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quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

Uma Introdução à Magia do Caos




Por: Adrian Savage


Caos - a ausência de forma e ordem. Acima de qualquer outra palavra, o caos assombra o homem ocidental. Enche sua mente com visões de marés encontrando-se com rios, homens dando luz à rãs, peixes voando através de grossas nuvens. É o cerne inominado de todas as histórias de terror - o inesperado, o imprevisível, o incontrolável, o anárquico - Caos.

O homem ocidental, desde os primórdios de sua história, tem procurado derrotar um dos mais implacáveis de seus inimigos - o Caos. Procurou, por gestos e palavras, domar os desejos caóticos e arbitrários de seus primeiros Deuses. Criou a imagem de uma divindade toda poderosa, que não apenas trouxe ordem do nada, mas é a ausência da lei. Escolheu inumeráveis tiranos, preferindo a perda de sua própria alma à visão de cães correndo desenfreadamente em suas ruas. Examinou o mundo a sua volta, desejando encontrar leis inflexíveis. Quase destruiu as condições originais de seu planeta - os processos reais que tornam sua vida possível - de modo a controlar cada faceta de sua existência, freqüentemente sacrificando seus mais profundos instintos no altar de sua necessidade, por estabilidade. E, onde não podia encontrar ou impor ordem, delineou mitos, dogmas, especulações filosóficas difíceis de serem entendidas, fórmulas ocultas e teorias científicas estéreis, assassinando qualquer um que ousasse questionar tais fantasias - tudo para negar o terror que sente quando confrontado com o que não podem entender.

Do passado mais sombrio até hoje, a imagem do sábio, para aqueles homens, tem sido a de alguém que sabe a lei secreta escondida por debaixo do aparente mundo arbitrário a sua volta. Sua visão do mago tem sido a de alguém que poderia explorar aquela lei para subjugar, à sua vontade, o mutável evento da vida.

Do final dos anos 60 até o presente, contudo, vozes partindo da Inglaterra - o menos caótico dos países, lar de jardins bem tratados, chá das quatro, e de um sistema de classes que fixa o lugar de cada pessoa desde seu primeiro suspiro - proclamou o Caos como a única realidade, a verdadeira fonte de toda Magia. Irados, às vezes de forma estridente, esbravejam ameaças aos que proclamam a busca pela ordem divina. Eles veneram aquele que é o mais antigo de seus inimigos - o Caos.

Para entender esta rebelião, devemos, primeiramente, explorar as tradições que a originaram. Já que nesta obra não podemos examinar a totalidade do pensamento ocultista, teremos que nos limitar às fontes mais relevantes a Magia do Caos.

Comecemos pela Europa Medieval. Foi durante este período que três ramos do ocultismo desenvolveram aquilo que ainda influencia o pensamento mágico ocidental - a Wicca, o Satanismo e a Magia Cerimonial.

Dos três o Satanismo é o mais fácil de examinar - e descartar. Face ao contínuo interesse da Igreja sobre o assunto, o Satanismo é o mais cuidadosamente registrado, e melhor pesquisado, dos três ramos. Seus conceitos básicos são, também, os mais simples: inversão completa das crenças cristãs. O Satanista realiza a Missa Latina às avessas, zombando dela. Exaltam a ganância ao invés da caridade, a revolta ao invés do perdão. Da mesma forma que o cristão vê o Cristo como um salvador pessoal, que recompensará com uma eternidade de bem-aventurança depois da morte, uma vida de despojamento servil, o Satanista vê o Diabo - quem, à propósito, o cristão identifica como sendo o inimigo da ordem divina, o Caos encarnado - como um salvador pessoal que o recompensará com o poder material e riquezas para deflorar a mulher de seu vizinho. Em ambos os casos, o objeto de veneração é visto como um mestre externo cuja vontade deve ser obedecida. Ao contrário da Wicca e da Magia Cerimonial, o Satanismo parece ter mudado pouco desde o dia de seu nascimento. Do início até o presente, sua corrente mais forte tem sido um clamor contra a moralidade sexual antinatural defendida pela cristandade. Na Idade Média, deve ter sido uma extrema e, certamente, perigosa forma de terapia para problemas sexuais. Nos anos precedentes, parece uma desculpa para reuniões e, talvez, um modo dos menos fisicamente atrativos de ganhar um número maior de parceiras sexuais. Assim que a Igreja parou de queimar seus defensores, o Satanismo teve uma postura de chocar o mais socialmente convencional. Isto é especialmente verdadeiro hoje, quando o Satanismo é o slogan de inúmeras bandas de Rock - um emblema para ofender os pais de adolescentes, agitar os seus já super-ativos hormônios, e acrescentar ilusão da realidade a gritos estridente e barulho infernal.

Ao contrário do Satanismo, até recentemente, a Magia Cerimonial não tem se apresentado como uma rebelião contra o cristianismo. Os Cerimonialistas judaico-cristãos têm sido, de fato, cuidadosos em evitar qualquer coisa que a Igreja pudesse considerar herético. Freqüentemente eram homens devotados que sentiram que estavam explorando os mistérios mais profundos da fé cristã. Em seus rituais, invocavam a proteção do Deus dos Judeus e dos Cristãos e a ajuda dos arcanjos e anjos do panteão judaico-cristão. Se tivessem que evocar demônios, o faziam em nome do Senhor e somente chamavam aqueles diabos que Deus tinha ligado ao serviço da humanidade. Nunca foram perseguidos pela Igreja. Havia e há um forte preconceito de classe e sexual na Magia Cerimonial - seus praticantes têm sido tradicionalmente homens aristocratas. Esta tendência permeou todos os setores. Seus rituais eram destinados a entidades masculinas; eram longos, viáveis somente para os que tinham tempo disponível; eram na maioria das vezes em grego e latim e envolviam conhecimento de geometria e matemática, marcas da classe erudita, e requeriam túnicas garbosas e instrumentos que somente o rico podia sustentar. O mais sugestivo de sua tendência de classe era sua curiosa orientação científica. Como um cientista, os Cerimonialistas acreditavam que o efeito desejado só poderia ser atingido pelo uso dos instrumentos apropriados, no procedimento apropriado - qualquer desvio trazia o fracasso. Como o cientista - que sempre eram, diga-se de passagem - o Cerimonialista procurava conhecimento. Tendo pouca necessidade material, sempre procurava os segredos do Universo visível e do invisível, puramente pelo conhecimento. Apesar do Cerimonialista, na maioria das vezes, trabalhar sozinho, freqüentemente aprendia sua arte em uma Loja - ascendendo através de graus, guardando os ensinamentos secretos de sua própria estação, enquanto obedecia a seus superiores na esperança de eventual promoção. A estrutura hierárquica da Loja tinha um paralelo com a visão do Universo do Cerimonialista, todo grau representando um plano claramente definido que teria de ser completamente examinado e dominado.

Apesar de ter retido muito de sua tendência - Lojas, equipamento caro, visão hierárquica do Universo - ao contrário do Satanismo, a Magia Cerimonial evoluiu e modificou-se. Os agentes dessa mudança foram a Ordem Hermética da Golden Dawn e seu mais conhecido membro Aleister Crowley.

Aleister Crowley

A primeira mudança veio em relação às entidades as quais se dirigiam. Enquanto mantinham as hostes judaico-cristãs, a Golden Dawn também se dirigia a deuses do panteão egípcio e greco-romano, sempre trajando túnicas e adornos sugestivos das deidades invocadas. Depois que Crowley seguiu por conta própria, continuou a dirigir-se a antigos deuses. Mais adiante, ele negou a existência de um poderoso Ente Supremo no topo da hierarquia universal. Proclamou que o objetivo do Mago era "alcançar o Conhecimento e Conversação do Sagrado Anjo Guardião", satisfação de "verdadeira vontade", e a realização da própria divindade. Apesar de alguns magos terem sido influenciados pela própria obra de Carl Jung, que considerava todos os deuses como imagens arquetípicas projetados por um inconsciente coletivo, e por filosofia orientais, as quais mencionaremos mais adiante; outros teriam começado a tomar uma abordagem mais psicológica de seus trabalhos. Existe pouca dúvida de que Crowley acreditasse que o Sagrado Anjo Guardião fosse uma entidade externa à própria pessoa, uma das inúmeras inteligências operando de outras dimensões da existência. Para Crowley, a realização da divindade do mago não significa sua absorção no absoluto, significava a realização de sua linha de evolução individual. Incansavelmente, Crowley trabalhou - escrevendo novos rituais em Inglês, encontrando a Astrum Argentum e reestruturando a Ordo Templi Orientalis, adaptando conceitos orientais, sintetizando as várias tradições mágicas - Grega, Egípcia, Hermética, Cabalística e Maçônica - em um novo sistema, o qual publicou em infindáveis livros. À parte de trazer a Magia de volta aos olhos do público, a maior contribuição de Crowley foi sua franca admissão da verdadeira fonte do poder mágico - a energia sexual. Tendo proclamado abertamente o segredo, revelou ao escrivão o que se segue: reconhecendo o uso de drogas e indulgências orgiásticas para facilitar a entrada em estados alterados de consciência; desposando Thelema, a filosofia da absoluta liberdade pessoal (ou abuso de liberdade, como seus críticos o acusaram) e intitulando-se a "Besta 666", Crowley empenhou-se em chocar. Ao fazê-lo, ficou exposto a desnecessários mal entendidos e, em muitas esferas, foi estigmatizado como um Praticante Negro. A despeito de sua diabólica reputação, e não obstante a existência de idéias norteadas por uma tradição judaico-cristã - notadamente aquelas de Dion Fortune e Israel Regardie, ambos cabalistas - Crowley é amplamente considerado a fonte da qual flui toda Magia Cerimonial Moderna.



A Wicca, o terceiro ramo, é talvez a mais difícil de se descrever. Sem proporcionar desmedidos créditos a seus precursores medievais que a associavam com o Satanismo, os trabalhos de Margaret Murray, que levou em conta a religião do homem pré-histórico, e as geralmente auto-louvadas "tradições" de seus adeptos modernos, quase nada pode ser dito sobre seu passado. Poucas coisas, entretanto, parecem, de pronto, notórias - a mais importante é que sob todos os aspectos a adepta da Wicca permaneceu em contraste com o Mago Cerimonialista. Primeiro, e principalmente, a adepta da Wicca praticava uma religião oposta à cristandade, sem dúvida uma continuação das antigas crenças regionais, apesar de ser difícil dizer com certeza o que estas crenças eram. Por causa de sua rejeição do Cristo as Wicca eram assassinadas pela Igreja. Em uma era onde a Igreja e os Estado eram um, a tolerância religiosa era considerada o portão para a anarquia. Onde o Cerimonialista medieval era um homem aristocrático da cidade, o adepto da Wicca era sempre um camponês e, sobretudo, uma mulher; onde o Cerimonialista praticava sozinho, realizando complicados rituais em latim e grego, convocando Anjos e Demônios para ensiná-los os mistérios do Universo, as adeptas da Wicca comumente celebravam os fenômenos das mudanças das estações, entoando rimas simples de modo a assegurar melhor colheita ou um companheiro. O Cerimonialista praticava a mística "arte", a adepta da Wicca praticava "o ofício". Muitas destas diferenças continuam até os nossos dias. A moderna adepta da Wicca ainda trabalha numa convenção e, ainda que viva em um apartamento urbano e não tenha conhecimento de agricultura, ela ainda celebra a precessão das estações, entoando em verso para qualquer coisa que possa precisar. É difícil dizer onde a moderna Wicca difere de suas raízes medievais - bruxas hereditárias, descendentes das Wicca que sobreviveram aos "tempos das fogueiras", são incrivelmente reservadas sobre as crenças e práticas que herdaram de seus ancestrais. Mesmo se elas não fossem, seria impossível dizer a quantidade de idéias originais que foram distorcidas, acrescentadas, e subtraídas, pois foram transmitidas de geração em geração. Portanto, é também impossível dizer quanto Gerald Gardner - o pai da Wicca moderna - preservou do passado e quanto, apesar de afirmar o contrário, ele realmente criou. Qualquer que seja o caso, da mesma forma que a maioria da moderna Magia Cerimonial flui de Crowley, a Wicca origina-se de Gardner. Ainda que os rituais de Gardner estejam repletos de simbolismo agrícola e, por extensão, aos praticados pelas modernas adeptas da Wicca, a maioria deles parece tanto com versões rimadas e simplificadas dos ritos Cerimonialistas, que existem rumores que atribuem a sua verdadeira autoria ao bom amigo de Gardner, Aleister Crowley. Ao contrário do Cerimonialista, contudo, o que distingue a Wicca moderna é o seu inexorável feminismo. As adeptas da Wicca veneram um Ente Supremo dual - um Deus, muitas vezes identificadas com o Sol, Marte, Pã ou Hórus, e uma Deusa, muitas vezes identificadas com a Lua, a Terra, Vênus ou Ísis. Sob todos os aspectos, a Deusa é considerada a dominante. Dá nascimento ao Deus, que é seu filho e consorte. É considerada eterna, enquanto o Deus sofre contínuas mortes e nascimentos, simbolizados pela marcha das estações. As fases da Deusa Lunar - crescente, cheia e minguante - são identificadas com as três fases do ciclo de vida da mulher - virgem, mãe, idosa. As idéias básicas são elaboradas numa variedade de aspectos. As mulheres são sempre consideradas mais sábias, mais fisicamente poderosas, e mais espiritualmente desenvolvidas que os homens e, apesar dos rituais das Wicca serem realizados por um sacerdote e uma sacerdotisa, a sacerdotisa sempre detém a autoridade absoluta. O sacerdote é sempre seu servo. Um observador versado em psicologia pode detectar nos rituais das Wicca uma sutil forma de sadismo feminino e masoquismo masculino. Muitas das Wicca advogam o Matriarcado - um sistema no qual a mulher detém, em última instância, o poder político. Ao contrário dos Cerimonialistas, que tendem a regular seus rituais de acordo com intrincados cálculos astrológicos, as Wicca realizam sua Magia segundo as fases da Lua - trabalhos de expansão são iniciados durante a Lua Nova, e culminam durante a Lua Cheia; trabalhos de contrição são feitos ao inverso. Identificando a Terra com a Deusa e procurando manter-se perto de suas raízes agrícolas, a Wicca moderna é muito interessada pela Ecologia. A Wicca hoje é altamente consciente de sua imagem, sempre jogando abaixo sua popular associação com maldições e orgias. Muitos trabalhos são feitos para o fortalecimento psíquico. Seu feminismo e preocupação com a opinião pública lhe dá uma única atitude perante o sexo - por outro lado, sua pretensa descendência dos antigos cultos de fertilidade e seu foco feminista sobre a sexualidade feminina força a reconhecer o sexo como uma fonte de poder mágico; por outro lado, sua atenção por aparências as fazem as campeãs da monogamia. A convenção perfeita de bruxas é composta de pares dedicados e profundamente comprometidos. Nenhuma orgia crowleana, por favor. Quanto ao Deus e a Deusa, a maioria das Wicca não são claras em relação a se eles devem ser considerados como aspectos masculino e feminino de uma única deidade, ou como duas entidades distintas. Apesar da Wicca Graça ter uma linha afirmando que a Deusa deve ser encontrada dentro de cada um, muitas Wicca a tratam como um ser externo. Começando com Alex Sanders, muitas se depreenderam do Gardnerianismo, formando infindáveis ramificações, quase todas mantendo a ênfase feminina. A Wicca moderna poderia ser chamada a religião do movimento de libertação das mulheres.

As três correntes do ocultismo ocidental descritas acima podem ser consideradas a ortodoxia - da qual a Magia do Caos deriva e contra as quais se rebela. Antes de poder explorar a Magia do Caos inteiramente, devemos parar brevemente para examinar quatro outras tendências que a influenciaram profundamente: o Jungianismo, a Parapsicologia, a Física, e a Filosofia Oriental.

Do trabalho de Carl Jung precisamos dizer pouco, exceto que sua teoria dos arquétipos - imagens universais que simbolizam as experiências humanas e aspectos da mente humana - determinou definitivamente a visão de todos os deuses da Magia do Caos. Apesar de que a maioria dos praticantes do Caos poder considerar a ciência como apenas um outro sistema, não podem ajudar, mas ser influenciado pelas pesquisas parapsicológicas, as quais sugerem que a habilidade psíquica pode ser função da mente humana - tornando possível a idéia de poder mágico sem assistência desencarnada. A física do Quantum, com suas partículas indeterminadas e, na maioria das vezes, teórica, deve encontrar um lugar confortável em seu coração. Mas a filosofia oriental é a sua maior fonte, e não podemos entender sua definição especial do Caos - uma pedra angular de suas idéias - e como difere da tradicional visão Ocidental, sem entender o pensamento Asiático.

Qualquer que sejam suas diferenças superficiais em terminologia e sua semelhança prática, as três grandes correntes da filosofia oriental - Hinduísmo, Budismo e Taoísmo - estão unidas ao proclamar que o Universo é um vasto, um todo mutável, além de todos os conceitos, categorias e definições. O Hindú o chama Brahman, e seu deus, como as teóricas partículas da física quântica, são meramente símbolos de seu aspecto cósmico. Para o Budista , é o Vazio - aquilo além de toda designação e descrição - e seu panteão de Budas e Bodhisattvas são, como os arquétipos jungianos, símbolos de estados psicológicos. O Taoísta simplesmente o chama Tao, o Caminho. Além disso, eles concordam que a natureza íntima do homem - que o hindú chama "Atma", o Budista "Nenhuma Alma", e o Taoísta "Sem Ego" - é identificado com aquele do Universo. Em todas as três religiões conhecer existencialmente estas duas coisas é considerado a Iluminação - liberação das visões e opiniões, todas as quais somente podem ser falsidade, servidão e ilusão.

Aqui reside a diferença entre as definições dos praticantes tradicionais e dos praticantes do Caos sobre aquela temível palavra - Caos. Para os praticantes do Caos, não é a ausência de ordem, mas - para parafrasear Henry Miller - uma ordem além da compreensão. É análogo ao Brahman Hindú, ao Vazio Budista, ao Tao do Taoísta, e ao Wyrd dos antigos anglo-saxões. Está em constante mutação - pode ser experimentado, mas está além de categorização intelectual. A ordem é, na melhor das hipóteses, o aspecto indescritível da realidade que nosso equipamento sensorial nos permite perceber - a abelha vê a flor de modo diferente dos seres humanos. Na pior das hipóteses, a Ordem é simplesmente um padrão ilusório projetado pelos nossos preconceitos. Para asserção de Albert Einstein que Deus não joga dados com o Universo, o praticante do Caos pode responder que o Universo é deus - se alguém tiver que usar tal palavra, que é emocionalmente carregada - e Ele é a única coisa com quem Ele pode sempre jogar. Desde que ele acredita que a realidade é basicamente indescritível, ele renuncia a todos os dogmas, tomando idéias práticas de todos os lugares, combinando-as conforme a situação, abandonando-as quando não mais se ajustam. Num Universo incognoscível nenhuma crença é válida - contudo, toda crença é válida enquanto que o adepto a reconheça como uma ferramenta, uma ilusão necessária, e enquanto ela continua a trabalhar para ele.

O modelo integral da Magia do Caos pode ser facilmente observado com um rápido vislumbre dos pensamentos de um homem que seus praticantes consideram o pai da Magia do Caos - Austin Osman Spare.


Austin Osman Spare



Outrora membro da Golden Dawn e associado a Crowley, até que uma desavença rompeu a relação deles, Spare incessantemente denunciou a religião, a ciência e Magia Cerimonial. Seus ataques a todos os três eram baseados na mesma premissa: em um Universo que desafia descrição, todos os sistemas de crenças somente podem ser falsos. Desde que o homem é parte do Universo e, portanto, Deus, tudo que a religião pode lhe oferecer são falsos ídolos que o impedem de perceber sua verdadeira divindade. Desde o início Spare viu que a ciência é uma forma de religião, uma tentativa de designar o inominável, um sistema de categorias que rejeita tudo que não pode encerrar. A Magia Cerimonial, ele considerou como uma perda de tempo demasiadamente complicada - perpetrada sobre o ingênuo por charlatões gananciosos - que impede o homem de descobrir sua verdadeira fonte de poder, que está dentro dele mesmo. Spare pregou a necessidade absoluta de simplicidade em todos os trabalhos mágicos e, ao invés de prece e ritual, ele considerava como técnica mágica máxima a criação e meditação sobre o sigilo - um desenho pessoal de letras estilizadas expressando um desejo, ocultando-o, contudo, da mente consciente. Os Sigilos têm tradicionalmente, sido o desenho de talismãs mágicos, mas Spare afirmava que seus poderes não estavam intrínsecos às linhas e figuras do desenho - seus poderes vinham de seus efeitos sobre as camadas mais profundas da mente inconsciente. Portanto, cada uma deveria criar seu próprio desenho, o qual teria de ser suficientemente simples para ser facilmente visualizado e suficientemente complexo para que a mente consciente esqueça seu significado original.


Em seu trabalho sobre sigilização, nós observamos a influência Oriental nas idéias de Spare. Embora o Sigilo deva ser criado sob a influência de um ardente desejo, e deva ser visualizado e meditado enquanto a obsessão persistir, pode não ter efeito mágico até que tenha-se esgotado o desejo, esquecido o significado do Sigilo, e tornando-se completamente indiferente ao desejo e ao símbolo que ele representa. Para Spare, a meditação significa manter o Sigilo na imaginação até que ele gradualmente exclua todos os outros pensamentos e, então desbotar-se da consciência, deixando a mente vazia - o polo oposto para fixar-se a mente sobre um símbolo, avaliando seu significado, repelindo outras idéias, e focando toda sua vontade concentrada em sua realização. Qualquer um que tenha um conhecimento superficial do Tantra Hindú ou Budista reconhecerá isto como a prática do Tantrika, aqueles que realizam idênticas visualizações sobre os Yantras - desenhos geométricos representando forças cósmicas e psicológicas. Os Yantras são os modelos básicos por trás das Mandalas - e considera a satisfação de um desejo como um passo em direção ao desprendimento de todos os desejos.

Como se aquilo não fosse suficiente, o conceito de Universo de Spare parece com as idéias asiáticas reformuladas. O absoluto ele chamou Kia - uma palavra que não tem nenhum significado em nenhuma língua ocidental e assemelha-se à palavra japonesa "Ki", que significa o sopro vital por trás de toda a vida. Percebe o quão de perto as palavras de Spare ecoam naquelas de Lao Tzu. Spare: "De nome, não tem necessidade, para designá-lo, e eu o chamo Kia...o Kia que pode ser expresso em idéias concebíveis não é o Kia eterno". Lao Tzu: "o Tao que pode ser dito não é o Tao...Dele mesmo, não tem nome...por falta de palavra melhor, eu o chamo 'o Tao'". O Kia - que poderia tão facilmente ser chamado Caos - está além de descrição, um todo completo, sem partes divisíveis, um zero inconcebível. Contudo, ele se manifesta em dualidades aparentes - macho e fêmea, luz e escuridão, nascimento e morte. Na fórmula de Spare, do nada vem dois. Mas os pólos de cada dualidade não são absolutos neles mesmos; cada um é como um braço, unidos por um tronco, o qual neste caso não pode ser descrito. As dualidades sempre surgem juntas. Alegria emerge com angústia, fé com dúvida. Portanto, a mente não pode evitar o conflito e a contradição. A solução de Spare não é para escolher entre impulsos opostos, mas observá-los simultaneamente - um estado mental que fixa sua consciência, por exemplo, sobre a aurora e anoitecer, horas crepusculares que não são nem dia nem noite. "Nem-Nem" de imediato lembra o hindú "Neti-Neti", nem isto/nem aquilo, a dialética negação de Nargajuna pelo qual nada pode ser dito para existir ou não existir, a não escolha do eremita taoísta, e a percepção não discriminante do Mestre Zen. Ele também insiste que o ego permanece num estado de auto-amor - que não deve ser confundido com narcisismo - um estado onde é absorvido com felicidade na alegria de sua própria existência e não tem necessidade de exaltar-se continuamente por infindáveis conquistas e aquisições. Como diz os Upanishads: "Permita que o Eu (self) encontre refúgio no Eu (self)".

Durante sua vida, Spare - um artista brilhante, que produziu uma série de notáveis desenhos automáticos - nunca recebeu a atenção que foi dado a seu antigo companheiro, Crowley. Os pequenos comentários que faziam eram em sua maioria ruins. Os críticos de arte odiavam seu trabalho e muitos ocultistas, inclusive Crowley, o consideravam um Mago Negro. Suas idéias - que ele comunicou em pequenos livros, escritos em um estilo exortativo, denunciatório e declamatório reminescentes ao "Assim falava Zarathrusta" - foi apenas recentemente dada a consideração que eles mereciam.

Talvez este seja o mais alto cumprimento para um homem que detestava que aqueles responsáveis pela redescoberta de seu trabalho não o tomam como uma autoridade absoluta. Enquanto que Ray Sherwin, Julian Wilde, e "O Círculo do Caos" possam louvar o trabalho de Spare, o consideram o ponto de partida, uma influência sobre um precursor de suas próprias diligências. Ao contrário dos seguidores de Crowley, eles não transformaram Spare num "Asno Dourado". Os discípulos de Spare - como eles provavelmente odiariam este termo - diferem dele tanto quanto eles diferem de cada um deles. A maior diferença é que os sucessores de Spare, enquanto o criticam, não rejeitam ritual fora de controle.

Antes de nós analisarmos mais detalhadamente como a Magia do Caos difere do Ocultismo Tradicional, seria proveitoso uma breve revisão do trabalho dos praticantes que se tornaram conhecidos na América.

Do "Círculo do Caos", nós podemos dizer muito pouco. São uma coleção eclética de diversos ocultistas que reuniram-se em meados dos anos sessenta - até certo ponto em reação a crescente sectarismo e mercantilismo com o mundo do ocultismo. Criaram um conjunto de rituais tecendo diferentes elementos das tradições de vários de seus membros. Até então, tinham somente publicado um livro, The Rites of Chaos, com direitos em nome de "Paula Pagani". É uma coleção de rituais sazonais, celebrações rimadas dos tradicionais dias festivos da Wicca. Originalmente conhecido como "O Círculo Wyrd", o "Círculo do Caos" é basicamente em estilo da Wicca, se não completamente em substância.



Em seu sentido mais verdadeiro, o mesmo não pode ser dito de Julian Wilde. Ele se considera um Wicca Tântrico Xamânico e é exatamente tão eclético quanto esta designação subentende. Por sua própria conta estudou a Wicca, a Cabala, o Shamanismo, o Zen e o Budismo Tântrico Tibetano, usou o sexo, as drogas e o Rock n'Roll como auxiliares para alcançar o êxtase, e foi influenciado pelos apontamentos de Carlos Castañeda e Michael Moorcook. Seu "Grimoire of Chaos Magick" - uma fragmento de seu Livro das Sombras pessoal que ele tinha publicado como uma coleção de sugestões para almas da mesma opinião - é um livro delgado, ainda que extraordinário. Seu estilo é ainda mais feroz e denunciatório do que o de Spare. Suas invocações são versos livres, cheias de imagens notáveis transmitidas em uma linguagem bárbara, ainda que majestosa - entre suas linhas vislumbra-se um homem que sobreviveu a quase todo tipo de catástrofe pessoal. Como se para provar a sinceridade de compromisso ao ecletismo, seu livro contém ao mesmo tempo um áspero ataque sobre e um ritual de - Aleister Crowley. Wilde é o fundador da Igreja de Ka'atas, uma entidade que não existe no sentido legal e é somente um nome para aqueles que mais ou menos compartilham de sua visão. Ele é verdadeiramente, como descreve-se, um Guerreiro do Caos.

Ray Sherwin é talvez o mais convencional dos praticantes do Caos. Como membro da I.O.T. - uma Loja Inglesa que rompeu com a O.T.O. - é um mago Cerimonialista. Ao contrário de Spare e Wilde, seus livros são escritos em um estilo calmo e analítico, sistematicamente explorando pontos de interesse prático para o mago. Um ponto que merece atenção é que a I.O.T. - ao contrário de outras praticantes do Caos - considera o Caos como o fim de uma dualidade, o outro fim sendo Cosmo/Ordem. Sherwin não parece concordar plenamente com esta visão, mas não a rejeita completamente, tomando uma postura de talvez sim/talvez não.

Após uma visão geral da Magia do Caos, agora iremos examinar detalhadamente como seus praticantes diferem do ocultismo ortodoxo e um do outro. Infelizmente, teremos de limitar a maior parte desta discussão à visão de Spare, Wilde, e Sherwin, já que o "Círculo do Caos" somente publicou rituais sazonais.

A Fonte de poder: O que o mago considera como fonte de seu poder determina o resto de sua prática. Obviamente, o Satanismo acredita que seu poder é um presente de seu mestre, o Diabo. O Cerimonialista acredita que seu poder deriva, por meio de uma série de entidades astrais, em última instância do Senhor das Hostes, o Deus mais elevado - um crowleano diria que somente os seres astrais existem e dão poder. E as adeptas da Wicca colocam sua fé na Deusa, no Deus, e nos elementais. Mas, todos os praticantes do Caos concordam que as energias ainda não descobertas no subconsciente humano são a verdadeira fonte da Magia. Eles compartilham esta visão com a filosofia Oriental, com a parapsicologia e com modernos teóricos da Magia, como Issac Bonewitz.

Os Exercícios Preparatórios: A maioria das tradições mágicas contêm um corpo de exercícios delineados para abrir o noviço às influências mágicas, as quais devem ser dominadas antes de lhe ser permitido prosseguir para os trabalhos Ritualísticos. Sem dúvida, o Satanismo considera algumas orgias e umas poucas centenas de libra da erva mais forte que possa comprar, suficiente para a tarefa. Tanto as modernas adeptas da Wicca como os Cerimonialistas concentram-se na projeção astral e na visualização - usualmente sobre os Tattwas e sobre os Arcanos Maiores do Tarot. Spare, por outro lado, coloca toda ênfase sobre a postura da morte - na qual relaxa-se totalmente o corpo e mantém-se a mente o mais vazia possível pelo maior tempo possível, uma prática vantajosa para desenvolver a condição mental de "Nem - Nem". E Wilde criou todo um novo conjunto de exercícios. O mais interessante deles é uma meditação, baseada no Tantra Tibetano, na qual visualiza-se o corpo fundindo-se completamente e então reconstruindo-se do nada, e outra meditação na qual visualiza-se os chakras - centros psíquicos dispostos um sobre o outro na espinha dorsal, um conjunto yogi - como salas modernas conectadas por uma escada espiral. Fiel à forma, Wilde diz que não precisa acreditar na existência literal dos chakras. O aspecto notável de todos estes exercícios é que eles tentam colocar o praticante em contato com o seu eu (self) mais profundo - não com entidades externas ou planos.

A Adivinhação: Usualmente, o próximo passo no treinamento do noviço é o aprendizado dos vários métodos de predizer acontecimentos vindouros. As adeptas da Wicca tendem a concentrar-se no Espelho Mágico, na Bola de Cristal, e ocasionalmente na leitura de padrões das folhas de chá ou coisa semelhante. Tanto os Cerimonialistas como as Wiccas dão grande importância ao Tarot. Modernamente, o I Ching e as Runas tornaram-se popular, e ultimamente a tábua Ouija está sendo redescoberta. Os ocultistas medievais pensavam que os métodos divinatórios eram canais pelos quais os Deuses, Semi-Anjos, e espíritos comunicavam-se com os homens. Mesmo Crowley acreditava que suas operações dependiam das inteligências astrais. Embora ainda haja aqueles que mantém-se fiéis a visão antiga, os praticantes mais modernos consideram os mecanismos de adivinhação como meios de focar a mente consciente, permitindo ao subconsciente apresentar seu conhecimento do futuro. Todo praticante do Caos concorda com a visão moderna. Wilde leva isto um pouco mais além sugerindo que a quiromancia e a astrologia, as quais a maioria dos ocultistas consideram como "ciências" objetivas, também são mecanismos de focalização. Para Wilde - que desenhou sua própria versão dos Arcanos Maiores do Tarot para seu uso particular - a disposição dos planetas num horóscopo ou as linhas na palma da mão provavelmente não tem outro significado senão aquele que ele sugere para as faculdades psíquicas do intérprete.

Iniciação: em todas as tradições ocultas, Ocidental e Oriental, a iniciação é considerada a morte do antigo ser e o simultâneo nascimento da Pessoa Mágica. Geralmente, é então que o poder mágico é conferido - na tradição Oriental, pelo instrutor - ao iniciado durante a cerimônia. Os praticante do Caos têm uma visão mais complexa do processo. Para Spare, a iniciação era quase tanto uma farsa como qualquer outra cerimônia. Sherwin e Wilde concordam que em uma iniciação propriamente dita não significa mais do que a aceitação dentro de um grupo particular de praticantes. Wilde toma a visão Shamanística de que a iniciação real é um produto de uma severa crise pessoal - pego numa situação da qual não há nenhuma via normal, de escape, o indivíduo convoca espontaneamente um poder desconhecido de seu subconsciente. Ao mesmo tempo concorda com a visão de Wilde, Sherwin acredita que é da responsabilidade do grupo de iniciados produzir artificialmente uma crise controlada no iniciado - uma prática empregada pelas antigas escolas de mistério do Egito, da Grécia, e de Roma, e das ordens maçônicas.

Ritual e Cerimônias: Os praticantes tradicionais da Magia entendiam o ritual com uma ação que agradava tanto aos Deuses que eles consentiriam com o pedido do realizador como que uma forma de retransmissão de circuito cósmico em direção a um objetivo específico. Aprender cada detalhe da cerimônia sempre foi considerado de suma importância para o sucesso da operação - um erro significaria um fracasso. A Wicca moderna, entretanto, reconhece que a intenção determina a eficácia do rito mais do que a perfeição de sua forma. A Magia do Caos concorda com a Wicca moderna - e, outra vez, vai um pouco mais além. Wilde e Sherwin consideram o ritual como uma forma de teatro, desenhado para incitar a emoção do realizador a um nível febril e, então, descarregá-lo para fora - uma catarse que deixa o mago drenado da obsessão e coloca sua mente no estado neutro "Nem - Nem" de Spare. Eles acreditam que a Magia não pode realizar seu trabalho enquanto a consciência do mago desejar que a operação tenha resultado. A fim de conseguir o seu desejo, não deve ser por muito tempo seu desejo. Ao contrário das várias tradições Cerimonialistas e de praticantes da Wicca, todos os quais empregam métodos específicos de dispor um círculo, cada um deles afirmando que seu modo é o único correto - Wilde, Sherwin, e o Círculo do Caos aconselham ao praticante de dispor seu Círculo da forma que preferir. Enquanto que os Magos tradicionais de todos os gêneros exigem que os rituais realizados para fins específicos devem ser executados com os incensos, óleos e velas coloridas apropriadas, Wilde sugere a utilização dos incensos mais alucinantes e de velas de cores mais berrantes que se possa encontrar - para todos os rituais. Também sugere a visualização de vários animais como Guardiães do Círculo, ao invés dos tradicionais Senhores dos Elementos. Sherwin sugere tanto a visualização de seres do espaço, trajando as indumentárias apropriadas, ou objetos sexuais nus nas quatro atalaias. Acreditando que a fonte do poder reside no praticante, Wilde sugere que o Mago excite sua ira, ódio, loucura, mágoa e, especialmente, ardor - sugerindo que antes do ritual ou masturbe-se ou seja felado por alguém, parando, antes do orgasmo, poupando a liberação sexual até o ponto mais alto do rito. Ele acredita que preces de súplicas aos deuses deveriam ser compostas espontaneamente no ponto mais alto do ritual. Sherwin, por outro lado, refuta a teoria que os rituais específicos deveriam ser realizados em períodos específicos, ponderando que nem todas as pessoas são notadamente afetadas pelas fases da lua e que as tábuas designando certos dias e horas para certos planetas foram desenhadas antes da descoberta de Netuno, Urano e Plutão e estão, portanto, invalidadas. O melhor momento para realizar um ritual é quando a necessidade e a oportunidade se apresentam.

Os Deuses do Caos: Como os praticantes do Caos consideram seus deuses como projeção de sua própria mente, sua atitude frente a eles é eclética e os Magos ortodoxos diriam - irreverente. O Grimório de Wilde relaciona um potpourri de divindades de uma miscelânea de panteões. Ele diz que os Deuses podem ser adaptados das palavras de escritores tais como Tolkien, e mais além afirma que qualquer Deus que não proporcione um mínimo de utilidade deveria ser esquecido. De modo geral, os praticantes do Caos preferem concentrar-se em deidades recém redescobertas ou recém criadas. Dentre as redescobertas algumas favoritas são Baphomet, um deus cornígero andrógino que, no século XII, os Cavaleiros Templários usaram como um símbolo Cabalístico, foi descrito no século XIX por Eliphas Levi, e é considerado por Wilde como a síntese total de todas as forças universais e a personificação do Caos ativo. Outro favorito é Eris, Deusa da Discórdia, uma divindade grega muito esquecida que foi considerada (na "teogenia" de Hesíodo) como sendo a mais selvagem metade feminina de Eros, o Deus do Amor. Para os gregos antigos, Eros e Eris juntos condensavam uma Afrodite andrógena. O Círculo do Caos reverencia a Thataneros - uma divindade criada por Thessalonius Loyola - que representa o princípio freudiano de Sexo e da Morte. Wilde criou K'atas - um velho sábio oriental de olhos verdes, que funciona como um guia calmo através de um temporal caótico. Levando a teoria do Caos ao extremo, pode-se dizer que um herói de revista em quadrinhos como o Super-Homem pode ser o melhor protetor de alguém que possa sentir qualquer afinidade com um deus guerreiro clássico como Marte.



Os Trabalhos Mágicos: Ao contrário de Wilde, que não tinha nada de novo a acrescentar às técnicas da Magia Prática - ele sugere que se compre encantamentos tradicionais e candle-burning books e adapte seus ensinamentos a sua necessidade. As experiências de Sherwin o levaram a algumas inovações interessantes. Como se para enviar um tremor através do corpo de Spare, Sherwin sustenta que os sigilos são melhor visualizados por meio de intensos rituais. Tomando ainda mais além o trabalho de Spare, Sherwin acredita que se poderia extrair certas sílabas das sentenças que foram sigilizadas e então entoá-las como uma espécie de mantra sem sentido enquanto se medita sobre o sigilo.

Como podemos ver, os praticante da Magia do Caos são unidos e distintos uns dos outros pela sua ênfase na experimentação e experiência individual. A Magia do Caos não é um tipo novo ou diferente de Magia. É um conjunto de princípios de trabalho - alguns novos, outros antigos, - os quais o praticante individual pode reintepretar criativamente para adaptá-lo suas próprias necessidades.

Que tipo de efeito tal abordagem personalizada terá sobre o ocultismo americano é difícil de dizer. Quem pode prever o Caos? Pode muito bem encantar o individualismo americano. Pode comprovar uma ponte útil entre o Ocultismo Oriental e Ocidental - uma ligação que no passado foi sabotada pela procura do bajulador homem branco liberal pelo selvagem exótico - a atávica incapacidade do homem branco conservador em aceitar a sabedoria de qualquer um que não se pareça com ele ou possua sua tecnologia, e o complexo de inferioridade que leva os professores asiáticos a tratar os Ocidentais como ricos atrasados. Na pior das hipóteses pode comprovar somente outro slogan expelido pelos mentecaptos Mohawks que, sendo tão estúpidos para ver o verdadeiro Caos na ordem do dia a dia, invoca o Caos ao quebrar as garrafas de cerveja na calçada e vomitando na entrada das outras pessoas. Até mesmo a possibilidade ameaçadora é tolerável, contudo, se a Magia do Caos silenciará às declamações dos maxi Wicca matriarcais, finaliza a necessidade de autenticar as tradições antigas que foram criadas dois dias depois por bruxas com mentalidade étnica, e põe fim ao incessante debate alimentado por facções ocultistas rivais sobre quantos planos a realidade possue e qual é o verdadeiro esquema de cor com que a magia deve trabalhar - todos os quais atualmente dominam o ocultismo Americano. Se a Magia do Caos pode parar os Cerimonialistas americanos de lamber os pés de suas estátuas de Aleister Crowley...mas, talvez algumas coisas são demais para de desejar.

Não importa. Qualquer coisa que possa advir, os Ingleses estão nos invadindo de novo.

Agora seu estandarte diz: O Caos Domina

É bom lembrar mais de uma vez: "Cuidado com o que pedes através da magia, pois poderá conseguir."

Lí um artigo interessante sobre isto, pelo excelente Escritor de Quadrinhos Grant Morrison em que ele conta que, certa vez, só para testar a Sigilização, fez um para "se encontrar com o Super Homem". Um dia ele estava sentado num banco de praça em San Diego, quando de repente: É um pássaro,? É um avião? Não, era o Super Homem ali mesmo, em carne e osso, de pé em sua frente. Ele mais que prontamente fez uma das melhores entrevistas de sua vida. E depois o Super foi para a famosa Convenção de Quadrinhos e afins de San Diego. Era um fã vestido a caráter. O Universo e a Magia nos prega peças. Seja específico e tenha certeza do que está pedindo...- José Carlos Neves





Fonte: http://www.alanmoore.com.br/Artigo35.aspx






segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

A contraforça literária





Por: Vladimir Cunha


Injustamente esquecido, relegado a um canto escuro do quarto de despejos da contracultura, Arco Íris da Gravidade, do escritor norte-americano Thomas Pynchon, permanece como a obra mais obscura e controversa da literatura mundial. Sua história tem início na Inglaterra durante o final Segunda Guerra Mundial. É lá que ficamos conhecendo Tyrone Slothrop, um tenente do exército norte-americano com a estranha compulsão de fazer sexo nos lugares onde irão cair as bombas V2 lançadas pelos alemães. Sem razão aparente, Slothrop consegue prever quais locais serão bombardeados. E sua busca pela explicação para esta suposta mediunidade é o fio condutor da história.


Mas a força do romance de Thomas Pynchon reside mesmo em sua complexidade temática e estrutural. Ao longo de quase 900 páginas, ele discorre, entre outras coisas, sobre o militarismo excessivo e o perigo nuclear (é preciso lembrar que o livro foi escrito nos anos 60, no auge da Guerra Fria), a excessiva presença da tecnologia na mediação das relações humanas, a possibilidade de manipulação dos sistemas de percepção sensorial, o sexo enquanto forma de dominação na sociedade moderna, a expansão da mente através das drogas, a Entropia e a morte do Universo, o colonialismo europeu e a existência de um Estado mundial invisível controlando nossas vidas. Tudo isso costurado por peripécias tão engraçadas quanto improváveis e imensos tratados sobre física, psiquiatria, química e História.




Propositalmente, Pynchon criou um narrador de voz pouco confiável, que se perde em devaneios e digressões à medida que o romance avança para o final. Em Arco Íris da Gravidade é impossível afirmar o que é alucinação, o que é mentira e o que é, de fato, realidade. Personagens mudam de nome sem que o leitor seja avisado, situações são descritas nos mínimos detalhes apenas para descobrirmos depois que elas nunca aconteceram e o caminho que parece mais óbvio nunca é aquele que conduz a um perfeito entendimento da trama. É um jogo onde o autor abusa de mensagens cifradas, significações ocultas e trajetórias labirínticas, que levam o leitor a se perder no emaranhado de situações que surgem ao longo da história.



Adepto da teoria do caos e do conceito de Entropia, Pynchon optou por deixar o livro aparentemente sem final. Gotfried aprisionado no Foguete 00000 e sua relação carnal e subserviente com o Tenente Blicero são o sexo como forma de opressão, abrigado sob a sombra da Tecnologia e da indústria cultural, o prazer que nasce do corpo subjugado, destruído simbolicamente em nome do entretenimento. Os eventos finais encenados por ele são como uma cadeia de fractais, na qual os acontecimentos prolongam-se de um determinado ponto até o infinito.



Arco Íris da Gravidade guarda ainda semelhanças com as Zonas Autônomas Temporárias criadas pelo anarquista Hakim Bey. Enquanto reconstitui seu passado, Slothrop mergulha na Zona, um imenso inconsciente coletivo físico e metafórico encravado no coração da Europa. A Zona guarda a resposta para o enigma de Slothrop ao mesmo tempo em que lhe confronta com simbolismos arcanos, perversões sexuais e ultraviolência. Ocorre então uma breve suspensão das Leis e dos costumes, a quebra momentânea das barreiras do Ego. Slothrop - confinado à Zona, entorpecido por toda sorte de drogas, incapaz de reagrupar os mecanismos constituintes de sua identidade (uma espécie de largura de banda psicológica) e atraído pelo misterioso Foguete 00000 -cede ante a fragmentação sensorial. Ele agora é apenas uma aparição, um impulso psíquico que se desfaz em meio ao caos da Zona. Ao contrário de Gotfried – e de certo modo, de todos os personagens do livro – a opção de Slothrop em excluir-se da Matrix resulta num lento, mas progressivo, processo de esquecimento. Ou, numa interpretação mais otimista, na liberdade total a partir de uma vida longe das regras sociais.






Há quem goste de Arco Íris da Gravidade por seu humor picaresco, há quem veja na obra um tratado sociológico sobre o século XX, há quem admire a erudição de Pynchon há quem enxergue mensagens ocultas no estilo hermético do autor e há quem aprecie o livro por todos esses fatores. Ao subverter classificações e misturar estilos literários diversos com informações acadêmicas e um senso de humor meio bizarro, Thomas Pynchon ultrapassou as fronteiras da literatura pós-moderna e estabeleceu um novo parâmetro estético, várias vezes copiado mas jamais igualado. Talvez seu livro tenha sido a última obra-prima da literatura mundial e o último Grande Romance Americano. Você já deve ter ouvido isso antes, mas nada que se compare a esta vez.


Fonte: http://kfl.blogspot.com/


sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

O filósofo das HQs




Edgar Franco

Entrevista com Edgar Franco


Prolífico colaborador de fanzines e alternativos, Edgar Franco é o artista de quadrinhos herméticos, prenhos de reflexoes filosóficas, numa linguagem poética bem particular, mas que se destaca também por desenhos bem caracteristicos, humanóides de ambos os sexos e/ou hermafroditas, seres mitológicos, paisagens oníricas biomecanóides, que lembram a arte de Moebius, Caza, Bilal, Giger e outros mais.

- Idade, onde nasceu e cresceu, estado civil, filhos, formação acadêmica e profissional.

Estou atualmente com 31 anos, nasci na cidade de Ituiutaba no Triângulo Mineiro (sou extremamente telúrico, tenho que ir para minha cidade natal pelo menos duas vezes ao ano para repor minha energias...), sou casado com Rose já há 4 anos e estamos juntos a 12 (ela é minha conterrânea-alma gêmea), ainda não temos filhos. Sou graduado em arquitetura e urbanismo pela Universidade de Brasília(UnB), em 2001 conclui o mestrado em multimeios na Unicamp , onde estudei a linguagem das HQs na Internet, o que resultou na dissertação "HQtrônicas (Histórias em Quadrinhos Eletrônicas) – Do Suporte Papel à Rede Internet,- ver artigo - e atualmente faço doutorado em artes na Escola de Comunicações e Artes da USP. Além de criar HQs para revistas & zines, trabalho com ilustração (capas de CDs & Livros), web arte e sou professor dos cursos de arquitetura e urbanismo & ciência da computação da PUC - MG, na unidade de Poços de Caldas, cidade onde resido atualmente.



-O quê e quando iniciou seu interesse pela Literatura, Quadrinhos e Cultura Pop em geral? Na infância você lia muito, tanto HQ quanto Literatura mainstream? Pode citar autores e obras que o influenciou?

Meu pai é um leitor inveterado, tem atualmente uma biblioteca com mais de 5.000 volumes, envolvendo todos os gêneros e assuntos, desde tenra idade eu cresci no meio dos livros, e foi muito natural o meu descobrimento do universo das letras. Meu pai sempre me deixou livre para escolher o que ler e inicialmente tive o meu interesse despertado por contistas como Edgar Allan Poe (meu nome é uma homenagem de meu pai a Poe e Edgar Wallace, dois autores que admirava na época), Guy de Maupassant, O. Henry, Ray Bradbury, isto por volta dos 10-11 anos. Mas desde tenra idade meu pai já comprava gibis pra eu ler, Disney, Brotoeja, Mortadelo e Salaminho, Mônica, durante uma fase li poucos gibis e me concentrei mais na literatura, foi por volta dos 13 anos que comecei a retomar gradativamente o interesse por quadrinhos, isso veio junto com a paixão pelo desenho, e na época um certo apreço pelas temáticas mórbidas, pelo horror. Eu assisti meu primeiro filme de horror aos 4 anos de idade, foi a versão clássica (p&b) de "O Fantasma da Ópera" que passou numa sessão noturna de TV em 1976, meu pai iria assistir ao filme, eu pedi a ele se podia ver também e ele deixou, até hoje ele se lembra bem de meu interesse e atenção, assisti tudo até o fim e nem precisei dormir na cama dos meus pais, he,he. Eu não gostava de super-heróis, não lia mesmo, achava um saco principalmente porque quando tentei ler parece que o gênero vivia uma fase horrível, só tinha herói dando porrada em herói, fui ter interesse novamente em super-heróis na década de oitenta, quando surgiram as obras clássicas de Frank Miller, Alan Moore, Grant Morisson; a única exceção foi o Conan, eu gostava de muitas HQs, principalmente as arte finalizadas pelo Alfredo Alcala. Mas o que eu lia mesmo era terror nacional, colecionava as revistas da D-Arte (que traziam trabalhos maravilhosos de Mozart Couto, Rodval Matias, Colin, Cortez, Ofeliano) e também garimpava nos sebos as antigas Kripta (com quadrinhistas clássicos dos EUA) e as Spektro & Pesadelo da Editora Vecchi. Foi também na década de 80 que vim a tomar contato com a HQ européia, conheci através da revista Animal e me deslumbrei, a partir dali vi que o que eu começava a criar tinha mais semelhanças com aquelas propostas do que com tudo que eu já tinha visto de quadrinhos. Só mais tarde fui conhecer autores como CAZA e DRUILLET dos quais sou grande admirador, mas considero que eles me influenciaram pouco, o meu trabalho já seguia o caminho atual quando me deparei com as obras deles, foi mais um lance de identificação do que uma influência propriamente dita. Eu sou mais influenciado pela literatura, artes plásticas e música do que pelos quadrinhos, gosto de citar como influência sempre o que estou lendo/vivenciando no momento, por isso agora estou sobre a influência do pensamento de Ken Wilber (Escritor e ensaísta americano, um dos criadores da psicologia transpessoal autor de " O Espectro da Consciência"), Rupert Sheldrake (polêmico biólogo que concebeu a "Teoria dos Campos Morfogenéticos"-veja Entrevista), Peter G. Bentley (autor de "Biologia Digital", livro onde eles questiona as noções vigentes do que é real e o que é virtual), Hans Moravec (cientista norte americano, estudioso de robótica e I.A. e autor de "Robot – Mere Machines to Transcendent Mind"), Stelarc (artista australiano que defende a tese de que "O Corpo Humano Está Obsoleto"), Eduardo Kac (que faz experimentos com "arte transgênica") e Stanislav Grof (criador da teoria da "mente holotrópica").



Ken Wilber



Na música tenho experimentado as vibraçoes de bandas como Negura Bunget (da Transilvânia), Rakoth (da Russia), Thee Maldoror Kollective, Napalmed, Recalcitrant, Dismal, Brighter Death Now, Daniele Brusaschetto, entre outros, inclusive tenho um site chamado KREPUSKULUM, onde faço resenhas e entrevistas com bandas underground do mundo inteiro, já está na décima edição, com mais de 700 resenhas de CDs e 90 entrevistas, quem quiser conhecer visite: http://www.geocities.com/krepuskulum/ .

-Como se iniciou profissionalmente no gênero e qual foi sua primeira atividade?

Bem, eu já publiquei HQs esporadicamente em diversas revistas, algumas que tiveram distribuição nacional, como a Metal Pesado e a Quark, mas também tive HQs publicadas em revistas como Quadreca (Eca/USP), Fêmea Feroz, Ervilha e no álbum Brazilian Heavy Metal, além de outras diversas HQs publicadas em revistas underground e alternativas do Brasil e Europa (Alemanha, Romênia, Portugal, Espanha, França e Inglaterra). Mas minha maior produção está concentrada nos fanzines, já publiquei em mais de 400 títulos, incluindo várias edições solo, e já ultrapassei a marca das mil páginas. Comecei a publicar em zines com 13-14 anos, quando criei minha primeira HQ, o nome do zine era Odisséia; o trabalho trazia um horror meio visceral, tinha o título de "O Filho de Lúcifer", mas já dava pra perceber a veia poética contaminando a narrativa.
Falar em "profissionalmente" para artistas dos quadrinhos no Brasil é piada, praticamente ninguém trabalha "profissionalmente" na atualidade...é complicado. Mas meu trabalho também sempre foi motivo de resistência por parte dos editores, é tido como hermético, pretencioso, ou não é considerado como quadrinhos por alguns, ou é tachado de setentista, hippie, ultrapassado, pornográfico, ou vanguardista demais...tenho colecionado dezenas de adjetivos que tentam denegrir minha proposta artística, mas apesar deles vou dando continuidade à obra, pois faço por prazer, por paixão. Se o Brazil tivesse um mercado de quadrinhos, artistas como eu, Gazy Andraus & Antônio Amaral seríamos os últimos da fila a sermos procurados pelos editores, já que não temos esse mercado, temos que nos contentar com a auto-publicação e com as oportunidades esporádicas e com o maravilhoso universo dos zines.




-Quando foi seu primeiro contato com o trabalho de Alan Moore e qual obra lhe causou algum impacto especial?

Comecei com "A Piada Mortal" e depois li o "Monstro do Pântano", fiquei fascinado com a densidade do texto, com as sutilezas do roteiro e a forte veia literária de Moore, são dois trabalhos impactantes, assim como a clássica "Watchmen", que desconstrói os famigerados Super-heróis e trabalha com propriedade os conceitos definidos pela Teoria do Caos (Gian Danton fez sua dissertação de mestrado analisando este aspecto da obra!). Tem um álbum que me foi emprestado pelo amigo Gazy Andraus, "A Small Killing", que é muito pungente, poderoso, um dos mergulhos de Moore na psicanálise Freudiana, implodindo-a em certos aspectos, é um trabalho que me impressionou muito, ainda mais depois que li um artigo de Andraus que desvela todo o subtexto desta obra.

-Preciso ver isto com o Gazy, urgente. Qual trabalho do mago bardo de Northampton que você considera sua obra-prima e porquê?

Como disse, gosto de diversos trabalhos e de maneiras diferentes, "V de Vingança", por exemplo, é muito interessante, mas muito diferente de "A Piada Mortal", ou de "Watchmen", não tenho predileção, são todos obras de uma mente genial, obrigatórios para aqueles que querem conhecer a fundo a importância das HQs enquanto gênero narrativo e artístico.

-Ao seu ver, quais foram as inovações mais importantes do autor? Especificamente sobre Watchmen e sua instigante forma narrativa – já apelidada de O Cidadaõ Kane da Nona Arte – o que tem a nos dizer?

O que mais me impressiona é que Moore parece não ter essa pretensão de ser genial, ele quer só escrever boas histórias, eu não me considero em nada inspirado pelo seu trabalho (pois como disse, ele esbarra muitas vezes no literário, eu gosto disso, mas minha proposta artística caminha em outra direção) que encontra eco no Brasil principalmente na obra de Gian Danton,- veja Entrevista - um fã confesso de Moore. Moore é sempre genial, mas esbarra no problema dos desenhistas, nem sempre eles são tão capazes quanto ele, Dave Gibbons é uma exceção maravilhosa!

-Voce acha que ainda existe espaço para seres musculosos e com super-poderes, metidos em colantes, na verdadeira Cultura Pop, mais madura? Pergunto porque muitos fãs dos super-heróis, ao mesmo tempo que admiram Alan Moore, o detestam por considerar que ele praticamente destruiu o gênero com Watchmen. E você?

Como já disse, nunca gostei do gênero Super-Heróis, se ele acabasse, para mim a cultura humana perderia muito pouco, a cultura pop talvez sofresse um abalo momentâneo...Os Super-Heróis são um produto Norte Americano, é claro que foram influenciados pelos herós clássicos gregos, mas eles são produtos do narcisismo e nacionalismo dos EUA, a megalomania de Tio Sam está refletida nestes tais seres de colante, eles são sua principal metáfora, seu arquétipo pós-moderno, o nacionalismo é um dos últimos bastiões dos idiotas, dos alienados. Mas eles já se infiltraram no inconsciente coletivo do ocidente, são onipresentes, mesmo que as novas gerações não estejam lendo quadrinhos como as anteriores, eles estão renascendo nos blockbusters de Hollywood, nos games para computador, veja estes novos produtos cinematográficos: Hulk, Demolidor, Homem Aranha, X-Men, etc.
Mas como um defensor da pluralidade, não faço uma cruzada contra os super-heróis, quem gosta e quer gastar seu dinheiro com eles, eu respeito, sem neurose nenhuma, só fico preocupado quando vejo os moleques idolatrando esses serviçais que trabalham como operários do traço para os americanos como se fossem "Deuses"...os caras nem sequer podem assinar o próprio nome, isso é se vender sim, não é só se adaptar, é cooptar com a condição de alienado, de operário nos moldes da revolução Industrial...Se fosse assim, uma adaptação apenas, os americanos iriam mudar também o nome dos diretores de cinema estrangeiro que fazem sucesso por lá, assim o Pedro Almodóvar poderia virar "Peter All Mod Over", o que você acha!!!
Mas agora tem também a proliferação virótica dos tais mangás, e dá-lhe lixo descartável no mundo da cultura Pop, é claro que existem bons trabalhos, mas no geral é tudo muito ruim, um negócio de misturar mitologia grega de boutique, com moleques dando voadora & karatê em todo mundo, virando robôs transformers e soltando raio (urghhhhh!), nem os super-herós conseguiram a façanha de serem tão ruins, e têm também aquelas centenas de milhares de páginas que não dizem porra nenhuma, umas sagas que possuem dez mil páginas, para contar histórias que dá pra narrar em 40 (um dos novos álbuns do mestre Shimamoto, conta em 48 páginas a saga de um dos míticos samurais do Japão, já uma série japonesa leva dezenas e dezenas de números de 100 páginas para contar a mesma história...revistas mensais que custam mais de 5 reais cada!!!!). Eu desenvolvi meu processo narrativo sempre em espaços exiguos (os fanzines), normalmente você tem de 3 a 5 páginas para contar uma história, tem que ser breve, ter poder de síntese, o exemplo mais radical desse narrativa enxuta é uma saga chamada Elegia que editei há alguns anos, são 3 volumes de 6 páginas cada, e contam a tragetória de vida de um personagem (vou relançá-la em volume único em breve).

-Tambem tenho o album do mestre Shima sobre o lendario Musashi. E a "vagabond" ja´ parei de comprar,por falta de grana tambem...E From Hell, você acha que Moore conseguiu atingir plenamente seu intento de forjar em uma HQ o caldeirão que nos preparou o Século XX, com toda sua paranóia, conspirações, contradições, horror e beleza?

Eu não li From Hell, ainda não tive grana pra comprar a série, está muito cara, dei uma olhada nos volumes e li muitos bons comentários a respeito, preciso guardar uma grana e comprar essa série, pois sei de sua importância e pungência...

-E a versão para o cinema agradou? Porque? O que espera da de Liga dos Cavalheiros Extraordinários?

Eu vi o filme e gostei sim, sei que ele não tem praticamente nada a ver com os quadrinhos, mas é um bom filme, tem clima, boa narrativa e personagens bem construidos (nesse sentido ele lembra a proposta de Moore, talvez seja por esse motivo que ele manteve seu nome nos créditos!).
Também não li "A Liga dos Cavaleiros Extraordinários"...

-Sei que você tem uma formação eclética, se podemos definir assim.O que pensa da Magia?

Eu penso que a magia permeia tudo, a vida é uma forma de magia, o estudo dos processos físicos e químicos que ocorrem em nosso corpo material não é suficiente para explicar o milagre da consciência; a ciência acadêmica, racional, é realmente digna de pena quando tenta explicar fenômenos naturais como os processos da vida e da consciência, o surgimento do Universo, a Eternidade, o Nada. Eu acredito que de certa forma somos imagens holográficas do Universo, nós contemos o todo e o todo nos contém (teoria holográfica de Stanislav Grof), dessa forma temos uma conexão muito profunda com todas as forças que regem a natureza (o Universo), estamos conectados a tudo e a todos, muitos estudiosos de "magia" e pesquisa da consciência, estudam na verdade canais que nos permitem uma conexão direta com essas forças da natureza, intrínsecas & extrínsecas à existência. Eu me interesso por esses estudos, pela manifestação dessas forças e pelas metáforas que elas envolvem.

-Outra obra interessante sobre isto e´”O Paradigma Holográfico” (Pensamento).E da obra Big Numbers a inacabada magnus-opus de Alan Moore, que através da Teoria do Caos e seus Fractais, a vida de uma comunidade representando o macrocosmo, tentaria explicar o próprio Universo?

Eu me interesso muito pela teoria do caos, e por todas essas novas teorias científicas que abalam a estrutura da física Newtoniana, mostrando que o fluxo dos acontecimentos não pode ser contabilizado em termos de ações e reações de intensidade semelhante, elas exemplificam bem a falência completa da ciência (até o momento) em tentar explicar os fenômenos...O princípio da causa e efeito adquire outras proporções, um simples piscar de olhos pode provocar um deslocamento de elétrons que desencadeará um processo que finalmente culminará em um maremoto na outra extremidade da Terra, ou porque não irmos mais longe, esse piscar de olhos pode provocar o surgimento de uma nova estrela daqui a milhões de anos, nenhum ato, por insubstancial que pareça pode ser desconsiderado. No início dos anos oitenta li uma HQ de Steve Ditko (acho que foi na Kripta), que era pura teoria do Caos, narrava a história de um cientista que desenvolve uma máquina do tempo e vai para o passado, para a pré-história, antes do surgimento do homem, ele desce da máquina para ver melhor o ambiente e sem que perceba pisa em um pequeno lagarto, quando ele retorna para o tempo presente fica assustado, todos os seres humanos tem feições e corpo de lagarto!!!! É simples e muito impactante, a morte de um único lagarto desviou todo o processo de evolução da espécie humana, antes de Moore, Ditko já falava de Teoria do Caos (antes mesmo das bases da teoria terem se solidificado). Mas eu gostaria imensamente de conhecer os volumes publicados de Big Numbers!!! Por acaso você têm??? Se tiver gostaria de piratear uma cópia....

- Eu conheço essa estoria, que e´ um conto clássico da Ficção Cientifica escrita por nada mais nada menos que Ray Bradbury, o poeta do gênero. E se nao me falha a memória, o desenhista (dessa versao da saudosa Kripta) foi o filipino Alex Nino, compatriota do Alfredo Alcala. Você acha que uma HQ tem a capacidade de abarcar tamanha complexidade e ser compreendida?

Eu acredito que as HQs como qualquer outra forma de linguagem têm um potencial ilimitado, elas se prestam a qualquer assunto, gênero, tendência, têm as particularidades que a tornam um meio de expressão único, tão poderoso quanto qualquer outro. O hermetismo de uma obra depende muito do referencial do leitor, acho que o autor deve ter consciência do público com o qual ele quer dialogar, deve ter consciência das pessoas que quer alcançar, se eu faço HQ infantil, tenho que ter em mente o público para o qual o trabalho se destina. No caso específico dos meus quadrinhos, eu tenho consciência de que o meu público leitor será sempre pequeno, eu faço HQs poéticas e filosóficas que exigem uma certa espontaneidade, disposição para o novo, interesse por assuntos que vão da metafísica à biotecnologia, para aqueles que são abertos à trabalhos menos literários e mais poéticos, menos literais e mais sutis, é claro que a compreensão da mensagem dependerá do discernimento desse leitor, de seu referencial, assim existem infinitos níveis de interpretação, mas quando faço uma HQ tenho uma idéia em mente, uma mensagem, uma reflexão a passar, a compreensão ou não dessa mensagem dependerá do leitor, mas eu não acho que o artista deva "esquartejar" o seu ideário ou mastigar a mensagem para que ela fique insonsa e fácil, a não ser que esse seja o seu desejo (normalmente é o desejo dos editores, he, he!). Eu não faço HQ pra vender, eu não me vendo, sou autêntico, tenho consciência do preço a pagar por fazer essa opção. Penso que autores como Moore também têm plena consciência disso e quando criam obras como BIG NUMBERS sabem que o público para elas será exiguo, seleto (é por isso que a série parou de ser publicada...não vendeu, os editores cortam mesmo, se eu fosse o Mooore publicava esse negócio em Fanzine, he,he!!!).

- Mais um esclarecimento: BN nao parou por falta de venda e a editora era do proprio Moore, a Mad Love. Parou porque ele se desentendeu com o artista Bill Sienkiewicz (Bill achou na época o roteiro de Moore muito ditatorial, nao dando margem para o artista fazer nada que o autor não quisesse), seu sucessor Al Columbia simplesmente “endoidou” ao fazer o 4ª numero, tanto que destruiu os originais e desapareceu) e, finalmente, mais por boicote das grandes editoras e distribuidores, o famigerado establishment, a Mad Love quebrou. Mas, ainda nesta direção metafísica, qual é a sua concepção do Tempo? Considera-o a Quarta Dimensão do Espaço, como teorizou Einstein ou tem outra visão?

Uma das últimas concepções sobre o tempo que mais me fascinaram foi a de Ken Wilber, na verdade o tempo não existe, não é outra dimensão, o que existe é um eterno agora, infinito, e nossa existência é infinita pois estamos sempre nesse eterno agora, gravado na essência do Universo, o passado/presente e futuro são prognósticos falsos criados por uma das válvulas de nossa percepção para que possamos compreender o mundo; veja como os nossos processos de pensamento não são lineares (são hipertextuais, damos saltos quânticos a todo momento), mas a nossa concepção de nossa existência é linear, pois ela é baseada nessa noção de tempo linear que corre do passado para o futuro. Eu tenho uma HQ chamada ATEMPORAL (publicado no fanzine Bifa de Marcelo Garcia) que metaforiza isso, o ser coexiste em todos os seus pseudo tempos : infância –maturidade e velhice, mas não existe linearidade/processo, é tudo coexistente, um eterno agora, como no Retroagir da cultura Indu, dos Vedas





-Realmente.Também tenho algumas obras do Wilber,”o careca”, alem de muitos ensaios e lectures baixados da web. E veja você que ate´ a Ciência parece abraçar também essa teoria: o físico britânico Stephen Hawking também considera o tempo como um sólido, onde tudo esta´se passando simultaneamente, portanto, se pudéssemos “se examinados” por um ser “fora do tempo”, ele nos veria como uma gigantesca centopéia, com milhares de pernas e braços e cabeças, se esticando desde de um bebe ate´ um velhinho, por todos os lugares – e tempos – por onde já passamos – mais ou menos como Kubrik tentou visualizar no antológico final de seu “2001”.Como você imagina um ser ou objeto (como o Tesserato) da Quarta Dimensão? (se pudesse aparecer a nos, pobres materializações tridimensionais que somos ?

Este é um grande paradoxo, o paradoxo de nossa limitação perceptiva, é impossível para nós concebermos algo que foge de nosso paradigma perceptivo, H. P. Lovrecaft tinha uma palavra muito certeira e poderosa para descrever as criaturas de seus mitos terroríficos, ele dizia "o inominável", "o indizível", é brilhante. Stanislaw Lem faz a mesma coisa em Solaris, para mim um dos maiores livros de "filosofia" (embalada num pacote de FC)de todos os tempos, ele nos mostra que sempre que falamos em outras vidas, extra terrestres, estamos falando sobre o nosso paradigma, estamos procurando espelhos, será que se essa outra forma de vida aparecesse teriamos percepção para compreendê-la? Será que ela já não existe??...veja a teoria de Gaia (a Terra é um organismo vivo, um ovo em gestação) de Lovelock, é muito interessante, mas para a ciência e para a maioria das pessoas é inconcebível!!! Esses dias vi um filme B que trata dessa questão da quarta dimensão, chama-se "O Cubo 2", vale a pena ser visto, pois apresenta uma visão curiosa para o conceito da quadridimensionalidade.


Ken Wilber




-Me interessei muito! Sou apaixonado por esse instigante tema. Inclusive, num nº de sua “1963”, Alan Moore tenta mostrar justamente como seria essa quarta dimensão se a pudéssemos “exergar”, e e´ muito interessante.Ele brinca inclusive visualmente, com o “mundo bidimensional” que e´ a pagina dos Quadrinhos, mostrando figuras geométricas impossíveis, ilusões de ótica,etc.Já li em algum lugar que você se interessa pela imberbe Teoria do Caos, com seus Fractais e o popular "efeito borboleta". Quais suas considerações a respeito e como acha que esta teoria pode ser aproveitada por exemplo em algum enredo – HQ ou literário?

Tenho pelo menos uma meia dúzia de HQs curtas que tratam da Teoria do Caos, tenho muitas idéias envolvendo esse tópico...

-Dos meus entrevistados ate´ agora, você e´ um dos poucos que leu as obras do matemático-filósofo soviético P.D. Ouspenski, do qual sou estudioso. Qual o seu entendimento para as teorias dele sobre o Tempo e a 4ª Dimensão – ver final do meu artigo Holismo e Caos em Big Numbers – em suas obras – ao meu ver – mais expressivas, Tertium Organum e Um Novo Modelo de Universo (Editora Pensamento)?

Eu li alguns trabalhos de Ouspenski, gosto da forma densa com que desenvolve suas teorias, partindo de uma certa aura acadêmica proveniente de sua formação racionalista de matemático, acho que ele é brilhante em algumas de suas visões, mas peca em outras, discordo em partes em seu entendimento das dimensões, sobretudo pela classificação evolutiva que dá a elas, colocando alguns animais em segundo plano, como menos perceptivos (só com percepção bidimensional), acho que é meio reducionista (ranço racionalista), mas é brilhante na concepção dessa quarta dimensão, e tem solidez matemática para criar a conceituação. O seu mestre Gurdjieff é mais leve, brincalhão, jocoso, vivo, é um verdadeiro mago, no sentido mais profundo que essa palavra engendra, por isso sempre foi tido como charlatão, mas é mais profundo e contundente. Uma das teorias que Ouspenski resgata, a da Lua como organismo que apreende energia da Terra, é assustadora e muito intrigante.

-E a teoria dele de que a reencarnaçao seria na verdade um circulo vicioso, como a serpente mordendo a cauda – ou seja, que na verdade nos sempre nos reencarnaríamos em nos proprios, vivendo a mesma vida eternamente e somente pequeninas modificações e´que, aos poucos, iria nos libertando desta vida material compulsória? (em Tertium Organum).

Pois é, de certa forma essa teoria é muito semelhante à da inexistência do tempo de Ken Wilber, ao "eterno agora", mas o equívoco de Ouspenski está nessa necessidade de acreditar que há uma "evolução", mais uma vez é um ranço da racionalidade cartesiana, onde tudo tem que ter um motivo, um resultado, neste ponto prefiro a visão de Wilber: o "Ouroboros Eterno", pura e simplesmente...

-Alan Moore e´adepto fervoroso da Cabala – inclusive toda a serie Promethea gira em torno dessa “escola”. Como você encara a Cabala? Vê utilização pratica de seus conceitos?

Como muitos outros tratados herméticos de evolução e transcendência a Cabala é um instrumento legítimo para a busca dessa quintessência transcendente, mas existem infinitos caminhos para essa elevação, alguns são pré-estabelecidos, outros são criados pelo navegante, William Blake fez de sua arte o seu "processo alquímico", eu tenho trabalhado neste sentido!

-Verdade? Precismaos falar sobre isto mais.Voltando aos seus escritos, o que você fez que considera o melhor até agora?

O melhor sempre é o que está sendo feito, eu valorizo muito a fluência do momento em que estou concebendo, criando, esse ato criativo (taoísta) é mais importante que o produto acabado, por isso sempre prefiro os trabalhos que estão em gestação. Mas se você me perguntar dos meus trabalhos quais mais gosto, eu destacaria o álbum AGARTHA (que está na sua segunda edição pela editora "Marca de Fantasia"), e as HQtrônicas "Ariadne e o Labirinto Pós-Humano" (ainda Inédita) e "NeoMaso Prometeu" (Menção honrosa no 13º VIDEOBRASIL –Festival Internacional de Arte Eletrônica) , tem também algumas HQs curtas que selecionei para o meu novo álbum que será publicado pela Marca de Fantasia, e algumas capas de CD que curto bastante, como as do Medicine Death e do projeto Noise for Deaf.

-Por ter se interessado por Historias em Quadrinhos em nível profissional e ser um acadêmico, você sofreu – ou sofre ate´ hoje – alguma especie de preconceito ou discriminação? Como lida com isto?

Faço a minha parte, tenho trabalhado para desmistificar as HQs como coisa de criança, apresentando artigos em congressos, ministrando palestras em Universidades e cursos de HQ de Autor. Mas o preconceito é forte, apesar de que nos últimos anos ele está diminuindo, o número de dissertações e teses sobre quadrinhos defendidas em Universidades do mundo todo é impressionante, talvez esse seja um sintoma do amadurecimento completo da linguagem.

-E atualmente, o que tem escrito?

Tenho diversos projetos em andamento, um álbum só com HQs inéditas & coloridas, uma HQ de 28 páginas para um número especial da coleção Corisco da Marca de Fantasia, um projeto artístico envolvendo Vida Artificial, e uma nova narrativa hipermidiática nos moldes de "Ariadne e o Labirinto Pós-Humano", além de alguns roteiros para outros artistas...

-Alguma produção em Quadrinhos?

Estou com alguns trabalhos no prelo, o álbum "Transessência" (60 páginas de HQs curtas) que está para ser lançado pela Marca de Fantasia, o álbum "Biocyberdrama" (64 pgs) – parceria com o lendário Mozart Couto (que quadrinizou meu roteiro de forma belíssima) já concluido e que será lançado pela Opera Graphica, além do álbum "Duetos Essenciais" que também já está pronto mais ainda demorará um pouco para ser editado.

-Voce sempre batalhou arduamente por um autêntico Quadrinho nacional. Ele existe?

Acho que o Brasil tem muitos talentos individuais, e chego a acreditar que temos um gênero de HQs que frutificou no Brasil de uma forma muito autêntica e contundente, o gênero que foi batizado pelo crítico espanhol Henrique Torrero de "Fantasia Filosófica" e que inclui artistas como eu, Gazy Andraus, Flávio Calazans(Entrevista) Antônio Amaral, Henry Jaepelt, Al Greco, entre outros, eu estou preparando um artigo sobre esse gênero que praticamente passou despercebido pela HQ maistream pois quase toda a produção desses autores foi publicada nos fanzines, a exceção é a revista MANDALA da editora Marca de Fantasia que é dedicada a esse gênero de HQs e publicou mais de 10 números com trabalhos dos autores referidos. Também gosto muito do ciclo de HQs das revistas de terror da Vechi que abriu espaço para que artistas como Mano (ele era autêntico, divertido, despretensioso), Shimamoto & Colin falassem de elementos e assuntos de nossa cultura.
Mas não sou apegado a esse discurso de que HQ nacional deve falar de assuntos da cultura brasileira, isso é pseudo-culturalismo xiita, eu estou de saco cheio de ler/ouvir/ver histórias sobre o regime militar (parece que existe um saudosismo desse período, todo mundo quer posar de coitadinho - reprimido pelo regime militar), também ficar plagiando os romances de Guimarães Rosa & congêneres e achar que está escrevendo grandes roteiros é babaquice, isso é pastiche, tem muita gente por aí plagiando e dizendo que é homenagem... isso vem acontecendo no cinema, nas artes visuais em geral e também nos quadrinhos.
O bom quadrinho deve ser regional & universal ao mesmo tempo, dialogar com todos os povos e eras.

-Voce citou o Mano (o cariocaElmano), do qual tambem sou fan e procuro ha algm tempo contata-lo. O que você acha que dificulta para o quadrinista brasileiro sobreviver de sua arte? Falta de talento ou de mercado?

Como acontece com o cinema nacional, nos não temos mercado, o produto importado já vem com o marketing incorporado e custa mais barato, por isso há um desinteresse completo de editores pela HQ feita no Brasil, isso é ruim pois a HQ acaba tornando-se um trabalho residual dos artistas, eles têm que conseguir outros meios pra sobreviver e a HQ vira um hobby, o tempo dedicado a ela é menor, o processo de evolução mais lento. Penso também que nós praticamente não temos editores de quadrinhos no Brasil, dá pra contar nos dedos de uma mão os verdadeiros editores, o resto é oportunista, crápula e safado...

-Como nacionalista ferrenho que é , também considera que o nosso artista “se vende” quando passa a publicar no Exterior, nos EUA principalmente, adequando-se ao estilo e mudando até mesmo de nome?

Ops!!! Não sou nacionalista ferrenho de forma alguma, sou cidadão do mundo, holista, esse negócio de pátria e fronteira é coisa de políticos e suas linhas imaginárias, sou sim, telúrico, tenho respeito e amor pela terra onde fui gerado. Como diz minha esposa "cada um, cada um", os caras conseguiram uma forma de ganhar dinheiro desenhando, uma forma de sustento, mas achar que são quadrinistas, isso é hilário, são operários do traço, mão de obra barata do terceiro mundo que não tem nem o parco direito de assinar o nome verdadeiro, se isso é o modelo de "quadrinista" que todos devemos seguir eu passarei longe por toda a vida, isso não me interessa, os trabalhos que vi não valem nada, são muito ruins, cópias de cópias, padronizações industriais, produto descartável para pré-adolescentes ...é realmente lastimável.

-Sobre Telematica e extrapolação cientifica, tenho lido muito dos seus artigos nestas areas, abordando tantas teorias que chega a fervilhar-nos o pensamento – biomidiologia, efeitos subliminares da propaganda e outras mídias, psicologia, psiquiatria, enfim, você demonstra um vasto conhecimento que precisa ser mais explorado, em nosso – seus leitores – beneficio – ver artigo “Quadrinhos e as Novas Tecnologias” Quais autores e obras recomenda para nos dar uma visão mais abrangentes destas areas?

Não tenho um vasto conhecimento, ainda estou engatinhando nesses tópicos e assuntos, mas sou muito interessado e empolgado sempre buscando novas informações, para aquele que está iniciando nessas áreas indico alguns trabalhos que considero seminais (em língua portuguesa):

- "A Mente Holotrópica" de Stanislav Grof (Editora Rocco).

- "A Consciência sem Fronteiras" de Ken Wilber (Editora Cultrix)

- "O Renascimento da Natureza" de Rupert Sheldrake (Editora Cultrix)

- "Criação e Interatividade na Ciberarte" de Diana Domingues (Editora Experimento)

- "Cibercultura – Tecnologia e Vida Social na Cultura Contemporânea" de André Lemos (Editora Sulina).

- "Teleantropos – A desmaterialização da cultura material, arquitectura enquanto inteligência, a metamorfose planetária" de Emanuel Dimas de Melo Pimenta (Lisboa – editorial Estampa).

- "Biologia Digital" de Peter G. Bentley (Editora Berkeley Brasil).
A relação é enorme, e muitos livros ainda não tem edição em português, mas acho que estes 7 que indiquei são um bom começo.

- E especificamente a Literatura de FC tupiniquim, atualmente capengando sem um “mercado “mas por outro lado bem mais amadurecida, a julgar por recentes contos publicados pelos fanzines, o que você acha que “está faltando “?

É o mesmo problema das HQs, mas nesse caso a coisa é mais grave pois a literatura não tem nem o apelo visual, as novas gerações não conseguem ler, seu processo perceptivo não condiz mais com os procedimentos necessários para a leitura que exige muito tempo de concentração sobre um mesmo assunto/tópico, as mídias interativas têm contribuido gradativamente para essa mudança de perfil cognitivo, a literatura, a longo prazo necessitará cada vez mais da imagem para sustentá-la. Por isso temos escritores de talento que não têm quem os lê. Me diz se o adolescente prefere ir para a Lan House e jogar um game realista 3D de Guerra nas Estrelas, ou ler um livro com a história da saga? O apelo da hipermídia é muito grande, os autores têm que começar a usar dessas mídias para difundir os seus trabalhos, tornarem-se escritores multimídia, ou estarão cada vez mais fadados ao ostracismo. E olha que eu sou apaixonado por literatura de FC, inclusive leio alguns brasileiros, entre os quais destaco o brilhante André Carneiro (Entrevista) com um dos trabalhos mais pessoais e interessantes da FC mundial, uma densidade pouco vista, se escrevesse em inglês já teria pelo menos meia dúzia de filmes baseados em seus escritos. Há anos recebo o zine "Notícias do Fim do Nada" com o qual tenho colaborado periodicamente com ilustrações, gosto muito to trabalho cuidadoso e apaixonado de Ruby Felisbino Medeiros, uma verdadeira enciclopédia humana da FC mundial!!! Também colaboro esporadicamente com capas e ilustrações para o ótimo Megalon, e colaborei com a extinta Quark, tenho lido excelentes contos e novelas de autores nacionais nessas publicações...

-Quais dos nossos autores você julga mais em condições de produzir uma obra de fôlego?

Temos dezenas e dezenas de autores de talento, só faltam as chances para que eles brilhem!!!

-Especificamente sobre desenho Edgar, como começou o seu interesse, quais as influências do início e os artistas que admira atualmente? E nos Quadrinhos?

Quando comecei a desenhar tinha uma aversão à copiar desenhos, nunca copiava nada, sempre tentava desenhar de memória ou recorria a fotos e modelos do real, devido a isso a evolução de meu desenho foi lenta, mas ao mesmo tempo já muito cedo já me "acusavam" de ter um estilo, este estilo frutificou-se mais rapidamente devido à minha insistência em não copiar, eu gosto do meu desenho, apesar de conhecer suas limitações, sempre trabalhei com fantasia e metáforas, por isso não me interesso por criar trabalhos "realistas", minhas referências visuais são sempre simbólicas e fantásticas, ao contrário de muitos desenhistas que com o tempo conseguem ser mais sintéticos no traço, meu desenho fica cada vez mais rebuscado (enquanto o argumento cada vez está mais enxuto), é uma tendência natural que não consigo evitar, com o passar do tempo ao inves de gastar menos tempo em uma página tenho gastado cada vez mais. Sobre influencias, posso dizer que gosto de Bosch & Bruegel, de Doré e Goya, de Giger & Caza, e dos brasileiros Jaime Cortez, Shimamoto, Gazy Andraus, Antônio Amaral e Mozart Couto, considero o Mozart um dos desenhistas mais completos do mundo, é impressionante a capacidade cênica deste artista, o domínio da sombra e da luz, da anatomia, da perspectiva e do movimento, Mozart é um gênio do traço, um monstro sagrado do desenho, tenho certeza que será motivo de estudo por gerações e gerações, mas apesar dessa grande admiração não posso dizer que meu desenho é influenciado pelo dele.

Desenho de Mozart


-Endoso em gênero, numero e grau: Mozart e´ o melhor desenhista do Brasil, o nosso Michelangelo das HQs.E´´ meu amigo de longa-data e sua entrevista uma das mais aguardadas aqui. Como o leitor interessado pode adquirir seus Quadrinhos e livros, quais os que estão disponíveis?

Recentemente foi feita uma segunta tiragem do meu álbum AGARTHA, que pode ser adquirido diretamente com a editora Marca de Fantasia (site: http://www.mdefantasia.hpg.com.br/), também existem vários números disponíveis da revista Mandala (todos contém algum trabalho meu) que podem ser encomendados através do site da Marca de Fantasia, assim como o meu novo álbum TRANSESSÊNCIA que deve estar sendo lançado em breve. Tenho alguns fanzines solo que distribuo, principalmente os da minha série de HQs baseadas no I-Ching, basta que me mandem 2 selos de segundo porte que remeterei dois números para os interessados, meu endereço postal é: Av. Melvin Jones, 265 – Bairro Santa Ângela, Poços de Caldas – MG – 37701-274. Tem HQs minhas em dois números da revista on-line Pixel (que podem ser baixados gratuitamente no site da editora Nona Arte- www.nonaarte.com.br ) , além disso o leitor poderá encontrar HQs, ilustrações e poemas no meu site pessoal (que em breve será totalmente reformulado) Ritualart: http://www.geocities.com/ritualart.geo/, e finalizando o trabalho de História em Quadrinho Eletrônica (HQtrônica) "NeoMaso Prometeu" que pode ser baixado no url: http://wawrwt.iar.unicamp.br/HQtronicas/index.html

-Voce acha que a “sede” do nosso “espírito” – ou essência, ou anima, o nome que se dê - se encontra na mente? Ou tudo não passa de um aperfeiçoamento fantástico de uma verdadeira “maquina orgânica” com seus ilimitados neurônios e suas ligações sinápticas?

Eu tenho dúvidas sobre tudo, não cheguei a uma conclusão sobre esses tópicos, gosto da teoria dos campos morfogenéticos de Sheldrake que propõe que nosso cérebro nada mais é do que um instrumento de captação, uma antena que capta de um outro "logos" nossa consciência, tanto a individual quanto a coletiva, céticos defendem que o humano é só uma máquina natural...eu discuto isso no meu álbum Biocyberdrama (em parceria com Mozart Couto), no fundo a questão central da história é essa, espero que ele seja lançado em breve, e que pessoas que têm esse questionamento legítimo e importante (como você) possam lê-lo para continuarmos o papo...

-O que você acha que é a consciência em si?

É a morada do mistério, a esfinge mais cruel e maravilhosa que emudece a ciência e turva a religião. É nossa condição "Luciferiana", de questionarmos o poder e a razão daquilo que nos gerou!

-Com esta você fechou com chave de ouro, amigo! Militando há tanto tempo “no ramo” você pode dizer que valeu – ou vale – a pena?

Viver vale a pena, é maravilhoso poder ter a percepção do mundo e das coisas, sentir. Eu aconselho a todas as pessoas a tentarem fazer de sua vida um passeio, leve e gracioso, como o vôo da borboleta, levar tudo menos a sério, sorrir muito e principalmente criar. Se eu tivesse somente aberto os olhos, visto o sol e desfalecesse já teria valido a pena, o que dizer então de tantas dádivas que tenho tido nestes anos? Viva a vida!

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Processo Criativo da HQ "Lord Unikorn".


Por: Edgar Franco


A idéia de falar sobre o processo de criação dessa HQ surgiu devido à série de procedimentos intuitivos, aleatórios e racionais que envolveram o seu desenvolvimento, mesmo para mim que há muito venho tentando trabalhar com novas formas para o já desgastado conceito tradicional de histórias quadrinhos, ela funcionou como quebra de alguns paradigmas. Meu processo usual é partir de um argumento inicial, o conteúdo chave da história, e deixar as imagens fluírem a partir desse argumento, assim ele acaba sendo modificado e acrescido, mas sempre será de certa forma uma chave para desvendar o "Big Bang" deflagrador do processo.
Em LORD UNIKORN as coisas foram bem diferentes, para início de conversa, não existia uma intenção inicial de criar uma HQ. Fui convidado por uma amiga artista plástica para participar de uma exposição de "Livros de Autor", um conceito muito amplo envolve essa tal categoria artística (mais uma dentre tantas criadas pelo racionalismo acadêmico), no final das contas optei por uma espécie de caderno de rascunhos como sendo meu "Livro de Autor", comprei um livro de notas daqueles antigos, com 500folhas brancas e capa dura e resolvi tratá-lo como um "Grimoire Intuitivo de Autor", passei então a criar imagens livres para preencher as páginas desse álbum e adotei total liberdade para desenvolvê-las, usei para a confecção das mesmas um pincel japonês muito macio deixando o traço inicial direcionar a imagem sem censurá-la, muitas delas foram sendo feitas diretamente a tinta, outras tiveram um rascunho feito com lápis 6B, mas sem nunca usar borracha, pois o ato de apagar acaba tirando a espontaneidade cósmica-arquetípica da imagem e trazendo-a para os processamentos racionais do lado esquerdo do cérebro. Para desenhar sempre colocava um fundo musical que podia variar muito dependendo do meu estado de espírito do momento, podendo ir do rock progressivo ao doom metal . Em pouco tempo tinha já prontas cerca de 50 imagens, mas devido aos compromissos da vida "mundana" tive que parar. Como tinha como meta conseguir fechar o livro, isto é, completá-lo com imagens, decidi não apresentá-lo na primeira exposição de minha amiga, e prometi incluí-lo numa próxima.
Guardei o "Grimoire" e fiquei sem olhar para suas imagens por quase 3 meses, voltando a ele, descobri imagens realmente muito fortes de sentido, um certo lirismo que transcende em força boa parte da minha produção de HQs, resolvi então fotocopiá-las para utilizá-las como capas ou contracapas de fanzines de amigos, selecionei dentre todas umas 20 que me pareceram mais simbólicas, considero essa seleção uma ação mútua entre o lado direito (intuitivo) e o esquerdo (racional) do cérebro. Depois disso aconteceu um fato interessante, fui convidado por um editor de zines para fazer a capa de sua nova produção, quando vi a proposta de seu zine decidi enviar uma das imagens que tinha fotocopiado para a capa e aconteceu um fato raro de se ver no universo zinístico, tive o desenho censurado pelo editor, que de forma amena tentou me dizer que aquela imagem era "um pouco agressiva demais" para figurar na capa de seu zine. Já estou calejado de receber recusas de editores de revistas que usam milhões de argumentos e subterfúgios para não publicar o meu trabalho ("é datado", "é setentista", "é meio Metal Hurlant, né?", "mas isso não é HQ!", "até que é bonito, mas é poesia ilustrada", "mas cadê os quadrinhos e os balões?", "tem muita mulher pelada!" etcetera e tal), mas no meio zineiro foi uma novidade ser censurado, ainda mais sendo o editor em questão um cara de mente aberta com quem
já tinha feito várias parcerias, detalhe importante: a imagem censurada é aquela que posteriormente tornou-se a página sete da HQ estudada neste artigo.
Esse acontecimento fez-me reavaliar o valor dessas imagens e passei a mostrá-las para alguns amigos que sempre se assustavam ou gargalhavam com algumas. Arrisco dizer então que algumas delas funcionam como Koans, para usar um conceito detalhado na dissertação de mestrado "Existe o quadrinho no vazio entre dois quadrinhos?(ou: O Koan nas Histórias em Quadrinhos Autorais Adultas)",
desenvolvida pelo quadrinhista e pesquisador Gazy Andraus, onde ele esclarece-nos o que é um Koan: "O koan, é uma forma de pergunta, em forma de enigma indecifrável pelos padrões lógicos racionais vigentes. Uma forma de pergunta, para a qual não possui resposta imediata racional, que busca derrubar toda a estrutura condicionada da mente racional. Na verdade o koan seria apenas um desafio aos arraigados hábitos de nossa mente, ao seu modo de pensar e então agir.(1)" Na dissertação Gazy demonstra-nos que os Koans podem surgir na forma de questionamentos filosóficos, poemas, problemas da física quântica e é claro em HQs. Na minha opinião algumas dessas imagens criadas para o meu "Livro de Autor" têm esse potencial de provocar certos deslocamentos em nossa lógica
racional.
Diante dessa conclusão decidi fazer mais uma seleção escolhendo as imagens que ao meu ver fossem mais "Koânicas"(2), para a partir delas criar uma HQ, chegando finalmente a 9 imagens, entretanto uma delas já havia sido utilizada para outro fim, como capa para a demo-tape de uma banda de Death Metal de uns amigos meus, o mais interessante desse fato é que além de ser convidado para desenvolver o desenho da capa, também fui incumbido de escolher um nome para a banda, chegando a LORD UNIKORN quando lia alguns verbetes de um dicionário de ciências ocultas, o nome me chamou a atenção por sua sonoridade e curiosamente por remeter-me a uma das imagens de meu "Grimoire" (e menos por seu significado: trata-se de um demônio que chefia 29 legiões), imediatamente procurei a minha imagem e desenhei o logotipo que criei para a banda sobre ela, o trabalho agradou muito aos músicos. Como a capa da demo-tape fazia parte das 9 imagens selecionadas, optei por usá-la como primeira página da HQ, adotando como título para a mesma o nome LORD UNIKORN (com a concessão de meus amigos da banda homônima). Para impedir que o lado racional criasse critérios para ordenação lógica das demais páginas, entreguei-as a minha esposa e pedi para que as embaralhasse e me devolvesse, essa "ordem aleatória" foi a utilizada na HQ. E ela veio repleta de
sincronicidades, uma ordem gerada no caos do processo criativo.
O texto/roteiro da HQ surgiu em poucos minutos e foi escrito diretamente sobre as páginas, na primeira ele é apenas uma frase descritiva, mas nas seguintes ele fluiu liricamente fundindo-se às imagens e redobrando seus significados, tendo como foco central questionamentos sobre eternidade, ego e vazio e certas alusões aos Koans, ao Taoísmo, ao Zen e ao oráculo milenar chinês I-Ching. Aquilo que parecia não deflagrar uma seqüência de ligações lógicas, acabou gerando seqüências aleatórias interessantes, reparem nas 3 primeiras páginas, os personagens estão de perfil e olhando para o lado direito da folha, além disso todos têm um objeto nas mãos (crânio, relógio e espada), já a penúltima e a última página apresentam relações simbólicas com a sexualidade e os genitais.
Todas essas sincronicidades, coincidências e convergências intuitivas levam-me a refletir sobre o conceito do artista como veículo de forças transcendentais, o artista talvez seja o pincel do Universo e a arte a forma mais profunda de ciência, envolvendo a inexpugnável e maravilhosa intuição. O ato criativo um orgasmo cósmico puro e eterno!


Notas:

(1) In ANDRAUS, Gazy - Existe o quadrinho no vazio entre dois quadrinhos? (ou: O Koan nas Histórias em Quadrinhos Autorais Adultas), Dissertação de Mestrado defendida em dezembro de 1999 no Instituto de Artes da UNESP- Universidade Estadual Paulista, São Paulo.
(2) Koânico - Neologismo criado pelo pesquisador Gazy Andraus para designar os gêneros narrativos e obras de arte que contém Koans.