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sábado, 1 de dezembro de 2007

Situacionismo...mais questões (2)


A postagem anterior (Situacionismo...mais questões – de 04-06-2007) terminava com a crítica de Dobord acerca da proposta surrealista para um rompimento com a ideologia: para Debord, o surrealismo superestimou as potencialidades do inconsciente individual e desconsiderou seu caráter “regressivo” e “arcaizante”, características já enfatizadas por Freud.Debord verifica uma “afinidade” entre esse caráter arcaizante e regressivo do inconsciente e a própria regressividade que também marca as relações sociais no capitalismo (e eu acrescentaria: essa regressividade também se revela por uma “infantilização” - das personalidades, dos projetos de vida e da comunicação - que pode ser constatada na vida cotidiana, assim como na mídia e nos próprios hábitos de consumo). E aqui residiria a causa do fracasso das vanguardas, pois seu projeto de ação fundamentava-se em um ponto “cooptável” pelo sistema, quando não resvalava para o “ocultismo tradicional”. Com efeito, para Debord, tratar-se-ia não de construir uma “rota de fuga” da linguagem reificada por meio do acesso a um inconsciente arcaico, mas de construir novos desejos, a partir das novas possibilidades abertas pela modernidade (lembrando, como já dito antes, que Debord se insere na tradição marxista, para quem há uma contradição entre as amplas possibilidades abertas pelas relações de produção – que libertaram o homem das amarras cíclicas - e as relações sociais ainda arcaicas).Para Debord, os surrealistas encontravam-se presos às “riquezas factícias da memória” e da “conservação das emoções nas expressões artísticas” (AQUINO,2006:113), em razão da “recusa de encarar o uso libertador dos meios técnicos superiores do nosso tempo”. Nessa concepção, a individualidade permanece abstrata e incapaz de considerar a “exterioridade” e a necessidade de ir além do desacordo entre a interioridade e o mundo exterior (incapaz de considerar com radicalidade a necessidade de sua apropriação e transformação prática). Em relação a isso, AQUINO utiliza a afirmação de Kaufmann acerca dos surrealistas, transpondo-a para os próprios situacionistas: “Com os situacionistas, ‘todas as portas estão resolutamente abertas, tudo se passa fora, não há lugar de modo algum nem para o interior nem para a interioridade: doravante a subjetividade vive ou se expressa fora, ela é coletiva ou não será, ela é desatada de toda a representação individual e, por conseguinte, também de toda prática literária’” (AQUINO, 2006:111).Entretanto, deve-se alertar que isso não significa que Debord encontra-se de acordo com as concepções de homem-massa (construtivismo russo) e com o futurismo italiano (fascismo), pois há também uma recusa à dissolução do indíviduo na sociedade capitalista que deu origem ao “indivíduo fragmentário, absolutamente separado das forças produtivas que operam como um conjunto” (SdS, §44). Diante das condições atuais em que a individualidade permanece uma tarefa a ser ainda historicamente realizada, os diversos recursos à individualidade, à interioridade subjetiva, ao humanismo, como fundamentos da crítica social, tal como aparece no surrealismo, aparecem, para Debord, como destituídos de senso prático. Debord não assume positivamente a categoria da “massa” ou da “multidão”, na qual vê apenas a contraface constitutiva dos indivíduos isolados, solitários (SdS, § 221); na interpretação de AQUINO: sob a reificação, não há ainda indivíduos.

Confesso que me deparo aqui com elementos por vezes imprecisos e por vezes contraditórios, que comportam múltiplas interpretações: Debord antecipou a afirmação de Jameson de que, na sociedade pós-industrial, o próprio inconsciente foi "colonizado". Estaríamos então diante de um proposta de"conquista", pelo Eu, desse inconsciente, a partir de novos desejos forjados nessa instância consciente e coletiva ? E, assim, tratar-se-ia de superar a cisão entre inconsciente x consciente, quando então superaríamos a "pré-história" da humanidade (como em Marx) ?


Situacionismo...mais questões


Fonte: "Reificação e Linguagem em Guy Debord" - João Emiliano Fortaleza de Aquino

Desta vez, tomaremos como ponto de partida o comentário de G. Agamben acerca da obra de Debord, quando assinala que o fundamental à teoria crítica do espetáculo é que nela “a análise marxiana vai integrada no sentido de que o capitalismo (...) não era voltado só à expropriação da atividade produtiva, mas também e sobretudo à alienação da própria linguagem, da própria natureza lingüística ou comunicativa do homem.”


Pois bem. Conforme assinalado anteriormente, as reflexões de Debord tomam impulso inicial no contexto da crise da linguagem e consideram que a tentativa de superação dessa crise promovida pelas vanguardas do entre-guerras constituiu um importante movimento que merece ser retomado.
Detenhamo-nos um pouco mais nessa questão.

De uma maneira um pouco grosseira, podemos considerar que, para Breton, a comunicação constitui negação do caráter mais íntimo da linguagem, pois há uma contradição intrínseca entre o signo e as raízes mais profundas, inconscientes mesmo, que dão origem às idéias e que são a fonte inexprimível dos pensamentos. Desse modo, todo inídivíduo é solitário, pois, ao tentar se comuinicar com outro, serve-se de signos intercambiáveis para exprimir significados que não o são. Desse modo, não apenos não consigo me exprimir inteiramente, como também jamais poderei entender perfeitamente meu interlocutor, que se encontra em idêntica situação. Esse é o caráter ambivalente - a ambigüidade de Freud - da linguagem. A palavra, como símbolo, é recebida numa outra referência significativa pelo ouvinte e, portanto, não há comunhão de pensamentos, significação comum da linguagem, nem comunicação e comunidade. “Precisamente porque expressiva, esta é uma linguagem não-comuncativa.”
Breton se posiciona criticamente diante da exigência social da “comunicação” e busca, desmascarar tal exigência:
“Não existe nenhuma conversa em que não se passa alguma coisa dessa desordem. O esforço de sociabilidade que preside a ela e o grande hábito que dela nós temos conseguem sozinhos dissimulá-la passageiramente para nós.” Por isso mesmo, para Breton, a “verdade absoluta” do “diálogo”, verdade que o surrealismo buscaria restabelecer, é o solilóquio.
Há portanto, um posicionamento anti-instrumental da linguagem, como recusa que a afaste de sua dimensão criadora em nome de uma “instrumentação para o diálogo” que, em um mundo reificado, torna-se uma “moeda de troca”. Pois a linguagem “num mundo exterior às profundezas do espírito, num mundo de imperativos práticos, do trabalho e das convenções fixas”, torna-se banal e meramente uma moeda de troca.
O projeto surrealista, em Breton, busca afirmar radicalmente a potencialidade criadora da linguagem e sua potencial negação da banalidade de seu uso social.
“A concepação da subjetividade solitária, essencial ao seu lirismo, em razão da crise da tradição e do presente domínio da reificação, é o que constitui sua concepção de expressão não-comunicativa e, por isso mesmo, aversa aos “imperativos práticos” e ao chamado reificado da ação.” (p.95)

A crítica de Debord ao surrealismo não se dirige ao “espírito” desse movimento - pois considera que tais questões permanecem vivas e urgentes no mundo do capitalismo tardio do pós-II Guerra - mas vai em direção à “fonte” que os surrealistas conceberam como produtora de uma saída. A restrição de Debord prende-se ao caráter libertador do inconsciente, pois ele extraí de Freud a concepção de que o inconsciente é regressivo, “arcaico”. Debord, então, irá formular uma concepção de que as “possibilidades inconscientes” de libertação da linguagem reificada não se encontrarão no inconsciente individual, mas nas “possibilidades inconscientes” coletivas, dadas justamente pelas condições objetivas do capitalismo avançado, que libertaram o homem dos imperativos cíclicos. (continua...)

sexta-feira, 30 de novembro de 2007

Introdução à Sociedade do Espetáculo (2)

Guy Debord e sua esposa, Alice Becker-Ho
Espaço Aberto


A formação na sociedade do espetáculo:gênese e atualidade do conceito*Maria Luiza BelloniUniversidade Federal de Santa Catarina, Centro de Educação

Na pura historicização da dialética, esta constatação se dialetiza mais uma vez: o “falso” é um momento do “verdadeiro” ao mesmo tempo enquanto “falso” e enquanto “não-falso”.

(Georg Lukács, História e consciência de classe )

Prólogo, como não poderia deixar de serApresentar Debord e sua obra, tão complexa e polêmica, é um grande desafio que só se explica pela convicção de que é extremamente importante evocar a radicalidade de seu pensamento e de suas ações e pôr em evidência seu caráter autenticamente revolucionário, na tentativa de lembrar a permanência e validade das idéias subversivas que o espetáculo quer a todo custo nos fazer esquecer.Os leitores brasileiros já dispõem das duas principais obras de Debord (1991, 1997) e também domelhor livro publicado na Europa sobre ele (Jappe, 1999). Falta-nos, no entanto, acesso a suas outras criações poéticas, filosóficas ou cinematográficas, bem como a informações sobre o contexto cultural e político que permite compreender seu verdadeiro significado. Sua obra é vasta e variada, ousada e revolucionária, e completamente fora dos padrões acadêmicos. Aliás, Debord detestava tudo o que é estabelecido, abominava a “recuperação”, pelo sistema mercantil, de formas e conceitos artísticos arrojados, como o surrealismo, por exemplo, e pregava a superação da própria arte.Então, o prazer de revisitar as propostas revolucionárias de Debord e seus companheiros da Internacional Situacionista foi temperado por um vago sentimento de culpa, por recuperar Debord para o “sistema” das mercadorias e trazê-lo à academia. A certeza, porém, de que este é um fórum legítimo de discussão, que busca compreender o processo de formação de pessoas livres, no contexto da sociedade do espetáculo, redime esta autora do pecado de traição. Intelectual irrecuperável pelo sistema midiático, crítico ferrenho do marxismo oficial economicista e determinista, que ele pretendia superar ressignificando as idéias do jovem Marx, Debord liderou um grupo de intelectuais ultra-radicais que acreditavam na força das idéias para transformar o mundo. Esta é sem dúvida sua mais importante contribuição: lembrar-nos de que, assim como a ideologia dominante tem materialidade – no espetáculo –, as idéias de mudança podem ter potência política. Não se pretende, com esse trabalho, fazer uma resenha do autor e sua obra, mas apenas contextualizar o surgimento de sua contribuição teórica mais notável: o conceito de sociedade do espetáculo. Trata-se de uma tentativa de apresentar uma leitura ou interpretação que, embora se fundamente em argumentos teóricos (valor heurístico do conceito de espetáculo), permanece irremediavelmente muito pessoal. É mais um retrato impressionista historicamente contextualizado do que uma resenha ou análise teórica. A atualidade do conceito de sociedade do espetáculo é incontestável: recuperado pelas mídias que Debord tanto criticava, como [1]vitrines mais visíveis do espetáculo, “sua manifestação superficial mais esmagadora”, o conceito passou para o uso comum, corrente, sem determinar fontes. Isso demonstra o sucesso da idéia. Embora seu autor tenha continuado durante toda a vida como marginal ao sistema, a sociedade foi se tornando tão espetacular que o conceito foi se impondo como evidente para a compreensão e elaboração de uma teoria da sociedade contemporânea. O espetáculo é de tal forma eficaz que conseguiu recuperar esse conceito e reduzi-lo a mais uma teoria sobre as mídias, esvaziando-o de seu caráter revolucionário de explicação da totalidade. Conceituar o espetáculo como relação social significa uma compreensão premonitória da fase atual do capitalismo e do esgotamento do modelo socialista e de seus fundamentos teóricos marxistas como teoria da práxis que pode levar à transformação. Nossa perspectiva visa problematizar a seguinte questão: o que no conceito serve para a formação na sociedade contemporânea? Para isso é preciso retomar o conceito em seu sentido original de teoria e práxis: não só categoria com valor heurístico, de compreensão dos fenômenos sociais, mas também e principalmente como inspiração da prática de transformação da vida pelo sujeito emancipado. É o caráter revolucionário do conceito de espetáculo que precisamos recuperar, de uso crítico e radicalmente criativo, e das ferramentas mais importantes do espetáculo, as Tecnologias de Informação e Comunicação (TIC) ou mídias, porque são elas que produzem a imagem dele.

Internacional Situacionista: a gênese do conceitoContexto histórico: Europa no período pós-guerra


Durante a década que se seguiu à derrota do nazismo na Europa e do império japonês no Oriente, a hegemonia americana consolidou-se inapelavelmente em nível planetário. A ameaça nuclear pairava sobre o planeta como uma sombra sinistra. O modo fordista de produção industrial tornava-se o paradigma dominante que, triunfante, iria servir de modelo para o Plano Marshal de reconstrução da Europa. A propaganda americana difundia alegremente a era fordista e a ilusão de que os conflitos sociais seriam substituídos pela harmonia das classes, com o desaparecimento do proletariado tradicional. Na onda criada pela ajuda dos Estados Unidos, o American way of life invade a velha Europa devastada pela guerra, trazendo consigo os símbolos da cultura capitalista do novo mundo, no bojo de um complexo processo de reorganização política e socioeconômica caracterizado pela prosperidade econômica, estabilidade geopolítica e a promessa de uma vida melhor, baseada na intervenção reguladora do Estado (welfare State). A (relativa) estabilidade geopolítica repousava então num equilíbrio precário entre as duas superpotências vitoriosas, que se enfrentavam no terreno ideológico, diplomático e econômico, fenômeno conhecido como “guerra fria”, que opunha dois modelos de sociedade: capitalismo versus comunismo. O primeiro se apresenta como modelo democrático e liberal baseado num modo de produção industrial eficiente, caracterizado pelo fordismo, taylorismo e liberalismo econômico (também relativo, já que a presença do Estado americano, principalmente militar mas também econômica, é significativa) e consolida sua hegemonia na Europa e América Latina. O comunismo, caracterizado por regimes ditatoriais, poder absoluto de um Estado centralizado, impondo uma economia voltada para o fortalecimento do Estado e para a guerra, disputa com o islamismo a hegemonia ideológica nos países africanos, recém-descolonizados, e na Ásia, fazendo surgir curiosos sincretismos. A Europa, traumatizada pelas guerras e ameaçada pelas intenções expansionistas do império soviético, abre suas portas para a democracia no modelo americano, ou seja, liberal e competitiva. Na França, a guerra de descolonização da Argélia acrescenta um grande complicador ao quadro político extremamente instável da 4ª República, resultante da guerra, e favorece a ascensão de um regime autoritário de cunho nacionalista, liderado pelo General De Gaulle, chefe militar do exército rebelde francês, que havia resistido ao nazismo e rejeitado o armistício e a colaboração com os alemães durante a guerra.

Movimentos culturais

O período pós-guerra caracteriza-se, tanto Europa quanto nos Estados Unidos, por uma grande efervescência cultural, com características realmente novas, como o surgimento de uma cultura de massa, que fugia completamente aos padrões estabelecidos da “alta cultura” européia. Nas artes e nas letras observa- se uma grande vitalidade, que busca afirmar-se propondo uma ruptura radical com os cânones estéticos. Na Europa, uma espécie de euforia criativa prega a revolução de formas em todas as artes, ruptura e revolução que revelam uma grande influência americana. As artes voltadas para o lazer (entretenimento), como a música (jazz, centro-americana), o teatro e o cinema, são as estrelas do momento, canalizando para o show business as energias comemorativas do fim da guerra e da nova prosperidade. Esses setores da produção cultural conhecem um grande desenvolvimento, evidenciado pela invasão do cinema de Hollywood nos países europeus e pelo progresso do cinema italiano e francês. Nos meios culturais das principais capitais européias (Paris, Londres, Bruxelas), as vanguardas artísticas do entre-guerras foram sendo radicalizadas nos anos 1950, com a reestruturação de movimentos como o Bauhaus Imaginista, o Surrealismo e o Dadaísmo, entre muitos outros. Essas vanguardas, todavia, perdem seu ímpeto de crítica radical, para se ir integrando ao novo sistema de produção cultural de caráter industrial, midiático e de massa. Das vanguardas dos anos 1920 e 1930 ressurgem, fortalecidos pelo clima de reconstrução, a arquitetura, o urbanismo e o design funcional. O urbanismo revolucionário arrojado, inspirado em Lê Corbusier, que vai influenciar Lúcio Costa na concepção de Brasília, bem como a arquitetura modernista de linhas curvas e puras com que Niemeyer vai marcar a nova capital brasileira, reflorescem no clima fértil da cultura parisiense. Nos enfumaçados cafés de Paris, intelectuais e artistas, inspirados pelo existencialismo, sonham em mudar radicalmente o mundo, com a liberdade de criadores, na esteira da destruição física e moral deixada pela guerra. No contexto da França saída dos traumas da guerra, da ocupação alemã e da colaboração, surge em 1952 um pequeno grupo de intelectuais e artistas de vários campos que se associam num movimento denominado Internacional Letrista, que está na origem da Internacional Situacionista, movimento artístico, político e poético criado e liderado por Debord, e que iria ter significativa importância no imaginário político da juventude européia nos anos 1960.

Movimentos políticos (maio de 1968): les enragés et les situationnistes


A vitória dos aliados fortalecera politicamente todos os grupos que haviam participado da resistência ao nazismo. Ao lado da reconstrução econômica no modelo capitalista, observou-se um crescimento da esquerda na Europa: os partidos comunistas e social-democratas destacavam-se na reorganização política e na luta pela descolonização. Nos anos 1960, na França, a clivagem entre esquerda e direita, ainda sob a sombra sinistra da colaboração com os nazistas, se aprofunda na questão da guerra da Argélia. O Partido Comunista Francês, no entanto, embora com um quarto dos votos e grande prestígio por seu papel na Resistência e seu nacionalismo, não atrai os jovens, em virtude, sobretudo, de sua fidelidade absoluta à URSS de Stalin e seu dogmatismo delirante. Nos EUA, após os anos dourados de triunfo do American dream, os jovens do movimento hippie, na esteira da famigerada beat generation, vêm decepcionar a geração dos heróis de guerra, e adentram os anos 1960 pregando uma contracultura contrária aos mais caros valores da sociedade americana: movimento pacifista contra a guerra do Vietnã; paz e amor livre; lugar ao sol para minorias, sem preconceitos (movimentos negro, feminista, gay); e, pecado dos pecados, trabalho artesanal e vida simples, alternativa, isto é, sem consumo. Na Europa “libertada” (França, Alemanha, Itália), a fúria juvenil contra um sistema que só se fazia fortalecer com a prosperidade econômica e que invadia a orgulhosa cultura local com produtos de qualidade duvidosa, vai desembocar em movimentos e manifestações diversas de rebelião nos meios estudantis e operários. Tais movimentos – reunidos no termo Maio/1968, mas que se estenderam por todo o primeiro semestre daquele ano – tinham como principal traço comum o fato de escaparem ao controle das forças organizadas nos sindicatos e partidos políticos e de criticarem as ideologias estabelecidas tanto de direita quanto de esquerda, atacando-se a todos os partidos políticos e grupelhos esquerdistas. Em Paris, o movimento de maio de 1968 vai se radicalizar no Movimento das Ocupações, que reunia estudantes e operários numa luta comum contra todo poder constituído – na família, na empresa, na universidade ou na política – e em favor de propostas mais radicais de mudança. Dentre os muitos grupos políticos que participam ativamente desse movimento destacam-se os “enragés” e os “situacionistas”, formados por Debord, Vaneigem e outros companheiros. Esses grupos eram muito mais radicais do que os grupos e líderes políticos de estudantes e operários, mais conhecidos e mais importantes na liderança do movimento, como o grupo “Movimento 22 de Março”, de Daniel Cohn-Bendit, mas tudo parece indicar que foram eles que forneceram as bases teóricas e os slogans mais radicais e inovadores do Movimento das Ocupações, que foi o grupo que durou mais tempo. Se o movimento de maio de 1968 em Paris, envolvendo jovens de todas as classes sociais na França, foi tão importante para a compreensão daquele momento histórico, não é tanto pelas transformações políticas que ele desencadeou, como a queda do general De Gaulle um ano após, por exemplo, mas sobretudo porque essa explosão social revestiu-se de um caráter emblemático portador da mensagem ideológica mais avançada que a época podia produzir. Como os arautos da contracultura americana haviam fornecido os argumentos e os ideais para a revolta da juventude contra uma guerra insensata e uma forma alienada de vida, os situacionistas forneceram as palavras de ordem mais radicais que iriam embalar o movimento e que permaneceram como registro das manifestações de maio de 1968 na França e na Europa. Os situacionistas buscavam expressar sua percepção, ainda que confusa e fragmentada (de certa forma ingênua), da importância de um novo fenômeno no campo cultural que iria transformar radicalmente a vida cotidiana e as estruturas simbólicas da sociedade: a produção industrial da cultura, potencializada pelo avanço tecnológico, que iria possibilitar uma “organização das aparências no estágio espetacular da sociedade mercantil” (Viénet, 1968, p. 13). Ao criticar a sociedade, os situacionistas atacavam tanto a esquerda quanto a direita, denunciando não só o capitalismo triunfante do Ocidente como a burocracia estalinista constituída em classe na Rússia e depois em outros países do leste europeu, pela tomada do poder do estado totalitário. Queriam mostrar a possibilidade e iminência de uma nova volta da revolução. Sua teoria revolucionária começa por uma crítica das condições de existência inerentes ao capitalismo superdesenvolvido: a pseudo-abundância da mercadoria e a redução da vida ao espetáculo, o urbanismo repressivo e a ideologia – entendida, como sempre, a serviço dos especialistas em dominação. Suas propostas de revolução mundial contra capitalismo e estalinismo, com base em uma perspectiva internacionalista e crítica da sociedade de consumo e do “capitalismo de Estado” dos países comunistas, forneciam aos jovens estudantes e operários uma alternativa sedutora ante o estalinismo rígido e ultrapassado dos aparelhos políticos burocratizados do sindicalismo e dos partidos. Sua crítica às artes, às ciências, aos intelectuais, ao establishment em geral, isto é, a crítica sem concessões ao status quo, aparecia como uma utopia quase ao alcance da mão. Ao deslocar a luta de classes do terreno da economia para o da cultura e da vida cotidiana, por meio dos novos meios técnicos colocados a serviço da arte e da cultura, os situacionistas acenavam com algo verdadeiramente novo no cenário político: a revolução das subjetividades. Suas propostas de revolução como busca por identificar os desejos e lutar para realizá-los é imbatível no imaginário político dos jovens europeus. Os slogans situacionistas pichados nas paredes da Sorbonne exprimem muito bem o estado de espírito lá reinante, de que era possível mudar o mundo, de que tudo era possível. Os estudantes tomaram a Sorbonne e a abriram para os trabalhadores e para os jovens rebeldes das periferias, identificados como os “jaquetas negras”, por se vestirem de couro preto. De slogan abstrato para as passeatas, a solidariedade operários-estudantes se transforma em prática política inovadora. Reina uma atmosfera de liberdade total de debate que impede qualquer ação de controle por parte de líderes e grupos estabelecidos. O que se passava na Sorbonne torna-se bússola para os operários de todo o país. Parecia construir-se ali, espontaneamente, uma nova proposta de democracia direta.A completa liberdade de expressão se manifesta na apropriação das paredes tanto quanto na livre discussão em todas as assembléias. Cartazes de todas as tendências, até os maoístas, coabitavam nas paredes sem serem rasgados ou recobertos: somente os estalinistas do PCF preferiam abster-se. As pichações apareceram um pouco mais tarde. Nesta primeira noite, a primeira pichação, feita sobre um afresco – a famosa fórmula “A humanidade só será feliz no dia em que o último burocrata tiver sido enforcado com as tripas do último capitalista” – levanta alguma agitação. Após um debate público, a maioria decidiu apagá-la. O que foi feito. (Viénet, 1968, p. 75, minha tradução, grifo meu)René Viénet, situacionista muito ativo no movimento das ocupações, explica em nota de rodapé ter sido ele mesmo o autor dessa primeira pichação, que, de tão revolucionária, foi censurada e apagada por seus próprios companheiros de luta. Viénet ressalta o caráter inovador dessa prática, o “desvio” (détournement) de obras famosas com a inscrição de slogans ou desenhos que as ressignificam, atribuindo-lhes novo sentido revolucionário contraditório com seu sentido original. Tal prática, originária do surrealismo (sob o nome de colagem, por exemplo, desenhar um bigode no retrato da Mona Lisa), foi muito controvertida no primeiro momento de Maio/1968, mas abriu caminho para uma “tão fértil atividade”, e é hoje prática comum tanto nas artes estabelecidas como nos grafites de rua (Viénet, 1968, p. 75). Os situacionistas propunham formas novas de luta que escapavam dos padrões tradicionais da panfletagem política e tinham sua origem nas artes plásticas. Um texto publicado na revista Internationale Situationniste n° 11, de outubro de 1967, com o título Les situationnistes et les nouvelles formes d’action contre la politique et l’art, assinado por René Viénet, propõe “ligar a crítica teórica da sociedade moderna à crítica em atos desta sociedade [...] desviando as próprias propostas do espetáculo, daremos as razões das revoltas de hoje e de amanhã”. O autor fornece alguns exemplos: experimentação do “desvio” de fotonovelas ou de fotos “ditas pornográficas”, substituindo os textos dos “balões” por textos subversivos; promoção da guerrilha nos mass media, considerada mais eficaz do que a guerrilha urbana; produção de comics situacionistas, já que as histórias em quadrinhos são a única forma realmente popular de literatura; realização de filmes situacionistas, pois o cinema é o meio de expressão mais novo da época, sendo pois preciso se apropriar das técnicas dessa nova linguagem, especialmente seus exemplos mais bem-sucedidos, como os cinejornais, anúncios publicitários e traillers. Dois livros de autores situacionistas publicados no ano anterior foram retomados pelos estudantes como fonte de inspiração para palavras de ordem a serem gritadas nas assembléias permanentes e pichadas nas paredes e muros de Paris e das principais universidades francesas: La société du spectacle, de Debord, e Lê traité de savoir-vivre à l’usage des jeunes générations, de Raoul Vainegem. Além desses textos fundadores, foram também importantes outros textos publicados na revista Internationale Situationniste (IS), especialmente um longo panfleto de mais de 20 páginas, publicado em 1966 e republicado muitas vezes nos anos seguintes, escrito por membros da Internacional Situacionista e por estudantes de Strasbourg, cujo longo título diz muito de suas intenções revolucionárias: De la misère en millieu étudiant considérée sous ses aspects économomique, politique, psychologique, sexuel et notamment intellectuel, et de quelques moyens pour y remédier (“Sobre a miséria no meio estudantil, considerada em seus aspectos econômico, político, psicológico, sexual e notadamente intelectual, e sobre alguns meios para remediar isto”) (IS, n° 10, 1966).Internacional Situacionista (1958/1969)O programa da Internacional Letrista, apresentado no primeiro número da revista Potlatch (1954), é claramente radical: “Nós trabalhamos para o estabelecimento consciente e coletivo de uma nova civilização”. Essa mesma proposta revolucionária será confirmada mais tarde (1957) por Debord e seus companheiros, na formação da Internacional Situacionista: “Pensamos que antes de mais nada é preciso mudar o mundo. Queremos a mudança mais libertadora da sociedade e da vida nas quais estamos presos” (Rapport sur la construction des situations, junho de 1957). Os situacionistas orientam suas pesquisas e reflexões na perspectiva de uma superação da arte, levando às últimas conseqüências as propostas das vanguardas futurista, dadaísta e surrealista. Como esses movimentos, pregam o fim das práticas artísticas clássicas e a eliminação de todos os cânones que as estruturavam. Buscam realizar a arte na vida, ou seja, superar a própria arte e fazer dela uma prática participativa, eliminando a separação entre artistacriador e sujeito-espectador. Isso os levou a conceber, com base em pesquisas “psicogeográficas”, propostas de um urbanismo experimental que possibilitasse a experimentação de comportamentos lúdicos e a construção de situações efêmeras e poéticas. Tal como os dadaístas e os surrealistas, os situacionistas usam e abusam de armas como o escândalo, a carta de insulto, as expulsões e as rupturas violentas. São grandes utilizadores da pichação como forma de divulgar seus slogans, entre os quais cabe lembrar um de autoria do próprio Debord, inscrito por ele mesmo numa parede da rua de Seine, em Paris: “Não trabalhem nunca”. Assim, embora sejam poucos e marginalizados dos fóruns estabelecidos da cultura e das artes, os situacionistas conseguem significativa repercussão de suas idéias, especialmente entre os jovens intelectuais e estudantes revoltados com o autoritarismo político e a invasão do American way of life. Os situacionistas não se limitam a propor uma revolução meramente política ou mesmo puramente cultural: pretendem e lutam por uma nova civilização e uma transformação radical das sociedades humanas, uma “real mutação antropológica” (Jappe, 1999, p. 90). Nesse sentido, visam atuar na transformação da vida cotidiana e da cultura, fazendo da “batalha do lazer” o palco privilegiado da luta de classe. A participação de todos na construção das situações se opõeao espetáculo e à não-participação que ele implica. As possibilidades infinitas de desenvolvimento da consciência humana, uma vez libertada da alienação do trabalho, estão no centro das preocupações dos pensadores mais avançados e revolucionários da época e têm sua origem em Marx, como bem revela a seguinte afirmação dos situacionistas: “Numa sociedade sem classes, pode-se dizer, não haverá mais pintores, mas situacionistas que, entre outras coisas, pintarão” (Debord, 1957), paráfrase de um trecho da Ideologia alemã: “Numa sociedade comunista, não há pintores, mas, no máximo, seres humanos que, entre outras coisas, pintam” (apud Jappe, 1999, p. 90). Os situacionistas se exprimem sobretudo através da revista Internationale Situationniste, cujo primeiro número, de junho de 1958, começa com uma crítica acerca do surrealismo, segundo eles “recuperado e utilizado pelo sistema repressivo que ele combatia”. Essa crítica se explicita na análise dos aspectos formais, recuperados e transformados em apelos mercadológicos (símbolos da mercadoria) pelo sistema, e na denúncia do abandono dos ideais revolucionários de mudança radical do mundo. No centro da discussão estão os avanços técnicos e científicos.O mundo moderno alcançou o avanço formal que o surrealismo tinha sobre ele. As manifestações da novidade (do novo) nas disciplinas que progridem efetivamente (todas as técnicas científicas) tomam uma aparência surrealista: fez-se escrever, em 1955, por um robô da Universidade de Manchester, uma carta de amor que poderia passar por um ensaio de escrita automática de um surrealista medíocre. Mas a realidade que comanda esta evolução é que, uma vez que a revolução não foi feita, tudo o que constituiu para o surrealismo uma margem de liberdade foi retomado e utilizado pelo mundo repressivo que ele combatia.(Amarga vitória do surrealismo, IS, n° 1, p. 3, 1958).Na mesma revista, cujas regras de ouro eram a redação coletiva e o estímulo à livre reprodução de seus textos, os situacionistas atacam tanto a rebeldia da juventude americana e escandinava que se comprazem no consumo das formas falsamente “surrealistas” (leia-se revolucionárias), quanto os intelectuais dessa geração, “abusivamente chamada de existencialista pelos jornais”, que incluía os nomes famosos de Françoise Sagan, Roger Vadim e Robbe-Grillet, entre outros, considerados pelos situacionistas como ilustrações excessivas da resignação (O ruído e o furor, IS, n° 1, p. 4, 1958). Segundo eles, a juventude, que adere à continuação do surrealismo (cujo sucesso burguês foi deformador), não pode superar a contradição entre a exigência revolucionária e a imobilidade desse pseudo-sucesso e se “refugia nos aspectos reacionários que o surrealismo trazia em si desde sua formação (magia, esoterismo, crença numa idade de ouro que poderia estar fora da história etc.)”. Trata-se, pois, de ir além do surrealismo e fazer a revolução, não só das formas das artes, mas das formas da vida. Trata-se de identificar os desejos e lutar para realizá-los numa perspectiva coletiva onde todos são criadores e parceiros na construção de situações, conceito central no projeto situacionista. A partir da crítica do “funcionalismo, que é uma expressão necessária do avanço técnico e que busca eliminar inteiramente o jogo” (o lúdico, o brinquedo), e do design industrial (“que estimula a criação artística aplicada a novos desenhos de geladeiras”), os situacionistas fazem a crítica da vida cotidiana e propõem,contra todas as formas regressivas do jogo e das artes, realizar as formas experimentais de um jogo revolucionário, cujas principais definições são apresentadas no primeiro número da revista Internationale Situationniste:• Situação construída: Momento da vida, concreta e deliberadamente construída pela organização coletiva de uma ambiência unitária e de um jogo de eventos.• Situacionista: O que se relaciona com a teoria ou a atividade prática de uma construção das situações. Aquele que se dedica a construir situações. Membro da Internacional Situacionista.• Psicogeografia: Estudo dos efeitos precisos do meio geográfico conscientemente organizado ou não, que age diretamente sobre o comportamento afetivo dos indivíduos.• Deriva: Modo de comportamento experimental ligado às condições da sociedade urbana: técnica de passagem rápida através de ambiências variadas. Designa também a duração do exercício contínuo desta experiência.•Urbanismo unitário: Teoria do emprego conjunto de artes e técnicas que se conjugam na construção integral de um meio ambiente dinamicamente ligado a experiências de comportamento.• Cultura: Reflexo e prefiguração, em cada momento histórico, das possibilidades de organização da vida cotidiana; complexo da estética, dos sentimentos e dos costumes, pelo qual uma coletividade reage sobre a vida que lhe é objetivamente dada por sua economia.• Decomposição: Processo pelo qual as formas culturais tradicionais destruíram a si próprias, sob o efeito do aparecimento de meios superiores de dominação da natureza, permitindo e exigindo construções culturais superiores. Distingue-se entre uma fase ativa de decomposição, demolição efetiva das velhas superestruturas – que cessa nos anos 30 –, e uma fase de repetição, que domina desde então. O atraso na passagem da decomposição a construções novas está ligado ao atraso na liquidação revolucionária do capitalismo (IS, n°1, p. 13, 1958). Ainda nesse primeiro número da revista IS, os situacionistas atacam as características alienantes da vida nas grandes cidades propondo um novo urbanismo e uma arquitetura voltados para a transformação radical da vida cotidiana. Os avanços técnicos não são percebidos como entrave, muito pelo contrário, eles devem estar a serviço da mudança. Seus gritos de alerta contra os perigos da banalização, lançados nos anos 1950, tomam agora contornos premonitórios, como é possível perceber no texto a seguir, que retoma um relatório adotado pela Internacional Letrista, já em 1953:Uma doença mental invadiu o planeta: a banalização. Todos estão hipnotizados pela produção e pelo conforto – esgotos, elevador, banheiros, máquina de lavar. Este estado de fato, que nasceu de um protesto contra a miséria, extrapola seu objetivo longínquo – libertação do homem de suas preocupações materiais – para se tornar uma imagem obsessiva no imediato. Entre o amor e a coleta automática de lixo a juventude de todos os países fez sua escolha e prefere a coleta de lixo. Uma reviravolta completa do espírito (mente) tornou-se indispensável, pelo desvelamento dos desejos esquecidos e a criação de desejos inteiramente novos. E por uma propaganda intensiva em favor destes desejos. (Gilles Ivain, Formulaire pour un urbanisme nouveau, IS, n° 1, p. 17-18, 1958, minha tradução)Fundador do movimento, Debord publica, nesse primeiro número, um pequeno texto sobre a revolução cultural, que não se refere à China mas à decadência das velhas estruturas culturais européias ante os novos acontecimentos, no qual ele responde a Henri Lefebvre (que, aliás, era o único intelectual do establishment, amigo de Debord, tolerado pelos situacionistas), rebatendo a crítica que este fazia aos situacionistas como “românticos-revolucionários”. Nesse texto, que fará estragos nos meios da esquerda,Debord propõe uma associação internacional de situacionistas que seria uma “união dos trabalhadores de um setor avançado da cultura” ou como uma “tentativa de organização de revolucionários profissionais da cultura” (Debord, Thèses sur la révolution culturelle, IS, n° 1, p. 21, 1958). Encontramos, ainda nesse primeiro número, um artigo do artista plástico dinamarquês Asger Jorn sobre a automação, que coloca, de modo embrionário, muitas das questões relacionadas com o avanço técnico ainda hoje não resolvidas, alertando contra os perigos de um progresso tecnológico não discutido e não apropriado conscientemente pela sociedade:Se, como pretendem os cientistas e técnicos, a automação é um novo meio de libertação do homem, ela deve implicar uma superação das atividades humanas precedentes. Isto obriga a imaginação ativa do homem a superar a realização da própria automação. Onde encontramos tais perspectivas, que fazem do homem mestre e não escravo da automação?. (Asger Jorn, Les situacionnistes et l’automation, IS, n° 1, p. 22-23, 1958, minha tradução, grifo meu)A preocupação com os perigos e benesses trazidos por tecnologias novas e de poder desconhecido se revela ainda maior quando se relaciona com a cultura e arte e, por conseqüência, com a política. O cinema é percebido como o “substituto passivo da atividade artística unitária que se tornou possível”, pois ele traz “poderes inéditos à força reacionária e gasta do espetáculo sem participação”. O revolucionário deve então, ao mesmo tempo, combater no cinema a “tendência a constituir a anticonstrução de situações (a construção de ambiência do escravo, a sucessão de catedrais)” e reconhecer os aportes positivos das novas aplicações técnicas. Trata-se de se apropriar do cinema, visto como meio extremamente importante, pois ele traz “meios superiores de influência” e por isso acarreta necessariamente seu controle pela classe dominante. O anticinema de Debord é talvez o melhor exemplo prático desta vontade radical de denunciar a dimensão alienante do cinema industrial, baseado na passividade distraída dos espectadores. É provável que ele tenha sido o primeiro cineasta maldito, se não o único.No cinema, Debord sempre se propôs a não fazer nada do que nele se fazia, e de fazer tudo o que aí não se fazia. Durante todo um período de vinte e cinco anos, cada um de seus filmes, bem concebidos para agravar seu caso, confirmou esta detestável ambição. [...] O negativo tendo sido menos experimentado no cinema que em outras partes, talvez não tivesse existido nenhum cineasta maldito se Debord não tivesse realizado seus filmes. (Comentário irônico na “orelha” do livro Oeuvres cinématographiques complètes, Debord, 1978)A recusa do trabalho e a luta revolucionária, em termos diametralmente opostos aos da esquerda organizada, baseadas na afirmação da subjetividade e na prática cultural, revelam suas origens surrealistas e aproximam os situacionistas do existencialismo, que eles criticam e desprezam, mas do qual representam bem uma versão mais radical, pois compartilham com os existencialistas uma oposição extremada da subjetividade do sujeito à objetividade do mundo. O grande interesse das primeiras propostas dos letristas, retomadas e aprofundadas pelos situacionistas, está no fato de que eles estão entre os primeiros a perceber questões inéditas colocadas pelo progresso técnico e pelas transformações do trabalho, criando maior tempo livre e uma nova dimensão da vida social: o lazer, em sua dupla acepção de tempo livre e divertimento. A questão estava em saber, ante as possibilidades da técnica, se o homem poderia viver plenamente seu tempo livre, realizando seus desejos e exercendo sua criatividade, ou se, ao contrário, os meios técnicos serviriam para aprofundar a exploração e criar novas formas de alienação. Revelando uma filiação hegeliana que os sustenta na crença idealista de uma revolução nascida na dimensão cultural, impossível de ser pensada no quadro do marxismo ortodoxo vigente na época, que reduzia a cultura a mera superestrutura determinada pela economia, os situacionistas se propõem a transformar o mundo com as armas da arte, incluídas as novas mídias:Evidentemente, a decadência das formas artísticas, embora se traduza pela impossibilidade de sua renovação criativa, não acarreta imediatamente seu verdadeiro desaparecimento prático. Elas podem se repetir com diversas nuances. Mas tudo revela o “abalo deste mundo”, para falar como Hegel no prefácio da Fenomenologia do espírito. [...] Nós devemos ir mais longe, sem nos vincularmos a nada da cultura moderna, nem tampouco de sua negação. Nós não queremos trabalhar para o espetáculo do fim domundo, mas para o fim do mundo do espetáculo. (IS, n° 3, p. 8, 1959, minha tradução, grifo meu)Os situacionistas se colocam contra a cultura em sua forma convencional, mas não contra a cultura em si. Ao contrário, eles estão a favor ao outro lado da cultura: “Não antes dela, mas depois. Dizemos que é necessário realizá-la, superando-a enquanto esfera separada” (IS, n° 8, 1963, p. 21). Os situacionistas não querem pôr a poesia a serviço da revolução, como propõe o realismo-socialista, mas “pôr a revolução a serviço da poesia”, porém de uma poesia sem poemas, já que a obra de arte deixa de ter sentido na sociedade sem classes e sem trabalho, de realização dos desejos, sonhada por eles. Isso lhes valeu críticas de todos os lados, presentes e póstumas, como a de Anselm Jappe (1999):
No entanto, é curioso observar o quanto a condenação situacionista da obra de arte se assemelha à concepção psicanalítica que vê na obra a sublimação de um desejo irrealizado. Segundo os situacionistas, dado que o progresso eliminou todo o entrave à realização dos desejos, a arte perde sua função, pois esta é, de qualquer modo, inferior aos desejos. Este é, sem dúvida, um dos pontos mais discutíveis da teoria situacionista da arte. (p. 996)
A sociedade do espetáculo: a atualidade do conceito


As idéias revolucionárias discutidas à exaustão nas intermináveis reuniões situacionistas iriam fazer brotar do gênio de Debord uma das obras mais importantes para a compreensão do mundo ocidental, no final do século XX. Debord, intelectual “maldito”, cineasta radical do anticinema, filósofo das “situações e “doutor de nada”, escreveu, aos 26 anos, A sociedade do espetáculo, na qual prenuncia o século XXI, povoado de máquinas “inteligentes” que nos perturbam. A sociedade do espetáculo (1967)1 condensa, em poucas páginas, na forma de aforismos, num estilo impecavelmente elegante e claro, inspirado nos filósofos moralistas e nos memorialistas do século XVII, uma reflexão original sobre a sociedade contemporânea, que revisita, “desvia” e ressignifica – radicalizando – as categorias fundamentais do marxismo hegeliano dos jovens Marx e Lukács: alienação, falsa consciência, reificação, fetichismo da mercadoria, forma-mercadoria, valor de troca, trabalho abstrato. Trata-se, para Debord, de levar às últimas conseqüências a crítica ao marxismo oficial (dos partidos, das universidades), preso na armadilha estruturalista do determinismo econômico, que acaba por aceitar como “natural” a autonomização da economia que submete a vida humana à sua lógica, que modela todas as esferas do mundo vivido. Debord pretende construir uma alternativa revolucionária, ir além do marxismo ortodoxo, com uma teoria que supere a separação entre a teoria e a prática.Com os instrumentos de Marx e de Lukács, Debord tentará, na seqüência, construir uma teoria que possa compreender e combater essa forma particular de fetichismo que nasceu nesse meio tempo, que ele chama de espetáculo. (Jappe, 1999, p. 17)Jappe ressalta também que, para entender Debord, é preciso “analisar as fontes, às quais deve mais do parece à primeira vista”. De fato, a inspiração marxiana do pensamento de Debord é declarada logo no primeiro aforismo de A sociedade do espetáculo:Toda a vida das sociedades nas quais reinam as condições modernas de produção se anuncia como uma imensa acumulação de espetáculos. Tudo o que era diretamente vivido se afastou numa representação. (SdE, §1)Tal afirmação categórica é simplesmente uma paráfrase da primeira frase de O capital: “A riqueza das sociedades em que domina o modo de produção capitalista aparece como ‘imensa acumulação de mercadorias’”, na qual Marx (1983, v. 1, p. 43) se refere à sua obra anterior, Contribuição à crítica da economia política. Esse início audacioso revela de saída o caráter do personagem, inclinado à provocação intelectual e ao radicalismo das opiniões, mas também diz muito da época e da ambiência dos anos 1950 e 1960, de progresso técnico, econômico e social e muita agitação política, quando tudo parecia possível, quando a irreverência e a iconoclastia começavam a extrapolar os limites das vanguardas artísticas para inspirar a rebeldia de grande parte da juventude na Europa, nos Estados Unidos e nos países do Terceiro Mundo.Sua inspiração marxista, no entanto, está na contracorrente tanto do marxismo dos partidos comu nistas, que se havia tornado a ideologia legitimadora da modernização tardia do capitalismo de Estado dos regimes totalitários do leste europeu, quanto dos outros partidos de esquerda, críticos do estalinismo soviético, mas tão ortodoxos e ideológicos quanto os partidos comunistas (Maoísmo, Trotskismo etc.). Debord se colocava também contra os universitários de todas as correntes da esquerda que se deixavam fascinar pelo marxismo científico, irrefutável porque científico, professado nas academias, a quem os situacionistas dirigiam suas mais acerbas críticas. Alain Touraine, Abrahan Moles, Edgar Morin e, evidentemente, Louis Althusser são alguns dos nomes muito conhecidos hoje e que na época eram os alvos preferidos das flechas teóricas dos situacionistas, que os acusavam de defender concepções estruturalistas negadoras da história e de desfrutar as benesses do estruturalismo oficial, entre outros pecados menores. Debord vai concentrar seus esforços teóricos num tema central da obra de Marx, deliberadamente ignorado pelo marxismo oficial: a crítica radical ao fetichismo da mercadoria, conceito tão difícil de entender quanto de operacionalizar como palavra de ordem de mobilização das massas trabalhadoras. O conceito de espetáculo é central para compreender essa proposta teórica que se quer revolucionária. Nele estão contidas as idéias fundamentais de Debord sobre a sociedade contemporânea: a separação, o afastamento do mundo vivido em imagens que o representam, criando um mundo de imagens autonomizadas, que escapam ao controle do homem, da mesma forma que, segundo Sfez (1994), a criatura (TICs) escapa ao controle do criador. O espetáculo é uma inversão da vida e, enquanto tal, “é o movimento autônomo do nãovivo” (SdE, § 2).A separação é outro dos conceitos fundamentais da teoria do espetáculo. Da mesma forma que o trabalhador, separado não só do produto de seu trabalho como do processo de produção, perde a visão unitária sobre sua atividade, o indivíduo perde, na sociedade do espetáculo, a visão da totalidade, da unidade do mundo. Segundo Debord, a separação faz parte dessa unidade, pois a própria “práxis social global se cindiu em realidade e imagem” (SdE, § 7). Essa cisão faz o espetáculo aparecer como finalidade do modo de produção reinante, quando na verdade o espetáculo é muito mais seu modo de funcionamento: o espetáculo não é um conjunto de imagens, mas uma relação social entre pessoas, mediatizada por imagens (SdE, § 4).A vitrine do espetáculo, sua face mais visível, seu monólogo ininterrupto e auto-elogioso, é composta por esse complexo sistema de mídias que Debord pressentia como modelo socialmente dominante, como “afirmação onipresente” da lógica da produção industrial e do consumo de massa, “presença permanente” das justificações do sistema ocupando o tempo livre do indivíduo, das mais variadas formas de produtos espetaculares: informação, lazer, publicidade (SdE, § 6). O conceito de “sociedade do espetáculo” não deve, pois, ser entendido como uma mera referência aos meios de comunicação de massa, que Debord considera como “o aspecto restrito” do espetáculo, sua “manifestação superficial mais esmagadora”. Essa manifestação, todavia, faz parte da totalidade e é a mais espetacular e, por isso, parece invadir a sociedade como “instrumentação que convém a seu automovimento total” (SdE, § 24).A comunicação unilateral, típica desses meios, é absolutamente funcional ao sistema, à lógica dominante, de tal modo que a satisfação das necessidades sociais, a “administração desta sociedade e todo o contato entre os homens já não se podem exercer senão por intermédio deste poder de comunicação instantâneo” (SdE, § 24).O conceito de espetáculo foi gestado na Internacional Situacionista nos anos 1950 e aparece pela primeira vez na revista em 1958, influenciado pela leitura surrealista e vanguardista do mundo e por propostas revolucionárias: a construção de situações – novas – de arte como participação, tendo superado a separação artista/espectador – começaria depois do desmoronamento da noção de espetáculo, cujo princípio está ligado ao conceito de alienação, ou seja, de não-participação.A ressignificação do conceito marxista de alienação é central para a compreensão do que é espetáculo para Debord e os situacionistas, que destacam a evolução histórica desse fenômeno, caracterizado como uma degradação que vai do “ser” pré-moderno ao “ter” capitalista, típico da modernidade, para chegar ao “parecer” do espetáculo. Essa evolução significa o empobrecimento da vida cotidiana (mundo vivido), fragmentado em esferas cada vez mais separadas. Tudo o que antes era vivido afasta-se em imagens e representações. Ficam muito claros os tons idealistas do pensamento de Debord: de um lado por idealizar um passado não-alienado, uma idade de ouro, e de outro, por buscar inspiração e argumentos nos textos mais hegelianos de Marx, justamente aqueles considerados “filosóficos”, logo, pouco científicos, pelos exegetas do marxismo (SdE, § 1, 30, 32). No espetáculo das mídias, as vedetes têm a função de viver e representar todos os aspectos importantes da vida dos quais os indivíduos reais estão separados, incapacitados de viver diretamente. “O espetáculo é o momento em que a mercadoria chega à ocupação total da vida social” (SdE, § 41), ou seja, a lógica mercantil tomou conta de todas as dimensões da vida humana:“Neste ponto da ‘segunda revolução industrial’, o consumo alienado torna-se para as massas um dever suplementar à produção alienada” (idem).A inspiração em Lukács é clara na reapropriação das categorias essenciais de História e consciência de classe (1960), a obra mestra do jovem Lukács: totalidade, consciência de classe, fetichismo da mercadoria, falsa consciência e separação. A idéia de separação, fundamental em Lukács, é característica básica da sociedade do espetáculo e corresponde à proposta dos situacionistas de superação da arte como dualidade entre criador e espectador. O espetáculo é um fenômeno total, que só pode ser compreendido pela categoria da totalidade, interpretação hegeliana da dialética, em oposição a uma concepção mais “científica” (estruturalista ou positivista) do materialismo dialético, que enfoca mais a determinação econômica, entendida como uma contradição entre estruturas. Lukács é retomado pelos situacionistas, que enfatizam as categorias de falsa consciência e reificação, que Lukács relaciona, de forma mais clara que Marx, com a divisão do trabalho, agora tornada muito mais complexa e planejada, com o taylorismo e o fordismo. O “otimismo ingênuo de Lukács” inspira os jovens intelectuais situacionistas, pois lhes permite construir uma utopia: a idealização de um sujeito irredutível à reificação, capaz de se apropriar das técnicas e colocá-las a serviço da poesia e da arte vividas por todos os seres humanos. O sonho do sujeito emancipado, reatualizado e radicalizado pelos situacionistas, um dos eixos básicos da teoria do espetáculo de Debord, inscreve-se na “linha de continuidade e da autocrítica do iluminismo, isto é, da “dialética do iluminismo” (Jappe, 1999, p. 201). A razão iluminista, no entanto, que devia libertar os homens do medo e dos mitos e torná-lo soberano, isto é, emancipado, tinha se transformado em razão instrumental, submetendo o espírito humano ao trabalho alienado. Trata-se, pois, de superar as novas formas de alienação, criando novas formas de interação, idéias que remetem a Habermas e à sua proposta de ação comunicativa como razão alternativa à lógica instrumental do capital. Além do jovem Lukács, essa filiação idealista e hegeliana de Debord o aproxima de outro pensador que, na mesma época, construía uma visão semelhante da sociedade industrial: Herbert Marcuse, um dos membros da Escola de Frankfurt e filósofo inspirador do movimento hippie americano. O indivíduo típico do capitalismo, o homem unidimensional de Marcuse – completamente determinado pela lógica do trabalho e estabelecendo “relações libidinosas com a mercadoria” como forma de realizar a felicidade e satisfazer instintos –, está terrivelmente próximo do indivíduo preso a papéis falaciosos e miseráveis, dos indivíduos isolados e das massas atomizadas que são a base da sociedade do espetáculo (SdE, § 60, 62 e 221; Marcuse, 1968).No centro da concepção de espetáculo está a tecnologia, com seus desafios à criação artística e científica e seu poder potencializador da separação generalizada, típica do espetáculo e fundamento da alienação – nexo a fazer com Habermas (1973, 1976), que na mesma época, na Alemanha, buscava estabelecer as relações entre interesse e conhecimento e entre ideologia, ciência e técnica e construir as bases de sua teoria da ação comunicativa. A crença na possibilidade de dominar (maîtriser) o avanço técnico e colocá-lo a serviço do desenvolvimento humano pleno, emancipado, acha seu fundamento na crença em um sujeito capaz de escapar da alienação, inspirada em Lukács. A crítica de Jappe, trinta anos depois, é arrasadora, considerando o incrível avanço das TICs:Parece ausente de História e consciência de classe, bem como de A Sociedade do espetáculo, a suspeita de que o sujeito possa ser corroído em seu próprio interior pelas forças da alienação que, condicionando também o inconsciente dos sujeitos, os faz identificarem-se ativamente com o sistema que os contém. (1999, p. 46)Embora muitos situacionistas acreditassem que bastaria os sujeitos interagirem para construir o consensorevolucionário, Debord provavelmente é menos ingênuo e enfatizava o poder do espetáculo e de suas técnicas. Ele está longe, no entanto, de acreditar na potência autônoma da técnica: a separação entre a ação social real e sua representação cristalizada nas mídias não é, de modo nenhum, para Debord, uma conseqüência inexorável da evolução técnica, mas de uma certa apropriação de seus resultados: o poder econômico e político, isto é, o capitalismo e sua (nova) forma espetacular. O conceito de espetáculo se refere tanto à sociedade capitalista como à comunista, considerada pelos situacionistas como uma forma subdesenvolvida de capitalismo “de Estado”. Duas formas diferentes de espetáculo caracterizam uma e outra: o espetáculo difuso, típico das sociedades de consumo, e o espetáculo concentrado, dos países socialistas não-democráticos, seja o império soviético, sejam as novíssimas repúblicas da África ou da Ásia. No espetáculo difuso,[...] o capitalismo, chegado à etapa da abundância das mercadorias, dispersa suas representações da felicidade e, pois, do sucesso hierárquico, em uma infinidade de objetos e gadgets que exprimem, real e ilusoriamente, signos de pertencimento a estratificações da sociedade de consumo [...]. O espetáculo dos objetos múltiplos que estão à venda convida a assumir papéis múltiplos, porque ele obriga cada um a se reconhecer, a se realizar, no consumo efetivo desta produção difundida por toda a parte. (IS, n° 10, p. 45, 1966)Para ilustrar a idéia de espetáculo concentrado, os situacionistas, curiosamente, recorrem aos exemplos do Terceiro Mundo; não diretamente ao império soviético, mas a suas encarnações periféricas. Segundo eles:Na zona subdesenvolvida do mercado mundial, reúne-se na ideologia e, no caso extremo, num só homem, tudo o que é garantido pelo estado como admirável, indiscutível, que se trata de aplaudir e de consumir passivamente. A fraca quantidade de mercadorias realmente disponíveis tende a reduzir este consumo a um puro olhar. A imagem do poder, na qual este olhar deve achar toda sua felicidade, é pois um conjunto das qualidades socialmente reconhecidas. Sukarno (o ditador indonésio) devia ser ao mesmo tempo um genial condutor do povo e um irresistível sedutor de cinema. (idem, p. 44)
Para Debord, a forma concentrada do espetáculo é típica do “capitalismo burocrático”, no qual a ditadra da economia não deixa “nenhuma escolha às massas exploradas”, devendo pois ser “acompanhada de violência”. Essa violência é simbólica quando o espetáculo apresenta a imagem imposta do bem que “concentra-se num único homem, que é a garantia de sua coesão totalitária”. Na falta de mercadorias a consumir, consome-se a imagem do líder, num sentido aceitável para a exploração absoluta: “Se cada chinês deve aprender Mao, e assim ser Mao, é que ele não tem mais nada para ser”. Por outro lado, ela baseia-se na violência física, como adverte Debord: “Lá onde domina o espetacular concentrado domina também a polícia” (SdE, § 64, grifo do autor). O espetacular difuso é baseado na satisfação “que a mercadoria abundante já não pode dar no uso” e que terá de ser buscada em signos abstratos de prestígio atribuídos a ela pela publicidade, nos quais se pode reconhecer a manifestação de “um abandono místico à transcendência da mercadoria” (SdE, § 67). O indivíduo reificado se perde nas relações animistas e íntimas com os objetos e o “fetichismo da mercadoria” se assemelha ao velho fetichismo religioso, com seus arrebatamentos e convulsões: “O único uso que ainda se exprime aqui é o uso fundamental da submissão” (idem). A sociedade hegemônica domina o planeta enquanto sociedade do espetáculo, impondo uma “divisão mundial das tarefas espetaculares” (SdE, § 57). Mesmo “lá onde a base material ainda está ausente, a sociedade moderna já invadiu espetacularmente a superfície social de cada continente”. Ou seja, nos países periféricos, sem mercadorias em abundância, o espetáculo confirma e reitera sem cessar a legitimidade daquela divisão mundial do trabalho, na qual esses países consomem mas não produzem objetos técnicos de que não precisam (idem). Com a fim da guerra fria, após a queda do império soviético e o triunfo do capitalismo, a hegemonia americana em sua fase pós-fordista vai impor um novo espetáculo: o espetacular integrado. Essa nova forma, Debord já a anunciava em 1988, um ano antes da queda do Muro de Berlim, quando ainda muitos intelectuais ocidentais acreditavam nas promessas de Gorbatchev de um comunismo mais humano. Ao tecer seus comentários sobre a sociedade do espetáculo,Debord (1997) define com clareza as principais características das sociedades contemporâneas de economia globalizada e cultura mundializada:A sociedade modernizada até o estágio do espetacular integrado se caracteriza pela combinação de cinco aspectos principais: a incessante renovação tecnológica, a fusão econômico-estatal, o segredo generalizado, a mentira sem contestação e o presente perpétuo. (p. 175)Dessas características, as duas primeiras se referem à “base material da sociedade”, enquanto as outras três dizem respeito à dimensão cultural, que nos interessa mais. Debord prenuncia, nesse texto, a nova unidade básica a que tudo se resume, do capitalismo “pós”: a informação, que o autor trata em seus dois aspectos modernos; a informação secreta, dos “serviços de inteligência”, e a informação pública, construída e difundida pelos meios de comunicação de massa para formar a “opinião pública”, essa última tendo como função principal a desinformação:Ao contrário do que seu conceito espetacular invertido afirma, a prática da desinformação só pode servir o Estado aqui e agora, sob sua direção direta, ou por iniciativa dos que defendem os mesmos valores. De fato, a desinformação reside em toda a informação existente; é como seu caráter principal. Ela só é nomeada quando é preciso manter, pela intimidação, a passividade. Quando a desinformação é nomeada, ela não existe. Quando existe, não é nomeada. (Debord, 1997, p. 204)Com a alienação tendo sido sempre o foco de sua reflexão, Debord percebe com clareza as enormes potencialidades das mídias no sentido de potencializar ao máximo os aspectos enganadores, isto é, produtores de falsa consciência, da sociedade do espetacular integrado. Suas análises sobre o complô como modo regular de participação política efetiva e sobre as falsificações tão terrivelmente perfeitas que são mais verdadeiras que os originais, são aspectos importantes de seu pensamento crítico radical da sociedade contemporânea. Para demonstrar a atualidade e a importância desses conceitos, ele próprio retoma, 30 anos depois, a famosa paráfrase de Hegel encontrada no parágrafo 9 de A sociedade do espetáculo:Invertendo uma frase famosa de Hegel, eu observava, já em 1967, que no mundo realmente invertido, o verdadeiro é um momento do falso. Os anos que transcorreram desde então mostraram os progressos desse princípio em cada domínio específico, sem exceção. (Debord, 1997, p. 206)O que vale a pena resgatar do pensamento de Debord e das propostas situacionistas são algumas lições que nos orientem na compreensão do que deve ser a formação na sociedade atual e nosso papel nela.Contra o realismo socialista, que “coloca a poesia a serviço da revolução”, nossos jovens situacionistas pregavam a apropriação revolucionária do cinema, da arquitetura, da fotografia, da arte e da técnica, armas da burguesia, não para colocá-las a serviço da revolução, mas para, por meio delas, pôr a revolução a serviço da poesia e da realização dos desejos.Em tempos de realidade virtual, de ciberespaço e cultura da simulação, pode parecer ingênuo falar de revolução, especialmente tendo em vista a realidade da violência e da morte lá fora. Mas é justamente com base nessa realidade, que não conhecemos diretamente, que aparece com mais clareza a falsificação da vida social construída cuidadosamente pelo espetáculo integrado: a espetacularização do cotidiano nos reality shows (a banalização do banal, como diz Baudrillard, 2001); o jornalismo eletrônico (news all time, on line), uma proposta excessiva que lembra a pergunta tropicalista de Caetano Veloso: Quem lê tanta notícia?; os modelos de corpos perfeitos que mostram cruelmente a obsolescência dos nossos pobres corpos cansados de tanto nos adaptarmos às ergonomias maquínicas. Tudo parece concorrer para que a lógica do espetáculo triunfe. A não ser que dos instrumentos do espetáculo façamos ferramentas ou armas de formação, pela apropriação criativa das tecnologias que permita superar a separação entre o sujeito e sua representação. A não ser que, em algum lugar, alguns indivíduos em busca de emancipação levem a sério a advertência de Anselm Jappe (1999, p. 17): “É absolutamente vão estudar as obras de Debord se não se pretende, afinal, aboliro mercado e o Estado”.


MARIA LUIZA BELLONI, doutora em Ciências da Educação pela Universidade Paris V, com pós-doutorado em ComunicaçãoPolítica no CNRS (França) e em Educação a Distância pela Universidade Aberta de Portugal, é professora do Programa de Pós-Graduação em Educação do Centro de Educação da Universidade Federal de Santa Catarina, onde coordena o grupo de pesquisaComunic e o Laboratório de Novas Tecnologias. Últimas publicações: O que é mídia-educação (Autores Associados, 2001);A formação na sociedade do espetáculo (coletânea organizada pela autora, Loyola, 2002) e Ensaio sobre a educação a distância no Brasil (Revista Educação e Sociedade, Cedes/Unicamp, nº 78, abril de 2002, p. 117-142).




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LINARD, M., (1996). Des machines et des hommes. Paris:L’Harmattan.


LUKÁCS, Georg, (1960). Histoire et conscience de classe. Paris:Minuit.


MARCUSE, H., (1968). L’homme unidimensionnel. Paris: Minuit.


MARX, K., (1983). O Capital: crítica da economia política. Traduçãode Regis Barbosa e Flávio R. Kothe. São Paulo: AbrilCultural.


SFEZ, L., (1994). Crítica da comunicação. São Paulo: Loyola.


VIÉNET, René., (1968). Enragés et situationnistes dans lemouvement des occupations. Paris: Gallimard.Recebido em setembro de 2002


[1] [1]* A autora agradece ao professor Jean-Luc Rosinger pelo acesso à sua biblioteca situacionista.Maria Luiza Belloni 122 Jan/Fev/Mar/Abr 2003 Nº 22

Sobre o tempo na Sociedade do Espetáculo

Guy Debord
Sobre o tempo pseudo-cíclico da Sociedade do Espetáculo
(Fonte: "Reificação e linguagem em Guy Debord, João Emiliano Fortaleza de Aquino - diversas passagens do livro)

A sociedade burguesa destruiu as antigas formas de vida, baseadas na agricultura e que fundavam uma concepção cíclica de tempo. Assim, haveria condições materiais para uma vida humana plenamente histórica (tempo experimentado e sabido como passageiro, irreversível e linear – tempo gozado de maneira qualitativa e não meramente quantitativa). Entretanto, essas possibilidades permanecem inconscientes, recalcadas. Por isso, Debord não pode ser considerado um nostálgico, pois somente com as possibilidades abertas pela modernidade é que surgem condições objetivas para uma vida em que haja uma “participação imediata em uma abundância passional da vida”.A auto-valorização da sociedade burguesa dita que “tudo o que era absoluto torna-se histórico”. (SdS, § 73)Entretanto, essa liberação na sociedade mercantil se traduz como “tempo das coisas”, tempo reificado. Assim, a atual experiência social assume a forma do movimento do capital, ele mesmo abstrato e cíclico.Portanto, a sociedade moderna funda um tempo “profundamente histórico” – não é mais a sociedade da tradição, da permanência – mas nega-o enquanto experiência imediata de vida dos indivíduos, mantendo-o recalcada em suas profundezas.
A história, que está presente em toda a profundidade da sociedade, tende a se perder na superfície” (SdS, § 142).
É esta experiência vivenciada cotidianamente que Debord chama de tempo vivido.O tempo abstrato de valorização e realização da mercadoria – tempo da produção, do consumo, do trabalho, do lazer – se materializa na vida cotidiana na forma de unidades homogêneas intercambiáveis que organizam a cotidianidade sob a lógica abstrata e mutuamente reversível, repondo uma experiência “pseudo-cíclica”, que se apóiam, contudo, em formas distintas de produção social. O retorno temporal do modo cíclico (pelas exigências da produção e do consumo) não se apresenta como eterno retorno do mesmo, mas como retorno ampliado do mesmo, exatamente em razão do desenvolvimento linear capitalista, manifesto de modo reificado na ampliação e no aumento quantitativo das mercadorias e que na superfície do consumo reitera o retorno do mesmo (da mesma forma mercadoria, ainda que sobre outros valores de uso.A “crise da vida cotidiana” ocorre graças à transformação da vida (cotidiana) em lugar da produção e da realização abstratas da mercadoria:
As pessoas estão privadas de comunicação e de realização de si mesmas. Precisaria dizer: de fazer sua pro´ria história pessoalmente.” (Debord)
Entretanto, Devord rejeita a idéia de reificação total, pois constata experiências individuais que permanecem clandestinas, sem linguagem, sem comunicação e, portanto, sem memória e sem história.
O realmente vivido é incompreendido e esquecido em proveito da falsa memória espetacular do não-memorável” (SdS. § 157)
A história universal é reafirmada consciente e oficialmente – como expressão reificada de um tempo linear e irreversível da economia – mas negada aos indivíduos.Há assim uma interdição imposta aos indivíduos da atividade de linguagem e da comunicação do “realmente vivido” (v; SdS, § 158).Na experiência pseudo-cíclica, tudo é reposto e retornado e, por isso, não há o que tnhe um fim: constitui a falsa consciência do tempo que dissolve a representação da morte.A racionalidade abstrata própria da economia material com seu tempo abstrato e quantitativo, organiza a vida cotidiana fazendo do indivíduo mero espectador da sua própria vida.A experiência temporal se desenvolve apenas como “tempo de consumo das imagens”: aos indivíduos não cabe a assunção de sua época porque não lhes cabe a de seu tempo; não lhes cabe a sua memória coletiva ou individual porque não lhes cabe a realização e a comunicação.
“Com a separação generalizada do trabalhador e do seu produto perde-se todo o ponto de vista unitário sobre a atividade realizada, toda a comunicação pessoal direta entre os produtores. Na senda do progresso da acumulação dos produtos separados, e da concentração do processo produtivo, a unidade e a comunicação tornam-se o atributo exclusivo da direção do sistema. O êxito do sistema econômico da separação é a proletarização do mundo.” (SdS, § 26)
“Os fenômenos aparentes são aparência desta aparência organizada socialmente.” (SdS, §10)
O segundo termo “aparência” da afirmação acima não nos remete à aparência visível, sensível, mas à categoria hegeliana de aparência utilizada por Marx no primeiro Capitulo do Capital.Trata-se do fetichismo da mercadoria que, na sociedade espetacular, passa a se manifestar sensivelmente, torna-se fisicamente aparente. Graças à extensão das relações mercantis à totalidade da vida cotidiana, o fetichismo dá nascimento a fenômenos aparentes que se tornam autônomos frente aos indivíduos.O valor de troca atingiu tal totalidade e onipresença que sua lógica abstrata se torna a única coisa que se faz ver. A autonomização dos fenômenos aparentes da abstração do valor econômico é nomeada por Debord como “mundo da imagem autonomizado.”“As imagens que se desligaram de cada aspecto da vida fundem-se num curso comum, onde a unidade desta vida já não pode ser restabelecida. A realidade considerada parcialmente desdobra-se na sua própria unidade geral enquanto pseudomundo à parte, objeto de exclusiva contemplação. A especialização das imagens do mundo encontra-se realizada no mundo da imagem autonomizada, onde o mentiroso mentiu a si próprio. O espetáculo em geral, como inversão concreta da vida, é o movimento autônomo do não-vivo.” (SdS, §2)


Questão a ser discutida...

Em relação à integração empreendida pelo sistema ideológico, proponho a seguinte questão, diretamente relacionada às reflexões situacionistas.
Estou partindo do caráter fragmentador do capitalismo e que deu causa à chamada "crise da cultura" contemporânea.
Em relação a esse diagnóstico (fragmentação, perda do sentido), as vanguardas do século XX adotaram a posição bem conhecida, de proceder ao descondicionamento mediante desestruturação da própria linguagem. Pois bem : em se tratando de um sistema ideológico que prima, ele próprio, pela fragmentação, talvez esteja aí a causa que redundou na absorção ideológica dessaas vanguardas. A desconstrução vanguardista "resvala" para a própria ideologia, por se limitar à negatividade. O sistema se alimenta de uma negatividade desconstrutora: a perda do sentido, seja ela qual for, "nutre" a ideologia.

Situacionismo...novas considerações (2)

A crítica ao fetichismo somente pode ser pensada dentro da reflexão sobre a linguagem. Ou, seja, para Debord, ambas as reflexões são uma só, o que implica dizer que a reificação se dá dentro e a partir dos mecanismos da linguagem. O espetáculo é o momento em que a mercadoria ocupa integralmente a vida social e pode ser entendido como o contrário do diálogo (do "antagonismo", na acepção de Zizek - podemos estabelecer aqui também um diálogo com Habermas). Debord afasta-se, entretanto, das vanguardas artísticas, na medida em que, para ele, o inconsciente no pós-modernismo, perde a negatividade (conforme Jameson, "inconsciente colonizado")."

Daí a necessidade de se proceder à "elaboração consciente do desejo" e de um novo horizonte com base no qual a crítica da reificação precisa ser feita: uma nova linguagem comum, o diálogo nprático, uma nova comunicação." (in Reificação e Linguagem em Guy Debord - João Emiliano Fortaleza de Aquino)

A superação do fetichismo, da reificação e da alienação tem como pressuposto a recuperação do "jogo criativo e prático da comunicação e do diálogo" que tem no espetáculo seu antagonista mais acabado.
Debord também pensa a Sociedade do Espetáculo como aquela que põe fim à linearidade do tempo e à noção de progresso, que ele localiza ter sido fundada, dentro do Ocidente, na Grécia antiga. Se as sociedades agrícolas eram regidas pela noção de tempo cíclico, os "senhores de Atenas" promoveram uma ruptura, pois, assumindo o poder e tomando para si seus próprios destinos - o que pressupõe uma vida autônoma e fundada no diálogo - puderam pensar suas prórpias histórias (individuais e coletiva). Portanto, Debord considera que a própria noção de história finca sua raízes na possibilidade do diálogo. E é nesse sentido que o espetáculo inaugura um pseudo-tempo cíclico (fim da história, fim da política, percepção de que nada vai mudar etc.).

Situacionismo...novas considerações

Guy Debord



Em outra mensagem, havia levantado a questão acerca do caráter simbólico da existência moderna e suas formas de contestação, também voltadas para a dimensão cultural.Gostaria de acrescentar novos elementos a essa indagação.
O situacionismo é uma resposta ao problema do fetichismo (Marx), reificação (Lukacs) e da alienação. Para outros autores não marxistas (Weber, por exemplo), esse problema também assume uma posição central, quando chamam a atenção para a racionalidade crescente – que subtrai o sentido da vida – para a especialização dos saberes e a crescente autonomia das esferas da ação social (por exemplo, da arte), que se movem por lógicas próprias. Em, Simmel, o mesmo fenômeno guarda implicações quase transcendentais, pois sua análise trata da oposição entre os “impulsos vitais” e as “formas” pelas quais esses impulsos se manifestam.
Pois bem, essa temática é também o cerne dos movimentos artísticos de vanguarda do início do século XX: o futurismo (1909), o dadaísmo (1916) e o surrealismo (1924). Para esses movimentos de vanguarda, trata-se de unir a arte à vida, buscando-se a superação da separação entre as “esferas” (numa linguagem weberiana), retomando e conferindo um sentido à própria vida e suas manifestações (cultura). De uma certa forma, a proposição é negar a própria arte – como até então esta era concebida – fazendo com que “vida” (cotidiana) e “arte” sejam uma só: é a superação da existência alienada e da reificação. Esse é o cenário em que o impulso situacionista ocorre. No pós-II Guerra Mundial, as vanguardas (ou melhor suas manifestações, os signos por estas elaborados ou, numa linguagem “à la Simmel”, suas “formas”) são apropriadas ou integradas pelo sistema ideológico. Os situacionistas iniciam suas reflexões nesse momento, ao recusar essa integração: buscam a retomada do projeto vanguardista, porém em um outro registro. A reflexão estética irá assumir contornos cada vez mais políticos...

Debord:

"A arte será assim ultrapassada, conservada e superada numa atividade mais complexa.(...)Seus elementos poderão se reencontrar aí parcialmente, mas transformados, integrados e modificados pela totalidade." (IS, n.4)

Introdução à Sociedade do Espetáculo


DEBORD E A SOCIEDADE DO ESPETÁCULO



Nilldo Viana



Guy Debord nasceu em 1931 e suicidou-se em 1994. Apesar de ter escrito sobre sua própria vida em seu livro Panegírico, não nos deixou muitas informações sobre sua história. Alguns fatos fragmentários, tal como o seu gosto por bebidas alcóolicas, as suas relações com criminosos comuns e políticos, sua recusa da sociedade moderna. Sabemos, porém, de sua ação política através da Internacional Situacionista e de seu pensamento através de suas obras, em especial, A Sociedade do Espetáculo. Aqui nos interessa sua análise da sociedade moderna, do que ele denomina sociedade do espetáculo. Além de alguns textos menos importantes, a sua visão da sociedade moderna está expressa de forma mais acabada em A Sociedade do Espetáculo. Está é também uma das principais obras que expressam as concepções da Internacional Situacionista, organização contestária da qual Debord foi um dos mais destacados representantes e que existiu de 1957 a 1972. Debord busca na vida cotidiana a base da contestação social de nossa época. O espetáculo produzido pela sociedade capitalista fundamentada na mercantilização de tudo e no fetichismo generalizado abre caminho para sua teoria crítica da sociedade moderna, da qual trataremos no presente ensaio. A Sociedade Espetacular Marx afirmou que, à primeira vista, a sociedade capitalista aparece como uma “imensa coleção de mercadorias” (1). Parafraseando Marx, Debord afirma que “toda a vida das sociedades nas quais reinam as modernas condições de produção se apresenta como uma imensa acumulação de espetáculos. Tudo o que era vivido diretamente tornou-se uma representação” (Debord, 1997, p. 13). O que é o espetáculo? Debord nos apresenta inúmeras características do espetáculo. Ele “não é um conjunto de imagens, mas uma relação social entre pessoas, mediadas por imagens”; é também uma cosmovisão; resultado e projeto do capitalismo; o “modelo atual da vida dominante na sociedade”; a “afirmação onipresente da escolha já feita na produção, e o consumo que decorre desta escolha; “a justificativa total das condições e dos fins do sistema existente”; “a presença permanente dessa justificativa, como ocupação da maior parte do tempo vivido fora da produção moderna”; o sentido da prática total; “a principal produção da sociedade atual”; herdeiro da filosofia baseada nas categorias do ver; “sonho mau”; etc., etc. Richard Gombim esclarece com mais precisão o significado do espetáculo: “a degradação e a decomposição da vida cotidiana correspondem à transformação do capitalismo moderno. Nas sociedades de produção do século XIX (cuja racionalidade era a acumulação de capital), a mercadoria tinha-se tornado um fetiche na medida em que era considerada como figurando um produto (objeto), e não uma relação social. Nas sociedades modernas, em que o consumo é a ultima ratio, todas as relações humanas têm sido impregnadas da racionalidade do intercâmbio mercantil. É o motivo por que o vivido se afastou ainda mais numa representação: tudo aí é representação. É a este fenômeno que os situacionistas chamam espetáculo (a concepção de Lefebvre é mais neutra: o espetáculo moderno, para ele, deve-se simplesmente à atitude contemplativa dos seus participantes). O espetáculo instaura-se quando a mercadoria vem ocupar totalmente a vida social. É assim que, numa economia mercantil-espetacular, à produção alienada vem juntar-se o consumo alienado. O pária moderno, o proletário de Marx, não é já tanto o produtor separado do seu produto como o consumidor. O valor de troca das mercadorias acabou por dirigir o seu uso. O consumidor tornou-se consumidor de ilusões”(Gombim, 1972, p. 82). A sociedade moderna passa a ser compreendida, então, como o reino do espetáculo, da representação fetichizada do mundo dos objetos e das mercadorias. O espetáculo, assim, consagra toda a glória ao reino da aparência. Ele domina os homens a partir do momento em que a economia desenvolveu-se por si mesma, sendo o reflexo fiel da produção das coisas e a objetivação infiel dos produtores. Esta temática de Debord vai de encontro com as teorias da sociedade de consumo. Baudrillard, por exemplo, irá tratar do mundo dos objetos e da esfera do consumo. Lefebvre também não deixou de lado o problema da sociedade de consumo, qualificada por ele de “sociedade burocrática de consumo dirigido”. Erich Fromm irá analisar a passagem da valorização do ser para o ter. Arendt fez considerações sobre a sociedade de consumidores e assim por diante (1). Mas a sociedade de consumo para Debord é a sociedade do espetáculo, da reificação, para utilizar expressão lukacsiana. Porém, isto difere sua abordagem das demais, pois aqui a passagem do ser para o ter é complementada pela passagem para o parecer. Nesta sociedade, há a produção circular do isolamento (através do automóvel, da televisão, etc.). Desta forma, a temática da separação e do isolamento assumem um papel central na concepção de Debord. O consumo e a imagem (representação reificada) ocupam o lugar da ação direta, do diálogo. Provocam o isolamento e a separação. Debord retoma a discussão em torno do fetichismo da mercadoria. A mercadoria surge como força que ocupa a vida social e constitui a economia política, “ciência dominante e ciência da dominação”. “O espetáculo é o momento em que a mercadoria ocupou totalmente a vida social (...). A produção econômica moderna espalha, extensa e intensivamente, sua ditadura” (Debord, 1997, p. 31). A abundância da produção de mercadorias produz a preocupação da classe dominante com o proletário enquanto consumidor, criando o “humanismo da mercadoria”, encarregado do “lazer” do trabalhador. “Assim, ‘a negação total do homem’ assumiu a totalidade da existência humana” (Debord, p. 32). Neste contexto, o consumo deve aumentar sempre, mas este aumento só é possível pelo motivo de que contem em si uma privação, “a privação tornada mais rica”. O consumismo derivado daí leva a uma “sobrevivência ampliada”, produzindo também a produção de pseudo-necessidades para garantir esse processo de expansão da produção e do consumo. Na sociedade em que domina o espetáculo, a oposição a ela também é envolvida por ele. As lutas “espetaculares” são ao mesmo tempo falsas e reais. São falsas por não colocarem em questão a sociedade do espetáculo e por serem, elas mesmas, espetaculares. São reais pelo motivo de que expressam lutas reais entre classes ou frações de classes. Segundo Debord, A resistência das regiões subdesenvolvidas não difere muito desta caso. Tal como ele colocou: “a sociedade portadora do espetáculo não domina as regiões subdesenvolvidas apenas pela hegemonia econômica. Domina-as como sociedade do espetáculo. Nos lugares onde a base material ainda está ausente, em cada continente, a sociedade moderna já invadiu espetacularmente a superfície social. Ela define o programa de uma classe dirigente e preside sua formação. Assim como ela apresenta os pseudo-bens a desejar, também oferece aos revolucionários locais os falsos modelos de revolução” (p. 39). A sociedade do espetáculo também transforma a revolta em rebelião puramente espetacular, através da transformação da insatisfação em mercadoria. O mesmo ocorre, com algumas diferenças de pormenor, no capitalismo de estado (2). Segundo Debord, “a satisfação denuncia-se como impostura no momento em que se desloca, em que segue a mudança dos produtos e a das condições gerais de produção. Aquilo que, com o mais perfeito descaramento, afirmou sua própria excelência definitiva transforma-se no espetáculo difuso e também no espetáculo concentrado. É apenas o sistema que tem que continuar: Stálin tanto quanto a mercadoria fora de moda são denunciados por aqueles mesmos que os impuseram. Cada nova mentira da publicidade é também a confissão da mentira anterior” (Debord, p. 47). Neste contexto, Debord analisa o marxismo a partir da obra de Marx. Coloca em evidência o ponto de vista revolucionário da teoria de Marx e sua transformação em ideologia, tanto pela social-democracia quanto pelo bolchevismo. Debord faz uma severa crítica a diversas correntes políticas, tais como o anarquismo, a social-democracia, o kautskismo, o leninismo, o stalinismo, o trotskismo. Para ele, a social-democracia e o bolchevismo inauguram a ordem de coisas que expressa o espetáculo moderno: “a representação operária opôs-se radicalmente à classe” (Debord, p. 68). Qual é a alternativa para a sociedade do espetáculo? Como se pode trilhar um caminho alternativo que não passe pela social-democracia, pelo bolchevismo ou pelo anarquismo? Debord retoma a resposta dada já na década de vinte pelos chamados “comunistas conselhistas” (Korsch, Pannekoek, Mattick, Rühle, etc.) (3): os conselhos operários são a forma de emancipação proletária. Tais conselhos rompem com a idéia de representação, tanto parlamentar (social-democracia) quanto a vanguardista-partidária (bolchevismo). Segundo Debord, “a organização revolucionária só pode ser a crítica unitária da sociedade, isto é, uma crítica que não pactua com nenhuma forma de poder separado, em nenhum ponto do mundo, e uma crítica formulada globalmente contra todos os aspectos da vida social alienada” (p. 85). Assim, ele propõe os conselhos operários como alternativa global para a alienação global: “quando a realização sempre mais avançada da alienação capitalista em todos os níveis, ao tornar sempre mais difícil aos trabalhadores reconhecerem e nomearem sua própria miséria, os coloca na alternativa de recusar a totalidade de sua miséria, ou nada, a organização revolucionária deve ter aprendido que não pode combater a alienação sob formas alienadas” (Debord, p.85). Aqui notamos um aspecto do situacionismo e do pensamento de Debord que continua extrema e ortodoxamente marxista: “vemos o que esta concepção tem de radical; o corte que ela opera com todo o movimento de esquerda deste meio século confere-lhe um tom milenarista, herético. Sobre um ponto, entretanto, ela parece dar ainda prova de ortodoxia: o sujeito revolucionário, o portador da revolução, o emancipador, permanece, para a Internacional Situacionista, o proletariado” (Gombin, 1972, p. 86). Enfim, estas são as principais colocações de Debord sobre a sociedade do espetáculo e de suas características.

Observações Finais

A obra de Debord representa uma determinada concepção de sociedade moderna. Trata-se de uma concepção que parte de uma perspectiva crítica e de oposição a esta sociedade. Debord se filia ao chamado esquerdismo, sendo um representante da Internacional Situacionista. Porém, ele faz sua crítica da sociedade moderna de forma diferente do que a esquerda tradicional costuma fazer. Os conceitos mais importantes para a esquerda tradicional são os de exploração, imperialismo, etc., e o locus privilegiado de debate é a esfera da economia e da política. Isto será criticado de forma intensa pelos representantes da Internacional Situacionista e por Debord em particular. A separação entre economia e política e entre estas “esferas” da realidade e as demais. A própria separação é questionada como um produto da ideologia espetacular. A realidade foi separada mas não existe tal separação na realidade. Debord focaliza sua crítica à sociedade moderna concebendo-a como sociedade do espetáculo e esta se caracteriza pela generalização do fetichismo da mercadoria que invade a vida cotidiana. A crítica da vida cotidiana torna-se o fundamento da crítica à sociedade moderna. O espaço (e juntamente com ele o urbanismo, a arquitetura, etc.), o tempo, o lazer, a cultura, a arte, a comunicação e tudo o mais é perpassado por esta alienação generalizada da sociedade contemporânea. Tendo em vista que a alienação é total, então Debord propõe a contestação total do capitalismo moderno (Debord, 1961). Segundo Gombin, “esta consiste numa multidão de atos espontâneos tendentes a modificar radicalmente o espaço-tempo atribuído pela classe dominante. A nova revolução não poderia, pois, aspirar à simples tomada de poder, a uma renovação da equipe ou da classe dirigente: é o próprio poder que é necessário suprimir para realizar a arte, que é o objetivo último. A realização da poesia, que será também a sua ultrapassagem, exige, evidentemente, um reconhecimento dos seus próprios desejos (asfixiados pela sociedade do espetáculo e rebaixados a pseudo-necessidades): a palavra livre, a comunicação verdadeira (e não mais unilateral e manipulada), a recusa do trabalho produtivo como trabalho produtivo, a recusa igualmente da hierarquia, de toda a autoridade e de toda especialização. O homem libertado não será mais o homo faber, mas o artista, quer dizer, o criador das suas próprias obras. A revolução, será, portanto, um ato de afirmação da subjetividade de cada um no terreno da cultura, que é o terreno mais vulnerável da civilização moderna. Porque é a arte que revela em primeiro lugar o estado de decomposição dos valores: o que Marx e Engels não viram ou não quiseram ver; ora, a cultura, ao mesmo tempo que reflete as forças dominantes da sua época, é também e já o projeto de sua ultrapassagem. Os grandes artistas foram também grandes profetas revolucionários: Latréamont, Rimbaud, que ultrapassaram a sua época na e pela sua obra. Trata-se de retomar esse fio que, depois, se perdeu (pois que a obra de arte moderna se tornou uma mercadoria como qualquer outra). Trata-se de recriar uma linguagem de comunicação na comunidade do diálogo: a contestação será também a procura dessa linguagem, é o motivo por que será antes de mais uma revolução cultural. O dadaísmo e o surrealismo começaram a destruir a linguagem (alienada) antiga: mas não souberam encontrar um novo estilo de vida. O seu fracasso explica-se pela imobilização do assalto revolucionário desse primeiro quarto de século. (...). Parafraseando os esquerdistas, poderíamos dizer que os homens serão felizes no dia em que forem todos artistas” (Gombin, 1972, p. 92-94). Desta forma, a modernidade é a sociedade do espetáculo. O reino do fetichismo e do consumo. Um mundo fragmentado, separado. A modernidade, tal como Lefebvre já havia colocado, é a última estratégia da dominação burguesa. Neste sentido, para Debord, a sociedade moderna é a negação da humanidade e somente a recuperação desta poderá promover a negação da sociedade moderna. Enfim, trata-se de uma concepção severa e verdadeira sobre a sociedade moderna e a modernidade. Uma acusação do seu caráter alienante, fetichista, espetacular.



Bibliografia


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VIANA, Nildo. A Utopia Concreta Contra o Realismo Político. in: Revista Ruptura.



Notas


(1) O processo de mercantilização das relações sociais é o elemento fundamental para explicar a sociedade de consumo e está intimamente ligado com a questão da composição orgânica do capital. Sobre a mercantilização das relações sociais, cf. Viana, Nildo. A Utopia Concreta Contra o Realismo Político. in: Revista Ruptura.

(2) Debord é um dos teóricos que defendem que o regime da antiga União Soviética, Leste Europeu, China, Albânia, etc., era um capitalismo de estado, não tendo nada a ver com uma sociedade autenticamente socialista. Os primeiros defensores desta tese foram os esquerdistas russos de oposição ao bolchevismo e os esquerdistas alemães, holandeses e italianos, duramente criticados por Lênin, em O Esquerdismo, A Doença Infantil do Comunismo.

(3) Os comunistas conselhistas também foram chamados de “comunistas de esquerda”, de “comunistas de princípios”, de “esquerdistas” e de “comunistas internacionalistas”. Fizeram feroz oposição ao regime soviético e ao leninismo, tanto do ponto de vista filosófico quanto político e econômico (sobre tal corrente e sua influência sobre a Internacional Situacionista, cf. o livro citado de Gombim).


Fonte: Núcleo de Pesquisa Marxista (http://www.npm.hpg.ig.com.br/ ).