
sábado, 1 de dezembro de 2007
Situacionismo...mais questões (2)

Situacionismo...mais questões

Desta vez, tomaremos como ponto de partida o comentário de G. Agamben acerca da obra de Debord, quando assinala que o fundamental à teoria crítica do espetáculo é que nela “a análise marxiana vai integrada no sentido de que o capitalismo (...) não era voltado só à expropriação da atividade produtiva, mas também e sobretudo à alienação da própria linguagem, da própria natureza lingüística ou comunicativa do homem.”
Pois bem. Conforme assinalado anteriormente, as reflexões de Debord tomam impulso inicial no contexto da crise da linguagem e consideram que a tentativa de superação dessa crise promovida pelas vanguardas do entre-guerras constituiu um importante movimento que merece ser retomado.
Detenhamo-nos um pouco mais nessa questão.
De uma maneira um pouco grosseira, podemos considerar que, para Breton, a comunicação constitui negação do caráter mais íntimo da linguagem, pois há uma contradição intrínseca entre o signo e as raízes mais profundas, inconscientes mesmo, que dão origem às idéias e que são a fonte inexprimível dos pensamentos. Desse modo, todo inídivíduo é solitário, pois, ao tentar se comuinicar com outro, serve-se de signos intercambiáveis para exprimir significados que não o são. Desse modo, não apenos não consigo me exprimir inteiramente, como também jamais poderei entender perfeitamente meu interlocutor, que se encontra em idêntica situação. Esse é o caráter ambivalente - a ambigüidade de Freud - da linguagem. A palavra, como símbolo, é recebida numa outra referência significativa pelo ouvinte e, portanto, não há comunhão de pensamentos, significação comum da linguagem, nem comunicação e comunidade. “Precisamente porque expressiva, esta é uma linguagem não-comuncativa.”
Breton se posiciona criticamente diante da exigência social da “comunicação” e busca, desmascarar tal exigência:
“Não existe nenhuma conversa em que não se passa alguma coisa dessa desordem. O esforço de sociabilidade que preside a ela e o grande hábito que dela nós temos conseguem sozinhos dissimulá-la passageiramente para nós.” Por isso mesmo, para Breton, a “verdade absoluta” do “diálogo”, verdade que o surrealismo buscaria restabelecer, é o solilóquio.
Há portanto, um posicionamento anti-instrumental da linguagem, como recusa que a afaste de sua dimensão criadora em nome de uma “instrumentação para o diálogo” que, em um mundo reificado, torna-se uma “moeda de troca”. Pois a linguagem “num mundo exterior às profundezas do espírito, num mundo de imperativos práticos, do trabalho e das convenções fixas”, torna-se banal e meramente uma moeda de troca.
O projeto surrealista, em Breton, busca afirmar radicalmente a potencialidade criadora da linguagem e sua potencial negação da banalidade de seu uso social.
“A concepação da subjetividade solitária, essencial ao seu lirismo, em razão da crise da tradição e do presente domínio da reificação, é o que constitui sua concepção de expressão não-comunicativa e, por isso mesmo, aversa aos “imperativos práticos” e ao chamado reificado da ação.” (p.95)
A crítica de Debord ao surrealismo não se dirige ao “espírito” desse movimento - pois considera que tais questões permanecem vivas e urgentes no mundo do capitalismo tardio do pós-II Guerra - mas vai em direção à “fonte” que os surrealistas conceberam como produtora de uma saída. A restrição de Debord prende-se ao caráter libertador do inconsciente, pois ele extraí de Freud a concepção de que o inconsciente é regressivo, “arcaico”. Debord, então, irá formular uma concepção de que as “possibilidades inconscientes” de libertação da linguagem reificada não se encontrarão no inconsciente individual, mas nas “possibilidades inconscientes” coletivas, dadas justamente pelas condições objetivas do capitalismo avançado, que libertaram o homem dos imperativos cíclicos. (continua...)
sexta-feira, 30 de novembro de 2007
Introdução à Sociedade do Espetáculo (2)
Guy Debord e sua esposa, Alice Becker-HoA formação na sociedade do espetáculo:gênese e atualidade do conceito*Maria Luiza BelloniUniversidade Federal de Santa Catarina, Centro de Educação
Na pura historicização da dialética, esta constatação se dialetiza mais uma vez: o “falso” é um momento do “verdadeiro” ao mesmo tempo enquanto “falso” e enquanto “não-falso”.
(Georg Lukács, História e consciência de classe )
Prólogo, como não poderia deixar de serApresentar Debord e sua obra, tão complexa e polêmica, é um grande desafio que só se explica pela convicção de que é extremamente importante evocar a radicalidade de seu pensamento e de suas ações e pôr em evidência seu caráter autenticamente revolucionário, na tentativa de lembrar a permanência e validade das idéias subversivas que o espetáculo quer a todo custo nos fazer esquecer.Os leitores brasileiros já dispõem das duas principais obras de Debord (1991, 1997) e também domelhor livro publicado na Europa sobre ele (Jappe, 1999). Falta-nos, no entanto, acesso a suas outras criações poéticas, filosóficas ou cinematográficas, bem como a informações sobre o contexto cultural e político que permite compreender seu verdadeiro significado. Sua obra é vasta e variada, ousada e revolucionária, e completamente fora dos padrões acadêmicos. Aliás, Debord detestava tudo o que é estabelecido, abominava a “recuperação”, pelo sistema mercantil, de formas e conceitos artísticos arrojados, como o surrealismo, por exemplo, e pregava a superação da própria arte.Então, o prazer de revisitar as propostas revolucionárias de Debord e seus companheiros da Internacional Situacionista foi temperado por um vago sentimento de culpa, por recuperar Debord para o “sistema” das mercadorias e trazê-lo à academia. A certeza, porém, de que este é um fórum legítimo de discussão, que busca compreender o processo de formação de pessoas livres, no contexto da sociedade do espetáculo, redime esta autora do pecado de traição. Intelectual irrecuperável pelo sistema midiático, crítico ferrenho do marxismo oficial economicista e determinista, que ele pretendia superar ressignificando as idéias do jovem Marx, Debord liderou um grupo de intelectuais ultra-radicais que acreditavam na força das idéias para transformar o mundo. Esta é sem dúvida sua mais importante contribuição: lembrar-nos de que, assim como a ideologia dominante tem materialidade – no espetáculo –, as idéias de mudança podem ter potência política. Não se pretende, com esse trabalho, fazer uma resenha do autor e sua obra, mas apenas contextualizar o surgimento de sua contribuição teórica mais notável: o conceito de sociedade do espetáculo. Trata-se de uma tentativa de apresentar uma leitura ou interpretação que, embora se fundamente em argumentos teóricos (valor heurístico do conceito de espetáculo), permanece irremediavelmente muito pessoal. É mais um retrato impressionista historicamente contextualizado do que uma resenha ou análise teórica. A atualidade do conceito de sociedade do espetáculo é incontestável: recuperado pelas mídias que Debord tanto criticava, como [1]vitrines mais visíveis do espetáculo, “sua manifestação superficial mais esmagadora”, o conceito passou para o uso comum, corrente, sem determinar fontes. Isso demonstra o sucesso da idéia. Embora seu autor tenha continuado durante toda a vida como marginal ao sistema, a sociedade foi se tornando tão espetacular que o conceito foi se impondo como evidente para a compreensão e elaboração de uma teoria da sociedade contemporânea. O espetáculo é de tal forma eficaz que conseguiu recuperar esse conceito e reduzi-lo a mais uma teoria sobre as mídias, esvaziando-o de seu caráter revolucionário de explicação da totalidade. Conceituar o espetáculo como relação social significa uma compreensão premonitória da fase atual do capitalismo e do esgotamento do modelo socialista e de seus fundamentos teóricos marxistas como teoria da práxis que pode levar à transformação. Nossa perspectiva visa problematizar a seguinte questão: o que no conceito serve para a formação na sociedade contemporânea? Para isso é preciso retomar o conceito em seu sentido original de teoria e práxis: não só categoria com valor heurístico, de compreensão dos fenômenos sociais, mas também e principalmente como inspiração da prática de transformação da vida pelo sujeito emancipado. É o caráter revolucionário do conceito de espetáculo que precisamos recuperar, de uso crítico e radicalmente criativo, e das ferramentas mais importantes do espetáculo, as Tecnologias de Informação e Comunicação (TIC) ou mídias, porque são elas que produzem a imagem dele.
No entanto, é curioso observar o quanto a condenação situacionista da obra de arte se assemelha à concepção psicanalítica que vê na obra a sublimação de um desejo irrealizado. Segundo os situacionistas, dado que o progresso eliminou todo o entrave à realização dos desejos, a arte perde sua função, pois esta é, de qualquer modo, inferior aos desejos. Este é, sem dúvida, um dos pontos mais discutíveis da teoria situacionista da arte. (p. 996)
A sociedade do espetáculo: a atualidade do conceito
Para Debord, a forma concentrada do espetáculo é típica do “capitalismo burocrático”, no qual a ditadra da economia não deixa “nenhuma escolha às massas exploradas”, devendo pois ser “acompanhada de violência”. Essa violência é simbólica quando o espetáculo apresenta a imagem imposta do bem que “concentra-se num único homem, que é a garantia de sua coesão totalitária”. Na falta de mercadorias a consumir, consome-se a imagem do líder, num sentido aceitável para a exploração absoluta: “Se cada chinês deve aprender Mao, e assim ser Mao, é que ele não tem mais nada para ser”. Por outro lado, ela baseia-se na violência física, como adverte Debord: “Lá onde domina o espetacular concentrado domina também a polícia” (SdE, § 64, grifo do autor). O espetacular difuso é baseado na satisfação “que a mercadoria abundante já não pode dar no uso” e que terá de ser buscada em signos abstratos de prestígio atribuídos a ela pela publicidade, nos quais se pode reconhecer a manifestação de “um abandono místico à transcendência da mercadoria” (SdE, § 67). O indivíduo reificado se perde nas relações animistas e íntimas com os objetos e o “fetichismo da mercadoria” se assemelha ao velho fetichismo religioso, com seus arrebatamentos e convulsões: “O único uso que ainda se exprime aqui é o uso fundamental da submissão” (idem). A sociedade hegemônica domina o planeta enquanto sociedade do espetáculo, impondo uma “divisão mundial das tarefas espetaculares” (SdE, § 57). Mesmo “lá onde a base material ainda está ausente, a sociedade moderna já invadiu espetacularmente a superfície social de cada continente”. Ou seja, nos países periféricos, sem mercadorias em abundância, o espetáculo confirma e reitera sem cessar a legitimidade daquela divisão mundial do trabalho, na qual esses países consomem mas não produzem objetos técnicos de que não precisam (idem). Com a fim da guerra fria, após a queda do império soviético e o triunfo do capitalismo, a hegemonia americana em sua fase pós-fordista vai impor um novo espetáculo: o espetacular integrado. Essa nova forma, Debord já a anunciava em 1988, um ano antes da queda do Muro de Berlim, quando ainda muitos intelectuais ocidentais acreditavam nas promessas de Gorbatchev de um comunismo mais humano. Ao tecer seus comentários sobre a sociedade do espetáculo,Debord (1997) define com clareza as principais características das sociedades contemporâneas de economia globalizada e cultura mundializada:A sociedade modernizada até o estágio do espetacular integrado se caracteriza pela combinação de cinco aspectos principais: a incessante renovação tecnológica, a fusão econômico-estatal, o segredo generalizado, a mentira sem contestação e o presente perpétuo. (p. 175)Dessas características, as duas primeiras se referem à “base material da sociedade”, enquanto as outras três dizem respeito à dimensão cultural, que nos interessa mais. Debord prenuncia, nesse texto, a nova unidade básica a que tudo se resume, do capitalismo “pós”: a informação, que o autor trata em seus dois aspectos modernos; a informação secreta, dos “serviços de inteligência”, e a informação pública, construída e difundida pelos meios de comunicação de massa para formar a “opinião pública”, essa última tendo como função principal a desinformação:Ao contrário do que seu conceito espetacular invertido afirma, a prática da desinformação só pode servir o Estado aqui e agora, sob sua direção direta, ou por iniciativa dos que defendem os mesmos valores. De fato, a desinformação reside em toda a informação existente; é como seu caráter principal. Ela só é nomeada quando é preciso manter, pela intimidação, a passividade. Quando a desinformação é nomeada, ela não existe. Quando existe, não é nomeada. (Debord, 1997, p. 204)Com a alienação tendo sido sempre o foco de sua reflexão, Debord percebe com clareza as enormes potencialidades das mídias no sentido de potencializar ao máximo os aspectos enganadores, isto é, produtores de falsa consciência, da sociedade do espetacular integrado. Suas análises sobre o complô como modo regular de participação política efetiva e sobre as falsificações tão terrivelmente perfeitas que são mais verdadeiras que os originais, são aspectos importantes de seu pensamento crítico radical da sociedade contemporânea. Para demonstrar a atualidade e a importância desses conceitos, ele próprio retoma, 30 anos depois, a famosa paráfrase de Hegel encontrada no parágrafo 9 de A sociedade do espetáculo:Invertendo uma frase famosa de Hegel, eu observava, já em 1967, que no mundo realmente invertido, o verdadeiro é um momento do falso. Os anos que transcorreram desde então mostraram os progressos desse princípio em cada domínio específico, sem exceção. (Debord, 1997, p. 206)O que vale a pena resgatar do pensamento de Debord e das propostas situacionistas são algumas lições que nos orientem na compreensão do que deve ser a formação na sociedade atual e nosso papel nela.Contra o realismo socialista, que “coloca a poesia a serviço da revolução”, nossos jovens situacionistas pregavam a apropriação revolucionária do cinema, da arquitetura, da fotografia, da arte e da técnica, armas da burguesia, não para colocá-las a serviço da revolução, mas para, por meio delas, pôr a revolução a serviço da poesia e da realização dos desejos.Em tempos de realidade virtual, de ciberespaço e cultura da simulação, pode parecer ingênuo falar de revolução, especialmente tendo em vista a realidade da violência e da morte lá fora. Mas é justamente com base nessa realidade, que não conhecemos diretamente, que aparece com mais clareza a falsificação da vida social construída cuidadosamente pelo espetáculo integrado: a espetacularização do cotidiano nos reality shows (a banalização do banal, como diz Baudrillard, 2001); o jornalismo eletrônico (news all time, on line), uma proposta excessiva que lembra a pergunta tropicalista de Caetano Veloso: Quem lê tanta notícia?; os modelos de corpos perfeitos que mostram cruelmente a obsolescência dos nossos pobres corpos cansados de tanto nos adaptarmos às ergonomias maquínicas. Tudo parece concorrer para que a lógica do espetáculo triunfe. A não ser que dos instrumentos do espetáculo façamos ferramentas ou armas de formação, pela apropriação criativa das tecnologias que permita superar a separação entre o sujeito e sua representação. A não ser que, em algum lugar, alguns indivíduos em busca de emancipação levem a sério a advertência de Anselm Jappe (1999, p. 17): “É absolutamente vão estudar as obras de Debord se não se pretende, afinal, aboliro mercado e o Estado”.
MARIA LUIZA BELLONI, doutora em Ciências da Educação pela Universidade Paris V, com pós-doutorado em ComunicaçãoPolítica no CNRS (França) e em Educação a Distância pela Universidade Aberta de Portugal, é professora do Programa de Pós-Graduação em Educação do Centro de Educação da Universidade Federal de Santa Catarina, onde coordena o grupo de pesquisaComunic e o Laboratório de Novas Tecnologias. Últimas publicações: O que é mídia-educação (Autores Associados, 2001);A formação na sociedade do espetáculo (coletânea organizada pela autora, Loyola, 2002) e Ensaio sobre a educação a distância no Brasil (Revista Educação e Sociedade, Cedes/Unicamp, nº 78, abril de 2002, p. 117-142).
Referências bibliográficas
[1] [1]* A autora agradece ao professor Jean-Luc Rosinger pelo acesso à sua biblioteca situacionista.Maria Luiza Belloni 122 Jan/Fev/Mar/Abr 2003 Nº 22
Sobre o tempo na Sociedade do Espetáculo
Guy DebordA sociedade burguesa destruiu as antigas formas de vida, baseadas na agricultura e que fundavam uma concepção cíclica de tempo. Assim, haveria condições materiais para uma vida humana plenamente histórica (tempo experimentado e sabido como passageiro, irreversível e linear – tempo gozado de maneira qualitativa e não meramente quantitativa). Entretanto, essas possibilidades permanecem inconscientes, recalcadas. Por isso, Debord não pode ser considerado um nostálgico, pois somente com as possibilidades abertas pela modernidade é que surgem condições objetivas para uma vida em que haja uma “participação imediata em uma abundância passional da vida”.A auto-valorização da sociedade burguesa dita que “tudo o que era absoluto torna-se histórico”. (SdS, § 73)Entretanto, essa liberação na sociedade mercantil se traduz como “tempo das coisas”, tempo reificado. Assim, a atual experiência social assume a forma do movimento do capital, ele mesmo abstrato e cíclico.Portanto, a sociedade moderna funda um tempo “profundamente histórico” – não é mais a sociedade da tradição, da permanência – mas nega-o enquanto experiência imediata de vida dos indivíduos, mantendo-o recalcada em suas profundezas.
“A história, que está presente em toda a profundidade da sociedade, tende a se perder na superfície” (SdS, § 142).
É esta experiência vivenciada cotidianamente que Debord chama de tempo vivido.O tempo abstrato de valorização e realização da mercadoria – tempo da produção, do consumo, do trabalho, do lazer – se materializa na vida cotidiana na forma de unidades homogêneas intercambiáveis que organizam a cotidianidade sob a lógica abstrata e mutuamente reversível, repondo uma experiência “pseudo-cíclica”, que se apóiam, contudo, em formas distintas de produção social. O retorno temporal do modo cíclico (pelas exigências da produção e do consumo) não se apresenta como eterno retorno do mesmo, mas como retorno ampliado do mesmo, exatamente em razão do desenvolvimento linear capitalista, manifesto de modo reificado na ampliação e no aumento quantitativo das mercadorias e que na superfície do consumo reitera o retorno do mesmo (da mesma forma mercadoria, ainda que sobre outros valores de uso.A “crise da vida cotidiana” ocorre graças à transformação da vida (cotidiana) em lugar da produção e da realização abstratas da mercadoria:
“As pessoas estão privadas de comunicação e de realização de si mesmas. Precisaria dizer: de fazer sua pro´ria história pessoalmente.” (Debord)
Entretanto, Devord rejeita a idéia de reificação total, pois constata experiências individuais que permanecem clandestinas, sem linguagem, sem comunicação e, portanto, sem memória e sem história.
“O realmente vivido é incompreendido e esquecido em proveito da falsa memória espetacular do não-memorável” (SdS. § 157)
A história universal é reafirmada consciente e oficialmente – como expressão reificada de um tempo linear e irreversível da economia – mas negada aos indivíduos.Há assim uma interdição imposta aos indivíduos da atividade de linguagem e da comunicação do “realmente vivido” (v; SdS, § 158).Na experiência pseudo-cíclica, tudo é reposto e retornado e, por isso, não há o que tnhe um fim: constitui a falsa consciência do tempo que dissolve a representação da morte.A racionalidade abstrata própria da economia material com seu tempo abstrato e quantitativo, organiza a vida cotidiana fazendo do indivíduo mero espectador da sua própria vida.A experiência temporal se desenvolve apenas como “tempo de consumo das imagens”: aos indivíduos não cabe a assunção de sua época porque não lhes cabe a de seu tempo; não lhes cabe a sua memória coletiva ou individual porque não lhes cabe a realização e a comunicação.
“Com a separação generalizada do trabalhador e do seu produto perde-se todo o ponto de vista unitário sobre a atividade realizada, toda a comunicação pessoal direta entre os produtores. Na senda do progresso da acumulação dos produtos separados, e da concentração do processo produtivo, a unidade e a comunicação tornam-se o atributo exclusivo da direção do sistema. O êxito do sistema econômico da separação é a proletarização do mundo.” (SdS, § 26)
“Os fenômenos aparentes são aparência desta aparência organizada socialmente.” (SdS, §10)
O segundo termo “aparência” da afirmação acima não nos remete à aparência visível, sensível, mas à categoria hegeliana de aparência utilizada por Marx no primeiro Capitulo do Capital.Trata-se do fetichismo da mercadoria que, na sociedade espetacular, passa a se manifestar sensivelmente, torna-se fisicamente aparente. Graças à extensão das relações mercantis à totalidade da vida cotidiana, o fetichismo dá nascimento a fenômenos aparentes que se tornam autônomos frente aos indivíduos.O valor de troca atingiu tal totalidade e onipresença que sua lógica abstrata se torna a única coisa que se faz ver. A autonomização dos fenômenos aparentes da abstração do valor econômico é nomeada por Debord como “mundo da imagem autonomizado.”“As imagens que se desligaram de cada aspecto da vida fundem-se num curso comum, onde a unidade desta vida já não pode ser restabelecida. A realidade considerada parcialmente desdobra-se na sua própria unidade geral enquanto pseudomundo à parte, objeto de exclusiva contemplação. A especialização das imagens do mundo encontra-se realizada no mundo da imagem autonomizada, onde o mentiroso mentiu a si próprio. O espetáculo em geral, como inversão concreta da vida, é o movimento autônomo do não-vivo.” (SdS, §2)
Questão a ser discutida...
Situacionismo...novas considerações (2)
Daí a necessidade de se proceder à "elaboração consciente do desejo" e de um novo horizonte com base no qual a crítica da reificação precisa ser feita: uma nova linguagem comum, o diálogo nprático, uma nova comunicação." (in Reificação e Linguagem em Guy Debord - João Emiliano Fortaleza de Aquino)
A superação do fetichismo, da reificação e da alienação tem como pressuposto a recuperação do "jogo criativo e prático da comunicação e do diálogo" que tem no espetáculo seu antagonista mais acabado.
Debord também pensa a Sociedade do Espetáculo como aquela que põe fim à linearidade do tempo e à noção de progresso, que ele localiza ter sido fundada, dentro do Ocidente, na Grécia antiga. Se as sociedades agrícolas eram regidas pela noção de tempo cíclico, os "senhores de Atenas" promoveram uma ruptura, pois, assumindo o poder e tomando para si seus próprios destinos - o que pressupõe uma vida autônoma e fundada no diálogo - puderam pensar suas prórpias histórias (individuais e coletiva). Portanto, Debord considera que a própria noção de história finca sua raízes na possibilidade do diálogo. E é nesse sentido que o espetáculo inaugura um pseudo-tempo cíclico (fim da história, fim da política, percepção de que nada vai mudar etc.).
Situacionismo...novas considerações
Pois bem, essa temática é também o cerne dos movimentos artísticos de vanguarda do início do século XX: o futurismo (1909), o dadaísmo (1916) e o surrealismo (1924). Para esses movimentos de vanguarda, trata-se de unir a arte à vida, buscando-se a superação da separação entre as “esferas” (numa linguagem weberiana), retomando e conferindo um sentido à própria vida e suas manifestações (cultura). De uma certa forma, a proposição é negar a própria arte – como até então esta era concebida – fazendo com que “vida” (cotidiana) e “arte” sejam uma só: é a superação da existência alienada e da reificação. Esse é o cenário em que o impulso situacionista ocorre. No pós-II Guerra Mundial, as vanguardas (ou melhor suas manifestações, os signos por estas elaborados ou, numa linguagem “à la Simmel”, suas “formas”) são apropriadas ou integradas pelo sistema ideológico. Os situacionistas iniciam suas reflexões nesse momento, ao recusar essa integração: buscam a retomada do projeto vanguardista, porém em um outro registro. A reflexão estética irá assumir contornos cada vez mais políticos...
Debord:
Introdução à Sociedade do Espetáculo

Nilldo Viana
Guy Debord nasceu em 1931 e suicidou-se em 1994. Apesar de ter escrito sobre sua própria vida em seu livro Panegírico, não nos deixou muitas informações sobre sua história. Alguns fatos fragmentários, tal como o seu gosto por bebidas alcóolicas, as suas relações com criminosos comuns e políticos, sua recusa da sociedade moderna. Sabemos, porém, de sua ação política através da Internacional Situacionista e de seu pensamento através de suas obras, em especial, A Sociedade do Espetáculo. Aqui nos interessa sua análise da sociedade moderna, do que ele denomina sociedade do espetáculo. Além de alguns textos menos importantes, a sua visão da sociedade moderna está expressa de forma mais acabada em A Sociedade do Espetáculo. Está é também uma das principais obras que expressam as concepções da Internacional Situacionista, organização contestária da qual Debord foi um dos mais destacados representantes e que existiu de 1957 a 1972. Debord busca na vida cotidiana a base da contestação social de nossa época. O espetáculo produzido pela sociedade capitalista fundamentada na mercantilização de tudo e no fetichismo generalizado abre caminho para sua teoria crítica da sociedade moderna, da qual trataremos no presente ensaio. A Sociedade Espetacular Marx afirmou que, à primeira vista, a sociedade capitalista aparece como uma “imensa coleção de mercadorias” (1). Parafraseando Marx, Debord afirma que “toda a vida das sociedades nas quais reinam as modernas condições de produção se apresenta como uma imensa acumulação de espetáculos. Tudo o que era vivido diretamente tornou-se uma representação” (Debord, 1997, p. 13). O que é o espetáculo? Debord nos apresenta inúmeras características do espetáculo. Ele “não é um conjunto de imagens, mas uma relação social entre pessoas, mediadas por imagens”; é também uma cosmovisão; resultado e projeto do capitalismo; o “modelo atual da vida dominante na sociedade”; a “afirmação onipresente da escolha já feita na produção, e o consumo que decorre desta escolha; “a justificativa total das condições e dos fins do sistema existente”; “a presença permanente dessa justificativa, como ocupação da maior parte do tempo vivido fora da produção moderna”; o sentido da prática total; “a principal produção da sociedade atual”; herdeiro da filosofia baseada nas categorias do ver; “sonho mau”; etc., etc. Richard Gombim esclarece com mais precisão o significado do espetáculo: “a degradação e a decomposição da vida cotidiana correspondem à transformação do capitalismo moderno. Nas sociedades de produção do século XIX (cuja racionalidade era a acumulação de capital), a mercadoria tinha-se tornado um fetiche na medida em que era considerada como figurando um produto (objeto), e não uma relação social. Nas sociedades modernas, em que o consumo é a ultima ratio, todas as relações humanas têm sido impregnadas da racionalidade do intercâmbio mercantil. É o motivo por que o vivido se afastou ainda mais numa representação: tudo aí é representação. É a este fenômeno que os situacionistas chamam espetáculo (a concepção de Lefebvre é mais neutra: o espetáculo moderno, para ele, deve-se simplesmente à atitude contemplativa dos seus participantes). O espetáculo instaura-se quando a mercadoria vem ocupar totalmente a vida social. É assim que, numa economia mercantil-espetacular, à produção alienada vem juntar-se o consumo alienado. O pária moderno, o proletário de Marx, não é já tanto o produtor separado do seu produto como o consumidor. O valor de troca das mercadorias acabou por dirigir o seu uso. O consumidor tornou-se consumidor de ilusões”(Gombim, 1972, p. 82). A sociedade moderna passa a ser compreendida, então, como o reino do espetáculo, da representação fetichizada do mundo dos objetos e das mercadorias. O espetáculo, assim, consagra toda a glória ao reino da aparência. Ele domina os homens a partir do momento em que a economia desenvolveu-se por si mesma, sendo o reflexo fiel da produção das coisas e a objetivação infiel dos produtores. Esta temática de Debord vai de encontro com as teorias da sociedade de consumo. Baudrillard, por exemplo, irá tratar do mundo dos objetos e da esfera do consumo. Lefebvre também não deixou de lado o problema da sociedade de consumo, qualificada por ele de “sociedade burocrática de consumo dirigido”. Erich Fromm irá analisar a passagem da valorização do ser para o ter. Arendt fez considerações sobre a sociedade de consumidores e assim por diante (1). Mas a sociedade de consumo para Debord é a sociedade do espetáculo, da reificação, para utilizar expressão lukacsiana. Porém, isto difere sua abordagem das demais, pois aqui a passagem do ser para o ter é complementada pela passagem para o parecer. Nesta sociedade, há a produção circular do isolamento (através do automóvel, da televisão, etc.). Desta forma, a temática da separação e do isolamento assumem um papel central na concepção de Debord. O consumo e a imagem (representação reificada) ocupam o lugar da ação direta, do diálogo. Provocam o isolamento e a separação. Debord retoma a discussão em torno do fetichismo da mercadoria. A mercadoria surge como força que ocupa a vida social e constitui a economia política, “ciência dominante e ciência da dominação”. “O espetáculo é o momento em que a mercadoria ocupou totalmente a vida social (...). A produção econômica moderna espalha, extensa e intensivamente, sua ditadura” (Debord, 1997, p. 31). A abundância da produção de mercadorias produz a preocupação da classe dominante com o proletário enquanto consumidor, criando o “humanismo da mercadoria”, encarregado do “lazer” do trabalhador. “Assim, ‘a negação total do homem’ assumiu a totalidade da existência humana” (Debord, p. 32). Neste contexto, o consumo deve aumentar sempre, mas este aumento só é possível pelo motivo de que contem em si uma privação, “a privação tornada mais rica”. O consumismo derivado daí leva a uma “sobrevivência ampliada”, produzindo também a produção de pseudo-necessidades para garantir esse processo de expansão da produção e do consumo. Na sociedade em que domina o espetáculo, a oposição a ela também é envolvida por ele. As lutas “espetaculares” são ao mesmo tempo falsas e reais. São falsas por não colocarem em questão a sociedade do espetáculo e por serem, elas mesmas, espetaculares. São reais pelo motivo de que expressam lutas reais entre classes ou frações de classes. Segundo Debord, A resistência das regiões subdesenvolvidas não difere muito desta caso. Tal como ele colocou: “a sociedade portadora do espetáculo não domina as regiões subdesenvolvidas apenas pela hegemonia econômica. Domina-as como sociedade do espetáculo. Nos lugares onde a base material ainda está ausente, em cada continente, a sociedade moderna já invadiu espetacularmente a superfície social. Ela define o programa de uma classe dirigente e preside sua formação. Assim como ela apresenta os pseudo-bens a desejar, também oferece aos revolucionários locais os falsos modelos de revolução” (p. 39). A sociedade do espetáculo também transforma a revolta em rebelião puramente espetacular, através da transformação da insatisfação em mercadoria. O mesmo ocorre, com algumas diferenças de pormenor, no capitalismo de estado (2). Segundo Debord, “a satisfação denuncia-se como impostura no momento em que se desloca, em que segue a mudança dos produtos e a das condições gerais de produção. Aquilo que, com o mais perfeito descaramento, afirmou sua própria excelência definitiva transforma-se no espetáculo difuso e também no espetáculo concentrado. É apenas o sistema que tem que continuar: Stálin tanto quanto a mercadoria fora de moda são denunciados por aqueles mesmos que os impuseram. Cada nova mentira da publicidade é também a confissão da mentira anterior” (Debord, p. 47). Neste contexto, Debord analisa o marxismo a partir da obra de Marx. Coloca em evidência o ponto de vista revolucionário da teoria de Marx e sua transformação em ideologia, tanto pela social-democracia quanto pelo bolchevismo. Debord faz uma severa crítica a diversas correntes políticas, tais como o anarquismo, a social-democracia, o kautskismo, o leninismo, o stalinismo, o trotskismo. Para ele, a social-democracia e o bolchevismo inauguram a ordem de coisas que expressa o espetáculo moderno: “a representação operária opôs-se radicalmente à classe” (Debord, p. 68). Qual é a alternativa para a sociedade do espetáculo? Como se pode trilhar um caminho alternativo que não passe pela social-democracia, pelo bolchevismo ou pelo anarquismo? Debord retoma a resposta dada já na década de vinte pelos chamados “comunistas conselhistas” (Korsch, Pannekoek, Mattick, Rühle, etc.) (3): os conselhos operários são a forma de emancipação proletária. Tais conselhos rompem com a idéia de representação, tanto parlamentar (social-democracia) quanto a vanguardista-partidária (bolchevismo). Segundo Debord, “a organização revolucionária só pode ser a crítica unitária da sociedade, isto é, uma crítica que não pactua com nenhuma forma de poder separado, em nenhum ponto do mundo, e uma crítica formulada globalmente contra todos os aspectos da vida social alienada” (p. 85). Assim, ele propõe os conselhos operários como alternativa global para a alienação global: “quando a realização sempre mais avançada da alienação capitalista em todos os níveis, ao tornar sempre mais difícil aos trabalhadores reconhecerem e nomearem sua própria miséria, os coloca na alternativa de recusar a totalidade de sua miséria, ou nada, a organização revolucionária deve ter aprendido que não pode combater a alienação sob formas alienadas” (Debord, p.85). Aqui notamos um aspecto do situacionismo e do pensamento de Debord que continua extrema e ortodoxamente marxista: “vemos o que esta concepção tem de radical; o corte que ela opera com todo o movimento de esquerda deste meio século confere-lhe um tom milenarista, herético. Sobre um ponto, entretanto, ela parece dar ainda prova de ortodoxia: o sujeito revolucionário, o portador da revolução, o emancipador, permanece, para a Internacional Situacionista, o proletariado” (Gombin, 1972, p. 86). Enfim, estas são as principais colocações de Debord sobre a sociedade do espetáculo e de suas características.



