos sociais que combatem os oligopólios agroalimentares.

O artigo foi publicado no sítio America Latina en Movimiento, da Agencia Latinoamericana de Información, 29-12-2008. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Imersos em uma enorme crise do capitalismo, mãe de muitas crises convergentes, resgata-se com dinheiro público às maiores empresas privadas do planeta, enquanto os pobres, os famintos e o caos climático seguem aumentando. Segundo o economista mexicano Andrés Barreda, estamos em uma crise de brutal sobreacumulação capitalista: gigantesco vômito daqueles que acreditaram que podiam engolir o mundo, mas não puderam digeri-lo.

Amplamente acunhadas, as crises atuais têm um contexto de concentração crescente do poder corporativo, apropriação de recursos naturais e desregulação ou leis em favor das empresas e especuladores financeiros, que aumentaram sem pausa nas últimas décadas. Em 2003, o valor global de fusões e aquisições foi de 1,3 bilhões de dólares. Em 2007, chegou a 4,48 bilhões de dólares. Na indústria alimentar, o valor das fusões e compras entre empresas duplicou de 2005 a 2007, chegando a 200 bilhões de dólares. O desastre financeiro acabou com algumas empresas, favorecendo oligopólios ainda mais fechados.

O que isso significa para as pessoas comuns? O documento do Grupo ETC, "De quem é a natureza" (disponível em http://www.etcgroup.org/es), oferece uma análise no contexto histórico da concentração corporativa de setores-chave nas últimas três décadas. Desde então, o Grupo ETC seguiu as manobrs de mercado das autodenominadas “indústrias da vida” (biotecnologia em agricultura, alimentação e farmacêutica). No novo informe, agregam-se as empresas atrás da convergência de biotecnologia com nanotecnologia e biologia sintética, que promovem novas gerações de agrocombustíveis e ainda mais: tentam gerar uma economia pós-petroleira baseada no uso de carboidratos e vida artificial.

O setor agroalimentar segue sendo um dos exemplos mais devastadores, por ser um campo essencial: ninguém pode viver sem comer. É, além disso, o maior “mercado” do mundo. Por ambas as razões, as transnacionais se lançaram agressivamente para controlá-lo. Nas últimas três ou quatro décadas, ele deixou de estar altamente descentralizado, fundamentalmente em mãos de pequenos agricultores e mercados locais e nacionais, para ser um dos setores industriais globais com maior concentração corporativa. Para isso, foi necessária uma mudança radical nas formas de produção e comércio de alimentos. Graças aos tratados de “livre” comércio, a agricultura e os alimentos se transformaram cada vez mais em mercadorias de exportação, em um mercado global controlado por duas dezenas de transnacionais.

Segundo um documento da FAO sobre mercados de produtos básicos, no começo da década de 60, os países do Sul global tinham um excedente comercial agrícola próximo dos 700 milhões de dólares anuais. Em fins da década de 80, o excedente havia desaparecido. Hoje, todos os países do Sul são claros importadores de alimentos.

Na década de 60, quase a totalidade das sementes estavam nas mãos de agricultores ou instituições públicas. Hoje, 82% do mercado comercial de sementes estão sob propriedade intelectual, e dez empresas controlam 67% desse campo. Essas grandes sementeiras (Monsanto, Syngenta, DuPont, Bayer etc.) são, em sua maioria, propriedade de fabricantes de agrotóxicos, área em que as dez maiores empresas controlam 89% do mercado global. Que, por sua vez, estão representadas entre as dez maiores empresas em farmacêutica veterinária, que controlam 63% desse campo.

Os 10 maiores processadores de alimentos (Nestlé, PepsiCo, Kraft Foods, Coca-Cola, Unilever, Tyson Foods, Cargill, Mars, ADM, Danone) controlam 26% do mercado, e 100 cadeias de vendas diretas ao consumidor controlam 40% do mercado global. Parece “pouco” em comparação, mas são volumes de venda imensamente maiores. No ano 2002, as vendas globais de sementes e agroquímicos foram de 29 bilhões de dólares, as de processadores de alimentos, 259 bilhões, e as de cadeias de vendas ao consumidor, 501 bilhões. Em 2007, esses três setores aumentaram respectivamente para 49 bilhões, 339 bilhões e 720 bilhões de dólares. Segue sendo o supermercado Wal-Mart a maior empresa do mundo, sendo a número 26 entre as 100 maiores economias do planeta, muito maior do que o produto interno bruto (PIB) de países inteiros como Dinamarca, Portugal, Venezuela ou Singapura.

Das sementes ao supermercado, as transnacionais ditam ou pretendem ditar o que plantar, como comer e onde comprar. Frente às crises, receitam-nos mais do mesmo: mais industrialização, mais produtos químicos, mais transgênicos e outras tecnologias de alto risco, mais livre comércio. Não é estranho, já que todas estão entre os que mais lucraram com o aumento de preços e escassez de alimentos: obtiveram lucros que vão até 108% acima do que em anos anteriores.

A disparidade de rendas individuais no mundo também cresceu. A riqueza acumulada dos 1.125 indivíduos mais ricos do mundo (4,4 bilhões de dólares) é quase equivalente ao PIB do Japão, segunda potência econômica mundial depois dos Estados Unidos. Essa cifra é maior do que os ingressos somados da metade da população adulta do planeta. Cinqüenta administradores de fundos financeiros (hedge funds e equity funds), os grandes especuladores que provocaram a “crise”, ganharam durante 2007 uma média de 588 milhões de dólares, cerca de 19 mil vezes mais do que o trabalhador norte-americano comum e cerca de 50 mil vezes mais do que um trabalhador latino-americano médio. O diretor executivo da financeira Lehman Brothers, agora em bancarrota, embolsou 17 mil dólares por hora durante todo 2007 (dados do Institute for Policy Studies).

Resumindo, uma absurda minoria de empresas e uns quantos multimilionários que possuem suas ações controlam enormes porcentagens das indústrias e dos mercados básicos para a sobrevivência, como alimentação e saúde.

Isso lhes permite uma pesada ingerência sobre as políticas nacionais e internacionais, moldando, à sua conveniência, as regulamentações e os modelos de produção e consumo que se aplicam nos países, que, por sua vez, são causadores das maiores catástrofes alimentares, ambientais e de saúde.

Assim, foi possível avançar a privatização e conversão do sistema agroalimentar há até poucas décadas descentralizado e baseado majoritariamente em sementes de livre acesso, água, terra, sol e trabalho humano, para convertê-lo em uma máquina industrial petrolizada, que exige grandes investimentos, maquinários caros, devastadoras quantidade de agroquímicos (melhor chamados de agrotóxicos) e sementes patenteadas controladas por algumas poucas empresas. Ainda que tenham se produzido maiores quantidades de alguns grãos, isso não solucionou a fome no mundo tal como prometiam, mas sim a aumentou. O saldo de erosão de solos e biodiversidade agrícola e pecuária, junto à contaminação químico-tóxica das águas, não tem precedentes na história da humanidade. Tudo acompanhado, como se fosse pouco, por uma crescente crise de saúde humana e animal (que também é negócio para as mesmas empresas).

O paradigma mais significativo dessa “involução verde”, são os transgênicos, sementes patenteadas viciadas nos produtos químicos das empresas, promovidas como panacéia para resolver os atuais problemas de fome que o próprio modelo criou. Outro ingrediente do mesmo modelo, agora impulsionado com mais força, é a altíssima requisição de fertilizantes, que, por seu nome, parece menos nocivo do que o resto dos agrotóxicos. Mas o uso de fertilizantes industriais, em vez do equilíbrio de nutrientes naturais dos modelos anteriores de agricultura, também gera adição e dependência e está nas mãos de um fechado oligopólio transnacional. Tal como o petróleo, baseia-se no uso de produtos finitos e não-renováveis: segundo dados da PotashCorp, a primeira empresa global de fertilizantes, as reservas de fósforo, ingrediente fundamental dos fertilizantes, diminuem em ritmo acelerado. Globalmente, o consumo industrial de fertilizantes aumentou 31% entre 1996 e 2008, devido ao incremento da produção de gado industrial e a produção de agrocombustíveis. E, com a crise, o preço disparou em mais de 650% entre janeiro de 2007 e agosto de 2008. A Mosaic, terceira empresa de fertilizantes em nível global (55% propriedade da Cargill), aumentou seus lucros em mais de 1.000% nesse período.

Apesar de que as transnacionais pretendam controlar tudo, 1,2 bilhões de agricultores e agricultoras no mundo seguem tendo suas próprias sementes. Ainda que a Wal-Mart seja a maior empresa do mundo, 85% da produção global de alimentos é consumida próximo de onde se semeia – a maioria no mercado informal.

Urge, por bem de todos e para frear as ameaças ao ambiente que nos sustenta, o questionamento profundo do modelo de agroalimentação industrial e corporativo, incluindo a crítica radical aos que, em nome das crises alimentares e climáticas, querem nos impor mais do mesmo modelo com transgênicos e agrocombustíveis. As soluções reais já existem e são diametralmente opostas: soberania alimentar, como propõe a Via Campesina, a partir de economias agrícolas descentralizadas, diversas, livres de patentes, baseadas no conhecimento e as culturas campesinas, que são as que, por mais de dez mil ano, provaram sua capacidade de alimentar sustentavelmente a humanidade.


quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

Tem que ser assim ?


"Privamo-nos para mantermos a nossa integridade, poupamos a nossa saúde, a nossa capacidade de gozar a vida, as nossas emoções, guardamo-nos para alguma coisa sem sequer sabermos o que essa coisa é. E este hábito de reprimirmos constantemente as nossas pulsões naturais é o que faz de nós seres tão refinados. Porque é que não nos embriagamos? Porque a vergonha e os transtornos das dores de cabeça fazem nascer um desprazer mais importante que o prazer da embriaguez. Porque é que não nos apaixonamos todos os meses de novo? Porque, por altura de cada separação, uma parte dos nossos corações fica desfeita. Assim, esforçamo-nos mais por evitar o sofrimento do que na busca do prazer."
(Sigmund Freud)


(extraído de: Blog Farpa Kultural)

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

Comer pela PAZ




Numa palestra sobre o consumo consciente, o monge e mestre budista Thich Nhat Hanh, fala sobre o quanto comer pode ser extremamente violento:

A UNESCO nos diz que 40.000 crianças morrem no mundo, diariamente, por falta de nutrição, por falta de comida. Quarenta mil crianças, diariamente! E o volume de grãos que cultivamos no ocidente é, em sua maior parte, usado para alimentar o gado criado para ser vendido como carne. 95% da aveia e 87% do milho produzidos nos Estados Unidos não é para consumo humano, mas para os animais criados para consumo. Isso representa o uso de 45% de toda a terra disponível no país.

Mais da metade da água consumida nos Estados Unidos é usada na criação de animais de corte. São necessários 2500 galões de água para produzir meio quilo de carne, mas apenas 25 galões para produzir meio quilo de trigo. Uma dieta totalmente vegetariana requer 300 galões de água por dia, enquanto que uma dieta à base de carne requer mais de 4000 galões de água por dia.

Criar animais para consumo, causa mais poluição da água que qualquer outra indústria nos Estados Unidos, porque os animais criados para consumo produzem 130 vezes mais excremento que o total da população humana. Isso significa 45.000 quilos por segundo. Muito dos dejetos advindos das fazendas de gado e matadouros são jogados ou fluem para dentro dos rios e córregos, contaminando as fontes de água limpa.
Nos Estados Unidos, os animais criados para consumo recebem como alimento 95% da aveia e 87% do milho cultivados. Estamos comendo o nosso país, comendo a nossa terra. E eu fiquei sabendo que mais da metade da população come em excesso!

Comer de forma consciente - mindful eating - pode ajudar a manter a compaixão em nosso coração. Uma pessoa sem compaixão não pode ser feliz, não pode relacionar-se com outros seres humanos e com outros seres vivos.

Uma segunda espécie de comida que consumimos diariamente são as impressões sensoriais, a comida que comemos com os olhos, os ouvidos, a língua, o corpo, a mente. Quando lemos uma revista, nós consumimos. Quando você assiste televisão, você consome. Quando você escuta uma conversa, você consome. E esses ítens podem ser bastante tóxicos. Podem existir muitos venenos, como desejos, violência, raiva e desespero. Nós nos permitimos sermos intoxicados quando consumimos em termos de impressões dos sentidos. E, da mesma forma, nós permitimos que nossas crianças também se intoxiquem.


E o que tem resultado é a nossa doença, o nosso ser-doente, nossa violência, nosso desespero. E, se você praticar o olhar em profundidade - meditação - você será capaz de identificar as fontes de nutrição, da comida que tem sido trazida para nós.

Portanto, toda a nação tem que praticar esse olhar profundo para a natureza do que se consome diariamente. E, o consumo consciente é a única maneira de proteger nossa nação, nós mesmos, nossa família e nossa sociedade. Temos que aprender o que produzir e o que não produzir, a fim de prover as pessoas apenas com aquilo que é nutritivo e curativo. Nós temos que evitar produzir aquilo que possa trazer guerra e desespero para o nosso corpo, para a nossa consciência, e para o corpo coletivo e para a consciência da nossa nação e da nossa sociedade.


Vale a pena saber mais!

Eating for Peace - Thich Nhat Hanh

Diet for a New America - VIDEO online

* TRADUÇÃO para o Português

Uma vida interligada - VIDEO legendado

Ética na comida, Programa Alternativa Saúde - VIDEO online


Fontes:



e



quarta-feira, 1 de outubro de 2008

Um Movimento Democrático Global está prestes a estourar.




Por: Paul Hawken, Orion Magazine

Ao longo dos últimos quinze anos tenho oferecido perto de mil palestras sobre o ambiente. Depois de cada palestra um pequeno grupo de pessoas se junta para conversar, perguntar, e trocar cartões de visita. Estas pessoas oferecendo os seus cartões trabalham nos assuntos mais pertinentes aos nossos dias: mudança de clima, pobreza, desmatamento, paz, água, fome, conservação, direitos humanos e mais. São do mundo das ONG´s também conhecido como a sociedade civil. Cuidam de rios e baias, educam os consumidores sobre a agricultura sustentável, colocam painéis solares em casas, fazem “lobbies” nos governos estaduais sobre poluição, enfrentam políticas de comércio favoráveis às corporações, se esforçam a tornar verdes as favelas, ou ensinam as crianças sobre o ambiente. Simplesmente, estão tentando resguardar a natureza e garantir a justiça.Depois de uma viagem de uma semana ou duas, voltava com centenas destes cartões enfiados em vários bolsos. Eu arrumava-os na mesa da minha cozinha, lia os nomes, olhava os logotipos, imaginava as missões e ficava admirado a ver o que um grupo pode fazer a favor de outro. Depois, os colocava em gavetas ou sacos de papel, lembranças daquela viagem. Não conseguia jogá-los fora.
Ao longo dos anos os cartões se amontoavam, chegando aos milhares, e quando olhava aquelas sacolas no meu armário, chegava a me perguntar: alguém sabe quantos de tais grupos existem? No começo, era questão de curiosidade, mas lentamente comecei a desconfiar que alguma coisa maior estava acontecendo, um movimento social significativo que estava escapando o radar da cultura vigente.

Comecei a contar. Olhava os dados governamentais de diversos paises e, utilizando diversos métodos para aproximar-me do número de grupos ambientais e de justiça social a partir de dados de censo para impostos, eu inicialmente estimava que tinham umas trinta mil organizações ambientalistas no mundo, quando acrescentava justiça social e organizações indígenas, o número ultrapassava cem mil. Eu então pesquisei movimentos sociais do passado para ver se tinha algum igual em escala e escopo, mas não encontrei nada.

Quanto mais pesquisava, mais eu descobria e os números continuavam a aumentar. Em levantar uma pedra descobri uma formação geológica. Descobri listas, índices, e pequenos bancos de dados específicos para certos setores ou áreas geográficas, mas nenhum conjunto de dados aproximou-se nem de longe a descrever o tamanho do movimento. Extrapolando dos arquivos acessados, me dei conta que o estimativo inicial de cem mil organizações estava errado por um fator de pelo menos dez. Agora achava que existem mais de um milhão de organizações trabalhando em prol de sustentabilidade ecológica e justiça social. Talvez dois.

Se for definir de uma forma convencional, isto não é um movimento. Os movimentos têm lideranças, ideologias. Você se torna membro de um movimento, estuda os propósitos e se identifica com um grupo. Você lê a biografia do(s) fundador(es) ou os escuta em fita ou em pessoa. Movimentos têm seguidores, mas este movimento não funciona assim., É disperso, sem formas definidas e ferozmente independente. Não há manifesto ou doutrina, nenhuma autoridade para verificar.

Procurei um nome, mas não há.

Historicamente, os movimentos sociais surgiram primariamente por causa de injustiças, desigualdades e corrupção. Estes males continuam presentes, mas uma nova condição existe que não há precedente: o planeta está com uma doença que ameaça a vida e que é marcada por degradação ecológica maciça e mudança de clima súbita. Ocorreu-me que talvez eu estivesse vendo alguma coisa orgânica, se não biológica. Em vez de ser um movimento no sentido convencional, será que é uma resposta coletiva à ameaça? É fragmentado por razões que são inerentes ao seu propósito? Ou é simplesmente desorganizado? Mais perguntas seguiram. Como funciona? Qual a velocidade de crescimento? Como é conectado? Porque está sendo em geral ignorado?

Depois de gastar anos pesquisando este fenômeno, inclusive criando com meus colegas uma banco de dados global destas organizações, tenho chegado à conclusão: este é o maior movimento social em toda a história, ninguém sabe do seu escopo. Como funciona é mais misterioso do que aparenta.

O que fica aparente é conclusivo: dezenas de milhões de pessoas ordinárias e nem tão ordinárias assim dispostas a confrontar o desespero, o poder e dificuldades incalculáveis para restaurar algum semblante de graça, justiça e beleza a este mundo.

Clayton Thomas-Muller fala para um encontro comunitário da nação Cree sobre os lixões no seu território em Alberta, Canadá, lagos de despejos tóxicos tão grandes que podem ser vistos do espaço. Shi Lihong, fundadora do Wild China Films (Filmes da China Silvestre) faz documentários com seu marido sobre os migrantes deslocados pela construção de grandes represas. Rosalina Tuyuc Velásquez, membro do povo Maya-Kaquchikel, luta para que sejam responsabilizados os esquadrões da morte, que já mataram dezenas de milhares de pessoas na Guatemala. Rodrigo Baggio resgata computadores de Nova York, Londres, e Toronto e os instala em favelas do Brasil onde ele e seus funcionários ensinam habilidades de informática a crianças pobres. O biólogo Janine Benyus fala para mil e duzentos executivos num fórum de negócios em Queensland sobre desenvolvimento inspirado pela biologia. Paul Sykes, voluntário para the National Audubon Society ( que luta em prol dos aves nos Estados Unidos) completa seu 52em Contagem de Pássaros de Natal em Little Creek, Virgínia, se juntando a cinqüenta mil outras pessoas que contam 70 milhões de pássaros em um único dia. Sumita Dasgupta lidera estudantes, engenheiros, jornalistas, agricultores e Adivasis ( povo tribal) numa viagem a pé de dez dias através do Gujarat, explorando o renascimento de sistemas de captação de águas da chuva que está trazendo a vida de volta para áreas propensas à secas na Índia. Silas KpananÁyoung Siakor, que mostrou os elos entre a política genocidal do então presidente Charles Taylor e o desmatamento ilegal em Libéria, agora cria políticas de certificação de madeira sustentável.

Estas oito pessoas, que talvez nunca venham a se conhecer, fazem parte de uma coalizão composta de centenas de milhares de organizações sem centro, crenças codificadas ou líderes carismáticas. O movimento cresce e se alastra em cada cidade e país. Praticamente toda tribo, cultura, língua, e religião faz parte, desde os Mongóis até Uzbekianos até Tamils. É composto de famílias na Índia, estudantes na Austrália, agricultores na França, os sem terra no Brasil, os bananeiros de Honduras, os “pobres” de Durban, aldeões em Irian Jaya, tribos indígenas na Bolívia, e donas de casa no Japão. As lideranças são agricultores, zoólogos, sapateiros e poetas.

O movimento não pode ser dividido porque está fragmentado - pequenos pedaços com elos frouxos. Forma, se junta, e dissipa rapidamente. Muitos dentro e fora o desprezam por ser sem poder, mas já derrubou governos, companhias e lideranças através do testemunhar, informar e amassar.

O movimento tem três raízes básicas: Movimento para justiça ambiental e social, e a resistência de culturas indígenas contra a globalização - todos dos quais se entrelaçam. Surge espontaneamente de diferentes setores econômicos , culturas, regiões e agrupamentos, resultando num movimento global, sem classe, diverso , alastrando mundialmente sem exceção. Num mundo complexo demais para ideologias construtivas, a palavra movimento pode ser pequena demais , porque este é o maior agrupamento de cidadãos da história.

Têm institutos de pesquisa, agências de desenvolvimento comunitário, organizações baseados em povoados e cidadãos, corporações, redes, grupos baseados em crenças, fundações . Defendem contra políticos corruptos e mudança de clima, predação corporativa e morte dos oceanos, indiferença do governo e pobreza endêmica, formas industrializadas de agricultura e plantio de madeira, esgotamento do solo e da água.

Descrever o tamanho deste movimento é como tentar segurar o oceano na sua mão. É tão grande assim. Quando uma parte aparece, o iceberg abaixo fica invisível. Quando Wangari Maathai ganhou o Prémio Nobel da Paz, os serviços de notícias não mencionaram a rede de seis mil organizações diferentes de mulheres na África plantando árvores. Quando escutamos de um despejo químico num rio, nunca é mencionado que quatro mil organizações nos Estados Unidos adotaram um rio, riacho ou córrego. Podemos ler que a agricultura orgânica é o setor de maior velocidade de desenvolvimento nos Estados Unidos, Japão, México e Europa, mas nenhuma conexão é feita com as mais de três mil organizações que educam agricultores, fregueses e legisladores sobre a agricultura sustentável.

É a primeira vez na história que um enorme movimento social não se juntou por volta de um “ismo”. O que junta são idéias e não ideologias. A maior contribuição deste movimento é a ausência de uma idéia grande: no seu lugar oferece milhares de idéias práticas e úteis. No lugar dos “ismos” são processos, preocupações, e compaixão. O movimento demonstra um lado flexível, ressonante e generoso da humanidade.

Não é possível de definir. As generalidades são em grande parte imprecisas. É não-violento e de base; não tem bombas, exércitos nem helicópteros. Um vertibrado macho carismático não está no comando. O movimento não concorda em tudo e nunca concordará, porque isto seria uma ideologia. Mas compartilha um conjunto básico de compreensões fundamentais sobre a Terra, como funciona, e a necessidade de justiça e igualdade para todos os povos que participam nos sistemas do sustento da vida no planeta.

Este movimento sem nome promete oferecer soluções parta o que parecem ser dilemas insolúveis: pobreza, mudança de clima global, terrorismo, degradação ecológico, polarização da renda, perda de cultura. Não é atrapalhado com síndrome de tentar salvar o mundo: está tentando refazer o mundo.

É feroz. Não existe outra explicação para a coragem crua e o coração visto repetidas vezes nas pessoas que marcham, falam, criam, resistem e constroem. É a ferocidade do que significa saber que somos humanos e queremos sobreviver.

Este movimento não desiste e está sem medo. Não pode ser pacificado, amenizado ou oprimido. Não haverá um momento “Muro de Berlim”, nenhuma assinatura de trégua, nenhuma manhã para acordar para o momento quando os super-poderes abandonam. O movimento continuará nas suas formas diversas. Não descansará. Não haverá nenhum Marx, Alexandre ou Kennedy. Nenhum livro pode explica-lo nenhuma pessoa pode representa-lo nenhuma palavra pode engloba-lo, porque o movimento é o testamento vivo e sentiente do mundo vivo.

Acredito que prevalecerá. Não quero dizer conquistar ou causar danos a alguém. E não estou fazendo esta previsão como oráculo. Quero dizer que o pensamento que informa a mente do movimento - de criar uma sociedade condutiva à vida na Terra - reinará. Ela logo permeará a maioria das instituições. Mas até lá, mudará um número suficiente de pessoas para começar a reverter séculos de auto-destruição desenfreada.

A inspiração não é conhecida de litanias do que é defeituoso; reside na vontade da humanidade de restaurar, reformar, recuperar, reimaginar e reconsiderar. Curando as feridas da Terra e do seu povo não requer santidade ou um partido político. Não é uma atividade liberal ou conservadora. É um ato sagrado.

Paul Hawken é empreendedor e ativista social morando na Califórnia. Este artigo é tirado do livro Blessed Unrest, a ser publicado pelo Viking Press, e é utilizado com permissão.

(extraído do site: http://sitiocurupira.wordpress.com/curupiranews/)

domingo, 17 de agosto de 2008

TUDO EM QUE ACREDITAMOS NOS APRISIONA




Por Robert Anton Wilson

Deve ser óbvio para todos os leitores inteligentes (mas curiosamente não é óbvio para todos) que o meu ponto de viste neste livro é de agnosticismo. A palavra "agnóstico" aparece explicitamente no "Prólogo” e a atitude agnóstica é repetidamente mencionada no texto, mas muitas pessoas ainda pensam que eu “acredito” em algumas das metáforas e modelos aqui mencionados. Portanto quero esclarecer , como nunca antes o fiz, que:

Eu não acredito em nada.

Essa afirmação foi feita explicitamente por John Gribbin, editor de física da revista New Scientist, em um debate da BBC com Malcolm Muggeridge, e provocou incredulidade por parte da maioria dos espectadores. Parece ser uma ressaca da era medieval católica que leva a maioria das pessoas, até aquelas considerada,, "educadas”, a pensar que todos devem “acreditar" em alguma coisa ou outra: que se uma pessoa não é teísta, deve então ser uma ateísta dogmática: e se, uma pessoa pensa que o capitalismo não é perfeito, ela deve acreditar fervorosamente no socialis­mo; e se uma pessoa não tem uma fé cega em x, ela alternativamente deve ter uma fé cega em y ou no reverso de x.

Minha opinião é de que a crença é a Morte da inteligência. A partir do momento que alguém acredita em algum tipo de doutrina ou assume a certeza, ele pára de pensar a respeito do aspecto da existência. Quanto maior é a certeza assumida, menos é deixado para se pensar a respeito de um determinado assunto, e uma pessoa que tivesse certeza sobre tudo não teria nenhuma necessidade de pensar a respeito de qual­quer coisa e poderia ser considerada clinicamente morta de acordo com as normas médicas atuais, pois a ausência de atividade cerebral é consi­derada o fim da vida.

Minha atitude é idêntica à do Dr. Gribbin e à da maioria dos físicos de hoje, visto que ela é conhecida como "A Interpretação de Copenhaguen", pois foi formulada em Copenhaguen pelo Dr. Niels Bohr e seus colabora­dores, entre 1926-1928. Algumas vezes, A Interpretação de Copenhaguen é chamada de "agnosticismo modelo" e reza que qualquer plano utilizado para organizar nossa experiência no mundo é um modelo do mundo e não deve ser confundido com o próprio mundo. Alfred Korzybski, o semanticista, procurou popularizar essa física externa por intermédio do slogan: "O mapa não é o território". Alan Watts, um talentoso exegeta da filosofia oriental, reformulou-o mais vividamente como: "O cardápio não é a refeição".

A crença no sentido tradicional, ou convicção, ou dogma, resulta na grandiosa ilusão: "Meu modelo presente" — ou plano, ou mapa, ou túnel-realidade — "contém todo o universo e não precisará mais ser revisto". Em termos de história da ciência e do conhecimento em geral, para mim, isso parece absurdo e arrogante e fico sempre surpreso pelo fato de tantas, pessoas conseguirem viver com essa atitude medieval.

O Gatilho Cósmico trata de um processo de alteração cerebral deliberadamente induzida, pelo qual eu mesmo passei durante os anos de 1962 a 1976. Esse processo é chamado de "iniciação" ou "busca da visão” em muitas sociedades tradicionais e pode facilmente ser considerado, em terminologia moderna, como uma variedade perigosa de autopsicoterapia. Eu não o recomendo para todos e acho que consegui um número maior de bons resultados do que de ruins, visto que passei por duas variedades de psicoterapia clássica antes de começar minhas próprias aventuras e, por possuir um bom conhecimento de filosofia científica, eu não estava inclinado a "acreditar" literalmente em nenhuma impressionante Revelação.

Em resumo, o que aprendi de mais importante em minhas experiências é que "realidade é sempre plural e mutável".

Como a maior parte de O Gatilho Cósmico é dedicada à explicação e à ilustração dessa afirmação, e como já tentei explicá-la em outros livros e ainda encontro pessoas que leram tudo o que escrevi acerca do assunto e continuam não entendendo o que quero dizer, tentarei novamente neste novo "Prefácio" explicá-la UMA VEZ MAIS e talvez de forma mais clara que antes.

"Realidade" é: (a) um substantivo e (b) singular. Pensando no idioma português (e nos conhecidos idiomas indo-europeus), essa palavra nos pragrama subliminarmente a conceituar "realidade" como uma entidade de um só bloco, por exemplo, um arranha-céu de Nova Iorque, onde cada parte é tão somente outro espaço dentro do mesmo edifício. Esse programa lingüístico é tão dominante que a maioria das pessoas não pode "pensar" além de seus limites e, quando alguém tenta oferecer uma nova perspectiva, logo imagina que esse alguém esteja falando bobagem.

Saber que “realidade é um substantivo, algo sólido como um tijolo ou um taco de beisebol, deriva do fato evolutivo de que o nosso sistema normalmente organiza a dança energética dentro desses sólidos, provavelmente como avisos instantâneos de sobrevivência biológica. Entretanto, esses sólidos voltam por se dissolver em danças energéticas — processos ou verbos —, quer quando o sistema nervoso entra em sinergia mediante certa drogas, quer quando transmutado por exercícios xamânicos ou de yoga, quer recebendo a ajuda de instrumentos científicos. Tanto no misticismo quanto na Física, há uma concordância geral de que os sólidos são construídos pelo nosso sistema nervoso e de que “realidades” (plural) são mais bem descritas como sistemas ou conjunto de funções energéticas.

Robert Anton Wilson


Isso no que se refere à “realidade”como substantivo. O fato de saber que realidade é singular, como um jarro hermeticamente fechado, não se harmoniza com as descobertas científicas que, durante este século sugerem que “realidade” pode ser melhor considerada como fluindo e vagueando como um rio, ou interagindo como uma dança, ou evoluindo como a própria vida.

A maioria dos filósofos sabia, pelo menos desde os anos 500 a.C., que o mundo percebido não é “o mundo real”, mas uma construção criada por nós mesmos — nossa própria e particular obra de arte. A ciência moderna teve início quando Galileu demonstrou que a cor não é “parte integrante” dos objetos, mas é a “interação de nossos sentidos” com os objetos. Apesar desse conhecimento filosófico e científico da relatividade neurológica, mais claramente demonstrada pelos instrumentos cada vez mais modernos, devido à linguagem nós ainda pensamos que, atrás do universo que flui, vagueia, interage e evolui criado pela percepção, encontra-se uma sólida "realidade" forte c nitidamente delineada quanto uma barra de ferro.

A física quântica minou aquela "realidade" de barra de ferro, mos­trando que faz mais sentido falar das interações que realmente experimentamos de forma exclusivamente cientifica (nossas atividades no laboratório); e a psicologia da percepção minou a "realidade" platônica, mostrando que, se existisse, levaria a contradições desanimadoras se ten­tássemos explicar como realmente percebemos que um hipopótamo não é uma orquestra sinfônica.

As únicas "realidades" (plural) que realmente experimentamos e sobre as quais podemos falar significativamente são realidades percebidas, realidades experimentadas, realidades existenciais — realidades que nos envolvem como editores — e, para o observador, todas elas são relativas, flutuando, evoluindo, com capacidade de serem ampliadas e enriquecidas, movendo-se de uma baixa resolução para uma alta fidelidade e não se conformando juntas como peças de um quebra-cabeça em uma única Realidade, aquela com R maiúsculo. Ao contrário, projetam iluminação, uma sobre a outra, por contraste, como as pinturas em um grande museu ou os diferentes estilos sinfônicos de Haydn, Mozart, Beethoven e Mahler.
Alan Watts pode ter colocado isso da melhor forma: "O universo é um borrão gigante de Rorshach". Para isso, a ciência encontra um significado no século XVIII, outro no século XIX e um terceiro no século XX; cada artista encontra significados únicos em outros níveis de abstração; e cada homem e cada mulher encontram significados diferentes em momentos diferentes do dia, dependendo dos ambientes, interno e externo, em que se encontram.

Este livro trata do que eu denominei de alteração cerebral induzida e que o Dr. John Lilly intitula mais especificamente de "autoprogramação do biocomputador humano". Como psicólogo e romancista, basicamente me empenhei em saber quão rapidamente seria possível reorganizar a função cerebral de um primata normal domesticado e de inteligência média — o único sobre o qual eu poderia eticamente efetuar essa pesquisa arriscada — eu mesmo.

Tal como a maioria das pessoas que historicamente tentaram essa "autoprogramação", logo me encontrei em águas revoltas. Tornou-se seguramente óbvio que meus modelos e metáforas anteriores não poderiam ser responsabilizados pelo que eu estava experimentando. Portanto, tive de criar novos modelos e metáforas à medida que seguia adiante. Como eu estava lidando com assuntos fora de realidades consensuais, algumas de minhas metáforas são um tanto extraordinárias. Isso não me incomoda, pois sou tanto artista quanto psicólogo e também não me incomodo quando as pessoas interpretam essas metáforas ao pé da letra.

Peço-lhes, gentis leitores, que memorizem a citação de Aleister Crowley no início da "Parte I” e tornem a repeti-la caso, em algum momento, vocês comecem a pensar que estou lhes trazendo as mais recentes revelações teológicas da Central Cósmica.

O que minhas experiências demonstraram — o que tais experiências ao longo da história demonstraram — é simplesmente que nossos modelos de “realidade” são muito pequenos e ordenados, enquanto o universo da experiência é enorme e desordenado, e nenhum modelo pode jamais incluir toda a grande desordem percebida pela consciência não censurada.

(Continua... )

Do livro de Robert Anton Wilson, "O Gatilho Cósmico"

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quarta-feira, 23 de julho de 2008

Pelo "re-encantamento" do mundo



A religião para conter o deserto?


“A extrapolação das tendências atuais na redução da biodiversidade implica um desfecho para a civilização dentro dos próximos cem anos.” E o único caminho para reverter esse quadro, propõe o biólogo Paul R. Ehrlich“talvez seja uma transformação quase religiosa, que leve à apreciação da diversidade por si própria, independentemente de seus benefícios diretos para a humanidade”. É o mesmo caminho proposto pelo coordenador da obra, o biólogo Edward O. Wilson", escreve Washington Novaes, jornalista, em artigo publicado no jornal O Estado de S. Paulo, 18-07-2008.

Eis o artigo.


A recente divulgação de mais um relatório da Organização para a Alimentação e a Agricultura (FAO) da ONU, assim como novos congressos sobre desertificação no Brasil, trazem de volta o tema. O relatório da FAO, com um balanço dos últimos 20 anos, diz que a degradação do solo no mundo - medida pelo declínio nas funções e na produtividade de um ecossistema - já atinge mais de 20% das terras ocupadas pela agricultura, 10% das pastagens, 30% das áreas de floresta. E afeta 1,5 bilhão de pessoas, com insegurança alimentar, perdas agrícolas, perda da biodiversidade, necessidade de migrar. Também influi no clima, porque a perda de biomassa e de matéria orgânica no solo desprende carbono. E leva à redução do fluxo hidrológico, porque se reduz a capacidade de a terra desmatada reter água. A China está com 457 mil km2 afetados; a Índia, com 177 mil; a Indonésia, 86 mil; Bangladesh, 72 mil. Para o Brasil, o relatório aponta 46 mil km2, embora nossos relatórios nacionais mencionem 180 mil km2 em diferentes etapas do processo de desertificação, principalmente no Semi-Árido nordestino, mais Espírito Santo e Minas Gerais (11 Estados ao todo).

Os relatórios apontam situações difíceis em áreas que o mundo se habituou a considerar desenvolvidas e ausentes de questões dessa natureza. É o caso da Espanha, por exemplo, onde um terço do território é considerado como de “risco significativo” nessa área, principalmente por causa da escassez de água. Até o fim deste século, prevê-se que o fluxo hidrológico ali, especialmente no sul do país, diminua 22%. Barcelona, cidade admirada e invejada, enfrenta uma escassez inédita, que a leva a disputar com outras zonas as águas do Rio Ebro (que quer transpor e captar, para diminuir a crise). E até a proibir que se encham piscinas.

A Austrália é outra área com graves dificuldades, já que o fluxo das principais bacias hidrográficas caiu 41% - é o mais baixo em 117 anos, desde quando se têm registros - e afeta a produção de frutas, grãos e outros bens. Certamente é essa uma das razões que levaram o país (o maior exportador de carvão no mundo) a mudar sua posição e aderir ao Protocolo de Kyoto, sobre mudanças climáticas. As previsões dos cientistas para lá são de que as “ondas de calor” se tornarão muito mais freqüentes e afetarão ainda mais o fluxo dos rios (cada grau Celsius de alta na temperatura média pode reduzi-lo em 15%, dizem alguns cientistas).

O fato é que o drama da desertificação avança à razão de 60 mil km2 por ano no mundo. E seriam necessários, diz a ONU, pelo menos US$ 12 bilhões anuais para programas de informação, monitoramento e recuperação de áreas. Mas esses recursos não estão disponíveis, embora os prejuízos anuais sejam muito maiores que isso, sem falar no drama das migrações e conflitos que provocam. No Brasil mesmo, os R$ 500 mil anuais teoricamente disponíveis para o Fundo de Iniciativas Sociais no Semi-Árido têm sido reduzidos a ridículos R$ 25 mil/ano. Quando deveríamos ser muito mais cuidadosos. Além do Semi-Árido, as imagens de satélites mostram cada vez mais pontos problemáticos em todo o território nacional, da fronteira gaúcha ao sudoeste goiano. E já há alguns anos o Ministério do Meio Ambiente apontava uma perda de 90 milhões de toneladas anuais de solo fértil por ano no Cerrado, por causa de erosão; no Rio Grande do Sul, 80 milhões/ano; no País todo, 1 bilhão de toneladas anuais. É possível que o plantio direto nas lavouras de grãos tenha reduzido esses números, mas eles ainda são altos. E a área de pastagens degradadas é enorme: em Goiás, na última negociação com o Fundo do Centro-Oeste, foram apontados 70% das pastagens em algum estágio de degradação. No mundo, estima-se que a perda seja de 23 bilhões de toneladas anuais de solo. E leva 30 anos para o solo em descanso recompor uma polegada de terra fértil.

Enquanto tudo isso acontece, ganha mais corpo uma discussão que ao longo das últimas décadas se desenvolveu timidamente, confinada quase apenas a áreas ditas “ambientalistas”. Um dos primeiros a expô-la foi o biólogo Paul R. Ehrlich, da Universidade de Stanford, na Califórnia - segundo quem o problema da relação do ser humano com seu meio físico e com as espécies das quais depende só terá encaminhamento com o que chama de “recuperação do sagrado”, quando nossa espécie reconhecer o direito à vida de todas as espécies, independentemente de sua utilidade para os humanos (como alimentos ou materiais). Diz ele (Biodiversidade, Editora Nova Fronteira, 1997) que “a causa básica da decomposição da diversidade orgânica não é a exploração ou a maldade humana, mas a destruição de hábitats que resulta da expansão das populações humanas e suas atividades”. Para ele, “muitos desses organismos que o Homo sapiens está destruindo são mais importantes para o futuro da humanidade do que a maioria das espécies sabidamente em perigo de extinção; as pessoas precisam mais de plantas e insetos do que precisam de leopardos e baleias (sem querer com isso menosprezar o valor dos dois últimos)”. Seu prognóstico: “A extrapolação das tendências atuais na redução da biodiversidade implica um desfecho para a civilização dentro dos próximos cem anos.” E o único caminho para reverter esse quadro “talvez seja uma transformação quase religiosa, que leve à apreciação da diversidade por si própria, independentemente de seus benefícios diretos para a humanidade”. É o mesmo caminho proposto pelo coordenador da obra, o biólogo Edward O. Wilson, em outro livro - A criação, Companhia das Letras, 2007) - já comentado neste espaço. Wilson acha que a única possibilidade de mudança rápida no padrão civilizatório, capaz de rever os rumos, está numa aliança entre a ciência e a religião.

Pois não é que o Equador está discutindo incluir em sua Constituição os “direitos da natureza”?

Extraído de: http://www.unisinos.br/_ihu/index.php?option=com_noticias&Itemid=18&task=detalhe&id=15337

segunda-feira, 16 de junho de 2008

Militantes da civilização


Por: MARINA SILVA


NA SEMANA PASSADA o Congresso brasileiro recebeu dois grandes homens: um bengalês e um indiano, ambos cidadãos do mundo. Muhammad Yunus, Prêmio Nobel da Paz de 2006, criador do Banco da Aldeia, que deu aos pobres microcrédito e oportunidade de gerar emprego e renda. Rajendra Pachauri, Nobel da Paz em 2007 como chefe do IPCC, o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas, que demonstrou a gravidade do aquecimento global e a urgência de medidas para controlar seus efeitos.
É paradoxal a singeleza com que trazem uma pororoca de desafios que a humanidade não pode banalizar nem deles fugir. Ao lado de seus temas específicos -pobreza e mudanças climáticas-, Yunus e Pachauri são portadores do grande tema oculto de nosso tempo: a coragem, tanto para mudar quanto para manter o que tem que ser mantido.
A sociedade de consumo, amplamente vitoriosa, nos impõe uma derrota acachapante: o fatalismo, a crença de que o mundo é assim mesmo, atracado a um conceito de civilização assustador, cuja medida de avanço é o aumento da capacidade de consumir. Quanto trabalho humano e quanto em recursos naturais e energia são gastos para multiplicar consumo perdulário?
Não fosse nosso insustentável desejo de ter, essa força monumental poderia ser redirecionada para dar habitação digna, saúde, alimentação, educação e meio ambiente equilibrado para todos.
Fatalismo pode ser explicação plausível para tanta inércia diante do que podemos chamar de Consenso dos Insensatos, o conluio de poderes para colocar interesses pequenos sempre à frente quando se trata de combater os impactos da máquina de produzir "civilização" descartável, risco ambiental e exclusão social.
Yunus e Pachauri são pessoas simples, discretas. Ambos se dedicam a levar o extraordinário para o dia-a-dia. Lembram que há espaço para a contribuição de todos, de onde saem as grandes mudanças.
Mostram a conexão inexorável dessa nossa encruzilhada civilizatória: não há soluções isoladas. Os instrumentos são econômicos, tecnológicos, sociais, mas eles serão inócuos sem um redirecionamento de processos e de demandas. Isso implica decisões pessoais e coletivas, culturais e espirituais, éticas e até estéticas. O caminho que leva ao abismo nos dá sinalizações para a volta. Há que fazer escolhas.
Hoje, para quem quiser se engajar, não é mais possível ser só ambientalista, ou só militante de causas sociais, políticas, culturais. É preciso se engajar em tudo, ser militante da civilização.



Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/fz1606200806.htm