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quarta-feira, 1 de outubro de 2008

Um Movimento Democrático Global está prestes a estourar.




Por: Paul Hawken, Orion Magazine

Ao longo dos últimos quinze anos tenho oferecido perto de mil palestras sobre o ambiente. Depois de cada palestra um pequeno grupo de pessoas se junta para conversar, perguntar, e trocar cartões de visita. Estas pessoas oferecendo os seus cartões trabalham nos assuntos mais pertinentes aos nossos dias: mudança de clima, pobreza, desmatamento, paz, água, fome, conservação, direitos humanos e mais. São do mundo das ONG´s também conhecido como a sociedade civil. Cuidam de rios e baias, educam os consumidores sobre a agricultura sustentável, colocam painéis solares em casas, fazem “lobbies” nos governos estaduais sobre poluição, enfrentam políticas de comércio favoráveis às corporações, se esforçam a tornar verdes as favelas, ou ensinam as crianças sobre o ambiente. Simplesmente, estão tentando resguardar a natureza e garantir a justiça.Depois de uma viagem de uma semana ou duas, voltava com centenas destes cartões enfiados em vários bolsos. Eu arrumava-os na mesa da minha cozinha, lia os nomes, olhava os logotipos, imaginava as missões e ficava admirado a ver o que um grupo pode fazer a favor de outro. Depois, os colocava em gavetas ou sacos de papel, lembranças daquela viagem. Não conseguia jogá-los fora.
Ao longo dos anos os cartões se amontoavam, chegando aos milhares, e quando olhava aquelas sacolas no meu armário, chegava a me perguntar: alguém sabe quantos de tais grupos existem? No começo, era questão de curiosidade, mas lentamente comecei a desconfiar que alguma coisa maior estava acontecendo, um movimento social significativo que estava escapando o radar da cultura vigente.

Comecei a contar. Olhava os dados governamentais de diversos paises e, utilizando diversos métodos para aproximar-me do número de grupos ambientais e de justiça social a partir de dados de censo para impostos, eu inicialmente estimava que tinham umas trinta mil organizações ambientalistas no mundo, quando acrescentava justiça social e organizações indígenas, o número ultrapassava cem mil. Eu então pesquisei movimentos sociais do passado para ver se tinha algum igual em escala e escopo, mas não encontrei nada.

Quanto mais pesquisava, mais eu descobria e os números continuavam a aumentar. Em levantar uma pedra descobri uma formação geológica. Descobri listas, índices, e pequenos bancos de dados específicos para certos setores ou áreas geográficas, mas nenhum conjunto de dados aproximou-se nem de longe a descrever o tamanho do movimento. Extrapolando dos arquivos acessados, me dei conta que o estimativo inicial de cem mil organizações estava errado por um fator de pelo menos dez. Agora achava que existem mais de um milhão de organizações trabalhando em prol de sustentabilidade ecológica e justiça social. Talvez dois.

Se for definir de uma forma convencional, isto não é um movimento. Os movimentos têm lideranças, ideologias. Você se torna membro de um movimento, estuda os propósitos e se identifica com um grupo. Você lê a biografia do(s) fundador(es) ou os escuta em fita ou em pessoa. Movimentos têm seguidores, mas este movimento não funciona assim., É disperso, sem formas definidas e ferozmente independente. Não há manifesto ou doutrina, nenhuma autoridade para verificar.

Procurei um nome, mas não há.

Historicamente, os movimentos sociais surgiram primariamente por causa de injustiças, desigualdades e corrupção. Estes males continuam presentes, mas uma nova condição existe que não há precedente: o planeta está com uma doença que ameaça a vida e que é marcada por degradação ecológica maciça e mudança de clima súbita. Ocorreu-me que talvez eu estivesse vendo alguma coisa orgânica, se não biológica. Em vez de ser um movimento no sentido convencional, será que é uma resposta coletiva à ameaça? É fragmentado por razões que são inerentes ao seu propósito? Ou é simplesmente desorganizado? Mais perguntas seguiram. Como funciona? Qual a velocidade de crescimento? Como é conectado? Porque está sendo em geral ignorado?

Depois de gastar anos pesquisando este fenômeno, inclusive criando com meus colegas uma banco de dados global destas organizações, tenho chegado à conclusão: este é o maior movimento social em toda a história, ninguém sabe do seu escopo. Como funciona é mais misterioso do que aparenta.

O que fica aparente é conclusivo: dezenas de milhões de pessoas ordinárias e nem tão ordinárias assim dispostas a confrontar o desespero, o poder e dificuldades incalculáveis para restaurar algum semblante de graça, justiça e beleza a este mundo.

Clayton Thomas-Muller fala para um encontro comunitário da nação Cree sobre os lixões no seu território em Alberta, Canadá, lagos de despejos tóxicos tão grandes que podem ser vistos do espaço. Shi Lihong, fundadora do Wild China Films (Filmes da China Silvestre) faz documentários com seu marido sobre os migrantes deslocados pela construção de grandes represas. Rosalina Tuyuc Velásquez, membro do povo Maya-Kaquchikel, luta para que sejam responsabilizados os esquadrões da morte, que já mataram dezenas de milhares de pessoas na Guatemala. Rodrigo Baggio resgata computadores de Nova York, Londres, e Toronto e os instala em favelas do Brasil onde ele e seus funcionários ensinam habilidades de informática a crianças pobres. O biólogo Janine Benyus fala para mil e duzentos executivos num fórum de negócios em Queensland sobre desenvolvimento inspirado pela biologia. Paul Sykes, voluntário para the National Audubon Society ( que luta em prol dos aves nos Estados Unidos) completa seu 52em Contagem de Pássaros de Natal em Little Creek, Virgínia, se juntando a cinqüenta mil outras pessoas que contam 70 milhões de pássaros em um único dia. Sumita Dasgupta lidera estudantes, engenheiros, jornalistas, agricultores e Adivasis ( povo tribal) numa viagem a pé de dez dias através do Gujarat, explorando o renascimento de sistemas de captação de águas da chuva que está trazendo a vida de volta para áreas propensas à secas na Índia. Silas KpananÁyoung Siakor, que mostrou os elos entre a política genocidal do então presidente Charles Taylor e o desmatamento ilegal em Libéria, agora cria políticas de certificação de madeira sustentável.

Estas oito pessoas, que talvez nunca venham a se conhecer, fazem parte de uma coalizão composta de centenas de milhares de organizações sem centro, crenças codificadas ou líderes carismáticas. O movimento cresce e se alastra em cada cidade e país. Praticamente toda tribo, cultura, língua, e religião faz parte, desde os Mongóis até Uzbekianos até Tamils. É composto de famílias na Índia, estudantes na Austrália, agricultores na França, os sem terra no Brasil, os bananeiros de Honduras, os “pobres” de Durban, aldeões em Irian Jaya, tribos indígenas na Bolívia, e donas de casa no Japão. As lideranças são agricultores, zoólogos, sapateiros e poetas.

O movimento não pode ser dividido porque está fragmentado - pequenos pedaços com elos frouxos. Forma, se junta, e dissipa rapidamente. Muitos dentro e fora o desprezam por ser sem poder, mas já derrubou governos, companhias e lideranças através do testemunhar, informar e amassar.

O movimento tem três raízes básicas: Movimento para justiça ambiental e social, e a resistência de culturas indígenas contra a globalização - todos dos quais se entrelaçam. Surge espontaneamente de diferentes setores econômicos , culturas, regiões e agrupamentos, resultando num movimento global, sem classe, diverso , alastrando mundialmente sem exceção. Num mundo complexo demais para ideologias construtivas, a palavra movimento pode ser pequena demais , porque este é o maior agrupamento de cidadãos da história.

Têm institutos de pesquisa, agências de desenvolvimento comunitário, organizações baseados em povoados e cidadãos, corporações, redes, grupos baseados em crenças, fundações . Defendem contra políticos corruptos e mudança de clima, predação corporativa e morte dos oceanos, indiferença do governo e pobreza endêmica, formas industrializadas de agricultura e plantio de madeira, esgotamento do solo e da água.

Descrever o tamanho deste movimento é como tentar segurar o oceano na sua mão. É tão grande assim. Quando uma parte aparece, o iceberg abaixo fica invisível. Quando Wangari Maathai ganhou o Prémio Nobel da Paz, os serviços de notícias não mencionaram a rede de seis mil organizações diferentes de mulheres na África plantando árvores. Quando escutamos de um despejo químico num rio, nunca é mencionado que quatro mil organizações nos Estados Unidos adotaram um rio, riacho ou córrego. Podemos ler que a agricultura orgânica é o setor de maior velocidade de desenvolvimento nos Estados Unidos, Japão, México e Europa, mas nenhuma conexão é feita com as mais de três mil organizações que educam agricultores, fregueses e legisladores sobre a agricultura sustentável.

É a primeira vez na história que um enorme movimento social não se juntou por volta de um “ismo”. O que junta são idéias e não ideologias. A maior contribuição deste movimento é a ausência de uma idéia grande: no seu lugar oferece milhares de idéias práticas e úteis. No lugar dos “ismos” são processos, preocupações, e compaixão. O movimento demonstra um lado flexível, ressonante e generoso da humanidade.

Não é possível de definir. As generalidades são em grande parte imprecisas. É não-violento e de base; não tem bombas, exércitos nem helicópteros. Um vertibrado macho carismático não está no comando. O movimento não concorda em tudo e nunca concordará, porque isto seria uma ideologia. Mas compartilha um conjunto básico de compreensões fundamentais sobre a Terra, como funciona, e a necessidade de justiça e igualdade para todos os povos que participam nos sistemas do sustento da vida no planeta.

Este movimento sem nome promete oferecer soluções parta o que parecem ser dilemas insolúveis: pobreza, mudança de clima global, terrorismo, degradação ecológico, polarização da renda, perda de cultura. Não é atrapalhado com síndrome de tentar salvar o mundo: está tentando refazer o mundo.

É feroz. Não existe outra explicação para a coragem crua e o coração visto repetidas vezes nas pessoas que marcham, falam, criam, resistem e constroem. É a ferocidade do que significa saber que somos humanos e queremos sobreviver.

Este movimento não desiste e está sem medo. Não pode ser pacificado, amenizado ou oprimido. Não haverá um momento “Muro de Berlim”, nenhuma assinatura de trégua, nenhuma manhã para acordar para o momento quando os super-poderes abandonam. O movimento continuará nas suas formas diversas. Não descansará. Não haverá nenhum Marx, Alexandre ou Kennedy. Nenhum livro pode explica-lo nenhuma pessoa pode representa-lo nenhuma palavra pode engloba-lo, porque o movimento é o testamento vivo e sentiente do mundo vivo.

Acredito que prevalecerá. Não quero dizer conquistar ou causar danos a alguém. E não estou fazendo esta previsão como oráculo. Quero dizer que o pensamento que informa a mente do movimento - de criar uma sociedade condutiva à vida na Terra - reinará. Ela logo permeará a maioria das instituições. Mas até lá, mudará um número suficiente de pessoas para começar a reverter séculos de auto-destruição desenfreada.

A inspiração não é conhecida de litanias do que é defeituoso; reside na vontade da humanidade de restaurar, reformar, recuperar, reimaginar e reconsiderar. Curando as feridas da Terra e do seu povo não requer santidade ou um partido político. Não é uma atividade liberal ou conservadora. É um ato sagrado.

Paul Hawken é empreendedor e ativista social morando na Califórnia. Este artigo é tirado do livro Blessed Unrest, a ser publicado pelo Viking Press, e é utilizado com permissão.

(extraído do site: http://sitiocurupira.wordpress.com/curupiranews/)

segunda-feira, 21 de janeiro de 2008

O colapso do agronegócio e a agricultura do futuro




21/1/2008


Por: Gerson Teixeira

“A pequena produção agroecológica se credencia para dominar a paisagem agrária do futuro”, afirma Gerson Teixeira, coordenador geral da Associação Brasileira de Reforma Agrária - ABRA, no DF, em artigo publicado no jornal Valor, 21-01-2008. Segundo ele, “a pequena produção agroecológica se habilita para hegemonizar, no futuro, a paisagem agrária, principalmente em países como o Brasil”. Assim, ele defende que “mais do que nunca, reforma agrária, agricultura familiar e meio ambiente devem passar a ser pontos de convergência das agendas das lutas populares no campo. E cumpre que se perceba a necessidade de luta pela revisão do Pronaf à medida que, na concepção atual o programa nivela as formas de gestão e produção dos camponeses às bases de organização da agricultura produtivista. Isto não ajuda a construir o futuro!”

Eis o artigo.

A interação de dois fenômenos estruturais são preditivos de uma atividade agrícola no futuro, organizada sob bases incompatíveis com a manutenção do agronegócio nos termos atuais. O primeiro fenômeno, de ordem econômica, subproduto da modernização conservadora da agricultura, diz respeito à trajetória erosiva, no longo prazo, dos níveis de rentabilidade econômica da base primária da atividade, decorrente do gap continuado entre preços agrícolas e custos de produção. Esse descompasso teve início com a auto-suficiência alimentar da Europa no final da década de 1970. À título de exemplo, de acordo com a FAO, entre 1980 e 2005, os níveis reais dos preços do milho, arroz, trigo e algodão declinaram, respectivamente, 55%, 50%, 46%, 60% e 54%.

Interagem com esse fenômeno os ganhos de produtividade agrícola em escalas incapazes de convergir as curvas dos preços e custos. A este respeito, vale consultar na Central de Informações Agropecuárias da Conab (www.conab.gov.br) os dados sobre a evolução dessas variáveis, para várias culturas, no período de 1998 a 2007.

Nos países ricos, o colapso da agricultura, por força desses fenômenos, tem sido evitado por políticas protecionistas vigorosas que incluem bilhões de dólares em ajuda aos agricultores.

No Brasil, a grande exploração agrícola tem resistido, com competitividade internacional, graças ao concurso de fatores como: a "cultura" da inadimplência no crédito rural, a precarização do trabalho, os baixos preços relativos da terra, o uso predatório dos recursos naturais e os incentivos da Lei Kandir.

Decorre das tendências acima, portanto, a rota desestruturante da base primária da agricultura empresarial, ao que tudo indica, inevitável, à medida que resultante de fatores dificilmente reversíveis, a exemplo do protecionismo agrícola, da imanência excedentária do modelo agrícola e dos processos de concentração e a centralização econômica dos capitais industrial, financeiro e comercial no entorno da atividade agrícola.

Poder-se-ia contra-argumentar que a economia dos agrocombustíveis imporá inflexão nessas tendências. Mas, o governo brasileiro, os agrosenhores e os seus agro-intelectuais garantem que não haverá competição com a produção de alimentos! Aliás, recomenda-se àqueles que ainda apostam na mega-economia dos agrocombustíveis, a interpretação política da lista de bens ambientais, sem o etanol, apresentada em Bali na COP 13, pelos EUA e Europa, em atropelo e desrespeito, como de praxe, às negociações entabuladas pelos mais de 150 membros do Comitê de Comércio e Meio Ambiente da OMC.

Esta ameaça à agricultura empresarial perde intensidade no caso da agricultura familiar e camponesa por conta dos valores e relações com a terra não restritos à lógica marginalista.

Com esta maior blindagem e levando em conta os efeitos do segundo fenômeno tratado na seqüência, a pequena produção agroecológica se habilita para hegemonizar, no futuro, a paisagem agrária, principalmente em países como o Brasil.

O segundo fenômeno deriva dos impactos na atividade agrícola das mudanças climáticas globais e, ao mesmo tempo, das contribuições da agricultura para o aquecimento global.

O mundo se depara com o grandioso (e ao que tudo indica, irrealizável) desafio de reduzir, entre 50% e 80% as emissões de gases de efeito-estufa, nos próximos 50 anos, para evitar que a temperatura global ultrapasse os 2 graus centígrados. E as medidas nesta direção devem ser implementadas, nas hipóteses mais otimistas, no prazo de até 15 anos.

A agricultura contribui de forma importante e será fortemente afetada por esse processo. Calcula-se que esta atividade seja responsável por 30% das emissões globais de gases geradores do efeito estufa. Afora as queimadas em países como o Brasil, o principal fator da contribuição da agricultura para o aquecimento global é o emprego intensivo de fertilizantes químicos. Daí decorre o seguinte dilema: sem a redução massiva da utilização dos agroquímicos não há possibilidade de redução do aquecimento global e, ao mesmo tempo, sem o uso crescente desses insumos a agricultura produtivista estará inviabilizada.

Neste quadro, no qual a grande exploração agrícola conspira contra a sua própria sobrevivência e a do planeta, os impactos do aquecimento global desestabilizadores da agricultura, previstos no último Relatório do IPCC, exigirão mudanças de profundidade na base técnica da agricultura sob pena de severas ameaças à segurança alimentar da população mundial.

É óbvio que os centros de pesquisa em todo o mundo já vêm se empenhando por soluções técnicas agronômicas para as situações de superstress que advirão do aquecimento global. Todavia, se, por exemplo, é possível a obtenção de variedades compatíveis com adversidades ambientais previstas, não parece razoável supor uma atividade agrícola no futuro ultra-intensiva em fertilizantes. A não ser que a opção seja pela destruição do planeta! Não sendo assim, é possível imaginar o atual modelo agrícola, sem os agroquímicos? Aí já seria um outro modelo agrícola!

Do mesmo modo, muitos cientistas asseguram que a agricultura com biodiversidade será essencial para a convivência com os desdobramentos dos mudanças climáticas. Como isto seria possível com um tipo de agricultura no qual a biodiversidade tem sido uma das suas principais vítimas? Além disso, sem monocultivos em escala não há possibilidade de viabilidade econômica para a base primária do agronegócio, nos termos atuais. De novo, agora por razões ambientais, a pequena produção agroecológica se credencia para dominar a paisagem agrária do futuro.

Em suma, se fatores desestabilizadores da natureza e da economia tendem a criar essa oportunidade de hegemonia para a agricultura familiar e camponesa, no futuro, resta que, na política, as suas organizações atuem para tal sob perspectiva estratégica.

Para tanto, mais do que nunca, reforma agrária, agricultura familiar e meio ambiente devem passar a ser pontos de convergência das agendas das lutas populares no campo. E cumpre que se perceba a necessidade de luta pela revisão do Pronaf à medida que, na concepção atual o programa nivela as formas de gestão e produção dos camponeses às bases de organização da agricultura produtivista. Isto não ajuda a construir o futuro!



Fonte: http://www.unisinos.br/_ihu/index.php?option=com_noticias&Itemid=18&task=detalhe&id=11776

terça-feira, 4 de dezembro de 2007

Projeto Visão do Futuro

Reproduzo abaixo o texto de apresentação do Projeto Visão do Futuro, extraído do site http://www.visaofuturo.org.br/inicio.html.

Trata-se de uma iniciativa de vida alternativa, inserindo-se dentro da reflexão do comunitarismo, já abordado anteriormente neste Blog. Sem entrar no mérito do grau, da amplitude e profundidade dessa iniciativa – se ela tem o potencial (ou não) de promover as rupturas necessárias para a superação das diversas cisões promovidas pela cultura hegemônica – considero a proposta como avanço construtivo e concreto nesse sentido.

(agradeço à VKITSIS por ter noticiado a existência do projeto)

Segue o texto:

A SOLUÇÃO: IMITANDO A NATUREZA com a“BIOECONOMIA”

O Parque Ecológico Visão Futuro em Porangaba, no interior do estado de São Paulo, é uma comunidade integrada (uma “eco-vila”) que tem a proposta de mostrar, na prática, como essa situação pode ser revertida.
O projeto do Parque é baseado na “BIOECONOMIA” – a aplicação dos princípios operacionais dos sistemas biológicos da natureza, tanto na vida social quanto na econômica. Sua meta é suprir as necessidades básicas da vida (alimento, vestuário, educação, saúde, moradia e energia) através de sistemas cooperativos, auto-organizadores e auto-suficientes, gerando mínima entropia e buscando a máxima utilização de todos os recursos humanos e naturais.

AUTOSUFICIÊNCIA, AUTONOMIA & DIGNIDADE

Com a falência das sociedades urbanas complexas em toda a parte, as comunidades locais estão cada vez mais buscando restaurar a noção de identidade e participação. O Parque Ecológico Visão Futuro oferece um mini laboratório social com vistas a explorar soluções viáveis para os 4 bilhões de seres humanos excluídos do processo de globalização. Baseados nos princípios de mínima entropia e máxima utilização dos recursos, os sistemas sustentáveis que dispomos, de agricultura orgânica, reciclagem de água e de resíduos, assim como de energia renovável, restauram os ciclos naturais para que se alcance um estado de equilíbrio dinâmico. Por meio de micro agro-indústrias, cooperativamente administradas que suprem a comunidade com as necessidades básicas da vida – alimento, vestuário e medicamentos – podemos revitalizar as raízes locais e criar microeconomias auto-suficientes. É possível quebrar o ciclo vicioso da pobreza, da exclusão social e da degradação ambiental, pela reativação das economias locais e pelo resgate da dignidade de todos os seres.

O Parque Ecológico Visão Futuro, uma área de 65 hectares no interior do estado de São Paulo, próximo da cidade de Porangaba, foi fundado com o objetivo de tornar-se um modelo de desenvolvimento rural integrado, conforme a filosofia da máxima utilização do mestre indiano Prabhat Rainjan Sarkar. Essa iniciativa deu-se a partir da II Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento (“Eco-92”), no Rio de Janeiro, em 1992, com doações dos governos sueco e alemão (Agência Internacional de Desenvolvimento – SIDA) e a Fundação de Tecnologia Alternativa em Frankfurt, através do ONG Fundação Globetree, da Suécia). O projeto do Parque consistia, em seu início, de uma casa com 7 cômodos, um barracão precário, um velho cobertor e uma única colher. Durante os anos seguintes, com o apoio de incontáveis simpatizantes e doações, e com o trabalho incansável de dezenas de voluntários de todas as partes do mundo, o sonho tornou-se realidade.
Durante a fase inicial (1993-4), o Parque serviu como um centro de educação ambiental para eventos com grupos de adultos, jovens e crianças de escolas da região circunvizinha, tendo sido objeto de grande reconhecimento, tanto nacional como internacional, como um modelo de vida ecológica. Especialistas suecos em meio ambiente denominaram o Parque como uma “pequena fazenda de mínima entropia”, que demonstra, na prática, como uma comunidade rural pode obter auto-suficiência em alimento, remédios, energia e educação, enquanto, ao mesmo tempo, preserva os ciclos naturais de água e biomassa, gerando um desperdício mínimo e prevenindo a degradação ambiental. Numerosas atividades educacionais e culturais têm sido conduzidas no Parque desde o seu início, incluindo:
• O “Projeto Crescer” – treinamento de líderes infantis, na cidade próxima de Tatuí, para conscientizar outras crianças e adultos da importância de reciclagem de lixo, patrocinado pelo Unibanco Ecologia (1994-5).
• “Projeto Visão Futuro” – associado ao World Future Studies Foundation, da Austrália, e patrocinado pela UNESCO, para desenvolver consciência ecológica entre os jovens universitários (1996-8).
• Cursos sobre Biopsicologia e outros tópicos, que promovem o desenvolvimento integrado do ser humano, para adultos, a partir de 1998. Esses cursos estão numa fase de expansão, através de seminários de treinamento de multiplicadores, por todo o Brasil, que oferecem uma série de cursos e seminários sobre desenvolvimento humano, nas suas respectivas localidades.

AGRICULTURA ORGÂNICA

A auto-suficiência na alimentação é alcançada por meio de uma agricultura orgânica extensiva, que provê todas as necessidades nutricionais da comunidade e comercializa na área circunvizinha, gerando assim emprego para a população rural.

PADARIA

A padaria produz ítens orgânicos e integrais para o consumo da comunidade e do bairro vizinho, o que também gera emprego para as pessoas locais.

PLANTAS MEDICINAIS

A horta de plantas medicinais (em forma de mandala, ou geometria sagrada), assim como o laboratório, produzem artigos naturais como xampus, sabonetes, e cosméticos, para o uso da população local e para comercialização, gerando mais empregos para as mulheres do bairro. O laboratório também produz chás medicinais, contribuindo para a auto-suficiência em remédios da comunidade.

VESTUÁRIO

Um centro de costura, usando máquinas de costura e tecidos doados, oferece treinamento para as mulheres locais aprenderem a produzir as necessidades de vestuário de suas famílias, e peças simples de roupa para serem vendidas, aumentando assim a renda familiar.

ENERGIA ALTERNATIVA

Um sistema integrado de energia renovável, incluindo-se luz solar (produzido por painéis fotovoltáicos), aquecimento solar de água, e bombas de água ativadas por energia solar e cata-ventos.

RECICLAGEM DE LIXO E ÁGUA

Os resíduos orgânicos da comunidade são reciclados na compostagem para a horta orgânica e a água do esgoto é tratada num sistema biológico de tratamento, a “zona das raízes”, que recicla toda a água usada domesticamente (incluindo dos banheiros) para irrigação.

CAPTAÇÃO DA ÁGUA DA CHUVA

Os ciclos naturais hidrológicos são restaurados através de numerosos açudes que captam a água da chuva para máxima utilização da mesma. Esses açudes são cercados por plantações de “mata ciliar” para conservar a água...

TRATAMENTO BIOLÓGICO DA ÁGUA

...e a água é limpa através de um sistema biológico de tratamento.

EDUCAÇÃO

Na Creche CreSer as crianças rurais não apenas aprendem a ler, escrever e contar, mas desenvolvem auto-motivação, dignidade, valores éticos, criatividade e uma atitude de amor para com todos os seres.

SAÚDE CORPO-MENTE - AYURVEDA

Um Centro Ayurvédico, “Centro Ananda”, foi estabelecido para promover tratamentos alternativos da milenar ciência de saúde da Ayurveda (a “Ciência da Vida”)

DESENVOLVIMENTO HUMANO

Vários cursos e seminários, que promovem o desenvolvimento integrado do ser humano – nos planos físico, mental e espiritual – são oferecidos nas amplas dependências do Parque – que dispõe de dormitórios, teatros, refeitórios, salas de reunião, etc.

ARTE

Consciência e Amor são os princípios fundamentais que norteiam a nossa arte. Através de peças, rituais e vivências artísticas nos cursos e oficinas de artes para as crianças e os jovens do bairro, a nossa arte serve sua proposta: "Arte para serviço e bem-aventurança". A Companhia de Teatro VerDeImproviso enxerga o ser humano na sua essência: sua natureza divina.

COOPERAÇÃO

Os projetos são gerados cooperativamente, as decisões tomadas coletivamente e os recursos financeiros compartilhados equitativamente, com uma justa e equilibrada distribuição de renda.

Fonte: http://www.visaofuturo.org.br/inicio.html

André Gorz

Fonte:http://www.unisinos.br/_ihu/index.php?option=com_noticias&Itemid=18&task=detalhe&id=9674


André Gorz, 84 anos, e sua esposa Dorine, 83 anos, foram encontrados mortos, na segunda-feira, dia 24 de setembro, na sua residência em Voson (Aube), na França. Os dois estavam deitados um lado do outro. Junto deles, o amigo que os foi visitar, encontrar as cartas endereçadas aos mais próximos. A notícia é do jornal Le Monde, 25-09-2007.
O nome verdadeiro de André Gorz era Gerard Horst, autor de uma extensa e importante bibliografia como Ecologia e Política (1975), Adeus ao proletariado (1980), Metamorfoses do Trabalho (1988), Capitalismo, Socialismo e Ecologia (1991), Miséria do presente, riqueza do possível (1997) e O imaterial. Conhecimento, valor e capital (2003).

André Gorz, austríaco, durante a segunda guerra, 1939 a 1945, se refugia em Lausanne, na Suíça, onde estuda química. Lá, em 1946, conhece Jean-Paul Sartre. Em 1947, conhece Dorine, inglesa e com ela se casa em 1949. Em 1954, ele assume a nacionalidade francesa.

Desde 1983, André Gorz retirou-se para cuidar da sua esposa, que sofria de uma doença evolutiva que degenerou num câncer. Um vizinho os descreveu como “pessoas simples e acolhedoras”.

Jean Daniel, que com André Gorz fundou, em 1964, a revista semanal Le Nouvel Observateur, viu na morte de ambos “uma impactante beleza de uma comunhão no suicídio de dois amantes octogenários”. O presidente francês Nicolas Sarkosy “saudou” num comunicado “o destino singular” do filósofo, “grande figura da esquerda intelectual francesa e européia”. Segundo um amigo, há poucos dias André Gorz confidenciara a sua tristeza ante o agravamento do estado de saúde da sua esposa. O último livro de Gorz, em 2006, intitula-se “Lettre à D. Histoire d’un amour” (Carta a D. (Dorine, nome de sua esposa). História de um amor).


André Gorz. Um crítico radical do capitalismo


“Quando conheci Gorz e Dorine, nos anos 1970, escreve Michel Contat no Le Monde, 26-09-2007, encontrei-os com Ivan Illich, Herbert Marcuse, Rossana Rossanda, William Klein juntamente com intelectuais mais jovens e ativos no movimento social”. “Hoje, escreve o Michel Contat, embora mais espaçadamente, lhe visitavam jovens que se sentiam inspirados por ele na sua ação, sindical, política e social. Igualmente o procuravam universitários que pesquisam a sua obra. Assim, o mundo não lhes vinha ao encontro lá na campanha somente pelas publicações que ele lia assiduamente como as revistas Multitudes ou EcoRev. Estas revistas publicam artigos muito claros exprimindo um pensamento radicalmente sobre a economia política da que reina normalmente”.

Quando das últimas eleições presidenciais na França ele disse que votaria, “mas sem acreditar no discurso dos candidatos que prometem pleno emprego e emprego por toda a vida. Todos mentem quando falam deste tema. E o pior é que todos sabem disso. O futuro não se joga no nível da política do Estado. Ele se constitui nas pequenas coletividades, no nível comunal, por meio de comportamentos que rompem com a lógica do lucro financeiro. É lá que as lutas têm um sentido”. Sobre este tema ele era capaz de falar horas, animado de uma convicção impressionante. Sua crítica radical ao capitalismo nunca foi desarmada. Seus livros a desenvolvem de maneira cada vez mais fina.


O fim do trabalho assalariado. Uma entrevista de André Gorz


A revista Lugar Comum, editada pela Pós-graduação da Escola de Comunicação da UFRJ, no número 5-6, maio-dezembro 1998, p. 179-189, publicou uma longa entrevista com André Gorz. Os subtítulos são da revista Cepat Informa, no.49, 1999.

Eis a entrevista.

O fim do trabalho. Que trabalho?

O trabalho deve perder – na nossa consciência, no nosso pensamento, em toda a nossa compreensão do mundo – a sua posição central. Desta forma se expressa uma das principais formulações de seu livro. Trata-se, portanto, do fim do trabalho?

Gorz - Eu estabeleço diferenciações entre trabalho [Arbeit] e ganha-pão [Erwerbsarbeit]. O trabalho, em sentido antropológico, jamais desaparecerá enquanto a humanidade existir. Todas as sociedades fundaram-se no trabalho em sentido antropológico [Arbeit], no trabalho como realização e tendência da natureza, através da atividade do ser humano. Entretanto, esta definição nada revela sobre as relações sociais e as relações de produção, sobre o trabalho que fazemos e o trabalho que temos. O trabalho que se faz, não se possui; o trabalho que se tem é feito para outrem, que paga por ele e que o determina de fora. Desta forma de trabalho é derivada a função social do Estado. Naturalmente, na sociedade fordista, o trabalho era a base de um status e de um direito social, ambos ligados a ele. Em troca, hoje nos transformamos numa sociedade na qual o trabalho nem é auto-apropriado, auto-atividade no sentido filosófico, nem tampouco vinculado a direitos sociais e econômicos. Isto significa que o neoliberalismo, associado à globalização, desmontou aquilo a que o capital sempre foi antipático – ou seja: a conexão entre exploração e obrigação social.Não falo em “fim do trabalho” no sentido propriamente ontológico, mas, sim, no fim do trabalho fordista. O trabalho organizado socialmente será sistematicamente extinto, sem que o espaço de tempo livre que surge através da eliminação do trabalho possa ser apropriado por aqueles que trabalham. E, aqui, devemos retomar a utopia de Marx e Hegel, isto é, de que, mais cedo ou mais tarde, o trabalho terá de ser revogado.

Redução do trabalho assalariado

Como o senhor avalia o processo de informatização?

Gorz - Hoje, tanto o saber vivo quanto o saber informaticamente registrado são as mais importantes forças produtivas. O volume de trabalho assalariado se reduz cada vez mais rapidamente. O trabalho ganha-pão [Erwerbsarbeit] será cada vez mais descontínuo, precário. A magnitude desta mudança, até agora, foi muito pouco compreendida. Na Inglaterra, por exemplo, atualmente 55% dos trabalhadores e trabalhadoras já estão em empregos precários e inseguros, sem contratos, à disposição do empregador. Na Itália, na Alemanha e na França, esta taxa é praticamente a mesma. Na França, um estudo elaborado pelo Estado, e publicado em outubro passado, demonstrou que, nos últimos anos, dentre aqueles que tinham entre 25 e 39 anos, 55% experimentaram um ou mais períodos de desemprego; entre os que dispunham de diploma universitário a taxa era de 39% - o que revela, entre outras coisas, que todas as camadas sociais, mesmo as altamente qualificadas, foram afetadas pela precarização. Ademais, quando até a força-de-trabalho bem qualificada começa a trabalhar nos chamados macjobs, trabalhos ocasionais não qualificados, a pressão sobre a força-de-trabalho pouco qualificada cresce ainda mais.Como os senhores sabem, as grandes empresas empregam cada vez menos pessoas. Nos Estados Unidos, por exemplo, nas 100 maiores indústrias do país estão empregados apenas 10% dos trabalhadores ainda efetivos. Entre outras coisas, isso significa que cada vez menos gente produz cada vez mais riqueza.

Renda básica para todos

O ponto alto dos programas dos sindicatos é a redução da jornada de trabalho. Esta redução pode melhorar a situação dos ainda empregados e dos desempregados?

Gorz - Se eles exigirem 35 ou 32 horas semanais sem fixar as condições de uma tal redução da jornada de trabalho, então uma reforma como essa deixa de ter qualquer sentido prático atualmente, quando já mais de 50% da força-de-trabalho se insere em empregos do meio expediente, inseguros e preenchidos sem liberdade de escolha. A redução da jornada de trabalho, além disso, pode ser controlada apenas no setor estatal e, quando muito, nas grandes industrias.É certo que o Estado tem que fixar legalmente uma jornada máxima de trabalho, válida para todos os que trabalham segundo uma escala salarial – seja no setor privado, seja no setor estatal. Mas isto não é suficiente. Quando se aspira a uma redução da jornada de trabalho, esta não deve ser calculada apenas tomando por base a semana: ela deve também garantir o seguro social para aqueles que trabalham descontinuamente, temporariamente ou em empregos de meio expediente. Uma renda básica deve ser garantida para todos os que se coloquem à disposição para o trabalho, mesmo que não o encontrem.

O senhor está afirmando que não existe libertação no trabalho assalariado, mas libertação do trabalho assalariado – e, desta forma, esboça também a questão da autonomia?

Gorz - No trabalho assalariado, dados os limites da divisão social do trabalho, a autonomia existe apenas sobre a base da heteronomia.Mesmo no trabalho fragmentado de uma divisão de trabalho fordista, que é, em alto grau, cronométrica, constróem-se espaços livres – mas pelos quais também se tem que lutar. Este é o seu espaço de autonomia. Mas, por outro lado, a jornada de trabalho é subordinada ao critério de rentabilidade, em face do qual nada se pode fazer, sobre o qual nem se está informado, pois permanece determinado exteriormente pelo capital. Nem mesmo numa indústria fordista – digamos assim – humanizada, como a Volvo, o trabalhador e a trabalhadora podem determinar o produto que eles criam, e menos ainda os critérios da necessidade social do que produzem.Cedo ou tarde, chegaremos à situação na qual o volume dos meios de pagamento não poderá e não deverá mais suportar os atuais critérios de demanda e oferta, situação onde a sociedade fará circular os meios de pagamento para que a produção escolhida de valores-de-uso possa ser dividida, partilhada.

O Estado a serviço do capital

Na sua opinião, existe hoje um plano capitalista, uma espécie de cérebro capitalista, voltado para o processo econômico?

Gorz - Sim, com certeza! Por toda a parte, o capital serve-se da concorrência industrial, aprofundada por ele mesmo, para exigir do Estado que destrua sua política social, desregule os mercados e as condições de trabalho, liberando-os ao domínio das puras leis de mercado. Estas leis, anônimas e puramente estatísticas, servem para proteger o capital contra as leis elaboradas pela sociedade. É o que afirma o chefe do Banco Central alemão: “Os Estados serão fiscalizados pelo mercado financeiro, e podem ser arruinados quando sua política não agradar a este”.

Superar a sociedade salarial

A renda básica e incondicional que o senhor exige é uma forma de estratégia contrária a tudo isto?
Gorz - Penso que não haverá estratégia contrária se não nos colocarmos o objetivo de sair da sociedade do ganha-pão para nos dirigirmos para uma sociedade do trabalho reapropriado. Temos que partir da conclusão de que sempre haverá menos trabalho pago. Nesta perspectiva, a renda básica garantida tem um sentido: é uma arma potencialmente sempre mais contundente para a superação do capitalismo e a saída de uma sociedade prostrada diante da valorização do capital.Contudo, apenas uma renda mínima garantida não é nenhuma solução para os problemas econômicos e sociais da sociedade. Por mínima que for, ela é a mais importante fonte de participação de cada um, de cada uma, na riqueza produzida pela sociedade. Mas isso não é tudo! A riqueza mais decisiva é sempre a riqueza cultural, em capacidades humanas e em relações interpessoais – riqueza não comprável ou pagável.Uma tal renda mínima garantida, hoje, não se deixa colocar em prática, nem política nem financeiramente. Uma renda básica universal suficiente não é hoje possível justamente porque as grandes indústrias, que administram os principais lucros, praticamente não pagam mais impostos – e, quando os pagam, é porque, na maioria das vezes, eles são baixos.Sei, naturalmente, que não se pode passar de repente da situação atual para aquela de uma renda social universal, incondicionais e suficiente. Com relação a isso, parece-me interessante o modelo que hoje se implementa na Holanda. Lá, 37% da população ativa realiza trabalho de meio expediente; desses 37%, um terço trabalha menos que 13 horas semanais. Lá, todos têm direito a um salário básico tabelado – e, a propósito, todas as formas de trabalho de meio expediente são negociáveis, protegidas e reconhecidas legalmente e não devem provocar qualquer discriminação.

O capital humano é mais importante que o capital material

Como pode ser introduzida uma divisão mais justa da riqueza produzida? No seu livro, por exemplo, o senhor exige “menos Estado” – o que levou um redator de economia do Le Monde a chamá-lo de “liberal disfarçado”.
Gorz - Não estamos tão longe que o Estado não possa ser eliminado! Mas, por enquanto, para a introdução de todas as reformas, é necessário uma institucionalização por parte do Estado. E aqui gostaria de retornar à renda básica, universal e suficiente.É hoje urgente o direito de vincular o tempo livre deixado pelo trabalho para atividades pessoais a uma segurança material garantida. Na Dinamarca, esta exigência começa a ser implementada. Os profissionais têm direito a um ano de férias com a garantia de 72% do salário tabelado. O sociólogo alemão Claus Offe, por exemplo, sugere propiciar a todas as pessoas, durante todo o seu período de vida de trabalho, dez anos de férias garantidas e pagas.Precisamos, antes de mais, reconhecer definitivamente que o futuro não está em trabalhos seguros, duradouros, com expedientes integrais, mas na relação de alternância entre períodos de trabalho pago cada vez mais curtos e períodos sempre maiores de atividade livre – e que, portanto, o prestígio e o reconhecimento social do trabalho assalariado deve ser deslocado para as atividades pessoais. Além disso, o capital humano – isto é: riqueza de idéias, criatividade, capacidade de aprendizagem – é hoje, no processo de valorização, mais importante que o capital material pois o trabalho não mediatizado, como Marx o chamou, represente somente ainda pequena fração do tempo usado pela força-de-trabalho para a sua produção e reprodução. A capacidade de autonomia das pessoas deve ser constituída, entre outros meios, através da aquisição constante do conhecimento.

Uma nova sociedade

Em seu livro, o senhor acentua que de modo algum podemos sair da sociedade do trabalho sem que este modelo social moribundo seja substituído por outro, por um novo modelo de sociedade.

Gorz - Mesmo o tempo livre disposto pelo trabalho mediatizado é, no final das contas, produtivo. Assim, existem hoje, por exemplo, indústrias de alta tecnologia que exigem que seus empregados saiam de férias e se envolvam com outros assuntos que não a produtividade empresarial – filosofia, dança, música, etc. A criatividade é desejada pela direção da empresa porque ela observou que a força-de-trabalho torna-se apática, que sua fantasia inventiva desaparece quando ela não pode usar o tempo livre como pessoas criativas.E isto mesmo se, por pouco ou muito tempo, as “eternas perguntas” sejam dramaticamente colocadas: - como se vendem produtos para os quais não há mais poder de compra? – de onde deve vir a demanda, se, para a aquisição de riqueza, cada vez mais, menos pessoas receberão salário?Cada vez mais, menos pessoas produzem mais riquezas. Coloca-se porém, a questão do poder de compra, de venda. Isso é, na verdade, algo positivo – pois significa que a produção fundada no valor-de-troca sucumbirá. O capital não está na condição de pagar pela compra de sua produção. Chegaremos, mais cedo ou mais tarde, à situação na qual o volume dos meios de pagamento não mais estará sob os critérios atuais de demanda e de oferta, mas sim na qual a sociedade, o estado, colocará em circulação os meios de pagamento para poder distribuir a produção de valores úteis preferida e escolhida por ela.

“A riqueza do possível” significa, na sua opinião, entre outras coisas, que a sociedade do trabalho se transforme numa sociedade da cultura, fundada economicamente no auto-abastecimento, em elos de cooperação. O senhor almeja o retorno à sociedade da troca?

Gorz - É claro que a liberação do tempo de trabalho deve conduzir ao desenvolvimento de relações baseadas na reciprocidade e que as relações mercantis e monetárias, a partir daí, serão parcialmente substituídas. Além disso, é possível organizar as instituições públicas de modo tal que se possa desenvolver todo tipo de auto-atividade, auto-abastecimento e ajuda mútua. Autarquia e elos de cooperação sinalizam uma direção sensata, na qual uma economia solidária pode se desenvolver. Em nenhum lugar está escrito que um trabalho deve servir apenas para ser vendido a um empregador, que dele se apropria. O capitalismo moderno conduziu à expropriação do trabalho e ao monopólio radical sobre os meios de trabalho. Como seria se as pessoas trabalhassem anualmente apenas seis meses e, nos outros seis, fizessem aquilo com que sonham?

Como é possível romper o monopólio a que o senhor refere?

Gorz - Mediante uma reapropriação dos meios de trabalho.

Época de transição

Mas como é possível superar o capitalismo quando se está completamente excluído pelo capital, seja pelo desemprego, seja pelas formas de autarquia?
Gorz - “O sonho das pessoas de ter um salário fixo está profundamente enraizado”. “Devemos pensar assim – Eu quero um trabalho, mesmo que seja uma droga de trabalho? -, pois todos desejam um trabalho”. Não: eu considero falsas essas opiniões! São uma propaganda do trabalho – pois como os detentores do capital podem fortalecer e defender o poder do capital sobre as pessoas senão fazendo crer que não existe uma outra vida que não aquela que é preenchida com um trabalho assalariado?A pior de todas as políticas que hoje se pode fazer é tratar de criar nas pessoas expectativas de ocupação integral, expectativas sempre fraudadas. Com essa política, impede-se que as pessoas percebam ou entendam a natureza e o princípio das mudanças nas quais estamos inteiramente imersos. Essa pessoas haverão de perseverar na opinião segundo a qual ninguém pode fazer nada contra a onipotência do mercado e do capital – com exceção, talvez, de uma ditadura. E, obviamente, elas podem me retrucar que não há provas de que a ocupação integral jamais será novamente viável, assim como podem qualificar como simples fatalismo a recusa dessa “esperança”.A opinião dominante não quer perceber, nem aceitar, que não nos encontramos simplesmente em uma crise, mas em uma “mutação”, numa época de transição. Não uma nova “revolução industrial”, mas sim no “advento da economia do imaterial”, no qual as leis até hoje conhecidas carecem de validade.

O trabalho não é tudo

Em outras palavras, chega-se àquele processo que o senhor chamou de “êxodo” do trabalho assalariado, do capitalismo?
Gorz – Sim. Precisamos nos libertar intelectualmente da idéia fixa de que para além do trabalho não haveria sociedade. Numa pequena pesquisa, publicada na Universidade de Munique, 50% dos cidadão e cidadãs inquiridos chegaram à conclusão de que trabalho descontínuo corresponde a uma situação de trabalho normal, e que trabalho descontínuo começa a revelar-se um valor importante para o desenvolvimento de sua capacidades pessoais – somente 50% consideram hoje o emprego seguro como uma normalidade. A descontinuidade do trabalho deverá ser “normal”, enquanto, ao mesmo tempo, a sua precariedade deverá ser reduzida.

Isto não é uma contradição?

Gorz - Pelo contrário! Devemos, de uma vez por todas, nos afastar da idéia fixa de que a “sociedade” seria uma “ordenação”, na qual cada sujeito deve ter seu lugar coordenado previsto. A sociedade do trabalho assalariado não é o estágio mais alto das humanidade; o trabalho assalariado não é, simplesmente, a mais alta forma de produção das relações sociais. A ocupação não é nenhum fim em si. Assim vista, a descontinuidade do trabalho profissional pode se tornar, para todos, uma fonte de uma vida altamente rica, criativa e livre – sob a condição de que os períodos de trabalho e de não-trabalho possam ser tanto escolhidos individualmente quando negociados coletivamente, autárquicos, estendidos à semanas, mês, ano e assim por diante; e que, durante o período de não-ocupação, a todos seja garantida incondicionalmente uma renda suficiente.Sublinho: incondicionalmente, pois, quando for consagrado que, durante o período de não-ocupação, as pessoas deverão usar este tempo para estudar, educar seus filhos, praticar esportes ou entregar-se, de novo, em uma ocupação, submetida a um controle institucional, administrativo. Reproduzimos, assim, o trabalho assalariado, apenas sob outra forma.Restabelecer a primazia da política

O senhor deposita, particularmente, grande esperança na unificação européia, político-social e econômica, como sendo, de certo modo, uma força contrária à globalização do capital financeiro.

Gorz – Normalmente, quem possui o maior poder comercial do mundo possui igualmente o poder de estabelecer as regras do comércio mundial. E a comunidade européia possuiria o maior poder comercial do mundo se tivesse a vontade política de determinar as regras econômico-sociais do comércio, ao invés de entregar-se ao livre-comércio americano. Mas isso supõe, todavia, uma vontade política comum que até hoje não se criou, como supõe a imposição, aos consórcios industriais, de uma política diferente da que hoje tem vigência no âmbito da globalização.

Quem luta, então, contra quem?

Gorz - O capital financeiro globalizado e desnacionalizado contra o nascimento de um Estado europeu supranacional. Até aqui foi possível, ao chamado “mercado financeiro”- portanto, ao capital financeiro -, tornar os Estados nacionais largamente impotentes e impor, sob o apelo das chamadas “leis de mercado”, a sua ordem.Diariamente, são trocados cerca de 1.400 bilhões de dólares nos mercados cambiais. Apenas 4% do balanço das economias correspondem à troca de serviços e de mercadorias. A economia é colocada a serviço da multiplicação de dinheiro desprovido de substância e conteúdo. O saldo é puramente especulativo. A economia aparece carente da força criadora democrática da sociedade. O poder do dinheiro dos mercados financeiros eleva-se acima do poder político-social dos Estados e substitui os legisladores pelas chamadas “leis de mercado”, pelas quais – e também pelas suas conseqüências – ninguém é responsabilizado. Esta é a situação atual, para a qual não há nenhuma saída nacional, senão supranacional. Uma formação de Estados supranacionais da magnitude da comunidade européia poderia restabelecer a primazia da política, com a capacidade político-econômica, social e democrática de controle, pelos Estados dos partícipes, do comércio.Após a introdução do euro, seria possível estrangular amplamente as transações especulativas de divisas através de um imposto mínimo chamado Imposto Tobin. Naturalmente, o mercado financeiro não deseja nada disso: a taxação das transações financeiras (que recebeu a denominação de Imposto Tobin por causa de James Tobin, Prêmio Nobel de Economia) seria insignificante do ponto de vista financeiro, mas importante só o ponto-de-vista econômico-político, porque, a partir dela, a especulação de divisas poderia ser consideravelmente represada. De acordo com alguma cálculos, o Imposto Tobin reduzir-se-ia a uma percentagem de meros 0,1% de dois terços do volume das transações e traria 150 bilhões de impostos. Isso é pouco! E não acreditem os senhores que, com tal tributação, poder-se-ia financiar uma renda mínima incondicional garantida. Hoje, por exemplo, na Alemanha, nem sequer a escola primária, muito menos a universidade, é financiável. As grandes empresas quase não pagam impostos e, ao mesmo tempo, reduzem a massa salarial. Consequentemente, apenas uma outra lógica pode trazer algo de novo: uma economia plural, na qual o domínio do capital – e sua exigência de lucro – seja superado".

O COMUNITARISMO NA NOVA CONFIGURAÇÂO DAS POLÍTICAS SOCIAIS NO BRASIL

Myrtes de Aguiar Macedo (*)

(*) Professora do Departamento de Serviço Social da PUC-RIO. Doutora em Política Social, pela University of Manchester. Pesquisadora do CNPq. Coordenadora do Grupo de Pesquisa Trabalho Gênero e Políticas Sociais vinculado ao Programa de Pós-graduação em Serviço Social da PUC-Rio. Tem várias publicações referentes à temática trabalhos e políticas sociais, em particular, sobre a política de assistência social no contexto brasileiro, a partir dos anos de 1990.

A primeira parte desse texto traz reflexões sobre comunidade construídas a partir da realidade dos países capitalistas centrais em tempos de globalização. O retorno à comunidade nesses países está associado à questão do risco social crescente nas sociedades modernas, bem como, o desenraizamento do homem cosmopolita. Uma das principais contribuições nesse estudo vem sendo elaborada por Zygmunt Bauman, sociólogo polonês, e professor da Universidade de Leeds. Bauman possui vários livros traduzidos e publicados no Brasil pela Editora Zahar. Outra referência presente no debate recente sobre comunidade é representada pelo modelo de “comunidade cívica” construída por Putnam (1996) que tem por base a valorização da responsabilidade, colaboração e altruísmo enquanto virtudes capazes de construir “redes” integrativas.
As reflexões recentes desenvolvidas sobre os mudanças na relação entre Estado e sociedade no campo das políticas sociais brasileiras indicam a reelaboração do conceito de sociedade civil em decorrência da ênfase nas teorias comunitaristas que reforçam o enfoque humanitarista, intersubjetivo e integrativo das relações sociais. No Brasil, portanto, o debate atual sobre comunidade, no campo da intervenção prática, está associado ao crescimento do chamado Terceiro Setor que tem determinado o esvaziamento do conteúdo político no entendimento do conceito de sociedade civil. Para os objetivos desta comunicação, nos interessa focalizar a noção de comunidade nos processos de intervenção prática que constroem as novas formas de gestão das políticas sociais públicas.
A teoria social, que enfoca a condição de modernidade das sociedades globalizadas, reserva um lugar de destaque para a questão do risco social no debate contemporâneo. “ As sociedades de risco forjam-se a partir da precarização dos arranjos institucionais da existência humana...” (Carapinheiro, 2002). Nessa linha de pensamento, Bauman analisa a categoria de risco nas sociedades modernas pela sua ligação à desagregação de grupos sociais e de práticas sociais que antes eram unificadas, estabilizadas e consolidadas a partir da proteção social do Estado, reconhecida como Welfare State. Para Bauman, o comunitarismo “renascido” pode ser visto como um pêndulo que oscilando radicalmente, afasta-se do pólo da segurança na “díade dos valores humanos fundamentais”. Nesse contexto, Bauman aponta o desemprego, as perspectivas incertas na velhice e os infortúnios da vida urbana como as principais fontes da difusa ansiedade relativa ao presente, ao futuro próximo e ao futuro mais distante: “a falta de segurança é que une as três, e o principal apelo do comunitarismo é a promessa de um porto seguro, o destino dos sonhos dos marinheiros perdidos no mar turbulento da mudança constante, confusa e imprevisível” (Bauman, 2002). Apropriando-se da imagem do “homem modulado” para entender o homem no contexto dos grandes centros urbanos, o autor ressalta a fragilidade dos laços que ligam esses homens entre si. Neste sentido, os habitantes “modulados” não pertencem “inteiramente” a nenhum dos grupos de que participam. Isto porque nessa condição, todas as formas de comunhão são frágeis e vulneráveis, enquanto os módulos permanecem mal integrados – se constituem fonte de constante tensão. Para Semeraro, a corrente comunitarista hoje, se dirige à sociedade civil com um discurso que visa a recuperar as relações humanas e incentivar a integração social das pessoas, distanciando-se de qualquer concepção liberal, abstrata e universalista (Semeraro, 2001: 259).
Os Estados Unidos são apontados como o berço do comunitarismo nos anos 70, como uma reação ao projeto de renovação de liberalismo desencadeado 4por J. Rawls através de seu livro A teoria de Justiça, publicado em 1971. Nas palavras de Semeraro: “a ‘onda’ comunitarista se apresenta como uma crítica ao individualismo, à dissolução dos vínculos familiares, comunitários e nacionais, bem com a toda visão contratualista e mercantilista introduzida na sociedade atual pelo projeto da modernidade (Semeraro, 2001: 259). Para os comunitarista, o “eu sem vínculo” dos liberais é antes de tudo um indivíduo destituído de dimensão moral e comunitária e não um sujeito livre e autônomo como defendem estes. Cabe ressaltar que os comunitaristas insistem no “bem comum”, nos deveres e na “solidariedade” para com a sociedade à qual pertencem. No comentário do autor, os comunitaristas ao contestarem as fragilidades de concepções fragmentárias e formalistas, tendem a enfatizar visões organicistas e holísticas de realidade. Com muita propriedade, Semeraro não considera as propostas comunitárias apenas como uma reação ao liberalismo, mas atribui a sua maior força a real necessidade de solidariedade e de valorização das pessoas para anular os impulsos ao anonimato e ao desinteresse predominantes no mundo de hoje que levam a desintegração crescente da sociedade atual.
Para os comunitaristas, os valores da solidariedade, da reciprocidade e os laços comunitários irão prevalecer, naturalmente, sobre as leis do mercado e a lógica da política. Nesse sentido, acrescentam que as virtudes da responsabilidade da colaboração e do altruísmo poderão constituir uma “comunidade cívica” nos termos de Putnam. Em termos práticos, uma “comunidade cívica” para o autor se caracteriza, primeiramente, pela participaçção dos cidadãos nos negócios públicos: “na comunidade cívica os cidadãos buscam o que Tocqueville chamava de ‘interesse próprio corretamente entendido’, isto é, o interesse próprio definido no contexto das necessidades públicas gerais, o interesse próprio que é sensível aos interesses dos outros” (Putnam, 2002: 102).
A comunidade cívica tem como eixo central a questão da cidadania, entendida enquanto direitos e deveres iguais para todos. A coesão no âmbito da comunidade supõe relações horizontais de reciprocidade e cooperação e não, relações verticais de autoridade e dependência. Neste sentido, os líderes devem ser responsáveis por seus concidadãos. Diz Putnam: “Tal comunidade será tanto mais cívica quanto mais a política se aproximar do ideal de igualdade política entre cidadãos que seguem as regras de reciprocidade e participam do governo”. (Putnam.2002:102). Mesmo admitindo a virtuosidade dos cidadãos numa comunidade cívica, esta não está livre de conflitos, visto que seus cidadãos têm opiniões firmes sobre as questões públicas, mas, em níveis toleráveis por parte de seus oponentes, afirma Putnam. No tocante às concepções e significados da noção de comunidade no contexto brasileiro estas se vinculam às resignificações do conceito de sociedade civil ao longo das lutas sociais e políticas no país. Neste sentido, destaca-se a análise de Gohn, que define a sociedade civil no Brasil como “uma idéia força na construção de alternativas democráticas durante o regime militar e que depois se transforma no espaço privilegiado de ações políticas mobilizatórias,voltadas para atuar em parceria com diferentes atores sóciopolíticos, em políticas sociais oficiais na esfera pública” (Gohn, 2002).
Esta análise que toma como base a conjuntura histórica, ressalta as ambigüidades das políticas sociais a partir da disseminação de estratégias de parcerias com a “comunidade organizada” e a noção de “capital social” difundidas nos anos de 1990. Esta visão privilegia as iniciativas “inovadoras” expressas nas mais diversas formas de cooperativas e ações solidárias e ainda as várias possibilidades de participação institucionalizada de cidadãos em fóruns e conselhos gestores de políticas públicas. Assim, no contexto da “reforma do Estado” a sociedade civil é articulada em torno de organizações filantrópicas e comunitárias. Mais uma vez, concordando com Semeraro (2002), reconhecemos que a visão comunitarista articula um discurso muito sedutor, cujas propostas, diz o autor: “derivam sua maior força da real exigência de solidariedade e de relações intersubjetivas, da valorização das pessoas num mundo que favorece o anonimato e o desinteresse”.
Uma retrospectiva das ações estatais e práticas mobilizatórias, ao longo das intervenções práticas, revela os diversos usos e sentidos atribuídos à noção de comunidade no Brasil. Na fase desinvolvimentista, os conceitos de comunidade e de desenvolvimento de comunidade marcaram sua história no que se relaciona à atuação dos profissionais de Serviço Social no sentido da mobilização e organização dos setores populares. Dentre os estudos realizados sobre este momento histórico, destacam-se: o de Safira Bezerra Ammann intitulado “Ideologia do Desenvolvimento de Comunidade no Brasil (1980); e o de Mariângela Belfiore Wanderley denominado “Metamorfoses do Desenvolvimento de Comunidade” (1993). Esses trabalhos levantam questões importantes sobre as práticas do desenvolvimento de comunidade na década de 1960 e início dos anos de 1970.
Entre os anos de 1960 a 1963, registra-se grande ênfase na educação popular, o que resultou na gestação de uma consciência de caráter nacional–popular e no engajamento de amplas camadas sociais na luta pelas reformas de estrutura.. No pós 1964, a integração, através da “ação comunitária” passa a ser postulada como fundamental para a harmonia do sistema, devendo ser estimulada a participação comunitária para preservar a harmonia, a continuidade e estabilização do sistema. A abordagem de comunidade é vista como um todo regido pelo consenso, com base na identificação de problemas e interesses comuns. Comunidade como unidade consensual leva a um tipo de intervenção onde os problemas são tratados não por interesse de classes, mas por grupos sociais definidos por faixa etária, sexo, etc. (Amman, 1980: 85).
Nas práticas estatais no campo das políticas sociais, destaca-se a implantação de Centros Sociais Urbanos como principal estratégia de intervenção voltada para a ação comunitária. Nos anos de 1970 e 1980, já num cenário de declínio do regime militar, o destaque em termos do entendimento de comunidade é dado pelo movimento das chamadas “Comunidades Eclesiais de Base” da Igreja Católica. Aqui a noção de comunidade ganha importância como dimensão legitimadora das iniciativas religiosas ou governamentais no plano local.Segundo Eder Sader(1988), foi a matriz discursiva das pastorais da igreja, inspirada em Medellín, que preconizava a premência da ação, que mobilizou as CEBs em todo o país. As CEBs se multiplicaram rapidamente, alcançando em 1981 o total 80 mil comunidades de base (Sader, 1988:156) Na avaliação de Sader, os escritos sobre CEBs eram imbuídos de valores comunitários que tendiam a confundir o que “deve ser” com o “que é”. Em conseqüência, essa abordagem tende a não reconhecer diferenças e níveis de participação distintos no seu interior, visto que, trata-se de “comunidade de iguais” (Sader: 156).
O debate dos temas, na dinâmica das CEBs, seguia o método de “verjulgar-agir” das pastorais da Igreja Católica. Nessas práticas, os discursos que se sobressaem tinham como temas: o “povo”, a “igreja” e as “autoridades”. O “povo das comunidades” aparece como expressão dos sujeitos autônomos que compreendem a “caminhada da libertação”. São apontadas muitas ambigüidades nesse discurso. Com redemocratização do país no final dos anos de 1980, ocorre também o declínio da CEBs o qual se acentua nos anos de 1990, quando seus militantes passam a integrar os quadros partidários ou instituições estatais responsáveis pela formulação e execução das políticas sociais públicas.Compreender o processo de reordenamento das políticas sociais brasileiras, a partir da década de 1990, requer uma incursão nos processos que determinaram a reforma do Estado de corte neoliberal, particularmente, no tocante às mudanças na sua relação com a sociedade. Essas mudanças se manifestam, de modo especial, na conformação de novas formas de gestão social que envolvem a presença de novos atores sociais, como parceiros do Estado, na provisão e gestão de bens e serviços sociais públicos. A literatura específica tem identificado esse processo pelo seu caráter regressivo, caracterizado no sentido de uma refilantropização no trato da questão social (Yazbek,2002). Essa interpretação ressalta, como tendência geral, a retomada de formas de intervenção social fora do registro dos direitos de cidadania o que significa um distanciamento do modelo de Seguridade Social Público desenhado na Constituição Federal de 1988. Acrescenta-se ainda nesse quadro, como dado da realidade, que o agravamento da pobreza em decorrência das transformações no mundo do trabalho vem tornando a relação entre Estado e sociedade mais complexa e contraditória. Essa constatação leva Telles (1998) a considerar, com muita pertinência, que estamos diante de uma atualização do fenômeno da pobreza pela presença dos novos “excluídos” originários da reestruturação produtiva.
Nesse contexto de acentuada desigualdade social, emergem estratégias distintas no enfrentamento da questão social, representando projetos societários diferentes na estruturação e implementação das políticas sociais públicas. Em conseqüência das ações diversificadas protagonizadas por atores sociais distintos, esse processo é tencionado pela disputa entre a defesa da universalização dos direitos sociais e a sua negação mediante a afirmação dos princípios de seletividade e focalização no atendimento às necessidades sociais. A construção do projeto de proteção social de caráter universalista vem sendo negado pela redefinição do papel do Estado sob o marco neoliberal que norteia a reforma do Estado brasileiro em curso. Trata-se de um movimento regressivo em referência a construção do sistema de seguridade social público. É, particularmente, com a entrada em cena de novos atores na prestação de serviços sociais, como representantes da sociedade que surge, nesta década, a questão da resignificação da categoria comunidade. Para Telles, este conceito assume, no contexto de redefinição das políticas sociais reconfiguradas através das parcerias, um sentido ampliado referindo-se “seja a família, sejam as organizações não governamentais, sejam as organizações filantrópicas tradicionais e suas formas modernas, aí incluindo a chamada filantropia empresarial” (Telles, 1999). Nos termos de Telles, a intervenção social protagonizada por esses atores não pode ser identificada com as velhas e tradicionais práticas de “gestão filantrópica da pobreza” porque traz inovações na forma de gestão das populações pobres, forjadas em um “encapsulamento comunitário” que ao negar os princípios universalistas de igualdade e de justiça social apaga as noções de direito e de cidadania. A contextualização dessa problemática remete a uma discussão que tem como eixo central o que vem sendo denominado, na literatura específica, de erosão da esfera pública. Entende-se que esse marco comunitarista projeta novas formas de intervenção que forjam um universo heterogêneo por onde transitam diferentes atores motivados, em sua grande maioria, por interesses particularistas. Em decorrência, a sociedade, que é redesenhada a partir desse marco, tende a ficar confinada nas particularidades que compõem esse cenário constituído pelos diferentes grupos sociais existentes o que acarreta perdas das referências totalizadoras e democráticas. Focalizando, de um modo especial, o campo das políticas sociais, é possível perceber diante das tendências em curso no contexto das mudanças na relação entre Estado e sociedade nos anos 90, um tipo de reordenamento comunitário dos programas sociais subsidiados pelos fundos públicos e mediados pelos critérios de eficiência e competição do mercado (Telles,1999). A marca dessa nova configuração das políticas sociais foi dada pelo Programa Comunidade Solidária criado pelo governo de FHC no ano de 1995. Desta forma, o PCS, embalado pelo crescimento do Terceiro Setor, teve como sustentação um viés comunitarista. Neste sentido, define sua linha de intervenção social articulada à noção de espaço público não-estatal que tem como fundamento a concepção de solidariedade no contexto da benemerência (Telles, 1998).
Afirma-se aí uma lógica de intervenção estatal norteada por uma estratégia de ação social despolitizada e consubstanciada por uma noção moral de responsabilidade, ditada como dever de solidariedade em relação aos mais pobres.
A literatura aponta como conseqüência mais imediata dessa lógica solidarista, um esvaziamento do conteúdo político da noção de espaço público, que passa a ser traduzido em termos de participação comunitária. A partir dessa concepção, neutraliza-se a esfera pública como campo político democrático de explicitação de conflitos e dissensos de negociação e interlocução em torno de questões importantes à vida em sociedade (Telles,1999).
Recentemente, no governo do Presidente Lula, o Ministério de Desenvolvimento Social está iniciando um processo de construção de um novo marco regulatório para a política de assistência, mediante a proposta de definição de um Sistema Único de Assistência Social (SUAS) que pretende adotar uma nova concepção de comunidade com base na noção de território. Mas o que se observa na prática, continua sendo a identificação da noção de comunidade à de terceiro setor.
Em síntese, a retomada do marco comunitarista no campo das políticas sociais está promovendo uma resignificação da noção de sociedade civil, na medida em que esta vem sendo esvaziada de sua dimensão política na perspectiva de construção de espaços públicos, para afirmar o que Vera Tellesmuito adequadamente, denomina de “encapsulamento comunitário” pelo qual as ações coletivas locais são circunscritas de acordo com as particularidades dos diversos grupos sociais envolvidos.

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Ecologia Política: Guerreiro Ramos e Fritjof Capra

Fritjof Capra


SÉRGIO LUÍS BOEIRA (*)


(*) Doutor em Ciências Humanas (UFSC), professor de ecologia política, no curso de ciência política, e pesquisador do mestrado em administração da Universidade do Vale do Itajaí (SC)

INTRODUÇÃO

Este ensaio tem por objetivo contribuir com a ecologia política por meio da síntese comparativa de duas obras de pensadores ambientalistas publicadas no início da década de 1980. A Nova Ciência das Organizações, de Alberto Guerreiro Ramos, e O Ponto de Mutação, de Fritjof Capra, estão entre os clássicos do pensamento ecopolítico.A hipótese central deste trabalho é que os autores, apesar de suas diferentes áreas acadêmicas de base, chegaram a resultados muito semelhantes a partir de um mesmo paradigma emergente, contribuindo de forma decisiva com a formação do campo de pesquisa trans-disciplinar que é a ecologia política. Capra, físico, epistemólogo (com incursões nas ciências sociais, na ecologia, na psicologia e na administração), e Ramos, um dos pioneiros da sociologia brasileira (com formação também filosófica , incursões na psicologia, na administração, na ecologia e com experiência político-parlamentar), podem ser considerados dois constituintes da ecologia política, sem que esta expressão seja utilizada por eles diretamente.Nem Capra menciona Ramos, nem este cita Capra.
Este último é austríaco e vive nos Estados Unidos, tendo sua obra atingido repercussão mundial. Ramos, brasileiro, faleceu em 1982, após ter lecionado nos Estados Unidos (Universidade da Califórnia do Sul, Yale University e Wesleyan University) e publicado dez livros e numerosos artigos (em inglês, francês, espanhol e japonês). Sua principal obra, aqui examinada, também foi publicada pela Universidade de Toronto, em inglês, em 1981. Ramos também lecionou na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).
Autores como Jean-Pierre Dupuy (1980), André Gorz (1980), Jean Dorst (1973), Cornelius Castoriadis e Daniel Cohn-Bendit (1981), Edgar Morin (1973), Lester Brown (1983), Karl Deutsch (1977), Kenneth Boulding (1978), Ronald Inglehart (1977), Herman Daly (1977), Georgescu-Roegen (1971), John Galtung (1977), Arnold Toynbee (1979), William Ophuls (1977), Gregory Bateson (1986), Ignacy Sachs (1986), Lester Milbrath (1984), Barry Commoner (1980), Paul Ehrlich (1968), Ivan Illich (1976), E.F. Schumacher (1983) e Roger Garaudy (1979) estão entre os pioneiros da ecologia política entre a década de 1950 e meados dos anos 80[1]. José Augusto Pádua encontra indícios da ecologia política no debate sobre o projeto nacional brasileiro desde o início da colonização européia (Pádua, 1987). Com efeito, antes da vertente acadêmica posterior à década de 1950, pode-se encontrar já em Platão, há 2.400 anos, uma crítica ambientalista ao desmatamento e à erosão do solo decorrente do excesso de pastagem. Mas as raízes de um movimento coletivo de defensores do meio natural são discerníveis na Grã-Bretanha na década de 1860. Tal movimento diversifica-se (preservacionismo, conservacionismo)[2], espalha-se durante a primeira metade do século XX e politiza-se rapidamente desde os anos 60, gerando, inclusive, diversos partidos verdes na década de 1970 (McCORMICK, 1992). No Brasil, Eduardo Viola faz uma análise ecopolítica e um resgate histórico do movimento (1987; 1992). Depois da Conferência Rio-92 houve diversificação e complexificação da agenda ecopolítica. Isto significa dizer que os autores e obras aqui examinados, para serem compreendidos, precisam ser vistos no contexto da primeira metade dos anos 80.
Entretanto, no contexto difuso das idéias ambientalistas, Fritjof Capra e Guerreiro Ramos encontram-se entre aqueles autores que abordam a variada temática da ecologia política desde um ponto de vista inovador, tanto com relação à trajetória histórica da ecologia quanto da ciência política ou das ciências sociais em geral. Trata-se de uma travessia trans-disciplinar e sistêmica entre ciências naturais e humanas ou sociais, uma reorientação paradigmática das mesmas. Evidentemente, não são os únicos nem, necessariamente, os que melhor fizeram tal travessia. Esta reorientação paradigmática abrangente não é obra de uns poucos autores e muito menos aconteceu de forma isolada. Também não é algo de curto ou médio prazo, mas que requer décadas, conforme se pode depreender tanto da obra de Thomas Kuhn (1962), que iniciou o debate acadêmico sobre as revoluções paradigmáticas, quanto de Edgar Morin (1991), que há pelo menos três décadas vem tratando do tema. Com isto quero justificar a opção por fazer um estudo comparativo, integrativo e analítico sobre autores e obras que estão compondo a ecologia política na medida em que transcendem suas áreas disciplinares convencionais e se aventuram em um novo paradigma científico, também em construção.
A opção pelas obras de Capra e Ramos vem de uma afinidade eletiva de meados dos anos 80, que amadureceu criticamente com o passar dos anos[3]. Certamente, entre outros autores ambientalistas um trabalho semelhante a este poderia ser realizado, aprofundando-se o conhecimento sobre padrões de idéias trans-disciplinares emergentes sob o paradigma da complexidade, em contraposição ao disjuntor-redutor, para usar a terminologia de Morin. Em vez de contribuir com a ecologia política, uma outra comparação neste estilo poderia resultar em contribuição com a economia ecológica, se fossem examinadas obras de, por exemplo, Kenneth Boulding, Herman Daly, Georgescu-Roegen ou Ignacy Sachs (ver a propósito ALIER & SCHLÜPMANN, 1991). Nem a ecologia política, nem a economia ecológica, com efeito, ainda que tenham e desenvolvam muitas interfaces entre si, não abrangem toda a complexidade do paradigma que as sustentam. Esta observação é tanto mais relevante quanto mais disciplinas acadêmicas influenciadas pelo ideário ambientalista - engenharia ambiental, direito ambiental, educação ambiental, jornalismo ambiental, etc - tomam forma específica e aparentemente autônoma em relação ao debate epistemológico nas universidades e institutos de pesquisa. Há um risco de “normalização” (Kuhn) e “simplificação” (Morin) do pensamento ecológico para fins acadêmicos ou mesmo mercadológicos. Longe de ter sido concluído por Kuhn, o debate epistemológico merece uma paradigmatologia, cuja principal contribuição está, a meu ver, no quarto volume da série sobre La Méthode (MORIN, 1991).Nesta obra, o autor afirma que, para todos os discursos que se efetuam sob o seu domínio, um paradigma contém os conceitos fundamentais, ou as categorias mestras da inteligibilidade e, ao mesmo tempo, o tipo de relações lógicas de atração/repulsão (conjunção, disjunção, implicação ou outras) entre estes conceitos ou categorias. Assim, “os indivíduos conhecem, pensam e agem segundo os paradigmas inscritos culturalmente neles. Os sistemas de idéias são radicalmente organizados em virtude dos paradigmas.” (MORIN, 1991:188).Partindo deste pressuposto, e como método para uma síntese comparativa, optei por destacar alguns tópicos temáticos na medida em que, no conjunto destes, percebi um parâmetro comum que possibilitava uma comparação que, de certa forma, também implicava num relativo reducionismo. Nem tudo pode ou merece ser comparado, apenas os temas mais relevantes e comuns entre as obras. Os tópicos são os seguintes:

1. Sociedades Industriais;
2. Diante de Marx;
3. Economia;
4. Enfoque Epistemológico;
5. Sistemas de Valores;
6. Tecnologia e Recursos Naturais;
7. Espaço, Tempo, Psicologia e Pequenos Grupos.

A seguir, à guisa de introdução, faço um resumo do que adiante será examinado.

1. Tanto Capra quanto Ramos fazem críticas contundentes e consistentes às sociedades industriais nascidas da Revolução Industrial no século XVIII. Eles partem, porém, de ângulos um pouco diferentes e enfatizam diferentes aspectos. Ambos fazem a crítica do Iluminismo. Ramos identifica nele a instituição da razão instrumental e Capra, o mecanicismo. Há uma nítida familiaridade entre eles, uma vez que a razão instrumental desequilibra a mente humana no sentido da valorização unilateral do que é útil exclusivamente ao indivíduo, e os pressupostos mecanicistas separam corpo e mente, concebendo o Universo como uma imensa máquina.

2. Os dois autores referem-se a Marx com muito cuidado, embora o marxismo não seja o tema central de suas análises. Ramos afirma que Marx foi influenciado pelo Iluminismo ao atribuir à história uma racionalidade que só é realmente passível de realização por seres individuais. Capra vê um Marx não-materialista, que se aproxima da cultura emergente em muitos aspectos. Há, porém, um desacordo básico entre os referenciais de Marx e os de Capra. A violência na história é a questão central que os afasta. Capra mostra que os conflitos acontecem num contexto de complementação e cooperação.

3. A economia é um dos temas que mais aproxima as duas obras e os autores em questão. Ambos criticam a supervalorização da dimensão econômica e a expansão totalitária dos valores de mercado. Têm em E.F. Schumacher um referencial comum. Defendem a economia dual, cooperativista e o valor de uso . o que implica em descentralização (ênfase de Capra) e delimitação (ênfase de Ramos) do espaço-tempo da vida econômica. A regulamentação da economia por uma política ecológica (ou ecologia política) é o ponto básico e comum entre eles.

4. Quanto ao enfoque epistemológico, cabe destacar que a ciência é compreendida pelos autores como uma atividade que exige sobretudo equilíbrio entre razão e intuição. Contestam fortemente os fundamentos da ciência contemporânea, propondo e construindo um novo paradigma, chamado de paraeconômico por Ramos e de sistêmico por Capra. Ambos tomam como referência a teoria geral dos sistemas (Bertalanffy).

5. Valores ecológicos, no sentido da reflexão ética, são um ponto de partida para a ciência crítica e para a política. Os autores defendem a prioridade da mudança no sistema de valores como fator de mudança social e histórica. A normatividade da razão é enfatizada por Ramos, e a aproximação com o misticismo é enfatizada por Capra. A integração, a dinamicidade, a criatividade, o equilíbrio e a auto-organização nos contextos naturais são alguns dos valores comuns entre ambos. Ramos sugere permanência e Capra sugere ordem, em sentidos nada convencionais.

6. A relação entre tecnologia e recursos naturais é algo que aproxima muito os autores a partir de um referencial comum na ecologia. Ambos defendem a utilização parcimoniosa e racional dos recursos não-renováveis, assim como a utilização urgente e intensa de tecnologias brandas, de baixo impacto ambiental. Capra vai mais longe e faz um breve apanhado destas tecnologias (suaves) existentes, além de anunciar o surgimento de outras a partir de descobertas científicas. Ele entende que estamos em transição (certamente de longo prazo) para a Idade Solar (com o predomínio da utilização da energia solar sobre as demais).

7. Indivíduos e pequenos grupos são os agentes de mudança social, ao lado da articulação de um novo sistema de valores. No entanto, Ramos preocupa-se com os cenários e os sistemas sociais aptos à cultura emergente, enquanto Capra percebe a necessidade de mostrar as interconexões dos propósitos de vários movimentos sociais e mudanças acadêmicas. Capra imagina que esta percepção de novos valores, se contar com uma reestruturação coerente, poderá deflagrar uma rápida mudança de paradigma social, a qual seria acompanhada de mudanças sociais efetivas e imprevisíveis. Os dois autores tomam como referência C.G. Jung, entre muitos outros autores que também concebem a não-separatividade (ou articulação mecânica) entre espaço e tempo.

Percebem uma tensão entre o cosmos e o social. A socialização, para ambos, é um desafio permanente.


DESENVOLVIMENTO COMPARATIVO DOS TÓPICOS TEMÁTICOS

1. Sociedades Industriais.


Alberto Guerreiro Ramos fundamenta sua análise crítica das sociedades centradas no mercado (industriais) fazendo, inicialmente, uma crítica da razão moderna e sua influência sobre a teoria da organização. Analisa as diferentes posições de Max Weber, de Karl Mannheim, da Escola de Frankfurt, e de Eric Voegelin. Conclui concordando com muitos pontos observados pelos autores, porém demonstrando insatisfação diante da falta de sistematicidade das alternativas por eles levantadas. Lança, com isto, um desafio a si mesmo: o de preparar o caminho para uma .nova ciência das organizações.. Ramos pretende ir além da desmontagem crítica e histórica da razão instrumental. Pretende construir um modelo de delimitação de sistemas ou cenários sociais com base na razão substantiva. A racionalidade instrumental, para ele e outros, consolidou-se como desequilíbrio em favor do cálculo e do .utilitarismo. a partir dos séculos XVII e XVIII. Ramos identifica Hobbes, Bacon e Adam Smith como protagonistas dessa articulação. Estes autores estão para Ramos como Descartes, Newton e o próprio Bacon estão para Capra. Todos fazem parte da cultura moderna, do culto à razão acima de todas as coisas (processos). Há certa generalização excessiva dos autores na crítica ao Iluminismo, na medida em que desprezam a heterogeneidade deste, reduzindo-o à razão instrumental ou ao mecanicismo. Nem Capra nem Ramos desenvolvem uma teoria sistemática do Iluminismo, adotando uma abordagem um tanto impressionista do mesmo[4]. No entanto, é inegável que o racionalismo clássico-moderno, enquanto suporte do industrialismo, confirma as impressões dos autores. A razão instrumental tem dominado a teoria da organização, levando-a a um sucesso pragmático, porém ingênuo, segundo Ramos. Tem exercido um impacto desfigurador sobre a vida humana associada. Basicamente, Hobbes define a razão como uma capacidade adquirida através de esforço e como uma habilidade para fazer o cálculo utilitário de conseqüências. Ele pretendeu despojar a razão de qualquer papel normativo no domínio da construção teórica e da vida humana associada. A forma encontrada pela sociedade centrada no mercado (mercadocêntrica) para absorver a palavra razão foi torná-la compatível com a estrutura social normativa, utilitária, calculista. Até o século XVII, a razão era predominantemente normativa. Depois, a normatividade da razão foi gradualmente substituída pela normatividade da história e da estrutura socioeconômica. A razão dos indivíduos foi reduzida ao controle dos instintos, à dedução (como desequilíbrio contra a indução) e aos interesses estimulados pela sociedade mercadocêntrica. Ramos parece concordar com Karl Mannheim e Max Weber na definição possível da racionalidade substantiva. Trata-se de um ato de pensamento que revela .percepções inteligentes das inter-relações de acontecimentos. (MANNHEIM, 1940:58) numa determinada situação. Esta racionalidade constitui, diz Ramos, a base da vida humana ética, responsável. A razão substantiva não depende de suas expectativas de sucesso. Capra discute e critica o paradigma mecanicista que, como se verá, é familiar à razão instrumental. O autor parte da física das altas energias e, no livro O Tao da Física, mostra o paralelo que há entre as descobertas recentes da ciência e o misticismo de todas as épocas e tradições, particularmente o oriental. Isto evidentemente não significa que o autor esteja confundindo a ciência com o misticismo, embora seja um aspecto vulnerável a críticas vindas da filosofia. No Ponto de Mutação, Capra vai mais longe, analisando a penetração do paradigma mecanicista em muitas áreas, além da física. O autor afirma que enquanto a nova física se desenvolvia no século XX, a visão de mundo cartesiana e os princípios da física newtoniana mantinham sua forte influência sobre o pensamento científico ocidental, e .ainda hoje muitos cientistas aderem ao paradigma mecanicista, embora os próprios físicos o tenham superado. (CAPRA, 1982:95). A partir desta colocação, o autor analisa as mudanças surgidas entre 1950 e 1980, detendo-se muito na biologia, na medicina, na economia e na psicologia. O reducionismo mecanicista tem provocado inúmeras crises em todas estas áreas, mas Capra identifica as .crises setoriais. como uma única crise de percepção. Ao contrário do que afirmam Descartes e Newton, o corpo e o Universo não são basicamente máquinas, não estão separados da mente, e o essencial na realidade é constituído por suas interligações (inter-relações) e por sua dinamicidade. O mecanicismo defendia a existência de unidades básicas isoláveis . os átomos. Porém, a física subatômica só encontrou relações, ritmos e unidade entre processos, ondas, intensidades . fenômenos essencialmente dinâmicos. Não encontrou quaisquer unidades .isoláveis., quaisquer partículas básicas, fundamentais, sólidas. O mecanicismo, assim, tornou-se obsoleto, e com ele os valores que o tornaram possível. Ora, se a razão instrumental pôde consolidar-se e tornar-se dominante . isto ocorreu a visão de mundo mecanicista e industrialista, porque somente neste caso o ser humano poderia usar a natureza como um objeto isolável, passível de cálculo utilitário. Desta forma, as duas obras, de Capra e Ramos, complementam-se num esclarecimento de via dupla: a crítica à razão instrumental consolida a crítica ao mecanicismo e vice-versa. Paralelamente a isto, a razão substantiva ganha referenciais nos místicos e na concepção sistêmica da vida. Ora, se o pensamento substantivo caracteriza-se pela percepção das interconexões entre acontecimentos numa determinada situação . este pensamento aproxima-se das descobertas da teoria da relatividade, da teoria quântica e, também, do misticismo...E este misticismo, visto não só por Capra, mas também por outros físicos, aproxima-se da razão normativa, que é substantiva, é fonte de percepção ética, afetiva, responsável e sem dependência de suas expectativas de sucesso. Enfim, um equilíbrio dinâmico entre razão e intuição parece exprimir o centro das conclusões dos dois autores. Entretanto, cabe observar que há uma certa tendência idealista dos autores na sua leitura da tradição, como contrapartida de sua visão realista e crítica da modernidade. Em Capra, especialmente, nota-se ausência de uma leitura mais filosófica e menos impressionista do misticismo e/ou da espiritualidade.


2. Diante de Marx.


Ramos inclui este autor na cultura iluminista, mas referencia-se na obra marxista, particularmente na obra de Habermas. A certa altura, afirma que .na perspectiva do Iluminismo, o mundo é descrito em fórmulas matemáticas, e o desconhecido perde seu transcendente significado clássico (no sentido dos gregos da Antigüidade), tornando-se alguma coisa relativa às capacidades de cálculos disponíveis. (Ramos, 1981:09). Logo depois, Ramos faz uma de suas melhores sínteses de sua posição diante de Marx: .Apesar das proclamações 'dialéticas. de Karl Marx, que pretendeu ter despojado o racionalismo do século XVIII de seus traços mecanicistas, seu conceito de razão está profundamente enraizado na tradição do Iluminismo, na medida em que ele acreditava que o processo histórico das forças de produção é racional em si mesmo e, portanto, emancipatório. Isso é uma ilusão, afirma a Escola de Frankfurt, e Habermas, em especial, ocupa-se sistematicamente com esta questão. (RAMOS, 1981:09). Capra também recusa o referencial marxista, mas por diferentes motivos dos de Ramos, e menos enfaticamente do que este. Marx acreditava que .as raízes da evolução social não se situam numa mudança de idéias ou valores, mas nos fatos econômicos e tecnológicos. (CAPRA, 1982:31). Isto assinala uma das discordâncias do autor em relação a Marx. Os sistemas de valores são o contexto dos fatos econômicos e tecnológicos, já que nem a economia nem a tecnologia são passíveis de neutralidade. Mas a divergência maior está na ênfase dada pelos marxistas ao conflito, à luta. A idéia da vida como uma luta constante pela existência, que tanto Darwin quanto Marx ficaram devendo ao economista Thomas Malthus, foi vigorosamente promovida no século XIX pelos darwinistas sociais que influenciaram, se não Marx, certamente muitos de seus seguidores. .Creio que sua visão da evolução social enfatiza exageradamente o papel da luta e do conflito, esquecendo o fato de que toda luta ocorre na natureza dentro de um contexto mais amplo de cooperação. (CAPRA, 1982:32). Este .contexto mais amplo. é percebido com outros referenciais, além das descobertas recentes da física: idéias de Toynbee sobre a ascensão e queda das civilizações; a antiga noção de um ritmo universal básico, que resulta em padrões culturais flutuantes; a análise de Sorokin da flutuação dos sistemas de valores; e o ideal de transições culturais harmoniosas retratado no I Ching. No entanto, Capra também elogia a obra de Marx, considerando-a um referencial dos mais significativos para toda análise crítica das sociedades industriais. Afirma que suas idéias e teorias não são exclusivamente deterministas e materialistas. Reconhece, inclusive, um Marx com uma concepção orgânica e sistêmica da realidade. Cita um trecho dos Manuscritos Econômicos e Filosóficos em que Marx mostra sua percepção das interconexões entre o homem e a natureza, vida física e espiritual (Capra, 1982:199). Apesar de perceber, tal como Ramos, a forte influência da linguagem matemática (iluminista) sobre Marx, Capra parece disposto a recuperar o máximo possível da obra marxista.

E nisto se difere mais uma vez de Ramos.
.O conhecimento ecológico. . diz Capra . .é sutil e dificilmente pode ser usado como base para o ativismo social, uma vez que as outras espécies . sejam elas as baleias, as sequóias ou os insetos . não fornecem energias revolucionárias para que se mudem as instituições humanas. Foi provavelmente por isso que os marxistas ignoraram por tanto tempo o Marx ecológico. Estudos recentes trouxeram à luz algumas das sutilezas do pensamento organicista de Marx, mas elas não interessam à maioria dos ativistas sociais, que preferem organizar-se em função de questões mais simples. Talvez por isso Marx tenha declarado no final de sua vida: não sou marxista. (CAPRA, 1982:200). Em todo caso, dada sua formação acadêmica, parece claro que Capra não conhece profundamente a ampla obra marxista.[5]


3. Economia.


Os dois autores são críticos contundentes da economia, tal como tem sido considerada, principalmente depois da revolução industrial. Para eles, as atividades econômicas devem estar subordinadas a certas diretrizes da ecologia política, que visam o equilíbrio dinâmico entre sociedades humanas e o meio ambiente, o qual implica um equilíbrio dinâmico no interior das sociedades humanas. Portanto, equilíbrio dinâmico é uma expressão central, enfatizada principalmente por Capra. Ramos não tem ilusão a respeito de uma sociedade ideal, sem conflitos, e por isso dedicou-se à elaboração de cenários ou sistemas sociais, sendo a economia apenas um entre eles. A economia de base industrial (seja capitalista ou socialista) pressupõe a infinitude dos recursos naturais, o que é um erro central e trágico. A economia dos países industrialmente mais desenvolvidos não poderá continuar servindo de modelo para os outros países, simplesmente porque não haverá recursos naturais em quantidade suficiente. A escassez ecológica é, por isso, uma raiz oculta da inflação. .Oculta. porque não é percebida no interior do paradigma mecanicista. Os dois autores concordam em todas as suas observações a respeito da economia de base industrial. São favoráveis à economia dual, isto é, .'a coexistência de sistemas de orientação mutuária . nos quais os respectivos membros produzem para si mesmos uma grande parte dos bens e serviços que diretamente consomem . e de sistemas orientados para o lucro, os membros são, essencialmente, detentores de empregos. (RAMOS, 1981:188). No entanto, a economia dual pressupõe um sistema de valores nãoexpansionistas, não tanto yang, e sim mais ying, integrativos e convergentes. Ou seja, o próprio lucro deverá perder seu caráter particular, compulsivo, e tornar-se social, eticamente aceitável. Lucro coletivo ou social.
Uma das razões pelas quais o conceito de lucro se tornou tão distorcido é a divisão artificial da economia em setores público e privado, o que levou os economistas a ignorar o vínculo entre lucros privados e custos públicos. Os papéis relativos dos setores público e privado no suprimento de bens e serviços estão sendo cada vez mais questionados, com um número crescente de pessoas perguntando-se por que devemos aceitar a necessidade de indústrias de muitos milhões de dólares dedicadas a alimentos para cachorros, cosméticos, remédios e toda sorte de aparelhos que esbanjam energia, quando nos é dito, ao mesmo tempo, que não dispomos de recursos para dotar nossas cidades de transportes públicos adequados.” (CAPRA, 1982:222)
Voltando a Ramos: .Os sistemas de orientação mutuária e o setor de troca não são reciprocamente excludentes. Devem ambos ser sistematicamente estimulados, por meio de uma eficiente utilização de transferência (de recursos) num só sentido ou em duplo sentido, para benefício da sociedade em geral. (RAMOS, 1981:188). Um exemplo pode deixar isto mais claro: a reciclagem de lixo urbano pode gerar recursos financeiros e educação para grupos de pessoas que e com tal atividade podem fornecer recursos materiais para empresas, evitando, assim, a exploração desnecessária de recursos naturais. Este é um caso que ilustra a teoria do ecodesenvolvimento, com a qual concordam, implicitamente, os dois autores (SACHS, 1986a; 1986b).
Para esta teoria, as tecnologias de baixo impacto ambiental e a harmonia entre produção local e consumo local são pontos básicos.
Capra prevê três pontos chaves numa possível transição bem-sucedida: 1. Declínio do patriarcado; 2. Declínio da era do combustível fóssil; 3. Mudança de paradigma. Todos esses pontos têm íntima relação com a política econômica a ser acelerada e implementada: 1. Valorização do trabalho doméstico e feminino em geral; 2. Técnicas suaves; pesquisas ecológicas sobre fontes de energias e incentivo às técnicas deste tipo voltadas para a descentralização do poder . como a energia solar, eólica, com biomassa, etc; 3. Articulação coerente dos valores que estão emergindo à parte do paradigma mecanicista. Percebe-se, portanto, que a economia verde requer sobretudo novos valores, razão substantiva, normatividade equilibrada entre tendência yang e ying (expansão e integração). Enfim, a Economia Budista de E.F. Schumacher. Isto implicaria em reformulação de todos os atuais conceitos dominantes da macroeconomia. Por exemplo: o Produto Interno Bruto (PIB) deveria considerar os custos sociais e ecológicos da descapitalização da natureza; a moeda não deveria ser a única variável para medir a eficiência dos processos de produção e distribuição; o valor de uso e, portanto, as trocas diretas seriam reconsideradas como aspectos significativos da economia, etc. Finalmente, cabe ressaltar que os autores propõem o fim da economia como base predominante da política nacional. Capra insiste em que os problemas econômicos requerem equipes multidisciplinares, principalmente porque os aspectos relacionados à produção de energia estão tornando-se centrais na economia. A descentralização do poder, de acordo com as peculiaridades ecossistêmicas e bacias hidrográficas, requer a aproximação das ciências humanas às ciências ditas naturais ou exatas.


4. Enfoque Epistemológico


As conclusões de Ramos sobre a razão, resumidas anteriormente, o levaram à crítica da teoria organizacional dominante. Esta deixa, sistematicamente, de distinguir entre razão substantiva e razão instrumental (não percebendo diferenças entre organização formal e substantiva); não compreende o papel da interação simbólica nas relações interpessoais em geral; e apóia-se numa visão mecanomórfica da atividade produtiva do ser humano. Esta última observação faz a ponte com a crítica de Capra à visão mecanicista da vida. Para ambos, toda ciência que se baseia exclusivamente nesse tipo de visão não passa de um credo. A concepção sistêmica inclui . e até certo ponto dilui . a concepção mecanicista. Trata-se não de substituição, mas de recontextualização. O mesmo é válido para a relação estabelecida entre razão substantiva e instrumental, como se percebe na proposta de ciência feita por Ramos. Partindo da crítica à teoria da organização, ele inicia a composição de uma teoria da delimitação dos sistemas sociais . que ele também chama de modelo multidimensional, em contraposição ao unidimensionalismo da teoria dominante. O ponto central do modelo multidimensional de Ramos é a noção de delimitação organizacional que envolve: a) uma visão da sociedade como sendo constituída de uma variedade de enclaves (dos quais o mercado é apenas um), onde o homem se empenha em tipos nitidamente diferentes, embora verdadeiramente integrativos, de atividades substantivas; b) um sistema de governo social capaz de formular e implementar as políticas e decisões distributivas requeridas para a promoção do tipo ótimo de transações entre tais enclaves sociais (RAMOS, 1981:140). Quanto ao primeiro dos fatores acima, o autor destaca e desenvolve os seguintes tópicos: a) orientação individual e comunitária; b) prescrição contra ausência de normas. Depois compõe a .conceituação das categorias delimitadoras., que são: anomia e motim, economia, isonomia, fenonomia, isolamento. A complexidade de tal modelo inviabiliza um tratamento particularizado aqui, o que subverteria o propósito de uma síntese comparativa. Capra, mais explícita e enfaticamente do que Ramos, define-se pela teoria geral dos sistemas (BERTALANFFY, 1968; BUNGE, 1980; BUCKLEY, 1967). Ele dá continuidade às conclusões de seu livro imediatamente anterior, O Tao da Física (de 1975). Considera, por exemplo, .a filosofia Bootstrap como a culminação do pensamento científico contemporâneo. (CAPRA, 1982:236). O criador do termo .bootstrap. (literalmente, .presilha de bota., metáfora da autoconsciência) foi Geoffrey Chew. Este e outros autores, físicos e místicos, concebem a não-separatividade entre observador e evento observado. Esta idéia pode revolucionar o estudo da matéria, pelo fato de a própria presença do pesquisador implicar a mudança do objeto analisado. Uma nova noção de ordem é percebida a partir da concepção sistêmica. Diz Capra: .O elemento-chave da filosofia bootstrap é a noção de ordem como um aspecto novo e importante da física das partículas. A ordem, nesse contexto, significa ordem no estado de interligação dos processos subatômicos. Há várias maneiras pelas quais as reações das partículas podem interligar-se e, de acordo com isso, definir várias categorias de ordem. (CAPRA, 1983:236). A capacidade para reconhecer ordem parece ser um aspecto essencial da mente racional. Toda percepção de um padrão é, num certo sentido, uma percepção de ordem. O esclarecimento do conceito de ordem num campo de pesquisa em que .os padrões da matéria e os padrões da mente estão sendo reconhecidos, de modo crescente, como reflexos um do outro, promete-nos, assim, abrir fascinantes fronteiras ao conhecimento. (CAPRA, 1983:237). Também David Bohm é considerado um desbravador de idéias e descobertas na física, ao fazer .um bootstrap do espaço-tempo, juntamente com alguns conceitos fundamentais da teoria quântica, a fim de derivar daí uma consistente teoria quântico-relativística da matéria. (CAPRA, 1983: 237). Em resumo, pode-se dizer que experimentos deste tipo, na física subatômica, estão possibilitando uma nova maneira de pensar, que é simultaneamente racional e global, e caracteriza-se por perceber as interconexões dos fenômenos numa determinada situação. Mais significativo, aqui, é mostrar as relações que Capra faz entre as descobertas da física e as instituições sociais sob o novo paradigma do que mostrar como ele relacionou aquelas descobertas ao misticismo. O autor sinaliza a .formulação gradual de uma rede de conceitos e modelos interligados e, ao mesmo tempo, o desenvolvimento de organizações sociais correspondentes. Nenhuma teoria ou modelo será mais fundamental do que o outro, e todos eles terão que ser compatíveis. Eles ultrapassarão as distinções disciplinares convencionais, qualquer que seja a linguagem comprovadamente adequada para descrever diferentes aspectos da estrutura interrelacionada e de múltiplos níveis de realidade. Do mesmo modo, nenhuma das novas instituições sociais será superior ou mais importante do que qualquer uma das outras, e todas elas terão que estar conscientes umas das outras e se comunicar e cooperar entre si. (CAPRA, 1982:259). Capra analisa o funcionamento de modelos e organizações desse tipo que surgiram recentemente. Ele não está tratando de algo abstrato e distante. Nem Ramos faz especulações sobre um futuro desejável, mas relaciona seus conceitos delimitativos com experiências concretas de grupos ainda marginalizados nas sociedades centradas no mercado. Há, particularmente na área da saúde, uma série de experiências que combinam fenonomia, economia, isonomia, por exemplo. A rede de conceitos formulada por Ramos (isonomia, fenonomia, economia, etc) é um início, como ele próprio afirmou, de uma nova ciência das organizações. A obra de Capra confirma as idéias de Ramos, enfatizando, porém, a necessidade de se estudar as organizações de várias espécies, não apenas a humana. A ciência, para os autores, não pode dispensar posicionamentos políticos e valorativos (recontextualizações integrativas), embora a relação dialógica entre ciência e política não tenha sido solucionada por eles (isto pressuporia uma revolução paradigmática que ainda é apenas potencial). A ciência redimensiona e cria conceitos incessantemente, aproximando-se sobretudo de forma existencial, pessoal e parcial à realidade, considerada dinâmica e multifacetada. Justamente por essa dinamicidade e .interdependência essencial de todos os fenômenos . físicos, biológicos, psicológicos, sociais e culturais. (CAPRA, 1982:259) é que a neutralidade axiológica deixou de ser um horizonte científico. Mesmo assim ela tem sido levada adiante pela chamada tecnociência, geralmente para fins comerciais (MORIN & KERN, 1995). Ramos, ao contrário do que se poderia imaginar a partir de uma leitura superficial de sua teoria da delimitação dos sistemas sociais, não pretende ver compartimentalização nas sociedades. A ênfase de Ramos sobre a necessidade de normatividade social está calcada numa crítica à síndrome comportamentalista, isto é, à redução da ação humana ao comportamento. A normatividade do autor não é imposta aos indivíduos por critérios de convivência social, mas é uma possibilidade de convivência entre indivíduos autônomos, com referenciais que transcendem os interesses de caráter simplesmente utilitário. Estes referenciais são metahistóricos, cosmológicos. A sociedade moderna, continua ele, não se reconhece como .miniatura de um cosmos maior, mas como um contrato amplo entre seres humanos. Assim, a conduta humana se conforma a critérios utilitários que, a seu turno, estimulam a fluidez da individualidade. Na verdade, o homem moderno é uma fluida criatura calculista, que se comporta, essencialmente, de acordo com regras objetivas de conveniência. (RAMOS, 1981:54). O deslocamento da fé do cosmos para o social tem impedido os seres humanos de aprenderem com a natureza. Capra procura furar esse bloqueio histórico, na busca de inspiração para articular e propor um novo paradigma social: .A sabedoria sistêmica baseia-se num profundo respeito pela sabedoria da natureza, a qual é totalmente compatível com os insights da ecologia moderna. (CAPRA, 1982: 382). O ambiente natural consiste em ecossistemas habitados por incontáveis organismos que coevoluíram durante bilhões de anos, usando e reciclando continuamente as mesmas moléculas de solo, água e ar. Os princípios organizadores desses ecossistemas podem ser considerados superiores aos das tecnologias humanas baseadas em invenções recentes. Para Capra, o meio natural não é só vivo, mas também inteligente: .A inteligência dos ecossistemas, em contraste com tantas instituições humanas, manifesta-se na tendência predominante para estabelecer relações de cooperação que facilitam a integração harmoniosa de componentes sistêmicos em todos os níveis de organização. (CAPRA, 1982:382). Pode-se concluir, do que foi dito por ambos, que o paradigma social emergente é metahistórico (considerando-se o corte instituído entre história humana por um lado, e, por outro, história natural e a tradição mítica). Além disso é ecossocial. Ora, isto implica em uma profunda reformulação dos valores que contextualizam a ciência, além de uma compreensão muito clara de que as sociedades humanas não só não estão acima da natureza . como imaginavam os primeiros industrialistas . como têm muito que aprender com as fórmulas pelas quais a natureza exibe tanta dinamicidade e capacidade de perdurar.


5. Sistemas de Valores


Capra e Ramos têm muitos valores em comum. Por exemplo: ecologia (qualidade de vida, pós-materialismo), paz, autodeterminação, integração, associativismo, ética humanitária e responsável, flexibilidade (mental, econômica e social), saúde (psíquica, corporal e ambiental interdependentes), sentido evolutivo, permanência, ordem, não-expansionismo, ciência, arte, diversidade cultural, relatividade e paradigma emergente. Ramos imaginava uma sociedade capaz de permanecer, de durar, em vista de sua parcimônia na utilização dos recursos naturais não-renováveis e na capacidade de harmonizar e delimitar organizações pequenas, não-expansionistas. Capra enfatiza a interconexão de todos os fenômenos e a ordem implícita dessa interconexão, percebendo na articulação de valores emergentes a possibilidade de uma nova ordem social, em harmonia com os ciclos naturais. Os dois autores mostram consciência de serem suas obras profundamente políticas e, no entanto, também científicas, ainda que esta relação não seja facilmente compreensível sob a ótica da razão instrumental e do mecanicismo. A normatividade, para Capra, aparece sob a forma da experiência mística (sabedoria) e das descobertas da física subatômica . ambas colocando a consciência humana num contexto cosmológico, permitindo uma ação ao mesmo tempo/espaço integrada com a natureza e racional (percebendo padrões e contextos antes não percebidos pelo senso comum mecanicista). O autor escreveu mais tarde uma obra especificamente sobre a sabedoria, aprofundando sua tese de que há uma crise de percepção no núcleo da crise civilizatória (CAPRA, 1988). Para Ramos, a normatividade é sobretudo a recuperação da autonomia diante do mercado expansionista e a disposição para orientar-se socialmente no sentido da convivência catártica, evolutiva. Em obras escritas bem antes de A nova ciência das organizações este aspecto é enfatizado, conforme mostra a análise de Lucia Lippi Oliveira em A sociologia do Guerreiro (Oliveira, 1995). O conflito, para Ramos, é um gerador de estresse, e tem solução não só por meio da disposição política, mas sobretudo com a adequação de técnicas ecológicas de terapia, de meditação, etc. As diferenças entre os autores estão longe de ser radicais. Diferem apenas na ênfase . o que é notável, considerando-se suas formações e propósitos.


6. Tecnologia e Recursos Naturais



Este tema, intimamente associado ao da economia, é abordado pelos dois autores em profundidade. Aqui fica ainda mais evidenciada a tese de serem Capra e Ramos dois constituintes da ecologia política. Embora o ideário ecologista sobre tecnologias brandas fosse considerado utópico no início dos anos 80, ao contrário do que ocorre no início do século XXI entre governantes de países europeus (especialmente da Dinamarca e da Alemanha), os autores já convergiam naquele tempo quanto à defesa do uso da energia eólica ou solar. As tecnologias duras (pesadas), consideradas então como .normais., .únicas. ou .viáveis., foram criticadas por Capra e Ramos com base no paradigma emergente. Tais tecnologias estão vinculadas ao mecanicismo e à razão instrumental. .Embora., diz Capra, .as propriedades dos átomos tivessem sido estudadas mais por químicos do que por físicos durante o século XIX, a física clássica baseava-se na idéia newtoniana de que os átomos são os elementos básicos, duros e sólidos da matéria. Essa imagem contribuiu, sem dúvida, para a reputação da física como uma ciência pesada e para o desenvolvimento da tecnologia pesada baseada naquela. O irretorquível êxito da física newtoniana e a crença cartesiana na certeza do conhecimento científico levaram diretamente à ênfase que foi dada, em nossa cultura, à ciência e à tecnologia pesadas. Somente em meados do século XX tornar-se-ia claro que a idéia de uma tecnologia pesada era parte do paradigma cartesiano-newtoniano, um paradigma que seria superado. (CAPRA, 1982:63). Portanto, defender tecnologias de baixo impacto ambiental não é um sonho, mas uma questão de realismo científico. Ao contrário, defender tecnologia pesada é sonhar com uma impossibilidade prática, a da renovação de recursos nãorenováveis na escala de vida humana. Além disso, é defender a concentração de capital e de poder burocrático. Ramos percebe a íntima relação de todo cenário social com sua tecnologia adequada. Os fins de uma determinada organização (sistema social, cenário social) deveriam ser detidamente analisados e esclarecidos, e as tecnologias deveriam adequar-se a esses fins. É conhecido de todos os arquitetos sensíveis às formas ambientais o fato de que os grandes prédios de apartamentos contribuem com o desequilíbrio psíquico dos moradores. Muitos hospitais .modernos. também são exemplo de um caso extremo: sua linearidade, sua funcionalidade tecnocrática, seu afastamento do meio natural podem contribuir mais para a morbidez do que para a saúde ou rejuvenescimento. Ao bloquear a percepção destas questões, a racionalidade instrumental tornou-se inimiga não só da natureza dita .exterior. (rios, florestas, minerais), mas também da sociedade humana em geral. A racionalidade substantiva tem, portanto, um desafio bem mais complexo do que o de deter a loucura da utilização intensa de recursos não-renováveis. Faz-se necessário pensar as tecnologias ambientais em amplo sentido. Ponto significativo para os dois autores, principalmente para Ramos, é a questão do tamanho das instituições. Resumindo, ele defende que: a) .a capacidade de um cenário social para fazer face e para corresponder, eficazmente, às necessidades de seus membros, exige limites mínimos ou máximos a seu tamanho. Em outras palavras, cada cenário social tem um limite concreto de tamanho, abaixo ou acima do qual perde a capacidade de atingir eficazmente suas metas (por exemplo, a extração e o processamento de recursos) e de conseguir de seus membros o mínimo de consenso de que necessita para a própria preservação.; b) .Nenhuma norma geral pode ser formulada para determinar, com precisão, antecipadamente, o limite de tamanho de um cenário social; a questão do tamanho constitui sempre um problema concreto, a ser resolvido no próprio contexto.; c) .A intensidade das relações diretas entre os membros de um cenário social tende a declinar na proporção do aumento de seu tamanho. (RAMOS, 1981:159). A tecnologia em geral é pensada por Ramos com forte influência da microsociologia e da psicologia, enquanto que em Capra a tecnologia aparece como uma quantidade de inventos, uns coerentes com o paradigma mecanicista e outros com o sistêmico. Porém, os autores, como já foi dito, partem de pressupostos ecológicos inteiramente convergentes. Por isso, particularmente na questão da tecnologia, as duas obras são complementares. Assim poderíamos fazer muitas ilações sobre as características dos cenários sociais propostos por Ramos e as tecnologias ditas alternativas, de baixo impacto ambiental, relacionadas e analisadas por Capra. Este é um dos campos férteis para o desenvolvimento de teorias sociais com base no paradigma emergente. A confluência dos capítulos finais das duas obras, neste sentido, constitui uma admirável contribuição para o debate em torno do ecodesenvolvimento.

7. Espaço, Tempo, Psicologia e Pequenos Grupos

Um esforço de síntese das relações entre as duas obras sob esse tópico é tão relevante quanto difícil. É no mínimo arriscado dizer que os autores concordam com certa visão da psicologia sob o prisma do paradigma emergente. No entanto, percebe-se que os dois autores têm referenciais comuns. Carl Gustav Jung é o principal destes. Entretanto, para Capra, Gregory Bateson ( biólogo e geneticista, mas também pesquisador influente na antropologia e na psiquiatria) não é menos significativo do que Jung.
Considero que a crise paradigmática, que os autores enfrentaram na elaboração de suas obras, é algo muito perturbador em termos psicológicos. Por isso, é conveniente uma aproximação muito limitada em relação às idéias convergentes entre eles, que prevalecem sobre as divergentes de modo nítido. Um dos pontos básicos para Capra, tanto quanto para Ramos, é a não-separação entre espaço/tempo. Capra é muito convicto a esse respeito por dominar dados precisos constantes nas experiências da física moderna. A teoria da relatividade e a teoria quântica (e suas relações mútuas), por exemplo, constituem terrenos muito familiares para ele. A ponte estabelecida com o misticismo em O Tao da Física é fundamentada em O Ponto de Mutação com descobertas de vários psicólogos. O tempo é espaço e vice-versa para estes pesquisadores. Daí a valorização que Capra faz, tal como Ramos, da Dinâmica de Grupo, dos Grupos de Crescimento e da Convivência Catártica. A dimensão espacial-temporal é ampliada nessas experiências, permitindo uma integração com processos e ciclos naturais, além de uma percepção potencialmente mais crítica das circunstâncias opressoras e desequilibradas. Ramos identifica diversas faces ou tipos de tempo, como o serial, o convivial, o tempo de salto e o errante. O que ele chama de tempo de salto tem uma nítida convergência com o pensamento de Capra. Ramos conta que Soren Kierkegaard e Henri Bergson descreveram, ambos, um tipo de criativa experiência humana que só ocorre quando o indivíduo consegue romper os limites do social. A experiência envolve um salto do fechado para o aberto, das normas sufocantes que caracterizam uma era peculiar para dentro da eternidade. Especialmente em Kierkegaard, diz Ramos, o salto é equivalente à autodescoberta individual. .Lançando-se às profundezas a pessoa aprende a ajudar-se a si mesma. (Kierkegaard). Para Ramos, é óbvio que, em razão de seu caráter transocial, o conteúdo de saltos existenciais só pode ser articulado através da experiência simbólica. .Pode-se argumentar que o domínio da experiência simbólica é estranho à teoria organizacional, mas sustento que qualquer teoria organizacional que faça abstração da experiência simbólica deixa de desempenhar seu papel humanístico. A teoria organizacional verdadeiramente humanística tem de estar criticamente consciente de que os modelos sociais do homem são sempre categorias de conveniência. Mas a conveniência não é a única preocupação do conhecimento organizacional; este deve ter sensibilidade para aquilo que, no ser humano, não pode ser reduzido a termos sociais, de modo a impedir a fluidez da psique e sua deformação como simples espécime de episódica vida empresarial. Deve ser capaz de ajudar o indivíduo a manter um sadio equilíbrio entre as exigências de sua condição corporativa e sua vida interior. Dessa forma, o tempo serial precisa ser reconhecido por aquilo que é, e não tomado erroneamente por tudo aquilo que o tempo significa. (RAMOS, 1981:170). Em resumo, para Ramos os cenários sociais capazes de perdurar e contribuir com o desenvolvimento comunitário e individual dos cidadãos têm . necessariamente . tamanhos, tecnologias, espaço e tempo adequados, específicos. Capra questiona muitos aspectos do conceito mecanicista da mente, entre eles os principais, que são a separação entre mente e corpo, razão e intuição. A harmonia entre esses fatores é básica para o paradigma emergente. A noção de mente tem sido aprofundada até o ponto em que se considera o próprio ambiente natural uma forma ou dimensão do processo mental. Conforme as palavras de Capra:
“Na ordem estratificada da natureza, as mentes humanas individuais estão inseridas nas mentes mais vastas dos sistemas sociais e ecológicos, e estes, por sua vez, estão integrados no sistema mental planetário . a mente de Gaia ., o qual deve participar, finalmente, de alguma espécie de mente universal ou cósmica. Essa estrutura conceitual da nova abordagem sistêmica não é restringida, em absoluto, pela associação dessa mente cósmica à idéia tradicional de Deus. Nas palavras de Jantsch: 'Deus não é o criador, mas a mente do universo.. Nessa perspectiva, a deidade não é, evidentemente, masculina ou feminina, nem se manifesta em qualquer forma pessoal, mas representa nada menos que a dinâmica auto-organizadora do cosmos inteiro.” (CAPRA,1982:285)
As experiências descondicionantes (libertadoras) são vistas por Capra como parte do movimento social multifacetado que se espalha por todo o Planeta, dentro e fora das universidades, no sentido de minar o paradigma mecanicista. As experiências individuais ou grupais dão origem a formas de organização muito fluidas. Justamente devido a essa fluidez é que Capra não se detém, como Ramos, na formulação de sistemas sociais. Ele faz constantes referências às redes de comunicação, de produção e distribuição (mais tarde ele faria uma pesquisa específica sobre as redes que dão consistência aos partidos verdes, especialmente o PV alemão). No entanto, é correto inferir da relação entre as duas obras que as organizações pequenas, por sua dinamicidade, possibilidade de interação simbólica e adaptação aos contextos naturais . são parte indispensável do paradigma emergente. A socialização é vista pelos autores como necessária, porém muito perigosa, por implicar alienação da consciência cósmica. Esta tensão entre social e cósmico não é passível de ajustes políticos porque transcende a política. No entanto, a disposição política, alicerçada em valores pós-materialistas, pode contribuir decisivamente para a articulação social de pequenos grupos e indivíduos constituintes de um tecido social mais amplo. Percebe-se, assim, que para os dois autores a mudança social parte de um contato com o cósmico ou o .eu mais íntimo., considerados, de certa forma, o contexto do social emergente. Esta emergência, entretanto, requer qualificações, como a interação simbólica e afetiva, que uma multidão ou um grande aglomerado de pessoas torna inviável. Além disso, não há, aqui, a ilusão de juntar forças por meio de grupos que, somados, tornariam a sociedade um todo algo límpido e cristalino...

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Os autores partem da crítica às sociedades industriais questionando, especialmente, a forma de racionalidade e os pressupostos da visão de mundo que lhes são subjacentes. Fazem uma avaliação negativa e um tanto unilateral do Iluminismo, deixando de perceber sua heterogeneidade interna e associando-o inteiramente às sociedades industriais. Karl Marx é um dos autores iluministas que divide as avaliações críticas de Capra e Ramos. As histórias do marxismo e do ambientalismo, contudo, são mais complexas do que as obras em questão permitem observar. Entretanto, não resta dúvida de que muitos autores ambientalistas são parcialmente herdeiros de Marx e, até certo ponto, estão entre seus mais argutos críticos. Este não é, contudo, o espaço apropriado para desenvolver uma reflexão aprofundada sobre o tema. Quanto aos demais tópicos, são claramente predominantes as convergências entre as obras e os autores. As diferenças, é verdade, não foram enfatizadas, tendo sido escolhidos temas que permitissem mostrar as semelhanças apesar das diferentes formações acadêmicas. Parece claro que os aspectos epistemológicos permeiam vários destes tópicos temáticos. Isto, até certo ponto, é inevitável, já que o ideário ambientalista, à margem do paradigma monodisciplinar ou disjuntor-redutor, apóia-se em diversas áreas do conhecimento e tende a atravessá-las transversalmente. Uma percepção neste sentido pode ser facilitada por uma síntese comparativa em forma de tabela, que é apresentada a seguir:
(...)
Tomando as duas obras em conjunto, caberia questionar, no início do século XXI: até que ponto Ramos e Capra transcenderam sua época nos escritos considerados, aqui, clássicos da ecologia política? Neste sentido, pode-se argumentar que as duas obras anteciparam-se, até certo ponto, ao Fim da Guerra Fria e à despolarização ideológica entre liberalismo e socialismo. Os autores não se aliam nem à esquerda nem à direita do espectro político-ideológico. Estão, por assim dizer, à frente de ambas as correntes, na medida em que buscam algo como uma .terceira via., para usar uma expressão cara a Anthony Giddens (1996; 1999). Entretanto, suas reflexões não focalizaram detidamente as possíveis alternativas ao Estado de Bem-Estar (estatal-democracia) e ao neoliberalismo e, neste sentido, foram insuficientemente politizadas. A globalização dos mercados tem tido conseqüências contraditórias e complexas, gerando predominantemente no curto prazo uma expansão da histórica desigualdade socioeconômica entre os hemisférios Norte e Sul e, assim, suas propostas a respeito de uma economia dual parecem um tanto idealistas. A relação entre o pensamento econômico e o ecopolítico carece, sem dúvida, de análises mais apuradas, para que se chegue a propostas mais realistas (Hawken et al, 2000). Entretanto, no que se refere aos princípios normativos, as obras em questão continuam tendo seu valor. As Agendas 21 locais, regionais, nacionais, por exemplo, tendem a agregar propostas de setores isolados, carecendo de visão estratégica. Esta é possível a partir de uma compreensão dos princípios normativos da ecologia política. Por outras palavras, o paradigma social emergente pode apoiar-se nas contribuições que fazem emergir o novo paradigma científico (e vice-versa).A revolução digital tem reorientado as sociedades industriais com crescente aceleração do tempo histórico e desterritorialização desde pelo menos a primeira metade dos anos 80. E a interconexão generalizada entre as várias instâncias das sociedades, dos setores produtivos e do consumo, a forte fluidez das individualidades sob uma radical pressão socializadora do mercado, têm confirmado as análises e expectativas tanto de Capra quanto de Ramos. Com efeito, no que se refere à relação entre ética, ecologia, psicologia e adequação das tecnologias, as duas obras aqui comparadas mantêm-se plenamente atuais, enquanto referencial teórico. Conforme sustentei em outro artigo (BOEIRA, 1998), o modo de vida reticular que se impõe com a revolução digital não é necessariamente destrutivo nem construtivo, mas crísico, porque dinamiza os conflitos paradigmáticos e provoca (não determina, apenas suscita, instiga) experiências do que Alberoni (1991) chamou de .estado nascente.. O ambientalismo, que se tornou multissetorial (VIOLA, 1992), institucionalizouse na década de 1990, não conseguindo romper o setorialismo burocrático-mercantil, ainda que tenha feito avanços consideráveis com a noção de sustentabilidade em suas múltiplas dimensões. A emergência de uma percepção sistêmica e de uma razão substantiva no processo de implementação do desenvolvimento sustentável poderia conduzir a um renascimento do ambientalismo, sob a forma transetorial, ou mesmo pressupor tal radicalização pela complexidade. De qualquer modo, estas questões e hipóteses põem novamente em relevo os valores, os aspectos epistemológicos e a sensibilidade política de longo prazo de Fritjof Capra e de Guerreiro Ramos.

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[1]
Uma lista mais abrangente e também mais específica por área disciplinar de origem encontra-se em Viola, E.(1987)


[2]
O preservacionismo caracteriza-se pela preservação da natureza com forte desconfiança em relação à ação humana (biocentrismo), enquanto o conservacionismo representa a defesa de princípios racionais no uso dos recursos naturais, a prevenção do desperdício e o desenvolvimento dos ecossistemas para a maioria dos cidadãos(relativo antropocentrismo). Para mais detalhes, ver Leis, H. (1999: 53-66 e McCormick, 1992)


[3]
Uma primeira versão deste trabalho foi escrita como exercício acadêmico após a disciplina Teoria Social Contemporânea, ministrada pelo professor Eduardo Viola no Mestrado em Sociologia Política (1986/2, UFSC)


[4]
Rouanet observa que mesmo autores como Albrech Wellmer e Jürgen Habermas, que proclamam sua filiação ao Iuminismo, não têm uma teoria sistemática do mesmo. O autor propôs o uso do termo .Iluminismo. para designar uma tendência intelectual, não limitada a qualquer época, que combate o mito e o poder, a partir da razão. O Iluminismo assim compreendido cruzaria transversalmente a história, tendo sido atualizado na Ilustração, sem ter começado com ela e sem se extinguir no século XVIII. (ROUANET, 1987: 28, 29)


[5]
Para uma análise da relação entre marxismo e economia ecológica, ver ALIER & SCHLÜPMANN, 1991: 253-285, e sobre ecomarxismo ver LEFF, 1994 e MONTIBELLER-FILHO, 2001. Para uma discussão ecopolítica do marxismo analítico e do funcionalismo, ver BOEIRA, 1996.